Categorias
Sem categoria

A violência policial, a morte negra e a dor branca

Passados três meses do pico das manifestações que levaram milhões de brasileiros às ruas a partir das demandas pela redução das tarifas em diversas capitais e médias cidades do país, me pergunto: o que restou da indignação nacional e internacional com a violência policial dirigida aos jovens universitários em seu legítimo exercício cidadão e até a jornalistas, alguns gravemente feridos? E o que restou da reflexão pouco difundida de que a polícia, alvo de crítica pelo uso da força naquele contexto, é a mesma que promove a morte violenta e cotidiana nas periferias do país? O texto do doutor em Antropologia Social pela Universidade do Texas – Austin, Jaime Amparo Alves, escrito para aqueles dias, é saborosíssimo.

Permita-se a provocação!

Douglas Belchior

****************************************************************************************

Por Jaime Amparo Alves*

“Há esperança, mas não para nós” (Kafka)

As imagens da Polícia Militar espancando os jovens da classe média em seu cívico direito de ocupar as ruas e praças têm causado indignação e horror. Nada tem sido mais pertubador do que ver nos jornais pessoas ensanguentadas, correndo sob balas, jatos de pimenta no rosto, ou sendo varridas das ruas a pauladas. Talvez o exemplo mais pertubador da truculência policial sejam as fotos da jornalista da TV Folha, Giuliana Vallone, atingida no olho por uma bala de borracha. O ultraje foi tão grande que o fotográfo Yuri Sardenberg mobilizou artistas globais para a campanha “ Dói em Todos Nós”, um protesto da chamada sociedade civil contra a selvageria policial. De repente o país descobriu a existência de uma polícia violenta, covarde, incompatível com o estado democrático de direitos. O Brasil acordou! Acordou? Quem estava dormindo, afinal?

Acompanhei a campanha com indiferença. Não despertou em mim nem a solidariedade de profissão com a jornalista agredida nem a condição comum de sermos brasileiros “com muito orgulho e com muito amor”. Nem mesmo a frustração comum com o sistema politico-partidário do país foram suficientes para despertar uma empatia com a campanha. É que o registro mental que tenho desde quando me entendo por gente é do corpo negro brutalizado nas favelas, nas prisões, no caveirão. A campanha falhou em me sensibilizar não porque eu desconsidere o sofrimento das vítimas da polícia nas ruas do país – para além da cor da pele ou das ideologias que sustentam – mas porque me falta o registro do terror policial no corpo branco e nas áreas nobres das nossas metrópoles. O que está em questão aqui é a intensidade (e persistência) que faz da morte negra uma banalidade e da vitimização branca uma tragédia.

Por que as agressões aos jovens brancos, do asfalto, comovem milhões de brasileiros e o assassinato diário de jovens negros pelas forças policiais não vale vinte centavos? Por que se é negado o luto às mães negras nas favelas brasileiras onde o estado não apenas mata mas também destrói corpos negando a possibilidade da elaboração da dor? Não reclamo a originalidade da crítica  (afro)pessimista `as noções mesmo de Direito, Lei e Justiça, mas vale a pena repeti-las no contexto presente: é porque a morte negra é absolutamente irrelevante do ponto de vista dos direitos humanos e imprescindível do ponto de vista da democracia. A agressão aos brancos é uma agressão ao estado democrático de direitos. A morte negra é precisamente o parâmetro pelo qual se define tal estado democrático de direitos. Em outras palavras, a morte negra cumpre essa função explicitada nos últimos protestos: porque necessária para a definição mesma da ordem pública, ela marca o território civil onde o protesto é permitido e onde a agressão policial é vista como aberração, desvio anti-democrático. Como pôde a polícia ter coragem de lançar gás lacrimogêno nos jovens brancos de classe média?  Jesus Cristo!

Não quero desconsiderar o mérito dos protestos juvenis por mais direitos e pela expansão da democracia participativa. Quero estar do lado certo quando a história relembrar o momento presente e o meu lado é o do poder popular. Mas esta hora em que a direita – “forte e raivosa”  como diz Douglas Belchior – está nas ruas mobilizando consigo uma classe média branca ressentida com as politicas sociais dos últimos dez anos,  exige uma reflexão sobre o que se entende mesmo como poder popular e movimento social. A dificuldade em articular uma linguagem que dê conta do que estamos vivendo reside precisamente na alegria de ver o país nas ruas e na frustração de ver a pauta negra – pelas ações afirmativas, contra o genocídio e o encarceramento em massa – invisibilizada. O que o silêncio em torno do assassinato de 272.422 negros nos últimos dez anos – como revela o Mapa da Violência/2012 –  tem a nos dizer sobre os limites e possibilidades de agendas de lutas coletivas como a que se vê agora?Pode-se dizer que a agenda dos movimentos sociais foi sequestrada pela direita e portanto não é apenas a agenda negra que está invisibilizada. Verdade. Mas não seria o caso do sequestro atual ser também uma reiteração em larga escala do que o movimento negro enfrenta em tempos de “normalidade”?

O Brasil Acordou

É por isso que o grito “O Brasil acordou” é totalmente irrelevante para a população negra em seus encontros mortais com a polícia brasileira. Na verdade o slogan é tão irrelevante quanto a cantilena dos direitos humanos, da participação cidadã, ou da defesa da democracia. “Para quem vive na guerra a paz nunca existiu”, responderia Mano Brown com sua voz inconfundível. A máquina de guerra do Estado brasileiro mata e continuará matando os negros sem que tais práticas se convertam em ultraje nacional nem para a direita nem, nem para o centro, nem para a esquerda.

Os slogans da Polícia da Caatinga na Bahia (“Pai faz, Mãe cria e Caatinga Mata!”), de São Paulo (Deus dá a luz a Rota apaga”) e do BOPE no Rio (“Homens de preto qual é sua missão, entrar na favela e deixar corpos no chão”) são ilustrativos do lugar que ocupam corpos e geografias racializadas no discurso da ordem e da democracia. O fato de Sérgio Cabral (PMDB), Geraldo Alckmin (PSDB) e Jaques Wagner (PT) serem eleitos, reeleitos e não sofrerem nenhum processo de impeachment mesmo com milhares de mortes em suas mãos dão uma dimensão não da permissividade, mas da utilidade da morte negra para a existência branca. Se o Estado cria as condições para tais mortes, a chamada sociedade civil sanciona e lucra com elas uma vez que o assassinato de negras e negros perpetua a  dominação e confere  privilégio racial.

Doesse em todos nós, como quer fazer crer a campanha da ‘sociedade civil’ contra a violência policial, a vitimização branca nas mãos da polícia não seria tratada como a aberração de quem acordou agora para uma realidade vivida diuturnamente pela gente negra. É aqui que a solidariedade política encontra os seus limites: os brancos têm uma “impossibilidade cognitiva” para entender a experiência negra e portanto a especificidade da condição negra se perde nas pautas universalistas ou se invisibiliza nas agendas autoritárias.

Não que os negros e negras não estejam lutando nas praças pela redução das tarifas dos transportes públicos, por um SUS mais forte, e pela educação pública, gratuita e de qualidade. Estão!. Mas onde estavam os brancos quando a gente negra estava chorando seus mortos nas favelas brasileiras? Onde estavam os milhares de manifestantes quando do terror policial nas periferias de Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro, para nomear as três maiores cidades do país? Pois bem, o privilégio branco não se dá apenas nos aspectos econômicos, mas na definição mesma da dor doível, da “vida vivível” e da “morte chorável” – em uma tradução livre dos termos de Judith Butler.

Dois exemplos adicionais para um ponto final: a) em um texto comovente Douglas Belchior narra sua frustração e revolta ao ver a bandeira da Uneafro-Brasil ser arrancada de suas mãos e queimada em uma passeata no centro de São Paulo. Belchior localiza na direita ‘forte e raivosa’ as tentativas de silenciar a agenda do movimento. Certo, mas não custa lembrar que as contínuas ações das entidades negras contra o terror policial raramente encontram eco nas esquerdas organizadas. A favor da direita pode se argumentar que ela tem os campos bem demarcados: anti-negro, anti-pobre, anti-mulher, anti-gays, anti-vida.  Mas no caso da esquerda, se põe para nós negras e negros o preço a pagar “para não fragmentar a luta de classes”.

b) Enquanto ocorria uma manifestação na periferia de São Paulo, no último dia 23 de junho, policiais da Rota assassinaram três pessoas em suposto confronto. A Rota é a polícia intocável do governador tucano Geraldo Alckmin. O que os dois casos têm em comum? Elas apontam para o limbo em que se encontra a gente negra: entre uma pauta invisibilizada nas ruas e a morte invisibilizada na periferia. Ta aí porque a dor não “dói em todos nós”. Em todos nós os cambaus, cara branca!

*Jaime Amparo Alves, jornalista, ativista do movimento negro e doutor em Antropologia Social, Universidade do Texas, Austin. Atualmente é Professor Visitante da Universidad Icesi, da Colômbia, disciplina Geografias de la Violencia.

Creditos:Charge (1) Latuff

Veja também no Facebook da Carta Capital

Categorias
Sem categoria

Por que as crianças brancas cuspiam em mim ?

Por: Valéria Silva, Jéssica Santos, Thayan Know, Luiz Felipe e Douglas Belchior

Estados Unidos e Brasil viveram duras e longas experiências de escravidão. Ambos experimentam ainda hoje vivem, cada qual a sua maneira, os desdobramentos de um passado devastador e de um presente que teima repetir, embora com novas roupagens, as mesmas tragédias. Na última semana vivemos em São Paulo um momento rico de reflexão e resistência ao racismo que assola não só os dois países, mas todo o Mundo.

Auditórios lotados, emoção, palavras de ordem, punhos cerrados e erguidos. Essa foi a cena que se repetiu em todos os espaços que receberam Ericka Huggins, ex-líder do Partido dos Panteras NegrasThe Black Panthers Party, em seus cerca de 15 dias de visita ao Brasil, que se encerrou no último domingo dia 22 de setembro.

“Eu vejo vocês!”, disse ela ao iniciar uma de suas palestras, na Faculdade de Geografia da USP. E disse que a resposta deveria ser: “Eu sou vista ou visto!”, afinal, em uma sociedade em que os negros são considerados invisíveis, “esse cumprimento serve para que nós nos enxerguemos”. Simbólico, sobretudo, pelo fato de tais palavras terem sido proferidas num dos antros do racismo brasileiro, a Universidade de São Paulo, espaço onde os negros são raridade até entre os empregados.

Além da atividade na USP, promovida pelo Coletivo de Estudantes Negros, Érica esteve nos campus da  Unifesp de Guarulhos, Osasco e Baixada Santista, na PUC/SP, na Metodista, visitou a linda Ocupação Esperança, as Mães de Maio e encerrou sua peregrinação na Escola Nacional Florestan Fernandes, espaço de formação de militantes de movimentos sociais dirigido pelo MST, onde conversou com dezenas de estudantes e militantes de diversas organizações do Brasil e da América latina, entre eles militantes do Movimento Negra Brasileiro – UNEafro Brasil (Foto).

Reconhecida como uma das principais líderes da famosa organização afro-americana, Ericka Huggins cresceu nos guetos de Washington, uma cidade, segunda ela composta à época, por quase 100% por moradores negros. Entrou para o Black Panthers em 1967 com 18 anos. Antes, aos 15, já havia participado da Marcha por Direitos Civis dos Negros nos Estados Unidos, liderada por Martin Luther King Jr.

Franzina e sorridente, Ericka Huggins não escondeu sua força: “Sempre fui uma criança curiosa, aos 6 anos de idade queria entender porque as crianças brancas cuspiam em mim”. A norte americana foi militante do Partido durante 14 anos e sua história de vida se confunde com a dos Panteras Negras. Seu marido, John Huggins, também ativista negro, foi assassinado ao lado de seu melhor amigo, Alprentice “Bunchy” Carter. Viúva e mãe-solteira aos 19 anos, Ericka foi presa por conspiração pouco antes de dar a luz. Ficou dois anos presa e sem contato com a filha.

Suas palestras trouxeram a memória da organização dos Black Panthers nos bairros pobres, onde atuavam junto ao povo, “perguntando ao povo e não falando ao povo” e cumprindo a tarefa de “ensinar como pensar e não o que pensar”. Lembrou que as primeiras ações do grupo foi monitorar a ação da polícia nas abordagens garantindo a integridade física da população. Com o tempo e junto ao povo, foram sendo criados programas básicos que iam desde a distribuição de café da manhã para as crianças, doação de roupas e alimentos até pesquisas avançadas desenvolvidas nas clínicas de assistência gratuitas à saúde que eram referência no tratamento, por exemplo, da anemia falciforme (que atinge especialmente os negros). Segundo Érica, quatro das doze Clínicas Comunitárias estão abertas e funcionando até hoje nos EUA.

“Medimos o tamanho de um lugar de acordo com o valor que dão às suas mulheres”, disse ela ao se referir a experiência dos Black Panthers também sobre a questão de gênero: “haviam mulheres no partido e que eram as líderes”, e destacou que em seu partido as mulheres pegavam em armas e que os homens trocavam fraudas.  “Numa sociedade que além de racista é machista, dentro das organizações os homens acabam se destacando mais, mesmo com mulheres tendo papel fundamental”.

As diferenças no desenvolvimento das duas nações – EUA e Brasil, em relação à opressão racial se mantiveram muito mais na forma do que no conteúdo.

Na forma: Enquanto nos EUA o conflito racial aparece marcado, explícito e exposto, no Brasil sua presença é negada, velada e maquiada apesar de socialmente presente e permanente em nossas vidas.

No conteúdo: ambas realidades são violentas. Lá como aqui, embora as políticas de ação afirmativa tenham gerado a dita “ascensão social” à uma pequena parcela da população, o que criou o que se chama de “Classe média negra”, a maioria esmagadora dos negros americanos sofrem com problemas sociais, empregos precários e principalmente com a repressão. Cadeias lotadas de pretos, nas filas para cadeira elétrica e nos cemitérios, mortos que são pela polícia. Ou seja, uma realidade similar a do Brasil, com a diferença de que aqui não se aceita o racismo como causa;

No Brasil, as desigualdades de maneira geral tendem a ser vistas como problemas sociais. No entanto, é visível e comprovado que vivemos um aparthaid racial gravíssimo: negras/os invisíveis nos melhores empregos, nas universidades, na direção política de governos ou partidos ao mesmo tempo em que são super-representados nas calçadas, nas periferias, morros, palafitas, cadeias, fundações para menores, albergues, na informalidade e no cemitério, quando não desaparecidos ou indigentes.

Ericka Huggins, com sua experiência de vida e resistência nos deixou uma lição incrível: “O amor é a maior expressão de poder”. Em um mundo repleto de amor, por mais utópico que nos pareça (mas não o foi para os Panteras), não há espaço para a existência do racismo e de quaisquer formas de discriminação e preconceitos. A luta antirracista no Brasil deve ser, sobretudo, uma luta pela conquista do poder pelo povo negro e pelo povo pobre, logo, uma luta pelo amor. E por todas as formas necessárias!

Categorias
Sem categoria

Movimentos lançam manifesto de repúdio à tipificação do crime de Terrorismo

Manifesto de repúdio às propostas de tipificação do crime de Terrorismo

Pelo presente manifesto, as organizações e movimentos subscritos vêm repudiar as propostas para a tipificação do crime de Terrorismo que estão sendo debatidas no Congresso Nacional, através da comissão mista, com propostas do Senador Romero Jucá e Deputado Miro Teixeira.

Primeiramente, é necessário destacar que tal tipificação surge num momento crítico em relação ao avanço da tutela penal frente aos direitos e garantias conquistados pelos diversos movimentos democráticos.

Nos últimos anos, houve intensificação da criminalização de grupos e movimentos reivindicatórios, sobretudo pelas instituições e agentes do sistema de justiça e segurança pública. Inúmeros militantes de movimentos sociais foram e estão sendo, através de suas lutas cotidianas, injustamente enquadrados em tipos penais como desobediência, quadrilha, esbulho, dano, desacato, dentre outros, em total desacordo com o princípio democrático proposto pela Constituição de 1988.

Neste limiar, a aprovação pelo Congresso Nacional de uma proposta que tipifique o crime de Terrorismo irá incrementar ainda mais o já tão aclamado Estado Penal segregacionista, que funciona, na prática, como mecanismo de contenção das lutas sociais democráticas e eliminação seletiva de uma classe da população brasileira.

Nesta linha, o inimigo que se busca combater para determinados setores conservadores brasileiros, que permanecem influindo nos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, é interno, concentrando-se, sobretudo, nos movimentos populares que reivindicam mudanças profundas na sociedade brasileira.

Dentre as várias propostas, destaca-se o Projeto de Lei de relatoria do Senador Romero Jucá, que em seu art. 2º define o que seria considerado como Terrorismo: “Art. 2º – Provocar ou infundir terror ou pânico generalizado mediante ofensa à vida, à integridade física ou à saúde ou à privação da liberdade de pessoa, por motivo ideológico, religioso, político ou de preconceito racial ou étnico: Pena – Reclusão de 15 a 30 anos”.

Trata-se, inicialmente, de uma definição deveras abstrata, pois os dois verbos provocar e infundir são complementados pelos substantivos terror e pânico. Quem definiria o que seria terror e pânico? Como seria a classificação do terror e pânico generalizado? Ora, esta enorme abstração traz uma margem de liberdade muito grande para quem vai apurar e julgar o crime. Além disso, esse terror ou pânico generalizado, já de difícil conceituação, poderia ser causado, segundo a proposta, por motivos ideológicos e políticos, o que amplia ainda mais o grau de abstração e inconstitucionalidade da proposta.

É sabido que as lutas e manifestações de diversos movimentos sociais são causadas por motivos ideológicos e políticos, o que, certamente, é amplamente resguardado pela nossa Constituição. Assim, fica claro que este dispositivo, caso seja aprovado, será utilizado pelos setores conservadores contra manifestações legítimas dos diversos movimentos sociais, já que tais lutas são realmente capazes de trazer indignação para quem há muito sobrevive de privilégios sociais.

Também a proposta do Deputado Miro Teixeira revela o caráter repressivo contra manifestações sociais, evidenciada em um dos oito incisos que tipifica a conduta criminosa: “Incendiar, depredar, saquear, destruir ou explodir meios de transporte ou qualquer bem público ou privado”. Verifica-se, portanto, que as propostas são construídas sobre verdadeiros equívocos políticos e jurídicos, passando ao largo de qualquer fundamento ou motivação de legitimidade.

Agregue-se, ainda, o cenário de repressão e legislação de exceção paulatinamente instituídos pela agenda internacional dos grandes eventos esportivos, solapando a soberania política, econômica, social e cultural do povo brasileiro, e a fórmula dos fundamentos e motivações da tipificação do crime de terrorismo se completa, revelando a sua dimensão de fascismo de estado, incompatível com os anseios de uma sociedade livre, justa e solidária.

Já contamos quase 50 anos desde o Golpe de 64 e exatamente 25 anos desde a promulgação da ‘Constituição Cidadã’. Nesse momento, diante da efervescência política e da bem-vinda retomada dos espaços públicos pela juventude, cumpre ao Congresso Nacional defender a jovem democracia brasileira e rechaçar projetos de lei cujo conteúdo tangencia medidas de exceção abomináveis como o nada saudoso ‘AI-5’.

Desta maneira, repudiamos veementemente estas propostas de tipificação do crime que, sobretudo, tendem muito mais a reprimir e controlar manifestações de grupos organizados, diante de um cenário já absolutamente desfavorável às lutas sociais como estamos vendo em todo o Brasil.

Vejam no Facebook da Carta Capital

Assinam:

Actionaid Brasil

Associação Brasileira de Ensino de Arquitetura e Urbanismo – ABEA

Associação dos Especialistas em Políticas Públicas do Estado de São Paulo – AEPPSP

Associação dos Geógrafos Brasileiros – AGB

Associação Juízes Para a Democracia – AJD

Associação Missão Tremembé – AMI

Associação Nacional de Transportes Públicos – ANTP

Bento Rubião – Centro de Defesa dos Direitos Humanos

Cearah Periferia

Central de Movimentos Populares – CMP

Centro de Assessoria à Autogestão Popular – CAAP

Centro Dom Helder Câmara de Estudos e Ação Social – CENDHEC  

Coletivo Desentorpecendo a Razão – DAR

Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da Associação Brasileira de Imprensa – ABI

Comissão de Direitos Humanos do Sindicato dos Advogados de São Paulo

Comitê Pela Desmilitarização

Comitê Popular da Copa de SP

Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas do Rio de Janeiro

Conectas

Confederação Nacional de Associações de Moradores – CONAM

Conselho Federal de Serviço Social – CFESS

Coordenação do Fórum Nacional de Reforma Urbana

Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional – FASE

Federação Interestadual dos Sindicatos de Engenharia – FISENGE

Federação Nacional das Associações de Empregados da Caixa Econômica – FENAE

Federação Nacional dos Arquitetos e Urbanistas – FNA

Federação Nacional dos Estudantes de Arquitetura e Urbanismo do Brasil – FENEA

Fórum da Amazônia Oriental/ GT Urbano – FAOR

Fórum Nordeste de Reforma Urbana – FneRU

Fórum Sul de Reforma Urbana

Fórum Urbano da Amazônia Ocidental – FAOC

Grupo Lambda LGBT Brasil

Habitat para a Humanidade

Identidade – Grupo de Luta pela Diversidade Sexual

Instituto Brasileiro de Administração Municipal – IBAM

Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas – IBASE

Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – IBCCRIM

Instituto de Defensores de Direitos Humanos – DDH

Instituto de Estudos, Formação e Assessoria em Políticas Sociais – PÓLIS

Instituto Edson Néris

Instituto Práxis de Direitos Humanos

Instituto Terra, Trabalho e Cidadania – ITTC

Justiça Global

Mães de Maio

Movimento da Juventude Andreense – MJA

Movimento em Defesa da Economia Nacional – MODECOM

Movimento Nacional de Luta pela Moradia – MNLM

Movimento Passe Livre – MPL

Núcleo de Direito à Cidade – USP

Pastoral Carcerária Nacional

Rede 2 de Outubro

Rede Nacional de Adolescentes e Jovens [email protected] – RENAJOC

Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares – RENAP

Rede Observatório das Metrópoles

Serviço Franciscano de Solidariedade – SEFRAS

Serviço Inter-Franciscano de Justiça, Paz e Ecologia – SINFRAJUPE

Terra de Direitos

Tribunal Popular

União de Núcleos de Educação Popular para Negras/os da Classe Trabalhadora – UNEAFRO

União Nacional por Moradia Popular – UNMP

Viração Educomunicação

Categorias
Sem categoria

Help Writing College Essay

Evaluation your number and take the light attributes which might be less important to you out. Attempt mayonnaise, butter, grape, and olive oil. Here is without limiting your honesty HOWTO develop a great internet dating profile. Like, you ought to discuss that which you must provide as everything you are searching for from others, as much. Do not represent oneself incorrectly in any respect. Notice the method that you spend the majority of your time. You’ll just entice people seeking the ” you ” and eradicate people who might have preferred the ” authentic you.” This doesn’t suggest you need to notify all you realize while in the relationship profile, or even inside telephone calls or the first few emails.

Categorias
Sem categoria

PUC-PR: vestibular, publicidade e racismo

Tempos atrás li o resultado de uma Pesquisa da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, que apontava o crescimento da presença negra na publicidade nos últimos anos. A pesquisa reafirmava o que percebemos a olho nu: o crescimento da presença negra na publicidade não está acompanhado de um avanço na representação mais positiva do sujeito. O estudo do pesquisador Carlos Augusto de Miranda e Martins mostra que os negros ainda são associados a estereótipos negativos surgidos no século XIX, quando as teses do racismo científico foram introduzidas no Brasil.

Racismo e preconceito estão presentes no cotidiano da publicidade brasileira. Salvo raras exceções, a publicidade atua a partir de duas possibilidades: Invisibilizar o corpo negro ou apresentá-lo de maneira depreciativa, pejorativa e preconceituosa. A segunda hipótese presta um serviço ao menos: gera maior reação.

Uma das peças publicitárias de divulgação do Vestibular 2014 da PUC-PR – que traz como slogan #sejaplural, é emblemática e sugere questões: Por que só ele não tem mochila e caderno? Por que um apenas, entre os muitos brancos? Por que só ele é apresentado a partir de um julgamento social preconcebido?

A princípio não seria um problema em si, a presença de um “mano”, entre os postulantes as vagas na PUC-PR. Ele poderia estar acompanhado de outros negros, caracterizados como atletas interessados no curso de Educação Física, bem como ao lado de negros engravatados em alusão aos cursos de Direito ou Administração. Estes todos juntos a jovens brancos, também caracterizados, porque não?

Mas, neste caso como em inúmeros outros, a presença negra tentou garantir apenas o politicamente correto e o respeito a “cota de um”: um negro – no máximo, “para não dizer que somos racistas”! E teriam alcançado sucesso, não fosse o forte teor preconceituoso na forma como o jovem negro está colocado. Afinal, um preto que fura o bloqueio e ocupa o espaço exclusivamente branco já significaria um avanço, certo?

Compreender o que está por trás da permanente degradação da imagem da população negra em todos os espaços sociais, em especial na propaganda e nas mídias em geral, não é tarefa simples. Os quase 400 anos de escravidão da população negra nos deixaram marcas profundas e presentes até hoje. O brilhante trabalho de Carlos Augusto de Miranda e Martins, intitulado “Negro, publicidade e o ideal de branqueamento da sociedade brasileira”, nos ajuda a compreender:

Fato é que, ao valorizar a cultura e o biótipo europeu ao mesmo tempo em que escamoteava e estigmatizava os componentes negros da sociedade, o Brasil acabou por criar um registro branco de si mesmo, estabelecendo um modelo de representação no qual os brancos passaram a concentrar todas as características positivas possíveis, enquanto o negro tornava-se a negação de tudo isso. E esse registro tornou-se um instrumento de dominação que atravessou o século e chegou, remodelado, aos dias de hoje: O aparelho ideológico de dominação da sociedade escravista gerou um pensamento racista que perdura até hoje.

Como a estrutura da sociedade brasileira, na passagem do trabalho escravo para o trabalho livre, permaneceu basicamente a mesma, os mecanismos de dominação inclusive ideológicos foram mantidos e aperfeiçoados (MOURA, 1988, p.23).

Isso significa, portanto, que a perpetuação de imagens negativas do negro durante o século XX contribuiu para a manutenção de uma hierarquização social não mais garantida pela escravidão, e sim por fatores econômicos.

O novo século assiste ao desenvolvimento dos meios de comunicação de massa, que por nascerem já orientados pelos padrões eurocêntricos forjados no século XIX, acabaram por substituir os antigos instrumentos de performatização das representações sobre o negro, tornando-se, então, mecanismos atualizados de dominação.

Isso implicou também na atualização das representações. As imagens do escravo bom e fiel, do negro violento e degenerado e mesmo o exótico-bestial tão presentes na produção cultural oitocentista aparecem na mídia reelaboradas e transformadas, por exemplo, no trabalhador braçal, no criminoso, no sambista.

A mídia não somente atualiza a distância que separava, na escravidão, a elite do povo, mas nega, com seu exclusivismo, as identidades culturais afro-brasileira e indígena, as quais não têm acesso, em pé de igualdade, às programações televisiva e radiofônica (D´ADESKY, 2001, p. 93-94).

No espaço de comentário no post de divulgação no Facebook da PUC-PR, uma nota: “Em nenhum momento o objetivo das ilustrações foi estereotipar os personagens – todos são alunos e sentimos muito por qualquer tipo de taxação”.  

Ora, se espera muito mais de Universidade com a importância da PUC, no mínimo, uma retratação pública mais consistente e convincente além, evidentemente, da retirada imediata desta peça de publicidade. Importante lembrar que a campanha expressa nesta peça publicitária coloca-se na contramão da tendência nacional de valorização e resignificação da imagem, cultura e história da comunidade afrobrasileira, sendo essa inclusive premissa para a elaboração de diversas políticas públicas em todos os níveis e que o fato pode ser entendido e caracterizado como grave prática de racismo institucional.

“Estereotipar os personagens” não foi o objetivo, diz a PUC-PR. Ora, mas foi o que de fato se fez! E o que importa ao agredido o não querer do agressor?

 

Veja no Facebook da Carta

Categorias
uncategorized

Types in an Essay of MLA Citations

A pro http://scholarshipessay.org/ bono attorney is just an attorney who assumes cases that are legitimate and courtroom for free. This can be a huge monetary reduction for folks who cannot afford costly lawyer charges. It can be a little of the challenge to discover a pro-bono attorney since most attorneys do not market their services that are pro bono at the start. Keep reading to master how to locate a lawyer that is pro bono. Guidelines As previously mentioned above, most law firms don’t definitely promote their pro bono work -but that will not imply that the company is n’t offered by them.

Categorias
Sem categoria

Recife quente, Recife frio

“Os problemas ficcionais que surgem com a chegada do frio evidenciam problemas inequivocamente reais. Os moradores de rua incendeiam a noite com fogueiras, em busca de calor, mas morrem aos poucos de frio (o jornal fala de mais de 300 desde a mudança climática). A fragilidade da nova situação põe em risco os frágeis da velha situação. Neste sentido, apesar da paisagem e dos personagens locais, o Recife do curta é metonímia do Brasil inteiro (talvez por isso a necessidade de um narrador estrangeiro, não apenas de outro estado). A lente realista do falso documentário ajuda a opera uma inversão importante: mostra o quão ficcional é, na verdade, a concepção do Recife verdadeiro como tropical, quente, alegre”.

Uma análise do curta-metragem “Recife Frio”, de Kleber Mendonça Filho, e um convite para assisti-lo abaixo.

Por Tomaz Amorim Izabel *

recife frio

“Socialite afirma que gente pobre está mais ‘chic’ passando frio”. Este comentário não vem de uma revista de moda ou fofoca, mas é uma manchete fictícia, escrita nos letreiros de um telejornal que compõe a trama do curta-metragem “Recife Frio” (2009), de Kleber Mendonça Filho. O curta inteiro é gravado como pseudo-documentário, em tom ao mesmo tempo humorístico e sombrio, que trata sobre um estranho acontecimento meteorológico: a queda de um meteorito que teria causado a aparição de nuvens fixas sobre Recife, que baixaram drasticamente a temperatura da cidade tropical. A partir deste pressuposto improvável, quase de ficção científica (a composição das imagens e o enredo prestam homenagem a Chris Marker e seus filmes La Jetée e Sans Soleil), Kleber Medonça faz uma ampla curva para pegar o espectador pelas costas: o falso documentário documenta com precisão questões sociais camufladas no cotidiano do Recife quente.

Sobre sua passagem do documentário para a ficção, o cineasta polonês Krzysztof Kieslowski teria afirmado que a segunda conseguiria captar o real de maneira ainda mais profunda que o primeiro. “Recife Frio” comprova esta tese. Toda uma parafernália de técnicas é utilizada para afastar o espectador do enredo, supostamente distante, mas trata-se, como dissemos, de uma distração: quando ele menos espera está diante do real até então despercebido. O pseudo-documentário se inicia ironicamente como uma reportagem especial para um jornal argentino. Sua narração, o estilo das entrevistas, as imagens turísticas utilizadas para mostrar do Recife antigo, quente e tropical, e a atual, fria, escura e chuvosa, tentam o tempo inteiro evidenciar o faz de conta. Aos poucos, elementos menos fantasiosos e distantes pontilham a narração. As imagens elogiosas das recifenses de biquíni e do estouro de uma água de coco são entremeadas pela referência ao cheiro de urina da cidade e do Capibaribe poluído, chamado de “caldo escuro”. Até aí, tudo bem, poderia ser apenas uma maldade excessiva dos nossos hermanos.

A medida que a narrativa prossegue, no entanto, os problemas ficcionais que surgem com a chegada do frio evidenciam problemas inequivocamente reais. Os moradores de rua incendeiam a noite com fogueiras, em busca de calor, mas morrem aos poucos de frio (o jornal fala de mais de 300 desde a mudança climática). A fragilidade da nova situação põe em risco os frágeis da velha situação. Neste sentido, apesar da paisagem e dos personagens locais, o Recife do curta é metonímia do Brasil inteiro (talvez por isso a necessidade de um narrador estrangeiro, não apenas de outro estado). A lente realista do falso documentário ajuda a opera uma inversão importante: mostra o quão ficcional é, na verdade, a concepção do Recife verdadeiro como tropical, quente, alegre. O Recife frio, por outro lado, apresenta através do frio atmosférico uma outro tipo de frieza, que aparece genericamente no curta caracterizada como frieza “humana” – típica dos grandes centros urbanos de nosso país.

A constatação desta frieza não se dá de maneira fria e documental, mas ao contrário, através do bom humor, e da ironia (sempre sublinhada na narração portenha), dos entrevistados. Cidadãos comuns, moradores de rua, repentistas, lojistas e instituições religiosas são mostrados em sua adaptação de improviso, mais ou menos dramático, às novas condições. Um dos pontos altos deste humor é o alívio justo de Clodoaldo Alves, o Papai Noel profissional que, depois de sofrer por anos com o calor da cidade, pode agora exercer sua profissão com menos desconforto – “Naquela época, 34 graus era pra matar, com aquela roupa”. Junto com o bom humor desta representação, vai também uma ridicularização velada de nossa apropriação tropical do Natal de inverno estadunidense, sintetizada em detalhe na imagem do Papai Noel que se refresca desesperadamente com a água de coco. Contar sobre os outros personagens irônicos e dramáticos, como o bretão melancólico, seria estragar um pouco o prazer de quem ainda não assistiu ao filme.

Podemos seguir, então, para a questão arquitetônica, que é tocada de modo certeiro pelo curta. Desde meados do século XIX até recentemente, foi recorrente em nossa país a tentativa de explicar e justificar nossa estrutura social a partir de condições geográficas e climáticas. O Recife capturado e resfriado pela lente de Kleber Mendonça desmascara estes esforços ao demonstrar que as relações de poder tem, na verdade, fundamentação econômica. Através da transformação climática, somos introduzidos também em uma mudança arquitetônica: a família de alta classe, que possui um apartamento amplo, com grandes janelas, à beira-mar, sofre agora com a desvalorização do imóvel, devido ao frio. Ao adentrar as entranhas do apartamento, abandonamos por um momento o tom humorístico (nós, os telespectadores, o narrador e a câmera seguem com a leveza curiosa do documentário argentino) e nos deparamos com o horror histórico brasileiro incrustado na estrutura dos apartamentos. A família, pai, mãe e filho, brancos, descrevem um “conflito familiar” em que o filho, que traja uma jaqueta com o emblema da bandeira alemã, deseja abrir mão de sua suíte para ficar com o quarto da empregada negra. O narrador distante, argentino, descreve este tipo de quarto com as seguintes palavras: “Essa instituição arquitetônica brasileira é herança da escravidão, fantasma moderno da senzala”. O menor quarto da casa, relegado aos fundos, praticamente sem janelas, tem agora o benefício de ser o mais quente e por isso é tomado pelo filho. A empregada doméstica quer seu quarto de volta. A mãe justifica seu incômodo dizendo que a empregada não está acostumada com uma suíte. A resposta da empregada desmascara: “O quarto de lá é mais frio”. O desejo do jovem patrão branco prevalece no quente e também no frio.

O salto ficcional do curta para dentro da arquitetura real de Recife quase não tem volta. Do quarto da empregada passamos para a feiura urbana e as preocupações com segurança. Somos brindados com uma sequência de imagens de grades, portas, prédios angulosos, asfaltos, condomínios que nos lançam do frio fictício e humorístico para o frio real e horroroso do real. Irremediavelmente misturados os dois Recifes, assistimos a cenas, sem saber exatamente onde se passam, de famílias que abandonam suas casas frias para se comprimir no espaço quente do shopping, de outros presos, os das cadeias, que organizam exposições de fotos sobre as novas nuvens: “Óia pra cima irmão”… Esta vertigem só é superada, enfim, por um canto poderoso e profético, no meio da praia cinza.

O fim do curta-metragem guarda uma promessa de redenção: a voz e a luz dourada de Lia de Itamaracá, a negra que canta a ciranda, anunciam um esforço de atravessar as nuvens perpétuas que cobrem a cidade e a praia. O filme de Kleber Mendonça quer invocar este tímido raio de sol, usando a força crítica da ficção, num esforço para aquecer nossas cidades frias.

* Tomaz Amorim Izabel é professor e mestre em Teoria Literária pela Unicamp. Mantém uma conta no Twitter, @tommyamorim, e um blog literário: tomazizabel.blogspot.com

ASSISTA RECIFE FRIO:

Categorias
Sem categoria

História de negros e indígenas nas escolas: por que não?

“Imagine o perigo: crianças negras, ao invés de brincarem de “polícia e ladrão” organizarem – no fundo do quintal, a rebelião das senzalas, com os meninos brigando entre si para decidir quem seria Zumbi dos Palmares! Ou mais: crianças brancas e negras, brincando de casinha e a pretinha, ao assumir “seu papel na brincadeira”, resolve preparar o veneno que vai servir de tempero no banquete da amiguinha ‘Senhora’.”

Por Douglas Belchior

As ruas deixaram o recado: o atual sistema de representação política está falido e não nos representa! Seria também um aviso às Conferências Temáticas? Aliás, vivemos tempos onde se realizam muitas conferências. Tem pra todos os gostos: moradia, saúde, criança e adolescente, diversidade etnicorracial, mulheres, direitos humanos, segurança, etc. Mas, o que de fato se aproveita dessas conferências, para além de seus emblemáticos documentos finais repletos de boas propostas que, talvez por serem boas, jamais se concretizam? Não há intenção de dar conta da questão nesse texto, mas fazer uma provocação sobre um tema apenas: Efetivação das leis 10639/03 e 11645/08.

Em São Paulo, no final do mês de setembro deve acontecer a etapa regional da Conferência de Educação, que elege delegados para a Conferência Nacional de Educação – CONEA, que ocorrerá em 2014.  Com a intenção de elaborar propostas para a etapa paulista, será realizada nos próximos dias 12 e 13 de Setembro a I Conferência de Educação para Relações Etnicorraciais do Estado de São Paulo. Esta atividade é uma vitória da sociedade civil organizada e em especial do FEDER – Fórum de Educação e Diversidade Etnicorracial. Afinal, será o momento de dar visibilidade à questão da implementação da Lei 10639/03, alterada pela 11645/08, e claro, tentar comprometer setores públicos em sua efetivação.

Sim, é preciso expor o absurdo: Como é possível que 10 anos após sua aprovação, a Lei que institui a obrigatoriedade do ensino da História da África e das culturas africanas e indígenas no Brasil – apesar dos nobres esforços de militantes e grupos muitas vezes isolados – não tenha saído do papel? Se considerarmos que deveria ter sido publicada como lei complementar à Abolição, significa que já estamos 135 anos atrasados.

Pergunto aos estudantes que prestaram vestibular nos processos seletivos do último ano: quantas questões abordaram a história e a cultura afro-brasileira e indígena? Nem mesmo o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) – certamente menos injusto que os vestibulares tradicionais – despertou para esse problema. Há ao menos coerência. Por questão de lógica, é impossível cobrar um conteúdo que não foi ensinado em sala de aula.

Se é verdade que vivemos em um país estruturalmente racista; se é verdade que a população descendente das africanas, para além de jamais terem sidos reparadas ou indenizadas por um dos maiores crimes de lesa humanidade que se tem notícia – os quase 400 anos de escravidão no Brasil – ainda penam “como de costume”, com a negação de direitos, com a violência das polícias e o encarceramento, daí podemos extrair uma hipótese: provocar a lembrança da história de resistência dessa gente preta, pobre e fankeira pode ser perigoso! Seria um risco ver o povo brasileiro reconhecendo nos indígenas um passado em comum, marcado por violências de toda a espécie mas também – e principalmente – sua permanente disposição para a luta e a resistência.

Imagine o perigo: crianças negras, ao invés de brincarem de “polícia e ladrão” organizarem – no fundo do quintal, a rebelião das senzalas, com os meninos brigando entre si para decidir quem seria Zumbi dos Palmares! Ou mais: crianças brancas e negras, brincando de casinha e a pretinha, ao assumir “seu papel na brincadeira”, resolve preparar o veneno que vai servir de tempero no banquete da amiguinha ‘Senhora’.

Evidente que não seriam essas as práticas pedagógicas a serem fomentadas. Mas diante do risco de se alcançar o efeito que mais se espera de um processo educacional: a provocação da capacidade reflexiva, da capacidade crítica, da capacidade de comparação, de contextualização do problema real, enfim, imagine essas capacidades cognitivas, reflexivas e críticas relacionadas ao processo do que foi a escravidão e do que é a realidade a que a população negra e indígena é vive hoje.

Não. Uma lei dessas não pode dar certo. Armar os escravos? Jamais! Provocar sua tomada de consciência? De jeito nenhum!

Mas a História – ela de novo – ensina: Pretos e Índios se armam por sua própria conta. Para além de todas as propostas técnicas de implementação da lei, devemos exigir a criação de uma Lei de Responsabilidade Etnicorracial. Afinal, o gestor público deve ser responsabilizado por não cumprir seu dever: valorizar a cultura e a História do povo negro e indígena. Se o ensino da História da África, das africanas e suas descendentes, bem como da história e do povo indígena, é lei, cumpra-se!

Sobretudo, a Conferência de Educação para Relações Etnicorraciais será um ótimo espaço para debate e formação. Vamos?

alesp

Veja no Facebook da Carta Capital