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Escrita da história Mobilização

População indígena do Jaraguá-SP luta para manter sua cultura

De Douglas Belchior

A luta cotidiana pela sobrevivência, por dignidade e pela manutenção da cultura é algo presente há seculos na vida da população originária do território “brasileiro”.

A história de resistência indígena da aldeia guarani Tekoa Ytu é mais um dos muitos exemplos em que a desfaçatez e a ganância dos cara-pálidas, donos do poder econômico e político, se faz presente. E há mais de 500 anos!

Conheça essa história na bonita reportagem de Renata Moraes.

Aos que puderem colaborar com a luta indígena no Jaraguá, em SP, o contato pode ser feito com o Professor de História e liderança indígena David Martim.

 

Fotos de Carlinhos Souza

FOTO 1 Carlinhos Souza, mulheres vendendo seus artesanatos

Nativos buscam a preservação de suas raízes e clamam pela demarcação das terras da aldeia guarani Tekoa Ytu, localizada na Estrada Turística do Jaraguá, em São Paulo.

Por Renata Moraes

 

Na manhã do domingo 26, em uma atividade proposta pelo Centro Cultural da Juventude ( CCJ), localizado na Vila Cachoeirinha, um grupo de 70 pessoas visitou a aldeia indígena Tekoa Ytu, situada no Jaraguá, próximo ao Parque Estadual.

A atividade foi sugerida e idealizada pela  jovem monitora juvenil do CCJ, Juliana Queiroz dos Santos, Filósofa e militante da causa.

Presente na cidade desde 1964, a aldeia guarani Tekoa Ytu (que significa “tribo da cachoeira” ) foi cortada ao meio pela Estrada Turística do Jaraguá e hoje  se divide  em duas aldeias, sendo a “de cima” ainda sem a demarcação da terra. A maior luta é o reconhecimento da parte de cima da aldeia como terra indígena.

“A falta da demarcação de terras nos impede de dar continuidade aos projetos da aldeia e compromete o futuro de nossas crianças”, expressou o jovem Cacique Vitor Fernando Soares, que em guarani se chama Carai Mirim.

Em 1987 o Governo Federal demarcou apenas a parte baixa da aldeia e desde então eles aguardam o Ministério da Justiça expedir a portaria declaratória, reconhecendo o local como território tradicional indígena. A última etapa é a homologação pela Presidência da República.

Em vez de ocas, há casas de pau a pique e barracas improvisadas onde vivem cerca de 180 famílias com aproximadamente 800 pessoas, sendo quase metade deste número de crianças e adolescentes que sobrevivem em condições precárias. Há lixo por várias partes, a rede de esgoto não funciona e o rio que já foi limpo e fonte de sustento, por meio da pesca está poluído. Sem contar com o grande número de cães e gatos que são abandonados ali por moradores dos arredores.

A comunidade sobrevive de benefícios do Governo, das doações de alimentos de organizações não governamentais, com a ajuda da população local e também da venda de seus artesanatos. A aldeia possui duas escolas nas quais crianças são alfabetizadas nas duas línguas: Português e Guarani. E também há uma Unidade Básica de Saúde (UBS).

Para o professor de história, Davi Martim, é uma alegria receber os visitantes: “Nós costumamos receber as pessoas de uma forma harmoniosa em nossa aldeia, pois vivemos assim, e essa visita proporciona uma maior integração entre o  índio e o homem branco, desmistificando e quebrando paradigmas. E é importante também para as pessoas conhecerem suas origens, muitos tem descendência indígena e não conhecem a cultura.”

Durante a visita os participantes tiveram a oportunidade de conhecer um pouco da cultura indígena, seus valores e suas crenças. Na casa da reza, local de oração em que os índios fazem suas preces todas as noites, eles puderam presenciar um canto de agradecimento pelos bens e frutos que a natureza oferece.

Para a jovem estudante Louise De Villio, 20, a atividade gerou  reflexão: “Com a visita aprendi que políticas publicas não têm que só subir o morro ou sair do asfalto, mas têm que entrar na mata também.”

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FOTO 2 Carlinhos Souza, frente da aldeia indígena no Jaraguá

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Debate racismo

Boff: Os rolezinhos nos acusam, somos uma sociedade injusta e segregacionista

De Douglas Belchior

Dia desses pensei: O Funk ostentação coloca a sociedade brasileira, hipócrita, preconceituosa, discriminadora e racista, de frente ao espelho. Ela não gosta do que vê e tenta quebrá-lo. Daí surge a crítica aos jovens funkeiros e seus valores de ostentação, como se não soubessem que na verdade, o mundo é um “mundo de ostentação”, o sistema econômico e político são “sistemas de ostentação”.

Até as religiões, que crescem freneticamente nas periferias brasileiras, se reproduzem a partir de intrigantes testemunhos dos “milagres de ostentação”: “Cheguei aqui falido. Mas depois que aceitei Jesus na minha vida, hoje tenho 5 empresas, 3 carros importados, 1 casa na praia e um apartamento no Brooklin”. Ora, o que esperar de uma sociedade educada por uma escola pública falida, por meios de comunicação comprometidos com os valores do capital e por uma dominante lógica religiosa que valoriza mais o dízimo que as almas? É justo individualizar a responsabilidade ou estigmatizar e criminalizar determinados grupos por eventuais ações transgressoras da harmonia na casa-grande?

Guardei só pra mim. Mas agora, depois de ler o Boff tratando o tema com faca ainda mais afiada, fiquei mais tranquilo.

Vale a pena ler!

 

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Por Leonardo Boff

 

O fenômeno dos centenas de rolezinhos que ocuparam shoppings centers no Rio e em  São Paulo suscitou as mais disparatadas interpretações. Algumas, dos acólitos da sociedade neoliberal do consumo que identificam cidadania com capacidade de consumir, geralmente nos jornalões da mídia comercial, nem merecem consideração. São de uma indigência analítica de fazer vergonha.

Mas houve outras análises que foram ao cerne da questão como a do jornalista Mauro Santayana do JB on-line e as de três  especialistas que avaliaram a irrupção dos rolês na visibilidade pública e o elemento explosivo que contém. Refiro-me à Valquíria Padilha, professora de sociologia na USP de Ribeirão Preto:”Shopping Center: a catedral das mercadorias”(Boitempo 2006), ao sociólogo da Universidade Federal de Juiz de Fora, Jessé Souza,”Ralé brasileira: quem é e como vive (UFMG 2009) e  de Rosa Pinheiro Machado, cientista social com um artigo”Etnografia do Rolezinho”no Zero Hora de 18/1/2014. Os três deram entrevistas esclarecedoras.

Eu por minha parte interpreto da seguinte forma tal irrupção:

Em primeiro lugar, são jovens pobres, das grandes periferias,  sem espaços de lazer e de cultura, penalizados por serviços públicos ausentes ou muito ruins como saúde, escola, infra-estrutura sanitária, transporte, lazer e segurança. Veem televisão cujas propagandas os seduzem para um consumo que nunca vão poder realizar. E sabem manejar computadores e entrar nas redes sociais para articular encontros. Seria ridículo exigir deles que teoricamente tematizem sua insatisfação. Mas sentem na pele o quanto nossa sociedade é malvada porque exclui, despreza e mantém os filhos e filhas da pobreza na invisibilidade forçada. O que se esconde por trás de sua irrupção? O fato de não serem incluidos no contrato social. Não adianta termos uma “constituição cidadã” que neste aspecto é apenas retórica, pois  implementou muito pouco do que prometeu em vista da inclusão social. Eles estão fora, não contam, nem sequer servem de carvão  para o consumo de nossa fábrica social (Darcy Ribeiro). Estar incluído no contrato social significa ver garantidos os serviços básicos: saúde, educação, moradia, transporte, cultura, lazer e segurança.Quase nada disso funciona nas periferias. O que eles estão dizendo com suas penetrações nos bunkers do consumo? “Oia nóis na fita”; “nois não tamo parado”;”nóis tamo aqui para zoar”(incomodar). Eles estão com seu comportamento rompendo as barreiras do aparheid social. É uma denúncia de um país altamente injusto (eticamente), dos mais desiguais do mundo (socialmente), organizado sobre um grave pecado social pois contradiz o  projeto de Deus (teologicamente). Nossa sociedade é conservadora e nossas elites altamente insensíveis  à paixão de seus semelhantes e por isso cínicas. Continuamos uma Belíndia: uma Bélgica rica dentro de uma India pobre. Tudo isso os rolezinhos denunciam, por atos e menos por palavras.

 

Em segundo lugar,  eles denunciam a nossa maior chaga: a desigualdade social cujo verdadeiro nome é injustiça histórica e social. Releva, no entanto, constatar que com as políticas sociais do governo do PT a desigualdade diminiui, pois segundo o IPEA os 10% mais pobres tiveram entre 2001-2011 um crescimento de renda acumulado de 91,2% enquanto a parte mais rica cresceu 16,6%. Mas esta diferença não atingiu a raíz do problema pois o que supera a desigualdade é uma infraestrutura social de saúde, escola, transporte, cultura e lazer que funcione e acessível a todos. Não é suficiente transferir renda; tem que criar oportunidades e oferecer serviços, coisa que não foi o foco principal no Ministério de Desenvolvimento Social. O “Atlas da Exclusão Social” de Márcio Poschmann (Cortez 2004) nos mostra que há cerca de 60 milhões de famílias,  das quais cinco mil famílias extensas detém 45% da riqueza nacional. Democracia sem igualdade, que é seu pressupsto, é farsa e retórica. Os rolezinhos denunciam essa contradição. Eles entram no “paraíso das mercadorias” vistas virtualmente na TV para ve-las realmente e senti-las nas mãos. Eis o sacrilégio insuportável pelos donos do shoppings. Eles não sabem dialogar, chamam logo a polícia para bater e fecham as portas a esses bárbaros. Sim, bem o viu T.Todorov em seu livro “Os novos bárbaros”: os marginalizados do mundo inteiro estão saindo da margem e indo rumo ao centro para suscitar a má consciência dos “consumidores felizes” e lhes dizer: esta ordem é ordem na desordem. Ela os faz frustrados e infelizes, tomados de medo, medo dos próprios semelhantes que somos nós.

Por fim, os rolezinhos não querem apenas consumir. Não são animaizinhos famintos. Eles tem fome sim, mas fome de reconhecimento, de acolhida na sociedade, de lazer, de cultura e de mostrar o que sabem: cantar, dançar, criar poemas críticos, celebrar a convivência humana. E querem trabalhar para ganhar sua vida. Tudo isso lhes é negado, porque, por serem pobres, negros, mestiços sem olhos azuis e cabelos loiros, são desperezados e mantidos longe, na margem.

Esse tipo de sociedade pode ser chamada ainda de humana e civilizada? Ou é uma forma travestida de barbárie? Esta última lhe convem mais. Os rolezinhos mexeram numa pedra que começou a rolar. Só parará se houver mudanças.

LeonardoBoff.com

 

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Protestos racismo

Nabil Sayhoun, representante dos Shoppings do país, sugere que jovens façam rolezinhos no Sambódromo.

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Ele também reafirma que a presença dos jovens negros, pobres e funkeiros é “muito perigosa” e que “as lojas podem ser saqueadas”.

 

Por Douglas Belchior

 

“Esse movimento tem que ser respeitado, mas tem que ser respeitado num local específico (…) Shopping Center não é lugar para essas pessoas”

“Imagine que tem em São Paulo o Sambódromo que é utilizado no Carnaval (…) um grande empreendimento feito com o dinheiro da população que fica aí fechado o ano inteiro, então a gente é a favor dessa juventude que tem que ter seu espaço, mas venhamos e convenhamos, Shopping Center não é lugar (…)”

“Você não consegue controlar (os jovens do rolezinho). Você não sabe se vai ter droga lá dentro. Você não sabe de pessoas mal intencionadas (…) É muito perigoso e se a gente não fizer absolutamente nada e permitir a entrada dessa garotada (…) as lojas podem ser saqueadas.”

 

Essas foram as palavras proferidas em tom ameno e dócil pelo Sr. Nabil Sayhoun, presidente da Associação Brasileira de Lojistas de Shopping no programa da jornalista Rita Lisauskas para o Portal Terra, do qual participei na última sexta feira.

ASSISTA AQUI O DEBATE COM NABIL SAYHOUN

 

O debate sobre rolezinhos dos jovens funkeiros, sobretudo a partir da concessão de liminares judiciais que garantem aos Shoppings o direito de discriminar e impedir a entrada de determinado grupo social, racial e cultural, tomou uma proporção inimaginável mas provocou também uma reação à altura da gravidade dos acontecimentos.

Os Shoppings estão certos? Apenas buscam proteger seu patrimônio? É correto cercear o direito de circulação ou selecionar, a partir de critérios “subjetivos”, a permissão de entrada de uns em detrimento de outros? E a Justiça acerta quando legisla e referenda a prática explícita de discriminação? É racismo?

Em São Paulo, a partir da iniciativa da Uneafro-Brasil e do Círculo Palmarino, mais de 100 organizações da sociedade civil formularam o “Manifesto de apoio à juventude negra, pobre e das periferias da cidade de São Paulo, pelo direito à circulação e a expressão de sua arte e cultura”.

Além do manifesto, promovemos no sábado 18/01 “Rolé contra o racismo” no elitizado Shopping JK Iguatemi. Ao perceber a aproximação da multidão de cerca de 400 pessoas, os seguranças baixaram as portas do Shopping que não voltou funcionar. Em seguida registramos um Boletim de Ocorrência no 96 DP pelo crime de discriminação racial e constrangimento ilegal.

O medo das elites racistas brasileiras

 

A Ministra da Igualdade Racial do Governo Federal, Luiza Bairros, disse que o “medo dos rolezinhos é reação dos brancos”. E concordo com ela.

Há 3 anos, escrevemos eu e Jaime Amparo Alves, doutor em Antropologia Social pela Universidade do Texas e Professor da Universidad Icesi, da Colômbia, um ensaio chamado “Desconstruir o racismo e forjar a utopia revolucionária negra”, onde registramos reflexões, hipóteses e principalmente perguntas a cerca das relações raciais no Brasil. Algumas delas ganham ainda mais sentido com o debate sobre o rolezinho:

“(…) a população negra continua sendo uma dor de cabeça para as elites do país, afinal, o que fazer com essa massa de gente feia, pobre e perversa que enche as favelas, polui a paisagem urbana e coloca em risco nossa segurança e nosso patrimônio? Como resolver o ‘problema’ cultural, religioso, econômico e político, representado pela presença negra no país que se quer “civilizado” e moderno?”

O grande amigo e companheiro Milton Barbosa, militante histórico e fundador do Movimento Negro Unificado em 1978, sempre lembra que o medo das elites brasileiras se acentuou a partir da revolução do Haiti, que durou 12 anos a partir de 1791, quando pela única vez na história, negros em luta tomaram o poder das elites brancas racistas pela força: “As elites brancas se arrepiavam só de pensar na hipótese de ver repetido no Brasil o que houve no Haiti…”

Para garantir que o Haiti não se repetisse no Brasil, o Estado brasileiro, instrumento das elites racistas e de seu capital privado consolidou, a partir de seus valores civilizatórios, o controle ideológico da cultura, da educação, dos meios de comunicação e da organização social do trabalho. E com isso, o controle sobre a vida e a morte dos negros brasileiros, tal qual vemos ainda hoje.

Como anestesia, a maior de todas as criações da intelectualidade brasileira: A ideia de democracia racial, por mim interpretada assim a partir das doces palavras de Sayhoun: “Não queremos conflito. Nós os respeitamos. Até gostamos de vocês! Mas vocês ficam lá, com seu samba, com seu rap, com seu funk, longe de nós, nas favelas ou no sambódromo. Deixe-nos aqui, com nosso privilégio natural, em nossos palácios de tranquilidade. Quando precisarmos, chamamos vocês para limpar!”

É Dr. Sayhoun… mas vosmicê não se lembrou da poesia de Caetano e Gil… o Haiti é aqui!

 

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Mobilização

Mais de 100 organizações assinam manifesto de apoio aos rolezinhos

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Por Douglas Belchior

 

Em São Paulo, a partir da iniciativa da Uneafro-Brasil e do Círculo Palmarino, organizações da sociedade civil formularam o “Manifesto de apoio à juventude negra, pobre e das periferias da cidade de São Paulo, pelo direito à circulação e a expressão de sua arte e cultura”.

Além do manifesto, promovemos no sábado 18/01 “Rolé contra o racismo” no elitizado Shopping JK Iguatemi. Ao perceber a aproximação da multidão de cerca de 400 pessoas, os seguranças baixaram as portas do Shopping que não voltou funcionar.

Em fila, os manifestantes baixaram as bandeiras e pediram para entrar. Ao impedir a entrada das pessoas, o Shopping incorreu, na opinião dos grupos presentes, no crime de constrangimento ilegal, discriminação racial e racismo. O Boletim de ocorrência foi registrado no 96 DP no bairro do Brooklin. A principal intensão é derrubar as liminares que garantem aos Shoppings promover a prática do apartheid.

 

 

MANIFESTO DE

APOIO À JUVENTUDE NEGRA, POBRE E DAS PERIFERIAS DA CIDADE DE SÃO PAULO!

PELO DIREITO À CIRCULAÇÃO E A EXPRESSÃO DE SUA ARTE E CULTURA.


São Paulo 18 de Janeiro de 2013

 

“É dever do Estado e da sociedade garantir a igualdade de oportunidades, reconhecendo a todo o cidadão brasileiro, independente da etnia ou cor da pele, o direito à participação na comunidade, especialmente nas atividades políticas, econômicas, empresariais, educacionais, culturais e esportivas, defendendo sua dignidade e seus valores religiososo e culturais” (Art. 2o. do Estatuto da Igualdade Racial)

 

O Racismo brasileiro já foi amplamente denunciado por movimentos e intelectuais. Em dezembro de 2013 a ONU, através de uma comissão especial em visita ao Brasil, mais uma vez declarou: “Os afro-brasileiros não serão integralmente considerados cidadãos plenos sem uma justa distribuição do poder econômico, político e cultural”, reforçando a ideia do racismo como estruturante das desigualdades em nosso país.
A barbárie social expõe sua face racista em especial através dos números dos homicídios, em especial aquele promovido pelas forças de repressão do Estado. A realidade das prisões brasileiras, agora simbolizada pela revelação dos acontecimentos no presídio de Pedrinhas no Maranhão ou a carnificina promovida por policiais em Campinas reforça o que sempre denunciamos: o caráter racista do Estado e de seus dirigentes.

 

Esse racismo se traveste cotidianamente a medida da necessidade do opressor. Nesse momento vivemos em São Paulo e em outros grandes centros mais uma das faces do racismo estrutural brasileiro: A reação dos Shoppings, da Polícia e  da Justiça em relação a presença de “jovens funkeiros” nestes estabelecimentos.

 

Com a liminar que garantiu o direito ao JK Iguatemi e a outros diversos Shoppings de impedir a entrada de jovens negros, pobres e funkeiros, percebe-se a reafirmação da missão da policia, da justiça e do Estado: a proteção à iniciativa privada e aos seus valores civilizatórios tendo, como sempre, um alvo bem definido: negros e pobres. Trata-se, sobretudo de um precedente legal perigoso a medida que promove e formaliza uma prática análoga ao apartheid.

 

Cruzar os braços diante de fatos tão graves significaria reforçar a naturalização da violência contra negros e pobres no Brasil. Afinal, os barrados nas portas dos shoppings são os mesmos proibidos de frequentar universidades; são os mesmos que perfazem maioria entre analfabetos, miseráveis, desprovidos de serviços básicos como saúde, educação, moradia; são os mesmos ridicularizados e estigmatizados pela grande mídia e, sobretudo, são os mesmos que cotidianamente são parados, esculachados, presos, torturados e mortos pela polícia nas periferias do Brasil.

 

Os rolezinhos em shoppings que se espalham por todo país revela uma das faces da crise urbana, carente de espaços de convivência, acesso a arte, cultura e lazer, condições entregues pelo Estado aos cuidados e usufruto da iniciativa privada de cidades como São Paulo, estruturadas com base na concentração do solo e na especulação imobiliária, que provocam a exclusão, desterritorialização e expulsão da população negra e periférica, para regiões carentes de equipamentos e serviços sociais e culturais. Os Governos tem fundamental responsabilidade e devem responder a essa demanda de maneira imediata.
Criminalizado como um dia fora a capoeira, o samba e o RAP, o Funk moderno é tão contraditório em seu conteúdo quanto o é resistência em sua forma e estética. E se está servindo também para fazer aflorar o racismo enraizado na alma das elites hipócritas – muito mais vinculadas aos valores da luxúria e ostentação que o Funk, declaramos: somos todos funkeiros!

 

Exigimos:

 

  • Anulação imediata das liminares que garantem o direito de segregação aos Shoppings;
  • Pedidos públicos de desculpas pela ação racista por parte dos Shoppings e dos responsáveis pelas liminares no âmbito da Justiça;
  • Imediato debate público com governos de todas as esferas sobre a pauta da ampliação dos espaços e condições de acesso a arte, cultura e lazer que possam contribuir para a inclusão, a emancipação e garantia de direitos das juventudes, principalmente da juventude negra, pobre e de periferia.
  • Fim do Genocídio da Juventude Negra
  • Desmilitarização das Polícias e amplo debate sobre um novo modelo de segurança Pública para o Brasil.

 

Assinam

 

  1. CIRCULO PALMARINO
  2. UNEAFRO BRASIL – União de Núcleos de Educação Popular para [email protected] e Classe Trabalhadora
  3. MNU – Movimento Negro Unificado
  4. CONEN-Coordenação Nacional De Entidades Negras
  5. Núcleo De Consciência Negra Na USP
  6. Instituto Luiz Gama
  7. Quilombo Raça e Classe
  8. UNEGRO – União de Negros Pela Igualdade
  9. APN’s – Agentes de Pastoral Negros do Brasil
  10. Coletivo Negro USP
  11. Bocada Forte Hip Hop
  12. Articulação Popular e Sindical de Mulheres Negras do Estado de São Paulo
  13. Ceabra – SP
  14. CENARAB – Centro Nacional de Religiosidade e Resistência Afro-Brasileiro
  15. Coletivo Nacional de Juventude pela Igualdade Racial
  16. Coletivo Quilombação
  17. Coletivo Katu
  18. Fórum de Mulheres Negras do Estado de São Paulo
  19. Fórum Estadual de Juventude Negra do Espírito Santo – FEJUNES
  20. INSPIR – Instituto Sindical Interamericano Pela Igualdade Racial
  21. Instituto Búzios
  22. IPEAFRO – Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros
  23. Jornal Negritude
  24. Kwê Seja Dan – Sinha Mejito Kika De Gbessen
  25. Oriashé  – Sociedade Brasileira De Cultura E Arte Negra
  26. QUILOMBHOJE Literatura
  27. Coletivo de Entidades Negras/CEN
  28. Agência Popular de Fomento a Cultura Solano Trindade
  29. AMPARAR – Associação de Amigos e Familiares de Presos(as)
  30. ANEL
  31. Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais – ABGLT
  32. Associação De Favelas De São José Dos Campos
  33. Associação Nacional das Baianas de Acarajé e Mingau
  34. Banco Comunitário União Sampaios
  35. Bloco Saci Do Bixiga
  36. Campanha “Eu Pareço Suspeito?”
  37. Campanha “Por Que O Senhor Atirou Em Mim?”
  38. CEERT – Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades
  39. CEMOP-Centro Evaldo Macedo de Mobilização Popular
  40. Centro Acadêmico de Histária –  USP
  41. Centro Acadêmico Guimarães Rosa
  42. Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos
  43. CMP – Central dos Movimentos De Moradia
  44. Cojira-SP – Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial
  45. Coletivo Arrua
  46. Coletivo de Poetas e Poetizas Marginais De Altamira (Xingu E Transamazônia)
  47. Coletivo Quilombo – EPS
  48. Comitê de Igualdade Racial e Combate ao Racismo dos Metalurgicos do ABC
  49. Comunidade Cultural Quilombaque de Perus
  50. CONAJIR (Coletivo Nacional de Juventude pela igualdade Racial)
  51. Consulta Popular
  52. DCE-UFSCar
  53. DCE-USP
  54. ECLA – Espaço Cultural Latino Americano
  55. Escola de Governo
  56. Esquerda Popular Socialista – São Paulo
  57. Federação de Estudantes de Agronomia do Brasil – FEAB
  58. FLACSO – Faculdade Latinoamericana de Ciências Sociais
  59. Frente Perspectiva Mackenzie
  60. Gt Nacional do Movimento Mudança
  61. Imagem da Vida
  62. INESC – Instituto De Estudos Sócioeconomicos
  63. Instituto Palmares de Promoção da Igualdade
  64. Instituto Práxis
  65. INTERSINDICAL-BA
  66. IPJ – Instituto Paulista De Juventude
  67. JSOL
  68. Juntos
  69. Juventude do PT
  70. Juventude LibRe – Liberdade e Revolução
  71. Levante Popular da Juventude
  72. Mães De Maio
  73. Mandato Deputada Estadual Leci Brandão
  74. Mandato Deputado Estadual Adriano Diogo
  75. Mandato Deputado Federal Ivan Valente
  76. Marcha Mundial De Mulheres
  77. MLB –  Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas
  78. MMM-RJ
  79. Movimento de Olho na Justiça – MOJUS
  80. Movimento Mulheres em Luta
  81. Movimento [email protected]
  82. Movimento Primavera
  83. Movimento Unidade na Luta – JPT
  84. MST
  85. Na Margem (Núcleo de Pesquisas Urbanas da UFSCar)
  86. Neab-UFSCar (Núcleo de Estudos Afro-brasileiros da Universidade Federal de São Carlos)
  87. Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania de Marília
  88. Núcleo de Estudos do Capital – PT/SP
  89. Plataforma dos Movimentos Sociais Pela Reforma Política
  90. Rede 2 De Outubro
  91. REDE ECUMÊNICA DA JUVENTUDE
  92. Rede Emancipa
  93. Refundação Comunista
  94. Secretaria Municipal De Juventude Do PT São Paulo
  95. Secretaria Nacional De Juventude Do PT
  96. Sindicato dos Advogados de São Paulo
  97. SINTAEMA – Sindicato Dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente de São Paulo
  98. Tribunal Popular e Comitê pela Desmilitarização da Polícia e da Política
  99. UJS – União Da Juventude Socialista
  100. UNIÃO DOS MOVIMENTOS DE MORADIA – UMMSP
  101. União Nacional dos Movimentos De Moradia
  102. União Popular de Mulheres de Campo Limpo e Adjacências
  103. WAPI Brasil
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Escrita da história

Higienópolis experimentou um Rolezinho de negros em 2012

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Por Douglas Belchior

O racismo não obedece a datas festivas, não tira férias, não deixa descansar. Talvez por se tratar de um período em que “quem pode mais” usufrui de sua sorte com mais intensidade, a repressão torna-se mais efetiva contra aqueles que teimam atrapalhar o sossego das “pessoas de bem”.

As festas de fim de ano e o verão de 2014 nos veio acompanhadas da tragédia da realidade das prisões brasileiras, com o triste exemplo de Pedrinhas, no Maranhão e nos trouxe também uma outra novidade: o advento dos rolezinhos nos shoppings, promovidos pelos “vândalos” do momento: a juventude funkeira.

Tenho na memória a iniciativa de um grupo de manifestantes que no ano 2000 organizou uma ocupação em um grande shopping da zona sul carioca, que deu origem ao Documentário Hiato. Mas para quem acompanha a luta dos movimentos sociais brasileiros, ver o escândalo causado pela presença de agrupamentos de jovens negros e brancos (quase pretos de tão pobres), é impossível não se lembrar de um dos momentos mais emblemáticos da luta antirracista em São Paulo: a ocupação do Shopping Higienópolis pelo movimento negro no verão de 2012, mais precisamente no dia 11 de Fevereiro daquele ano.

Depois de uma concentração e um rápido ato em frente a Igreja no Largo de Sta. Cecília, uma multidão de maioria negra caminhou pelas ruas do bairro “higiênico”, provocando olhares, sorrisos e buzinas, ora de aprovação ora de desaprovação, o que pouco importava naquele momento.

Dentre todas as palavras de ordem e cantos entusiasmadamente proferidos pelo coro, parte do poema “Negro Homem, negra poesia”, de escritor baiano José Carlos Limeira, se transformou num mantra do movimento negro paulista:

Por menos que conte a história

Não te esqueço meu povo

Se Palmares não existe mais

Faremos Palmares de novo

O exército dos que nunca dormiram entrou, não para consumir nem saquear, mas para causar, para exibir os cabelos, as roupas, o som, em bando, falando alto, empinando o nariz, assim como os Funkeiros de agora. Embora pareça uma comparação politicamente desproporcional, o efeito e o choque com a simples presença de corpos negros em um lugar não programado ou não permitido é o mesmo!

Lojas fechavam as portas, pudicas senhoras fugiam em desabalada carreira rumo às saídas de emergência: “Chamem a polícia!” “Arrastão! Arrastão!”

Impagáveis os depoimentos registrados pela Folha de São Paulo:

Fiquei com medo que saqueassem a loja, podia ter tiros, morte. São uns vândalos, vagabundos

Achei ridículo esse negócio de racismo. Onde é que está? Veja a quantidade de seguranças e empregados negros

Qualquer semelhança com as reações de hoje aos rolezinhos do funk não é mera coincidência. A multidão “consciente” e “politizada” que ocupou o shopping Higienópolis naquela tarde chuvosa de 11 de fevereiro de 2011 é parte do mesmo corpo da multidão funkeira que hoje afronta os cara-pálidas com sua presença física, com sua roupa, com seu som. Tudo isso, intencional ou não, profundamente político e contestador por sua própria natureza.

O Contexto

 

Vivíamos um momento de unidade dos diversos grupos do movimento negro, movimentos sociais e estudantis que constituíam o Comitê Contra o Genocídio da Juventude Negra. A motivação para a mobilização se deu por conta de um contexto que na época chamei de “Avalanche racista ou racismo revelado”, em texto publicado pela Rádio Agencia NP.

A conjuntura reunia a revolta por uma série de acontecimentos seguidos: a ação truculenta da PM dirigida aos dependentes químicos na Cracolândia; expulsão de um menino etíope, filho adotivo de um casal de turistas espanhóis, de dentro do fino restaurante Nonno Paolo no bairro do paraíso em São Paulo; a prisão irregular do jovem negro e agente de saúde Michel Silveira, confundido com um assaltante; a ação truculenta de um PM contra um jovem negro dentro da USP; a revolta pela violenta reintegração de posse do Pinheirinho, em São José dos Campos; e o caso da jovem funcionária negra da escola Anhembi Morumbi que foi pressionada por sua chefe a alisar o cabelo.

Era necessária uma ação de impacto em um espaço que fosse símbolo do status quo e da hipocrisia das elites brancas – com perdão a redundância. A escolha do Shopping Higienópolis fez todo sentido afinal, trata-se de um bairro que carrega em sua história e no próprio nome a confissão do racismo brasileiro. E ainda era fresca a memória do Churrascão da Gente Diferenciada, promovido em protesto contra abaixo-assinado de 3 mil moradores de Higienópolis que pedia ao governo do Estado que não construísse ali uma estação de metrô para não atrair gente pobre – ou, como preferiram chamar, “diferenciada”.

Sobretudo era necessário que a ação se caracterizasse como um ato promovido pelos negros e com uma pauta que não tergiversasse com desculpas habituais para a explicação dos conflitos e desigualdades sociais. Cada um daqueles acontecimentos que motivaram a ação foram e são decorrências do racismo estrutural brasileiro, bem como fora registrado em nosso manifesto, escrito a tantas mãos. Vale muito a pena ler.

Neste sábado o Brasil viverá um dia de rolés em diversos Shoppings. Bom passeio pra nós!

 

Registro da concentração em frente a Igreja no Largo de Santa Cecilia – Centro – SP

Registro Histórico da Ocupação do Shopping Higienópolis

 

Chamado do ATO de 11 de Março de 2012

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Vagas para negros em concursos podem estar entre primeiros itens da pauta na Câmara em 2014

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Da Agência Brasil

Brasília – O projeto de lei (PL 6738/13) que reserva 20% das vagas em concursos públicos federais para negros e pardos pode ser uma das primeiras matérias analisadas pelos deputados federais quando retomarem as atividades no dia 2 de fevereiro. O texto foi um dos últimos aprovados antes do recesso de final de ano na Comissão de Direitos Humanos (CDH), mas ainda precisa passar pela Comissão de Constituição e Justiça e pelo plenário antes de seguir para o Senado.

Como o texto foi enviado pelo governo com urgência constitucional, o prazo para análise em cada Casa é 45 dias. Assim, o projeto de lei trancou a pauta da Câmara no dia 23 de dezembro sem sequer ter passado pelo crivo do último colegiado: a CCJ.

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O objetivo do Executivo é garantir a reserva por dez anos. Mas a regra, sugerida pela Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), valerá apenas quando o texto for sancionado. Para isso, a proposta ainda precisa passar pela análise do Senado, que poderá alterar alguns itens.

Na Câmara, os parlamentares decidiram incluir uma emenda para que a reserva de vagas também seja aplicada na ocupação de cargos comissionados no funcionalismo público. O relator da matéria na CDH, deputado Pastor Marco Feliciano (PSC-SP), defendeu a novidade e explicou que os cargos comissionados correspondem a 70% do quadro de funcionários e, por isso, mesmo sendo ocupados por iniciativa de gestores por um período temporário, “não faz sentido deixá-los fora do alcance de uma política de ação afirmativa”.

Pela proposta aprovada, ainda ficou definido que, dentro da reserva de 20% do total de vagas, 75% devem ser ocupadas por negros que estudaram em escolas da rede pública de ensino.

O projeto defendido pelo Planalto garante que, além das vagas reservadas, os negros também podem concorrer àquelas destinadas à ampla concorrência em concursos para órgãos e entidades da administração pública federal, autarquias, fundações públicas, empresas públicas e sociedades de economia mista controladas pela União.

Edição: Talita Cavalcante