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Cultura

Programa Nação traz cinema negro e Joel Zito

Por Douglas Belchior

 

Na próxima sexta feira teremos mais um Programa Nação, apresentado pela jornalista Fernanda Carvalho.

No finalzinho de Junho/13, na gravação do programa Na Moral, que debateu – só que não – o racismo, tive a honra de conhecer pessoalmente e trocar ideias com Joel Zito de Araújo, militante incansável nas artes e no combate ao racismo que, sempre que tem oportunidade, deixa registrado seu recado sobre a vocação racista da TV e do Estado brasileiro.

Mas não só por Joel Zito, mas por todo conteúdo, é que vale muito a pena assistir o próximo programa NAÇÃO, nesta sexta-feira, dia 29 de Agosto, às 22h00, na TV Brasil.

 

Zózimo Bulbul no filme "Em Compasso de Espera" (1969).

Cinema Negro

 

Nação confere o Encontro de Cinema Negro Brasil, África e Caribe e conversa com o curador Joel Zito de Araújo, além de cineastas brasileiros cujas produções foram destaques no Festival.

Zózimo Bulbul no filme “Em Compasso de Espera” (1969).“O audiovisual é o que se tem de mais avançado como meio de comunicação entre os povos da terra. O cinema é uma arma, nós negros temos uma AR15 e com certeza sabemos atirar.”  As palavras são de Zózimo Bulbul, o primeiro negro brasileiro a beijar uma mulher branca em frente às câmeras, no longa Compasso de Espera, de Antunes Filho, no início da década de 70.

O filme trouxe o ator e cineasta como protagonista, interpretando o poeta negro Jorge de Oliveira.

Nação relembra a trajetória de Zózimo, fundador do Centro Afro-carioca de Cinema, que realizou este ano o Sétimo Encontro de Cinema Negro Brasil, África e Caribe, criado por Zózimo Bulbul em 2007.

Zózimo Bulbul morreu no ano passado, mas ele e o Festival se tornaram referência no Brasil e no mundo. Este ano, o evento reuniu cineastas de diversos países da África, do Caribe e do Brasil.

Apresentação: Fernanda Carvalho
Produção Executiva: Vera Cardozo
Apoio à produção: Miriã Isquierdo
Estagiária: Jéssica Laine Andrade da Silva

Abaixo episódio sobre a cultura Rastafari, que foi ao ar na semana passada

 

 

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Mobilização

Docentes do Brasil e do mundo dizem não ao despejo de 8 mil famílias em Belo Horizonte

 

Por Douglas Belchior

A questão da terra e da moradia, em especial nas grandes e médias cidades, tem sido motivo de grandes mobilizações no último ano. O MTST, a mais visível das organizações, bem como diversas outras articulações de Sem Teto, tem radicalizado e demonstrado o quanto a luta social é importante e trás ganhos coletivos à classe trabalhadora.

Já o Estado, em resposta às necessidades da população mais pobre, ao invés do diálogo, coloca seu seu aparato jurídico e militar a serviço da repressão e da criminalização desses movimentos. Mas isso não é “privilégio” de São Paulo. Em todo o Brasil, movimentos e ocupações de Sem Teto insurgem em luta. Nesse momento ganha notoriedade as ocupações de Sem Teto da região do Isidoro, em Belo Horizonte-MG.

Ameaçadas de despejo, as ocupações de Vitória, Rosa Leão e Esperança, região norte de BH, se mobilizam provocam solidariedade do Brasil e do exterior. Todos nós podemos e devemos nos juntar à resistência dos moradores na região do Isidoro!

Resiste Isidoro! Nós resistiremos com vocês!

CIA FINANCAS

 

 

MAIS DE 500 DOCENTES DO BRASIL E DO MUNDO DIZEM NÃO AO DESPEJO DE 8 MIL FAMÍLIAS EM BELO HORIZONTE

Por Movimento #ResisteIsidoro

A ameaça de colocar 8.000 famílias na rua, contando entre elas um grande número de crianças e idosos, trouxe à tona o antigo calcanhar de Aquiles que constitui a questão da destinação dos territórios que não cumprem nenhuma função social e o tratamento dispensado aos alijados do direito à moradia no Brasil. No dia 6 de agosto deste ano, o Estado de Minas Gerais comunicou oficialmente uma ordem de despejo violenta às ocupações Vitória, Rosa Leão e Esperança, da região do Isidoro, que compreende o norte de Belo Horizonte e parte de Santa Luzia. Dividem a questão interesses imobiliários que chegam ao faturamento de 15 bilhões de reais e uma comunidade tão numerosa como nossas cidades interioranas constituída por trabalhadores pobres que lutam para que seja reconhecido seu direito à moradia. São elas pessoas que, numa cidade com um déficit habitacional de mais de 78 mil moradias, se encontram em grande parte inscritas no programa Minha casa Minha Vida que, até hoje, não entregou apenas uma única habitação destinada a pessoas para a faixa salarial a qual pertencem: de 0 a 3 salários mínimos.

Sem diálogo ou tentativas de exaurir possibilidades de resolução do problema, viabilizando contrapartidas que respeitem a dignidade e os direitos das famílias (à vida, moradia, segurança e dignidade), uma mobilização articulou-se em busca de alcançar outras respostas por parte do poder público. Dessas frentes de apoio participam moradores das ocupações, ativistas dos Direitos Humanos, artistas, membros da Igreja Católica, jornalistas, arquitetos, advogados e também professores universitários. Estes, tendo produzido um “Manifesto de docentes em solidariedade às Ocupações do Isidoro”, destacamos em razão de seu alcance que ultrapassou as fronteiras da cidade e do estados envolvidos. Somam hoje mais de 500 assinaturas de docentes de áreas diversas do conhecimento, vinculados a universidades destacáveis do Brasil e do mundo. Entre eles estão a historiadora Virgínia Fontes, os sociólogos Boaventura de Sousa Santos e Ricardo Antunes e o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro que, como figuras pensantes que transitam por questões afins e diretamente ligadas à situação, confirmam a legitimidade das demandas sociais urgentes dessas ocupações.

A Pró-Reitora Adjunta de Extensão da UFMG Claudia Mayorga fala sobre o manifesto: “Através de trabalhos acadêmicos de diversas áreas do conhecimento, das Humanidades às Ciências Exatas, docentes em todo o Brasil têm difundido conhecimentos que explicitam a situação de precariedade e de violação de direitos humanos vividos por moradores de ocupações em diversas cidades brasileiras. Esses trabalhos explicitam a violência material e simbólica a que estão submetidas essas populações, e como docentes e cidadãos nos posicionamos contra essas práticas, através do manifesto.”

Em avaliação do panorama, o sociólogo Ricardo Antunes, professor da UNICAMP, acrescenta ainda: “Dentre tantas outras manifestações, como a precarização e o desemprego, que procuram converter a classe trabalhadora em ‘coisas supérfluas’, ‘desnecessárias’, a brutal desigualdade social, com a consequente riqueza concentrada em poucas mãos, criou o que, com lucidez, Mike Davis denominou como planeta-favela, com as cidades separadas entre ricos e pobres, mansões fechadas em seus condomínios privados e monumentais e, de outro lado, as favelas completamente desprovidas de mínimas condições de vida humana. E, com a ampliação das ‘áreas nobres’ para todas as partes, os pobres são empurrados ainda mais para a periferia da periferia… acentuando mais este traço da nossa barbárie. É contra essa brutal tragédia e segregação urbana e social que as ocupações populares se revoltam e se rebelam, expondo o enorme fosso social existente em nosso país e que tem que ser profundamente combatido”

Leia na íntegra o manifesto (disponível em português, espanhol e inglês) e assine-o através do link:  http://migre.me/l56PA.

 

MANIFESTO DE DOCENTES EM SOLIDARIEDADE ÀS OCUPAÇÕES DO ISIDORO

Um iminente despejo, de proporção ainda mais exorbitante que o ocorrido em 2012, no Pinheirinho, na cidade de São José dos Campos/SP, ameaça mais de 8 mil famílias, no estado de Minas Gerais. Trata-se das ocupações Esperança, Vitória e Rosa Leão, todas localizadas na região de Mata da Granja Werneck, no Bairro Isidoro, em Belo Horizonte. O histórico de despejos ocorridos em diferentes estados brasileiros nos últimos anos torna temerário o cenário de reintegração de posse das terras onde se encontram tais ocupações. Há uma grande preocupação de que normas nacionais e internacionais, que garantem uma série de direitos e proteção às famílias do Isidoro, sejam desrespeitadas; além de desalojamento forçado e violento, o qual atenta contra a vida dos moradores, entre os quais há um grande número de mulheres, crianças e idosos.

Nós, docentes abaixo-assinados, viemos por meio deste manifesto solicitar às autoridades responsáveis que prezem pelo direito fundamental à vida, à moradia, à dignidade humana e à segurança. Diversos trabalhos de extensão e pesquisa tem sido realizados em todo o Brasil e amplamente divulgados através de artigos, teses, dissertações, monografias, etc. e revelam que a violação dos direitos humanos tem ocorrido de forma sistemática por meio de intervenções das políticas urbanísticas implementadas de forma autoritária em diversas cidades brasileiras. A especulação imobiliária não pode se sobrepor aos direitos humanos das famílias que fizeram do Isidoro o seu abrigo e a sua comunidade. Exigimos que os poderes judiciário e executivo observem o direito das populações pobres, que não devem ser criminalizadas e/ou punidas por materializarem o seu direito fundamental à moradia, invibializado por um histórico político e econômico de beneficiamento de especuladores.

Os docentes, de todas as áreas do conhecimento, que assinam este manifesto, acreditam que a ciência e a educação produzidas neste país têm por objetivo a eliminação da desigualdade social, não apenas formal, mas substancialmente. Assim, rechaçam qualquer decisão que viole os direitos fundamentais dos moradores do Isidoro e configure um novo massacre às populações pobres e sem teto deste país.

[email protected] [email protected] Isidoro!

#ResisteIsidoro

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Genocídio Negro racismo

Confirmado protestos contra o genocídio do povo negro em todo o Brasil

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Por Douglas Belchior

Em todo Brasil, em grande parte das capitais brasileiras e incontáveis outras cidades do país, negras e negros, autônomos e independentes realizarão nesta sexta-feira, dia 22 de Agosto, a II Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro

A partir da Bahia, a resistência organizada pelo Quilombo X e pela Campanha Reaja ou será morto, Reaja ou será morta, contagiou organizações negras em todo país e o resultado é a construção de um grande momento de mobilização de protesto. 

Em São Paulo,  a luta contra o genocídio negro protagonizada pela Uneafro-Brasil, MNU, Circulo Palmarino, NCN-USP, Levante Popular da Juventude, Mães de Maio, Kilombagem, Força Ativa, Posse Hausa, entre outros, já alcançou importantes resultados, como o Fim dos Autos de Resistência no Estado, mas ainda assim a violência policial e o índice de assassinados promovidos pelo aparato militar só aumenta. 

Para se ter uma ideia, só em São Paulo, de 2002 para 2011 houve um aumento de 24% de morte de jovens negros, um crescimento de 11.321 para 13.405. Com esse diferencial, a vitimização de jovens negros passa de 71,6% em 2002 para 237,4%. A violência nos três primeiros meses de 2014 em comparação a 2013 apresentaram um aumento de 206,9% do número de pessoas mortas por policiais em serviço. O aumento sistemático de extermínios é uma das faces do genocídio do qual falamos. 

O Mapa da Violência 2014  também releva dados estarrecedores que só reafirmam a guerra do Estado contra o povo negro brasileiro. Segundo o estudo, 100 em cada 100 mil pessoas de com idade entre 19 e 26 anos morreram de forma violenta em 2012. Negros são os principais alvos destas mortes: morreram proporcionalmente 146,5 mais de negros que brancos em 2012. No período entre 2002 e 2012 o índice de mortes negras em comparação com a de brancos, mais que duplicou.

Entre 2002 e 2012, os homicídios que vitimaram jovens brancos caiu 32,3%, enquanto que os homicídios de jovens negros aumentou 32,4%. Para além dos acidentes de transito, barco ou avião e da própria violência civil, que carrega em sim o racismo cultural como uma herança dos quatro séculos de escravidão, o principal motivador de tal desta necro-seletividade foi a radicalização de “políticas públicas de enfrentamento à violência” que investiu seu aparato para a proteção à vida em territórios brancos e direcionou seu armamento para os territórios majoritariamente ocupados por negros.

Não faltam motivos para marchar e exigir reparação histórica à população negra. Nas palavras de Hamilton Borges, esta marcha é “contra a brutalidade policial, contra o esculacho da polícia nos ambientes onde negros são maioria, contra o super encarceramento, contra a política proibicionista que justifica a violência e homicídios praticados por policiais e grupos de extermínio, contra as políticas do governo que sob a justificativa de combater a violência, gera mais repressão, militarização e punição, o que reforça o Estado de Direito Penal e enche as cadeias de mais e mais pessoas negras.” 

A vida real é difícil para todos, mas há explícitos requintes de crueldade no tratamento dispensado à população negra por parte do Estado Brasileiro. É propositada a maneira como o Estado trata a população mais pobre, de maioria negra, negando a ela direitos básicos como saúde, educação, moradia, cultura, transporte, aposentadoria e segurança. “O corpo negro habita a zona da morte (física, simbólica, ontológica)…”, para lembrar palavras do Prof. Jaime Amparo, “… E, quando as balas da polícia o atingem, sua eliminação física é “apenas” a reiteração de múltiplas mortes.  É possível concebermos a ideia de alguém morrer várias vezes?” 

Acompanhe a Marcha nos Estados

(Favor confirmar demais locais/horários através do email: [email protected])

Salvador-BA

Quartel dos Aflitos | A partir das 14h00

São Paulo – SP 

Vão do MASP | Av. Paulista | A partir das 17h

Fortaleza – CE

Praça da Serrinha | Rua Betel | 15h00

João Pessoa – PB

Av. Presidente Getúlio Vargas 450 | 15h00

Vitória-ES 

Tancredão | 15h00

Aracaju-SE

Praça da Bandeira | 15h00

Poços de Caldas – MG 

Praça Doutor Pedro Sanches | 14h00

Distrito Federal-DF

Praça Zumbi dos Palmares | Em frente ao CONIC | A partir das 14h00

Rio de Janeiro – RJ

Estação de Trem Manguinhos | Leopoldo Bulhões | 14h00

Porto Alegre-RS

Largo dos Enforcados | Praça Brig. Sampaio | 16h00

Curitiba – PR

Praça Santos Andrade | Curitiba | 18h00

Florianópolis – SC

Av. Beira-mar norte | Em frente ao Koxixos | 09h00

Maceió – AL

Praça dos Martírios | Centro | a partir das 15h00

Campina Grande – PB 

EEEF Monte Carmelo | Pedregal | 14h00

Manaus – AM

Praça São Bento | Cidade Nova | 17h00

Belo Horizonte – MG 

Praça da Estação | a partir das 15h00

 

 

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racismo

Racismo nos EUA, no Brasil e no mundo: “O corpo negro habita a zona da morte”

Por Douglas Belchior

 

Jovem, negro, nordestino, migrante e morador das periferias da baixada santista, onde o índice de assassinatos promovidos por policiais e milicianos é dos mais altos do estado de São Paulo. Na contramão dos desejos juvenis, dedicou-se aos estudos em um cursinho pré-vestibular comunitário. Chegou à universidade. Formou-se em Jornalismo. A partir da ação política dos cursinhos, conquistou bolsa para mestrado nos Estados Unidos. Emendou um doutorado e se tornou um especialista sobre a questão racial nas Américas. Hoje, Jaime Amparo Alves é PhD, pesquisador visitante do Africana Research Center, Penn State University (EUA) e investigador associado do Centro de Estudios Afrodiasporicos (Universidad Icesi). É como um militante do movimento negro brasileiro, contudo, que Jaime descreve o levante negro que tomou as ruas de diversas cidades norte-americanas desde o assassinato do jovem negro Michael Brown. Vale a pena ler . E revoltar-se.

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De Ferguson a São Paulo: entre a zona do não-ser e a rebelião permanente

Jaime Amparo Alves*

Hesitei em escrever sobre o assassinato de Michael Brown, em Ferguson, no estado do Missouri, no ultimo dia 9 de agosto.  Não há nada de novo nas imagens televisivas de um jovem  negro de 18 anos abatido a tiros nas ruas de uma cidade onde quer que seja. Afinal, enquanto Brown era assassinado em Ferguson, no sul do continente outros jovens negros encontravam a morte nas mãos da polícia militar.

Do outro lado do Atlântico, a comunidade negra relembrava o Massacre de Marikana, quando em 16 de agosto de 2012 a polícia sul-africana assassinou 34 trabalhadores negros que protestavam por melhores salários. Estas e tantas outras mortes que ainda virão são a reiteração de uma “verdade racial” que não deixa dúvidas sobre  o lugar do corpo negro em “nossas” sociedades.

Talvez tenha sido Franz Fanon quem tenha melhor articulado em palavras a impossibilidade negra no mundo social. Para ele, nós negras e negros habitamos uma zona chamada “a zona do não-ser”. Somos,  por assim dizer, civilmente/socialmente mortos e é essa morte ontológica (a impossibilidade de sermos reconhecidos/as como parte da comunidade humana) o que faz possível a existência civil branca. Não é estranho, portanto, que a solidariedade na luta antirracista quase sempre resvala na impossibilidade branca de pensar no que Fanon chamou de “exclusividade recíproca”. Em suas palavras: “não é possível reconciliação porque, dos dois termos [o branco e o negro] um é supérfluo” (1963, 39). Qual?

Deixo para outra ocasião a questão da cumplicidade branca com a morte negra, um incisivo campo teórico – me vem a mente o inovador trabalho de Lourenço Cardoso – que tem se ocupado disso mostrando como os brancos lucram com suas identidades. Vou me ater a outro aspecto: a (im)possibilidade de resistir a violência do estado racial. Desde o sábado, quando Michael Brown foi assassinado, os Estados Unidos têm registrado revoltas urbanas que lembram os protestos “violentos” de Los Angeles, em 1992, quando as câmeras de vídeo flagraram policiais espancando um jovem negro nos subúrbios da cidade.

As revoltas nas cidades estadunidenses são um lembrete da ausência de espaço político para a questão negra dentro da chamada sociedade civil. Os canais tradicionais de manifestação aqui e lá não dão conta de responder aos desafios das pessoas negras. Na verdade, eles parecem parte do problema. Neste sentido, os protestos pacíficos dos brancos progressistas, e daqueles negros que conseguiram um “lugar” ao sol, se contrastam com as furiosas demonstrações de “basta” de uma juventude encurralada nos guetos.

Vale sublinhar o outro lado da América de Barack Obama: são pelo menos 2 milhões de pessoas encarceradas.  Em muitos dos subúrbios, há mais homens negros encarcerados do que nas universidades. As projeções mais otimistas dão conta de que em 2020 pelo menos 1 de cada 4 jovens negros estarão atrás das grades.

Segundo o National Poverty Center, pelo menos 15% dos estadunidenses estão na pobreza  e, de acordo com o Departamento do Trabalho dos EUA,  a taxa de desemprego entre os negros é de 11,4% (contra 6,2% da população em geral). Desnecessário dizer que a condição negra nos EUA reflete a situação em que se encontram os negros no Brasil, na Colômbia, na África do Sul, no mundo.

Aqui entre nós,  a polícia mata em proporções semelhantes à polícia sul-africana no período do apartheid; como na Colômbia, as mulheres negras ocupam o mesmo lugar do período colonial, na cozinha dos senhores brancos;  as nossas favelas são um espelho do regime de segregação racial sul-africano e estadunidense. O corpo negro habita a zona da morte (física, simbólica, ontológica) e, quando as balas da polícia o atingem, sua eliminação física é “apenas” a reiteração de múltiplas mortes.  É possível concebermos a ideia de alguém morrer várias vezes?

O que o assassinato de Michael Brown, Travin Martin, Claudia Ferreira, Amarildo Silva e tantos outros nos lembra é que a morte negra não é tragédia. Ela carece de um registro político para ser considerada como tal. Nem o Estado nem a sociedade civil podem nos ajudar nesse “registro” porque ambos fazem parte de um projeto racial que requer uma guerra permanente contra nós negras e negros.

É neste sentido que se tornam ridículos os termos do nosso debate (me incluo aqui) em torno de figuras negras que buscam salvar a República e extirpar os defeitos de nascença do estado, como se o corpo negro que ocupa tais espaços deixasse de ser lido a partir do registro da negação ontológica. Onde residiria a possibilidade de resistência para quem lhe é negada a possibilidade de ser?Existe, de fato, possibilidade de politizar a morte negra se a morte negra não ganha, perante a sociedade civil, o status de assassinato?

Como fica visível nas manifestações que tomam as cidades estadunidenses agora, que explodiram nos subúrbios de Paris em 2005, no bairro de Soweto, em 2012, e seguem nos levantes da juventude negra Brasil afora, a politização da morte negra só é possível a partir de uma prática radical e autônoma. A morte negra cria condições de possibilidades para uma comunidade política constituída na violência legítima, na dor e na raiva.

Como nos lembra João Costa Vargas, a diáspora africana é uma supra-geografia da violência e da resistência, um espaço do genocídio negro e da rebelião permanente. Oxalá estas e tantas outras mortes sejam, então, semente de uma comunidade política em que negras e negros, aqui e lá, se sintam responsáveis pela vida de cada um/a e de todos. Ferguson,  Capão Redondo,  Soweto, Aguablanca, Presente!

* Jaime Amparo Alves, PhD; É pesquisador visitante do Africana Research Center, Penn State University (EUA) e investigador associado do Centro de Estudios Afrodiasporicos (Universidad Icesi). É também militante da Uneafro-Brasil. Seus textos podem ser acessado sem: comraivaepaciencia.blogspot.com

 

 

 

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racismo Violência Policial

Protestos contra o racismo da polícia nos Estados Unidos: que nos sirvam de exemplo

Por Douglas Belchior

Um jovem negro é morto pela polícia. Algo corriqueiro no Brasil está provocando um dos maiores levantes populares dos últimos anos nos EUA.

Por aqui, o próximo dia 22 de agosto será de ação. Em todas as capitais do país, a partir de Salvador-BA, negras e negros devem ocupar as ruas na II Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro.

Que a radicalidade de negras e negros estadunidenses nos sirva de exemplo.

Abaixo, com tradução de Tomaz Amorim Izabel, uma matéria veiculada pela Aljazeera no último dia 15 de Agosto.

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Fonte: Aljazeera – Anna Lekas Miller

Tradução: Tomaz Amorim Izabel

Haverá responsabilização pela morte de Mike Brown?

Depois de seis dias de protestos que se seguiram aos tiros fatais no adolescente Michael Brown, disparados por um oficial de polícia do subúrbio de St. Luis em Ferguson, o departamento de polícia identificou o assassino de Brown. Darren Wilson, um veterano de seis anos da força policial, encontrou o adolescente depois de ter sido alertado de um assalto em uma loja de conveniência, afirmou o departamento de polícia na sexta-feira. Inicialmente, a polícia de Ferguson resistiu em revelar o nome de Wilson porque eles disseram que estavam preocupados com sua segurança.

Para defensores dos direitos civis, a revelação é o primeiro passo para seguir o chamado do Presidente Barack Obama na quinta-feira para uma investigação “aberta e transparente” sobre o assassinato de Brown, de 18 anos. Mas para os familiares das vítimas de violência policial, tal apelo à transparência parece muito frequentemente vazio.

Constance Malcolm diz que ela tem lutado por justiça para seu filho Ramarley Graham desde que o adolescente do Bronx foi morto por um policial à paisana de Nova York em Fevereiro de 2012. Graham, como Brown, era um afro-americano e estava desarmado quando foi baleado.

“Os últimos dois anos e meio têm sido difíceis para mim, ponto”, disse Malcolm em uma entrevista de telefone. “Eu fico aqui sentada, esperando por alguma responsabilização pelo meu filho, e ainda não consegui”.

Graham estava andando com amigos quando dois policiais o seguiram até em casa, entrando sem mandato, e atiraram nele em frente de sua avó e de seu irmão de 6 anos de idade. Richar Haste, o policial que atirou, disse que ouviu colegas dizerem no rádio que Graham tinha uma arma.

Embora Haste tenha sido indiciado por dois casos de homicídio culposo em uma corte criminal do Bronx naquele Junho, as acusações foram posteriormente abandonadas porque o promotor falhou em seguir o procedimento do júri. O Departamento de Justiça prometeu revisar a morte de Graham, mas um ano depois que a agência anunciou a possível investigação, seus pais dizem que não ouviram mais nada.

 “Em 8 de agosto completou um ano desde que eles iam, supostamente, olhar o caso e nós não ouvimos mais nada”, disse Malcolm. “Nossos advogados os contataram, eles têm telefonado, e mesmo assim nós não recebemos nenhuma resposta”.

Brown e Graham são apenas duas pessoas em uma longa lista de vítimas de violência policial – a imensa maioria deles jovens homens de cor. De acordo com um relatório de 2012 do Malcolm X Grassroots Movement, a cada 28 horas um homem negro é assassinado por um policial, segurança privado ou patrulheiro nos Estados Unidos. Apenas no mês de agosto, houve quatro assassinatos de homens negros desarmados: Eric Garner em Staten Island, Nova York; John Crawford em Beavercreek, Ohio; Brown; e mais recentemente, Ezell Ford em Los Angeles.

Embora muitos deste supostos crimes sejam investigados, através de investigações internas ou federais, os inquéritos raramente resultam em acusações. A punição mais comum, de acordo com os defensores dos direitos civis, é ser colocado em serviço administrativo.

“Nestes casos onde houve brutalidade policial, nós raramente vemos responsabilização porque a realidade é que o sistema de justiça local frequentemente trata estes oficias de maneira completamente diferente do que civis”, disse Priscilla Gonzalez, diretora de organização da Comunidades Unidas para Reforma Policial, um grupo de advogados.

Ela e outros advogados dizem que o caso de Garner, que sufocou até a morte em Julho depois de ter sido vítima de um enforcamento por um policial, demonstra os dois pesos e duas medidas. O médico que o examinou determinou que sua morte foi homicídio, mas não houve nenhuma prisão, e o grande júri não foi convocado. Daniel Pantaleo, o oficial que enforcou Garner, perdeu seu distintivo e foi colocado em serviço de escritório. (A polícia de Nova York não respondeu ao pedido de comentário no caso de Garner até o momento de publicação deste artigo).

“As lideranças no governo local, como os prefeitos da cidade de Nova York, não têm demonstrado vontade política de garantir que policiais sejam responsabilizados por qualquer que seja o sistema interno existente”, disse Gonzalez.

Embora o FBI tenha aberto uma investigação no caso de Brown nesta segunda-feira, não há garantia de que ela levará a alguma responsabilização, assim como aconteceu com Graham.

Apenas um ano depois do assassinado de Graham, Kimani Gray, de 16 anos, foi baleado fatalmente por um policial à paisana da polícia de Nova York na parte East Flatbush do Brooklyn. Gray estava andando para casa vindo de uma festa de aniversário quando foi baleado sete vezes, depois, de acordo com os policias, de ajeitar de forma suspeita seu cinto. Embora a polícia diga que ele estava portando uma pistola calibre 38, nenhuma arma foi encontrada no local do crime.

Assim como no caso da morte de Brown, o assassinato de Gray gerou dias de tensão, com cenas parecidas de manifestantes tomando as ruas e repressão brutal da polícia. Alguns meses depois, a Sociedade Muçulmana de Oficiais da Polícia de Nova York selecionou o Sargento Mourad Mourad, o policial que matou Gray, para ser homenageado como Policial do Ano por seu “trabalho policial ativo”, mesmo que ele ainda estivesse sob investigação. Por causa da pressão popular, Mourad se recusou a receber o prêmio e não participou do evento.

Em 29 de julho deste ano, um pouco mais de uma semana antes do assassinato de Brown, a polícia de Nova York fechou sua investigação sobre o caso de Mourad e seu parceiro, Jovaniel Cordova. Promotores federais informaram os advogados da família de Gray que as acusações não iriam contra os policiais e que o caso não iria ao grande júri. Assim como Haste antes dele, Mourad ficou livre.

Os oficiais Sean Williams e o sargento David Darkow, os policias que atiraram em Crawford depois que ele se recusou a abaixar a réplica de um rifle em um Walmart, atualmente estão em licença administrativa, mas o chefe da polícia de Beavercreek, Dennis Evers, mencionou que ele apóia a “resposta rápida” dos oficiais. O policial de Los Angeles que matou Ford não foi nomeado pela mídia.

Malcolm tomou em suas próprias mãos a busca por justiça. Em 8 de agosto, o primeiro aniversário desde a abertura das investigações sobre a morte de Graham e, coincidentemente, o dia antes do assassinato de Brown em Ferguson, ela começou a recolher assinaturas para uma petição que pressionará o Departamento de Justiça a seguir com sua investigação sobre a morte de Graham e a reunir um grande júri para indiciar Haste. Ela planeja entregar pessoalmente a petição para o Departamento de Justiça em 20 de agosto.

“Até que um destes oficiais que cometem crimes seja mandado para a cadeia pelo seu crime, isto vai continuar”, Malcolm diz. “Quantas pessoas depois de Ramarley nós temos visto? Não há nenhuma responsabilização destes policiais. Eles se safam de assassinatos todos os dias”.

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Genocídio Negro

Seminário sobre Genocídio Negro prepara Marcha do dia 22 de Agosto

EstadoMATA

Por Douglas Belchior

Em todo Brasil, em grande parte das capitais dos Estados incluindo São Paulo, Salvador, Rio de Janeiro, Vitória, Belo Horizonte e Porto Alegre, negras e negros, autônomos e independentes estão a todo vapor organizando a II Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro.

A partir da Bahia, a resistência organizada pelo Quilombo X e pela campanha Reaja contagiou organizações negras em todo país e o resultado é a construção de um grande momento de mobilização negra que culminará na II Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro, no próximo dia 22 de Agosto.

Em São Paulo, a luta contra o genocídio negro protagonizada pela Uneafro-Brasil, MNU, Circulo Palmarino, NCN-USP, Levante Popular da Juventude, Mães de Maio, Quilombagem, Força Ativa, Posse Haussa, entre outros, já alcançou importantes resultados, como o Fim dos Autos de Resistência no Estado, mas ainda assim a violência policial e o índice de assassinados promovidos pelo aparato militar só aumenta.

Para se ter uma ideia, só em São Paulo, de 2002 para 2011 houve um aumento de 24% de morte de jovens negros, um crescimento de 11.321 para 13.405. Com esse diferencial, a vitimização de jovens negros passa de 71,6% em 2002 para 237,4%. A violência nos três primeiros meses de 2014 em comparação a 2013 apresentaram um aumento de 206,9% do número de pessoas mortas por policiais em serviço. O aumento sistemático de extermínios é uma das faces do genocídio do qual falamos.

Neste próximo Domingo, dia 17/08, essas organizações promoverão o Seminário Contra o Genocídio do Povo Negro, com a presença de especialistas, intelectuais e militantes de movimentos sociais e do movimento negro. Para quem se preocupa com a guerra cotidiana que vivemos, vale a pena participar:

Seminário Contra o Genocídio do Povo Negro

Domingo | 17 de Agosto | a partir das 09h00

Local: Sintaema – Sindicato dos Trabalhadores da Água e Meio Ambiente de SP.

Próximo ao Metrô Armênia (saída para Rua Eduardo Chaves, posto de gasolina de esquina).

Programação:

Mesa – RACISMO, CAPITALISMO E LUTA DE CLASSES (9h às 12h)

Gevanilda Santos – organização Soweto/ CONEN
Weber L. Góes – professor, graduado em História (Fundação Santo André).


Almoço (12h às 13h30)


Mesa – VIOLÊNCIA DE ESTADO CONTRA A MULHER NEGRA (13h30 às 15h30)

Patrícia Chaves – Levante Popular da Juventude
Bia Sankofa – Força Ativa


GRUPOS DE DEBATE (15h30 às 17h30)

-Violência contra mulher negra 
-Violência Policial e Encarceramento em Massa 
-Direito à Moradia 
-Homofobia e Racismo: violência contra Afro-Lgbt
-Violência Institucional


SARAU CONTRA O GENOCÍDIO (à partir das 17h30)

Intervenção Cultural com microfone aberto.

Haverá espaço Lúdico para crianças com atividades pedagógicas durante o Seminário

Voluntá[email protected] serão bem [email protected]

 

 

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Cultura

Cultura Negra do Rio Grande do Sul para o Brasil

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Por Douglas Belchior

 

A TV brasileira sempre foi um antro de reprodução de valores conservadores, preconceituosos e depreciativos da cultura popular, sobretudo da cultura e da própria vida de negras e negros.

Poucos são os programas de TV que abordam com propriedade e de maneira a valorizar a contribuição dos africanos, africanas e seus descendentes para a formação da nação brasileira.

Daí a felicidade em conhecer o programa Nação, apresentado pela jornalista Fernanda Carvalho, que desde a faculdade foca seu trabalho na história e na cultura afrobrasileira. Ela é também editora do blog Em Negritto, que reúne entrevistas com personalidades negras e textos sobre a discriminação racial. A jornalista também produziu e apresentou o Dica de Beleza no programa É Geral, veiculado pela TVE.

O Nação apresenta temas relacionados à história, à cultura e à diáspora africana, sobretudo com o objetivo de desfazer a imagem errônea de que no Estado do Rio Grande do Sul não houve uma herança e uma contribuição extremamente significativas da população negra. Com foco na ressignificação histórica e cultural gaúcha, também visa contribuir como subsídio à implementação da Lei 10639, em busca da Educação das Relações Étnico-raciais, e propõe uma reflexão sobre os valores e conceitos civilizatórios da ancestralidade africana.

O Programa vai ao ar todas as segundas na TVE-RS canal 7, e é exibido para todo Brasil todas às sextas-feiras às 22h00 pela TV Brasil.

Este Blog NegroBelchior passará, a partir desta semana, a divulgar este importante trabalho de fomento à cultura afrobrasileira.

Nesta sexta-feira, dia 15 de Agosto, às 22h00 irá ao ar o quarto e último episódio da série “Beleza Negra”, que tratará de questões de gênero e identidade da mulher negra. 

Os episódios anteriores estão disponíveis no site do Nação. Abaixo, episódio 3, que debateu a questão da mulher negra como objeto sexual.

 

 

 

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Política

Dinheiro, eleições e a reforma política

Por Douglas Belchior 

Não deveria, mas me pareceu sim absurda a informação – tida como natural, de que três empresas – JBS, dona da Friboi, cervejaria Ambev e Construtora OAS seriam responsáveis por 65% das “doações” às campanhas à presidência da república.

Sei que não cabe romantismo na “real politic” brasileira. Bater no portão da casa, bairro adentro; megafone em feira livre; porta de fábrica em desacordo com o patrão… isso tudo ficou no passado. Há muitos anos as disputas eleitorais são, antes de qualquer coisa, disputas econômicas. Raras – ainda que existentes – são as exceções.

Montanhas de dinheiro somadas à distribuição desproporcional do tempo de televisão são determinantes para colocar para a sociedade quais são as candidaturas “viáveis”.

Triste de ver.  Triste perceber a fragilidade da tão exaltada democracia brasileira.

E lá estará o Congresso nacional, com seus 80% de representantes diretos do empresariado, dos latifundiários e agronegócio, das religiões e de setores econômicos hegemônicos; Lá estará o Congresso, vazio da representação da população trabalhadora, negra, mulheres, Lgtb’s e indígenas. E lá estarão eles, Dilma com PMDB, Campos com Marina e Aécio com a extrema direita, disputando quem será o prestador de serviços da alta burguesia nacional e internacional pelos próximos 4 anos. Será esse nosso destino, uma vez mais?

Fogo! Prédio abaixo! Revolução! E tudo do zero. Mas enquanto não acontece, a reforma política me parece algo extremamente necessário, não acham?

Abaixo uma análise do Jornal Brasil de Fato, para nos provocar a reflexão.

 

 

reforma

12/08/2014

A campanha eleitoral e a necessidade de uma reforma política

Editorial da Edição 598 do Jornal Brasil de Fato

Os partidos fizeram as convenções e escolheram seus candidatos. As alianças entre eles estão feitas, sem nenhum critério ideológico ou qual­quer compromisso com a classe tra­balhadora. Tudo em nome do prag­matismo da vitória eleitoral e de al­guns segundos na televisão. Portan­to, a corrida eleitoral já começou. E os métodos manipuladores de sem­pre, também.

Os candidatos registraram o que pretendem gastar. Os três principais presidenciáveis vão gastar, somados, a bagatela de 1 bilhão de reais. E a so­ma de todos os candidatos a senado­res e a deputados, registraram a in­tenção de gastar 4 bilhões de reais, destes, 85% serão supridos por ape­nas 117 grandes empresas, em sua maioria empreiteiras, bancos e algu­mas indústrias. E claro, sempre have­rá algum doleiro generoso no meio.

Esse valor fica atrás apenas da cam­panha dos Estados Unidos. Nada mau, para um país que é a oitava eco­nomia mas está em terceiro em pior desigualdade social do mundo! Ou seja, a sociedade brasileira é tão rica que pode se dar o luxo de gastar essa dinheirama em apenas dois meses de campanha, com marqueteiros, con­tratação de pessoas, showsde músi­ca, banners, santinhos e outras por­carias. Os jornais publicaram que já foram contratados mais de 60 mil pessoas, apenas para atuar na inter­net e na campanha digital. Uma ver­gonha!

Por outro lado, o senador João Ca­pibaribe (PSB-AP), antigo militan­te da esquerda, entrou com um Pro­jeto de Lei no senado para limitar os gastos das Assembleias Legislativas estaduais e os tribunais de conta es­taduais, que deveriam fiscalizar seus gastos. O senador descobriu que os gastos anuais dessas duas institui­ções, nada democráticas, somam 9, 4 bilhões de reais para deputados esta­duais e outros 5,1 bilhões de reais pa­ra os ilustres conselheiros das contas públicas. São 14,5 bilhões por ano, para nada. Descobriu que os gastos com diárias e passagens dos nobres parlamentares somam bilhões de re­ais, tudo desviado para atender in­teresses particulares. Descobriu que um deputado no Acre,custa ao po­vo 4,7 milhões de reais por ano, e no Rio de Janeiro custa 15,9 milhões de reais por ano.

Tudo isso são apenas sinais da fa­lência do modelo político brasilei­ro. Há uma clara crise de representa­ção política. Crise e hipocrisia na ho­ra dos partidos escolherem os candi­datos. Crise na forma de financiar as campanhas, em que as grandes em­presas sequestraram a democracia brasileira, com seus caixas 2. Crise, na forma de fazer as campanhas, que não motiva mais ninguém. Basta lem­brar que, segundo o TSE, apenas 27% dos jovens com 16 anos fizeram o tí­tulo de eleitor esse ano.

Crise porque os candidatos não dis­cutem os problemas do povo brasilei­ro e suas causas. Não discutem pro­jetos para o país. Embora, por trás de cada um deles, de forma dissimulada, se encontrem interesses e projetos de classe. Infelizmente, a ampla maio­ria só defende os interesses da bur­guesia. Ou seja, esse tipo de regime político e de campanha só interessa à burguesia, que se utiliza desses méto­dos para controlar o Estado brasileiro e suas instituições.

Diante de tudo isso, os movimen­tos sociais, desde as pastorais até o movimento sindical, estão conven­cidos que somente uma reforma po­lítica, profunda – que vá além do fi­nanciamento das campanhas, da for­ma de eleger e que inclua mudanças na forma de funcionarem os partidos, os candidatos, o poder judiciário e o controle sobre os meios de comunica­ção –, pode de fato recuperar a demo­cracia representativa no Brasil.

Por isso, já estão organizados mais de mil comitês populares por todo o país, fazendo trabalho de conscienti­zação da população sobre a necessi­dade de uma reforma política. E farão um Plebiscito Popular, para que o po­vo se manifeste se é a favor da convo­cação de uma assembléia constituinte soberana e exclusiva, que faria as mu­danças políticas necessárias.

Os resultados do plebiscito popular serão levados aos Três Poderes insta­lados em Brasília – Executivo, Legis­lativo e Judiciário. E levarão também ao Jardim Botânico, no Rio de Janei­ro, onde está instalado o quarto po­der: a mídia burguesa – Rede Globo.

E a partir da pressão popular, se encaminhará a proposta de um de­creto legislativo que convoque, para o primeiro semestre de 2015, um ple­biscito formal, legal, para que toda população decida, se é necessário ou não a convocação de uma Assembleia Constituinte soberana. Ou seja, elei­ta de acordo com a vontade do povo, sem dependência econômica das em­presas. E exclusiva, ou seja, indepen­dente, separada do Congresso que se­rá eleito em outubro deste ano.

O Brasil de Fato, como veículo comprometido apenas com a classe trabalhadora, com os movimentos so­ciais, se soma nessa campanha de lu­ta por uma reforma política ampla e na luta popular para conquistá-la.

 

 

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racismo

“Brancos e negros se beneficiam da diminuição da desigualdade”

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Por Candeia BlogEliézer Giazzi

Por que ainda somos racistas? Embora o número de negros ultrapasse o número de brancos, segundo Censo 2010, o racismo ainda é um dos males que mais prejudica a população negra no Brasil. A pesquisa Participação, Democracia e Racismo?, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgada em 2013, apontou que, a cada três assassinatos no País, dois vitimam negros. Quando se fala em cotas raciais, então, a polêmica é ainda maior. Será que existem pessoas que, como em séculos passados, ainda se beneficiam do racismo?

O Candeia Blog trouxe para o canal DoisP desta semana o advogado, mestre e doutor em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela USP e presidente do Instituto Luiz Gama Silvio Luiz de Almeida para explanar sobre o racismo ainda muito presente no Brasil e esclarecer sobre a política de cotas raciais em diversos setores da sociedade.