Categorias
racismo

A Bahia está mergulhada num mar de sangue

foto lena azevedo2

Postura radical é inaceitável para policiais acostumados a chutar negros

Por Paula Farias, Jorge Américo e Douglas Belchior

Em entrevista exclusiva, Hamilton Borges comenta as perseguições sofridas após a realização da II Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro. Reação contra o racismo e a violência estatal virou incômodo para o Estado.

Desde o dia 22 de agosto de 2014 ficou mais difícil ao Estado brasileiro esconder os mortos e encarcerados que antes não passavam de números para as organizações de direitos humanos e para os institutos de pesquisas. Esta é a avaliação de Hamilton Borges, um dos organizadores da II Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro, que colocou mais de 60 mil pessoas nas ruas para denunciar o racismo e a violência estatal que fazem milhares de vítimas todos os anos.

Nesta entrevista concedida ao blog Negro Belchior, da revista Carta Capital e ao jornal Brasil de Fato, Hamilton denuncia as perseguições sofridas por adotar uma postura intransigente no combate à violência policial. Ele se orgulha de ter crescido no Curuzu, em Salvador (BA), “o bairro mais negro do mundo depois do Harlem”, em Nova Iorque. A inspiração para a luta veio da convivência com mulheres que cuidavam da família.

Hamilton não tem dúvidas de que “o genocídio é um fato no Brasil, um crime de lesa humanidade praticado contra um povo que construiu essa nação e vive cercado de morte, terror estatal e encarceramento em massa”. O militante negro não tem receio em anunciar que “a Bahia está mergulhada num mar de sangue”. Hamilton revela não ter se surpreendido com as ameaças, pois “essa performance radical é muito para a cabeça dos policiais acostumados a nos chutar todos os dias desconsiderando nossa humanidade”. Participaram da entrevista Paula Farias, Jorge Américo e Douglas Belchior.

PF, JA e DB: Como você iniciou sua militância no movimento negro e como surgiu o Quilombo X e a campanha do Reaja?

Hamilton Borges: Iniciei de verdade minha militância, com os exemplos de minha mãe, avó e minha tia que me criaram, cresci vendo mulheres cuidando da família. Elas me deram exemplo de solidariedade africana, no bairro mais negro do mundo depois do Harlem: o Curuzu, onde foi fundado o Bloco afro Ilê Aiyê. Depois entrei no MNU, Movimento Negro Unificado, que colocou, desde as escadarias do Teatro Municipal de São Paulo, passando por todo o país, o racismo na agenda nacional sem tréguas ou concessões. Depois em 2005 retomamos a Quilombo Xis – Ação Cultural Comunitária, que foi criada em 2001 em BH, como uma organização cultural, mas que se transformou  em uma organização política para impulsionar a “Campanha Reaja ou Será Morta, Reaja ou Será Morto”.

A Campanha Reaja surgiu em 2005 aqui em Salvador, depois de darmos um basta em contar nossos mortos pela violência racial, pela violência estatal, pelos grupos de extermínio e grupos paramilitares que a polícia legitima, retroalimenta e fortalece, seja pela ação (quando seus agentes públicos também são integrantes desses grupos) ou por omissão (quando sabe que há grupos atuando, mas não atua para impedi-lo). Ocupamos as escadarias da Secretaria de Segurança Pública com gente vinda de todo lugar da cidade e começamos a politizar nossa morte, chorar nossos mortos que não passavam de números para as organizações de direitos humanos e para os institutos de pesquisas, ONGs e toda sorte de organização de rapina. Começamos a dar nome aos mortos e evidenciar o caráter genocida neles contido.

PF, JA e DB: Em todos esses anos dedicados ao movimento negro, você sempre conviveu com intimidações, mas nos últimos tempos a situação piorou. Você acha que isso é um reflexo da Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro, que vem crescendo a cada ano?

Hamilton Borges: Desde o primeiro momento que a Reaja tomou a rua já foi um processo tenso. Negras e Negros de favelas e periferias tomando sua voz, não permitindo mediação de parlamentares ou especialistas bem pagos, isso já criou um ranço, estava demonstrada a ruptura, não queríamos fazer concessões com nossa desgraça – e a enfrentaríamos até as últimas consequências. Aí a Polícia, os Governos, eles olharam para nós como uma ameaça a sua cultura de medo e silêncio e nos trataram como criminosos. Sentimos na pele esse processo de criminalização, prisões sem fundamentos, retaliações, acusações infundadas, ameaças, foi então que procuramos criar nossas formas de fortalecimento, redes de proteção fora do Estado, fora do país, pautando a ONU, a OEA, buscando apoio da Justiça Global, da Anistia internacional, da imprensa séria.

Claro que a Marcha só poderia resultar em retaliação. No plano internacional nós revelamos ao mundo que o Genocídio é um fato no Brasil, um crime de lesa humanidade praticado contra um povo que construiu essa nação e vive cercado de morte, terror estatal e encarceramento em massa. Depois no plano nacional chamamos o movimento negro em especial e o movimento social de um modo geral a reagir, sair para a rua, sem bandeira de partido, sem dinheiro de governo, sem reivindicação eleitoral. Foi muita ousadia, ainda mais vindo de um grupo que em sua base e em seu comando tem mulheres, mulheres de presos, ex-presos, desempregados, gente de favela, gente do mato (a Reaja é Coordenada por um comitê de mulheres, Dra Andreia , Aline Santos , Jamile , Elaine, Fabia). Os caras disseram aos nossos amigos do exterior que perderam o controle da Marcha, esses caras são os garotos de recado dos governos com seus diplomas e MBA e sua mentalidade de capacho esperando que o país mude a lógica racista com programinhas e projetos e a gente dizendo que só muda com outro modelo de Estado, outra nação e não essa dos brancos.

E no plano doméstico, na Bahia, enfrentar os políticos que defendem pena de morte e prisão perpétua, como Oto Alencar, enfrentar a polícia matando nossa gente (30 em um mês no bairro da Suburbana, 21 no Bairro do Engenho Velho de Brotas, 16 no Bairro do Nordeste de Amaralina), enfrentar os cabos eleitorais com suas promessas de cooptação, e irmos para frente do Quartel mais antigo da Policia Militar do Brasil, aflitos  e dizer que queremos o fim da polícia militar, a desmilitarização da segurança pública, justiça para os mortos e que naquele dia, 22 de agosto de 2014, eles não matariam nenhum negro ou negra, essa performance radical é muito para a cabeça dos policiais acostumados a nos chutar todos os dias desconsiderando nossa humanidade.

PF, JA e DB: Nesses casos de perseguição, ameaças, invasão a sua casa, como você tem lidado com isso? Qual a posição das autoridades políticas e das lideranças dos grupos de outros movimentos negros diante desses fatos? Você se sente respaldado por eles?

Hamilton Borges: Olha tem uma coisa de ano eleitoral que cala a boca de muita gente boa. Tem muita gente boa que foi para o governo e não pode contrariar quem lhe paga o salário, temos apoio dos movimentos independentes, apoio do exterior, na Espanha  nossa Irmã, a FOJA, articula em toda Europa uma campanha “Somos todos Hamilton Borges”, dos Estados Unidos a força vem do Texas, vem de São Paulo (Posse Haussa, Uneafro, Quilombagem, Estudantes Negros da USP, Douglas Belchior, CRP-SP, Afropress), do Rio de Janeiro (Justiça Global, Anistia Internacional, Coletivo Das Lutas), vem da Reaja de João Pessoa, aqui na Bahia sai das comunidades, das vilas, favelas, cadeia. Mas entendemos esse sequestro da solidariedade de certos movimentos, eles estão num tipo de pragmatismo eleitoral que tem que fechar os olhos para certas coisas e nós somos o oposto disso: nós somos o combate.

O Governo Estadual já está sabendo, a Anistia e a Justiça Global enviaram ofícios para  a SSP-BA (Secretaria de Segurança Pública da Bahia) e para a SJDH (Secretaria de Justiça e Direitos Humanos). Nós comunicamos por e-mail à SEPROMI (Secretaria de Promoção da Igualdade), que “deve cuidar das questões dos negros”, como eles dizem, mas até agora só houve silêncio do governo, o mesmo silêncio ocorrido quando policiais tentaram invadir minha casa depois da Marcha de 2013.

Nós da Campanha Reaja nos sentimos respaldados pela solidariedade que vem dos nossos primeiramente, como Lázaro Ramos que conversou conosco, tirou foto, nos apoiou, coisa que pode parecer simples, mas faz a maior diferença.

PF, JA e DB: Houve algum posicionamento por parte do governo frente às denúncias de abuso de autoridade?

Hamilton Borges: Até agora nada. A Bahia está mergulhada num mar de sangue, atos de terror praticado por policiais e bandos criminosos de extermínio, e o governo não fala uma palavra, nossa vida não tem valor para essa agenda. Se morresse um jovem branco de classe média eles escreveriam um tratado pela vida – e isso são todos os candidatos, com exceção do único candidato negro ao Senado que tem feito um debate solitário sobre direitos humanos e racismo.

PF, JA e DB: Qual a importância da Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro, essa articulação entre vários companheiros de luta de diversos estados?

Hamilton Borges: Na verdade são diversos Estados e vários Países. Demos um passo de unidade internacional. Saímos da condição de mendigar espaço na agenda de organizações que nos colocam como assessório, despertamos a agenda do genocídio como motor da luta negra e podemos construir grandes pontes para repensar a sociedade do ponto de vista das negras e dos negros, sem precisar entregar nossos símbolos sagrados (como uma conta de orixá) a um salvador ou salvadora que pouco se importa com nossa vida desprotegida. O recado que demos é que podemos nos organizar sem pedir migalhas.

PF, JA e DB: Fazendo uma reflexão sobre a campanha Reaja ou Será Morta, Reaja ou Será Morto, quais foram os avanços?  E como tem sido a participação dos jovens nessa luta?

Hamilton Borges: Nossa Campanha não é geracional, mas evidente que os jovens cumprem um papel importante e elas e eles tem enfrentado bem esse debate, feito avançar. Nós colocamos várias agendas em foco, sempre afirmando a centralidade do racismo. Nós popularizamos o debate sobre encarceramento em massa, a revista vexatória e o fortalecimento dos familiares na luta pela memória de seus entes.Nós provocamos o governo a criar um programa para enfrentar a morte de jovens negros, mas como sempre o governo federal tem “pudores” em pronunciar a palavra negro e não coloca orçamento necessário para a boa política (daí a coisa  fica focada em encontros e seminários). Mas, sobretudo demos uma arma a nosso povo, somos continuidade de nossos mais velhos, muitas e muitos ainda vivos, que disseram que não podíamos negociar o racismo, mas combatê-lo. Quem quer promover igualdade tem que ir à porta ao lado, a Reaja é outra coisa, é Quilombismo.

PF, JA e DB: Neste ano de eleição como o movimento tem se posicionado? Qual análise fazem das candidaturas à Presidência da República? Vocês têm alguma esperança em fazer avançar a pauta do combate ao racismo e ao genocídio em alguma das candidaturas colocadas?

Hamilton Borges: Nós da Reaja não falamos por ninguém, mas não vemos alternativa para nosso povo com o que tem aí. Vá na Favela do Moinho e pergunte ao povo o que eles acham, e ali é a cidade mais rica do Brasil – São Paulo. O povo vai te dizer que o Estado não existe. Nenhum desses três candidatos mais bem colocados,  em seus debates falam uma linha sobre o racismo ou os direitos humanos ou a situação carcerária. As eleições se tornaram um trabalho subalterno para negros e negras com bandeiras e faixas nos faróis, os palanques lotados de brancos e empresários. Para nós a aposta é na organização para a autonomia comunitária e pressão sobre nossos inimigos.

PF, JA e DB: Diante dos assustadores números de assassinatos de negros, como mostrou o Mapa da Violência 2014, e da negligência por parte do Estado, quais os próximos passos para esse enfrentamento?

Hamilton Borges: Temos que cada vez mais internacionalizar o debate e a organização e ao mesmo tempo internalizar, chamar para dentro para o interior, para  as comunidades, levar a mensagem e o método de solidariedade e autonomia, criar uma organização horizontal, baseada na vida real, criar instrumentos de pressão e ao invés de seguirmos com pires nas mãos, enfrentar  as oligarquias, os racistas, sexistas e homofônicos com força negra de todas as camadas conscientes e fortalecidas. O próximo passo é a III Marcha, cuja preparação já começamos desde o dia 23 de agosto de 2014.

PF, JA e DB: Faça, por fim, as considerações que achar necessárias.

Hamilton Borges: Precisamos de outro modelo de nação que seja realmente inclusivo e isso não conquistaremos com arranjos, com remendos, precisamos de outra política, outro Estado que vamos conquistar com luta e solidariedade.

Categorias
Denúncia

O assassinato do trabalhador Carlos Braga: uma polícia sem autoridade

Por Tomaz Amorim Izabel

fuck_police_brutality1

Isaías de Carvalho Brito, trabalhador, foi preso por policiais militares sob a acusação de desacato à autoridade. Momentos antes de sua prisão, um colega de trabalho, Carlos Augusto Muniz Braga tentou impedir que Isaías fosse humilhado e agredido por três policiais, durante uma abordagem abusiva e despreparada, e foi executado com um tiro na cabeça diante de dezenas de pessoas no meio da rua, à luz do dia, na cidade de São Paulo.

Dois dias antes, trabalhadores que ocupavam um prédio abandonado há dez anos no centro da cidade resistiram à remoção forçada determinada pela justiça e efetuada pela Polícia Militar. As imagens violentas de crianças, mulheres grávidas e idosos sendo jogados na rua pelas autoridades assombraram a cidade pelo resto do dia. O confronto teve de um lado caminhões, helicópteros, bombas e balas; do outro, cocos e pedras.

Estes dois últimos acontecimentos são exemplos da regra sobre as relações de poder em nosso país, mas talvez mostrem também a possibilidade de que uma exceção está em gestação.

A palavra central neste movimento parece ser “autoridade”. Trata-se em português de uma palavra ambígua: faz referência à importância da experiência de alguém sobre certo assunto, mas ao mesmo tempo é também o radical de “autoritário” e “autoritarismo”. A etimologia nos ensina que “autoridade” vem do latim “auctoritas”, termo que se referia a uma capacidade de influência específica, derivada de idade, de saberes, e baseada em uma legitimação social sobre a importância da opinião de uma pessoa ou um grupo. Não é um poder em si, mas uma influência tornada socialmente legítima sobre o poder. O filósofo Cícero distinguiu da seguinte forma: o poder reside no povo, a autoridade no senado.

Em 2014 anos oficiais da história deste país, a autoridade do estado falou muito mais alto do que o poder do povo. Ou, para dizer de outra maneira, uma pequena elite teve muito mais autoridade nas tomadas de decisão do estado, do que a maior parte da população teve poder. Essa discrepância parece cada vez mais evidente para todos os brasileiros. As manifestações de Junho de 2013 talvez tenham apontado um pouco neste sentido, com sua recusa (ainda que quase infantil) de sindicatos, partidos, bandeiras. Há uma crise de autoridade instalada, porque a autoridade não é mais vista como legítima – ou seja, reconhecida como de interesse comum. Não seria, então, o caso de recusar a autoridade e, com ela, as autoridades?

latuff-policia-negro

Quando familiares decidem resistir à remoção imoral e desumana que a autoridade jurídica repassa à autoridade policial é o poder popular que olha e diz ao estado: não é legítimo porque não representa o meu poder, o do povo. Isso mostra uma mudança? É difícil não lembrar – na verdade, é difícil esquecer – de Pinheirinho e de sua trágica resistência, chamada ridiculamente pela Folha de S. Paulo de Armada Brancaleone. Certamente não foi a primeira vez na história recente do Brasil que pessoas resistiram coletivamente, até consequências extremas, a uma ação autoritária das autoridades. É possível, no entanto, que esses momentos de resistência estejam se multiplicando e, quem sabe, se intensificando.

Pois foi o mesmo tipo de impulso ético e humano – uma reação à ilegitimidade da autoridade da Polícia Militar – que levou um grupo de pessoas a interromper suas atividades e hostilizar a abordagem autoritária dos policias ao jovem Isaías Brito. Foi o mesmo exercício de poder popular – a tentativa de destruição da autoridade autoritária e de instauração de uma autoridade legítima – que levou o jovem Carlos Augusto a reagir diante do perigo encarnado no policial alucinado, armado de spray de pimenta e de uma pistola de munição letal.

O filósofo contemporâneo Alain Badiou chama de ética a ação que é fiel ao chamado de uma verdade. Talvez a verdade para Carlos naquela tarde tenha sido a destruição da autoridade daquela força policial e a necessidade de insurreição contra ela. Se for possível entender desta perspectiva a tragédia acontecida, então precisamos dar o triste título de mártir a Carlos, em reconhecimento à sua ação heroica, e ter a coragem de nos deixarmos atingir pela grandeza e significado de sua morte. Certamente ela, em seu mudo conselho, tem muito mais autoridade sobre a população de São Paulo do que sua Polícia Militar.

Categorias
Desmilitarização

A cada desocupação a cidade diz: “O Centro não é para gente como vocês”

Ontem a cidade de São Paulo mostrou a verdadeira face, que nós conhecemos, mas que ela gosta de esconder. As imagens falam por si só (a bela e triste videoreportagem da Ponte Jornalismo). Ontem, mulheres, crianças, idosos e homens da classe trabalhadora cometeram o pecado de não querer mais pagar o aluguel parasitário, o pecado de querer morar perto do trabalho, o pecado de querer participar da vida da cidade, de seus centros de lazer e cultura, ontem, as pessoas que cometeram o pecado de ocupar um prédio abandonado há dez anos foram reprimidos com a dureza e desumanidade típica da força policial desta cidade, deste estado e deste país para com os seus filhos pobres. As cenas de resistência revoltam e inspiram. Abaixo copio a reflexão e o desabafo da companheira Vanessa Gravino. O problema é conhecido e as soluções também – no espaço entre os dois está a necessidade de lutar.

desocupação

Por Vanessa Gravino

Apesar de cenas de despejo e desapropriações se tornarem cada vez mais recorrentes, ainda fico chocada e triste com a ação policial diante de famílias sem-teto/sem-terra que ocupam lugares para viver. Machuca olhar para pessoas sendo despejadas diante de uma cidade (estado e país), que não garante moradia digna para sua população. O centro da cidade não é para os pobres morarem. Se for “pobre e preto”, então, esqueça!

E de onde saem esses homens armados de violência? Fiquei imaginando que muitos policiais militares são pessoas que já moraram, ou ainda moram, nas periferias. Sabem o que significa a vida afastada dos centros urbanos e têm baixos salários. Como podem agir com tamanha truculência e violência? O despejo no centro de SP foi acompanhado por bombas, cassetete e muita pancada! Mesmo com a presença de crianças.

Quando penso nisso a conta não fecha…

A conta só fecha quando a gente olha para a mídia, pois ela procura convencer as pessoas de que aqueles(as) que ocupam prédios vazios são criminosos(as), invasores(as). A conta só fecha porque a TV divulga que o lugar de negros e negras é na periferia e que sua função,ainda, é servir os(as) brancos(as). A conta só fecha porque PMs recebem treinamento que ensina a obedecer os ricos e reprimir os pobres… A conta fecha porque vivemos numa sociedade onde quem tem grana usufrui todos os direitos, já os pobres têm o “direito” de ficarem quietos.

Para construir uma sociedade mais justa e igualitária defendemos:

A desmilitarização da polícia!
Democratização dos meios de comunicação!
Moradia digna para a população!
Reforma urbana – que passe pelo fim da especulação imobiliária!
Combate a todas as formas de opressão!

E, só para finalizar com aquele sentimento de “minuto de silêncio”: na terça-feira, 16 de setembro de 2014, enquanto havia o despejo de 800 pessoas que ocupavam um prédio no centro de São Paulo, o Supremo Tribunal Federal concedia auxílio-moradia para todos os juízes federais no valor de 4.377,73 reais, auxílio que os juízes estaduais de 20 estados já usufruem. Enquanto os mais pobres são expulsos de maneira violenta das habitações em que viviam, mais recursos são direcionados para altos funcionários do judiciário, que certamente não possuem problemas de moradia.

Categorias
Denúncia

Violência obstétrica, até quando?

De Douglas Belchior

A vivência e a troca de experiências que a luta social nos proporciona é extremamente enriquecedora.

Há debates e aprofundamentos em determinados temas que estão muito além de livros e de frias salas de aula.

E há textos que doem.

O debate sobre violência obstétrica é um dessas temas. Corriqueiro, presente, naturalizado. E que precisa ser questionado e combatido com muita radicalidade. Bem como denuncia a Professora Vanessa Gravino.

Leiam e sintam.

 

Gravida

 

Por Vanessa Gravino

A construção de uma sociedade mais justa e igualitária, também passa pelo direito de parir e nascer com dignidade, sem que o parto seja uma ameaça à vida das mulheres e das crianças. Hoje, no Brasil, uma a cada quatro mulheres sofre ou sofreu algum tipo de violência durante o parto. Além disso, 90% das mortes de mulheres grávidas poderiam ser evitadas se elas recebessem atendimento adequado. No entanto, quando tocamos nesta questão, esbarramos em pontos relevantes: a mercantilização da saúde e o preconceito racial, destacando que as mulheres que mais sofrem ou morrem por decorrência da gravidez são mulheres negras.

No que se refere à mercantilização da saúde, segundo dados do Ministério da Saúde, mais de 50% dos partos realizados no Brasil atualmente são cesáreas. Se tratarmos apenas das redes particulares este número sobe para, aproximadamente, 83%. A cesárea é uma cirurgia, deve ser utilizada apenas em casos extremos, para salvar vidas, não pode ser regra. No entanto, é muito comum, médicos e médicas orientarem a realizar cesárea colocando-a como “mais segura” que o parto normal. Esta orientação não é acaso. Um parto normal pode demorar horas, já a cesárea é realizada em pouco mais de uma hora. Algumas delas são feitas quando a mulher entra em trabalho de parto, mas os médicos não querem esperar e forçam psicologicamente a mulher para que aceite a cirurgia da cesárea, com argumentos sem qualquer embasamento científico. A mulher, refém daquela situação, aceita tal cirurgia. Outras ainda são agendadas antes mesmo da mulher estar em trabalho de parto, o que é ainda pior, pois o bebê nem “amadureceu” dentro da mulher para ser arrancado do útero. Esses profissionais (se é que podemos chamá-los assim) ganham muito dinheiro em pouco tempo de trabalho. Não importa aqui se a vida das mulheres e dos bebês está colocada em risco, pois enxergam a saúde como mercadoria. Infelizmente esse quadro de violência obstétrica é rotina nos hospitais privados.

A pressão pela realização da cesárea sem necessidade, a violência psicológica que humilha mulheres, principalmente mulheres negras, numa situação de vulnerabilidade é o que chamamos de violência obstétrica. Nos hospitais públicos também há muita violência obstétrica apesar do índice de cesárea ser menor. Acontece que no sistema público há inúmeras intervenções desnecessárias ao longo do trabalho de parto. Dentre elas estão a episiotomia (corte entre a vagina e o ânus para facilitar a saída do bebê), falta de analgesia (caso a mulher solicite), pressão sobre a barriga para empurrar o bebê (manobra de Kristeller), lavagem intestinal, retirada de pelos pubianos, exames de toque frequentes para verificar dilatação, deixar a mulher deitada durante horas em posições desconfortáveis esperando o parto, o “pedido” para se calar quando as mulheres gritam e até ameaças à mulher e à criança.

As mulheres negras sofrem consequências ainda maiores. O preconceito racial no Brasil faz com que a violência obstétrica, em relação a essas mulheres, carregue as marcas do Brasil escravocrata. Elas escutam frases e comentários racistas e humilhantes na hora do nascimento de seus filhos e filhas. É comum os hospitais do SUS deixarem mulheres negras esperando mais tempo, por acreditarem que “as negras são mais resistentes à dor”, ou ainda, porque o momento do parto é o momento de pagarem pelo “ato” cometido, ou seja, “na hora de transar foi bom, agora aguenta”.

A luta feminista, negra e de direitos humanos deve passar – também – pela busca de um parto humanizado para as mulheres negras e trabalhadoras. Um parto que respeite sua fisiologia e sua autonomia. Onde as mulheres possam de fato ter informações verdadeiras sobre as formas de nascer, para que suas escolhas estejam pautadas não pela mercantilização da saúde, mas por evidências científicas.

Por mais casas de parto!

Por mais equipes humanizadas em maternidades!

Por apoio aos profissionais humanizados que estão no mercado de trabalho!

Infelizmente esta ainda não é uma realidade em nosso país. Mas, é um tema que devemos abordar com extrema urgência no interior dos debates de violência contra as mulheres e de extermínio da população negra.

 

 

Categorias
Meios de Comunicação e Racismo

Movimentos convocam protesto antirracista na porta da TV Globo

 

 

 

 

Por Douglas Belchior

E a Rede Globo mantém seu papel histórico: fortalecer estigmas negativos relacionados à população negra e à classe trabalhadora, em especial às mulheres negras, no imaginário coletivo.

Até aí, nenhuma novidade.

Mas há sim um elemento novo: O Movimento Negro está nas ruas, forte como nunca.

[email protected] ao “Protesto e as Pretas“, em frente à Rede Globo, nesta terça feira, 16/09, às 19h, com concentração na Praça General Gentil Falcão – SP.

 

 

10612822_376892315793051_4700621778318644993_n

“Sexo e as Nega” será alvo de protesto em frente à emissora nesta terça feira.

 

Nota de Repúdio

“Sexo e as nega” não nos representa. Queremos mulheres pretas no poder!

 

Nesta terça feira, 16/09, estreia na Rede Globo a minissérie “Sexo e as Nega”, de Miguel Falabella. Nós, pretas e pretos independentes e atuantes de diversos coletivos, organizações e entidades manifestamos nosso absoluto repúdio a mais um golpe racista protagonizado pela emissora, que permanece desde a sua fundação como uma das ferramentas de manutenção do racismo e do machismo brasileiro.

Para nós, é evidente que a maneira como o seriado retrata as mulheres negras contribui de forma latente com os péssimos estigmas atribuídos historicamente às mulheres negras em nosso país, como o de mercadoria sexual, cujo único valor é o sexo.  “Sexo e as Nega” é só mais um capítulo do desserviço permanente prestado pela emissora ao povo negro.

A tentativa desonesta do autor de transformar esse seriado racista em uma maneira de propagandear a farsa da democracia racial, precisa ser denunciada. O racismo brasileiro se explicita a cada dia, e na mesma proporção o Movimento Negro vem ganhando força. Logo, mesmo que a emissora permaneça se furtando de um debate honesto sobre o racismo, ou até mesmo fazendo uma cobertura justa do que estão sendo as lutas antirracistas no Brasil, as diversas organizações do movimento negro permanecerão nas ruas, em protesto, enquanto for necessário, assim como será nesta terça-feira.

Convocamos todo povo negro de São Paulo ao protesto pela retirada imediata deste programa racista do ar e denunciamos:

  • A contribuição histórica da emissora com o racismo brasileiro;

  • A maneira racista e machista que a emissora retrata a mulher negra em sua programação;

  • O silêncio da emissora em relação às últimas mobilizações do movimento negro, em especial a Marcha Contra o Genocídio do Povo Negro, que movimentou mais de 60 mil pessoas em todo país no último dia 22 de Agosto;

  • A maneira como emissora se recusou a dialogar com as diferentes vozes que levantaram quanto ao programa;

  • A permanente tentativa da emissora de propagandear a farsa da democracia racial.

Confirme e Compartilhe Evento no Facebook

 

Assinam:

Uneafro-Brasil

Círculo Palmarino

Levante Popular da Juventude