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Denúncia

Sobre a morte de negros no Mediterrâneo: Somos meros espectadores?

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ITALY-IMIGRAÇÃO-Shipwreck-BRETANHA ‘sacos corpo “são retratados na praia de Brighton, no sul da Inglaterra, em 22 de abril de 2015, durante um photocall pela Anistia Internacional para destacar o que eles dizem é a resposta vergonhosa da Grã-Bretanha para o refugiado e crise migrante no Mediterrâneo. Cerca de 50 apoiadores dos direitos baseados em Londres agrupados alinharam 200 sacos para corpos negros na famosa praia de cascalho na véspera de uma reunião de emergência de líderes europeus, em Bruxelas, que visa acabar com a crise, que já custou mais de 1.750 vidas este ano. AFP PHOTO / BEN STANSALL

Por Douglas Belchior

Ainda há pouco publiquei um texto sobre a tragédia que, há tempos, faz do mar mediterrâneo um verdadeiro cemitério de corpos negros. Hoje replico, a partir de uma postagem do companheiro Cleyton Borges, uma provocação pertinente: Somos meros expectadores?

“Fechar fronteiras não diminui e nunca será capaz de conter o fenômeno da imigração internacional. Ao contrário, impele as pessoas às rotas clandestinas e favorece o crime, o tráfico o trabalho escravo. Assim como entender essa temática (politicamente) somente pela ótica do combate a crimes, é ineficaz, para não falar um ato tão irresponsável como fechar fronteiras. 

Tentar impedir o ingresso de refugiado, dificultando seu acesso, não faz cessar as guerras, conflitos, desastres ou qualquer outro mal que leve as pessoas a necessitar de proteção e um novo lugar para viver. São males inerentes ao Capitalismo. Enquanto isso, tentamos entender que relação há entre os fatos que vemos nos mares que dividem Europa e África, como nossa realidade daqui.”

Abaixo, texto da Anistia Internacional ajuda a entender a tragédia e orienta como podemos ajudar.

 

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ITALY-EUROPE-MIGRANTES – Um migrante resgatado é identificado com um número depois de desembarcar fora do navio italiano Guardia Costiera Fiorillo no porto siciliano de Catania em 24 de abril, do Ministério do Interior da Itália 2015. espera chegadas migrantes nos portos italianos para correr a uma velocidade de 5.000 por semana a partir de agora até setembro – apontando para um total para o ano em torno de 200.000, ante cifra recorde do ano passado de 170.000 AFP PHOTO / ALBERTO PIZZOLI.

 

Da Anistia Internacional

Sete perguntas sobre os refugiados e migrantes que estão morrendo no Mediterrâneo

 

Com a morte por afogamento de aproximadamente 1.700 refugiados e migrantes somente este ano (2015), uma emergência humanitária está se expandindo no Mediterrâneo. Enquanto os líderes da União Europeia determinam como abordá-la, analisaremos por que isso está ocorrendo e o que podemos fazer para ajudar.

1. Por que tantas pessoas estão se afogando no Mediterrâneo?

Durante este ano, um número sem precedentes de refugiados e migrantes está tentando chegar à Europa em embarcações superlotadas e perigosas, controladas por traficantes de pessoas.

Quando seus barcos viram ou apresentam problemas, nem sempre há ajuda por perto. No final de 2014, a Itália e a UE decidiram pôr fim à Mare Nostrum, a operação humanitária da marinha italiana que resgatou mais de 166.000 pessoas em apenas um ano.

A UE substituiu esta operação por outra muito menor denominada Triton, que patrulha principalmente as fronteiras perto da terra firme, em vez de salvar vidas em mar aberto. Além disso, conta com barcos menores e menos aviões, helicópteros e pessoal.

Como consequência, a busca e salvamento das pessoas depende novamente, em sua maior parte, das guardas-costeiras e dos navios comerciais.

2. Por que as pessoas viajam na rota migratória mais fatal do mundo?

A Europa se converteu em uma fortaleza quase impenetrável, e os refugiados têm enormes dificuldades de chegar sem riscos e legalmente a um país da UE.

Muitas pessoas fogem do conflito, da violência e da perseguição. Para elas, pagar milhares de dólares a um traficante para atravessar o mar em uma barca frágil é quase a única opção que lhes resta.

Tomar esta decisão diz muito sobre as circunstâncias das quais fogem. Jean é um dos 88 sobreviventes de um barco resgatado perto de Malta, em janeiro. Cerca de 35 de seus companheiros morreram de hipotermia e desidratação. Jean nos contou que havia fugido da Costa do Marfim quando sua família o ameaçou porque não quis submeter sua filha à mutilação genital feminina.

Quando chegou à Líbia, “os traficantes estavam armados. Alguns de nós tínhamos medo e não queríamos ir, mas ninguém pôde voltar atrás. Não nos deram mapas, nada. Só disseram: ‘siga reto até adiante e estará na Itália’”.

Não fazer o suficiente para ajudar agora mesmo é desumano e indefensável, equivalente a içar a ponte levadiça enquanto crianças, homens e mulheres morrem fora de nossas muralhas.

3. De onde exatamente vêm todas essas pessoas?

Muitas, incluindo famílias com crianças pequenas, fugiram de países arrasados pela guerra, como Síria, Afeganistão, Sudão e Iraque. Outras foram perseguidas por suas opiniões políticas, torturadas e, inclusive, ameaçadas de morte se ficassem [em seus países].

Em 2014, as pessoas procedentes da Síria e Eritréia representavam quase a metade das aproximadamente 170.000 pessoas que chegaram à Itália de barco. Mas há mais que chegam da África Subsaariana fugindo das penúrias e pobreza.

4. Por que a Europa deveria ajudar?

Os governos europeus enfrentam um tremendo dilema de vida ou morte. Não fazer o suficiente para ajudar agora mesmo é desumano e indefensável, equivalente a içar a ponte levadiça enquanto crianças, homens e mulheres morrem fora de nossas muralhas.

Pedir asilo é um direito humano, uma parte essencial dos acordos internacionais sobre refugiados que quase todos os governos assinaram depois da II Guerra Mundial.

Mas os governos europeus estão colocando enormes obstáculos para as pessoas que suportaram tanta coisa. Por exemplo, ofereceram um total de apenas 40.137 lugares de reassentamento para refugiados sírios, 30.000 deles somente na Alemanha. Em compensação, somente cinco países vizinhos da Síria acolheram 3.9 milhões de refugiados.

5. O que a UE pode fazer agora mesmo para impedir estas mortes?

Todos os países europeus necessitam trabalhar juntos urgentemente para lançar uma operação humanitária de salvamento de pessoas no mar. Isso significa compartilhar o custo de barcos, aviões, helicópteros e pessoal suficientes para resgatar as pessoas que cruzam o Mediterrâneo a partir de agora.

Enquanto se organiza esta operação, devem dar à Itália e Malta suficiente apoio econômico e logístico para redobrar o trabalho de busca e salvamento que suas guardas costeiras realizam.

6. O que deveria ocorrer em longo prazo?

As pessoas não deixarão de fugir da guerra, da perseguição e da pobreza. Quando a UE estabelecer sua nova agenda sobre migração em maio, terá que oferecer-lhes vias para pedir asilo na Europa sem riscos e legalmente, sem pôr a vida em risco.

Além disso, os governos da UE devem dar a mais refugiados a oportunidade de mudar de vida e reassentá-los em seus países.

7. O que eu posso fazer para ajudar?

Assine a petição aos governos da UE, em inglês, e divulgue amplamente entre seus conhecidos. Acesse o site, clique em Sign e preencha seus dados: nome, sobrenome, e-mail e país.

Juntos podemos demonstrar que não toleramos que o Mediterrâneo se converta em um cemitério.

 

 

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Denúncia

Conta de água de Alckmin é a mais cara desde dezembro

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Enquanto distribui multas e aplica um racionamento informal nas periferias, governador, sua família e equipe ampliam o consumo no Palácio dos Bandeirantes

Por Igor Carvalho

Pelas periferias paulistas, a água continua escassa e o racionamento informal segue seu passo firme, sem ser lembrado pela grande mídia, que blinda Geraldo Alckmin (PSDB). Porém, na Secretaria da Casa Civil, onde está o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista e residência do governador, a conta de água do mês de maio, referente a abril, será a mais cara desde dezembro.

Enquanto o estado enfrenta uma profunda crise hídrica, Alckmin, sua família e equipe consumiram R$ 23,4 mil. O valor é 10,9% maior do que a conta de água do mês anterior, março, quando o governo pagou R$ 21,1 mil.

A atual fatura supera as demais do ano de 2015, sendo ultrapassada apenas pela conta de dezembro do ano passado, quando o consumo no Palácio dos Bandeirantes foi de R$ 24,6 mil.

Depois de uma década de inércia, sem investimentos para aumentar a capacidade de armazenamento de água em São Paulo, o governo Alckmin obrigou a população a arcar com o ônus de sua má gestão e anunciou um programa de multas que prevê uma sobretaxação de até 100%, dependendo da intensidade do aumento no consumo.

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África Genocídio Negro

África e Europa: Naufrágio da dignidade humana

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Por Douglas Belchior

 

O Continente Africano foi por muitos séculos, e ainda é, alvo da ganância e da super-exploração por parte de países ricos – leia-se “brancos” – sobretudo da Europa. Apesar da conquista da independência formal, muitos países africanos não romperam totalmente suas relações com as ex-metrópoles e essa continuidade de opressão originou o surgimento do neocolonialismo, que se trata de um modelo de continuidade da dominação estrangeira na política e na economia das nações africanas. Ainda hoje as forças do capital e do racismo subjulgam a maior parte do território e da população do continente africano, em que pese a permanente luta desse povo.

Como resultado, as condições socioeconômicas precárias, a violência, o (re)aparecimento de doenças, a fome e a falta de perspectiva leva milhares de seres humanos africanos a buscar o sonho de uma vida melhor em países europeus.

É importante lembrar disso para não parecer que o genocídio negro continuado que vemos também através dos seguidos naufrágios de embarcações lotadas de africanos é apenas fruto do descuido ou irresponsabilidade dos que se dispõem a correr esses riscos. O mundo deve reparação histórica à todos os territórios e populações negras espoliadas pelo racismo e pela intolerância em todo o mundo.

 

 

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Um homem leva uma mulher migrante como residentes e equipes de resgate locais ajudam imigrantes depois do seu barco naufragou ao largo da ilha de Rhodes, sudeste da Grécia, em 20 de Abril de 2015. Pelo menos três pessoas, incluindo uma criança, morreram quando um barco que transportava mais de 80 migrantes naufragou ao largo da ilha grega de Rhodes na segunda-feira, disse a polícia. AFP PHOTO / EUROKINISSI / Argiris

 

Incidente mais letal da história do Mediterrâneo levanta discussão sobre migrações

 

Do Sul21

 

No último domingo (19), um barco saído de Trípoli, na Líbia, com mais de 850 pessoas a bordo, naufragou no mar Mediterrâneo, a cerca de 180 km da ilha italiana de Lampedusa. O barco transportava de maneira irregular migrantes e refugiados de diversos países da África e do Oriente Médio. De acordo com informações da Agência das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), apenas 28 pessoas sobreviveram, de modo que esse é o incidente mais letal da história do Mediterrâneo.

De janeiro a abril desse ano já houve 17 vezes mais mortes de refugiados no Mediterrâneo do que no mesmo período do ano passado, de acordo com as estimativas da Organização Internacional para Migração. Contando com os últimos incidentes, o número de mortes em 2015 já ultrapassa os 1.600; enquanto que nos primeiros quatro meses do ano passado, 96 mortes foram registradas. Entre os mortos, estão pessoas de Síria, Somália, Serra Leoa, Mali, Senegal, Gambia, Costa do Marfim e Etiópia.

Apesar do crescimento acelerado nas últimas décadas, as migrações africanas não são fenômeno recente. Na verdade, os grandes movimentos populacionais fazem parte da história da África, por motivos que incluem o comércio de escravos, o colonialismo, os conflitos violentos, a pobreza, a pressão populacional e até mesmo a propensão cultural ao nomadismo. E por questões linguísticas, geográficas, e, sobretudo econômicas, a Europa tem sido o destino preferido.

Até o início do século XX, a Europa era conhecida por ser uma fonte de migrantes, e não por recebê-los, já que muitos europeus fugiam das condições econômicas e das guerras no continente. Após a Segunda Guerra Mundial, a tendência foi revertida, e desde então os fluxos populacionais em direção à Europa, mais especificamente aos países europeus altamente industrializados, têm sido crescentes. De acordo com estatísticas do Instituto de Políticas de Imigração, atualmente entre sete e oito milhões de imigrantes africanos vivem na União Europeia, principalmente nos países do sul.

 

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Ainda hoje, mais de 680 milhões de africanos vivem sob condições de extrema pobreza e insegurança, por isso não é de se espantar que milhares deles busquem melhores condições fora da África. Entretanto, a necessidade de deixar o país natal faz com que essas pessoas se submetam a condições precárias e perigosas para alcançar seus destinos. Segundo relatório da ONU, mais de 22 mil pessoas morreram desde 2000 tentando entrar no continente europeu.

Desde 2014, houve um aumento acelerado no número de pessoas deixando regiões de guerra e pobreza na África e no Oriente Médio para alcançar a Europa através do mar Mediterrâneo. Devido à guerra civil na Líbia, tornou-se mais fácil para os traficantes de pessoas transportarem os imigrantes através do país. A passagem para a Europa em navios pesqueiros feitos de madeira chega a custar US$ 700, e, conforme relatos, os imigrantes são sujeitados à violência e abuso por parte dos traficantes.

Os migrantes vão para a Europa em busca de melhores condições de vida e empregos, mesmo que os países europeus aleguem que não há empregos nem para os próprios cidadãos neste momento. Eles são atraídos para as vagas que exigem baixa qualificação, que os europeus não estão dispostos a preencher.

É importante notar, entretanto, que esse tipo de migração é bem diferente do conhecido “Brain Drain” (fuga de cérebros), em que a mão de obra mais qualificada de países mais pobres migra para países com melhores condições. Calcula-se que nos últimos 30 anos mais de um terço da força de trabalho qualificada africana tenha migrado para países altamente industrializados. Entre 33% e 55% dos Africanos com educação superior deixaram Angola, Burundi, Gana, Quênia, Mauritânia, Moçambique, Nigéria, Serra Leoa, Uganda e Tanzânia na busca por uma vida melhor e emprego. Esses, é claro, costumam ser bem-vindos.

Para as migrações indesejadas, a solução europeia tem sido a securitização. Desde os anos 1990, os Estados europeus têm respondido às imigrações irregulares com a intensificação dos controles de fronteiras. Isso envolveu o uso de forças militares e semimilitares na prevenção de migrações marítimas. A Grécia recentemente completou um cerca em volta da fronteira com a Turquia; a Espanha criou campos armados em seus enclaves no Norte da África e patrulhas no Estreito de Gibraltar; e a Itália lançou uma ampla operação da Marinha para identificar e salvar embarcações clandestinas.

Todavia, o que se tem sido visto é que essas ações apenas levaram mais pessoas a recorrerem a contrabandistas de pessoas. François Crépeau, relator especial da ONU para direitos humanos dos migrantes, afirmou em entrevista ao jornal The Guardian que a solução passaria pela aceitação e regulamentação dessa força de trabalho na Europa. Ele sugere a concessão de vistos temporários, que permitiriam que migrantes de baixa qualificação entrassem no país por um período de tempo, durante alguns anos. Se o migrante não encontrasse emprego nos primeiro quatro meses, ele deveria retornar para o seu país e tentar novamente no ano seguinte.

Após as tragédias dessa semana, 28 ministros das Relações Exteriores europeus e 13 ministros do Interior se encontraram em Luxemburgo para traçar um plano de ação para migrações no continente. Dez pontos principais foram levantados na reunião, que não respondem a todas as questões, mas é um primeiro passo para avançar nas políticas europeias nesse sentido. Os governos estão tentando equilibrar as responsabilidades humanitárias com as restrições orçamentárias e um sentimento público generalizado contra a imigração. Os ministros evocaram o reforço de operações de salvamento no Mediterrâneo, ampliando os meios e a extensão do mandado e da zona de intervenção.

Volker Turk, alto comissário adjunto das Nações Unidas para refugiados, entretanto, ressalta a importância de medidas que vão além da securitização, e afirma no site do ACNUR “é essencial que o asilo esteja no centro desses debates”. Ele disse que o ACNUR insistiria para que as medidas fossem expandidas para fortalecer ainda mais o componente de asilo e de proteção do plano, incluindo o desenvolvimento de operações de busca e resgate que enfatizem o salvamento de vidas; o recebimento de um número significativo de refugiados na UE; alternativas legais para o reagrupamento familiar, planos de patrocínio privado e vistos de trabalho e de estudo, para que as pessoas que necessitam de proteção internacional não precisem recorrer a tais viagens perigosas; o fornecimento de suporte para os países que receberam o maior número de chegadas (Itália e Grécia), e; maior partilha de responsabilidades no interior da UE para evitar a situação atual, em que alguns países estão recebendo a maioria dos requerentes de asilo, principalmente Alemanha e Suécia.

O recebimento de imigrantes e a regulamentação de sua situação nos países da União Europeia poderiam servir aos interessados de todas as partes. Além de contribuir com uma mão de obra pouco disponível na Europa, que é de trabalhadores pouco qualificados, no longo-prazo essa força de trabalho poderia contribuir para proteger a população idosa dos Estados europeus do declínio econômico.

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Cultura

A revolução será costurada

Como as arpilleras, movimento iniciado nos anos 1970 por um grupo de bordadeiras chilenas, vieram até o Brasil para se transformar no grito de resistência das mulheres contra a violência.

 

Por Renata Penzani, para a Revista da Cultura

 

“Lucía, Lucía, a panela está vazia.” Essas palavras, transformadas em estribilho, podiam ser ouvidas em quase todos os protestos contra o governo de Pinochet, no Chile dos anos 1970-1980. Lucía, a mulher do ditador, era invocada por minorias sociais afetadas pela pobreza, fome e violência decorrentes do regime ditatorial. Este é apenas um dos fragmentos de história retratados nas chamadas “arpilleras”, uma técnica de bordado sobre sacos de farinha ou batata que por muitos anos foi as mãos e os braços das mulheres na luta contra a realidade política do Chile. Narrando a história de suas famílias e comunidades com agulhas e retalhos de tecido, as arpilleristas recriaram a tarefa de repensar a sociedade.

Centenas de mulheres chilenas, submetidas a um modelo social que as excluía da linha de frente de qualquer batalha, encontraram no artesanato o único meio possível de clamar por seus direitos. A cantora e compositora chilena Violeta Parra (1917-1967) foi uma das arpilleristas precursoras do movimento. Doente e impossibilitada de cantar, Violeta viu no bordado uma forma de expressar os temas sociais que se tornaram a marca inconfundível de suas composições. Para ela, “as arpilleras são como canções pintadas”. Mais do que meio de expressão ou manifestação popular, esses pequenos pedaços de pano eram a um só tempo escape e possibilidade. Ao se apropriarem da costura, as mulheres chilenas não apenas se desvencilhavam do papel historicamente atribuído a elas, mas também teciam silenciosamente testemunhos contra o regime que oprimia a vida de sua família. Por trás do colorido das linhas e das bonecas que davam um sentido tridimensional às telas, estavam manifestos de dor. “Onde estão nossos familiares?”, “Não à injustiça, não à impunidade” são alguns dos dizeres bordados.

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No entanto, saber que mães, esposas e irmãs bordavam a morte dia e noite muitas vezes nas roupas de seus familiares guerrilheiros é saber pouco. O que as motivava a sacar agulhas enquanto seus parentes viravam índice de desaparecidos políticos? A dor da violência, da desigualdade, da pobreza. Dor que existia lá em Isla Negra e existe hoje por toda parte. Por isso é que não demorou para que essa ferramenta de expressão chegasse também ao Brasil.

Sobre Direitos Humanos

Edizângela Alves de Barros tem 30 anos e mora com a família em Altamira – pequena cidade da região amazônica no centro do Pará – em um reassentamento onde vivem outras 280 famílias, cada qual com, em média, quatro pessoas. O lugar onde ela vivia antes será demolido e alagado para a construção de barragens da usina hidrelétrica de Belo Monte, apenas uma entre as duas mil barragens já construídas no Brasil. Somando as 14 microrregiões em que elas se instalaram, um milhão de pessoas já foi expulsa de suas casas. Nas arpilleras de Edizângela, é esse cenário que aparece estampado em fios e tecidos coloridos: o não pertencimento à terra imposta, a perda dos vínculos com a comunidade, o sentimento de abandono dos órgãos públicos.

Edizângela tem cinco filhos, cuja educação depende quase integralmente dela. Até 2012, quando bordou a sua primeira arpillera, educação para ela não tinha nada a ver com consciência social, muito menos com costura. Quando a pedem para definir o que é uma arpillera, ela faz questão de afirmar, certeira, que não é artesanato, não é um produto. “É um ato político. Um estudo aprofundado sobre direitos humanos”, diz, de boca cheia.

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Como qualquer manifestação popular, essas arpilleras podem até contribuir para o sustento econômico de quem faz, mas não nascem com o objetivo de obter lucro e nem de compor uma nova forma de arte. Ao contrário, vão sempre na contramão do sistema que denunciam. Surgem de poucos recursos e são pautadas pela coletividade e pelo desejo de preservação da memória. “Construímos arpilleras não para ter sustento econômico, mas sim para ter na mão uma ferramenta, um jeito de se libertar de um sistema que é muito opressor contra as mulheres.”

Edizângela é conselheira tutelar de Altamira; desde que conheceu as arpilleras, expandiu a sua noção de coletivo e ajuda outras mulheres na luta contra um cotidiano de opressão. Como toda cidade que recebe obras de barragem, Altamira sofreu um grande inchaço populacional com a chegada dos mais de 25 mil operários de Belo Monte. Ela conta que, aos finais de semana, quando os trabalhadores das usinas estão ociosos e espalhados pelos bares do município, as mulheres têm mais medo de sair na rua. “Vem homem de todos os lugares para trabalhar na obra, é muito comum uma mulher conhecer alguém assim, começar um relacionamento, e trazer pra dentro de casa sem conhecer direito, e aí acabam acontecendo esses episódios de violência. Sei de vários casos de assassinatos aqui na região que começaram dessa forma”, conta. Situações como essa são costumeiras em locais de construção de barragens. Uma pesquisa da Plataforma Dhesca, Porto Velho, por exemplo, que abriga a hidrelétrica de Santo Antônio, registrou um aumento geral nos índices de violência após o início das obras. Entre 2008 e 2010, o número de homicídios dolosos cresceu 44%, e o índice de estupros chegou a crescer 208% em três anos.

Em dois anos, a população de Altamira passou de 100 para 140 mil, um contexto que multiplica não só o número de homens, mas também a quantidade de casas de prostituição, os índices de precariedade social e a carestia, transformando a cidade em um ambiente hostil. “A gente se sente muito pequena nesse mundo de patriarcado. A arpillera tem ajudado muito nesse processo”, garante Edizângela.

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Depoimentos como o dela tecem discretamente o fio que une o movimento das arpilleras à construção da identidade. Conhecendo seus direitos e ocupando o seu lugar na luta pelas injustiças sociais, arpilleristas do Brasil inteiro denunciam um submundo de violações que tem sido ignorado pela sociedade, uma narrativa que está prestes a ser contada em filme. O documentário Arpilleras bordando a resistência, idealizado pelo coletivo de comunicação do MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens), está em fase de captação de recursos no Catarse, e será produzido a partir de depoimentos de cinco personagens de todas as regiões do país.

A jornalista Adriane Canan, diretora do filme, explica que a ideia é criar uma grande e coletiva arpillera, que comece com a primeira entrevistada e percorra o Brasil de norte a sul, até formar um trabalho que dê conta de narrar o impacto da construção das barragens por meio da percepção direta das mulheres atingidas. “A proposta é mostrar como essas mulheres, apesar da invisibilidade imposta também pelas questões de gênero, sempre foram imprescindíveis e vêm fortalecendo seu papel na luta contra o atual modelo energético excludente”, explica Adriane, especializada em roteiro pela Escuela de Cine y Televisión de San Antonio de Los Baños, de Cuba.

Atualmente, as arpilleras brasileiras são produzidas por mulheres que vivem em locais como Belo Monte, onde se instala um cenário de intensa vulnerabilidade. O Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH) confirma que há nessas regiões um padrão de violação de 16 direitos humanos – entre eles, direito à moradia adequada, à plena reparação das perdas e a um ambiente saudável –, todos decorrentes do planejamento, da construção e da operação das barragens. A diretora explica que o filme quer mostrar todo esse cenário de impacto social a partir do olhar feminino. Se o valor for arrecadado, a produção começa no segundo semestre deste ano.

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No Brasil

As arpilleras chegaram ao Brasil em 2013, por meio da exposição Arpilleras da resistência política chilena, que ficou em cartaz no Memorial da Resistência, em São Paulo, de julho a outubro daquele ano. A pesquisadora chilena Roberta Bacic, curadora da mostra, percorreu vários países da Europa, Ásia, América e África divulgando o trabalho das arpilleristas, e conta que as mulheres reagiam com entusiasmo e surpresa por essa nova ferramenta de comunicação. “É especialmente significativo como as mulheres aprenderam a se olhar introspectivamente como mulheres, como parte de um grupo.” Para ela, quando uma mulher borda as violações pelas quais passa diariamente, ela assume a responsabilidade social de participação. “É muito forte sentir-se convidada a reagir”, conclui Roberta.

A partir da exposição, o trajeto das arpilleras no país continuou pelas mãos de Esther Vital, membro do coletivo de mulheres do MAB, com apoio e financiamento da União Europeia. Durante a “pesquisa-ação participante”, foram levadas às cinco regiões do país oficinas de capacitação e documentação têxtil para centenas de mulheres atingidas.

Em comum com suas antecessoras chilenas, a vontade de gritar para o resto do mundo o que se passa em seu dia a dia. “A linguagem das arpilleras permite mais facilmente às mulheres se abrirem e falarem sobre a problemática que enfrentam, e, ao mesmo tempo, é um veículo de comunicação para chegar à sociedade civil. Em parceria com as ONGs austríacas H3000, DKA e FeiSo Frei, apresentamos o projeto à União Europeia, e assim conseguimos as condições materiais para realizar oficinas de arpilleras e coletar o testemunho de quase 900 mulheres”, relembra Esther, idealizadora das oficinas, que diz ter em toda arpillera um “movimento rítmico”. “É como uma ciranda. No ato de costurar tem algo que se repete como um mantra, que de alguma forma liberta e acolhe. Por outro lado, a costura é algo familiar, cria um espaço de segurança.”

O colorido sugere que estamos diante de uma obra de arte, mas por trás da leveza estética, estão denúncias graves. Estupro, agressão doméstica, pedofilia, cárcere privado, indução à prostituição. Para uma arpillerista, tudo isso é uma espécie de alarme histórico, um indício de esgotamento. A partir daí, elas se apropriam das ferramentas que têm à mão para mostrar à sociedade que poder não é comando ou controle, mas sim protagonismo. Para Roberta, essa protagonista nada mais é do que a possibilidade de expressão. “Elas se empoderam para falar de sua realidade, dos problemas que as afligem, fazem isso por meio de um testemunho costurado, muitas vezes inspiradas pelo que outras mulheres em outras latitudes do mundo puderam também testemunhar. Vão deixar tudo isso como legado de memória”, resume.

Foi José Saramago quem disse que “fisicamente, habitamos um espaço, mas sentimentalmente, somos habitados por uma memória”. Quando se fala em arpilleras, esses dizeres ganham substância feminina. Historicamente, há um modelo de sociedade pensado para convencê-las de que o poder é este que aparece nos jornais e faz girar a engrenagem da economia e do lucro, mas há em toda arpillera um desejo pulsante de provar o contrário. Para as mulheres arpilleristas, o verdadeiro poder está em algum lugar entre memória e identidade, e é tecido em pontos pequenos, todos os dias com potencial renovado de se tornar conhecimento, democracia e voz.

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Religião

Sobre preconceito e intolerância religiosa

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Foto: Roger Cipó

Comunidades de terreiro se mobilizam em todo o país em busca de combater o preconceito e a perseguição. Saiba mais sobre a luta pela preservação da cultura afro-brasileira

 

Por Vanessa Cancian, para o Brasil de todo mundo

 

“A sua riqueza vem lá do passado, de lá do congado, eu tenho certeza”, a música do baiano Edil Pacheco, eternizada na voz de Clara Nunes, celebra a riqueza da cultura africana que foi construída no Brasil. Os cantos, os toques, a comida, danças e influências da negritude que pairam nessa terra guardam uma riqueza cultural imensurável. Historicamente, a construção da nossa identidade fez com que o Brasil se tornasse um país negro em cor, forma e conteúdo. Mesmo que essa negritude tenha sido renegada ao longo dos anos, a resistência fez com que nos tornássemos o maior país negro fora do continente africano.

Anos de escravidão, lutas por liberdade e ainda hoje a população negra sofre com o preconceito e a falta de respeito por suas tradições. Recentemente, o Terreiro Casa de Oxumarê, um dos mais antigos e tradicionais do Brasil, organizou uma mobilização nacional em busca de defender e clamar por respeito para com os cultos religiosos afro-brasileiros. A destruição de terreiros, ofensas, invasões e manifestação de ódio e intolerância mostram o retrocesso de parte da sociedade brasileira que teima em contestar a diversidade cultural de um país formado da intensa mistura de etnias.

 

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Foto: Roger Cipó

 

“Começamos com essa mobilização sobretudo após o surgimento do exército chamado Gladiadores do Altar, explica Akinyàlé Elias Pontes, coordenador da Rede Afro-brasileira Sociocultural do Estado de São Paulo e Gestor do Grupo de Trabalho de intolerância religiosa no Ministério da Justiça do DF. Segundo ele, adeptos da Igreja Universal vêm atacando os centros de matriz africanas com a justificativa de que são lugares onde se encontra o “demônio”. Casas de culto tanto de Candomblé quanto da Umbanda em todo o Brasil assinaram um manifesto que será encaminhado para a ONU como forma de campanha por mais respeito e igualdade.

A luta dos povos de terreiro é a mesma em todos os estados do Brasil. Em São Paulo, foi criada a iniciativa “As Águas de São Paulo”, com a finalidade de expandir a importância de denunciar atos de preconceito com os povos de matriz africana e promover a liberdade religiosa e preservação dessas tradições. “Precisamos quebrar esses tabus colocados por outras religiões que, ao invés de somar desagregam e geram uma competição que não acrescenta em nada”, diz o Babalorisá Ofanire, presidente do “As Águas de São Paulo”, um dos maiores movimentos brasileiros contra discriminação e intolerância religiosa.

A beleza negra escondida pela mídia

“Toda riqueza cultural das tradições afro-brasileiras não é mostrada porque não temos espaço na mídia para exibir o que os povos de terreiro têm de melhor”, pontua Pontes. O militante e iniciado no Candomblé ressalta também o infeliz hábito dos meios de comunicação brasileiros de reproduzir imagens ruins que não condizem com o que de fato acontece dentro dos terreiros. Mais do que isso, nas poucas vezes em que o debate relacionado ao universo cultural afro-brasileiro chega à grande mídia, o que se vê são produções carregadas de estereótipos, e o povo negro sendo alvo de piadas e desrespeito.

Por esse motivo, a luta das comunidades tradicionais e como de fato acontecem os rituais, a representação do sagrado e toda riqueza cultural ficam escondidos por uma sociedade ocidental de predominância cristã. “Somos uma cultura milenar viva e que resiste até os dias de hoje, oprimida e se escondendo daqueles que querem acabar com tudo isso”, lamenta Pontes.  

Conhecer para respeitar e vice-versa

O antropólogo Darcy Ribeiro afirma em sua obra O Povo Brasileiro que a população negra foi a força substancial da construção do Brasil. Segundo ele, a presença dos povos africanos fez quase tudo que aqui se fez e construiu o que hoje conhecemos como nosso país. Atitudes noticiadas recentemente mostram a falta de conhecimento da população sobre sua própria origem e, mais do que isso, o desrespeito por culturas diferentes. “Eu acredito que para a sociedade respeitar as diferenças é preciso dar a oportunidade de conhecer julgamentos. Ignorante é aquele que não se permite conhecer”, destaca Cerqueira.

“O que aconteceu essa semana foi um movimento histórico digno de ser noticiado pelos mais importantes canais de comunicação do Brasil. Pela primeira vez as comunidades de terreiros, de todos os estados do país, se mobilizaram e denunciaram os ataques e abusos motivados pela intolerância religiosa, no Ministério Público. A falta de atenção da grande mídia para nossa causa demonstra o quão fundamentalista e preconceituosa é a nossa comunicação, que enxerga os terreiros somente como exoterismo para previsões e matérias tendenciosas, mas nunca noticiam as importantes lutas que protagonizamos pela tão sonhada liberdade de culto e expressão da fé”, diz Roger Cipó, fotógrafo e candomblecista.

 

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Foto: Roger Cipó

 

“Para mudar essa realidade, temos que combater a raiz da intolerância, que pra mim é o racismo. Historicamente, a sociedade negou a cultura, religião e identidade do negro para negar a sua humanidade e justificar até mesmo a escravidão”, alerta Marina Duarte de Souza, jornalista e produtora cultural. Segundo ela, as religiões de matriz africana foram demonizadas pela sociedade cristã branca e patriarcal e até hoje as pessoas reproduzem esse discurso de macumba, feitiçaria e magia negra, o que explicita ainda mais o racismo.

A jornalista se iniciou recentemente no Candomblé e sente na pele as manifestações de preconceito quando as pessoas se deparam com seus trajes brancos. “Sinto que as vezes chega a ser uma fobia. Há pessoas que chegam com papos como ‘Jesus te ama menina’ e respondo: ‘não foi ele que pregou o respeito ao próximo?'”, completa. “Em longo prazo isso se combate com educação e informação, daí a importância de leis como a 10.639, do Estatuto da Igualdade Racial e do Plano Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana”, ressalta Souza.

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Direitos da Criança e do Adolescente

Em carta, adolescente narra rotina de torturas na Fundação Casa

 

Por Igor Carvalho

Um interno da Fundação Casa, da unidade Centro Novo Horizonte, em Guaianazes, zona leste de São Paulo, conseguiu entregar à sua família uma carta, denunciando uma rotina de violência dentro da instituição. O adolescente estaria, de acordo com o documento, sendo alvo de tortura. “Eles pisaram na minha cabeça na minha perna e deram vários socos na minha cabeça e nas minhas costas”, afirma.

A violência, que não é novidade dentro da Fundação Casa, é estendida a outros jovens. O jovem que escreveu a carta afirma que outros 14 internos são torturados. Na denúncia, ele coloca o nome de todos, mas ocultaremos nesta reportagem. Os nomes dos agressores também são revelados (ver abaixo).

No texto, o adolescente questiona a instituição em sua função primeira, a recuperação dos internos. “Sou consciente de tudo que fiz mas acho que um tempo na fundação casa serve para mim repensar nas minhas atitudes e reconstruir a minha vida mais num ambiente como esse que nós somos humilhados e agredidos é muito difícil de conviver”, relata.

No final, ele afirma que denunciou as agressões, mas não houve retorno algum. “Já fizemos diversos boletins de ocorrências na delegacia mais não resolveu a única coisa que eu ganhei foi um sorriso de um funcionário falando que não vai acontecer nada com ele e a agressão predominou neste local.”

Confira na íntegra a carta:

“Ne um começo de tumulto em estava elvolvido. Não coloquei a mão em ningúem após isso os funcionários colocaram a mão em diversos adolescentes, um desses adolescentes foi a minha pessoa eles pisaram na minha cabeça na minha perna e deram vários socos na minha cabeça e nas minhas costas, Isso não aconteceu esse dia já virou rotina nesse centro agressão fisicamente sei que para mim estar aqui não estava seguindo totalmente o meu dirieto de cidadão sou consciente de tudo que fiz mas acho que um tempo na fundação casa serve para mim repensar nas minhas atitudes e reconstruir a minha vida mais ne um ambiente como esse que nós somos humilhados e agredidos é muito dificil de conviver já fizemos diversos boletins de ocorrências na delegacia mais não resolveu a única coisa que eu ganhei foi um sorriso de um funcionário falando que não vai acontecer nada com ele e a agressão predominou neste local.”

Funcionários: 

Seu Rocha

Seu Jorge

Seu Marcio

Seu Nilto

Seu glauber

Seu Ricardo

Seu Paulo rogério

Seu Paulo

 

carta frente

 

carta verso

 

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Violência Policial

Após assassinato de criança de 10 anos, governador do Rio promete: “Vamos entrar mais forte, fazer uma reocupação com mais policiais”

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Por Douglas Belchior

O governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão (PMDB), afirmou, por meio de um texto publicado em sua página no Facebook, na manhã desta segunda feira 6, que vai fortalecer as UPPs e que a Base do Complexo do Alemão, na zona norte do Rio, é uma delas: “Vamos entrar mais forte, fazer uma reocupação. Vamos fortalecer colocando mais policiais”.

A publicação da declaração do governador ocorreu simultaneamente ao velório do menino Eduardo de Jesus Ferreira (10), assassinado durante uma operação militar no Complexo do Alemão. O corpo do garoto foi levado para o município de Corrente, região Sul do Estado do Piauí, cidade natal da família, onde foi realizado o sepultamento.

Segundo reportagem publicada pelo jornal O Globo, o estado do Rio de Janeiro registrou, nos últimos dez anos, 50 crianças mortas por policiais, o que equivale 60% de todos os casos no país. No Brasil, 82 crianças e adolescentes de até 14 anos foram mortas por policiais; destas, 73% eram negras. Os números foram extraídos de dados do Sistema de Informação de Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde.

Apesar das manifestações de familiares de vítimas, dos permanentes protestos promovidos pelos movimentos sociais e organizados por moradores, das repetidas denúncias feitas por instituições, organizações não-governamentais e até pela imprensa, sobre as ações violentas e letais das forças policiais do estado, o governo do Rio de Janeiro apresenta mais uma vez, como resposta ao caos, a decisão de enviar às favelas mais polícia e mais armas.

O assassinato brutal de um menino de 10 anos de idade e a reafirmação de que o estado do Rio de Janeiro e seu governador são responsáveis por uma polícia que mata crianças deveria bastar para provar que, na prática, essas ações só produzem ainda mais violência. Deveria.

Mas, se nem o assassinato de crianças é capaz de comover a sociedade e seus governos, é sinal de que chegamos a um ponto ainda pior do que se imaginava.

Tratar o assassinato do menino Eduardo com o desdém que se percebe e, pior, responder ao problema com a promessa de enviar às favelas do Rio outras centenas de homens fardados, armados e licenciados para matar é mais do que uma declaração de guerra. É a barbárie! É o genocídio!

 

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Foto: SemanaOn

 

Resistência: Moradores e Movimentos convocam Marcha contra a Violência

PAREM A GUERRA NA PERIFERIA IMEDIATAMENTE!

Quarta-feira, 08 de Abril, a partir das 17h00

Marcha de denúncia da violência policial terá concentração no Largo do Machado, em direção ao Palácio Guanabara. Serão confeccionados cartazes no local a partir das 17h e a caminhada deverá iniciar às 18h.

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Foto: Mídia Ninja

 

 

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Violência Policial

No Complexo do Alemão, Páscoa tem morte sem ressurreição

 

Por Douglas Belchior

Quinta-feira santa. Complexo do Alemão, zona norte do Rio de Janeiro. Mas poderia ser Capão Redondo, em São Paulo, Cabula, em Salvador, ou Terra Firme, em Belém do Pará.

E os gritos desesperados da mãe: “Léo, acabaram com a vida do seu irmão. Léo, meu filho, a polícia atirou na cabeça do meu filho dentro de casa! Eles são covardes, Léo…”

Poderia ser Maria, a santa mãe de Jesus. Mas era a trabalhadora doméstica Terezinha Maria, de 40 anos, mãe do Cristo da vez, o menino Eduardo de Jesus Ferreira, 10 anos de idade, assassinado com um tiro de fuzil a queima roupa dentro de casa.

Jesus de Nazaré tivera direito a julgamento. Morte, só depois de condenado pelo juri popular. Já Eduardo, não terá chance sequer de ser alvo fácil dos efeitos de uma possível redução da maioridade penal.

Segundo testemunhas, um policial fardado e com o rosto escondido por um capuz atirou e ficou olhando. Depois, ameaçado pelos moradores, teria fugido mata adentro.

Desde quarta-feira (01/04), além do menino Eduardo, outras seis pessoas foram baleadas no Complexo do Alemão. Três morreram. Todas mortes suspeitas de serem fruto de ação policial.

A justificativa é sempre a mesma: o combate ao tráfico e ao crime organizado. Já as mortes ocorrem quase sempre nas mesmas condições, “trocas de tiros entre bandidos e policiais”.

Mas os crucificados, mortos e sepultados são sempre os mesmos: moradores, jovens, negros e pobres.

Na sexta-feira da paixão, ligo a TV e em todos os canais a notícia é: alguém “importante” perdeu o filho em acidente de helicóptero. Sim, a Páscoa será triste também. Meu respeito a todas as dores. Mas há uma morte natural, acidental ou decorrente da doença incurável. E outra – a maioria delas – resultado do descaso, do preconceito e da violência gratuita. Uma bala de fuzil disparada por um agente público em serviço, ao encontro do corpo franzino de um menino de 10 anos, não merece atenção? Não merece debate, cobertura, preocupação? Por que não?

E o que mais há de se dizer? E o que mais há de se fazer? Talvez esperar que a Páscoa nos faça mais que lembrar uma ressurreição simbólica, mas que nos provoque a insurreição necessária.

Estado brasileiro, governos e polícias: nossos Pilatos com mãos lavadas em sangue!

 

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Resistência contra a violência policial

Movimentos Sociais e moradores das comunidades resistem de maneira permanente contra a opressão e a violência impostas pelas polícias instaladas nas UPPs, no Rio de Janeiro. Através das FanPages Deixem as Favelas em Paz, Fim da UPP e Ocupa Alemão, ações de protestos e atos de resistência são divulgados.

 

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Direitos da Criança e do Adolescente

Os dez motivos de Sheherazade para reduzir a maioridade penal. E a minha vergonha alheia

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Por Douglas Belchior

“Os opositores da redução da maioridade penal alegam que a medida não deverá acabar com a violência. Mas, esse não é o objetivo da proposta. Violência não é causa. É consequência. E leis não servem para evitar crimes, mas para puni-los. Simples assim.”

Assim termina o texto da jornalista Rachel Sheherazade, em comemoração ao prosseguimento da PEC 171/03, que prevê a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, publicado em sua coluna no site da JopemPan-Uol. O texto é acompanhado de um áudio, em que a jornalista descreve dez motivos que justificariam a redução da maioridade penal no Brasil.

Nas últimas semanas este Blog tem publicado diversos textos, alguns deles propositadamente didáticos, tais como os das 18 razões para não reduzir a maioridade e a dos 6 mitos sobre a redução, entre outros, todos no sentido de qualificar o debate e oferecer subsídios para que as pessoas bem intencionadas e realmente preocupadas com a sociedade brasileira possam compreender a gravidade e o desafio que se apresenta em relação ao tema.

Infelizmente, como é de praxe, a grande mídia e seus personagens teimam cumprir o papel contrário, desqualificando e tratando questões complexas com a profundidade de um pires, tal como faz a nobre jornalista – sem ofensa à categoria – cotidianamente.

Desafio a Joven Pan! Desafio o SBT e todos as demais grandes redes de Rádio e TV a cumprir seu papel constitucional de empresa concessionária do direito público à transmissão, e abrir seu espaço para que movimentos de defesa dos direitos humanos e da infância e juventude possam expor também seus posicionamentos. Desafio Sheherazade para um debate público. Duvido que tenha coragem!

E o que mais dizer sobre alguém que faz uso da popularidade e do espaço público para proferir ódio, como já fez e faz Sheherazade, e promover a triste ideia de que leis existem para punir e não para garantir direitos.

Tive vontade de escrever um texto com a descrição de mortes de jovens negros e pobres, assassinados pelas polícias em todo país. Mas seria frágil, ineficaz, desrespeitoso e nada inteligente.

A permanente violência em que estamos mergulhados, e que é a mesma que serve de argumento aos que defendem a redução da maioridade, é ela em si a prova de que, num país que tem a terceira maior população carcerária do planeta e uma das polícias mais letais do mundo, a aprovação de novas leis que punem e encarceram são como um novo vidro do remédio que sempre se tomou, mas que nunca deu fim à doença.

Por fim, é com o mais fraternal sentimento de vergonha alheia que replico abaixo os dez motivos de Sheherazade, para reduzir a maioridade penal no Brasil:

 

1 – Liana Friedenbach, 16 anos, sequestrada, torturada, estuprada, esfaqueada e morta pelo menor Champinha, de 16 anos.

2 – Victor Deppman, 19 anos, estudante – assassinado com um tiro na cabeça na porta de casa por um menor de 17 anos.

3 – João Hélio Fernandes morto aos seis anos de idade, depois de ser arrastado pelo asfalto por 7 km e 10 intermináveis minutos. O acusado de fechar a porta do carro e deixar a criança pendurada pelo cinto de segurança foi o menor “E”.

4 – Rodrigo Silva Netto, 29 anos, músico da banda Detonautas, assassinado a tiros por um assaltante menor de idade.

5 – Yorrally Dias Ferreira, 14 anos, assassinada com um tiro na cabeça pelo ex namorado, um menor de 17 anos que filmou a vítima ensanguentada e distribuiu as imagens pela internet.

6 – Silmara da Cruz Alves, dona de casa, 31 anos, assassinada a facadas por um assaltante de 17 anos por causa de 20 reais. Ele ria enquanto narrava o crime à polícia.

7 – Celso Mazzieri, jornalista, 45 anos, enforcado pelo namorado e mais dois menores de 17 anos.

8 – Lucas Bonfim de Jesus, um bebê de um ano e meio, esfaqueado e decapitado por um menor de 17 anos, o “Neguinho da Máfia” que aproveitou a ocasião para estuprar a mãe da criança.

9- Adriana Moura Miranda , 43 anos, estrangulada pela filha menor de idade. O namorado ajudou a queimar e esconder o corpo da vítima.

10 – Cinthya Magaly de Souza, dentista, 46 anos – queimada viva por um assaltante de 17 anos porque só tinha 30 reais na conta.

 

 

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Direitos da Criança e do Adolescente

Na CCJ, 60% dos deputados à favor da redução da maioridade penal são investigados por crimes

Deputados são investigados por crimes eleitorais ou corrupção. Mas quem deve ser presa é a juventude brasileira!

 Por Douglas Belchior e Gabriela Zanotto – Eu quero que desenhe.

Se a lógica do senso comum valesse para efeito de julgamento dos deputados que participaram e derrubaram a inadmissibilidade da PEC 171/93, que prevê a redução da maioridade penal, em reunião da CCJC na quinta (31/03), 60% deles não poderiam ocupar suas funções públicas.

Dos 43 deputados responsáveis pela aprovação da PEC da Redução, 25 têm problemas na justiça e estão envolvidos em algum processo criminal. Os outros 16 (também segundo a lógica punitiva hegemônica) tem melhores advogados.

“Lugar de bandido é na cadeia!” E o que fazer com os “maiores infratores”?

Um dos principais argumentos usados pelos parlamentares para justificar a necessidade de levar à frente a proposta de redução da maioridade penal é o fato de, segundo pesquisas, mais de 90% da população ser favorável à alteração da lei.

Sim, é preciso reconhecer que há um majoritário, porém superficial posicionamento sobre o tema, muito mais fruto da campanha massiva promovida pelos grandes meios de comunicação, que estimula o sentimento de medo e vingança em relação aos adolescentes em conflito com a lei, do que propriamente uma opinião coletiva resultante de uma análise mais séria do assunto.

Mas usemos para efeito de reflexão a mesma lógica: qual a opinião da população acerca dos políticos? E dos deputados? E do Congresso Nacional? Qual a diferença entre um político corrupto e um assassino qualquer? Que criminoso é mais perigoso, o deputado que vende emenda parlamentar e negocia propinas ou o “traficante-delinquente-marginalzinho-vagabundo-preto-tá-com-dó-leva-pra-casa” ali da esquina?

Quem precisa de leis severas que lhes garantam punição e cadeia são os jovens brasileiros!

O debate sobre a redução da maioridade penal nos coloca defronte ao imaginário racista e preconceituoso – próprio da sociedade brasileira – de que há certas pessoas que colocam a sociedade em risco; de que precisamos nos ver livres delas; de que, se possível, elas devem ser mortas; de que ao menos devem ser presas, quanto mais e quanto antes. E de que essas são verdades inquestionáveis, mesmo que a realidade dos fatos demonstrem o contrário e mesmo que os julgadores sejam tão ou mais criminosos que os julgados.

Abaixo, a ficha corrida, a capivara, a síntese do currículo lattes dos nobres deputados responsáveis pela avaliação favorável à PEC da redução na CCJC.

1 Aguinaldo Ribeiro Investigado pela operação Lava Jato
2 Alceu Moreira Ficha suja
3 Alexandre Leite Crime eleitoral
4 Altineu Cortes Multa por campanha antecipada 2012
5 André Moura Investigado por compra de votos (2006)
6 André Fufuca
7 Arnaldo Faria Sá
8 Arthur O. Maia
9 Bonifácio Andrade Porte ilegal de arma
10 Bruno Covas Caixa 2
11 Capitão Augusto
12 Covatti Filho
13 Cristiane Brasil Crime eleitoral
14 Danilo Forte Crime eleitoral e em leis de licitações
15 Dr. João
16 Elmar Nascimento
17 Evandro Gussi
18 Fausto Pinato
19 Felipe Maia Investigado pelo TCU: Dono de empresa que presta serviço ao governo
20 Giovani Cherini Captação ilícita de sufrágio
21 João Campos Investigado por embolsar o salário de funcionários
22 José Carlos Aleluia Máfia das ambulâncias
23 Juscelino Filho Crime eleitoral
24 Laerte Berssa
25 Laudivio Carvalho
26 Lincoln Portela Compra superfaturada de ambulâncias (Operação Sanguessuga)
27 Luciano Ducci Crime eleitoral
28 Marco Tebaldi Lei de licitações e responsabilidade fiscal
29 Marcos Rogerio
30 Paes Landim Crime eleitoral
31 Pastor Eurico
32 Paulo Freire Venda de emendas parlamentares
33 Paulo Magalhães Crime eleitoral
34 Prof. Victorio Galli
35 Ronaldo Fonseca
36 Rossoni Funcionários fantasmas
37 Sandro Alex
38 Sergio Souza Operação Gafanhoto – desvio de verba assembleia legislativa paraná
39 Sergio Zveiter
40 Silas Camara Crime eleitoral
41 Valtenir Pereira Crime eleitoral
42 Veneziano Vital Improbidade administrativa
43 Vitor Valil