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Violência Policial

Lucas pediu ao PM: “Não precisa me matar, senhor”

Por Douglas Belchior

O Estado, os governos, os políticos e a polícia, o que esperar deles? Cumprimento das leis constitucionais? Preocupação com o bem comum? Respeito aos direitos humanos? Ou, ao contrário, o incentivo, a conivência e a prática de crimes? Pois continuam, como há 515 anos, fazendo do povo negro e periférico, alvo de sua violência e covardia, bem como registra abaixo a /PONTE.

 

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Fonte /PONTE, por Claudia Belfort, Luís Adorno e Rafael Bonifácio

“Antes de matar ele, o cara segurou no cangote dele [de Lucas], ele falou para não matar ele e ele matou. Ele pegou ajoelhou, algemado, [disse] não precisa me matar, senhor….”

Dois garotos que  jogavam bola com Lucas Custódio, 16 anos, minutos antes de ele ser assassinado por PMs na tarde de quarta-feira, no Grajaú, contradizem a versão dos policiais sobre o crime. João e Hélio (nomes fictícios) disseram que viram quando os policiais dominaram Lucas, que estava desarmado, e que o levaram algemado para o matagal atrás da favela Sucupira, onde foi assassinado com dois tiros pelos PMs. Segundo as testemunhas, Lucas pediu para não ser morto.

“Antes de matar ele, o cara segurou no cangote dele [de Lucas], ele falou para não matar ele e ele matou. Ele pegou ajoelhou, algemado, [disse] não precisa me matar, senhor….”, contaram os garotos. Eles fizeram a denúncia à reportagem da Ponte durante o enterro do jovem, realizado no Cemitério Jardim São Luiz, nesta sexta-feira, 29/05.

 

Na versão do tenente Flávio Augusto Godoy e do cabo Aparecido Domingues Vieira, ambos do 27o. Batalhão da Polícia Militar (BPM),ao perceber a presença de policiais, Lucas fugiu em direção a um matagal. Lá ele teria atirado contra os policiais, que revidaram, atingindo-o com dois tiros.

O caso aconteceu às 14h25, mas os PMs demoraram 5 horas para comunicar a morte às autoridades da Polícia Civil. A família de Lucas, chegou ao DHPP (Departamento Estadual de Homicídios e Proteção a Pessoa) antes mesmo dos policiais. Segundo, Robson Gomes, irmão de Lucas e pastor da Igreja Universal, os policiais acusaram o adolescente de ter roubado um carro. “Mas Lucas não sabia dirigir”, contou Pastor Robson.

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O ouvidor das polícias de São Paulo, Julio Cesar Neves, disse que o fato precisa ser rigorosamente apurado e que vai pedir que o Ministério Público entre no caso.

Se você não sair agora, vou dar um tiro bem na sua barriga, matar você e seu filho

Quatro moradores da Favela Sucupira, onde a PM matou a tiros Lucas Custódio, 16 anos, relatam terem sido ameaçados e espancados por policiais logo após o crime

Moradores da favela Sucupira, no Grajaú, onde Lucas Custódio, 16 anos, negro, morto a tiros por policiais militares, na tarde do dia 27/05, relatam que foram perseguidos, ameaçados e espancados por PMs após o crime. Muitos contam que se trancaram em casa, outros não escaparam. A reportagem da Ponte gravou em vídeo relato de quatro pessoas agredidas, entre elas uma grávida e um menino de 13 anos.

 

“A gente estava xingando, aí o policial chegou e falou assim: ‘sai do meio, sai do meio’, eu peguei e falei: ‘eu não vou sair’, ele falou: ‘sai, se não vou atirar’… Aí ele disse: ‘se você não sair agora vou dar um tiro bem sua barriga, vou matar você e seu filho’”.

“Eles me pegaram na viela, nos estava jogando bola, já vieram me batendo, falando um monte de coisa da minha mãe, falando que eu ia morrer…Aí começaram a me encher de soco e me amarram com um enforca gato [braçadeira plástica] e falaram para mim sentar, mas se eu sentasse ia quebrar minha mão toda, porque eles enforcaram até o último, eu estava quase até desmaiando. Eu falei que tinha 13 anos, ele falou: cala boca, eu não quero nem saber”.

C. , 47 anos, moradora

“Eu subindo a rua, um policial olhou pra mim e falou ‘o que você tá olhando?’. Eu falei ‘nada, eu só tô te olhando’. Ele olhou pra mim e falou da seguinte forma: pra não ficar olhando pra ele porque ele é bonito, mas que se eu quisesse dar pra ele, eu dava depois…E veio um policial pelas minhas costas e me deu uma bicuda. Aí um outro policial me agarrou e tentou me levar pra dentro do beco pra continuar me batendo, mas eu continuei brigando com o policial, me arrastando para a rua, enquanto eles tentavam me arrastar pra dentro do beco.”

Qualquer pessoa que chega aqui eles agride. Pegou o menino ali …Pega os moradores e leva lá para baixo para bater, para espancar o pobre das crianças. O menino que acabou de chegar da igreja também foi apanhado. O outro também foi pegado lá embaixo para bater. Isso é abuso de poder, gente.

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Violência Policial

Adolescente negro de 14 anos é assassinado pela PM na zona sul de São Paulo

por Douglas Belchior

A polícia brasileira é das mais racistas e violentas do mundo. Organismos de dentro e fora do Brasil reafirmam. O movimento negro denuncia. Há duas CPI’s sobre ação das polícias e genocídio negro em funcionamento em Brasília. E até o The New York Times, em matéria recente, estranha como é possível a polícia matar tanto e não haver grandes reações por aqui. E nada disso intimida os assassinos. A polícia e o Estado brasileiro seguem matando pretos. Desta vez foi o menino Lucas. Acompanhe abaixo a cobertura da /PONTE.

 

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Lucas Custódio dos Santos, 14 anos

Policiais colocaram o corpo na ambulância já com uma manta utilizada para cobrir cadáveres, dizem testemunhas. Depois da morte, moradores da região foram agredidos

Fonte /PONTE, por Claudia Belfort e Luís Adorno, com colaboração de Rafael Bonifácio

Agentes da PM-SP (Polícia Militar do Estado de São Paulo) mataram o adolescente Lucas Custódio dos Santos, negro, 14 anos, por volta das 14h desta quarta-feira (27) em um terreno baldio na Favela do Sucupira, região do Grajaú, zona sul da capital. Segundo primos e um irmão do jovem, Lucas voltava de um jogo de futebol quando tomou um tiro na perna. Depois do primeiro disparo, assustado, ele tentou fugir e foi alvejado. Testemunhas relatam que policiais militares dispararam seis vezes contra o rapaz, acertando três tiros, um na perna e dois no abdômen.

De acordo com a corporação, dois adolescentes foram abordados e tentaram fugir, um conseguiu escapar. A PM afirma que Lucas foi socorrido e levado ao Hospital Maria Antonieta, mas um vídeo, obtido com exclusividade pela Ponte Jornalismo, mostra que o corpo do jovem estava envolto com uma manta térmica e segundo os moradores, ele deixou o terreno já coberto por essa manta, como um cadáver.

Moradores afirmaram, ainda, que um dos policiais envolvidos no caso colocou as mãos na cabeça e disse estar arrependido do que fez. O caso foi registrado no 101o DP (Distrito Policial).

A reportagem pediu explicações à Polícia Militar, à 1h44 desta quinta-feira (28). Às 3h22, a corporação respondeu que “a Polícia Militar esclarece, em nome da transparência que lhe é peculiar, que o respectivo pedido de informação não oferece tempo hábil para o devido levantamento acerca do fato noticiado. Em respeito ao público leitor, encaminharemos a demanda ao Comando local, e responderemos, dentro da razoabilidade, assim que dispusermos dos dados a respeito.” Em contra resposta, a reportagem da Ponte afirmou que, assim que a corporação tiver uma versão para o fato, a matéria será atualizada.

Para chamar a atenção para a morte de Lucas, moradores da região fizeram uma manifestação, que teve o seu pico por volta das 17h. Segundo a PM, cinco ônibus e um caminhão foram depredados, os manifestantes também atearam fogo em lixo para interromper o tráfego na avenida Dona Belmira Marin. A presença da PM, principalmente do 27o Batalhão e da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), se intensificou para interromper os eventuais atos de vandalismo contra os veículos, mas, ao mesmo tempo, provocou terror em quem protestava. A reportagem da Ponte Jornalismo teve acesso a duas vítimas da truculência policial no Grajaú entre a tarde e a noite desta quarta-feira: Luiz Felipe Rocha de Lima, de 20 anos, pizzaiolo, e C., de 47.

 

Luiz Felipe Rocha de Lima temeu ter o mesmo fim de Lucas Custódio dos Santos, seu primo. Pizzaiolo, quando ficou sabendo que o jovem havia sido alvejado, ainda havia a esperança de que ele estivesse vivo. “Ninguém deixava a gente ver [o corpo]. Os policiais alegavam que estava vivo e que estavam prestando socorro. Só que já saiu daqui morto e eles quiseram falar que morreu quando chegou no hospital”, afirmou à Ponte. “Agora pela noite, eu subindo a rua, um policial olhou pra mim e falou ‘o que você tá olhando?’. Eu falei ‘nada, eu só tô te olhando’. Ele olhou pra mim e falou da seguinte forma: pra não ficar olhando pra ele porque ele é bonito, mas que se eu quisesse dar pra ele, eu dava depois.”

“Eu falei pra ele me respeitar porque eu sou homem igualmente a ele e vestia calça igualmente a ele. Aproveitaram da situação, falaram um monte para mim e começaram a me bater. E veio um policial pelas minhas costas e me deu uma bicuda. Aí um outro policial me agarrou e tentou me levar pra dentro do beco pra continuar me batendo, mas eu continuei brigando com o policial, me arrastando para a rua, enquanto eles tentavam me arrastar pra dentro do beco. Nisso, um policial começou a me forçar e eu desmaiei no meio da rua e eles me batendo. Depois eles me acordaram e começaram a me bater novamente e pediram meu documento. E quando eu fui pegar meu documento, o policial cuspiu na minha cara”, relata o primo da vítima fatal, que voltava da igreja depois de saber da morte do menor de idade.

Luiz Felipe é obreiro da Igreja Comunhão e Vida, trabalha com o Pastor Erico Reis, que também conhecia Lucas. “Era um menino tranquilo, andava sempre sorrindo e costumava ir ao culto jovem no segundo sábado de cada mês. Eu o conhecia desde os 5 anos de idade”, contou Reis.

C. não tem nenhum vínculo familiar com Lucas, mesmo assim sofreu, psicologicamente e fisicamente, com a morte do jovem. Assim que soube do protesto da avenida Belmira Marin, foi solidária e participou. Levou um tiro de bala de borracha nas costas. Durante toda a tarde e noite, até por volta das 23 horas, vários carros de polícia foram ao local, com agentes fortemente armados, encarando e medindo, da cabeça aos pés, os moradores. Depois deste horário, viaturas da Força Tática iam de um lado para o outro da avenida, devagar, com faróis e sirenes apagadas. Os olhares dos policiais eram os mesmos do decorrer do dia. “Até agora [por volta de 1h de quinta-feira (28)] está todo mundo sendo agredido. Quem chega aqui, eles [policiais] agridem. Pega os moradores e levam lá para baixo para espancar”, afirmou a mulher à reportagem.

 

A população voltou para suas casas por volta de 1h30, vários estavam receosos sobre como será esta quinta-feira. Diversas viaturas da PM permaneceram no local e nos arredores durante a madrugada.

 

 

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Escrita da história

Dia da África, dia da libertação africana

Por Douglas Belchior

O dia 25 de maio é celebrado como “Dia da Libertação Africana”. A data marca a fundação da Organização da Unidade Africana, em 1963 em Addis Abeba, na Etiópia. Participaram daquele momento histórico 32 Estados Africanos. Àquela altura, dois terços do continente havia alcançado a independência do domínio colonial. Nesta reunião a data de Dia da Liberdade da África foi alterada de 15 abril para 25 maio e renomeado para Dia da Libertação Africana. Desde então 25 de maio tornou-se a referência simbólica e pragmática dos objetivos estratégicos e políticos do movimento Pan-africano.

Apesar da conquista da independência formal, muitos países africanos não romperam totalmente suas relações com as ex-metrópoles e essa continuidade de opressão originou o surgimento do neocolonialismo, que se trata de um modelo de continuidade da dominação estrangeira na política e na economia das nações africanas. Ainda hoje as forças do capital e do racismo subjulgam a maior parte do território e da população do continente africano, em que pese a permanente luta desse povo.

Para nós, afro-brasileiros e africanos da diáspora em todo o planeta, a data é importante para resgatar a importância deste continente, celebrar sua beleza, sua riqueza e principalmente exigir reparação histórica à todos os territórios e populações negras espoliadas pelo racismo e pela intolerância em todo o mundo.

Para comemorar essa importante data, registro abaixo o emocionante relato de uma educadora brasileira e seu encontro consigo mesma, em África.

Ubuntu!

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Por Maria Silvia F. Alves de Oliveira

“Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar.”

Nelson Mandela

Dia 25 de maio, dia da África. Sim, esse dia me emociona.

Me emociona pensar nos meus alunos negros, filhos de negros guerreiros, netos de negros que lutaram muito por sua sobrevivência. Sua ancestralidade, sua cultura rica. A alegria deles em cada aula. A luta diária deles para estarem ali. A importância do respeito à sua identidade, ao cultivo da sua cultura negra e periférica. Me emociona, ver sua felicidade quando na Aula sobre Cidadania por exemplo, cantamos juntos “Levanta e Anda”, do também negro brasileiro Emicida.

Me emociona neste dia 25/05 em lembrar da Cida, vizinha querida na cidade pequena onde nasci e cresci. Com ela aprendi uma outra História dos negros que não estava nos livros da escola estadual onde estudei na infância. Com ela aprendi a riqueza da congada (manifestação cultural e religiosa de influência africana mantida localmente pela comunidade negra da minha cidade de nascimento: Itapira/ SP), a solidariedade e a importância do ritual ao fazer uma feijoada por exemplo. Aquela mulher negra, forte, trabalhadora sempre se mostrava diferente daquelas fotos que os livros escolares traziam. Seu sorriso era sempre presente.

Em meados dos anos 80 uma reportagem sobre a África me fez ficar maravilhada, e pensava comigo: Um dia irei até lá. Irei encontrar outras Cidas! As revistas, os jornais insistiam em mostrar somente o lado triste do Continente. Mas, eu não desisti. Virou um sonho. Misturado ao sonho de fazer algo pelo social. Me intrigava tanta diferença social aqui em nosso país e lá na África também. Nas brincadeiras da infância, muitas crianças na escola queriam conhecer a Terra de Tio Sam. Eu queria ir para África. Nem me importava para a cara de estranheza deles. Em uma cidade do interior, esse não era um sonho comum. Talvez ainda não seja.

Me emociona este dia 25 de Maio, pensar no Jean. Um menino negro e alto que estudou a infância toda comigo. Todos os anos da escola, nas festas juninas, eu dançava com ele. Sim, nós éramos os mais altos da turma. E isso me fazia sentir mais aceita, já que sempre fui bem alta e isso até então era um problema pra mim. Até que um dia a mãe de Jean me diz: “filha, obrigada por dançar com meu filho todos esses anos. Só você dança com ele.” Virei pra ela e disse: – sim, tia. Nós somos muito altos!  Ela séria pela primeira vez, ao se dirigir a mim: – “não filha, não é isso. Um dia você vai entender”.  Jean, do meu lado nesse momento está cheio de lágrimas nos olhos.

Ela se referia ao Racismo. Passei então, saber que ele existe. Mas, ainda não entendo. Não aceito.

Me emociona este dia 25 de maio em pensar no meu sonho sendo realizado em 2012, em conhecer à Mãe África. Mas não quis ir até lá como turista. Queria estar mais próxima do povo, da comunidade. Somália fui aconselhada a não ir pela violência local na época. Angola e Moçambique entrariam em férias escolares na época. Escolhi então ir como voluntária em um projeto na África do Sul. Nos projetos, eu fui como Educomunicadora. O objetivo principal seria a Inclusão Digital.

É mágico pisar naquela terra, já quando chegamos no Aeroporto. Cheguei primeiro em Joanesburgo. Aquele povo lindo, sorridente, solícito, pronto em ajudar.

Foi lindo ver todas aquelas mulheres com seus lindos e coloridos turbantes. As crianças bem seguras nas capulanas (em alguns lugares da África do Sul, eles usam também esse nome. O belo tecido recebeu o nome de capulana em Moçambique).

De Joanesburgo pego outro voo até East London. Lá o simpático Thobela, que trabalha no projeto vai me buscar. Ainda faltam 50 minutos para o destino final: Chintsa East.

Chintsa East é uma vila litorânea, ao sul da África do Sul, na região de Wild Coast e pertence a província de Eastern Cape. Fica a 1 hora e meia de Qunu, pequena vila rural, onde Mandela nasceu e foi enterrado em dezembro passado.

O projeto de Inclusão Digital, então será feito em duas escolas comunitárias municipais rurais: a de Chintsa e Bulugha. Fui escalada para ficar nas duas escolas. O projeto seria para pré-escola, crianças e adolecentes. Em Chintsa também para os adultos.

No centro da vila, tem um café charmoso, um pequeno supermercado e um restaurante/ bar. Os chamados “orelhões” ainda são procurados pelas pessoas que moram e trabalham ali, para fazer suas chamadas telefônicas. Internet é muito cara. O sinal do celular é ruim.

No primeiro dia de aula, fui muito bem recebida por todos na escola. As crianças me olham com curiosidade e muito carinho.

Me apresentei e mostrei o Brasil no mapa, onde moro e mostrei a África e onde eles moram. Pedi para marcamos nossos nomes do Mapa no lugar de onde nascemos/vivemos, eles adoraram. Logo me perguntam sobre o Futebol. Eles sabiam os nomes de vários jogadores. Perguntei da comida, roupa, música. E percebi o quanto somos realmente parecidos em tudo.

Inclusive nas rotinas da escola. Tudo muito parecido.

As salas são muito simples, mas bem cuidadas. Na sala de informática eles só tem 12 computadores, 2 quebraram. Dividíamos 2 alunos nas máquinas. Eles não tinham internet. Ainda fazem pesquisas nos livros. As aulas eram mais direcionadas para produção de textos e utilização de imagens. Me emocionava, o quanto eles queriam participar da aula. Levantavam a mão o tempo todo com vontade.

Muitas vezes, em frente ao computador cantavam juntos, fazendo a primeira e segunda voz naturalmente. Eu me sentia em uma aula de canto muitas vezes.

Logo abaixo no banco de madeira onde as crianças estavam, tinham alimentos estocados. Sacos de arroz, batata e cebola. Aquela imagem do alimento e dos computadores ali juntos me remetia a ideia de duas necessidades sendo atendidas com igual importância. Quando a Phumla (uma das professoras, linda e simpática mulher, da pré escola, moradora da Comunidade) chegava para pegar os alimentos para ajudar a fazer a merenda, de forma organizada eles paravam as atividades e todos ajudavam. Percebi essa ajuda, o tempo todo. Os professores são muito unidos também. Duas que vivem longe dali, durante a semana dormem na escola, e só voltam para a suas famílias nos finais de semana.

Levei de presente para as pessoas do projeto e da escola alguns cosméticos feitos com matéria prima da Amazônica (adoraram os aromas e óleos) e alguns CDs de músicas que eu gosto, prevalecendo o samba. Mostrei aos professores e alunos.

Nunca me esqueço, no dia em que cheguei para dar aula e bem na entrada da escola, uma porteira, e ali avistei uma porca em trabalho de parto. As 200 crianças que ali estudam, entravam para a escola em silêncio e de uma forma muito organizada, sem que nós professores tivéssemos que pedir. Entraram para suas respectivas classes (divididos em séries como no Brasil), e ficaram ali quietos numa espécie de oração. Eu respeitei aquele momento deles, quando um aluno de 8 anos sorridente pede para falar no meu ouvido: – “estamos pedindo para que tudo saia bem para o nascimento dos porquinhos”. Eu ficava mais impressionada com aquela beleza de sentimentos. Fiquei pensando se isso acontecesse aqui. Como iríamos nos comportar? Uma das professoras me pede licença para entrar na sala de informática e diz para os alunos que tinha dado tudo certo com os porquinhos e que estava tudo bem. Foi então que os alunos vibraram como se fosse final do Campeonato de Futebol e o Orlando Pirates fosse campeão (time que a maioria dos alunos da comunidade).

Frequentemente as crianças vinham ao nosso encontro, mesmo fora do horário escolar, sempre alegres contando aos familiares: – “olha minha professora aqui. Olha a Maria. Ela é do Brasil.”

Nunca vou esquecer os olhares daquelas lindas mulheres, mães e avós: – “muito obrigada por vir até aqui, educar nossos filhos e netos. Ensinar essas coisas importantes de saber. Você atravessou o oceano para fazer isso”. Diariamente faziam isso. Um olhar de tanta gratidão. De tanta importância ao outro.

Entendi o que quer dizer “Comunidade” em todos os sentidos. Na preocupação de uns com os outros  que moram ali, na divisão de alimentos, na importância de rituais, na solidariedade. Nos finais de semana, ficava com eles nos almoços comunitários. Todos se ajudam, trabalham, cantam e dançam o tempo todo. Muito felizes. Os homens estão sempre junto à elas, mas a presença feminina e a figura da avó é muito respeitada.

Vi muitas vezes, as crianças rodeando as senhoras mais velhas da vila e por horas elas contavam histórias à todos. Sem piscar os olhos, ficávamos ali aprendendo com aquelas mulheres guerreiras. Impressionante como trabalham desde pequenas. Trabalham demais. Plantam, colhem, cozinham, costuram, cuidam das crianças e dos animais.

Conheci a Mama Tofu, a matriarca da Vila, de 92 anos de idade, lúcida e feliz com seu cachimbo contava também tudo o que passou na vida, as pessoas queridas que perdeu durante o Apartheid*. Sua admiração pela luta de Mandela (dizia várias vezes: Madiba! Madiba! Viva Madiba! Nesse momentos, seus filhos, netos e bisnetos e os outros moradores a aplaudem). Nunca me esqueço de seus conselhos: – “Nunca beba muito. Não fume muito. E aceite as coisas que a vida manda pra você”. Tudo muito Sagrado. Tudo vivenciado por todos sem pressa.

Nunca me esqueço da família de um aluno, o querido Etako, que me convidou um dia para entrar na casa deles. Eles são em 6 pessoas. Um lugar tão pequeno que nos dias de calor fica muito quente e nos dias frios eles dizem que passam muito frio. Eles me dão o melhor lugar para me sentar no sofá que já está velho e quebrado, com pedaços de tijolo sendo o suporte, e me oferecem uma xícara de chá quente (com ervas medicinais plantadas pela avó de Etako). Percebi que a xícara era a melhor que eles tinham na casa. Os cinco familiares de Etako e mais ele me olham sorrindo o tempo todo. Dois deles só falam em Xhosa (uma das 11 línguas oficiais da África do Sul) os outros se comunicam em Inglês comigo. O pequeno Etako traduz para o Xhosa a nossa conversa para os dois que não falam inglês, e faz isso imediatamente, para que eles não se sintam excluídos daquele momento.  A mãe de Etako me diz “now you are sissi”, ou “agora você é nossa irmã”. Me emociono a todo momento. Ao me despedir daquele inesquecível encontro, a avó me diz. “Maria, UBUNTU”. E faz questão de me explicar, segurando nas minhas mãos: “Maria,  UBUNTU é assim: Eu sou quem sou, porque somos todos nós! E atenção: porque SOMOS, não pelo que temos…”.

Ubuntu é assim: Eu sou quem sou, porque somos todos nós! E atenção: porque SOMOS, não pelo que temos…

Voltei para a casa onde fiquei pensando em tudo isso. Pensei como perdemos essa importância às relações interpessoais. Como não valorizamos mais os rituais ou a importância de uma refeição com  a família. Pouco reparamos que muitas vezes sequer sabemos o nome dos vizinhos.

Nunca vou me esquecer de uma das moradoras da comunidade, que em um domingo frio (era junho, clima muito parecido com o nosso: manhãs e noites frias, sol de dia), conversa comigo como se fossemos amigas de infância. Contei para ela como sou apaixonada por fotografia e como gostaria de fotografá-la. Ela muito emocionada me diz: – “não tenho nenhum retrato meu.” Pois agora terá. Pedi para imprimir e comprei um porta-retrato (fiz isso em um final de semana em East London, já que em Chintsa não era possível). Fui entregar na casa dela. A emoção da família e a dela foi enorme. Ela dava pulos de alegria. O presente foi meu.

Por essas e por outras, sou grata a tanto aprendizado. Por tantas histórias. Pelo amor que imperou o tempo todo. Pelos encontros sagrados.

25 de maio – O dia da África sim, me emociona.

A luta do povo africano por sua independência e libertação é comemorada nesse dia. A data é celebrada pelos negros do Brasil e do mundo pelos progressos, as dificuldades e as obras realizadas no continente. O dia da África é a manifestação de milhões de africanos com o objetivo de organizar os desafios da construção do futuro de uma África solidária, democrática e real. Esse é o mundo que queremos.

 

Maria Silvia F. Alves de Oliveira – Educadora Social. Colaboradora na AfroeducAÇÃO. Atuante no Terceiro Setor há mais de 1 década. Estudante na Especialização em Educomunicação na ECA – USP. Fã de Nelson Mandela. Atualmente sonha em Campinas/SP Twitter: @mariasilviabr – Mais sobre o projeto: endereço no YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=USTsee9-FFc&feature=youtu.be

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Direitos Humanos

Sobre médicos, facas, bicicletas e mortes que comovem

Por Douglas Belchior

Quem merece ser esfaqueado? Quem merece ser torturado? Quem merece ser estuprada? Quem merece ser arrastada? Quem merece ser assassinado com um tiro na cabeça aos 10 anos de idade? Quem merece ser morto aos milhares, antes dos 18 anos de idade, pela polícia em todo o país?

Não defendo pessoas, sejam adolescentes ou adultos, que saem por aí esfaqueando umas às outras. Tanto quanto não defendo que “criminosos” ou “policiais” – e coloco aspas por achar que não há grandes diferenças entre eles – saiam por aí distribuindo tiros e matando, sobretudo jovens negros.

E por que há mortes que chocam, comovem, mobilizam e outras que não?

Bem melhor escrito no texto incrível de Antonio Engelke.

 

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Por Antonio Engelke

Antigamente, o bandido dizia “passa tudo!” e pronto: se a vítima não reagisse, perdia os pertences mas não sofria violência. Hoje, o assaltante muitas vezes já chega dando soco, facada ou tiro, antes mesmo de anunciar o roubo. Crueldade pura, desprezo absoluto pela vida humana.

Há duas maneiras de compreender este fenômeno. A primeira é acreditar que, de uns 10 ou 15 anos para cá, assaltantes vêm deliberadamente escolhendo ser cruéis. Começaram a nascer gerações de miseráveis que não se contentam em roubar: precisam sadicamente ferir suas vítimas, mesmo que isso lhes seja prejudicial (se os jornais repercutem, a polícia vai atrás). Mas esta explicação esbarra num problema. Se há criminalidade em toda parte, por que tal fenômeno é exclusividade de certas metrópoles brasileiras? Você seria obrigado a concluir que, por uma infeliz e gigantesca coincidência, indivíduos que nasceram já propensos à crueldade, ou que escolheram depois pelo sadismo, calharam de se reunir em cidades como o Rio de Janeiro.

Se uma coincidência dessas, por absurda, não te parecer convincente, você irá procurar outra explicação. E ela começa exatamente no ponto onde a primeira termina. Deve haver alguma particularidade na periferia de metrópoles como o Rio de Janeiro, alguma coisa no ambiente em que esses meninos-que-viram-bandidos são criados, que cada vez mais os influencia no sentido de desprezarem a vida humana. A resposta é simples: na favela, a vida vale cada vez menos. O que você acha que acontece na cabeça de um menino que cresce vendo cotidianamente pessoas sendo mortas ou torturadas? Traficante matando traficante. Traficante matando morador. Polícia matando traficante. Polícia matando morador. Morador, revoltado em protesto, sendo morto pela polícia. Polícia torturando morador para saber de traficante. Traficante torturando morador para saber de polícia. Polícia extorquindo traficante. Todos os dias alguma viela suja de sangue, algum corpo estendido sem vida, algum buraco de bala de fuzil na parede.

Não, eu não estou “desresponsabilizando” o assassino do ciclista na Lagoa. O que estou dizendo é que não podemos tratar este episódio, e os tantos outros que vem sendo exaustivamente registrados, como se fossem apenas irrupções aleatórias de sadismo.

 

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Violência Policial

The New York Times: A aceitação do horror em mortes cometidas pela polícia do Brasil

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Policiais e moradores em uma favela no Rio de Janeiro. Moradores disseram que dois homens foram mortos pela polícia no local.

Do The New York Times, por Simon Romero e Taylor Barnes

Tradução de Tomaz Amorim Izabel

Rio de Janeiro – Eduardo de Jesus estava na frente de sua casa no Complexo do Alemão, um gigantesco labirinto de casas de tijolo, quando sua mãe ouviu o disparo alto de uma arma de fogo.

Segundos depois, ela viu Eduardo, de 10 anos, caído morto por um ferimento de bala na cabeça. Ela, então, correu até o policial que estava carregando a arma.

“Eu peguei ele pelo colete e gritei: ‘Você matou o meu menino, seu desgraçado’”, disse sua mãe, Terezinha Maria de Jesus, de 40 anos.

“Ele me disse: ‘Assim como eu matei o seu filho, eu posso te matar também’, enquanto ele apontava o rifle para a minha cabeça”, ela continuou. “Eu disse para ele: ‘Vai. Você já matou uma parte de mim. Leva o resto’ ”.

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Assassinatos de crianças por parte da polícia em bairros como Complexo do Alemão , no Rio de Janeiro, não tem gerado mudanças significativas no método de policiamento.

As imagens do corpo sem vida de Eduardo e os gritos lancinantes de seus vizinhos denunciando a polícia, capturados por telefones e compartilhados nas redes sociais por todo o Brasil desde o acontecimento, oferecem um lampejo raro dentro do sentimento de desespero, em uma sociedade em que mortes cometidas pela polícia são tão comuns que fazem parecer pequenos os números dos Estados Unidos.

Pelo menos 2.212 pessoas foram mortas pela polícia no Brasil em 2013, de acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, um grupo de pesquisa independente. Especialistas dizem que o número verdadeiro provavelmente é muito maior porque alguns estados não relatam as mortes cometidas por suas polícias.

Nos Estados Unidos, que têm 100 milhões de pessoas a mais do que o Brasil, o FBI contou até agora muito menos mortes pela polícia: 461 em 2013, o último ano do qual se tem dados. Outras estimativas colocam o número anual mais acima perto de 1.100. Mesmo assim, isto não é nem a metade das mortes por policiais no Brasil.

Mas enquanto mortes pelas mãos de policiais geraram protestos calorosos ao redor dos Estados Unidos, incendiando cidades como Baltimore e Ferguson, no Brasil elas geralmente são aceitas com horror, como parte permanente do policiamento em um país cansado da criminalidade violenta.

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Terezinha Maria de Jesus e José Maria Ferreira de Souza, cujo filho, Eduardo, de 10 anos, foi morto por policiais no Rio de Janeiro.

“Claro, o sentimento de revolta seria diferente se estas vítimas fossem meninos de cabelo loiro e olhos azuis que vivessem em áreas ricas, mas eles não são”, disse Antônio Carlos Costa, um pastor presbiteriano que ajuda a rastrear casos de crianças abaixo dos 14 anos que foram mortas pela polícia. “As crianças, adolescentes e adultos mortos pela polícia no Brasil são vítimas de um massacre em que o número de vítimas é mais alto do que em algumas zonas de guerra”.

Com mortes pela polícia aparecendo cada vez mais no Rio, enquanto as autoridades usam de repressão para prepara os Jogos Olímpicos do ano que vem, a raiva ocasionalmente explode.

Depois da morte de Eduardo, a polícia acabou com manifestações usando bombas de gás e balas de borracha no Complexo do Alemão, uma miscelânea de favelas ou áreas urbanas relativamente pobres que surgiram em grande escala de ocupações precárias. Manifestantes em outra parte de favelas do Rio, o Complexo de São Carlos, botaram fogo em ônibus neste mês, acusando a polícia de ter assassinado dois homens.

Mas na maior parte do Brasil propositores de estratégias duras de policiamento estão ficando mais fortes.

 

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Crianças brincando no Complexo do Alemão. Muitos casos não resolvidos em que crianças são mortas são simplesmente chamados de episódios de “bala perdida”.

Respondendo ao medo generalizado, em um país cansado de crimes, com mais homicídios do que qualquer outro – 50.108 em 2012, de acordo com as Nações Unidas – políticos conservadores com histórico policial e fala dura contra o crime, juntaram muitos votos nas últimas eleições estaduais e federais, reforçando o que é comumente chamado de “bancada da bala” do Congresso brasileiro.

Alguns membros da bancada da bala comemoram abertamente o número de pessoas que eles mataram enquanto patrulhavam as ruas. Uma estrela política ascendente, Paulo Telhada, se gabou de ter matado mais de 30 pessoas como policial em São Paulo, dizendo em uma entrevista recente que “não tinha pena de bandidos”.

“Existem partes da classe média que aceitam as mortes pela polícia como prática legítima”, disse Ivan C. Marques, diretor do Instituto Sou da Paz, um grupo que coleta casos envolvendo a polícia.

No estado do Rio sozinho, a polícia matou mais de 563 pessoas em 2014, um aumento de 35% em relação ao ano anterior, de acordo com o Instituto de Segurança Pública do estado.

Isto é significativamente mais do que o FBI relatou para todos os Estados Unidos, que têm uma população aproximadamente vinte vezes maior do que a do estado do Rio.

“Às vezes é preciso a morte de um menino de dez anos para sacudir as pessoas, para que elas percebam o fato de que esta tragédia está se desenvolvendo em uma escala épica”, disse Ignacio Cano, um pesquisador de casos policiais. “Infelizmente, só chama a atenção quando a vítima é escandalosamente inocente”.

Nas semanas depois que Eduardo foi morto, um pequeno grupo de mulheres no Rio, cujas crianças foram mortas pela polícia, se juntaram para formar o Conselho de Mães de Favela, procurando impedir tais mortes. Outras vozes expressaram ultraje em encontros comunitários no Complexo do Alemão.

Mas grupos de direitos humanos e acadêmicos dizem que se casos anteriores de mortes de crianças cometidas pela polícia servem de exemplo, a fúria pela morte de Eduardo vai desaparecer sem produzir mudanças significativas nos métodos de policiamento.

Um caso chamou rapidamente a atenção do público aqui em 2011, quando um garoto de 11 anos, Juan Moraes, foi encontrado em um rio perto do Quartel da Polícia. Oficiais prometeram mudanças básicas, como coletar imediatamente declarações de testemunhas e analisar cenas do crime, depois que quatro policiais foram julgados responsáveis pela morte do garoto.

Mas especialistas dizem que o surgimento de novos assassinatos sugere que a morte de Juan não produziu uma mudança duradoura.

Muitos casos não resolvidos em que crianças são mortas são simplesmente chamados de episódios de “bala perdida”. Alguns casos aconteceram durante operações antidrogas em áreas lotadas, colocando em questão a estratégia comum de realizar incursões grandes e agressivas de polícia em áreas residenciais.

Pesquisadores dizem que as razões para o grande número de mortes pela polícia são variados. Para começar, forças policiais mal treinadas e mal pagas em favelas infestadas de crime são frequentemente imbuídos com um instinto de atirar primeiro decorrente de uma mistura de medo, paranoia e sensação de impunidade.

Algumas unidades de elite, como o Batalhão de Operações Policiais Especiais no Rio, propagandeiam abertamente, e até mesmo glorificam, a letalidade. O símbolo da unidade é uma caveira e pistolas cruzadas.

Mas analistas dizem que estes esquadrões são apenas a ponta final de sistemas de policiamento maiores em que criminosos, ou pessoas tomadas por criminosas, são consideradas elementos indesejados que não podem ser reformados.

Como gangues de drogas controlam muitas prisões no Brasil, prender criminosos e mandá-los para a cadeia é visto por alguns policiais como alimento para crescimento do crime, não para sua redução.

“Muitos casos envolvendo policiais são registrados como ‘autos de resistência’ ou ‘mortes em confronto com a polícia’, embora ativistas dos direitos humanos digam que estes episódios frequentemente se referem a execuções sumárias”.

“Para a polícia é simplesmente mais fácil, e entendido como uma solução melhor, matar supostos criminosos”, disse Graham Denyer Willis, um professor na Universidade de Cambridge que estuda a polícia do Brasil. Com as mortes sendo aceitas rotineiramente como efeito inevitável da redução da insegurança em algumas cidades, o resultado é “inequivocamente uma forma de limpeza social”, ele diz.

Algumas vezes as autoridades exaltam a prática.

“Eu daria para ele uma medalha para cada bandido que ele mandar para o inferno”, disse André Puccinelli, o governador do estado do Mato Grosso do Sul, ao elogiar um policial fora de serviço que matou dois homens armados que tentavam roubar uma loja.

Aqui no estado do Rio, as autoridades dizem que o número de mortes pela polícia diminuiu para 563 em 2014 de 1.330 em 2007, com o envio de forças de segurança para favelas em um processo chamado de campanha de pacificação.

Mas oficiais de segurança reconhecem que o problema permanece.

“Nós precisamos de muito mais treinamento para preparar a polícia para territórios em que estamos tendo muita dificuldade de trabalhar”, disse Cel. Robson Rodrigues, um oficial superior da força policial do estado do Rio. “As atividades policiais ainda precisam de alguma correção”.

Grupos de direitos humanos questionam se as autoridades estão tentando frear as mortes policias. Em um estudo, Michel Misse, um sociólogo da Universidade Federal do Rio de Janeiro, examinou 707 casos de mortes pela polícia e descobriu que os promotores se recusaram a prestar queixas contra policiais em mais de 99% dos casos.

No caso de Eduardo, o menino de dez anos assassinado em Abril, uma porta-voz da polícia disse que a morte ainda estava sendo investigada.

A senhora de Jesus, mãe de Eduardo, disse que ela se pergunta se a polícia de alguma forma pensou que seu filho poderia estar armado, embora o assassinato tenha acontecido à luz do dia e o pequeno celular branco em sua mão dificilmente parecesse uma arma.

A senhora de Jesus diz que ela e seus vizinhos correram para impedir a polícia de adulterar a cena, preocupados de que eles plantariam uma arma de fogo perto do corpo de Eduardo.

Luiz Fernando Pezão, o governador do Rio, reconheceu para repórteres que houve um “engano” na morte de Eduardo, chamando o episódio de “lamentável”.

“São só palavras”, disse a senhora de Jesus, de outra favela no Rio onde ela e seu marido estavam dormindo, no chão da casa de um parente. Ela diz que eles não podem voltar para casa por medo de que a polícia agora iria também atrás deles.

“Às vezes eu fecho os meus olhos e imagino que ele ainda está vivo”, disse ela sobre Eduardo.

 “Então eu abro os olhos e é como se o mundo estivesse me dando uma surra”, completou. “Meu menino está morto”.

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Escrita da história

Malcolm X, a voz rouca dos guetos

Por Douglas Bechior 

Vivo, Malcolm X completaria 90 anos neste 19 de maio. Seu nome estará sempre no rol dos heróis que construíram os pilares da cidadania do negro norte-americano, apesar de ainda hoje conviverem com toda violência racista, como bem sabemos. Na matéria abaixo, a jornalista Cida de Oliveira da Rede Brasil Atual, entrevista dois grandes estudiosos brasileiros, da trajetória de Malcolm: Vladimir Miguel Rodrigues, autor de “O X de Malcolm e a questão racial norte americana” e Jeosafá Fernandez Gonçalves, autor de “Jovem Malcolm

 

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Malcolm falava a língua dos operários, sem-teto, prostitutas, viciados, que saíam dos guetos e se transformavam em soldados

Por Cida de Oliveira – Rede Brasil Atual

Para Malcolm X, sonho americano foi erguido sobre o pesadelo dos negros. Seu assassinato, há 50 anos, eliminou um ícone da resistência ao racismo e um projeto alternativo à “democracia” norte-americana

Em uma manhã fria de novembro de 1929, homens encapuzados da organização racista Ku Klux Klan jogaram gasolina e atearam fogo no sobrado da família Little, no subúrbio de Lansing, no estado norte-americano de Michigan. As lembranças das chamas consumindo a casa rapidamente e os gritos desesperados marcariam a memória do pequeno Malcolm, na época com 4 anos, conforme contaria em autobiografia, lançada em 1965. Dois anos depois, seu pai, Earl Little, um pastor batista que além de religião pregava a luta contra a discriminação racial, foi espancado até a morte e teve o corpo colocado numa linha de bonde, sendo esquartejado.

Episódios assim eram constantes entre a população negra dos Estados Unidos numa época em que não podia votar, frequentar escolas ou outros espaços públicos e muito menos havia lei para impedir linchamentos e enforcamentos de negros em árvores, como denunciou Billie Holiday (1915-1959) na canção Strange Fruit. E forjaram o caráter radical de Malcolm, amadurecido na prisão por assalto a mão armada. Com a internação psiquiátrica da mãe, após o assassinato do pai, ele foi separado dos irmãos e ingressou na criminalidade. No ginásio, quando disse querer ser advogado, ouviu do seu professor preferido que o Direito não era realidade para negros, e sim atividades braçais, como a marcenaria.

Seu ódio contra os brancos foi cristalizado com a doutrinação por seguidores de Elijah Muhammad, criador e líder de uma seita chamada Nação Islâmica (NOI, da sigla em inglês). Consistia de uma releitura muito particular do Islamismo, sob medida para fazer seguidores principalmente entre os presidiários negros. Pregava o ódio, até mesmo a violência se preciso fosse, aos brancos, considerados demônios, e fundamentava a ideia de Malcolm, que sonhava com uma pátria para os negros. “Tenho o direito de me defender, mesmo que, para isso, tenha de usar armas”, dizia.

Leitor voraz e autodidata, fez o ensino médio por conta própria nas celas. Estudou diversas áreas do conhecimento, inclusive retórica, e se revelou grande pregador, ouvido até pelos carcereiros. “Criou na prisão uma nova Nação do Islã. Em 1954, quando saiu em liberdade condicional, a NOI tinha 400 seguidores. Em 1965, quando foi assassinado, tinha atraído 400 mil”, diz o escritor Jeosafá Fernandez Gonçalves, autor do livro prestes a ser lançado O Jovem Malcolm X (Editora Nova Alexandria). “Em dez anos, transformou o grupo na maior força política negra engajada, maior que a liderada pelo pastor batista Martin Luther King. Falava a mesma língua dos operários, sem-teto, prostitutas, viciados, que saíam dos becos e guetos e se transformavam em ‘soldados’ da NOI”.

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TIME LIFE PICTURES/GETTY IMAGES – Na cadeia, Malcolm conheceu a NOI. Estudou e virou pregador. Foi acolhido e respeitado pelos grandes líderes de sua época.

Contra a guerra

Para esse “exército”, Malcolm recrutou o boxeador Cassius Clay, que lutava também contra o racismo. Um dos melhores esportistas do século 20, ele se converteu, adotou o nome de Muhammad Ali e se recusou a lutar na Guerra do Vietnã: “Nenhum vietcongue me chamou de preto, por que eu lutaria contra ele?”. A amizade dos dois esfriou quando o líder rompeu com a NOI.

Lapidado pela leitura incessante, o ex-traficante e assaltante extrapolava os limites do fanatismo de Elijah, que não comportava mais em sua consciência. Passou a viajar pela África e Europa, sendo recebido por líderes e chefes de Estado, mas tratado como negro norte-americano – e não africano, como sonhou. Foi à Meca. Viu gente de todas as raças cultuando um mesmo Islã, ortodoxo, que nada tinha a ver com aquele pregado pela NOI. Estudiosos contam que o rompimento foi bilateral.

De um lado, o criador da Nação do Islã corroído pela inveja de sua cria, corrompido em seus valores e interlocutor secreto das estruturas racistas que dizia combater. De outro, uma liderança em consolidação, aberta e sensível, para quem a fé que o livrou da criminalidade era uma seita fanática que funcionava para 400 seguidores em pequenos cultos nas prisões e salões dos arredores da cidade. Com as posições passadas a limpo, deixou para trás o papel de boca nervosa da NOI contra os demônios em pele branca. “Quando comprova o envolvimento de Elijah com jovens da seita, com quem tinha filhos, Malcolm se desliga e passa a ser caçado dentro da própria NOI”, conta Gonçalves.

E fora da Nação do Islã também. Apoiador de todas as revoluções africanas, tivessem elas o caráter que fosse, se aproximou de lideranças como Gamal Abdel Nasser (1918-1970), que presidiu o Egito entre 1956 e 1970, a então República Árabe Unida. Nasser ofereceu um cargo no seu governo para proteger a vida em risco do amigo nos Estados Unidos. Outro foi Fidel Castro, que contou com seu apoio na Revolução Cubana, com quem esteve no famoso encontro num hotel do Harlem, em Nova York, durante uma visita do comandante à sede da Organização das Nações Unidas (ONU).

E até mesmo o pastor Martin Luther King, que comandava um rebanho de classe média e tinha a simpatia dos brancos devido à sua doutrina religiosa inspirada na não violência do líder indiano Mahatma Gandhi (1869-1948). Passou então a ser visto como traidor da doutrina de Maomé, porque estaria frequentando cultos protestantes, e como comunista.

Socialismo

“É de Malcolm a célebre frase ‘não existe capitalismo sem o racismo’”, diz o historiador Vladimir Miguel Rodrigues, professor e autor do livro O X de Malcolm e a Questão Racial Norte-Americana (Editora Unesp). Na autobiografia, o líder não afirma essa suposta simpatia pelo socialismo. Porém, seu discurso dialoga com a esquerda ao criticar o capitalismo. “Chegou a afirmar que o homem branco americano não é um racista, mas o ambiente político, econômico e social americano, que acalenta uma psicologia racista no branco.”

Rodrigues acredita que, mesmo sem ter estudado a fundo o marxismo, Malcolm buscou na história, na sociologia e na economia a explicação para o racismo e para a situação de inferioridade do afro-americano, que vendia barato, quase de graça, sua força de trabalho para os brancos, detentores dos meios de produção.

O caráter atribuído a Malcolm de comunista, libertário, violento, pacifista, muçulmano radical negro, tocou mais que as multidões de oprimidos que paravam para ouvir suas pregações. Chegou mais tarde às periferias de outros países, às quebradas de São Paulo. “No princípio eram trevas/ Malcolm foi Lampião/ Lâmpada para os pés negros de 2010/ fãs de Mumia Abu-Jamal, Osama, Sadam/ Al-Qaeda, Talibã, Iraque, Vietnã/ Contra os boys/ Contra o GOE/ contra a Ku Klux Klan”, canta o rapper Mano Brown em Mente de Vilão. E inspira jovens negros que encontram no Islã, crescente nas periferias brasileiras, que não se identificam com a pregação das igrejas evangélicas neopentecostais. Como X, os jovens desamparados, vítimas da violência buscam resgate e a vida nova que creem começar com um novo nome, adotado durante a conversão. Como o X de Malcolm no lugar de Little, um protesto contra a identidade africana roubada ainda na África, pelos caçadores de escravos.

 

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BETTMANN CORBIS/LATINSTOCK – No Harlem, em 1963, a plateia negra e pobre o acompanha: conteúdo libertário iria contagiar a periferia esquecida de vários países

Inimigos

Polêmico entre os negros por defender a força, era odiado pelos brancos e visto com desconfiança pelos muçulmanos negros por dividir espaço e poder com o líder Elijah. A lista de inimigos crescia à medida que enxergava a justiça acima da cor, da religião e do espaço. E que a luta por ela deveria ser travada onde nasceu e cresceu, por meio da articulação entre pobres e excluídos, fossem brancos ou pretos. “Ele caminhava para a organização de uma força política de base operária contra o liberalismo americano, transformando-se em alternativa política que assustava o Departamento de Estado americano e inspirou a criação dos Panteras Negras”, conta Jeosafá Gonçalves.

De orientação marxista, os Panteras eram um partido político criado na Califórnia, que articulava luta de classes com luta racial. Reivindicava indenização pelos anos de escravidão em que foi formada a riqueza da potência. Defendia a luta armada e por isso tornou-se ameaça à segurança interna no país. Perdeu expressão ao longo dos anos 1970 e 1980 devido a prisões e disputas internas.

Em plena Guerra Fria, os americanos consolidavam a opção pela eliminação de alternativas políticas. Articulou-se o assassinato do então presidente John F. Kennedy, em novembro de 1963. Liberal, de cujas doutrinas nasceram os golpes de Estado na América Latina, Kennedy tinha firmado compromisso com uma legislação para os negros e foi visto como fraco em relação a Cuba e por ter permitido a ascensão do movimento pelos direitos civis e dos Panteras. O serviço secreto norte-americano, segundo Vladimir Rodrigues, foi eliminando as lideranças negras, numa tendência de conservadorismo que chegaria ao ápice na década de 1980, com Ronald Reagan. Não havia espaço para ideias progressistas.

Para Gonçalves, a história mostra articulações entre Nação do Islã, CIA e Departamento de Estado norte-americano, que a mando de Elijah e com o amém das autoridades do governo assassinaram Malcom em fevereiro de 1965. Ele completaria 40 anos em maio. O negro que em 1954 deixava a prisão, esperança dos companheiros de cela, negros e pobres, afirmou que o sonho americano era construído sobre o pesadelo dos negros. A consciência social e política avançada caminhava para uma aliança com Martin Luther King. “Seria a base operária de Malcolm com a classe média de Luther King, sobretudo negra. Por isso King foi calado três anos depois. Estavam liquidadas as alternativas”, diz o autor.

As ideias de Little, no entanto, não desceram com ele à sepultura. Malcolm foi responsável direto pela aprovação da Lei dos Direitos Civis Estados Unidos, em julho de 1964. Proposta por Kennedy, pôs fim aos sistemas estaduais de segregação racial, que permitiam linchamentos de negros. Na esteira da lei vieram ações afirmativas, como as cotas em universidades, que já não existem mais enquanto competência federal.

Mas o debate persiste. Para os brancos, as cotas já duraram o suficiente para corrigir distorções e reduzir as desigualdades. Os negros, porém, ainda ganham menos. E como acontece no Brasil, são as maiores vítimas da atuação policial. Eric Garner, 43 anos, morto em julho do ano passado em Nova York, depois de receber uma “gravata” de um policial branco que acabou absolvido. E o jovem Michael Brown, 18 anos, assassinado em agosto passado, em Ferguson, Missouri, por um policial branco igualmente inocentado. A luta de Malcolm continua.

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Direitos da Criança e do Adolescente

Fotógrafo registra alegrias da infância na Jamaica

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De Lsrlounge com tradução de Tomaz Amorim

 

Lembra dos seus dias de criança? Férias de meio de ano ou de verão? Ainda não havia celulares e os vídeo-games estavam começando a ganhar popularidade. Não havia nada melhor a se fazer do que ir para rua. Andar de bicicleta pela vizinhança, descer escorregando pela grama de um morrinho em um trenó improvisado de papelão, trocar figurinhas com os vizinhos da casa ao lado… A vida era tão simples e quase não se pensava em coisas que não fossem brincar e se divertir. Ah, ser criança de novo…

 

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Cinco meses atrás, o fotógrafo de casamento e de artes, Adrian Mcdonald estava em seu jardim no bairro jamaicano de Westmoreland, com a câmera na mão, fotografando plantas e animais. Os filhos dos vizinhos estavam brincando do lado de fora, e suas risadas e alegria preenchiam o ar ao redor deles. Os sons chamaram a atenção de Adrian e com a permissão dos pais, ele tirou lindas fotos, enquanto elas brincavam na balança e outros brinquedos e corriam atrás umas das outras, em êxtase, sem se preocupar com os problemas da vida. Adrian, que se descreve como um “fotógrafo filosófico que usa a fotografia para chamar a atenção e para permitir a condição humana”, sabia que queria começar esta nova série fotográfica para ajudar a lembrar as pessoas de “viver, rir e amar”, como as crianças fazem.

 

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Indiferentes a Adrian e à câmera na sua mão (uma imagem que eles viam frequentemente), as crianças brincavam como crianças brincam – largadas e em absoluta alegria. Em uma entrevista ao Huffingoton Post, Adrian disse: “Elas estavam completamente abstraídas da minha existência, estavam só lá no seu mundinho próprio como se a vida não fosse outra coisa do que absoluto êxtase. Alguma coisa naquilo encheu minha alma com uma alegria eterna”.

 

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Pulando, correndo, balançando e brincando. Poucas fotos foram conceituadas.  Ademais, apenas registros de momentos preciosos que algum dia serão só uma memória, salvas em uma porção de imagens mágicas.

 

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Você pode ver mais do trabalho de Adrian McDonald em seu site, Lexon Photography. Para ver mais desta série, siga-o no Facebook.

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Escrita da história

Os horrores do mar e do racismo

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Através da história, é graças aos fotógrafos ou artigos que nós ficamos sabendo o que aconteceu. Sabemos, então, que no fim do século XX e na virada do século XXI pessoas viajaram para os portões da Europa de forma muito semelhante à maneira com que os escravos viajaram no século XVII. Muitos deles também se afogaram no mar, apertados em barcos improvisados que afundavam. E as pessoas continuam morrendo hoje.”

Da BBC, com tradução de Tomaz Amorim

Sob o título “Os horrores do mar”, a BBC publicou o emocionante relato do fotógrafo Juan, como segue abaixo. Por minha conta, incluí outro adjetivo, para propor uma reflexão não só sobre os fatos – que chocam por si – mas também sobre as causas da tragédia que mata milhares de negros na europa.

Nas últimas duas décadas, Juan Medina – fotógrafo da Reuters, têm seguido imigrantes que tentam chegar à Europa. Ele ganhou um prêmio World Press pela imagem acima, tirada em 2004. Com o aumento do número de mortes no mar, ele fala sobre suas fotos.

 

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Um migrante exausto rasteja-se na praia em Fuerteventura

Eu comecei a tirar fotos de imigrantes porque eu estava vivendo em Fuerteventura, nas Ilhas Canárias, trabalhando como um fotógrafo para o jornal local, e eles estavam vindo de todos os cantos da África subsaariana.

O que aconteceu naquele dia em 2004 não foi diferente do que vinha acontecendo nos últimos anos, e do que continuaria acontecendo.

 

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A jornada pelo mar para a Europa é feita por muitas pessoas em busca de uma vida melhor. A qualquer momento os barcos podem virar, eles podem ficar sem combustível, o motor pode quebrar – e aí eles ficam vulneráveis ao tempo frio.

A jornada pelo mar para a Europa é feita por muitas pessoas em busca de uma vida melhor. A qualquer momento os barcos podem virar, eles podem ficar sem combustível, o motor pode quebrar – e aí eles ficam vulneráveis ao tempo frio.

 

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Naquele dia, os imigrantes estavam em um barco pequeno, uma patera, cheio de gente. Eles estavam a bordo faziam muitas horas. Quando eles chegaram às Ilhas Canárias, havia uma patrulha da Guarda Civil esperando para prendê-los. Os imigrantes começaram a embarcar no navio maior, mas quando todos eles se moveram para o mesmo lado, o barco deles virou.

Vinte e nove deles foram resgatados. Nove morreram. As pessoas no barco eram todas homens. Muitos vinham do Mali, alguns da Costa do Marfim e outros de Gana.

 

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Os sobreviventes passaram pelo processo usual de chegada – imigrantes são mantidos em um centro de detenção para estrangeiros por 40 dias, então eles são ou colocados em um vôo de volta para os países de origem, ou então são enviados para a Espanha no continente.

Eu sei o que aconteceu com dois homens naquele barco – Isa e Ibrahim. Eu os encontrei no dia em que eles foram resgatados. Eles são os homens que eu fotografei sendo puxados para fora da água.

 

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Memoriais para os migrantes mortos no cemitério de Antígua em Fuerteventura

Eles foram mandados para a Espanha. Isa foi levado para Valencia e Ibrahim para Murcia. Eles deixaram muito claro o que estava acontecendo lá no país natal, no Mali. Eles vinham de grandes famílias. No caso de Isa, por exemplo, eles dependiam das plantações e da colheita a cada ano. O trabalho é escasso. Eles não tinham nenhuma oportunidade. Eles estavam realmente vivendo em uma situação de extrema necessidade.

Para eles, essa era a única saída. Pensaram que valeria a pena tentar ajudar suas famílias. Talvez não soubessem exatamente o que iria acontecer, mas sabiam que era perigoso.

 

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Migrantes em seu esconderijo nas montanhas perto do enclave espanhol de Ceuta na África do Norte

Eu fui para suas casas no Mali para conhecer suas famílias e fui recebido de braços abertos, com muito amor – exatamente da maneira oposta com que os espanhóis recebem os imigrantes aqui. Suas famílias me contaram suas histórias de forma que eu pude entender o porquê dos seus filhos quererem arriscar suas vidas.

A primeira coisa da qual eu me dei conta foram as terríveis condições de vida que eles deixaram para trás. Se arriscaram a morrer no mar porque enfrentavam pressões ainda maiores tentando sobreviver em casa. Fizeram isso porque não tinham outra saída. Não porque eram caçadores de aventuras.

 

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Um acampamento clandestino no norte de Marrocos perto de outro enclave espanhol, Melilla

Isto fez com que as suas famílias ficassem incrivelmente tristes. Primeiro, a dor causada porque seus filhos foram embora, e segundo, sabendo que seus filhos também poderiam morrer.

Algumas das pessoas que sobreviveram à jornada se juntaram a nossa sociedade, na medida em que nossa sociedade permitiu isto a eles: geralmente de forma instável e precária, sem papéis e sem direitos.

 

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Mohamed a partir de Togo trata ferimentos sofridos durante a tentativa de nadar de Marrocos para Espanha

Como jornalistas, nós temos a oportunidade de ver o que está acontecendo em primeira mão, mas todos nós deveríamos estar envolvidos nesta situação porque isto está acontecendo na porta da nossa casa.

Na verdade, eles são nossos vizinhos, eles poderiam estar vivendo no seu andar de cima, te vendendo comida, ou indo para a escola com seus filhos. Se as pessoas sentem que não são diretamente afetadas por esta situação, estão fechando os olhos.

 

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Eu acho que minhas fotos são documentos. Estas são as coisas que estão acontecendo dia após dia. Através da história, é graças aos fotógrafos ou artigos que nós ficamos sabendo o que aconteceu. Sabemos, então, que no fim do século XX e na virada do século XXI pessoas viajaram para os portões da Europa de forma muito semelhante à maneira com que os escravos viajaram no século XVII.

Muitos deles também se afogaram no mar, apertados em barcos improvisados que afundavam. E as pessoas continuam morrendo hoje. É incomum que se passe um mês sem tragédia. Mesmo depois de 20 anos seguindo esta história, as pessoas ainda se afogam toda semana e eu não vejo isto mudando. Se há alguma mudança, é para pior. Cada tragédia ou naufrágio fica maior e mais doloroso porque mais pessoas perdem as suas vidas. Há mais pressão policial nas fronteiras da Europa do que nunca – mas as pessoas ainda estão morrendo.

Isa e Ibrahim agora estão vivendo legalmente na Espanha.

 

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Ser mãe negra e jovem no Brasil

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Como ensinar a sua filha a ter orgulho da própria cor no país da falsa Abolição

 

por Michelli Cristini para os #JornalistasLivres

 

Ontem, dia da Abolição, deveria ser feriado Nacional. Deveria ser um dia de comemoração, um dia para ser lembrado. Mas acho que sei porquê o dia 13 de maio não está em vermelho no calendário: por mais que a escravidão tenha sido oficialmente abolida do nosso país, ela continua dentro das pessoas.

Sou negra, nunca fui obrigada a trabalhar em troca de comida ou moradia, mas sei o que é entrar em um algum lugar e ser olhada como diferente, sei o que é ouvir piadinhas (todas sem graça nenhuma) pelo fato de sua pele ser de uma pigmentação mais escura, ter apelidos por causa da minha etnia, perguntarem por que não faço uma progressiva.

A escravidão acabou oficialmente, mas o racismo não. O que me deixa extremamente abalada é ver que para muitas pessoas isso é normal. Vemos na televisão e nos cinemas que as empregadas domésticas são negras, que os bandidos são negros, que a maioria dos mortos são negros. E me pergunto: quando isso irá mudar? Quando isso deixará de fazer parte da cultura brasileira?

Frases como: “Tinha que ser preto!”, “Viu aquele neguinho?”, “Cuidado, é preto e corinthiano!”, são ditas com a maior naturalidade, sem constrangimentos. Aceita-se esse tipo de abordagem. Não apanhamos mais de senhores feudais, não temos mais navios negreiros. O que temos é a NEGAÇÃO da nossa cor no dia a dia.

Ao olhar na periferia, vemos que ali estão os pretos e pardos. Numa construção, os serventes e pedreiros são negros, assim como as faxineiras. Claro que o Brasil evoluiu um pouco, já temos muitos negros na universidade, muitas cotas oferecidas (por mais que a USP se negue a participar), temos o PROUNI, o FIES, mas também temos o Senado querendo aprovar a PEC 171 para reduzir a maioridade penal. Quem perde com a diminuição da idade penal são os “neguinhos da quebrada”. Nossos presídios estão lotados de negros.

Lembro de quando estava na 5ª série (atualmente, 6º ano) e meu apelido era “Poodle”, pois meu cabelo não era do padrão de beleza estabelecido. Recordo-me que todos os empregos que minha mãe obteve foram como empregada doméstica. E foi assim, com o suor e a batalha, limpando tantos banheiros, que ela criou meu irmão e eu.

Quanta vezes presenciei amigos serem abordados dentro de bares, padarias ou até mesmo na rua, simplesmente por serem negros e nossos amigos brancos, nunca. A desculpa era de que estavam em “atitude suspeita”. Mas estávamos juntos fazendo as mesmas coisas.

Ao olhar para minha sala de aula na faculdade vejo que sou uma das poucas negras (na verdade, minha sala, que tem 50 alunos, tem apenas dois negros) e sou a única negra bolsista. Isso não é novidade dentro de uma universidade reconhecida como a minha.

Hoje estou com 26 anos, sou casada e tenho uma linda filha, a Isabella, que mesmo com 5 anos sabe bem o que é ser uma menina negra. Sempre ouço (até de nossos próprios parentes): “Nossa, criança, que cabelo é esse?”, ou “Quando ela crescer pode fazer uma [escova] progressiva!”, ou, ainda, “Tinha que puxar justo o seu cabelo e o seu nariz?”. Sim, nosso nariz batatinha também sofre na nossa sociedade preconceituosa. Mas me enche de orgulho de ouvir ela sempre dizer:

“Amo meus cachos, são iguais aos da minha mãe!”

Claro que isso não é nada perto de tantos negros que já foram presos, espancados, mortos. Meu relato não chega perto de tantas mães que viram seus filhos saírem de casa sem nunca mais voltar. Ou daqueles que percebem as pessoas que atravessam a rua com medo, puxando suas bolsas, porque um negro está ali. E te olham com nojo.

Certa vez ouvi que o dia 20 de Novembro não era uma data que deveria ser comemorada, afinal todos nós temos Consciência Negra. Me indignei com isso, pois se TODOS NÓS realmente tivéssemos essa consciência, esse meu texto não precisaria ser escrito, não haveria tantos jovens negros assassinados.

No dia 13 de Maio de 1888 a lei Áurea foi assinada. Mas a verdadeira Abolição ainda não aconteceu. Gostaria muito de dizer que a escravidão se foi há 127 anos, mas apenas posso dizer que ela continua de uma forma mais camuflada — e igualmente cruel.

 

 

Michelli Cristini C M de Oliveira, 26 anos — é estudante de Letras na Universidade PresbiterianaMackenzie, casada com William Freitas de Oliveira e mãe de Isabella Cardoso de Oliveira. 
Faz parte da rede Jornalistas Livres.
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Escrita da história

O dia seguinte ao fim da escravidão

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Por Douglas Belchior

Imagine um amigo seu ou um parente que fosse tratado como um animal. Imagine as pessoas que você ama vivendo sem ter nenhum direito, podendo ser vendidos, trocados, castigados, mutilados ou mesmo mortos sem que ninguém ou nenhuma instituição pudesse intervir em seu favor. Imagine você, seu pai, sua mãe ou seu filho sendo tratados como coisa qualquer, como um porco, um cavalo, ou um cachorro. Imagine sua filha sendo levada ou mesmo ao seu lado, estuprada, todos os dias e depois, grávida à serventia do negócio de seu dono.

Clóvis Moura (Moura, 1989, p.15-16), faz o relato sem personagens. Eu os incluí para pedir que imagine.

Você que já chorou diante das cenas que remetem o sofrimento de Jesus Cristo na sexta feira da paixão; Você que fechou os olhos frente às fortes imagens de Django Livre; Você que se emocionou com 12 anos de escravidão, imagine.

Imagine – e saiba – que teu país e as riquezas que o conformam existem em função de 4 séculos de escravidão. E de tudo que deste período e deste sistema decorreu a partir de então.

Mas enfim, a escravidão acabou: 13 de maio, princesa Isabel e muita festa! Festa e promessa de abonança, tal qual desrespeitosamente a amiga Globo nos lembrou.

E no dia seguinte tudo seria diferente.

Desde que acompanho o movimento negro, aprendi que dia 14 de maio, o dia seguinte ao fim da escravidão, foi o dia mais longo da história. Aliás, dizem outros, é o dia que não terminou.

Depois de séculos de sequestros, escravidão e assassinatos, o que se viu nos anos pós-abolição foi a formação e o desenvolvimento de um país que negou e ainda nega à população negra condições mínimas de integração e participação na riqueza.

Sem terra, sem empregos, sem educação, sem saúde, sem teto, sem representação. Sequer a mais liberal das reformas, a agrária, fora possível no país das capitanias hereditárias. Vamos olhar para o campo e observar as fileiras ou os acampamentos de Sem Terra, maioria negras e negros. Vamos buscar na memória os rostos de quem conforma o pelotão que estremece São Paulo na justa luta por moradia capitaneada pelos movimentos de Sem-Teto nos dias de hoje: negras e negros! Bora olhar para as filas dos hospitais, para os que esperam exames e tratamentos, para os analfabetos ou para as crianças em idade escolar que estão fora da escola. Vamos olhar para a população carcerária e suas condições de existência. Vamos olhar para as vítimas de violência policial, para os números de desaparecimentos e homicídios. Vamos olhar para os dependentes do bolsa-família ou da previdência social. Vamos olhar para a pobreza. De fato, ela atinge a todos. Mas a presença de negras e negros nas condições narradas aqui, tem sido desproporcional e pouco se alterou desde 1888.

O dia seguinte, a década seguinte, os 127 anos seguintes ao fim da escravidão não foram suficientes para nos livrar de uma herança racista, reafirmada cotidianamente pelos descendentes dos colonizadores que sempre dirigiram o Brasil. Estes mantém a posse do latifúndio, hoje rebatizado agronegócio. Mantém o domínio dos grandes meios de comunicação, são donos das grandes empresas, bancos, conglomerados educacionais-empresariais, além de dirigir politicamente as maiores Igrejas. Com isso garantem o poderio econômico a supremacia política e a representação eleitoral de maneira a manter intocáveis seus interesses.

Nada diferente do que tem sido os últimos 127 anos. Ou os últimos 515?

E nesse dia seguinte ao 13 de maio, nesse dia depois do “fim da escravidão”, resistimos! E em saraus, cursinhos comunitários, coletivos negros, nas rodas de samba e candomblé, nos bondes funkeiros, no hip-hop, na poesia, na literatura, nas artes, na internet, no movimento negro, e aos pouquinhos, nas universidades, existimos.

E sendo assim, dotados de tamanha resiliência, imaginem a revolta!

 

 

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