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Sindicalismo

Jornal O GLOBO ataca sindicalismo brasileiro, que precisa se reinventar

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Por Douglas Belchior

 

Em tempos de acirramento e disputas político-ideológicas como há muito não se via, os grandes meios de comunicação buscam, como é de praxe, construir narrativas no sentido de cada vez mais deslegitimar e desqualificar os instrumentos de luta da classe trabalhadora brasileira.

O Jornal O GLOBO, do Rio de Janeiro, emplacou na última semana uma série de matérias em que aborda a realidade dos sindicatos no país e explicita problemas de representatividade, corrupção e prática de direções sindicais que se eternizam no poder. Evidente que, sob encomenda, tal produção serve de munição para os ataques da direita histórica, bem como já o fez Rodrigo Constantino em sua coluna na Veja.

 

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Helicóptero da PM sobrevoando Assembleia do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, no estadio de Vila Euclides.

É verdade que há problemas. E sérios. A proliferação de sindicatos e centrais ao bel prazer dos interesses de grupos políticos oportunistas fez da prática sindical balcão de negócios. No entanto, não podemos permitir que práticas equivocadas de setores do sindicalismo sejam apontadas como regra e que generalizações desconstruam ainda mais no imaginário coletivo o papel fundamental dos sindicatos na luta do povo trabalhador. Os sindicatos são importantes e necessários. E precisam ser fortalecidos.

Lembro aqui a concepção sindical de Gramsci, onde se defende que os sindicatos devem atuar como educadores coletivos da classe para sua emancipação e para a disputa da hegemonia na luta contra o capital e suas ideologias. Para que isso aconteça, obviamente é necessário que as direções sindicais se renovem, se atualizem e estejam antenadas com as lutas e os problemas que afetam toda a sociedade e não apenas o microcosmo de sua categoria profissional.

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Histórico jornal anarco-sindical, de 1922

As lutas por salário e emprego são fundamentais, mas a ação sindical precisa se ampliar, afinal, reduzir seu papel a reivindicações corporativas acaba por limitar a ação apenas ao enfrentamento dos efeitos e não das causas da exploração.

Para isso o investimento em formação é fundamental, pois aí está o potencial de alimentar a ação política dos dirigentes, militantes e trabalhadores sindicalizados.

Um bom exemplo é a experiência do Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba e Região (SMetal), filiado à CUT, que tem apostado em renovação, formação e fortalecimento de sua representatividade, através dos Comitês Sindicais de Empresa (CSE).

Segundo Editorial do Jornal Smetal, a atual gestão renovou em mais de 60% a composição de sua direção executiva e a direção geral se ampliou 115 para 136 dirigentes, sendo que destes, quase 30% são de jovens, maioria em primeiro mandato.

 

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Encontro de formação e debate da Juventude Metalúrgica do SMetal – Sorocaba e região

 

O rejuvenescimento da categoria metalúrgica na região promoveu reflexos imediatos na configuração da direção sindical, que por sua vez se permitiu renovar. Ainda é cedo para avaliar os resultados dessa experiência, mas o fato é que as iniciativas promovidas por esse grupo tem atraído setores até então distantes do sindicato, ou seja, na prática é o sindicato investindo no diálogo e na construção política junto à nova configuração da categoria, hoje muito mais antenada com questões gerais, para além da política, também sociais e culturais.

Outro exemplo de ação sindical a partir da concepção de luta geral e de seu papel educador e mobilizador dos trabalhadores é a iniciativa conjunta do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e do Sindicato dos Bancários de São Paulo, que juntos mantém a Rede TVT – TV dos Trabalhadores e a Rede Brasil Atual.

 

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A Rede TVT, a única emissora de televisão brasileira sob coordenação dos trabalhadores, ampliou seu alcance a partir do lançamento da TVT Digital. Antes restrito a 400 mil pessoas, ela já pode ser vista por 20 milhões de habitantes em toda grande São Paulo.

Já a Rede Brasil Atual reúne jornal impresso, revista semanal e Rádio, tanto na Web quanto nos 98.9 FM. Ambas iniciativas decorrem da ideia de que é preciso atuar na sociedade e dialogar não apenas com sua categoria, mas com todos os demais trabalhadores, famílias, donas de casa, desempregados, juventude, negros, mulheres, LGBT’s, sempre com o intuito de fomentar valores democráticos e de defender direitos sociais, políticos e humanos.

O Sindicato dos Metalúrgicos do ABC também dá um exemplo importante ao apoiar iniciativas culturais periféricas, através do Sarau Engrenagem Poética. Nesse espaço, trabalhadores da categoria se misturam aos artistas periféricos e tem contato com a arte engajada e comprometida com transformações reais na sociedade.

 

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Arte periférica, emoção e formação política no Sarau ‘Engranagem Poética’, promovida pelo Sindicato dos Metalúrgicos, com a colaboração de diversos coletivos culturais

O sindicalismo brasileiro enfrenta problemas e dificuldades, tal como enfrentam todas as demais instituições representativas como partidos, igrejas e organizações políticas diversas. O momento exige atenção em relação à orientação político-ideológica, organização e formas de intervenção. Isso tudo ao mesmo tempo em que é necessário enfrentar o avanço conservador que busca desregulamentar, enfraquecer e até eliminar direitos históricos dos trabalhadores. Será preciso, como dizem, “trocar o pneu com o carro em movimento”. Ao que se percebe, ao menos por parte do sindicalismo sério e conseqüente, o desafio está aceito.

E que fique registrado ao jornal O Globo e correlatas: jogar no lixo a história do sindicalismo brasileiro ou desqualificá-lo com generalizações baratas, jamais!

 

 

 

 

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Jornal do Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba, anos 90
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Assembleia das Trabalhadoras do Setor de Vestuário, região de Sorocaba – 2015
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Jornal do Sindicato dos Jornalistas do Paraná
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Metalúrgicos de Santo André
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Cultura

Haddad presenteia Papa com disco dos Racionais. Músicos se empolgam.

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“$aude. Mano Brown Racionais Mc’s 2015 PAZ” – Mensagem de Brown para o Papa Francisco

Músicos fizeram questão de preparar o presente para o Papa Francisco.

Convidado pelo Pontifício Sacro Colégio de Ciências, o Prefeito de São Paulo Fernando Haddad foi esta semana ao Vaticano, para participar de um seminário que discute desenvolvimento sustentável.

É praxe destes momentos que o visitante leve lembranças ao Papa, artigos, objetos que simbolizem de alguma maneira a cultura de seu povo e sua terra. Fernando Haddad fez do hip-hop paulista um presente sagrado.

 

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“Racionais Mc’s PAZ Forte Abraço” – Mensagem de Edi Rock ao Papa Francisco

Sugerido ao prefeito por um coletivo de jovens da zona sul da cidade, o LP Vinil “Sobrevivendo no Inferno”, dos Racionais MC’s, foi o presente escolhido para ser levado ao líder máximo dos católicos.

 

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Dj KL Jay autografa e registra sua mensagem na capa do vinil que foi entregue por Haddad ao Papa Francisco

Não por mera coincidência, o disco escolhido traz uma maioria de composições que fazem alusão a trechos bíblicos para narrar as mazelas sociais, a violência policial e o racismo, próprios das periferias brasileiras.

 

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DJ KL Jay pousa com o vinil – presente para o Papa – de “Sobrevivendo no Inferno”. Peça rara!

Mano Brown, Edi Rock e Dj KL Jay autografaram e posaram com a relíquia.

Claudio Silva, coordenador de Políticas para Juventude da prefeitura de SP, amigo dos músicos, foi quem fez o contato e conseguiu o vinil – uma verdadeira raridade – devidamente autografada pelos astros do Rap nacional. “Eles ficaram empolgados e toparam imediatamente”, disse Claudinho.

O disco vinil original foi disponibilizado pela Boogienaipe, produtora do grupo, na Zona Sul de São Paulo.

 

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Em gravação por whatsapp, o rapper Edi Rock demonstrou todo seu entusiasmo:

Já que vai pegar o disco na zona sul, já de lá manda o motoboy pegar a minha assinatura e a do KL Jay. Eu e ele estamos perto aqui. Aí nois se responsabiliza por essa fita ae. Eu pago 50 conto, suave, se é loco, por uma fita dessa ae é da hora, vale a pena!

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Edi Rock no momento em que autografa e registra sua mensagem ao Papa Francisco

O Dj KL Jay demonstrou ter acompanhado a passagem de Francisco pela América do Sul, e em sua dedicatória escreveu a forte frase de Francisco, dita em sua passagem pelo Brasil:

Sejam revolucionários. Muito respeito! Racionais 2015.

 

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Capa de vinil com mensagem de KL Jay

Haddad não teve oportunidade de o entregar em mãos, mas o chanceler do Sacro Colégio recolheu o presente e a esta altura, Francisco já deve estar viajando nas batidas do rap brasileiro.

 

 

 

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Direitos da Criança e do Adolescente

Depois da idade penal, deputados querem reduzir idade mínima para o trabalho juvenil

Por Douglas Belchior

O ódio e a ganância por retrocessos que tem sido combustível para as ações do Congresso Nacional nos últimos meses, parecem não ter fim. Desta vez o alvo é a regulamentação para o trabalho infantil. Os mesmos parlamentares responsáveis pelo avanço da proposta de redução da maioridade penal resolveram por desarquivar a PEC 18/2001, de autoria do deputado Dilceu Speratifo (PP-PR), que reduz a idade mínima do trabalho juvenil para 14 anos.

Esta iniciativa absurda se movimenta na contramão absoluta dos esforços – ainda que insuficientes – para deixarmos de ser um país que é referência mundial em exploração do trabalho infantil.

Como membro do Conanda – Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, apresento aqui a Nota Pública deste Conselho, que recomenda a rejeição na íntegra da PEC nº 18 de 2011, e trago abaixo subsídios muito bem fundamentados pela minha colega de Conselho, a Socióloga Miriam Maria José dos Santos.

Trabalho infantil, cadeia e cemitério. Esse é o destino que querem dar – ou manter- para as próximas gerações de filhos do povo negro e pobre no Brasil.

#NãoàPEC18doTrabalhoInfantil

 

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Ao invés da PEC18, a Erradicação do Trabalho Infantil

Por Miriam Maria José dos Santos

Trabalhar faz parte da cultura humana. Até Deus, quando criou o mundo assim o fez: trabalhou seis dias e descansou no sétimo.

Trabalhar já faz parte do inconsciente das pessoas, é como se fosse algo natural, como se já nascêssemos com um código predeterminado para o trabalho. Mas o trabalho não está ligado somente à vida adulta. Milhares de crianças e adolescentes perdem a infância no trabalho infantil. Ainda em 1891, o Brasil já regia em lei o ingresso de crianças no trabalho – o Decreto 1.313 definia que os menores do sexo feminino, com idade entre 12 e 15 anos e os do sexo masculino, na faixa entre 12 e 14 anos, teriam uma jornada diária máxima de 07 horas e fixava uma jornada de 09 horas para os meninos de 14 a 15 anos de idade. Somente a CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas) tratou da matéria de forma mais detalhada, definindo a idade mínima em 16 anos, e estabelecendo as condições permitidas para a realização do trabalho. Mas o marco mais contundente, na temática da promoção, proteção e defesa dos direitos infanto-juvenis se deu com a Constituição Federal de l988, na qual diz o artigo 227:

“É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”. (Redação dada pela emenda constitucional nº 65/10)

Em se tratando do trabalho infantil a lei determina a idade mínima de 16 anos para a admissão ao trabalho, observado o disposto no artigo 7º, XXXIII, que proíbe “o trabalho noturno, perigoso ou insalubre aos menores de dezoito e de qualquer trabalho aos menores de dezesseis anos, salvo na condição de aprendiz”. O Estatuto da Criança e do Adolescente é outro importante instrumento de defesa dos direitos. Além da garantia dos direitos fundamentais, o ECA também regula o direito à profissionalização e à proteção ao trabalho. O capítulo V, reiterando dispositivo previsto na Constituição Federal, proíbe qualquer trabalho aos menores de 16 anos de idade, “salvo na condição de aprendiz”, associado à formação técnico-profissional, à garantia de acesso e frequência obrigatória ao ensino regular por parte dos adolescentes. Em relação aos acordos e Convenções Internacionais, o Brasil é signatário das normas das convenções da Organização Internacional do Trabalho, algumas já ratificadas, como a Convenção nº 138, que regula a idade mínima para ingresso dos adolescentes no mercado de trabalho, além da sua proteção.

Apesar de proibido pela Constituição Federal de 1988, o trabalho infantil continua fazendo vítimas e deixando sua marca nas crianças e adolescentes de todo o país: acidentes que invalidam, que retiram a infância e que impossibilitarão milhares de crianças e adolescentes de entrarem no mercado de trabalho na idade adequada. E há também os trabalhos que matam. Segundo dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) a cada cem crianças, cerca de 17 trabalham. A última Pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) constatou que, em 2010, cerca de 800 mil crianças e jovens, entre 10 e 19 anos, eram responsáveis por domicílios particulares no País: 132.033 têm entre 10 e 14 anos e outros 661.153 de 15 a 19 anos. Este fato confirma a necessidade de se garantir o acesso das famílias, crianças e adolescentes às políticas públicas, educação, lazer, esporte, cultura. Fortalecer o aspecto protetivo das famílias na criação de suas crianças. Ainda segundo o IBGE, São Paulo lidera ranking: 130,4 mil adolescentes entre 15 e 19 anos responsáveis pelo lar moram no Estado, 36,8 mil crianças entre 10 e 14 anos respondem pelo sustento do domicílio em São Paulo. O estado da Bahia ocupa o quarto lugar em números absolutos no ranking, com quase 43,5 mil adolescentes responsáveis pelo lar, Minas Gerais (53,8 mil) e Rio de Janeiro (50,3 mil). Também em números absolutos, Roraima é o Estado com o menor número de adolescentes chefes de domicílios, com quase 2.450. Já quando consideradas as crianças, de um total de 132 mil entre 10 e 14 que respondem pelo sustento da casa, 36,8 mil estão em São Paulo e 12,2 mil no Rio.

 

TRABALHO-INFANTIL

Esforços vêm sendo realizados para que o trabalho infantil seja erradicado do país: iniciativas que agregam governo, sociedade civil, empregadores e empregados culminou com a elaboração e aprovação do Decreto 6481/2008, que lista os trabalhos proibidos aos menores de 18 anos, e a revisão, em 2010, do Plano Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil e Proteção do Adolescente Trabalhador que possui 03 objetivos básicos:

  1. coordenar as intervenções já realizadas por diversos atores sociais e introduzir novas ações, sempre direcionadas a assegurar a prevenção e eliminação do trabalho infantil;

  2. criar as condições para que cerca de 2,1 milhões de crianças e adolescentes de 05 a 15 anos de idade1 , possam, antes de virem a participar do mundo do trabalho, usufruir todos os direitos inerentes à sua condição de pessoas em desenvolvimento;

  3. garantir a proteção legal para outros 2,3 milhões de adolescentes, de 16 e 17 anos de idade, que buscam o acesso ao mercado de trabalho, garantindo-lhes condições laborais decentes.

Mas apesar disso, o Brasil não conseguirá atingir a meta, assumida junto à OIT, de erradicar as piores formas de trabalho infantil até 2016. O que não nos redime de continuar unindo esforços para ainda nesta década dar fim à exploração do trabalho infanto-juvenil no país. É preciso mais investimento e fiscalização da aplicação correta dos recursos. Importante assinalar que a Política Nacional dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes e o Plano Decenal dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes, aprovado pelo CONANDA, Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, em 2011, define objetivos estratégicos, metas e ações de combate ao trabalho infantil. Mas ainda é preciso mais do que isto, é necessário garantir a aplicação de recursos, sem contingenciamento, além da integração das políticas públicas, investimento por parte de políticas pouco comprometidas com a erradicação do trabalho infantil, como a cultura e o lazer, além de maior investimento da educação e da saúde neste tema específico, garantida ainda a articulação e parceria de todos os setores da sociedade civil.

Bibliografia:

CIESPI, Banco de Dados (www.ciespi.org.br )

Estatuto da Criança e do Adolescente.

CENSO IBGE – 2010.

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Igualdade racial

Obama e Dilma assinam acordos tratando de apoio a negros brasileiros

Dilma e Obama

Por Ivair Alves dos Santos, do Agenda africana, com informações do Itamaraty

Obama e Dilma assinam acordos contemplando negros brasileiros

A Presidenta Dilma Rousseff esteve em visita oficial aos Estados Unidos, entre os dias 27 a 30 de junho, e assinou dois memorandos com o Presidente Obama, que mencionam explicitamente os negros brasileiros e americanos em áreas como direitos humanos e incentivo a micro e pequenas empresas.

O tema não foi explorado pela mídia brasileira nem tampouco mencionado nas páginas do Governo Federal.

Ao se examinar os memorandos que estão no site do Ministério da Relações Exteriores, encontramos o seguinte:

1- Memorando de entendimento entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo dos Estados Unidos da América relativo ao estabelecimento de um grupo de trabalho sobre os direitos humanos globais:

“3. As Partes darão atenção especial a temas como o combate à discriminação em todas suas formas, inclusive por razões de gênero, raça, idade, origem nacional, deficiência, orientação sexual e identidade de gênero, a promoção das liberdades fundamentais e a proteção da sociedade civil.”

2- Memorando de entendimento entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo dos Estados Unidos da América para promover o crescimento das micro e pequenas empresas.

“REITERANDO os entendimentos mútuos nos termos do Plano de Ação Conjunta entre o Governo dos Estados Unidos da América e o o Governo da República Federativa do Brasil para Eliminar a Discriminação Racial e Étnica e Promover a Igualdade no intuito de fomentar oportunidades econômicas para comunidades historicamente marginalizadas, tais como afro-americanos e afro-brasileiros, bem como indígenas brasileiros e americanos;”

Seção I – Princípios Gerais e Atividades

1. Os Participantes têm por objetivo fortalecer sua parceria e colaboração em atividades destinadas a promover a criação e crescimento de MPE mediante o apoio a: (i) Rede de Pequenas Empresas das Américas (SBNA); (ii) Plano de Ação Conjunta entre os Estados Unidos e o Brasil para Eliminar a Discriminação Racial e Étnica e Promover a Igualdade; e (iv) outra cooperação relevante.

Com esses dois memorandos, a relação Brasil e Estados Unidos ganha dois instrumentos importantes para alavancar as relações e apoiar a população negra brasileira e americana.

O problema é como tornar conhecidos esses documentos e como fazê-los serem aplicáveis. A experiência desses acordos tem sido muito pobre e limitada, diante do potencial que podem ter e não conseguem ser aplicados. Ficam na intenção. Não existe monitoramento nem tampouco mecanismos de acompanhamento.

A luta do movimento negro brasileiro faz história nas politicas das relações exteriores brasileiras. A existência dos dois memorandos não foi objeto de nenhuma discussão pela mídia brasileira. Um silêncio que não se explica.

A mais poderosa nação do mundo assina dois memorandos com o Brasil, em que dá atenção especial aos negros brasileiros e absolutamente não há nenhuma repercussão. Tem alguma coisa errada nesse processo.

Alguns irão dizer: mas são apenas dois memorandos! O que deveríamos discutir é como avançar a partir dessa iniciativa, que considero relevante para o destino dos negros brasileiros.

Mais detalhes podem ser acessados do Site do Itamaraty – Ministério das Relações Exteriores.

 

 

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Direitos da Criança e do Adolescente

Protestos contra a redução da maioridade penal marcam os 25 anos do ECA em todo país

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Foto: Ike Bitencourt

Por Douglas Belchior

Neste dia 13 de Julho, movimentos sociais dedicados à defesa dos direitos das crianças e dos adolescentes em todo Brasil tomarão as ruas do país para comemorar os 25 anos do ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente.

O entendimento geral é que comemorar o ECA, neste momento,  é barrar a redução da maioridade penal. Logo, o tema será abordado pelas mobilizações em diversas capitais do país.

25 anos do ECA

O Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA, nasceu em 13 de Julho de 1990, por meio da lei 8069, e logo se tornou referência mundial de regulamentação de defesa da infância e da juventude. A instituição do ECA foi, sobretudo, uma conquista dos movimentos sociais e de direitos humanos, parlamentares progressistas e de parte do meio jurídico a favor da “Doutrina da Proteção Integral”, concepção proveniente da Convenção Internacional dos Direitos da Criança, aprovada pela Assembleia Geral da Organização Nações Unidas (ONU) em 1989.

Com apoio fundamental da maioria dos grandes meios de comunicação, os detratores da defesa aos direitos humanos tentam construir no imaginário coletivo a falsa ideia de que o ECA é ineficaz e seria uma lei “de proteção aos bandidos”. Na verdade o estatuto cria condições jurídicas para a proteção integral a todas as crianças e adolescentes, e responsabiliza o Estado e a sociedade por esses cuidados:

“É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público a efetivação dos direitos referentes à vida: saúde, alimentação, educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, cultura, dignidade, ao respeito, liberdade e à convivência familiar e comunitária”.

 

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Direito no papel, realidade e ofensiva conservadora

Embora comemorado e reconhecido internacionalmente, o estado brasileiro e seus diversos governos não foram capazes de responder ao ECA em sua integralidade.

São provas de que crianças e adolescentes são os primeiros a terem seus direitos violados o déficit de vagas em creches, a péssima situação da educação pública, as poucas alternativas de acesso à cultura, esporte e lazer, o crescente índice de gravidez e de HIV na adolescência, o grande número de jovens mortos – sobretudo negros – nas periferias das cidades, o reduzido número de programas de geração de empregos e o completo descaso com a criação de estruturas para o cumprimento de medidas socioeducativas, de internação e ressocialização.

Que moral tem os parlamentares brasileiros para propor mudanças em leis penais contra aqueles que o Estado abandonou?

Infelizmente, ao invés de buscar soluções reais para os problemas das crianças e adolescentes, o parlamento brasileiro tende a criminalizar nossa juventude a partir da proposta de redução da maioridade penal. Cabe uma pergunta: Que condição moral tem o Estado e sobretudo os parlamentares brasileiros – grandes responsáveis por esse estado de coisas –, para propor mudanças em leis penais que nada mais farão que condenar aqueles que já são penalizados desde o nascimento?

Mobilizações em defesa do ECA e contra a redução da maioridade penal

O Brasil está vivendo um intenso processo de debates acerca dos direitos de crianças e adolescentes.

Rodas de conversa, atos públicos, audiências públicas, caminhadas, marchas e protestos em diversas cidades e capitais estão programadas para hoje e por todo o período que durar o trâmite da proposta de redução.

Neste dia 13, o Brasil diz NÃO à redução da maioridade penal e demonstra seu apoio e sua reivindicação pela ampla implementação do ECA em todo país. Participe:

ACRE

Rio Branco

Audiência Pública com o Senador Jorge Viana (horário a confirmar)

Local: Sede da OAB -AC , em Rio Branco.

Contato: Oswaldo Ângelo (68) 9972.3574

AMAPÁ

Macapá

16h – Caminhada e ato público contra a Redução da Maioridade Penal

Concentração: Praça Veiga Cabral, em Macapá

Contato: Naná Barata  (96) 9121.1673

AMAZONAS

Manaus

8h Caminhada no Município de Manacapuru

16h Caminhada em Manaus com concentração no Espaço Les Artiste Café

Contato: Lucimar Weil (92) 8134 0966

BAHIA

Salvador

A partir das 10h – Marcha contra a Redução da Maioridade Penal

Concentração: Praça do Campo Grande, em Salvador.

Contato: Dhay Borges (71) 9205.2431 / (61) 8137.1798 (whatsapp)

CEARÁ

Fortaleza

A partir das 8h – Ato público em comemoração do ECA e contra a redução da maioridade penal

Local : Praça do Ferreira, em Fortaleza

Contato : Aurélio Araújo

MATO GROSSO

Cuiabá

Audiência Pública na Assembleia Legislativa às 15h que vai debater os 25 anos do ECA.

Local: Assembleia Legislativa do Estado de Mato Grosso

Contato: (65) 9963 3652

ESPIRITO SANTO

Vitória

A partir das 8h – Mobilização em Vitória – Seminário sobre a redução da maioridade penal

Local : Teatro do IFES Vitória

Contato : Marli Demuner  (27) 99847.3387

PARÁ

Belém

A partir das 8h30- Ato público e caminhada no centro comercial de Belém contra a redução da maioridade penal

Concentração: Mercado Ver-o-Peso

Contato: Leila Rosa Palheta (91) 8761.3920

Contato: Ricardo Melo (91) 98725.4035

Barcarena

A partir das 8h – Ato em defesa do ECA e contra a redução da maioridade penal Local: Ginásio Poliesportivo – Travessa Santo Antônio

Contato: Raylson Tavares (91) 9225.6291

MINAS GERAIS

Belo Horizonte

17h Manifestação na Praça da Estação, em frente à entrada do metrô

Contato: (31) 9953 9455

Varginha

19h Mesa de Debate: Educar é mais eficiente que prender

Local: Salão da Igreja Martir São Sebastião

Contato: Alisson Messias (35) 9151 8506

PARAÍBA

Cajazeiras

A partir das 9h- Mobilização no centro de Cajazeiras

Das 15h ás 16h – Debate na Difusora Rádio Cajazeiras sobre os 25 anos do ECA e a redução da maioridade penal.

Contato: Janduy  (83) 91897303

PARANÁ

Curitiba

A partir das 18h – Ato em comemoração aos 25 anos do ECA e contra a redução da maioridade penal

Concentração – Praça Santos Andrade – Centro de Curitiba

Contato: Vinicius Torresan  (41) 9956 8931

Maringá

Entrega dos resultados da Conferência de direitos e da Audiência Pública sobre o Direito à Cidade na Câmara dos Vereadores Local : Câmara dos Vereadores de Maringá

Às 19:30

Contato: Verônica  (44) 9121 4521

 

PERNAMBUCO

Recife

9h – Audiência Pública sobre o extermínio da juventude negra

Local: ALEPE   14h – Ato público e caminhada contra a redução

Concentração: Praça Oswaldo Cruz

Contato: Eleonora Silva (81) 99619.2920

 

PIAUÍ

Teresina

17hs  Caminhada

Concentração na Av. Frei Serafim – Hiper Bom Preço

Contato: Joselda Nery (86) 9993 7867

 

RIO DE JANEIRO

Rio Centro

17h –  Ato contra a redução da maioridade e 25 anos do ECA

Local: Candelária, no centro do Rio de Janeiro

Contato: Mônica Alkimim  (21) 98151 9783

 

RIO GRANDE DO NORTE

Natal

16h – Oficinas  culturais para crianças e jovens

Local: Área de lazer do Panatis

Contato: Rafaela  Palmeira (84) 99845.2903

 

RIO GRANDE DO SUL

Porto Alegre

12h – Comemorações dos 25 anos do ECA

Local : Esquina Democrática, em Porto Alegre

18h – Reunião do Comitê Gaúcho contra a Redução da Maioridade Penal

Local : CPERS – Av. Alberto Bins, 480

Contato : William Faustino  (51) 8428.0885

 

RONDÔNIA

Porto Velho

Entardecer contra Redução # 13/07

Local: Praça Parque das Cidades

Horário: a partir das 17 horas

Contato: Ana Carla (69) 9253 1549

 

SÃO PAULO

São Paulo Capital – Anhangabaú

A partir das 13h – Comemoração dos 25 anos de ECA

Local: Vale do Anhangabaú,em São Paulo

 

Praça da Sé

A partir das 17h – Concentração dos Movimentos Sociais para o Grande Ato contra a Redução da Maioridade Penal e a postura antidemocrática do Dep. Eduardo Cunha na Câmara dos Deputados

Contato : Melissa Carla (11) 98420.8056

 

SERGIPE

Aracajú

A partir das13h – Ato Lúdico contra a redução e em alusão aos 25 anos do ECA Local: Praça Fausto Cardoso

16h – Marcha por cultura, lazer e educação contra a redução

Concentração: Centro de Aracaju

Contato: Paulo Victor (79) 9156.2343

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Direitos da Criança e do Adolescente Redução Maioridade Penal

Reduzir a maioridade penal resolve o problema de quem?

 

 

Por Douglas Belchior, com fotos de Ike Bitencourt

 

Você também acha que “tá tendo” muitos crimes, muito roubo e muitas mortes? É verdade que tem muita impunidade e que a justiça não funciona? Quem são os culpados? Como vamos resolver esses problemas?

Em Brasília, deputados e senadores estão discutindo uma mudança no ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), que prevê a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos. A maior parte dos programas de TV, jornais e rádios dizem que reduzir a maioridade penal vai ajudar a resolver os problemas da violência no Brasil. Será?

 

 

O Brasil tem a 3ª maior população carcerária do mundo. Quase 100% dos presos são pobres. Mais de 60% são negros. A maioria é jovem de até 30 anos e vem de famílias da classe trabalhadora. Prender mais pessoas, e cada vez mais jovens, é a solução para os problemas da violência e dos crimes no Brasil?

 

“Lugar de bandido é na cadeia!”. Qual a diferença entre o político corrupto e o moleque que faz “os corre” na biqueira? E para quem é a lei que pune e aprisiona?

 

Os adolescentes de 16 a 18 anos são responsáveis por apenas 0,9% do total de crimes. O índice cai para 0,5% se forem considerados somente os homicídios. Não parece né? Mas é verdade!

 

 

 

“Lugar de bandido é na cadeia!”. Quem discorda? Mas são os jovens, negros e pobres os grandes criminosos no Brasil? Qual a diferença entre o empresário ou o banqueiro que explora o trabalhador e o jovem que “faz o corre” na biqueira do seu bairro? Qual criminoso é mais perigoso: o político corrupto que some o dinheiro do hospital e da creche, ou o “menor” do farol? Mas para quem é a lei que pune e aprisiona?

Em 54 países que reduziram a maioridade penal, não houve redução de violência. Só conseguiram reduzir violência países que investiram pesado em áreas sociais, na cultura, nos esportes e principalmente em educação. Porque no Brasil seria diferente?

 

 

 

Se liga! A redução da maioridade penal é só mais uma lei para prender negros e jovens filhos da classe trabalhadora. Não caia nessa! Saiba mais e ajude na campanha: www.maioridadepenal.org.br

*Texto originalmente publicado pelo jornal Brasil de Fato – Edição impressa semanal.

 

E leia também:

18 RAZÕES PARA NÃO REDUZIR A MAIORIDADE PENAL
REDUZIR A MAIORIDADE PENAL RESOLVE O PROBLEMA DE QUEM?
A HISTÓRIA DA IDADE PENAL NO BRASIL
O QUE DIRIA JESUS DE NAZARÉ SOBRE A REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL?
INTELECTUAIS, MOVIMENTOS SOCIAIS, ONG’S E MAGISTRADOS ASSINAM MANIFESTO CONTRA A REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL
CATÓLICOS, EVANGÉLICOS, JURISTAS E ATIVISTAS JUNTOS CONTRA A REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL
A DISCREPÂNCIA ENTRE REDUÇÃO DA IDADE PENAL E A CONSOLIDAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS
ONDE NASCE A VIOLÊNCIA?

 

 


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racismo

Você conhece Frantz Fanon?

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No dia 20 de julho Frantz Fanon completaria 90 anos

Do Site do Kilombagem

Como psiquiatra, filósofo, cientista social e revolucionário, Frantz Fanon é um dos pensadores mais instigantes do século XX. Sua obra influenciou diversos movimentos políticos e teóricos na África e diáspora africana e segue reverberando em nossos dias como referência obrigatória nos os estudos culturais e pós-coloniais.

Sua trajetória política e teórica impressiona pela grandiosidade no curto espaço de vida. Nasce em Forte de France, Martinica em 1925 no seio de uma família de classe média e patriota. Em 1944 se alista no exercito francês para lutar contra os alemães na segunda guerra mundial e posteriormente segue para Lyon para estudar medicina e psiquiatria. Neste período foi estudante ativo envolvido com a publicação periódica de um jornal mimeografado.

Em 1950 Frantz Fanon escreve o texto que seria a sua tese de doutorado em psiquiatria: Peau noire, masques blancs (Peles Negras, Máscaras Brancas), mas a tese, por confrontar as correntes hegemônicas, foi recusada pela comissão julgadora o obrigando a escrever outra tese no ano seguinte em Lyon com o título de Troubles mentaux et syndromes psychiatriques dans l’hérédp-dégénération-spino-cérébelleuse – Um cas de maladie de Friereich avec délire de possession (Problemas mentais e síndromes psiquiátricas em degeneração espinocerebelar hereditária – Um caso de doença de Friereich com delírio de posse).

Em 1952 participa de diversos debates universitários e seminários em que se confronta ou converge com os pensadores franceses da época. Neste mesmo ano publica uma série de ensaios sobre a situação do negro na França, escreve um drama sobre os trabalhadores de Lyon (Les Mains parallèles) e publica o texto da sua primeira tese rejeitada: Peau noir, masques blancs (Peles negras, máscaras brancas) livro que marcaria a história dos estudos o racismo.

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Neste livro o autor discute os impactos do racismo e do colonialismo na psique (de colonizadores e colonizados) e mostra o quanto as alienações coloniais são incorporadas pelos colonizados, mesmo no contexto de elaboração do protesto negro.

O ano seguinte é marcado por um casamento e a sua mudança para a Argélia a fim de estudar mais profundamente os problemas enfrentados pelos imigrantes africanos na França. Segundo Oto (2003) estes momento foi fundamental para Fanon compreender os impactos do colonialismo na estrutura psíquica humana:

Ao tentar ampliar suas percepções sobre o problema dos pacientes em territórios coloniais, vinculando as enfermidades ao colonialismo, Fanon aceita neste mesmo ano o contrato com o Hospital Blida-Joinville na Argélia. Durante sua residência neste local os resultados de suas investigações o convenceram das dimensões que o regime colonial assumiam e como este regime desarticula a estrutura psíquica das pessoas. (Oto 2003:219)

O ano seguinte foi marcante para o autor ao assistir o nascimento da revolução argelina e a violenta repressão francesa. É neste contexto que Fanon renuncia ao seu cargo no Hospital psiquiátrico para se filiar à Frente de Libertação Nacional – FLN (Front de Liberation Nationale) onde contribuiria ativamente como escritor do jornal El Moudjahid, em Túnis.

Os anos seguintes foram marcados por intensa agitação política e participação nos fóruns internacionais dos movimentos de libertação no continente africano. Em 1959 publica L’an V de la Révolution Algérienne, sem publicação em português, e em 1961 se encontra com J. P. Sartre e S. Beauvoir. Neste mesmo ano, após escrever Les dammés de la terre, o ápice de sua atividade política e intelectual seria interrompido por um problema de saúde que levaria a morte.

Boa parte dos textos escritos por Fanon no jornal El Moudjahid foram reunidos por sua esposa e publicados postumamente no livro Pour la révolution africanie (1964), publicado em Portugal apenas em 1980 com o título “Em defesa da revolução Africana”.

A pesar de sua importância para a compreensão das relações raciais contemporâneas, 50 anos depois de sua morte, a Obra de Frantz Fanon ainda é pouco estudada no Brasil.

Vamos estudar Fanon?

Em reverência à sua trajetória, mas também, interessados/as em discutir a atualidade da sua obra para o entendimento do racismo na sociedade contemporânea, o Grupo Kilombagem oferecerá o Mini-curso Fanon: vida e obra.

Espera-se com esta atividade despertar o interesse da comunidade acadêmica como um todo para a discussão dos elementos apresentados pelo autor.

Programação

Encontro 01 – A alienação colonial (20/07/2015 – 14h)

  • Itinerário político de Frantz Fanon

  • Pele negra, máscaras brancas

Leitura recomendada:

Prefácio de Lewis Gordon

Capítulo V: Experiência vivida do negro

Obra CompletaPeles Negras Mascaras Brancas

Encontro 02– Racismo e cultura (20/07/2015 – 17h)

  • Em defesa da revolução africana

  • Os escritos de El Moudjahid

Leitura recomendada: Racismo e Cultura

Encontro 03– A Argélia se desvela (21/07/2015 – 14h)

  • Ano V da Revolução Argelina

Leitura recomendada: Capitulo 1 : A Argélia se quito el velo  – em espanhol

Obra Completa em espanhol: Sociología de una Revolución

Encontro 04– A libertação nacional (21/07/2015 – 17h)

  • Os condenados da terra

Leitura recomendada:  Cap. I Da violência

Obra Completa: Os Condenados da Terra

Faça sua AQUI sua inscrição:

Local: Casa de Cultura Tainã – Campinas – SP

Rua Inhambu, 645 – Vila Padre Manoel da Nóbrega, Campinas – SP, 13060-280

 

 

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Escrita da história

Um ano sem Plínio Arruda Sampaio

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Por Douglas Belchior

No último dia 8 de Julho, lembramos 1 ano da morte do ex-deputado e candidato a presidência da república pelo Psol no ano de 2010, Plínio de Arruda Sampaio.

Tive a honra de compartilhar alguns poucos, mas inesquecíveis momentos de aprendizado a seu lado. Em uma dessas oportunidades, levamos Plínio à Poá, pequena cidade da região metropolitana de São Paulo. Em poucos minutos e com impressionante simplicidade, o velho Plínio deixou seu apelo à radicalidade e à coerência:

“Não importa que não sejamos entendidos agora. O que importa é que a gente diga o que é real. Afinal, a realidade é que vai demonstrar as contradições, e a hora que demonstrar, todos dirão: ‘quem sempre disse isso foram eles!’ O nosso discurso é mostrar como o povo é explorado, com argumentos, com dados. Vão dizer: ‘grupinho radical’, por um tempo. Amanhã, vão reconhecer e vão nos procurar. Falei isso pro Lula. O Lula não quis. Resultado: o PT virou um partido igual aos outros!”

O vídeo é curto, mas muito forte.

 

Plínio dedicou sua vida à luta política e aos valores da esquerda brasileira. Em seus últimos anos de atuação, investiu muita energia no diálogo com a juventude, tendo se tornado um entusiasta do uso das redes sociais como instrumento de agitação política.

Um mês após sua passagem, na data em que completaria 84 anos, a Produtora Traço Livre lançou um vídeo de homenagem à sua trajetória, com passagens gravadas a partir de 2009 e que compõe um pedaço da mensagem revolucionária deixada pelo político. “Pretendemos colaborar para reunir o seu pensamento, a sua história e, principalmente, o testemunho do exemplo de homem público que sempre foi. Esperamos que a mensagem toque cada um e possa servir de alento e ensinamento para todos que querem um mundo melhor”, diz Leon Cunha, um dos responsáveis pelo trabalho.

 

 

O vídeo foi produzido sob direção de Leon Cunha, montagem e Edição de Felipe Campos e imagens de Rogério Che, Marcelo Pushnick, Ziza da Silva, Fabio Nassif e Leon Cunha.

Muito mais do Plínio pode ser visto em www.youtube.com/projetosocialista

Lembro aqui um lindo provérbio africano: “Para cada velho que morre, uma biblioteca que queima.”

Espero que no caso de Plínio, o resgate de suas memórias possam desdizer em parte a tal máxima.

 

 

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Cultura racismo

Afroperspectividade: por uma filosofia que descoloniza

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Entrevista com o doutor em filosofia e professor da UFRRJ, Renato Noguera

Por Tomaz Amorim

Hoje iniciamos uma série de entrevistas com intelectuais e militantes da luta negra no Brasil. Nosso primeiro entrevistado é Renato Noguera, filósofo e professor da UFRRJ, que fala sobre o surgimento de uma tendência na filosofia brasileira chamada Afroperspectividade. Renato e outros pesquisadores tentam formular conceitos recorrendo às tradições indígena, africana e afro-brasileira. Se Nietzsche buscou inspiração nas figuras europeias clássicas de Apolo e Dionísio para suas formulações sobre a arte moderna, Renato Noguera e outros pesquisadores recorrem a figuras como a Mãe-de-santo e a conceitos como o de drible. O tripé referencial desta empreitada vem de Abdias do Nascimento, Viveiros de Castro e Molefi Asante. A proliferação conceitual de Deleuze dá o exemplo, segundo Renato, a ser superado. Nesta entrevista, falamos também sobre o conceito de epistemicídio (de Suely Carneiro), sobre as filosofias africanas – a anterior à grega e a contemporânea – e sobre como jovens negros em contextos violentos podem se descolonizar através da Filosofia. Renato ainda critica a ideia de mestiçagem e faz um balanço da aplicação das leis 10.639 e 11.645/08 que preveem o ensino de histórias e culturas indígenas, africanas e afro-brasileiras em nossas escolas. Há um pensamento negro e crítico ganhando espaço nas universidades brasileiras. Renato Noguera e outros pesquisadores do Afroperspectividade são uma de suas frentes mais interessantes no campo filosófico.

“Numa sociedade racista que apresenta dados alarmantes de violência urbana em que as principais vítimas são jovens negras e negros, filosofar pode ajudar a repensar o cenário político e social. Mas, insisto, eles devem estudar uma Filosofia que seja marginal e antidogmática. Uma Filosofia que pense o racismo, uma Filosofia que trate da violência, uma Filosofia que pense o Brasil, uma Filosofia enredada no nosso território cultural, uma Filosofia que está porvir e que, talvez, possa estar em semente no pluriverso filosófico afroperspectivista.”

RN: Renato Noguera

TA: Tomaz Amorim (entrevistador)

 

TA: Renato, você é professor de Filosofia na UFRRJ. Como foi sua trajetória acadêmica, da escola até a posição de professor universitário? Por que a Filosofia?

RN: Em resumo, estudei no Colégio Pedro II e lá, fazendo orientação vocacional aos 13 anos, recebi como “diagnóstico” Filosofia ou Ciências Sociais. Depois pensei em estudar Medicina, Direito ou Letras, mas tinha em mim algumas questões que eram nitidamente filosóficas. Depois de ter ficado na lista de espera para Direito na UERJ, escolhi Filosofia na UFRJ. Eu me lembro que desde a infância vivia me perguntando pelo sentido da vida, ficava comparando o infinito do céu com a finitude humana. Enfim, dos 18 aos 21 anos fiz o bacharelado em Filosofia, aos 22 anos conclui a licenciatura e entrei no Mestrado em Filosofia na UERJ, sob orientação do professor Gerd Bornheim. Depois de dois semestres decidi mudar, prestei outra prova de seleção e acabei indo para a UFSCar, onde cursei o mestrado de 1996 a 29 de fevereiro 2000 (data de defesa da dissertação). No mestrado pude estudar sob orientação do grande Bento Prado Jr. Na época, o mestrado durava quatro anos, toda minha turma usou igualmente o prazo, nós fazíamos as disciplinas em três ou quatro semestres e ficávamos pesquisando e escrevendo pelo mesmo período. Depois do mestrado, voltei a morar no Rio de Janeiro e entrei no doutorado em 2001 na UFRJ, onde o defendi em 31 de março de 2006 com apoio do mesmo orientador da minha monografia, o generoso Mário Guerreiro. Eu estudei a Filosofia de Schopenhauer e participei da fundação do Grupo de Trabalho (GT) Schopenhauer na Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia (ANPOF) em 2004. Na tese de doutorado, articulei as Filosofias de Platão, Schopenhauer e Deleuze para propor uma alternativa schopenhaueriana para uma formulação feita por Platão. A Filosofia de Deleuze trouxe a estratégia de criação de conceitos.  Durante 11 anos fui professor da Educação Básica, trabalhei no Ensino Fundamental, no Ensino Médio e no Ensino Superior, paralelamente, dei aula em várias escolas privadas, tais como a Escola Parque. Trabalhei na Universidade Estácio de Sá, fui professor substituto da UERJ, da UFRJ e da rede pública estadual fluminense. Entre 2005 e 2006 cheguei a ter 27 turmas por semana. No ano de 2008 fui aprovado em concurso público para a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

TA: Da graduação ao doutorado você se dedicou ao estudo da obra de Schopenhauer, um dos mais importantes filósofos de língua alemã do século XIX. Hoje você é conhecido, principalmente, pelo esforço em produzir uma Filosofia a partir de temas e pensadores africanos. Nesta transição, você acha que houve um rompimento entre os temas ou há uma continuidade na sua produção?

RN: Não sei se foi um rompimento. Eu estudei Schopenhauer por bastante tempo, praticamente de 1991 até 2006, mas, paralelamente, tive outra formação. Tive o privilégio de ter uma formação familiar e política que levou-me para o ativismo negro desde cedo. Por isso, eu estudava, paralelamente, o pensamento africano. Eu sabia que nos anos 1990 e no início dos 2000 seria difícil colocar esse assunto no mundo acadêmico filosófico. O professor Mário Guerreiro me disse sabiamente: termine o doutorado e você poderá pesquisar isso. Foi o que fiz.

TA: Você reivindica uma origem africana à Filosofia, que teria vindo do Egito para a Grécia. Quais são os indícios históricos desta afirmação? Quem quiser se aprofundar nesta questão deve buscar quais referências?

RN: Eu trabalho com a noção de que a Filosofia é pluriversal; não faço coro com a leitura hegemônica de que filosofar seja universal e tenha sido uma invenção grega. Neste sentido, não reivindico que os africanos inventaram a Filosofia. Eu advogo que o Egito, desde 2780 antes da Era Comum, tem uma produção filosófica e possuía escolas de rekhet, termo que, segundo o egiptólogo e filósofo Theóphile Obenga, significa “Filosofia”. Não há dúvida de que Platão, Pitágoras e Tales de Mileto, dentre outros gregos, passaram algum tempo no Antigo Egito. Diversas fontes convergem para a tese de que Pitágoras (570-496 A.E.C) foi o primeiro a usar o termo “Filosofia” depois de retornar do Egito. Diógenes de Laércio e Cícero são fontes importantes dessa perspectiva bastante conhecida. Há um discurso crítico que atribuiria aos gregos uma espécie de plágio da Filosofia egípcia. Eu não defendo isso, tampouco a ausência de influência. É óbvio que todas as culturas são dinâmicas. Eu não defendo que os egípcios inventaram a Filosofia, o que eu digo é mais simples: os textos egípcios são filosóficos e mais antigos do que os gregos. Ou seja, os registros filosóficos africanos são anteriores aos ocidentais. Não estou preocupado com primazia, mas com a legitimidade filosófica africana na Antiguidade. Eu sou contra a recusa desse material por puro dogmatismo, por uma postura que, não encontro outra palavra, tem sido profundamente antifilosófica por parte de colegas com boa formação na área. Eu não digo que os africanos inventaram a Filosofia por dois motivos. Primeiro: amanhã ou depois podemos encontrar algum texto mais antigo do que os egípcios com cerca de mais de 2500 anos antes da Era Comum, isto é, de aproximadamente 4500 anos. Segundo: penso que é um falso problema apontar qual povo inventou a Filosofia, qual povo lavrou sua certidão de nascimento. Seria o mesmo que procurar o povo que inventou a Arquitetura. Penso que todos os povos tinham suas próprias construções. Faz mais sentido apontar as diferenças. Assim, o que soa estranho é reduzir toda diversidade a apenas uma escola. Eu tenho pensado desse modo. As nossas pesquisas são baseadas em diversas fontes, ainda pouco examinadas, que confirmam que os textos africanos são anteriores aos ocidentais. Os egípcios começaram a filosofar antes dos gregos. Além disso, há o fato de que o Egito antigo era uma sociedade negra, o que foi, conforme Martin Bernal e Cheikh Anta Diop, falsificado por conta do racismo antinegro que não aceitaria facilmente que uma sociedade muito avançada tecnologicamente naquele momento histórico pudesse ser negra. Ainda hoje encontramos representações brancas do Antigo Egito. Sem dúvida, minhas afirmações em torno da ideia de que existia uma produção filosófica anterior aos gregos recebe uma vasta série de objeções. O elenco é vasto. Mas para aprofundar o debate eu sempre indico o exame dos trabalhos de George James com Legado roubado (Stolen Legacy), passando pelas obras de Cheikh Diop, Theóphile Obenga, Molefi Asante, até A Filosofia antes dos gregos, de José Nunes Carreira.

TA: A Filosofia trabalhou durante muitos séculos com a ideia de universal. No século XX, principalmente, surgiram as Filosofias da diferença e uma produção teórica impulsionada por grupos historicamente oprimidos e por suas questões e reivindicações. É possível entender estas formulações específicas sob o pano de fundo do universal ou elas estariam justamente denunciando a falsidade deste universal?

RN: Penso que as Filosofias da diferença são muito importantes nessa denúncia, mas concordo com o filósofo porto-riquenho Maldonado-Torres que diz que: “os filósofos e os professores de Filosofia tendem a afirmar as suas raízes numa região espiritual invariavelmente descrita em termos geopolíticos: a Europa”. Apesar da enorme compreensão, percebo ainda uma perspectiva, por assim dizer, “conservadora”. O que não significa que eu não dialogue muito com essa abordagem, reconhecendo os seus limites.

TA: Qual a importância da Filosofia produzida hoje no continente africano? Qual sua relação com o pensamento africano na diáspora?

RN: Existem muitos expoentes na Filosofia africana contemporânea, posso citar alguns. Achille Mbembe tem uma obra muito interessante chamada Crítica da razão negra, um belo trabalho de Filosofia política em que ele problematiza o conceito de “negro” e apresenta um risco trazido pelo neoliberalismo e pela crise da Europa como centro político mundial. Mbembe diz algo como “os riscos sistemáticos aos quais os escravos negros foram expostos durante o primeiro capitalismo constituem agora, se não a norma, pelo menos o quinhão de todas as humanidades subalternas”. O trabalho do filósofo sul-africano Mogobe Ramose questiona o conceito de universalidade, substituindo-o pelo de pluriversalidade. Ramose explica como os conflitos geopolíticos entre europeus e africanos foram responsáveis pela invisibilidade sistemática do pensamento filosófico africano. Ora, esse problema tem sido debatido no contexto da afrodiáspora de diversos modos. O filósofo afro-americano Charles Mills disse algo muito interessante, mais ou menos assim, “nas Ciências Humanas, a Filosofia é a área mais branca”. No Brasil, Sueli Carneiro trouxe a ideia de epistemicídio. É preciso citar outros nomes que têm pesquisado o assunto como Wanderson Flor Nascimento da Universidade de Brasília (UnB), Eduardo David Oliveira da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Emanoel Soares da Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB), além de estudantes de Programas de Pós-Graduação no Paraná como Roberto Jardim e Thiago Dantas, que lançou o livro Descolonização Curricular: A Filosofia Africana no Ensino Médio (2015). No Rio de Janeiro, um grupo de estudantes de pós-graduação, professores da educação básica e um professor da UERJ construíram um projeto que transformou-se no livro Sambo, logo penso: afroperspectivas filosóficas para pensar o samba (2015), organizado por Wallace Lopes com participação de Marcelo Rangel, professor da Universidade Federal de Outro Preto (UFOP), Sylvia Arcuri, Eduardo Barbosa, Felipe Siqueira, Filipi Gradim, Guilherme Celestino e Marcelo Moraes, professor da UERJ. Esse grupo tem feito um belo trabalho filosofando através do samba e usando o repertório cultural negro, africano, afro-brasileiro, ameríndio e indígena.

TA: A tradição oral parece fundamental nas diversas culturas africanas. Quais os desafios em transportar esta tradição para a narrativa e Filosofia escritas?

RN: O pluriverso cultural africano é vasto. Conforme afirma Diop, existe algo em comum entre os povos africanos do mesmo modo que nas culturas ocidentais pode-se identificar alguns elementos razoavelmente constantes. Penso que existe muito desconhecimento sobre os povos africanos. O livro Etno-História do Império Mali de José Lampréia pode se juntar ao arsenal de trabalhos organizados pelo historiador africano Joseph Kizerbo e de tradicionalistas como Hampâte Bá para elucidar que existiam sociedades como o Império Mali, entre os séculos VIII e XVII. A historiografia africana aponta que no século XIV existiam 150 escolas e uma universidade na cidade de Tombuctu, com um vasto acervo em suas bibliotecas. Abdel Kader Haidara tem feito um belo trabalho tentando salvar a vasta documentação que grupos fundamentalistas querem destruir. Ora, faço esse comentário para explicar que existem registros escritos e orais no continente africano. Eu percebo que pouco se fala a respeito do material escrito dos séculos XIV, XV e XVI. Sem contar o vasto material egípcio de 2780 até 330 antes da Era Comum, conforme catalogado por Théophile Obenga. Afinal, mesmo diante das tentativas de falsificação histórica, o Egito Antigo não pode ser embranquecido diante de todas as evidências que Cheikh Anta Diop nos deixou em seus trabalhos. Faço essa digressão para mostrar que, além de material oral, existe muito material escrito que, no entanto, é pouquíssimo conhecido. Pois bem, em relação ao esforço de transpor o “texto” oral para o registro escrito, penso que a oralitura resolve esse aparente problema, transformando o que parecia um obstáculo intransponível numa equação solúvel, desde que os devidos protocolos sejam usados. Pio Zirimu, um incrível linguista ugandense, e uma dupla nascida no Quênia, o escritor e professor de literatura comparada Ngũgĩ Wa Thiong’o e a professora de arte Micere Mugo, explicam que a oralitura é a teoria da composição oral, um modo de catalogar o repertório de registros orais. Não se trata de oralidade, mas de “técnicas” do campo da linguística que criam um acervo oral. Ou seja, a tradição oral pode ser preservada através dessa abordagem. Vale a pena ler o artigo Oralidad y oratura de Juan José Ferrer a esse respeito para compreender melhor o tema. A oralitura é a alternativa para que o conhecimento filosófico antigo registrado oralmente possa ser acessível do mesmo modo que os registros escritos.

TA: Em 2003 foi implantada a lei 10.639, que prevê o ensino de História e Cultura Afro-brasileiras nas escolas. Por que o estado brasileiro demorou tanto para incluir a história dos ancestrais de mais da metade da população brasileira nas escolas? Passados doze anos, quais foram os avanços da lei e de sua implantação? O que ainda falta? Quais as possibilidades de implantação da lei na disciplina de Filosofia?

RN: Esse tema é objeto de muitas pesquisas. A Lei 10.639/03 recebeu em 2008 o acréscimo da Lei 11.645/08 que inclui o ensino de história e culturas indígenas. A regulamentação da alteração do Artigo 26 A da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional tem pelo menos três documentos fundamentais: 1º) Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana de 2004; 2º) Orientação e Ação para Educação das Relações Étnico-Raciais de 2006; 3º) Plano Nacional de Implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira, Africana e Indígenas de 2008. Existem muitos trabalhos que trazem um belo panorama a respeito do cenário de implementação dos conteúdos obrigatórios africanos, afro-brasileiros e indígenas no currículo do ensino fundamental e do ensino médio em todas as disciplinas. Um bom balanço tem sido feito pelos Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Neabis) que integram oficialmente as Instituições Federais de Ensino (IFES), além de existirem também em diversas universidades privadas e públicas. É difícil discorrer sobre isso sem fazer uma monografia. De qualquer modo, existem avanços e resistências. No caso da disciplina Filosofia, posso fazer um resumo porque tenho dedicado parte de meu tempo de pesquisa em investigações a esse respeito, incluindo a pesquisa que coordeno com apoio da Fundação Carlos Chagas de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) intitulada Filosofando com sotaques africanos e indígenas, na primeira versão no período de julho de 2014 até junho de 2016. A maior dificuldade no campo da Filosofia está no desconhecimento da produção fora do circuito ocidental. Eu acredito que o livro Ensino de Filosofia e a lei 10.639 que foi publicado pela Pallas em parceria com a Biblioteca Nacional pode ajudar bastante a dirimir dúvidas. Penso que o primeiro passo é uma cuidadosa leitura da documentação que regulamenta o Artigo 26 A da LDB. O segundo passo: descolonização do pensamento, do currículo e das práticas educativas.

TA: Em uma entrevista recente à revista Ensaios Filosóficos você falou em “racismo epistemológico”. O que é isto e como vencê-lo?

RN: O racismo epistêmico ou epistemológico é uma das dimensões mais perniciosas da discriminação étnico-racial negativa. Em linhas gerais, significa a recusa em reconhecer que a produção de conhecimento de algumas pessoas seja válida por duas razões: 1º) Porque não são brancas; 2º) Porque as pesquisas e resultados da produção de conhecimento envolvem repertório e cânones que não são ocidentais. Penso que a disputa para derrotar, ainda que parcialmente, o racismo epistemológico está no esforço por diversificar as leituras. Combater a injustiça cognitiva começa por deixarmos de privilegiar os modelos epistemológicos ocidentais. E, por fim, realizar uma comparação dos modelos de conhecimento, do repertório, criando condições para a polirracionalidade. Minha base para romper com o racismo epistêmico está nas leituras do filósofo Dismas Masolo. É preciso analisar o objeto de conhecimento por ângulos diferentes, mas também por meio de modelos de racionalidade diversos. Isto certamente servirá para enriquecer nosso acervo cognitivo.

TA: A Universidade Federal do Maranhão acabou de anunciar a criação de um curso de graduação em “Estudos Africanos e Afro-Brasileiros”. NEABs, Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros, têm sido criados em diversas universidades em todo o Brasil. O surgimento destes espaços mostra o começo de uma mudança na presença negra nas universidades?

RN: Sem dúvida. Penso que temos um processo de franca expansão da produção e ocupação acadêmica. O que também pode ser percebido através das reações de grupos mais reacionários que não querem negociar o espaço público de produção de conhecimento.

TA: Os movimentos negros no Brasil têm reivindicado o conceito de genocídio para descrever o número alarmante de negras e negros que perdem a vida no Brasil por conta de ações diretas do estado ou por sua negligência (aborto mal realizado, assassinato pela polícia ou em guerra de facções, vício em drogas, má alimentação, ausência de serviços púbicos de saúde, etc.). A filósofa Sueli Carneiro desenvolve o conceito de epistemicídio, que seria o extermínio constante do conhecimento de povos não-brancos produzidos através da história e ainda hoje. Você acha que há uma relação entre estes dois tipos de extermínio?

 

RN: Sem dúvida. O que está em jogo não deixa de ser uma disputa pela versão única da História, da Filosofia, dos modelos e práticas políticas frente à diversidade de perspectivas. A denúncia feita por Sueli Carneiro é magistral, considero o seu trabalho uma das referências mais importantes da área no Brasil. Por exemplo, quando falamos em culinária as pesquisas apontam que a atividade de cozinhar é um território feminino. Em certa medida, na esfera privada no Brasil as mulheres cozinham mais do que os homens. No Brasil escravocrata, as mulheres negras escravizadas protagonizaram os serviços culinários. Mas a alta gastronomia e o papel de chef de cozinha parece ter um elenco majoritariamente branco e masculino. Tudo isso está relacionado ao epistemicídio, ao genocídio. A performance na área da gastronomia inclui a filiação étnico-racial. Os dados e o ranking de melhores chefs mostra que o gênero é masculino, a cor/raça é branca e o sotaque francês. Óbvio que não estou dizendo que homens brancos não podem ser chefs maravilhosos. O que o exemplo mostra é que o epistemicídio dificulta a “escuta” do discurso gastronômico das mulheres negras, já que os homens brancos são naturalmente mais empoderados na disputa.

TA: Você propõe uma Filosofia afroperspectivista. O que é isto? Quais as origens teóricas e políticas deste conceito? Existem outros pensadores hoje no Brasil e no mundo dedicados ao seu desenvolvimento? Quais são até agora seus principais trabalhos?

RN: Por Filosofia afroperspectivista ou Afroperspectividade defino uma linha ou abordagem filosófica pluralista que reconhece a existência de várias perspectivas, sua base é demarcada por repertórios africanos, afrodiaspóricos, indígenas e ameríndios. O que denominamos de Filosofia afroperspectivista é uma maneira de abordar as questões que passa por três referências: 1ª) Afrocentricidade; 2ª) Perspectivismo ameríndio; 3ª) Quilombismo. Alguns aspectos da formulação intelectual feita por Molefi Asante articuladas com certas questões suscitadas pela etnologia amazônica de Eduardo Viveiros de Castro com a formulação política do quilombismo de Abdias do Nascimento são as fontes para a Filosofia afroperspectivista. Vou repetir o que escrevi no capítulo Sambando para não sambar: afroperspectivas filosóficas sobra a musicidade do samba e a origem da Filosofia. A Filosofia afroperspectivista reúne alguns dos seguintes elementos:

  • Afroperspectividade define a Filosofia como uma coreografia do pensamento.
  • A Filosofia afroperspectivista define o pensamento como movimento de ideias corporificadas, porque só é possível pensar através do corpo. Este, por sua vez, usa drible e coreografia como elementos que produzem conceitos e argumentam.
  • Os conceitos afroperspectivistas são construídos a partir de movimentos de coreografia de personagens conceituais melanodérmicos. Neste sentido, os conceitos são escritos com os pés, com as mãos e com cabeça ao mesmo tempo.
  • A Filosofia afroperspectivista define a comunidade/sociedade nos termos da cosmopolítica bantu: comunidade é formada pelas pessoas que estão presentes (vivas), pelas que estão para nascer (gerações futuras/futuridade) e pelas que já morreram (ancestrais/ancestralidade).
  • A Filosofia afroperspectivista é policêntrica, percebe, identifica e defende a existência de várias centricidades e de muitas perspectivas.
  • A Filosofia afroperspectivista não toma o prefixo “afro” somente como uma qualidade continental; estamos diante de um quesito existencial, político, estético e que nada tem de essencialista ou metafísico.
  • A Filosofia afroperspectivista usa a roda como método, um modelo de inspiração das rodas de samba, candomblé, jongo e capoeira que serve para colocar as mais variadas perspectivas na roda antes de uma alternativa ser alcançada. A roda é uma metodologia afroperspectivista.
  • Afroperspectividade é devedora da Filosofia ubuntu de Mogobe Ramose.
  • Afroperspectividade define competição como cooperação, isto é, competir [significa petere (esforçar-se, buscar) cum (juntos)], localizar alternativas que são as melhores num dado contexto, mas, não são únicas, tampouco permanentes e devem atender toda a comunidade.
  • Afroperspectividade é devedora do Nguzo Saba formulado por Maulana Karenga, isto é, se baseia nos sete princípios éticos que ajudam a organizar e orientar a vida. A saber: Umoja (unidade): empenhar-se pela comunidade; Kujichagulia (autodeterminação): definir a nós mesmos e falar por nós; Ujima (trabalho e responsabilidade coletivos): construir e unir a comunidade, perceber como nossos os problemas dos outros e resolvê-los em conjunto; Ujamaa (economia cooperativa): interdependência financeira, recursos compartilhados; Nia (propósito): transformar em vocação coletiva a construção e o desenvolvimento da comunidade de modo harmônico; Kuumba (criatividade): trabalhar para que a comunidade se torne mais bela do que quando foi herdada; Irani (fé): acreditar em nossas(os) mestres.
  • Afroperspectividade é devedora das reflexões e inflexões filosóficas de Sobonfu Somé, definindo o amor como um projeto espiritual e comunitário que serve para manter a sanidade individual e deve contar com o apoio de uma comunidade para ser preservado.
  • Afroperspectividade define o tempo dentro do itan [verso]iorubá que diz: “Bara matou um pássaro ontem com a pedra que arremessou hoje”. O tempo não é evolutivo, tampouco se contrai ou pode ser tomado como um círculo ou uma linha reta; mas, de modo simples, diz que o passado é definido pelo presente e o futuro é um conjunto de encruzilhadas, isto é, destinos (odu).
  • Afroperspectividade permanece em aberto, sempre apta a incluir perspectivas que usem o conceito de odara como crivo de validade de um argumento, entendendo odara como bom, na língua ioruba, uma espécie de bálsamo de revitalização existencial.

Em relação às pessoas que filosofam com algum sotaque afroperspectivista, posso dizer que estão reunidas em Sambo, logo penso. Eu não quero falar por ninguém, nem sou representante especial dessa abordagem filosófica, penso que sou, apenas, academicamente mais antigo do que o resto do grupo. No livro Sambo, logo penso: afroperspectivas filosóficas para pensar o samba (2015) organizado por Wallace Lopes, numa coordenação conjunta que fiz com Sylvia Arcuri e Marcelo Moraes, estão reunidas as pessoas que fazem esse exercício afroperspectivista de modo formal ou informal, Marcelo Rangel, Eduardo Barbosa, Felipe Siqueira, Filipi Gradim, Guilherme Celestino. No projeto Filosofando com sotaques africanos e indígenas, tenho algumas parcerias: o Prof. Rogério Seixas da Universidade de Barra Mansa, Filipe Ceppas da UFRJ, Wanderson Nascimento da UFBA e Wanderely Silva da UFRRJ, estes são colegas que mesmo não se professando afroperspectivamente apoiam e são pesquisadores associados do projeto. Em relação às principais obras: penso que estão porvir, mas Ensino de Filosofia e a Lei 10. 639 (2014)foi o primeiro livro em que confessei esse desejo intelectual de filosofar com sotaques africanos, indígenas, performances femininas, sambando, jogando bola, com carimbó e com um repertório suburbano, enfim, lançando mão das minhas referências culturais.

TA: Qual o papel das mulheres na produção negra de conhecimento no cenário brasileiro? A figura da negra ainda se resume ao papel tradicional de mãe ou a Filosofia afroperspectivista aponta outros espaços possíveis para ela?

RN: Grande interrogação. Penso que o lugar das mulheres só pode ser de protagonismo. Atualmente tenho orientado mulheres em cursos de pós-graduação e buscado apoiar suas iniciativas. Na Filosofia afroperspectivista, estamos cada vez mais pensando em amplificar e fazer circular com mais intensidade as performances femininas. Por exemplo, em um artigo sobre a genealogia do drible mencionei personagens conceituais melanodérmicas da Filosofia afroperspectivista. Nós estamos investindo em estudos a respeito da personagem da Pomba-Gira, por exemplo. Além disso, a pensadora burquinense Sobonfu Somé é uma das nossas maiores referências quando se trata de falar de relacionamentos afetivos e conjugalidades.

TA: A mãe de santo, o jongueiro, o vagabundo, orixás, ubuntu, denegrir, vadiagem, drible, mandinga, enegrecimento, roda, cabeça feita, corpo fechado, estas são algumas imagens e figuras ligadas ao universo negro que você transforma em conceitos filosóficos. No conceito de drible, por exemplo, você faz um interessante resgate histórico do drible no futebol e busca aplicá-lo à tradição acadêmica europeia, exigindo que o pensamento pense também com o corpo. Traduzir tipos históricos e imagens tradicionais em conceitos filosóficos é o procedimento principal da Filosofia afroperspectivista?

RN: É um dos procedimentos. Um dos modos de atuar é trazer o nosso repertório cultural. A maioria das pessoas que usam a afroperspectividade tem sólida formação nas rodas de samba, nos terreiros de candomblé e umbanda, pajelança, xamanismo, nas rodas de capoeira, algumas são jogadoras de futebol e/ou estudiosas de esquemas táticos. Nesse sentido, se o filósofo alemão Adorno usou Ulisses para fazer uma leitura da Modernidade, se Nietzsche falou de Apolo e Dioniso, nós usamos outras personagens: Exu, Pomba-Gira, Zé Malandro, Zumbi dos Palmares, Ogum, Oxóssi, Tupi, Iara, dentre outras.

TA: O filósofo francês Gilles Deleuze é uma referência importante nos seus escritos. É possível trabalhar com escritores europeus em uma Filosofia afroperspectivista? Há limites e dificuldades nesta relação?

 

RN: A resposta é sim para os dois casos. Ou seja, apesar de ser viável trabalhar com autores europeus, existem limites. Isto está explícito em uma defesa que o próprio Deleuze faz ao lado do psicanalista Félix Guattari em O que é Filosofia?: “Se a Filosofia tem uma origem grega, como é certo dizê-lo, é porque a cidade, ao contrário dos impérios ou dos estados, inventa o agôn como regra de uma sociedade de ‘amigos’, a comunidade dos homens livres enquanto rivais (cidadãos)”. Por isso, ainda que Deleuze seja muito importante para os meus escritos, reconheço limites sérios. Como eu digo sempre, na esteira do filósofo Maldonado-Torres, os filósofos europeus têm essa mania colonial. Sem dúvida, Deleuze é um dos filósofos que mais tem nos ajudado em nossas insurreições. Mas como desejamos criar aldeias e quilombos filosóficos, Deleuze só ajuda a destruir os velhos castelos ocidentais da Filosofia. Para construir a aldeia quilombista precisamos de pessoas que filosofam com samba.

TA: Qual o papel da mestiçagem, ideia fundamental na história da formação racial brasileira, no seu pensamento?

RN: Eu não reivindico a categoria de mestiçagem em nenhum momento. Não se trata de uma dificuldade, mas de um termo muito equívoco, uma ideia que traz mais dificuldades e confusões do que alternativas políticas. Eu identifico um grave problema. O termo “raça” pode ser usado com vários sentidos, destaco dois: sinônimo de espécie ou alusão ao caráter social e histórico que diferencia grupos humanos pelo fenótipo. Ora, os sentidos são trocados e como diz o ditado “não se deve confundir alhos com bugalhos”. Tecnicamente, uma pessoa com mãe austríaca branca e pai norueguês branco é tão mestiça quanto alguém que tem um pai nigeriano da etnia iorubá com uma mãe sueca de pele alva. Minha leitura percebe que o conceito mestiço só faria pleno sentido em casos de centauros, uma mistura de humanos com cavalos, ou ainda, se um ser extraterrestre procriasse com uma pessoa da nossa espécie. Dessa união (extraterrestre com terrestre) nasceria um ser mestiço. Minha experiência política e meus investimentos intelectuais trazem um pensamento diferente desse. Nós somos da mesma raça (no sentido de espécie biológica), mas isso não quer dizer que não exista raça num sentido social e histórico, ou seja, populações que podem ser diferenciadas por características étnico-raciais, isto é, pelo fenótipo. Mas a existência de mestiços pressuporia diferenças de natureza entre as “raças”, o que não é o caso. Eu exemplifico, os jogadores de futebol Daniel Alves e Kaká são “igualmente” mestiços. Porque provavelmente ambos têm pessoas brancas, negras (pretas e pardas) e indígenas em suas ancestralidades. Mas foi Daniel Alves que reclamou dos xingamentos de torcidas que além de jogar bananas, o chamaram de macaco diversas vezes. Conforme minhas pesquisas superficiais, Kaká nunca foi chamado de “macaco” quando jogava na Europa. Ora, Kaká é branco e Daniel Alves é pardo, isto é, negro. (O sistema classificatório étnico-racial brasileiro é bem simples: o IBGE informa cinco categorias de cor/raça: amarela, branca, indígena, parda e preta. É importante notar que a categoria negra não é sinônimo de preta, mas a soma desta com “parda”. Ou seja, pardos + pretos = negros). Por isso, Neymar viveu alguns episódios de discriminação racial em campo, algo impensado para Zico ou Kaká na mesma Europa. Penso que a ideia de mestiçagem cria mais dificuldades e confusões do que efetivas alternativas ao racismo e para a compreensão da sociedade brasileira. A suposição da existência da “mestiçagem” tem sido munição para as teorias puristas. Afinal, para haver mestiços é preciso que existam puros. Supor a mestiçagem parece uma crítica de tom antirracista, mas acaba por revitalizar o racismo que “gostaria” de combater. A ideia de pureza fez e continua fazendo muitos estragos políticos, penso que devemos riscar a ideia de “mestiçagem” dos nossos dicionários político e intelectual, levando a ideia de “pureza” junto. Afinal, não existem puros, tampouco impuros ou misturados. Concordo com Carlos Moore, só existem fenótipos. Por isso, a mestiçagem não faz parte do meu trabalho. Não acredito e nem vejo como a “mestiçagem” poderia ajudar a resolver qualquer tensão racial.

TA: Por fim, Renato. Em um contexto de opressão e violência, como é o de muitos jovens negras e negros no Brasil, por que eles deveriam estudar Filosofia ?

RN: A Filosofia pode ser um exercício de descolonização. Mas também pode ser de colonização e recolonização. Nós defendemos uma Filosofia que descoloniza, uma Filosofia que declare independência e autonomia sem dogmas. Numa sociedade racista que apresenta dados alarmantes de violência urbana em que as principais vítimas são jovens negras e negros, filosofar pode ajudar a repensar o cenário político e social. Mas, insisto, eles devem estudar uma Filosofia que seja marginal e antidogmática. Uma Filosofia que pense o racismo, uma Filosofia que trate da violência, uma Filosofia que pense o Brasil, uma Filosofia enredada no nosso território cultural, uma Filosofia que está porvir e que, talvez, possa estar em semente no pluriverso filosófico afroperspectivista.

TA: Muito obrigado pela entrevista, Renato.

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