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Finados: Podia ser minha mãe, que loucura

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2 de Novembro era Finados | Eu parei em frente ao São Luiz do outro lado | E durante uma meia hora olhei um por um | E o que todas as Senhoras tinham em comum | A roupa humilde, a pele escura | O rosto abatido pela vida dura | Colocando flores sobre a sepultura | Podia ser a minha mãe, que loucura”

Racionais MC’s

Por Douglas Bechior

Pobreza e religião caminham juntas desde sempre, ao menos para os fiéis, para os povos que compõem as igrejas. E a vida, e a morte, e a vida após a morte, encontram novos significados, quase sempre em busca do conforto diante da vida real.

Poucos poetas retrataram tão bem a dura realidade das periferias brasileiras, como fizeram Racionais Mc’s. Entre a denúncia da realidade e a valorização da identidade negra e periférica, a busca incessante pela “fórmula mágica da paz”. E, em muitos versos, a pintura do quadro da dor e do sofrimento daquelas que ficam e que choram nos velórios diante do desespero da perda, quase sempre famílias negras, quase sempre mães pretas, pobres, mães de maio, de ontem e de hoje.

 

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A morte é, como sabemos, a grande certeza da vida. E poderia sim, ser vista, entendida e significada de uma forma diferente como a temos. Uma morte decorrente de uma vida bem vivida, de uma vida de prazeres, de uma vida repleta de direitos e humanidade que chegasse ao seu fim como uma passagem natural, como o fim de um ciclo, com a menor dor possível, com dignidade e cuidados. A morte poderia ser, em regra, uma experiência que deixasse na consciência dos que ficam, o acalanto do “Viveu uma vida plena e foi feliz” ou do “fiz tudo que podia ter feito”.

O dia de Finados poderia ser momento de saudades apenas. Dia de uma tristeza dorida, mas suave, branda…

Mas não!

 

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Não é essa a relação que temos com a morte. A vida real do povo mais pobre, da população que ocupa as periferias e do povo negro jamais ofereceu condições para a oferta das chamadas mortes naturais, da “morte morrida”. A escravidão, as ditaduras e as falsas experiências de democracia, nos deixou marcas profundas em que a morte sempre esteve relacionada ao castigo, à dor, ao sofrimento, à tortura, à chacina e muitas vezes, a morte sem corpo, sem velório e sem o direito sagrado da despedida.

 

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Para os pobres e principalmente para a população negra, a dor é propositada, prevista. E a condição é precarizada, injusta. E a vida interrompida, encurtada. E a morte prematura, premeditada, naturalizada.”

No Brasil, segundo o mapa da violência 2014, a taxa de homicídios é a maior desde 1980. São números de 50 a 100 vezes maiores que a de países como o Japão. Em média, 100 em cada 100 mil jovens entre 19 e 26 anos morrem violentamente a cada ano.

A vitimização dos negros é bem maior que a de brancos. Morreram proporcionalmente 146,5% mais negros do que brancos no Brasil, em 2012. Considerando a década entre 2002 e 2012, a vitimização negra, isso é, a comparação da taxa de morte desse segmento com a da população branca, quase triplicou.

 

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Os homicídios são uma das principais causas de tantas mortes. E nessa categoria, destaca-se o papel do Estado e de suas polícias que, ao contrário de proteger a vida, promovem a morte.

Sob comando de governos do PSDB, a polícia de São Paulo matou mais de 10 mil pessoas nos últimos 19 anos. Com Geraldo Alckmin no comando, a cada ano a PM mata mais. Entre janeiro e novembro de 2014, 816 pessoas foram mortas por policiais, índice maior do que em 2006 e 2012, anos de conflito aberto contra o PCC. Em 2015 um novo recorde pode ser batido. Isso sem considerar as vítimas de chacinas que já somam 75 só na região metropolitana de SP. Ainda assim, há aqueles que, como o Presidente do Tribunal de Justiça, afirmam que Polícia Militar de SP “é a melhor do mundo”.

 

 

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No Rio de Janeiro, as mortes decorrentes de ação policial aumentaram em 18%. Nos últimos 10 anos, mais de 50 crianças foram mortas por policiais nesse Estado, o que equivale 60% de todos os casos no País. No Brasil, 82 crianças e adolescentes de até 14 anos foram mortas por policiais; destas, 73% eram negras.

Essa realidade não se limita a São Paulo e Rio de Janeiro. Espirito Santo, Pará, Maranhão, Bahia e todos os estados do nordeste sofrem com altos índices de violência e mortes promovidas por aqueles que deveriam garantir a segurança e a vida.

Neste 2 de novembro, feriado de finados, respeitemos a dor de todas as cores, mas lembremos que há, neste grande cemitério chamado Brasil, a permanência da desigualdade também na distribuição das covas ou, nas palavras de João Cabral de Melo Neto, da cova medida, a parte que nos cabe nesse latifúndio.

E nossa angústia cantada…

 

Há uma morte branca que tem como causa as doenças, as quais, embora de diferentes tipos, não são mais que doenças, essas coisas que se opõem à saúde até um dia sobrepujá-la num fim inexorável: a morte que encerra a vida. A morte branca é uma “morte morrida”. Há uma morte negra que não tem causa em doenças; decorre de infortúnio. É uma morte insensata, que bule com as coisas da vida, como a gravidez e o parto. É uma morte insana, que aliena a existência em transtornos mentais. É uma morte de vítima, em agressões de doenças infecciosas ou de violência de causas externas. É uma morte que não é morte, é mal definida. A morte negra não é um fim de vida, é uma vida desfeita, é uma Átropos ensandecida que corta o fio da vida sem que Cloto o teça ou que Láquesis o meça. A morte negra é uma morte desgraçada. (BATISTA; ESCUDER; PEREIRA, 2004, p.635)

 

 


 

 

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Número de mortos por policiais militares em 2015 é o maior em 12 anos em SP

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Do site R7

Em média, duas pessoas morreram por dia, vítimas de ação policial em São Paulo. Ao todo, 185 pessoas perderam a vida, segundo a Secretaria de Segurança Pública. O número de mortos por policial militares em 2015 é o maior se comparado aos últimos 12 anos. Acompanhe a reportagem de Luisa Torres.

Assista aqui o Vídeo

 

 

 

 

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PM de SP bate recorde de mortes e não reduz crimes

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PM bate recorde de mortes em 2014: foram 816 pessoas, entre janeiro e novembro | Foto: Guga Kastner/Ponte Jornalismo

Do site da PONTE JORNALISMO

 

Entre janeiro e novembro de 2014, 816 pessoas foram mortas por policiais militares no Estado de SP. Letalidade policial foi maior até do que em 2006 e 2012, anos de enfrentamento das forças de segurança contra a facção criminosa PCC.

A letalidade dos policiais militares de São Paulo é a mais alta dos últimos dez anos. Nesse período, o total de crimes permaneceu no mesmo patamar – inclusive os crimes contra o patrimônio, cujo combate é considerado prioritário pelo governo de São Paulo.

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De janeiro a novembro de 2014, 816 pessoas foram mortas por PMs no Estado, o que representa, em média, uma morte a cada 9,8 horas, segundo levantamento realizado pela Ponte com base nos dados do Centro de Inteligência da Polícia Militar e da Corregedoria (órgão fiscalizador) da corporação.

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No mesmo período, 69 policiais militares foram assassinados em São Paulo, estivessem eles no trabalho (13) ou fora do expediente na corporação (56) _0,20/dia ou um PM morto a cada cinco dias.

Ricardo Balestreri, especialista em segurança pública, ex-secretário nacional de Segurança Pública (2008 a 2010) e presidente do Observatório do Uso Legítimo da Força, acredita que a truculência não reduz em nada a criminalidade. Segundo Balestreri, o cidadão que acredita que a polícia que mata mais é a mais eficiente está totalmente enganado.

“O que reduz a criminalidade é a presença da polícia, não a reação. Polícia perto da comunidade é a maior inteligência que se pode ter contra o crime. Quando o confronto acontece, fica evidente que a prevenção falhou. A regra precisa ser a prevenção e não o confronto com morte. Experiências nas quais a polícia atuou perto da população mostram reduções entre 40% e 70% dos índices criminais. O policial precisa ser o operador do direito enérgico, duro, combativo e valente para enfrentar o crime, mas ele não pode confundir seu poder e entrar na lógica de usar de maneira banal as mesmas táticas dos criminosos. O uso da força letal por parte do Estado não influencia em nada na redução dos crimes.”

A letalidade policial recorde em 2014 bateu até mesmo anos como 2006 (608 mortos) e 2012 (715), quando as forças de segurança de São Paulo e membros da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) estiveram em confronto.

Entre os 816 mortos por PMs estão os casos de “mortes sob intervenção policial” (horário de trabalho) e os homicídios dolosos, motivados, por exemplo, por brigas de bar, de trânsito, motivos passionais, vingança e etc.

Ao mesmo tempo em que a letalidade dos policiais militares bateu recorde em 2014, o combate aos crimes contrao patrimônio, apontado pela gestão de Geraldo Alckmin como prioridade na área de segurança pública, não evoluiu.

Somados os índices de roubos, furtos, roubos e furtos de veículos e latrocínios (roubo seguido de morte) na última década, essas modalidades criminais continuam estagnadas. Em média, a cada ano, o Estado de São Paulo registra de 900 mil a 1 milhão de crimes contra o patrimônio desde 2004. A exceção foi o ano de 2008, com 866 mil crimes patrimoniais.

O ex-secretário nacional de Segurança Pública Balestreri também acredita que todo policial precisa portar armas não letais e saber como utilizá-las para que o uso da arma de fogo só aconteça em casos extremos.

“Todo policial no Brasil precisa ter armas de bala de borracha, spray com gás pimenta, pistolas de choque e saber como utilizar esses tipos de equipamentos não letais. No processo de formação do policial, precisamos fazer com que ele tenha conhecimento técnico para entender que a arma de fogo é o recurso extremo. O policial precisa ser técnico e não emocional. É o policial que tem a permissão legal para matar, mas isso não pode ser banalizado. Quando isso acontece, o aspecto técnico da polícia está maculado.”

Na opinião do especialista, a tendência das polícias brasileiras é reagir com truculência contra a truculência dos criminosos e isso afeta diretamente a visão da sociedade sobre a atuação do braço armado do Estado.

“Quanto mais truculenta é a polícia, mais se passa a mensagem de que sociedade também pode ser. No Brasil, as polícias ainda matam muito e sem necessidade. Aqui, existe a pena de morte informal. Nela, o policial, prende, julga e executa a pena, que é a morte do suposto criminoso. Temos uma classe média sedenta por sangue, mas isso não funciona. Se matar criminosos ou supostos criminosos fosse a solução, viveríamos no paraíso da segurança pública. Está provado que é justamente o contrário.”

Ainda segundo Balestreri, a reforma das polícias no Brasil poderia ser um primeiro passo para reduzir a letalidade policial e os demais crimes. Contrário à unificação da Polícia Civil com a Militar, o que pode dar poder demais para uma única instituição e torná-la instrumento de pressão política, o ex-secretário nacional acredita que a formulação de polícias especializadas poderia ajudar o Brasil a evoluir na questão da segurança pública.

“Não temos um ciclo completo das polícias e as mortes dos criminosos pelas mãos dos policiais impedem ainda mais a investigação. Polícia inteligente é a que prende e usa a investigação para punir. A Polícia Militar e a Polícia Civil foram feitas para não se entender e, juntas, as duas foram mantidas pelas oligarquias para conter e ser dura contra os pobres e ser flexível e frágil com os ricos.”

Balestreri classifica o modelo de polícia no Brasil como “jaboticaba”, ou seja, assim como a fruta que só existe no nosso país, em nenhum outro lugar do mundo temos esse modelo de duas polícias. Para ele, a questão passa pela culpa dos legisladores e pela ineficiência deles em propor mudanças estruturais profundas. Na análise dele, a PM, por exemplo, poderia ficar com a função de cumprir o ciclo completo nos crimes do dia-a-dia; a Civil, com os crimes sofisticados, os que exigem periciamentos, por exemplo; e as guardas municipais poderiam ter poder para atuar nos crimes de menor potencial ofensivo.

“O policial não pode ser como o cidadão comum, que praticamente ignora os aspectos legais e a segurança pública. A polícia não pode matar de forma seletiva, quase sempre jovens, pobres e negros, para saciar a vontade de sangue da classe média. E muito menos não pode viver no paradoxo pedagógico de matar para mostrar que não se pode cometer crimes.”

Para Daniel Cerqueira, diretor da Diest (Diretoria de Estudos e Políticas do Estado, das Instituições e da Democracia), do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), os gráficos ilustrativos sobre a letalidade dos PMs e os crimes contra o patrimônio mostram que a correlação entre mortes cometidas por policiais e redução de crimes não pode ser estabelecida do ponto de vista estatístico.

“Não existe nenhuma evidência internacional que polícia dura e que mata faz diminuir crimes. Sabe-se o contrário. Quanto mais cidadã é a polícia, isto propicia a coprodução da segurança pública e uma maior efetividade não apenas na prevenção, mas na solução de crimes.”

Governo de SP não se manifesta

Procurados desde o dia 8 deste mês para se manifestar sobre a letalidade policial, o recém-empossado secretário da Segurança Pública da gestão de Geraldo Alckmin (PSDB) à frente do governo de São Paulo, Alexandre de Moraes, e o seu novo comandante-geral da PM, coronelRicardo Gambaroni, não atenderam ao pedido de entrevista.

A reportagem ainda solicitou que o secretário Moraes e comandante-geral Gambaroni indicassem representantes para falar sobre a letalidade dos policiais militares, mas ambos não se manifestaram sobre o pedido.

Na tarde desta sexta-feira (09), a assessoria de imprensa da Secretaria da Segurança Público perguntou à reportagem, por telefone, “qual seria a costura da matéria” e ficou de retornar, mas isso não aconteceu até hoje.

Em sua primeira entrevista coletiva à frente da Secretaria da Segurança Pública, há uma semana, o secretário Alexandre de Moraes afirmou que pretende combater a alta nos índices da letalidade policial no Estado com mais planejamento e inteligência.

“Isso [a letalidade] se combate com mais planejamento, mais inteligência. É um policiamento de maior intensidade. Isso diminui os embates e, aí, diminui a letalidade. Obviamente, uma de nossas metas é diminuição da letalidade, até porque, nos embates, também morrem policiais. Então, o planejamento, a inteligência, as operações previamente organizadas e um policiamento de alta intensidade, nós temos absoluta convicção de que diminuirá a letalidade.”

Moraes também explicou o que classifica como “policiamento de alta intensidade”:

“Policiamento de alta intensidade é um policiamento que, a partir de um planejamento maior, é um policiamento presente, com as forças especiais também nos locais onde possam ocorrer roubos, outros crimes, e um trabalho conjunto e simultâneo da Polícia Civil para detectar quadril.

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Genocídio Negro

Finados: Podia ser minha mãe, que loucura

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2 de Novembro era Finados | Eu parei em frente ao São Luiz do outro lado | E durante uma meia hora olhei um por um | E o que todas as Senhoras tinham em comum | A roupa humilde, a pele escura | O rosto abatido pela vida dura | Colocando flores sobre a sepultura | Podia ser a minha mãe, que loucura”

Racionais MC’s

Por Douglas Bechior

Pobreza e religião caminham juntas desde sempre, ao menos para os fiéis, para os povos que compõem as igrejas. E a vida, e a morte, e a vida após a morte, encontram novos significados, quase sempre em busca do conforto diante da vida real.

Poucos poetas retrataram tão bem a dura realidade das periferias brasileiras, como fizeram Racionais Mc’s. Entre a denúncia da realidade e a valorização da identidade negra e periférica, a busca incessante pela “fórmula mágica da paz”. E, em muitos versos, a pintura do quadro da dor e do sofrimento daquelas que ficam e que choram nos velórios diante do desespero da perda, quase sempre famílias negras, quase sempre mães pretas, pobres, mães de maio, de ontem e de hoje.

 

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A morte é, como sabemos, a grande certeza da vida. E poderia sim, ser vista, entendida e significada de uma forma diferente como a temos. Uma morte decorrente de uma vida bem vivida, de uma vida de prazeres, de uma vida repleta de direitos e humanidade que chegasse ao seu fim como uma passagem natural, como o fim de um ciclo, com a menor dor possível, com dignidade e cuidados. A morte poderia ser, em regra, uma experiência que deixasse na consciência dos que ficam, o acalanto do “Viveu uma vida plena e foi feliz” ou do “fiz tudo que podia ter feito”.

O dia de Finados poderia ser momento de saudades apenas. dia de uma tristeza dorida, mas suave, branda…

Mas não!

 

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Não é essa a relação que temos com a morte. A vida real do povo mais pobre, da população que ocupa as periferias e do povo negro jamais ofereceu condições para a oferta das chamadas mortes naturais, da “morte morrida”. A escravidão, as ditaduras e as falsas experiências de democracia, nos deixou marcas profundas em que a morte sempre esteve relacionada ao castigo, à dor, ao sofrimento, à tortura, à chacina e muitas vezes, a morte sem corpo, sem velório e sem o direito sagrado da despedida.

 

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Para os pobres e principalmente para a população negra, a dor é propositada, prevista. E a condição é precarizada, injusta. E a vida interrompida, encurtada. E a morte prematura, premeditada, naturalizada.”

No Brasil, segundo o mapa da violência 2014, a taxa de homicídios é a maior desde 1980. São números de 50 a 100 vezes maiores que a de países como o Japão. Em média, 100 em cada 100 mil jovens entre 19 e 26 anos morrem violentamente a cada ano.

A vitimização dos negros é bem maior que a de brancos. Morreram proporcionalmente 146,5% mais negros do que brancos no Brasil, em 2012. Considerando a década entre 2002 e 2012, a vitimização negra, isso é, a comparação da taxa de morte desse segmento com a da população branca, quase triplicou.

 

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Os homicídios são uma das principais causas de tantas mortes. E nessa categoria, destaca-se o papel do Estado e de suas polícias que, ao contrário de proteger a vida, promovem a morte.

Sob comando de governos do PSDB, a polícia de São Paulo matou mais de 10 mil pessoas nos últimos 19 anos. Com Geraldo Alckmin no comando, a cada ano a PM mata mais. Entre janeiro e novembro de 2014, 816 pessoas foram mortas por policiais, índice maior do que em 2006 e 2012, anos de conflito aberto contra o PCC. Em 2015 um novo recorde pode ser batido. Isso sem considerar as vítimas de chacinas que já somam 75 só na região metropolitana de SP. Ainda assim, há aqueles que, como o Presidente do Tribunal de Justiça, afirmam que Polícia Militar de SP “é a melhor do mundo”.

 

 

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No Rio de Janeiro, as mortes decorrentes de ação policial aumentaram em 18%. Nos últimos 10 anos, mais de 50 crianças foram mortas por policiais nesse Estado, o que equivale 60% de todos os casos no País. No Brasil, 82 crianças e adolescentes de até 14 anos foram mortas por policiais; destas, 73% eram negras.

Essa realidade não se limita a São Paulo e Rio de Janeiro. Espirito Santo, Pará, Maranhão, Bahia e todos os estados do nordeste sofrem com altos índices de violência e mortes promovidas por aqueles que deveriam garantir a segurança e a vida.

Neste 2 de novembro, feriado de finados, respeitemos a dor de todas as cores, mas lembremos que há, neste grande cemitério chamado Brasil, a permanência da desigualdade também na distribuição das covas ou, nas palavras de João Cabral de Melo Neto, da cova medida, a parte que nos cabe nesse latifúndio.

E nossa angústia cantada…

 

Há uma morte branca que tem como causa as doenças, as quais, embora de diferentes tipos, não são mais que doenças, essas coisas que se opõem à saúde até um dia sobrepujá-la num fim inexorável: a morte que encerra a vida. A morte branca é uma “morte morrida”. Há uma morte negra que não tem causa em doenças; decorre de infortúnio. É uma morte insensata, que bule com as coisas da vida, como a gravidez e o parto. É uma morte insana, que aliena a existência em transtornos mentais. É uma morte de vítima, em agressões de doenças infecciosas ou de violência de causas externas. É uma morte que não é morte, é mal definida. A morte negra não é um fim de vida, é uma vida desfeita, é uma Átropos ensandecida que corta o fio da vida sem que Cloto o teça ou que Láquesis o meça. A morte negra é uma morte desgraçada. (BATISTA; ESCUDER; PEREIRA, 2004, p.635)

 

No Face da Carta Capital

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Mulheres

“Mulher nasce baranga francesa que não toma banho, não usa sutiã e não se depila”, diz Promotor de Justiça

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Do site da Smetal

Em Sorocaba-SP, Promotor de Justiça Jorge Marum posta insultos contra mulheres em rede social

Citação de Simone de Beauvoir no Enem provoca a ira de promotor de justiça do Ministério Público Jorge Marum, que desqualifica a luta pelos direitos da mulher

Uma das questões da prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), realizada no último domingo, 25, fez referência à pensadora francesa Simone Beauvoir, que tem várias publicações tanto no campo da filosofia como na literatura.

A frase citada, da obra “O Segundo Sexo”, de 1949, dizia:

“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino”.

A questão repercutiu nas redes sociais principalmente com ataques conservadores, de pessoas comuns e públicas como dos deputados Jair Bolsonaro (PP) e Marco Feliciano (PSC), que acusaram o Enem de estar fazendo doutrinação dos estudantes.

Em Sorocaba, o promotor de justiça Jorge Marum postou em sua página no Facebook, no mesmo dia da prova, 25, às 17h19, a seguinte declaração:

“Exame Nacional-Socialista da Doutrinação Sub-Marxista. Aprendam jovens: mulher não nasce mulher, nasce uma baranga francesa que não toma banho, não usa sutiã e não se depila. Só depois é pervertida pelo capitalismo opressor e se torna mulher que toma banho, usa sutiã e se depila”.

Para Laryssa Sampaio, da coordenação nacional do Levante Popular da Juventude, “o Enem é um dos mecanismos mais avançados da educação e neste ano, trouxe pensadores progressistas que questionam o atual modelo econômico e social. Para nós, do movimento popular isso representa um avanço significativo porque gera bons questionamentos. O ruim é um promotor de justiça que opera a lei, que precisa legislar independente de raça e de gênero se posicionar desse jeito, colocando a mulher como um sujeito inferior na sociedade. Essa declaração mostra que precisamos mudar a forma de fazer política e também o pensamento do judiciário. Por essa conduta, a interpretação que ele tem da lei é a de inferiorizar a mulher”.

A par da declaração do promotor a secretária das Mulheres da CUT Nacional, Juneia Batista, afirma que é preciso se pensar em uma estratégia para denunciar esse tipo de atentado aos direitos humanos e que comportamentos como esse são frutos de uma onda conservadora de opressão.

Representante da Marcha Mundial das Mulheres (MMM) Thais Lapa, ressalta a importância da diversidade de referências de pensamentos na formação do estudante. “Conhecer obras de pensadores e pensadoras que envolvam questões de economia, política ou história mundial é fundamental para qualquer formação. Por isso, vejo que o depoimento do promotor vai em sentido oposto à perspectiva de educação. É fruto de ignorância ao desqualificar uma pensadora como Simone Beauvoir”.

Ela destaca ainda a preocupação da função pública exercida pelo promotor que tem um papel importante a cumprir na sociedade, mas propaga valores que reforçam opressões.

A 24ª subseção da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB Sorocaba) também se manifestou contra a declaração do promotor Marum, que também é professor de Direito da Faculdade de Direito (FADI). Por meio da Comissão da Mulher Advogada a OAB manifesta “repúdio ao posicionamento público jocoso emanado do DD Promotor de Justiça e Professor Dr. Jorge Alberto de Oliveira Marum em postagem na rede social, desrespeitando a dignidade das mulheres a pretexto de criticar questão veiculada no ENEM”. “Posicionamento este que fere, silencia e deslegitima uma luta, que por séculos vem reivindicando e conquistando os direitos humanos das mulheres e meninas, ponto acordado não só na Constituição Federal, mas por tratados internacionais”.

Em conversa com o jornalista Deda Benette, da Rádio Ipanema, o promotor se defendeu justificando que seu depoimento foi uma ironia.

 

 

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Cotas Raciais Destaque

Negros nas universidades: além de cotas, precisamos também de escolta?

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Por Joice Berth – do Justificando, via Geledes

 

Na última semana, um coletivo de alunos negros e que vem realizando diversas intervenções pró cotas raciais na maior universidade da América Latina, entrou em cena novamente. Dessa vez, para responder agressões racistas feitas por alunos em pichações nos banheiros da universidade, campus da USP de Ribeirão Preto.

De cunho bastante agressivo e sempre em tom de ameaças, as pichações são recorrentes e generalizadas em todas as universidades onde há cotistas e se observa um expressivo aumento de alunos negros e/ou não brancos.

Imagine você, caro leitor, enfrentando uma situação de hostilidade e rejeição escancarada, cotidianamente, em um ambiente que deixa explícito de todas as maneiras que sua presença não é bem-vinda. O mundo racista sempre fez questão de deixar claro que deseja às pessoas negras o pior lugar que a sociedade pode ter.

Assim também é quando sincretizamos a questão com as classes sociais. Mas ainda assim, pessoas negras continuam em desvantagem, pois representamos o maior contingente entre as classes C e D. Mas há quem afirme que o problema do Brasil é de classe, ignorando completamente que a raça informa classe social e vice-versa.

Imagine você tendo o fardo de protagonizar uma guinada histórica nas estatísticas, que sempre denunciaram a situação abismal de qualidade de vida entre pessoas brancas e não brancas. Imagine ter a pressão de reverter o passado histórico de exclusão e falta de oportunidades através desse ingresso na universidade. É conviver com as cobranças da própria população negra, porque afinal os poucos serão exemplos de que é possível reescrever a história dos negros através dessa possibilidade que as cotas abrem.

Se o Brasil não fosse um país racista, como tenta de todas as maneiras dizer para si mesmo, cotas não seriam motivo de discussão. Seria fato consumado. Mas a segunda nação mais negra do mundo deve mesmo sentir vergonha da maneira covarde com que trata os seus filhos.

Não é possível que as pessoas brancas acreditem que não tem nada a ver com todo o processo escravagista que se deu por aqui. Pois quando se fala em imigrantes, eles facilmente reconhecem a ancestralidade da origem de seus bens materiais e tratam de esquecer de toda a política de favorecimento pela qual esses estrangeiros formam submetidos.

Não é possível que pensam que com os escravizados foi da mesma maneira. Isso seria mais que alienação, seria debilidade intelectual. É apenas oportuno que não se lembrem, pois de outro modo não poderiam refutar o “vocês nos devem até a alma”, verdade citada no discurso das alunas e que teria chocado a todos os inocentes(?) que ali estavam. Todos reclamam, se sentem pessoalmente ofendidos por essa afirmação e instantaneamente chamam pessoas negras de “vitimista”. Inversão de valores? Não, cinismo mesmo. Pessoas negras não são vitimistas; pessoas brancas é que são, porque choram por medo de perder privilégios mais que consolidados. Tanto que não querem nem ao menos, repartir.

 

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A questão é, esse mérito próprio que gostam de alardear com pompa, circunstância e cinismo, já que existe, não seria motivo o bastante para deixar nossos alunos uspianos sossegados e garantir uma atitude generosa por parte deles, pois afinal, eles supostamente têm o dom de manterem seus privilégios sozinhos. Nesse caso, fica no ar a dúvida: por que tanta oposição para garantir um direito básico às populações “naturalmente” inferiores (segundo informações forjadas pela população branca)? Ou será que esse conceito da naturalidade de nossa inferioridade é usado apenas quando convém a branquitude elitizada? No fundo, eles temeriam que descobríssemos uma capacidade sistematicamente negligenciada em benefício da supremacia branca?

 

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Porque as medidas afirmativas despertam a fúria das pessoas brancas? Porque e elite teme a igualdade sócio racial? Mais que temerária, porque ela sempre é hábil em sonegar os caminhos que levam a ela, como trabalho e estudo?

Ou será que a presença de pessoas historicamente marginalizadas e segregadas representa uma ameaça que, devido aos prováveis resultados benéficos, poderia afirmar na prática a ineficiência do conceito de meritocracia, uma vez que prova que ensinar a pescar é fundamental, desde que se tenha a vara, a isca, o anzol e o pesqueiro (de preferência gratuito)?

 A revolta das pessoas que já têm seu lugar ao sol garantido as custas da mobilização trabalhista de outros é tanta, que manifestações diretas e pessoais são proferidas via redes sociais, usando argumentos tóxicos, que tentam a qualquer custo desqualificar moralmente as pessoas negras que se levantam e pleiteiam os direitos que estes alunos que ali estão já possuem.

As alunas do Coletivo Negro da USP foram duramente atacadas e expostas em uma determinada página que se intitula “liberal” após um vídeo contendo uma encenação de repúdio contra as fotos das pichações que se espalharam na internet.

Segundo a lógica vazia dessa elite vergonhosa e nem um pouco envergonhada, o fato da estudante ter tido acesso a um colégio particular de alto padrão a exclui da incumbência de lutar por direitos iguais para outros negros que não tiveram a mesma sorte que ela e que, por isso, não conseguem ter acesso à universidade. Eles defendem essa ideia porque vivem de acordo com essa ideologia, que exclui deles a responsabilidade social de engrossar o coro e fazer pressão para que as oportunidades sejam igualitárias. Eles lutam de todas as formas para manter seus privilégios.

Ora, se cotas são, segundo eles, uma medida que agrava os atritos sociais e “aumentam” o racismo, porque essa elite branca e bem-nascida (maioria esmagadora nesses espaços) não se vale dos mesmos critérios altruístas quando se fala em cursinhos pré-vestibulares, que quase todos eles frequentam antes de garantirem suas vagas em UNIVERSIDADES PÚBLICAS? Essa modalidade de cota não seria também um agravante das desigualdades sociais, visto que quem paga um suporte desse nível aos estudos é, a priori, quem tem dinheiro para permanecer nas universidades particulares. Já não basta cursarem as melhores escolas particulares durante toda a vida, e ainda precisam dessa “medida afirmativa” que custa caro, tanto quanto a mensalidade do suposto colégio da estudante negra?

Alguns vão levantar a existência de cursinhos gratuitos direcionados aos alunos de baixa renda. Mas esses não têm a mesma aderência e nem o mesmo suporte que aqueles mais caros e famosos. E, ainda por cima, são frequentados em sua maioria por estudantes que intercalam os estudos com a jornada de 40 horas semanais de trabalho para custear as outras necessidades que a vida solicita. Já no caso dos nossos heróis meritocráticos, são invariavelmente garantidas pelos pais, permitindo uma dedicação integral aos estudos.

Temos que ressaltar que toda essa avalanche de ofensas que intimidam alunos cotistas nas universidades públicas e particulares vem de um país que cria hashtags diversificadas (e porque não dizer, totalmente caricatas) de apoio às vítimas de racismo. Esse povo brasileiro que se diz indignado quando presencia atitudes racistas de outrem, mas que não se envergonha dos 15 mil compartilhamentos seguidos de cerca 1000 comentários, altamente ofensivos, que facilmente poderiam ser enquadrados nos crimes de racismo e injúria racial. 

A elite que se prepara para representar profissionalmente os setores mais altos da sociedade não se dá nem ao trabalho de pelo menos estudar sobre o assunto em questão para refutar de maneira séria ou pelo menos respeitável. Pergunte a um deles o nome de algum intelectual e/ou obra escrita que aborda o tema em questão (racismo) e eles, quando muito, irão citar alguma bobagem postada em rede social, falsamente atribuída a Mandela ou Martin Luther King, os preferidos por conta de uma suposta passividade frente ao racismo.

Eles reclamam do conteúdo agressivo do discurso da estudante, que usa palavras de baixo calão e termina o discurso/encenação pleiteando a dívida histórica que a branquitude mantém com as pessoas negras por toda a América. Mas mantém um silêncio sorridente diante das pichações ameaçadoras, pois, afinal, elas expressam o pensamento da maioria. Essa elite branca e bem nascida também não se sente sensibilizada com as manifestações de pedofilia, racismo, homofobia e afins, que estão livremente na internet. Não, isso não incomoda ninguém.

Eles apelam para a moralidade, na mais hilária demonstração de hipocrisia, mas se calam frente aos episódios de estupro nos diversos campus da universidade, punidos com reles suspensão dos criminosos. E esses mesmos baluartes da moralidade que se chocaram com os palavrões proferidos pelas alunas provavelmente presenciam coisas piores nas conhecidas e lendárias festas organizadas por eles, que não são nem de longe pautadas no recato e muito menos no decoro, conforme as regras sociais que eles invocam com essas reclamações típicas de quem não tem argumento devidamente fundamentado, frente ao discurso/encenação feito.

Diante deste triste episódio, podemos esperar que o futuro da nação, que está sendo cunhado nos bancos dessas universidades públicas e particulares será de uma hipocrisia e ineficiência proporcional a quantidade de pessoas brancas, covardes e preconceituosas que a frequentam.

 

* Joice Berth é Arquiteta e Urbanista pela Universidade Nove de Julho e Pós graduada em Direito Urbanístico pela PUC-MG. Feminista Interseccional Negra e integrante do Coletivo Imprensa Feminista.

 

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O Negro Dentro e Fora dos Contextos Cênicos

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Representação e Representatividade – As Artes Dramáticas na Sociedade: O Negro Dentro e Fora dos Contextos Cênicos

Grupo de estudantes da Unicamp promove serie de eventos que tratarão da representação e representatividade negra nas artes dramáticas e suas reverberações para a sociedade. No contexto atual em que a dinâmica sociocultural se dá através da imagem, como a representação e a representatividade do(a) negro(a) influencia o olhar da sociedade e como o olhar da sociedade em relação ao ser negro influência as artes cênicas.

Em Março de 2003, foi aprovada a Lei Federal nº 10.639/03, que torna obrigatório o ensino de história e cultura africanas e afro-brasileiras nas escolas. Sabe-se que a educação é um instrumento fundamental para a promoção das demandas da população negra no combate às desigualdades sócio raciais. Acreditando-se na importância da valorização do negro na sociedade; sabendo que a escola/universidade, as artes e a mídia têm função fundamental de formação na sociedade contemporânea, e que acabe a elas – também – o papel de gerar a representação e a representatividade do negro, a fim de diminuir a segregação racial, buscamos, por meio do evento: Representação e Representatividade – As Artes Dramáticas na Sociedade: O Negro Dentro e Fora dos Contextos Cênicos, criar um espaço para pensar sobre as questões da negritude e do(a) negro(a) na sociedade brasileira. Buscamos promover diálogos sobre o tema, a fim de fomentar o compartilhamento de olhares e promover ações relacionadas à representação e à representatividade da negritude nas artes dramática. Esse diálogo dar-se-á via palestras, mesas de debate, exibição de filmes e uma entrevista pública com pesquisadores, artistas e professores renomados da área.

Programação:

13/10/2015 – às 19h00

“O negro no cinema, na telenovela e na música – A compreensão da questão da afro descendência na dinâmica sociocultural da imagem”.

Prof. Dr. Celso Prudente; Prof. Dr.SallomaSallomão;

Ms. Roberta Estrela D’Alva:

Mediador :Prof.º Dr.º Cassiano Sidow

Local:Sala AC03 – Departamento de Artes Cênicas/ PaviArtes .

14/10/2015 às 19h00

“O negro e a negritude no contexto acadêmico-teatral: Onde está o(a) negro(a)  e as questões da negritude nas pesquisas e nas aulas de teatro no Brasil? Qual é o espaço do negro(a) nos cursos de Artes Cênicas?”

Prof. Dr. José Fernando Peixoto de Azevedo;

Prof. Dr. Mário de Santana; Prof. Mario Augusto.

Mediadora: Profa. Dra. Larissa de Oliveira Neves Catalão

Local: Centro Cultural do IEL.

15/10/2015 às 19h00

Entrevista pública com o ator Sidney Santiago, integrante da Cia. Os Crepos: Artista intérprete formado pela Escola de Artes Dramáticas (EAD-ECA/USP). Membro co-fundador da Cia. Os Crepos.Atua em teatro, cinema e tv. É estudante de Sociologia e Política pela FESP-SP. Idealizador da revista Legitima Defesa (sobre Teatro Negro).

Entrevistadora Profa. Dra. Grácia Navarro

Local:Sala da Pós-Graduação – Instituto de Artes (IA)


16/10/2015, à
s 19h00

Representação e Representatividade: O Negro dentro e fora dos contextos cênicos – A representação imagética expondo como é visto e como é imposta o ser negro na sociedade”

Prof. Douglas Belchior.
Local:
Sala Pós-Graduação – Instituto de Artes (IA)

20/10/2015: Exibição de filmes

18h30 às 20h45 – A Hora do Show, deSkipeLee

20h45 às 21h00 – Coffe-break

21h00 às 21h30: Diários de Exú, de Gilberto Sobrinho e GráciaNavarro

21h30 às 22h00: Conversa com os Prof.º Dr.º  Noel Santos Carvalho

Local: Sala Pós-Graduação – Instituto de Artes (IA)

Organização:

Idealização: Ana Vitória Prudente

Organizadoras: Ana Vitória Prudente, Helena Lucas, Larissa de Oliveira Neves.

Professora Responsável: Larissa de Oliveira Neves

 

 

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Cultura Destaque

O Topo da Montanha e a afirmação da humanidade negra

O Topo da Montanha

Notas a partir do lugar de público negro

Por Ana Flávia Magalhães Pinto*

Longe de ser uma crítica de arte, escrevo a partir tão somente do lugar de público. Mas não apenas público, substantivo carente de materialidade. Falo como integrante do público negro, um conjunto de espectadores/as comumente subestimado ou até muito sonhado, porém tido como distanciado das salas de teatro, cinema, galerias, etc., por razões que dialogam com as violentas e sofisticadas práticas de exclusão sociorracial.

Faço isso porque acredito sinceramente que, afora autoras/es, obras e críticos/as especializados/as, o público é também fundamental para que a arte exista. E nós, público negro, não só existimos, mas também, tal como aconteceu na noite do último sábado (10), podemos nos fazer presentes em quantidade e qualidade!

Estou me referindo à experiência de assistir à peça O Topo da Montanha, uma adaptação do texto de Katori Hall, dirigida por Lázaro Ramos, produzida e protagonizada por ele eTaís Araújo, que estreou no Teatro Faap, São Paulo, em 9 de outubro e fica em cartaz até 20 de dezembro.

Eu e um casal de amigos nos dirigimos a essa casa localizada no elegante bairro de Higienópolis bem achando que seríamos a famigerada limitada cota negra entre uma maioria de espectadores brancos. Diferentemente do previsto e como chegamos cedo, pudemos nos deliciar ao ver a entrada de seguidos pequenos grupos de amigos, famílias, casais e homens e mulheres solitárias de pele escura, cabelo crespo e com umas caras de contentamento indisfarçável! As pessoas estavam gostando de se ver ocupando aquele lugar!

De todo modo, é preciso dizer que essa não foi a primeira vez que vi isso acontecer. Na verdade, observo esse fenômeno se repetir cada vez com mais frequência e intensidade nos últimos anos. Considero que eu mesma sou prova disso. Ouso até especular se a incorporação das cotas raciais ao debate público já não está servindo para catalisar a expansão dos limites da participação negra em outros espaços… É, pode ser, mas isso é assunto para outro texto.

Por ora, é melhor continuar no Topo da Montanha. Aliás, a escolha desse texto é, por si, um grande presente, sobretudo para nós, público negro. Em tempos de marchas em defesa da vida da população negra no Brasil ‑, o que inclui aproximações e conflitos de natureza variada ‑, recuperar a trajetória de Martin Luther King a partir do registro de múltiplas dimensões da vida humana serve como uma boa oportunidade para se refletir como temos encaminhado nossas práticas de resistência ao que nos oprime. O reconhecimento da confluência entre medo e esperança, egoísmo e altruísmo, vaidade e humildade num sujeito emblemático como King é, de fato, uma das várias qualidades da escrita de Katori Hall.

Natural de Memphis, Tennessee, ela é uma jovem escritora negra, de 34 anos, formada em instituições de renome como Columbia e Harvard, tendo sido a primeira mulher negra a receber o prêmio Laurence Olivier de melhor peça estreante, em março de 2010, por The Mountaintop, título original em inglês. Para além dos títulos acadêmicos e prêmios, vale mesmo a pena acompanhar a trajetória de Katori por sua capacidade criativa. Atualmente, ela está trabalhando em seu primeiro filme de curta metragem, Arkabutla, que fala sobre relações familiares e racismo.

Outras escolhas feitas para o espetáculo também nos convidam a reconhecer e destacar mais um punhado de talentos negros do teatro. A consultoria dramática e cênica é assinada por Ângelo Flávio. Ator, dramaturgo e diretor, ele é um dos expoentes do teatro negro brasileiro, fundador da Cia Teatral Abdias Nascimento (CAN) na UFBA, em 2002, e responsável, entre outras, pela montagem da peça A casa dos espectros (2006), a partir da obra Funnyhouse of a Negro (1964), de Adrienne Kennedy, outra escritora afro-estadunidense.

O figurino é de Tereza Nabuco, artista que há anos atua em produções da Rede Globo.

O desenho de luz, recurso fundamental para a garantia da dramaticidade do espetáculo, está sob os cuidados do experiente iluminador cênico Valmyr Ferreira. Afora diversos trabalhos no teatro, Ferreira assinou a iluminação da exposição “Abdias Nascimentos 90 anos ‑ Memória Viva”, no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, 2004.Por sua vez, o cantor, ator, pianista, compositor e arranjador Wladimir Pinheiro assina a Trilha Original. Até bem recentemente, Wladimir esteve em cartaz com a peça Ataulfo Alves – O Bom Crioulo, dirigida por Luiz Antonio Pilar, no Teatro Dulcina do Rio. Bem que essa também poderia circular por outras cidades.

Somado a tudo isso, a interpretação da dupla Taís Araújo e Lázaro Ramos é capaz de emocionar ainda mais. Além de sustentarem muito bem o dinamismo das falas e do encaminhamento dado ao toque de inusitado fantástico da narrativa (tem que ir para entender!), os atores são capazes de garantir muito sentido até para os momentos de silêncio.

A performance de Taís, em especial, está digna de todos os aplausos de pé ao final. Vendo a maturidade de sua interpretação, foi impossível não lembrar do discurso de Viola Davis ao receber o Emmy 2015 de Melhor Atriz: “A única coisa que separa mulheres de cor de qualquer outra pessoa é oportunidade. Você não pode vencer o Emmy por papeis que não existem”. E mais uma vez livre de sabotagens, Taís Araújo se mostra uma gigante no palco. A atuação de Lázaro Ramos não deixa por menos. O brinde extra é perceber que o homem está jogando tão bem em tantas áreas!

Apagam-se as luzes, vem aquela sensação de quero mais! E, assim, ir ao teatro firma-se como algo que faz muito sentido para a vida, mesmo que isso implique reorganizar as finanças da semana ou do mês! É isso, o teatro também é nosso lugar, público negro!

 

 

* Ana Flávia é Doutora e mestre em História, jornalista, ativista do Movimento Negro, autora do livro “Imprensa negra no Brasil do século XIX” (Selo Negro, 2010)

 

 


 

 

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A desorganização da educação em São Paulo

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Por Vanessa Gravino

Nos últimos dias fervilharam informações, reportagens, questionamentos e manifestações sobre a proposta de “reorganização das escolas” realizada pela Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (SEE-SP).

Segundo os representantes do governo tucano a ideia é que cada escola estadual concentre apenas um “ciclo” do processo educacional: Ensino Fundamental I (1º ao 5º ano), (ou) Ensino Fundamental II (6º ao 9º ano) ou Ensino Médio (1º ao 3º ano).

Esta medida, que parece positiva ao primeiro olhar, carrega muitos problemas. De cara, a ação movimentará cerca de 1 milhão de crianças e jovens que deverão pedir sua “transferência forçada” para uma nova unidade escolar, muitas vezes longe de casa.

Além de retirar essas crianças e jovens de sua comunidade, a ação do PSDB não considera o fato de que milhares de crianças se locomovem sozinhas para as escolas, já que a maioria dos pais, trabalhadores assalariados, trabalham o dia todo. Transferir as crianças para longe de suas casas é um completo desrespeito às condições já precárias de vida da maior parte da população de São Paulo.

O governo Alckmin/PSDB, que nesses mais de 20 anos de poder já deu mostras de sua intenção em sucatear cada vez mais a educação pública do Estado, também fechará escolas e removerá milhares de professoras e professores.

Profissionais da educação, comunidades escolares e professores, desvalorizados e descredibilizados, sequer foram ouvidos em relação às mudanças educacionais propostas. Este formato impositivo, que ignora a realidade e a situação de vulnerabilidade da maioria das comunidades escolares do Estado demonstra o quão descompromissado é este governo com a qualidade da Educação Pública.

O principal motivo dessa iniciativa por parte do governo Alckmin é o ajuste fiscal, que assim como no âmbito federal, diminuiu recursos para áreas fundamentais, inclusive para a Educação. O orçamento 2015 destinou 13, 89% do total para a pasta da educação, contra 14,29% em 2014.

 

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A possibilidade de municipalização do Ensino Fundamental, o fechamento de escolas, a “demissão” de muitas professoras e professores, a superlotação das salas de aula e, mais uma vez, o acirramento do sucateamento da escola pública, vêm mascarados em mais uma política criminosa do governo do PSDB.

Muitas movimentações de resistência de comunidades escolares que se colocam contra o fechamento das escolas, contra as mudanças apresentadas pela SEE, ocorreram nos últimos dias por todo estado.

A APEOESP, sindicato de professoras e professores do estado de SP, está se mobilizando junto dessas comunidades para barrar as ações apresentadas pelo governo. Dia 20 de outubro, 15h, haverá um grande ato na Praça da República, no centro. É muito importante a participação de todas e todos para o combate a desorganização educacional apresentada pelo governo do PSDB em São Paulo.

* Vanessa Gravino é professora da rede estadual e ligada à Apeoesp de Cotia