Categorias
Destaque Violência Policial

PMs são presos acusados de matar 5 jovens negros no Rio

Foto de rede social, tirada horas antes do fuzilamento (GuadalupeNews)
Foto de rede social, tirada horas antes do fuzilamento (GuadalupeNews)

Por Douglas Belchior, com informações de Guadalupe News e Extra

 

Quatro policiais militares do Rio de Janeiro foram presos acusados de terem assassinado cinco jovens negros na noite do último sábado 28. O crime foi cometido na comunidade da Lagartixa, no Complexo da Pedreira, em Costa Barros, na zona norte da cidade. Segundo relatos de moradores, os garotos teriam ido fazer um lanche após voltar do bairro vizinho, quando foram surpreendidos por tiros disparados por policiais militares do 41º BPM (Irajá) na Estrada João Paulo. O caso foi registrado na 39ª DP, da Pavuna.

 

https://www.youtube.com/watch?v=J1_yl7NO0wA

O Palio branco era dirigido por Wilton Esteves Domingos Júnior, de 20 anos. Ele estava acompanhado por Wesley Castro Rodrigues, de 25 anos, Cleiton Corrêa de Souza, de 18 anos, Carlos Eduardo da Silva de Souza, de 16 anos, e Roberto de Souza Penha, de 16 anos. Todos eram negros. Todos foram mortos.

Segundo o site GuadalupeNews, policiais militares usaram luvas para pegar a chave do veículo e tentar abrir o porta-mala. Como não conseguiram, colocaram uma arma de brinquedo sob o pneu esquerdo dianteiro com intensão de forjar a cena do crime.

 

marca_dagua

 

Os policiais estão presos. Mas e a responsabilidade do Secretário de Segurança Pública? E do governador?

Quatro policiais do 41º BPM foram presos em flagrante. São eles Thiago Resende Viana Barbosa, Marcio Darcy Alves dos Santos e Antonio Carlos Gonçalves Filho, presos por homicídio doloso e fraude processual, e Fabio Pizza Oliveira da Silva, autuado apenas por fraude processual. As informações são 39ª DP.

Sim, maus policiais devem ser presos e julgados conforme manda a lei. Mas é sempre bom lembrar que há outros responsáveis por esse tipo de ação policial, comuns no Rio e por todo país. Neste caso têm alguma responsabilidade o comandante do batalhão, o secretário de segurança pública e o governador do Estado.

Exagero dizer que se trata de ação comum? A ocorrência chegou à delegacia como “auto de resistência”. A novidade, ou procedimento incomum, está no fato de a Polícia Civil entender de pronto que houve fraude processual. Via de regra, há sempre a tentativa de livrar a corporação das acusações.

 

carrometralhado_1
Guadalupe News

Jovens, negros, trabalhadores, comemoravam o primeiro salário. Agora estão mortos.

Segundo familiares, em relato feito ao Jornal Extra, os garotos foram comemorar o primeiro salário de Roberto como jovem aprendiz no Atacadão da avenida Brasil. Tinham programado também ir à praia no domingo.

O grupo de jovens estava em um carro com documentação em dia, motorista habilitado e desarmados. O que havia ali que pudesse justificar a ação dos policiais? Serem todos negros?

Para além disso, resta a perplexidade ante a inacreditável capacidade da sociedade brasileira em conviver com o genocídio negro. Perguntaria eu, se pudesse, à tranquilidade coletiva: E se fossem brancos de padrão globo-zona-sul os corpos fuzilados e sem vida?

##

 

 


 

 

Publicidade colaborativa

Presenteie camisetas da Uneafro-Brasil

A Uneafro-Brasil está com novos modelos de camisetas engajadas e temáticas de valorização da cultura negra brasileira. Conheça e faça seu pedido. Com isso, além de adquirir um produto de qualidade, beleza e com uma mensagem de consciência negra, de quebra contribui para o auto-financiamento do trabalho sócio-educacional promovido pela Uneafro nas periferias de São Paulo e do Brasil.

Valor único para todas as peças, R$ 30,00 + frete.
Tamanhos (P, M, G ou GG), medidas e quantidades devem ser informadas no campo de descrição do produto.

Conheça esses e outros modelos e faça seu pedido AQUI

 

1185010_161445260720070_1710572108_n943354_161445417386721_1327929719_n 541394_161445327386730_92739506_n  150696_161445367386726_1458581424_n1230010_161445250720071_94091394_n8312_161445217386741_536225636_n1229958_161445210720075_2009434214_n      994828_161445347386728_151713548_n

 

Categorias
Destaque Mulheres

Exposição coloca mulheres da periferia para o centro do debate

12295361_448232602043591_4235207992333208510_n
Abertura da exposição

Texto coletivo*, do Nós, Mulheres da Periferia / Imagem: Divulgação

Confirme aqui sua presença no evento no Facebook

A mulher da periferia aparece na televisão, no jornal, quando acontece alguma fatalidade referente a ela. Só nas páginas policiais”

Assista o vídeo com Dona Carolina

A frase acima não vem de uma pesquisa de opinião, tampouco de um estudo acadêmico. Ela faz parte do olhar sensível de Rosana Alves de Castro , mulher negra e moradora do Jardim Romano, zona leste de São Paulo, e uma das mais de 100 mulheres envolvidas no projeto “Desconstruindo Estereótipos: eu, mulher da periferia na mídia”, desenvolvido pelo coletivo Nós, mulheres da periferia, de junho a outubro de 2015.

Como resultado desses meses de trabalho, no último sábado (21/11) aconteceu a abertura da exposição QUEM SOMOS [POR NÓS], no Centro Cultural da Juventude, na Vila Nova Cachoeirinha, que fica em cartaz até dia 17 de dezembro.

 

renata2
Renata Ribeiro, 17 anos, moradora do bairro de Perus (região noroeste de São Paulo), uma das entrevistadas e produtoras da Exposição “quem somos [por nós]”.

Assista o vídeo com Renata Ribeiro

A exposição é um convite para adentrar ao mundo das mulheres dos bairros periféricos a partir de suas próprias perspectivas. Com fotografias, autorretratos e registro audiovisual daquelas que fizeram parte do processo. O objetivo é fortalecer a representatividade e o protagonismo feminino, contemplando a intersecção entre classe, raça e gênero, já que as mulheres negras foram maioria nas oficinas.

De Perus (zona norte) ao Campo Limpo (zona sul); do Capão Redondo (zona sul) ao Jardim Romano (zona leste); de Guaianazes (zona leste) à Jova Rural (zona norte), foram muitas as narrativas, mostrando como a diversidade da mulher que mora nas bordas da cidade extrapola as paredes cristalizadas pela chamada “grande mídia”.

A mulher da periferia na mídia

Ouça o som “Mulheres negras”, de Yzalú

Quando falamos de periferia na mídia, é importante compreender que este termo traz, em si, relações de conflito entre os grupos sociais. Historicamente, São Paulo se constituiu destinando aos mais pobres os espaços mais distantes do centro da cidade. Essa distância, no entanto, não é apenas geográfica, ela é também simbólica, o que reforça a relação entre dominantes e dominados no espaço social e, assim, no midiático.

 

manoelacasadascrioulas
Manoela Gonçalves, idealizadora da Casa das Crioulas (Perus), uma das entrevistadas e produtoras da Exposição “quem somos [por nós]”

Assista o Vídeo com Manoela Gonçalves

Se a mulher, geralmente, é tratada pela mídia de forma limitada, seja nas novelas, comerciais ou imprensa, este problema se multiplica quando se trata da mulher que vive nas bordas da cidade. Uma pesquisa realizada pela Énois | Inteligência Jovem, em parceria com os institutos Vladimir Herzog e Patrícia Galvão, com mais de 2.300 mulheres de 14 a 24 anos, das classes C, D e E, divulgada em junho deste ano, mostra que 86% das mulheres entrevistadas afirmaram não se sentirem representadas na mídia.

“Quando acontece alguma coisa com algumas mulheres importantes fica aquela mídia toda. Se é uma pobre coitada, ali mesmo acabou, ficou por ali mesmo. Devia ser vista com igualdade.  A rica, a pobre, a preta, a branca, é tudo mulher”, aponta Rosana Alves Castro, participante das oficinas na zona leste.

A mídia, sendo criada, estruturada e administrada pelos grupos dominantes, colabora, intencionalmente ou não, para a construção de imagens e estereótipos relacionados à periferia. Na tentativa de comunicar para as “massas” uma mensagem padronizada, a mídia cria representações, tipos, perfis do que é considerado como comum e recorrente no que se refere aos bairros periféricos.

 

12274484_447449585455226_5500071235582545264_n

Exemplo disso é o que narra uma das participantes das oficinas, Adriana Cristina de Araujo Fernandes Costa, da zona sul, quando uma TV procurou a ONG que faz parte para uma entrevista. “Uma emissora esteve aqui, mas queriam sensacionalismo. Eles não queriam mostrar o trabalho que a gente faz paro o bem. Eles não mostraram nossa oficina, não mostraram fazendo nossas coisinhas, nossas aulas, não mostrou nosso trabalho. Só mostrou a violência doméstica. Acho que teria que mostrar os dois lados”.

Além da mídia estar nas mãos dos grupos dominantes, ela também é produzida majoritariamente por homens e poucas são as fontes femininas que são ouvidas. Os comerciais de TV (principal e mais disponível veículo entre o público feminino residente na periferia) trazem um padrão de beleza que não condiz com a realidade brasileira, formada a partir da multiplicidade de origens e uma forte descendência africana e indígena.

 

Roda de conversa sobre mulher da periferia e mídia na abertura da exposição QUEM SOMOS [POR NOS]

Em relação à mulher negra, especificamente, a mídia, com base nas condições que são ainda resquícios do período escravocrata no Brasil, reproduz situações, tipos, personagens que a colocam em uma das últimas posições do estrato social, como descreve Manoela Gonçalves, fundadora da Casa das Crioulas, em Perus, um dos espaços onde as oficinas aconteceram.

 “Ser mulher da periferia, uma mulher negra, é sempre estar armada, com uma voz extremamente firme, se impondo para ser respeitada. Eu quero ter uma voz mais doce calma, mas o homem não escuta. A sociedade não nos escuta com uma voz calma. A sociedade escuta nosso grito e depois  nos chama de louca, barraqueira. Então, ser mulher negra pra mim é isso, a gente tem que estar sempre lá no afrontamento”.

Novelas: a vida que não é nossa

A maioria das novelas trazem como núcleo central a vida da classe média e classe média alta, divulgando um modelo de vida que em nada tem a ver com aquele vivenciado nas periferias do país, e, de forma específica, nas da cidade de São Paulo.

12227708_447191752147676_9004773896369275674_n

Para Manoela, essas narrativas romantizam as relações das mulheres da periferia. “O choro, o drama, as relações. Na novela não se ensina como ser natural. É muito romance para pouca vida real”, aponta.

E mesmo quando a dramaturgia televisiva traz a favela ou as bordas da cidade para o centro do debate, isso aparece sempre de forma caricatural. A figura do traficante, do sequestrador e da prostituta vendem um retrato infiel e exclusivo da periferia e, principalmente, da gama de mulheres que a compõe.

Para Renata Ribeiro, também de Perus, muito do que ela assiste nas novelas “são mentiras”. “Se eu fosse construir uma mulher da periferia para a novela, seria minha mãe, ela veio para cá, comprou a própria casa. Virou professora, passou na faculdade. Vai comprar suas coisas, seu carro, viaja quando quer. Uma mulher batalhadora. Isso, para mim, seria uma mulher da periferia”, exemplifica.

12247167_447483198785198_8408463936444779134_n

No noticiário, a periferia aparece, na maioria das vezes, como o espaço da violência e medo. Os casos de abuso sexual e violência doméstica, porém, aparecem com maior frequência, mas apenas nos programas sensacionalistas.

Nos de entretenimento, principalmente aqueles veiculados no período da tarde, o espaço destinado à mulher é sempre supérfluo ou, mais uma vez, sensacionalista. A mãe que procura o filho perdido; a moça que quer emagrecer, a culinária ou as fofocas sobre a novela.

Na mídia impressa, o corpo magro e o cabelo liso tomam as capas das revistas. A moda serve apenas a um padrão de mulher. As receitas de emagrecimento ou de vida saudável dão o tom às narrativas desses periódicos. As mais populares, trazem informações sobre o signo e simpatias ao amor.

Nós queremos aumentar as nossas vozes

Os direitos de nossas mulheres são todos os dias violados, suas dores não são respeitadas, seja quando são parte do ciclo da violência doméstica, seja quando morrem seus filhos, os maridos. Esses programas abusam da fragilidade social e econômica de nossas mulheres para escancarar sua dor como se escancara uma mercadoria.

Assim, a exposição QUEM SOMOS [POR NÓS] vem em um caminho contrário. Nas fotos e quadros, criados por elas próprias por meio dos debates realizados durante as oficinas, é possível notar uma variedade de elementos, que vão desde a rua onde vivem até as plantas de seu quintal. Nas fotos, uma fotografou a outra, evidenciando aquilo que gostariam que houvesse nas revistas, desconstruindo a sexualização sempre presente de seus corpos. São detalhes, são as mãos que simbolizam o trabalho diário, os cabelos que as deixam vaidosas, o batom que não esquecem de passar, os olhos como signo de coragem, o sorriso que, mesmo em meio a tantas dificuldades, ainda floreia em seus rostos.

É dizer que não queremos mais as lentes sempre embaçadas do outro, que, lá de cima, imagina tudo que vê, mas tem medo de molhar os pés no chão da periferia. A grande mídia não sabe um terço sobre nós. E a exposição vai a fundo nas vivências dessas mulheres, humanizando o discurso e mostrando como somos diversas.

Serviço

Exposição QUEM SOMOS [POR NÓS]
Visitação:
 de 21/11 a 17/12, de terça a sábado, das 10h às 20h; domingos e feriados, das 10h às 18h.
Local: CCJ – Centro Cultural da Juventude
Endereço: Avenida Deputado Emílio Carlos, 3641 – Vila Nova Cachoeirinha, São Paulo – SP, 02720-20
Informações: [email protected]

Sobre o coletivo

O coletivo Nós, mulheres da periferia é formado por oito jornalistas e uma designer, todas moradoras de bairros da periferia do município de São Paulo e por meio de um site e redes sociais produz e divulga conteúdo sobre e para as mulheres da periferia de São Paulo. O coletivo propõe reduzir o espaço vazio existente na imprensa e a falta de representatividade, buscando mais protagonismo e visibilidade. A proposta do coletivo é construir um espaço com informações que extrapolem a questão de gênero a atinja o campo social e étnico.

Saiba mais em http://nosmulheresdaperiferia.com.br
Facebook: https://www.facebook.com/nosmulheresdaperiferia

 

*TEXTO COLETIVO: Jéssica Moreira, 24, é de Perus, zona noroeste; Semayat Oliveira, 27, é da Cidade Ademar, zona sul; Cíntia Gomes, 32, é do Jardim Ângela, zona sul; Bianca Pedrina, 31 é de Carapicuíba (Grande SP); Mayara Penina, 24, é de Paraisópolis, zona sul; Priscila Gomes, 32, é da Vila Zilda, zona norte; Regiany Silva, 26, Cidade Tiradentes, zona leste; Lívia Lima, 28, é de Artur Alvim, zona leste; Aline Kátia Melo, 32 é da Jova Rural, zona norte.

 


 

 

Publicidade colaborativa

Presenteie camisetas da Uneafro-Brasil

A Uneafro-Brasil está com novos modelos de camisetas engajadas e temáticas de valorização da cultura negra brasileira. Conheça e faça seu pedido. Com isso, além de adquirir um produto de qualidade, beleza e com uma mensagem de consciência negra, de quebra contribui para o auto-financiamento do trabalho sócio-educacional promovido pela Uneafro nas periferias de São Paulo e do Brasil.

Valor único para todas as peças, R$ 30,00 + frete.
Tamanhos (P, M, G ou GG), medidas e quantidades devem ser informadas no campo de descrição do produto.

Conheça esses e outros modelos e faça seu pedido AQUI

 

1185010_161445260720070_1710572108_n943354_161445417386721_1327929719_n 541394_161445327386730_92739506_n  150696_161445367386726_1458581424_n1230010_161445250720071_94091394_n8312_161445217386741_536225636_n1229958_161445210720075_2009434214_n      994828_161445347386728_151713548_n

 

Categorias
Destaque Internacional

Globo, Belíndia e Belgiquistão: a arte de mascarar a sub-cidadania

501498

Por Laura Lima*, direto de Bruxelas – Bélgica

Um dos maiores orgulhos que tenho é ter deixado de assistir a Rede Globo ainda na adolescência. Nos quase vinte anos que se passaram desde então, tive apenas uma reincidência: o discurso de posse de Lula em 2003. Na última segunda-feira quebrei esse jejum para ver (online) a reportagem sobre Molenbeek que foi ao ar no Fantástico do último domingo. Vivo na Europa há cerca de 10 anos, seis do quais na capital belga. Me senti na obrigação de ver o que a Globo tinha a dizer sobre um dos bairros que mais conheço na cidade. Foi quase um exercício de auto-flagelação: um sofrimento desnecessário, masoquismo ao raiar do dia.

Entre tantas coisas, a globo colocou Molenbeek como ninho do terror e finalizou a reportagem falando em “Belgiquistão”. Imediatamente, isso me trouxe a lembrança uma moda nas rodas intelectuais dos anos 90/2000 sobre o Brasil. Falávamos de Belíndia. No fundo, o intuito do termo era realçar que, no Brasil, haviam duas realidades que conviviam lado-a-lado. Uma delas, diminuta, apresentava os mesmos indicadores de desenvolvimento humano que a Bélgica. Enquanto que havia entre nós também indicadores iguais aos da Índia. Apesar de tentar descrever a gritante desigualdade brasileira, o termo em si é impregnado de uma armadilha política.

molenbeek_01_crop1447798322420.jpg_1870109484

É que Belíndia nos diz muito o que nós, brasileiros, pensávamos sobre a Bélgica e sobre a Índia. Pressupõe-se que a Bélgica e a Índia são, nessa ordem, os bastiões do desenvolvimento e do subdesenvolvimento humano, quando na verdade sabemos que em qualquer país há privilegiados e excluídos. Basta ver os 7.5 milhões de anafabetos funcionais na força de trabalho alemã, os 22% de criancas vivendo abaixo da linha da pobreza no Estados Unidos, o 1% da população indiana que detém 53% da riqueza nacional, ou os 10% dos paquistaneses que juntos detém 27% do PIB nacional. Embora esteriótipos reforcem nossa visão de países como um todo homogêneo, não há nada sobre a vida e a morte em qualquer um deles que nos dê qualquer pista de uniformidade.

 

Entre tantas coisas, a globo colocou Molenbeek como ninho do terror e finalizou a reportagem falando em “Belgiquistão”

Da mesma forma, chamar Molenbeek de Belgiquistão é uma preguiça acadêmica e, principalmente, uma maldade política. Maldade política em dois atos. Primeiro, porque, como a última semana mostrou, nem tudo é flores no Reino da Bélgica e nem tudo é morte da República Islâmica do Paquistão. Segundo, é também uma maldade política porque invisibiliza os processos de exclusão que permitem que, em qualquer país, pessoas sejam relegadas a uma vida precária. A sede, a fome, a falta de moradia, de escolas, de hospitais e, acima de tudo, de dignidade humana, são fenômenos políticos e históricos, que devem ser desvendados, explicados e combatidos independentemente de onde eles ocorram. Chamar Molenbeek de Belgiquistão é simplesmente negligenciar os quase 100 mil moradores do bairro que não só não compactuam com a violência armada mas que também contribuem enormemente para Bruxelas ser a segunda cidade mais cosmopolita do mundo. Chamar Molenbeek de Belgiquistao é estigmatizar ainda mais uma parcela da população que já vive de ser o bode expiatório de todas a políticas anti-imigração.

 

O ninho de terror do qual falou a globo oferece escolas públicas para todas as suas crianças (meus afilhados estudam lá e os pais – brancos, classe média, e flamengos – são muito contentes com o ensino), plano de saúde de qualidade e vários tipos de ação social que coloca até mesmo outros países da União Européia no pé do chinelo. Mesmo com tudo de bom que esse país tem a oferecer (e não são poucas coisas), a Bélgica também tem seus problemas. E o problema atual de Molenbeek está muito conectado às políticas de imigração adotadas pela Bélgica nos anos 60 e 70.

 

Chamar Molenbeek de Belgiquistao é estigmatizar ainda mais uma parcela da população que já vive de ser o bode expiatório de todas a políticas anti-imigração.

Os contingentes migratórios que chegaram a Bélgica desde a década de 1960, eram em grande parte comunidades norte-africanas (geralmente francófonas) ou de países árabes. Vieram aos milhares. E, enquanto ocuparam a vaga de mão de obra barata, ninguém reclamava. Não houve, por parte do governo ou dos cidadãos, uma política ampla de educação e integração social, econômica e/ou política. As segundas e terceiras gerações, nascidas e criadas na Bélgica, muitas sem ter nunca visto seu país de ‘origem’, nunca foram (e ainda não são) tratados como belgas. São sub-cidadãos. Suas religiões e suas culturas sempre foram muito mais toleradas do que celebradas. Desde que ficasse cada um no seu quadrado, estava tudo bem. E foi assim que Molenbeek foi se transformando no que é hoje: uma área de belgas não-belgas, onde a polícia não vai, em quem a cidade (e o país) investe muito menos, e o estado está presente muito mais timidamente do que em outros bairros. Essa vaga de cidadania e falta de identidade com o país onde nasceram, abriu a oportunidade para que o fundamentalismo religioso conseguisse arregimentar jovens para o terrorismo.

 

1004662

Se a reportagem do fantástico tivesse se esforçado um pouquinho mais para conhecer a realidade do bairro, saberia que o que o caracteriza é muito mais o número de pessoas que ali vivem em situação precária do que a religião ou a língua que falam. O desemprego em Molenbeek é em torno de 30%, e entre os jovens esse número chega a quase 40%. A taxa de desemprego entre as mulheres é 10% mais elevada naquele bairro do que a média da região de Bruxelas. Somente na última década, a população de Molenbeek cresceu em 24.5% – em um bairro que já é conhecido por ser super-populoso.

A situação só tem piorado desde que a Bélgica vem se rendendo aos devaneios do neoliberalismo. E é contra os sub-cidadãos belgas que se viram as políticas econômicas, financeiras e de imigração nesse país. A cada golpe contra o Estado de Bem-Estar Social, o sofrimento é sentido diretamente na parcela dos sub-cidadãos. O desemprego é apenas um deles. A direita belga não quer acabar com a escola publica, a saúde pública ou a segurança social. Mas quer esses sistemas fora do alcance dos estrangeiros (ou não-brancos, como preferir). E deliberadamente escolhe investir menos nas escolas que ficam em comunas como a de Molenbeek – onde as pessoas ganham menos e precisam mais dos insumos que uma boa educação pode produzir.

 

0,,18851590_303,00

A Bélgica que tenho orgulho, aquela do Bem-estar social, o país que é 95% sindicalizado, e a educação é ampla e gratuita, escolheu nas, últimas décadas, não investir em Molenbeek. As escolhas neoliberais que o país tem tomado nas últimas décadas precarizam mais ainda a vida de milhares de cidadãos (que nunca foram reconhecidos como tal). Junte-se a isso todos os problemas, muito conhecidos por nós, fomentados em um ambiente de pobreza, desemprego, investimento mínimo em saúde e educação.

Há muitos problemas em Molenbeek. Mas o maior deles não é, nem de longe, o terrorismo. O terrorismo é uma consequência de décadas de escolhas politicas e econômicas que distinguem entre os belgas brancos e os contingentes de imigração. Chamar Molenbeek de Belgiquistao é ignorar as décadas em que a população do bairro não teve acesso as políticas sociais disponíveis em outras áreas do país. Chamar Molenbeek de Belgiquistao é esquecer que há um sistema de exclusão internacional que é ordenado e oficializado dentro de fronteiras nacionais, seja na Europa ou em qualquer outro continente. A reportagem do domingo passado na Globo só conseguiu provar o que tantos de nós sabemos sobre a emissora no panorama nacional: sua visão e parcial, míope que age contra o bem comum.

 

* Laura Lima é representante das Nações Unidas para assuntos urbanos – Programa Cities Alliance

 

 

 


 

 

Publicidade colaborativa

Presenteie camisetas da Uneafro-Brasil

A Uneafro-Brasil está com novos modelos de camisetas engajadas e temáticas de valorização da cultura negra brasileira. Conheça e faça seu pedido. Com isso, além de adquirir um produto de qualidade, beleza e com uma mensagem de consciência negra, de quebra contribui para o auto-financiamento do trabalho sócio-educacional promovido pela Uneafro nas periferias de São Paulo e do Brasil.

Valor único para todas as peças, R$ 30,00 + frete.
Tamanhos (P, M, G ou GG), medidas e quantidades devem ser informadas no campo de descrição do produto.

Conheça esses e outros modelos e faça seu pedido AQUI

 

1185010_161445260720070_1710572108_n943354_161445417386721_1327929719_n 541394_161445327386730_92739506_n  150696_161445367386726_1458581424_n1230010_161445250720071_94091394_n8312_161445217386741_536225636_n1229958_161445210720075_2009434214_n      994828_161445347386728_151713548_n

Categorias
Destaque racismo

ONU Brasil lança documentário sobre a Consciência Negra

Por Douglas Belchior

A ONU Brasil aproveitou as comemorações de Novembro, mês da Consciência Negra, para lançar um documentário e relembrar a luta pela libertação dos escravos e para refletir sobre os avanços e desafios da população negra no Brasil.

 

No vídeo, falam sobre o tema Alberto da Costa e Silva, Carlinhos Brown, Carlos Moore, Douglas Belchior, Eduardo Oliveira, Elisa Larkin Nascimento, Frei David, Jaime Nadal, João Jorge Rodrigues, José Vicente, Marco Aurério Luz, Matilde Ribeiro, Milton Gonçalves, Paulo Lins e Vera Eunice de Jesus.

Do Site da Onu Brasil

No Dia Nacional da Consciência Negra, 20 de novembro, a ONU Brasil exibe um documentário sobre a participação dos negros na sociedade brasileira.

Considerado o maior herói negro nacional, Zumbi dos Palmares é figura de destaque na História do Brasil. A data é um convite para relembrar a luta pela libertação dos escravos e para refletir sobre os avanços e desafios da população negra no Brasil.

Com 200 milhões de habitantes, o país foi formado por indígenas, imigrantes e africanos escravizados que vieram de várias partes do planeta – principalmente da África durante o tráfico transatlântico, que trouxe cerca de 5 milhões de africanos escravizados que ajudaram a moldar o país com a maior população negra fora do continente africano.

Em homenagem ao líder do Quilombo dos Palmares, morto em 1695, e no contexto da Década Internacional de Afrodescendentes, a ONU Brasil apresenta este documentário sobre a participação dos africanos e seus descendentes na sociedade brasileira apontando alguns avanços e desafios contemporâneos.

“Os primeiro africanos que chegaram ao Brasil de que temos conhecimento vieram via Portugal. Depois, vieram os africanos escravizados trazidos da Senegâmbia, da Alta Guiné e desde muito cedo do Congo. Não se pode escrever a História do Brasil nem compreender o Brasil sem uma presença africana muito clara”, disse o africanólogo e membro da Academia Brasileira de Letras, Alberto da Costa e Silva.

Hoje, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 53% da população é negra. Porém, 127 anos após o fim da escravidão, ainda há pouca representatividade da população negra em muitos setores da sociedade.

“Nós precisamos criar as condições e reunir as energias que permitam que, do ponto de vista simbólico, a gente saia do lugar que esta determinado, enfim, de um sub-lugar”, disse José Vicente, reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares.

Confira outros vídeos da Década Internacional de Afrodescendentes da ONU

 


 

Publicidade colaborativa

Presenteie camisetas da Uneafro-Brasil

A Uneafro-Brasil está com novos modelos de camisetas engajadas e temáticas de valorização da cultura negra brasileira. Conheça e faça seu pedido. Com isso, além de adquirir um produto de qualidade, beleza e com uma mensagem de consciência negra, de quebra contribui para o auto-financiamento do trabalho sócio-educacional promovido pela Uneafro nas periferias de São Paulo e do Brasil.

Valor único para todas as peças, R$ 30,00 + frete.
Tamanhos (P, M, G ou GG), medidas e quantidades devem ser informadas no campo de descrição do produto.

Conheça esses e outros modelos e faça seu pedido AQUI

 

1185010_161445260720070_1710572108_n943354_161445417386721_1327929719_n 541394_161445327386730_92739506_n  150696_161445367386726_1458581424_n1230010_161445250720071_94091394_n8312_161445217386741_536225636_n1229958_161445210720075_2009434214_n      994828_161445347386728_151713548_n

 

Categorias
Destaque Mulheres Negras

Tradução do conto “Você na América”, de Chimamanda Ngozi Adichie

Chimamanda Ngozi Adichie
Chimamanda Ngozi Adichie

O blog traz abaixo a tradução do conto “Você na América” (You in America) da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. A Escritora tem três de seus romances publicados no Brasil e é reconhecida internacionalmente como escritora e militante dos direitos das mulheres. Na internet, se tornou bastante conhecida principalmente a partir de duas palestras: “O perigo de uma única história” e “Nós deveríamos todos ser feministas”. Este conto trata da situação de uma jovem imigrante nigeriana nos EUA, de sua relação com um jovem branco de classe média e do contraste entre as realidades sociais dos dois países. Apesar da distância entre Brasil, Estados Unidos e Nigéria, alguns detalhes e sensações desta narrativa, certamente, são de fácil e íntima compreensão para brasileiras e brasileiros. A distância geográfica que o Atlântico Norte introduz entre as condições sociais de EUA e Nigéria, no Brasil se reduz, às vezes, à diferença entre bairros da mesma metrópole.

Você na América

Tradução: Tomaz Amorim Izabel

 

Você achava que todo mundo na América tinha um carro e uma arma. Seus tios e tias e primos achavam também. Logo depois que você ganhou na loteria do visto americano, eles te disseram: “Em um mês você terá um carrão. Em breve, um casarão. Mas não compre uma arma como aqueles americanos”.

Eles marcharam para dentro do barraco na favela em Lagos, ficando de pé do lado das paredes de zinco cravejadas de pregos porque as cadeiras não davam para todo mundo, para dar tchau com vozes altas e te dizerem com vozes baixas o que eles queriam que você mandasse para eles. Em comparação com o carrão e o casarão (e possivelmente a arma), as coisas que eles queriam era menores: bolsas e sapatos e suplementos vitamínicos. Você disse tudo bem, sem problemas.

Seu tio na América disse que você poderia viver com ele até conseguir se virar. Ele te buscou no aeroporto e te comprou um grande cachorro quente com mostarda amarela que te deixou enjoada. Apresentando a América, ele disse com um sorriso. Ele vivia em uma pequena cidade de brancos em Maine, em uma casa de trinta anos junto ao lago. Ele te disse que a companhia para a qual ele trabalhava tinha oferecido a ele alguns milhares a mais junto com ações porque eles estavam tentando desesperadamente ter mais diversidade. Eles incluíam ele em todos os folhetos, até naqueles que não tinham nada a ver com engenharia. Ele ria e dizia que o trabalho era bom, que valia a pena morar em uma cidade toda de brancos mesmo que sua esposa tivesse que dirigir por uma hora até encontrar um salão de cabeleireiro que trabalhasse com cabelos negros. O truque era entender a América, saber que na América era dar e receber. Você abria mão de muito, mas ganhava muito também.

Ele te mostrou como se candidatar para uma vaga de caixa no posto de gasolina da rua principal e te inscreveu em uma faculdade comunitária onde as meninas ficaram curiosas com o seu cabelo. Ele fica para cima ou para baixo quando você tira as tranças? Ele fica todo para cima? Como? Por que? Você usa pente?

Você dava um sorriso cerrado quando elas perguntavam essas coisas. Seu tio disse para você esperar por isso: uma mistura de ignorância e arrogância, ele chamou assim. Então ele te contou que os vizinhos disseram, poucos meses depois que ele se mudou para a casa dele, que os esquilos tinham começado a desaparecer. Eles tinham ouvido que os africanos comem todo o tipo de animais selvagens.

Você riu com seu tio e sentiu que a casa dele era um lar, a esposa dele te chamava de nwanne – irmã – e os dois filhos dele em idade escolar te chamavam de Titia. Eles falavam igbo e comiam garri no almoço e era como um lar. Até que seu tio entrou no porão estreito onde você dormia com velhos baús e rodas e livros e agarrou os seus seios, como se ele estivesse colhendo mangas de uma árvore, gemendo. Ele não era mesmo seu tio, ele era na verdade um primo distante do marido da sua tia, não parente de sangue.

Enquanto você fazia suas malas naquela noite, ele sentou na sua cama – era a casa dele afinal – e riu e disse que você não tinha para onde ir. Se você deixasse, ele faria muitas coisas por você. Mulheres inteligentes faziam isso o tempo inteiro. Como você acha que aquelas mulheres lá em Lagos com trabalhos que pagam bem conseguiram? Ou mesmo as mulheres em Nova Iorque?

Você se trancou no banheiro e na manhã seguinte você partiu, caminhando no vento pela longa estrada, cheirando os bebês-peixe no lago. Você viu ele passar dirigindo, ele sempre te deixava na Rua Principal, e ele não buzinou. Você se perguntou o que ele iria dizer para a sua esposa, por que você tinha partido. E você se lembrou do que ele disse, que a América era dar e receber.

Você acabou em Connecticut, numa outra cidade pequena, porque era o ponto final do ônibus Bonanza em que você subiu. Bonanza era o ônibus mais barato. Você entrou em um restaurante por perto e disse que trabalharia por dois dólares menos que as outras garçonetes. O dono, Juan, tinha um cabelo pintado de preto e sorriu mostrando um brilhante dente amarelo. Ele disse que nunca tinha tido uma empregada nigeriana, mas que todos os imigrantes trabalhavam duro. Ele sabia, já tinha passado por isso. Ele te pagaria um dólar a menos, mas por debaixo dos panos. Ele não gostava de todos os impostos que eles estavam fazendo ele pagar.

Você não tinha condições de pagar uma escola, porque agora você pagava aluguel pelo pequeno quarto com o carpete manchado. Além disso, a cidadezinha de Connecticut não tinha uma faculdade comunitária e o empréstimo para a Universidade Estadual custava muito. Então você ia para a Biblioteca Pública, você procurava pelas ementas dos cursos nos sites das escolas e lia alguns dos livros. Às vezes você se sentava no colchão esburacado da sua cama de solteiro e pensava sobre seu lar.

Seus pais, seus tios e tias, seus primos, seus amigos. As pessoas que nunca tinham conseguido lucrar com as mangas e akara dos quais eles cuidavam, cujas casas – folhas de zinco precariamente presas por pregos – desmontavam durante a temporada de chuvas. As pessoas que vieram dizer tchau, que se alegraram porque você ganhou a loteria do visto americano, para confessar a sua inveja. As pessoas que mandavam seus filhos para o colegial em que os professores davam um A quando alguém lhes passava envelopes marrons.

Você nunca precisou pagar por um A, nunca passou um envelope marrom para um professor no colegial. Mesmo assim, você escolheu envelopes marrons compridos para mandar metade do que você recebia para os seus pais. As notas que o Juan te dava eram mais amassadas do que as de gorjeta. Todo mês. Você não escrevia nenhuma carta. Não tinha nada sobre o que escrever.

Nas primeiras semanas, no entanto, você queria escrever, porque você tinha histórias para contar. Você queria escrever sobre a abertura surpreendente das pessoas na América, o quão avidamente as pessoas te contavam sobre as mães delas lutando contra o câncer, sobre o parto prematuro da cunhada delas – coisas que as pessoas deveriam esconder, revelar apenas para membros da família que as queriam bem. Você queria escrever sobre a maneira com que as pessoas deixavam tanta comida nos seus pratos e enfiavam algumas notas de dólar embaixo, como se fosse uma oferenda, uma expiação pela comida desperdiçada. Você queria escrever sobre a criança que começou a chorar e a puxar os cabelos loiros e em vez de os pais fazerem ela se calar, eles suplicaram para ela e então todos se levantaram e saíram.

Você queria escrever que nem todo mundo na América tinha um casarão ou um carrão, você só não tinha ainda certeza sobre as armas porque eles poderiam tê-las dentro de suas bolsas e bolsos.

Não era só para os seus pais que você queria escrever, mas para os seus amigos e primos e tias e tios. Mas você nunca teria condições de comprar tantas bolsas e tênis e suplementos vitamínicos por aí e ainda pagar seu aluguel, então você não escrevia para ninguém.

Ninguém sabia onde você estava porque você não contou para ninguém. Às vezes você se sentia invisível e tentava atravessar a parede do seu quarto para o corredor e quando você batia contra a parede ficavam marcas nos seus braços. Uma vez, o Juan te perguntou se você tinha um homem que batia em você porque ele iria dar um jeito nele e você riu um riso misterioso. Em algumas noites, alguma coisa se enrolava em volta do seu pescoço, alguma coisa que sempre quase te enforcava antes de você acordar.

~

Algumas pessoas pensavam que você era da Jamaica porque eles pensavam que todas as pessoas negras com um sotaque eram jamaicanas. Ou alguns que adivinhavam que você era africana perguntavam se você conhecia tal ou tal pessoa do Quênia ou tal ou tal pessoa do Zimbábue porque eles pensavam que a África era um país onde todo mundo conhecia todo mundo.

Então, quando ele te perguntou, no escuro do restaurante depois que você recitou os pratos do dia, de qual país africano você era, você disse Nigéria e esperou que ele perguntasse se você conhecia um amigo que ele tinha feito no Peace Corps no Senegal ou em Botsuana. Mas ele perguntou se você era yorubá ou igbo porque você não tinha um rosto de fulani. Você ficou surpresa – você pensou, ele deve ser um professor de antropologia, um pouco jovem mas sei lá? Igbo, você disse. Ele perguntou seu nome e disse que Akunna era bonito. Ele não perguntou o que significava, felizmente, porque você estava cansada de como as pessoas diziam: – Fortuna do Pai? Você quer dizer, tipo, que seu pai vai realmente te vender para um marido?

Ele tinha ido para Gana e Quênia e Tanzânia, ele tinha lido tudo sobre os outros países africanos, suas histórias, suas complexidades. Você queria sentir desdém, mostrá-lo

ao trazer o pedido dele, porque pessoas brancas que gostavam demais da África e que gostavam de menos da África eram o mesmo: condescendentes.

Mas ele não agia como se soubesse demais, não balançava sua cabeça de um jeito superior como o professor lá da Faculdade Comunitária fez uma vez enquanto falava sobre Angola, não mostrou nenhuma condescendência. Ele entrou no dia seguinte e se sentou na mesma mesa e quando você perguntou se o frango estava bom, ele te perguntou algo sobre Lagos. Ele entrou no segundo dia e falou por tanto tempo – te perguntando com frequência se você não achava que Mobutu e Idi Amim eram parecidos – que você teve que dizer para ele que isto era contra as regras do restaurante. Ele acariciou sua mão quando você colocou o café na mesa. No terceiro dia, você disse ao Juan que não queria mais aquela mesa.

Depois do seu turno naquele dia, ele estava te esperando do lado de fora, apoiado num poste, te pedindo para sair com ele porque seu nome rimava com hakuna matata e O Rei Leão era o único filme melodramático de que ele gostava. Você não sabia o que era O Rei Leão. Você olhou para ele na luz forte e percebeu que os olhos dele eram da cor do azeite de oliva extra-virgem, um ouro esverdeado. Azeite de oliva extra-virgem era a única coisa de que você gostava, realmente gostava, na América.

Ele era estudante na Universidade Estadual. Ele te disse quantos anos tinha e você perguntou porque ele não tinha se graduado ainda. Era a América, afinal, não era como lá em casa em que as universidades fechavam com tanta frequência que as pessoas adicionavam três anos a mais nos seus planos de estudo e as aulas entravam em greve depois de greve e ainda não eram pagas. Ele disse que ficou algum tempo fora, alguns anos depois do colégio, para se descobrir e viajar, principalmente através da África e da Ásia. Você perguntou onde é que ele tinha finalmente se encontrado e ele riu. Você não riu. Você não sabia que as pessoas podiam simplesmente escolher não ir para a escola, que as pessoas podiam ditar para a vida. Você estava acostumada a aceitar o que a vida dava, a escrever o que a vida ditava.

Você disse não nos três dias seguintes sobre isso sair com ele, porque você não achava certo, porque você ficava desconfortável com a maneira com que ele olhava nos seus olhos, a maneira com que você ria tão facilmente do que ele dizia. E então na quarta noite você entrou em pânico quando viu que ele não estava esperando na porta, depois do seu turno. Você rezou pela primeira vez em muito tempo e quando ele apareceu por trás de você e disse, ei, você disse, sim, você sairia com ele, mesmo antes de ele perguntar. Você tinha medo de que ele não perguntaria de novo.

No próximo dia, ele te levou ao Chang’s e o seu bolinho da sorte veio com duas fitinhas de papel. As duas estavam em branco.

~

Você soube que você ficou confortável quando você contou para ele a verdadeira razão pela qual você pediu outra mesa para o Juan – Jeopardy! Quando você assistia Jeopardy na TV do restaurante, você torcia para os seguintes, nesta ordem: mulheres de cor, mulheres brancas, homens negros e, finalmente, homens brancos, o que significava que você nunca torcia para homens brancos. Ele riu e disse que estava costumado a não ter torcida, porque sua mãe ensinava Estudos Feministas.

E você soube que vocês tinham ficado próximos quando você disse para ele que o seu pai na verdade não era professor de escola em Lagos, mas motorista de taxi. E você contou para ele sobre aquele dia no trânsito em Lagos no carro do seu pai, estava chovendo e a sua poltrona estava molhada por causa do furo comido de ferrugem no teto. O trânsito estava pesado,o trânsito estava sempre pesado em Lagos, e quando chovia era um caos. As estradas eram tão mal drenadas que alguns carros ficavam presos em buracos de lama e alguns dos seus primos ganhavam dinheiro rebocando os carros. A chuva e a estrada pantanosa – você pensava – fizeram com que seu pai pisasse nos freios tarde demais naquele dia. Você ouviu o barulho antes de senti-lo. O carro contra o qual o seu pai colidiu era grande, estrangeiro e verde escuro, com faróis amarelos como os olhos de um gato. Seu pai começou a chorar e implorar antes mesmo de sair do carro e se deitou inteiro na estrada, parando o trânsito. Desculpa, senhor, desculpa senhor, se você vender minha família e eu, mesmo assim você não vai conseguir comprar nem uma roda para o seu carro, ele cantou. Desculpa, senhor.

O homem grande sentado no banco de trás não saiu. Seu motorista, sim, examinando os danos, olhando para a figura esparramada do seu pai com o canto do olho, como se a súplica fosse uma canção de que ele estava envergonhado de admitir que gostava. Finalmente, ele deixou seu pai ir. Gesticulou para que ele saísse. Os outros carros buzinavam e os motoristas xingavam. Quando seu pai voltou para dentro do carro, você se recusou a olhar para ele porque ele estava como os porcos que chafurdavam nos brejos perto do mercado. Seu pai parecia nsi. Merda.

Depois que você contou isso para ele, ele franziu os lábios e segurou a sua mão e disse que entendia. Você soltou sua mão, incomodada, porque ele achava que o mundo era, ou deveria ser, cheio de gente como ele. Você disse para ele que não tinha nada para entender, era só como as coisas eram.

~

Ele não comia carne porque achava que era errada a forma com que eles matavam os animais. Ele disse que eles liberavam toxinas do medo nos animais e que toxinas do medo te deixavam paranóico. Lá em casa, os pedaços de carne que você comia, quando tinha carne, eram do tamanho da metade do seu dedo. Mas você não contou isso para ele. Você também não contou que os cubos de dawadawa com que sua mãe cozinhava tudo, porque curry e tomilho eram muito caros, tinham glutamato monossódico, eram glutamato monossódico. Ele disse que glutamato causava câncer e que era por isso que ele gostava do Chang’s – o Chang não cozinhava com glutamato.

Uma vez, no Chang, ele disse ao garçom que viveu em Xangai por um ano, que falava um pouco de mandarim. O garçom se alegrou e disse para ele qual sopa estava melhor e então perguntou a ele: “Você tem uma namorada em Xangai?”. E ele sorriu e não disse nada.

Você perdeu seu apetite, a região abaixo dos seus seios pareceu entupida por dentro. Naquela noite, você não gemeu quando ele estava dentro de você, você mordeu seus lábios e fingiu que não gozou porque você sabia que ele se preocuparia. Finalmente você disse para ele porque estava chateada, porque o homem chinês pressupôs que você nunca poderia ser a namorada dele, e ele sorriu e não disse nada.

Antes de se desculpar, ele te olhou com os olhos vazios e você soube que ele não entendeu.

~

Ele te comprava presentes e quando você se opôs por causa do preço, ele disse que tinha uma poupança, que estava tudo bem. Os presentes dele te enfeitiçavam. Uma bola do tamanho de um punho que você balançava para assistir à neve cair sobre uma casinha, ou uma bailarina de plástico vestida de rosa girando sobre um palquinho. Uma pedra brilhante. Um lenço mexicano caro pintado à mão que você nunca ia poder usar por causa da cor. Finalmente, você disse para ele que os presentes do Terceiro Mundo eram sempre úteis. A pedra, por exemplo, funcionaria se você conseguisse esmagar coisas com ela, ou usá-la no corpo. Ele riu alta e longamente, mas você não riu. Você percebeu que na vida dele, ele podia comprar presentes que eram apenas presentes e nada mais, nada útil. Quando ele começou a te comprar sapatos e roupas e livros, você pediu para ele que não, você não queria nenhum presente.

Mesmo assim, você não brigaram. Não de verdade. Vocês discutiam e aí se reconciliavam e faziam amor e passavam as mãos pelos cabelos um do outro, o dele macio e amarelo como as bandeiras dançantes do milho crescendo, o seu escuro e volúvel como o enchimento de um travesseiro. Você se sentiu segura nos braços dele, a mesma segurança que você sentia lá em casa, no barraco de zinco na favela.

Quando ele tomava sol demais e a pele dele ficava da cor de uma melancia madura, você beijava partes das costas dele antes de aplicar a loção devagarinho. Era mais íntimo do que o sexo. Você se sentia envolvida, ainda assim, era uma experiência que vocês dois nunca poderiam compartilhar. Você se escurecia no sol, mas era escura demais para se queimar algum dia.

Ele achou a loja africana nas páginas amarelas de Hartford e dirigiu com você até lá. O dono da loja, um ganês, perguntou a ele se ele era africano, como os quenianos e sul-africanos brancos, e ele riu e disse que sim, mas que estava na América por bastante tempo, que sentia saudades da comida da sua infância. Você cozinhou para ele, ele gostou do arroz jollof mas depois que comeu o garri e a sopa onugbu ele vomitou na sua pia. Você não se importou porque agora você podia cozinhar sopa de onugbu com carne.

A coisa que se enrolava no seu pescoço, que quase sempre te enforcava antes de você dormir, começou a afrouxar, a se soltar.

~

Você sabia pelas reações das pessoas que vocês eram anormais – a maneira com que os ruins eram ruins demais e os gentis, gentis demais. A maneira com que as velhas mulheres brancas murmuravam e encaravam ele, os homens negros que balançavam suas cabeças para você, as mulheres negras, cujos olhos piedosos lamentavam sua falta de auto-estima, sua auto-aversão. Ou as mulheres negras que sorriam rapidamente, sorrisos secretos de solidariedade, os homens negros que se esforçavam demais para te perdoar, diziam um oi óbvio demais para ele, as mulheres brancas que diziam: “que casal bonito”, muito claramente, muito alto, como se estivessem tentando provar para si mesmas sua tolerância.

Você não disse para ele, mas você desejava ter uma pele mais clara porque assim eles não ficariam olhando tanto. Você pensou na sua irmã lá em casa, sobre a pele cor-de-mel dela, e você queria ter saído como ela. Você quis isso de novo na noite em que conheceu os pais dele. Mas você não disse para ele, porque ele te olharia solene e seguraria sua mão e te diria que foi a cor lustrosa da sua pele que chamou a atenção dele primeiro. Você não queria que ele segurasse a sua mão e dissesse que entendia porque, de novo, não tinha nada para ser entendido, era assim que as coisas eram.

Você desejava ter a pele clara o bastante para ser confundida como uma porto-riquenha, clara o bastante para que, na meia-luz do restaurante indiano onde vocês compartilhavam samosas com os pais dele de uma bandeja colocada no centro, você quase se parecesse com eles.

A mãe dele te disse que amava as suas tranças, te perguntou se os búzios presos nelas eram de verdade e quais escritores mulheres você lia. O pai dele perguntou o quão parecida era a comida indiana com a comida nigeriana e brincou com você sobre pagar quando a conta chegou. Você olhou para eles e se sentiu grata por eles não terem te examinado como um troféu exótico, uma presa de marfim.

A mãe dele te disse que ele nunca tinha trazido uma moça para eles conhecerem, com exceção do par na festa de formatura do colégio e ele sorriu tenso e segurou sua mão. A toalha de mesa escondia as suas mãos entrelaçadas. Ele apertou sua mão e você apertou de volta e se perguntou porque ele estava tão tenso, por que os seus olhos de azeite extra-virgem se escureciam quando ele falava com os pais. Ele te falou depois sobre os problemas dele com os pais, como eles repartiam o amor como um bolo de aniversário, como eles dariam um pedaço maior se ele fosse para a Faculdade de Direito. Você queria ser compreensiva. Mas ao invés disso ficou irritada.

Você ficou mais irritada quando ele te disse que ele tinha se recusado a ir para o Canadá com eles por uma semana ou duas, para a cabana de verão no interior de Quebec. Eles tinham até pedido para ele te levar. Ele te mostrou fotos da cabana e você se perguntou o porquê de ela se chamar cabana, porque os prédios tão grandes quanto aquele, perto da sua vizinhança lá em casa, eram bancos e igrejas. Você derrubou um copo e ele se despedaçou na madeira de lei do chão do apartamento dele e ele perguntou o que é que estava errado e você não disse nada, embora você pensasse que havia muita coisa errada. Os seus mundos estavam errados.

Depois, no chuveiro, você começou a chorar, você via a água diluir suas lágrimas e você não sabia porque estava chorando.

~

Você finalmente escreveu para casa, quando a coisa em volta do seu pescoço tinha quase completamente ido embora. Uma carta curta para os seus pais e irmãos e irmãs, enfiada entre as notas de dólares amassadas, e você incluiu seu endereço. Você recebeu uma carta poucos dias depois, por correio expresso. Sua mãe mesma escreveu a carta, você soube pela caligrafia aracnídea, pelos erros de ortografia.

Seu pai tinha morrido, ele desabou por cima do volante do taxi dele. Cinco meses agora, ela escreveu. Eles tinham usado parte do dinheiro que você mandou para dar um bom funeral a ele. Eles mataram uma cabra para os convidados e o enterraram em um caixão de verdade, não só com tábuas de madeira.

Você se enrolou na cama, apertou com força seus joelhos no peito e chorou. Ele te segurou enquanto você chorava, alisou seu cabelo e se ofereceu para ir junto com você, de volta para casa na Nigéria. Você disse que não, você precisava ir sozinha. Ele perguntou se você voltaria e te lembrou que você tinha um visto permanente e que você o perderia se não voltasse em um ano. Ele disse que você sabia o que ele estava querendo dizer, você iria voltar, volta?

Você se virou e não disse nada e ele dirigiu com você até o aeroporto, você abraçou ele firme, agarrando os músculos das costas dele até suas costelas doerem. E você disse obrigada.

 


 

 

Publicidade colaborativa

Presenteie camisetas da Uneafro-Brasil

A Uneafro-Brasil está com novos modelos de camisetas engajadas e temáticas de valorização da cultura negra brasileira. Conheça e faça seu pedido. Com isso, além de adquirir um produto de qualidade, beleza e com uma mensagem de consciência negra, de quebra contribui para o auto-financiamento do trabalho sócio-educacional promovido pela Uneafro nas periferias de São Paulo e do Brasil.

Valor único para todas as peças, R$ 30,00 + frete.
Tamanhos (P, M, G ou GG), medidas e quantidades devem ser informadas no campo de descrição do produto.

Conheça esses e outros modelos e faça seu pedido AQUI

 

1185010_161445260720070_1710572108_n943354_161445417386721_1327929719_n 541394_161445327386730_92739506_n  150696_161445367386726_1458581424_n1230010_161445250720071_94091394_n8312_161445217386741_536225636_n1229958_161445210720075_2009434214_n      994828_161445347386728_151713548_n

Categorias
Debate Destaque

Nós, negros a sós, na companhia de outros a sós, seremos todos mortos!

 Captura-de-Tela-2014-10-13-as-21.34.23

 

Por Douglas Belchior

 

 

Gente, na humildade e com respeito:

Essa onda de ativismo independente, individual, mascarado de coletivismo é muito perigoso. Perigoso CONTRA nós.

Esse papo de que partidos, sindicatos, associações, igrejas, nada disso presta ou vale a pena é um tiro no pé da negrada, da classe trabalhadora como um todo.

Eu sou dos que acreditam e se dedicam à ORGANIZAÇÃO POLÍTICA. Na ação orientada a partir de um projeto político, esse sim coletivo, comunitário, revolucionário.

Esse papo de “cada um cada um”, do “eu me represento”, apresenta, na verdade, uma radical dificuldade em construir coletivamente, no coletivo do mundão, com suas contradições e problemas. Organizar a vida e as lutas com “iguais” é relativamente fácil. Difícil é construir nas diferenças. Aí está o desafio.

 

Cada um de nós, coletivos de um só, armados e revoltados, atirando cada um pra um lado, e quase sempre atingindo, machucando e matando entre nós mesmos, só ajuda e facilita o trabalho do inimigo.

 

E não estou falando de partidos meramente eleitorais. Não estou falando de eleições, embora elas possam fazer parte da tática. Me refiro à política na acepção original do termo.

Se as instituições, os partidos, os sindicatos, as igrejas, as associações, os movimentos como um todo estão corrompidas – e eu concordo que em sua maioria estão – ultrapassadas na forma, na linguagem e no objetivo, que disputemos os espaços ou organizemos as novas formas, mas que estejamos juntos, unificados e que nos esforcemos em construir um projeto comum. Cada um de nós, coletivos de um só, armados e revoltados, atirando cada um pra um lado, e quase sempre atirando, machucando e matando entre nós mesmos, só ajuda e facilita o trabalho do inimigo. A direita histórica racista e fascista, o conservadorismo, o ódio de classe, o machismo e a homofobia violenta surfam nas ondas de nossa desorganização, desarticulação, desunião. Não percebem?

 

sos

Ao ver o plenário da Galeria Olido lotado na atividade desta semana, com Malaak Shabazz, filha de Malcolm X, (http://goo.gl/JCGs9V), repleto de negras e negros, altivas, fortes, radicais, revoltados, eu imaginei: Porra! Quanto potencial revolucionário! Quanta energia! Quanto poder! Imagine isso organizado, unificado, junto, apontando sua energia e seu ódio aos reais inimigos!

Nossa negrada é foda! Ocupam espaços de poder, vestem ternos e melhoram a qualidade do destilado, falam com as massas, milhões os seguem. Mas e nosso povo? Ficam famosos as vezes na política, mas quase sempre jogando bola, no coro do batuque ou no solar das cordas, na tela plana na novela, nas rimas e no flow, mas e a organização do nosso povo pra lutar? Quando lembram da vida real nos seus versos, na sua arte, são endeusados. Foda-se! E o que fazem para contribuir com a organização real do levante negro e periférico? Palavras apenas, palavras pequenas, palavras ao vento! O quanto as novas gerações periféricas, e a negrada mais jovem em especial, estão ou não influenciadas pela dinâmica individualista e de afirmação de um orgulho negro vazio de conteúdo, muito parecido com o que vários dos famosos são?

Que foda! Que triste! Que merda!

Irmãs, irmãos, entendam: Representatividade importa. Eu concordo. Mas enquanto um de nós estiver na merda, ter um nosso vestindo e comendo bem, não será suficiente. Somos um povo. Precisamos pensar enquanto povo. Construir um projeto de poder do povo e essa construção se dá, caso brasileiro, a partir do povo negro, seguimento majoritário da classe.

Ajudo a construir a Uneafro. É um movimento que se dedica à uma prática. Busca, com enormes limitações, um horizonte de organização e projeto político. Mas sabemos que não será daqui que surgirá o “algo novo” capaz de unificar os negros e a classe trabalhadora. Outras organizações e movimentos muito importantes e atuantes se dedicam à mesma tarefa. Precisamos reunir essas forças. Precisamos nos tocar, reunir nossos corpos mas antes, nossas mentes.

 

Enquanto um de nós estiver na merda, ter um nosso vestindo e comendo bem, não será suficiente. Somos um povo. Precisamos pensar enquanto povo.

 

E quem é só. E quem é só, acompanhado de outros a sós, permanecerão a sós, a não ser que se reúnam e se organizem politicamente. Se não em formas que já existem, em novas formas.

Vivemos mais um mês de novembro, quando celebramos a Consciência Negra. E que consciência alcançamos?  Somos negras e negros de uma das nações que mais humilha negras e negros no mundo; das que mais aprisiona negras e negros no mundo; das que mais mata negras e negros no mundo.

Temo que nós, negros a sós, na companhia de outros a sós, sejamos todos mortos.

Não falta opressão. Não falta violência. Não falta dor.

Falta nós voltar a ser nós.

Por onde começar? Começamos há 500 anos.

Estamos no meio do caminho. Bora corrigir a rota e seguir em frente.

Zumbi vive!

Vive Dandara!

 

 

 


Publicidade colaborativa

Presenteie camisetas da Uneafro-Brasil

A Uneafro-Brasil está com novos modelos de camisetas engajadas e temáticas de valorização da cultura negra brasileira. Conheça e faça seu pedido. Com isso, além de adquirir um produto de qualidade, beleza e com uma mensagem de consciência negra, de quebra contribui para o auto-financiamento do trabalho sócio-educacional promovido pela Uneafro nas periferias de São Paulo e do Brasil.

Valor único para todas as peças, R$ 30,00 + frete.
Tamanhos (P, M, G ou GG), medidas e quantidades devem ser informadas no campo de descrição do produto.

Conheça esses e outros modelos e faça seu pedido AQUI

 

1185010_161445260720070_1710572108_n943354_161445417386721_1327929719_n 541394_161445327386730_92739506_n  150696_161445367386726_1458581424_n1230010_161445250720071_94091394_n8312_161445217386741_536225636_n1229958_161445210720075_2009434214_n      994828_161445347386728_151713548_n

Categorias
Destaque Escrita da história

Malaak Shabazz, filha de Malcolm X, se assusta com tranquilidade negra ante o genocídio

IMG_0963
Na companhia dos Rappers Sharilaine, Dexter e Rappin Hood, MalaaK fala para ativistas negros em SP

Ativista Malaak Shabazz participou de conversa com a juventude negra em São Paulo, depois de conhecer bairro periférico

 

Texto e fotos: Frente de Mídias Negras SP

Em passagem pelo Brasil, a ativista dos direitos humanos e filha do líder negro norte americano Malcolm X, Malaak Shabazz, convidou a população negra a promover ações mais contundentes. Na entrevista que concedeu à imprensa negra após encontro com jovens na cidade de São Paulo, na tarde desta quinta-feira (19), a ativista diz ter se surpreendido pelo fato de as pessoas estarem tão tranqüilas diante da violência racista existente no Brasil.

 

IMG_0988
Auditório da Galeria Olido, tomado por ativistas negros/as

“[minha mãe] criou seis filhas ao mesmo tempo em que se dedicava à construção de uma sociedade livre do racismo”.

Pelo menos 400 pessoas se aglomeraram no auditório da Galeria Olido, no centro de São Paulo, para ouvir Malaak e, também, dar notícias sobre as condições de vida da população negra. O público era maior, mas muitos ficaram de fora por ordem dos bombeiros. Entre os diversos temas abordados, a ativista norte-americana falou sobre feminismo negro, desigualdade de gênero, representatividade negra na política, governo Obama e também suas impressões sobre o racismo no Brasil e o genocídio afeta sobretudo moradores da periferia.

 

IMG_1020
Malaak com o rapper Dexter e o Secretário de Promoção da Igualdade Racial da cidade de SP

Na partilha de experiências, Malaak fez análise da conjuntura política e abordou temas que estão presentes tanto na sociedade norte-americana quanto na brasileira, como a repressão policial e a necessidade de articulação entre os movimentos negros.

IMG_0999
Imigrante e cineasta nigeriano faz tradução simultanêa e é ovacionado pelo público.

A ativista compartilhou momentos importantes da biografia de seu pai, mas fez questão de enfatizar o papel da mãe na luta antirracista. A também ativista Dra. Betty Shabbaz, “criou seis filhas ao mesmo tempo em que se dedicava à construção de uma sociedade livre do racismo”. Atuou, sobretudo, na criação de condições para que os jovens negros pudessem ter acesso à educação de forma subsidiada.

 

DSC08560
Entrevista coletiva à Frente de Mídias Negras SP

Horas antes da palestra, promovida pela Secretaria Municipal de Promoção da Igualdade Racial (SMPIR), Malaak conheceu o bairro de Cidade Tiradentes, na zona leste paulistana e pode conversar com moradores. Ao final a ativista demonstrou disposição em colaborar com a construção de um seminário internacional sobre o genocídio da população negra nas Américas, proposta pela Uneafro-Brasil.

A TV Drone fez a transmissão ao vivo e a disponibilizou em seu Canal no Youtube (Início a partir do 16.o minuto).

 

 


 

Publicidade colaborativa

Presenteie camisetas da Uneafro-Brasil

A Uneafro-Brasil está com novos modelos de camisetas engajadas e temáticas de valorização da cultura negra brasileira. Conheça e faça seu pedido. Com isso, além de adquirir um produto de qualidade, beleza e com uma mensagem de consciência negra, de quebra contribui para o auto-financiamento do trabalho sócio-educacional promovido pela Uneafro nas periferias de São Paulo e do Brasil.

Valor único para todas as peças, R$ 30,00 + frete.
Tamanhos (P, M, G ou GG), medidas e quantidades devem ser informadas no campo de descrição do produto.

Conheça esses e outros modelos e faça seu pedido AQUI

 

1185010_161445260720070_1710572108_n943354_161445417386721_1327929719_n 541394_161445327386730_92739506_n  150696_161445367386726_1458581424_n1230010_161445250720071_94091394_n8312_161445217386741_536225636_n1229958_161445210720075_2009434214_n      994828_161445347386728_151713548_n

Categorias
Destaque Escrita da história

Consciência negra e racismo: Educação é a saída

o-negro

 

Por Douglas Belchior 

 

A história do Brasil é uma história de Genocídios:O Genocídio das populações originárias, renomeada indígena. Estima-se que os portugueses encontraram nestas terras mais de 1.000 povos que perfaziam de dois a seis milhões de pessoas.

O Genocídio negro, através de um regime de escravidão que durou 388 anos e que custou o sequestro e o assassinato de cerca de 7 milhões de seres humanos africanos e outros tantos milhões de seus descendentes.

O Genocídio negro e o  indígena continuam, caracterizados hoje pela ação do Estado e de seus governos através da violência dirigida às poucas comunidades indígenas e quilombolas e ao povo negro das cidades, ambos barbaramente vitimados pela ação policial, bem como pela negação de direitos sociais e de oportunidades, cristalizadas a partir da abolição da escravidão.

É preciso admitir: Temos no currículo, infelizmente, um dos maiores crimes de lesa-humanidade já vistos.

20 de Novembro é o Dia Nacional da Consciência Negra. É o momento de celebrar a memória Zumbi dos Palmares e Dandara, herói e heroína do povo brasileiro. Mas acima de tudo é um dia de reflexão e busca de novas formas para enfrentar a triste herança de tanta violência e opressão: o racismo.

Neste mês de Novembro, é preciso destacar e reafirmar a atuação que escolhemos e acreditamos ser a mais eficiente maneira de combater o racismo e tudo que cerca e alimenta na mentalidade coletiva a naturalização da violência e as injustiças dirigidas ao povo negro brasileiro: a Educação Popular.

Os Cursinhos Comunitários da UNEafro-Brasil, organizados em 42 Núcleos de Base em bairros de periferias de São Paulo (a maioria), mas também em Duque de Caxias (RJ), em Salvador (BA) e no Pará (Altamira), se propõe ao mesmo tempo, oferecer um serviço de reforço escolar e preparação para vestibulares e para o ENEM e trabalhar também conteúdos que visam o aguçamento da capacidade crítica dos estudantes e seu possível engajamento nas causas populares de enfrentamento ao racismo, ao machismo, à homofobia e a todos as formas de opressão e injustiças.

 

 

Conheça a história de Cinthia, jovem negra moradora do Capão Redondo que se formou em Medicina.

 

 

Assista o Documentário sobre o trabalho da Uneafro-Brasil

 

 

Nesse 20 de Novembro, dia Nacional da Consciência Negra, nossa celebração é reafirmar o que fazemos todos os dias do ano e há muitos: A busca por uma nova mentalidade, através da educação. E feliz dia da Consciência Negra para todos nós!

Hoje vejo 500 anos passando na frente dos meus olhos

Sinto arrepios pelo corpo, suor e sangue a escorrer

Arde as costas, cicatrizes que nunca vi mas sempre senti

O corpo balança… involuntário, como em dança ao som de um batuque…

O sorriso ainda está, apesar da dor

E há vida, há esperança e amor

Hoje, acompanhado por milhões

Sou fruto da história da minha cor.

E Zumbi vive em mim.

Em nós!

Zumbi

Categorias
Destaque Escrita da história

20 de novembro: ponha a mão na consciência e exija justiça!

Escultura em bronze de Zumbi dos Palmares, herói da resistência negra contra a escravidão, instalada na Praça de Sé, Salvador.
Escultura em bronze de Zumbi dos Palmares, herói da resistência negra contra a escravidão, instalada na Praça de Sé, Salvador.

20 de Novembro é dia de ocupar as ruas contra o racismo e por justiça histórica!

Compartilhe o evento no facebook

Por Douglas Belchior

“Consciência”, do Latim “conscientia”, conhecimento próprio, senso moral, noção do que é direito, de “conscire”, ser mutuamente alerta, de “com”, junto, com, mais “Scire”, saber, conhecer; Sentimento ou conhecimento que permite ao ser humano vivenciar, experimentar ou compreender aspectos ou a totalidade de seu mundo interior; sentido ou percepção que o ser humano possui do que é moralmente certo ou errado em atos e motivos individuais.

“Negra”, termo político cunhado, resignificado e reivindicado pelo movimento negro brasileiro como condição própria dos descendentes de africanos, sobretudo da imensa população composta por milhares de seres humanos que foram capturados, raptados, torturados e mortos por 388 anos ou ¾ da história oficial brasileira, e que após a abolição, foram e ainda hoje são alijados de direitos humanos fundamentais.

 

Cicatrizes de chibatadas nas costas de um escravo.
Cicatrizes de chibatadas nas costas de um escravo.

Consciência Negra, exercício de memória, conhecimento da história e do quanto o Brasil se fez e ainda hoje se sustenta sob a lógica da supremacia racial branca, dos privilégios naturalizados para brancos e da desigualdade estruturada a partir da lógica racial.

O Dia da Consciência Negra é, sobretudo, um recado à sociedade brasileira: Jamais esqueceremos; Exigimos reparações; Construímos este país e sua riqueza. E faremos justiça!

Ponha a mão na consciência e participe da Marcha do neste dia 20 de Novembro, na Avenida Paulista em SP e nas centenas de cidades que organizarão a Marcha da Consciência Negra 2015.

 

12072559_1650263911912170_6099709463125838603_n

 

XII Marcha da Consciência Negra – ZUMBI MAIS 20 (1995 – 2015)

CONTRA O GENOCÍDIO, EM DEFESA DA DEMOCRACIA, PELO DIREITO A CIDADANIA PLENA!

Nós, negras e negros do Brasil marchamos em 2015, vinte anos após a épica Marcha Nacional Zumbi dos Palmares contra o Racismo, pela Igualdade e a Vida,  de 1995, ocasião em que celebramos os 300 anos de Zumbi e forçamos o Estado brasileiro a reconhecer oficialmente o racismo como problema nacional. Isto abriu  espaço para a instituição de políticas públicas específicas de combate ao racismo.

E marchamos em um momento difícil para a população negra. Momento em que setores conservadores, com apoio da maioria dos meios de comunicação, tramam golpes e, principalmente, forçam a instituição de retiradas de direitos trabalhistas e sociais para favorecer os interesses do grande capital financeiro nacional e internacional. Clamam por corte de gastos principalmente na área social, pela extinção de espaços institucionais conquistados pelo movimento negro, como a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR). Entretanto, recusam discutir mecanismos de combate a sonegação de impostos praticada pelo grande capital que, segundo o SINPROFAZ  (Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional) retirou  dos cofres públicos somente neste ano mais de 377 bilhões de reais, que seria suficiente para pagar mais de 5 bilhões de bolsas família ou construir quase 11 milhões de casas populares.

 

A pirâmide social naturalizada no Brasil
A pirâmide social naturalizada no Brasil

A solução para a desigualdade social e racial para os setores conservadores é a violência.

A violência contra a Mulher Negra expressa em dados e estatísticas, no feminícídio, nos 9 anos da Lei Maria da Penha sobre a violência doméstica e o aumento da mortalidade materna.

A violência através das práticas de intolerância religiosa contra espaços, símbolos, lideranças e seguidores das religiões de matriz africana.

A violência contra os homens e mulheres quilombolas em luta pela garantia do direito a propriedade de suas terras garantida pelo Constituição Federal desde 1988.

A violência que se manifesta pelo genocídio da juventude negra prática denunciada pelo movimento negro desde os anos 1980 e que vem se intensificando.  Relatório da Anistia Internacional deste ano aponta que a Polícia brasileira é a que mais mata no mundo.  O Mapa da Violência mostra que 77% de jovens mortos é negra. Uma CPI instalada na Câmara Federal reconheceu, no seu relatório final, a existência da prática do genocídio da juventude negra.

 

violencia12

 

 

Há uma ação dos setores conservadores para intensificar e institucionalizar este genocídio. Foi aprovado na Câmara Federal, depois de uma manobra antidemocrática  dos setores conservadores, liderados pelo presidente da casa parlamentar, deputado Eduardo Cunha, a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 171 que reduz a maioridade penal para 16 anos para crimes hediondos, apesar dos dados mostrarem que apenas 1% destes crimes ser praticada por menores de 18 anos. A proposta está em tramitação no Senado e há uma tendência de não aprová-la, porém com a aprovação do PLS 333/15 que altera o Estatuto da Criança e Adolescente (ECA) de aumento do tempo de internação dos atuais três anos para até dez anos.

Mesmo o ECA não sendo respeitado na maioria das localidades, há um nítido ataque a esta legislação que foi fruto também de grande pressão dos movimentos sociais e do movimento negro.

 

violencia

Outra ação dos setores conservadores é a aprovação do Projeto de Lei 3722/12 que revoga o Estatuto do Desarmamento. Pela proposta, haverá uma flexibilização tal nas exigências para o porte de arma de fogo que possibilitará que pessoas com mais recursos poderão armar-se fortemente e gerar verdadeiros “exércitos privados”. As pesquisas mostram que a posse de arma não garante segurança, 46% das pessoas que foram assaltadas e estavam armadas acabaram mortas, desmentindo a argumentação de que tal projeto possibilitará maior segurança ao cidadão. A maioria dos deputados que apoia este projeto tiveram suas campanhas eleitorais financiadas por indústrias de armamentos.

Por sua vez, o movimento negro tem propostas para este tema. Defendemos a aprovação da PEC 51/13 que desmilitariza as polícias. É uma excrescência a existência da Polícia Militar, uma herança da ditadura não revogada. A concepção militar implica em combater um inimigo. Para a PM, o inimigo é o homem negro, a mulher negra, o jovem negra e o jovem negro. São os “tipos suspeitos”. A PM impõe um verdadeiro estado de sítio nas periferias das grandes cidades, com prisões arbitrárias, execuções extrajudiciais, invasões de domicílios sem mandado judicial, além da prática de torturas. O primeiro passo para acabar com isto é que a polícia seja desmilitariza e sob controle da sociedade, a quem deve defender.

 

Zumbi

Além disto, é preciso acabar com o famigerado instrumento dos autos de resistência. Por isto, defendemos também a aprovação do Projeto de Lei 4471/12 que põe fim a este instrumento que tem sido utilizado fartamente pela PM para justificar as execuções realizadas na periferia e fugir de qualquer apuração ou julgamento. Os autos de resistência possibilitam a PM a atuar como uma força autônoma, acima das leis e da Justiça.

O racismo tem se manifestado também na disseminação de ideias xenófobas contra nossos irmãos imigrantes de países africanos e do Haiti. Em busca de oportunidades, estes irmãos nossos são costumeiramente agredidos. O racismo fica mais que nítido neste comportamento: o Brasil recebeu diversas outras comunidades de imigrantes europeus e asiáticas e elas foram plenamente integradas na vida social do país, obtendo, graças a várias políticas de apoio por parte do governo, uma ascensão social significativa. Esta mesma situação não se verifica no caso dos imigrantes africanos e haitianos: são hostilizados, agredidos, excluídos e sofrem toda sorte de bloqueios a sua integração à sociedade brasileira.

 

images

 

Trinta anos após o fim da ditadura militar, o povo negro ainda não tem sua cidadania plenamente respeitada, a periferia ainda vive em uma situação típica da ditadura. Por isto, a democracia precisa chegar plenamente à periferia e ao povo negro!

Zumbi mais 20!

– Não a redução dos direitos sociais e ao ajuste fiscal, os ricos que devem pagar a conta da crise

– Contra a redução da maioridade penal, ao aumento do tempo de internação e em defesa do Estatuto da Criança e Adolescente (ECA)

– Contra o Projeto de Lei 3722/12 que revoga o Estatuto do Desarmamento.

– Pela aprovação da PEC 51/13 que desmilitariza as polícias.

– Pela aprovação do Projeto de Lei 4471/12 que põe fim aos autos de resistência

– Pelo respeito as religiões de matriz africana e combate a intolerância religiosa

– Apoio às bandeiras de luta da Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver do dia 18 de Novembro em Brasília.

– Combate a intolerância e xenofobia praticadas contra os refugiados e imigrantes africanos e haitianos.

Coordenação da Marcha da Consciência Negra – 20 de novembro de 2015


Publicidade colaborativa

Presenteie camisetas da Uneafro-Brasil

A Uneafro-Brasil está com novos modelos de camisetas engajadas e temáticas de valorização da cultura negra brasileira. Conheça e faça seu pedido. Com isso, além de adquirir um produto de qualidade, beleza e com uma mensagem de consciência negra, de quebra contribui para o auto-financiamento do trabalho sócio-educacional promovido pela Uneafro nas periferias de São Paulo e do Brasil.

Valor único para todas as peças, R$ 30,00 + frete.
Tamanhos (P, M, G ou GG), medidas e quantidades devem ser informadas no campo de descrição do produto.

Conheça esses e outros modelos e faça seu pedido AQUI

 

1185010_161445260720070_1710572108_n943354_161445417386721_1327929719_n 541394_161445327386730_92739506_n  150696_161445367386726_1458581424_n1230010_161445250720071_94091394_n8312_161445217386741_536225636_n1229958_161445210720075_2009434214_n      994828_161445347386728_151713548_n

Categorias
Destaque Violência Policial

Malaak Shabazz, filha de MalcolmX, participa de encontro em SP

176397_mediumlarger

Ao lado do rapper Dexter, Malaak vai discutir situação da juventude negra e da violência racial no Brasil

 

De São Paulo

Discutir a situação preocupante que atinge boa parcela da população jovem e negra brasileira, que tem os homicídios como a principal causa de morte, especialmente de pessoas na faixa de 15 a 29 anos, do sexo masculino, moradores de periferias e áreas metropolitanas dos centros urbanos. Este é um dos motivos que trará pela primeira vez ao Brasil a ativista Malaak Shabazz, filha do lendário líder negro Malcolm X (1925-1965), que ficou famoso nos anos 50/60 por lutar contra o regime racista dos Estados Unidos. A atividade é aberta ao público.

Malaak, especialista em direitos humanos internacionais, atua na ONU há 29 anos e é uma das convidadas ao lado do rapper Dexter, para falar no Seminário Juventude Negra, que acontece nesta quinta-feira, às 14 horas, no auditório da Galeria Olido (Avenida São João, 473), no Centro. O evento é promovido pela Secretaria Municipal de Promoção da Igualdade Racial de São Paulo, como parte da Semana da Consciência Negra.

 

A filha de Malcolm X , Malaak Shabazz participa do comício integrado à “marcha dos escravos”, em 8 de Maio de 2011, na cidade ocidental francesa de Nantes. Esta marcha anual é realizada em Nantes na França. AFP PHOTO / JEAN- SEBASTIEN EVRARD ( Crédito da foto deve ler Jean-Sebastien EVRARD / AFP / Getty Images )

O encontro pretende integrar os agentes sociais, formadores de opinião e especialistas entorno de indicadores que colocam a população jovem em situação de exclusão em áreas como educação, saúde e emprego, mas o enfrentamento da violência ganhará maior destaque.

De acordo com dados do Mapa da Violência 2014: Os Jovens do Brasil, em 2012, dos 56.337 mortos por homicídios, no Brasil, 53,37% eram jovens. Destes, 77% eram negros (assim considerados a soma de pretos e pardos) e 93,3% eram homens. De 2002 a 2012, o número de homicídios de jovens brancos caiu 32,3%, e de jovens negros aumentou 32,4%.

A programação da Semana da Consciência Negra segue até dia 24 de novembro e estão previstos shows, debates, feira de artes, artesanato e performances de grupos culturais no Largo do Paissandu. Dia 20 de novembro, a partir das 11h30, no Vale do Anhangabaú haverá grande show com artistas como Izzy Gordon, Banda Black Rio, chico César, Nereu Mocotó, Tereza Gama, Leci Brandão, Jorge Aragão, Arlindo Cruz Alcione e Escola de Samba Vai-Vai.

 

malcolm2-350x522

Sobre Malaak Shabazz

Malaak Shabazz é a filha mais nova dos ativistas de direitos humanos globais Dra. Betty Shabazz e El Haji Malik Shabazz (Malcolm X), e atua na comunidade de ONGs da Organização das Nações Unidas (ONU) há 29 anos.

Ela é especialista em questões de direitos humanos internacionais, como “Descolonização e a eliminação do racismo e discriminação, com ênfase na situação de meninas”, e “Erradicação da violência contra mulheres em conflitos armados e catástrofes climáticas”. Além disso, está envolvida com a fundação Worldwide Orphans (WOO), que monitora as condições de crianças órfãs em desastres. E, por meio de seu trabalho com a organização britânica Human Appeal, mobiliza conscientização internacional e ajuda humanitária para os refugiados do Oriente Médio.

Shabazz foi convidada para participar da 16a Sessão do Gripo de Trabaljo de Especialistas sobre Povos Afrodescendentes, em Genebra. Ela também recebeu certificado de presença e participação no XIX Congresso Internacional de Arte Rupestre IFRAO 2015, realizado em Cáceres, na Espanha.

Ela foi presidente da Subcomissão de Direitos Humanos da ONU para a Eliminação do Racismo e Discriminação. Malaak Shabazz é palestrante internacional e uma das dirigentes do Memorial e Centro Educacional Malcolm X e Dra. Betty Shabazz, o theshabazzcenter.net, em Nova Iorque.

Serviço

Seminário Juventude Negra
Data: 19 de novembro, às 14h
Local: Galeria Olido – Avenida São João, 473 – Centro


 

Publicidade colaborativa

Presenteie camisetas da Uneafro-Brasil

A Uneafro-Brasil está com novos modelos de camisetas engajadas e temáticas de valorização da cultura negra brasileira. Conheça e faça seu pedido. Com isso, além de adquirir um produto de qualidade, beleza e com uma mensagem de consciência negra, de quebra contribui para o auto-financiamento do trabalho sócio-educacional promovido pela Uneafro nas periferias de São Paulo e do Brasil.

Valor único para todas as peças, R$ 30,00 + frete.
Tamanhos (P, M, G ou GG), medidas e quantidades devem ser informadas no campo de descrição do produto.

Conheça esses e outros modelos e faça seu pedido AQUI

 

1185010_161445260720070_1710572108_n943354_161445417386721_1327929719_n 541394_161445327386730_92739506_n  150696_161445367386726_1458581424_n1230010_161445250720071_94091394_n8312_161445217386741_536225636_n1229958_161445210720075_2009434214_n      994828_161445347386728_151713548_n