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Alckmin e Haddad são responsáveis pela violência policial nas manifestações do MPL

Por Douglas Belchior, com fotos dos Jornalistas Livres

A violência e a negação do direito constitucional de manifestação tem sido a maneira pela qual o estado e a prefeitura de SP tem respondido às manifestações convocadas pelo MPL. A presença desproporcional da polícia nas mobilizações, seu vasto armamento, sua conduta e procedimentos, suas táticas de intimidação e cercamento e o tradicional “uso desproporcional da força” são, no limite, práticas autorizadas e legitimadas pelos governantes.

Os massacres com data e hora marcada, como o do último dia 12/01 na av. Paulista e o desta quinta, 21/01, na Praça da República, deturpados e invisibilizados pelos grandes meios de comunicação, mas devidamente registrados pelas redes de comunicação alternativas, caracterizam agressão à população e à própria ideia – insustentável – de democracia. São, sem nenhuma dúvida, violações de direitos humanos sob a responsabilidade direta do governador Geraldo Alckmin (PSDB), o comandante em chefe das armas do Estado. Mas também do prefeito Fernando Haddad (PT). E quero dizer o porquê.

Se quiser se diferenciar, Haddad que cancele o aumento e diga que não admite a barbárie nas ruas de sua cidade. Até lá, na repressão aos protestos contra o aumento, a PM age tbm em seu nome!

Antes ainda, um registro: por mais que se possa discutir e até discordar da forma ou das táticas utilizadas pelo MPL em suas mobilizações – e eu, particularmente não discordo – sua causa é nobre. Estão corretos, a meu ver, não que isso importe, no mérito da questão relacionada ao direito à cidade e a crítica em relação a situação do transporte público. São, portanto, legítimos.

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Foto: Jornalistas Livres

 

 

 

 

 

 

 

Existe um “tema gerador” dos debates e da mobilização contra o aumento das tarifas (quem gosta de Paulo Freire sabe bem a importância e o significado dos temas geradores). E nesse caso, qual é o tema gerador?

O aumento do valor das tarifas, claro!

Tudo o que decorre a partir daí é sim de responsabilidade (também ou principalmente) daqueles que deram vida ao tema gerador. E quem são?

A medida em que o governador do estado de São Paulo e o prefeito da capital impuseram o tema, este gerou debate e mobilização contrária. Para garantir a imposição de suas decisões, os governantes tem à seu serviço o poder das armas do estado.

Tem sido assim nas manifestações do MPL. É assim sempre.

Óbvio que o comando da PM está nas mãos de Alckmin e não de Haddad. Mas esse está a serviço daquele, pela manutenção da decisão política de ambos.

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Foto: Jornalistas Livres

 

Pouco importa, para quem inala gás lacrimogêneo, sente o cassetete ou é atingido pelos tiros, de quem é a palavra de ordem para o ataque ou a jurisdição à qual responde o batalhão policial. Importa que a violência acontece. E que esta está à serviço da imposição do tema gerador.

Digo isso por perceber a insatisfação de vários correligionários e apoiadores do prefeito diante da co-responsabilização pela violência na Paulista.

Óbvio que o comando da PM está nas mãos de Alckmin e não de Haddad. Mas, fato incontestável neste caso, é que esse está a serviço daquele, pela manutenção da decisão política de ambos. Na política relacionada ao transporte público, Alckmin e Haddad se igualam. Ambos fazem política para deleite e satisfação dos interesses dos empresários do setor. Não há como negar isso.

Que Alckmin e seu governo são fascistas e sua polícia genocida, não tem dúvida. Mas como explicar, pelo amor de Deus, a sintonia das ações entre esses dois governos que se dizem tão diferentes?

Incompreensível, do ponto de vista político, a decisão de Haddad em aumentar as tarifas. Pior: combinar o aumento com Alckmin; Pior ainda: não perceber o quanto se deixa desgastar muito mais que Alckmin em toda essa confusão, se não, vejamos:

Alckmin aumenta as tarifas do trem e do metrô, dois meios de transportes de massas; Haddad de um só, os ônibus municipais; A decisão de Alckmin tem impacto econômico muito maior, uma vez que ela irradia não só na capital, mas em toda a região metropolitana. E em dobro.

Mas onde está o nó, o drible, a finta, a caneta, a bola por debaixo das pernas que Alckmin enfia – repetindo 2013 – em Haddad?

O MPL, acertadamente, elege a capital da maior cidade da América Latina como palco de suas manifestações. A tática de paralisar o trânsito – mesmo sem querer – é, de longe, a de maior impacto numa cidade que depende de carros e rodovias para existir. E em rodovias não transitam trens ou metrôs, e sim ônibus.

Não se trata de lembrar de Haddad e poupar Alckmin, como gritam alguns. Tratam-se de condições objetivas de mobilização e sua efetividade. Isso somado ao controle absoluto dos grandes meios de comunicação e seu consistente bloqueio à imagem do picolé de chuchu, está completa a equação: Haddad se dá mal. Alckmin sai ileso.

E os prefeituráveis Russomano, João Doria Jr. e Marta e a direita histórica paulistana, agradecem.

Se quiser se diferenciar de Alckmin e do PSDB, Haddad que chame uma coletiva de imprensa, declare o cancelamento do aumento da tarifa dos ônibus e diga que não admite a barbárie promovida pela PM nas ruas de sua cidade.

Até lá, na repressão aos protestos contra o aumento, a PM age também em seu nome.

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Eu tive medo!

Por Igor Carvalho,

Como jornalista, acompanhei quase todos os atos de 2013, inclusive o fatídico 13 de junho. As primeiras manifestações foram marcadas, assim como as duas primeiras desse ano, pela violência policial, só escancarada pela grande mídia quando seus repórteres passaram a ser alvos da sanha bélica da Polícia Militar. Apesar da ofensiva militarizada do Estado contra manifestantes, nunca senti medo. Ontem, o medo me veio ao peito pela primeira vez em uma manifestação.

Cheguei ao ato pela rua da Consolação. Enquanto a subia, em direção à avenida Paulista, notei que a via estava completamente interditada pela PM. Em praticamente todos os acesso havia policiais fortemente armados e que já olhavam para nós, que subíamos para o ato, como inimigos. Enquanto caminhava, refletia sobre o que significam as forças de “””””segurança”””””” do Estado tratarem os que lutam por melhorias sociais e direitos básicos como inimigos. Usando como referência os blindados israelenses da PM paulista, é como se fossemos palestinos caminhando para Gaza – com o pedido de perdão devido ao povo da Palestina pela comparação, que é quem, de fato, é assassinado diariamente.

Quando cheguei na esquina da avenida Paulista com a rua da Consolação, próximo das 18h, não consegui passar o bloqueio policial e acessar a Praça do Ciclista, ponto de concentração. Encontrei alguns amigos da imprensa e dos movimentos sociais, a sensação de todos que olhavam o cerco da PM era a mesma: “eles vão massacras os manifestantes”. Uma amiga querida, repórter, estava indo ao primeiro ato depois de 2013, por conta dos traumas que a violência policial lhe provocaram.

Diego após ter a cabeça aberta por um policial (Foto: José Eduardo Bernardes)
Diego após ter a cabeça aberta por um policial (Foto: José Eduardo Bernardes)

A tentativa de negociação pelo trajeto foi o princípio de todas as afrontas à democracia. Qualquer movimento social, de qualquer linha ideológica, deve ter soberania para decidir qual espaço público quer ocupar para se manifestar. Instantes antes do massacre, algo que a polícia chama de “diálogo”. Me aproximei de Matheus Preis, militante do MPL, para entender a contenda. Um soldado bateu em minha perna com o cassetete. Questionei. “Estamos só começando”, me respondeu. Entendi o recado. Fomos emboscados!

Não houve protesto. No meio da discussão sobre o itinerário, bombas. Muitas. 49 em seis minutos. Quando olhei para a multidão, policiais sacavam seus “sprays” de pimenta e esvaziavam no rosto dos manifestantes. Foi neste momento, que quem estava fora do cerco armado pela PM se tornou alvo. Nos miraram e atiraram. Vi nos olhos deles o prazer de apertar o gatilho sem que isso seja questionado. O braço armado do capital, formado por explorados, ataca os que lutam para melhorar a vida de seus filhos e filhas.

Corri no meio da fumaça. Ao meu lado, três bombas estouraram e uma mulher caiu. A levantei e voltamos a correr. “Nem manifestante sou, só quero ir pra casa”, me disse depois. Quando vencemos a névoa, estávamos na pequena Praça José Molina. A rua tem o formato de uma ferradura, seu início e seu fim são na avenida Paulista. Era uma cilada.

Passei cerca de quinze minutos tentando voltar à Paulista, queria ver se encontrava as pessoas que estavam comigo. A cada investida, novas bombas. O estopim foi quando a Tropa de Choque correu em nossa direção na estreita praça. Estávamos encurralados. Bombas de gás varreram o céu e caíram ao nosso lado, éramos cerca de trinta pessoas. Mais uma vez, corremos.

Pelo outro lado, chegamos à Paulista. No caminho, muitos feridos e detidos. Uma parte dos manifestantes se reagrupou e começou a descer a Consolação. Entendemos que era uma trégua. Ultrapassamos o Cemitério da Consolação quando uma barreira policial se formou no quarteirão seguinte. Entre a hesitação e o medo, os manifestantes fizeram a escolha errada. Mudaram o trajeto e entraram na rua Sergipe. Deram a senha. Quando metade da rua foi alcançada, percebemos que em nossa frente e nas nossas costas só havia a PM. Bombas. Muitas.

Uma senhora desavisada tenta, em vão, acalmar seu cachorro que se assustou. Um senhor anda incólume pela via, com seu saco de pão, sabedor de que tem o perfil de morador de Higienópolis, ele não é inimigo.

No Pão de Açúcar, que fica no entroncamento da avenida Angélica com a rua Sergipe, os funcionários fecham as portas. O cerco policial segue avançando. A porta do supermercado, agora, só abre para quem não tem o “perfil de manifestante”. Ao meu lado, um policial abre a cabeça de Diego com um cassetete. O sangue toma conta de seu rosto e já deixa rastros pela rua. Desesperado, o jovem quer apenas lavar o rosto. O supermercado não abre as portas para uma pessoa ferida, sangrando.

O massacre que pressentimos, agora era realidade. Passava de 21h quando consegui me sentir seguro, longe de qualquer PM. Duas horas escapando de cercos e bombas. No caminho de volta, notícias e boatos se misturam. A grávida que perdeu o filho, o homem que perdeu o olho, o manifestante que perdeu a paciência, a estação que perdeu um portão, o Haddad que perdeu mais uma chance, o secretário de Segurança Pública que perdeu a oportunidade de ficar de boca calada e o Alckmin que nunca perde nada. Eu ganhei algo, o medo de me manifestar. Eles acham que vão ganhar. Acham.

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MPL e violência da PM: das responsabilidades de Alckmin e Haddad

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Por Douglas Belchior

Estive na Paulista ontem, 12 de Janeiro de 2016, no ato convocado pelo Movimento Passe Livre, em função dos aumentos das tarifas dos ônibus municipais de SP, do trem e do metrô. De pronto se percebia o que estaria por vir. A presença desproporcional da polícia e seu vasto armamento era a senha. Tinha que dar merda. E deu.

Pudera. Sequer um quarteirão fora totalmente ocupado pelos manifestantes. O cerco covarde, seguido do clássico uso “desproporcional da força”, resultou num massacre, amplamente divulgado pelas redes de comunicação alternativas. Percebi o quanto meu corpo não é mais o mesmo. Nem tão leve, nem tão rápido. E senti mais medo que em Junho de 2013.

Ali, me senti agredido e violentado pela PM, mas sobretudo pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB), o comandante em chefe das armas do Estado. Mas também pelo prefeito Fernando Haddad (PT). E quero dizer o porquê.

 

Se quiser se diferenciar, Haddad que cancele o aumento e diga que não admite a barbárie nas ruas de sua cidade. Até lá, na repressão aos protestos contra o aumento, a PM age tbm em seu nome!

Antes ainda, um registro: por mais que se possa discutir e até discordar da forma ou das táticas utilizadas pelo MPL em suas mobilizações – e eu, particularmente não discordo – sua causa é nobre. Estão corretos, a meu ver, não que isso importe, no mérito da questão relacionada ao direito à cidade e a crítica em relação a situação do transporte público. São, portanto, legítimos.

Existe um “tema gerador” dos debates e da mobilização contra o aumento das tarifas (quem gosta de Paulo Freire sabe bem a importância e o significado dos temas geradores). E nesse caso, qual é o tema gerador?

O aumento do valor das tarifas, claro!

Tudo o que decorre a partir daí é sim de responsabilidade (também ou principalmente) daqueles que deram vida ao tema gerador. E quem são?

A medida em que o governador do estado de São Paulo e o prefeito da capital impuseram o tema, este gerou debate e mobilização contrária. Para garantir a imposição de suas decisões, os governantes tem à seu serviço o poder das armas do estado.

Foi assim ontem. É assim sempre.

 

Óbvio que o comando da PM está nas mãos de Alckmin e não de Haddad. Mas esse está a serviço daquele, pela manutenção da decisão política de ambos.

Pouco importa, para quem inala gás lacrimogêneo, sente o cassetete ou é atingido pelos tiros, de quem é a palavra de ordem para o ataque ou a jurisdição à qual responde o batalhão policial. Importa que a violência acontece. E que esta está à serviço da imposição do tema gerador.

Digo isso por perceber a insatisfação de vários correligionários e apoiadores do prefeito diante da co-responsabilização pela violência na Paulista.

Óbvio que o comando da PM está nas mãos de Alckmin e não de Haddad. Mas, fato incontestável neste caso, é que esse está a serviço daquele, pela manutenção da decisão política de ambos. Na política relacionada ao transporte público, Alckmin e Haddad se igualam. Ambos fazem política para deleite e satisfação dos interesses dos empresários do setor. Não há como negar isso.

Que Alckmin e seu governo são fascistas e sua polícia genocida, não tem dúvida. Mas como explicar, pelo amor de Deus, a sintonia das ações entre esses dois governos que se dizem tão diferentes?

Incompreensível, do ponto de vista político, a decisão de Haddad em aumentar as tarifas. Pior: combinar o aumento com Alckmin; Pior ainda: não perceber o quanto se deixa desgastar muito mais que Alckmin em toda essa confusão, se não, vejamos:

Alckmin aumenta as tarifas do trem e do metrô, dois meios de transportes de massas; Haddad de um só, os ônibus municipais; A decisão de Alckmin tem impacto econômico muito maior, uma vez que ela irradia não só na capital, mas em toda a região metropolitana. E em dobro.

Mas onde está o nó, o drible, a finta, a caneta, a bola por debaixo das pernas que Alckmin enfia – repetindo 2013 – em Haddad?

O MPL, acertadamente, elege a capital da maior cidade da América Latina como palco de suas manifestações. A tática de paralisar o trânsito – mesmo sem querer – é, de longe, a de maior impacto numa cidade que depende de carros e rodovias para existir. E em rodovias não transitam trens ou metrôs, e sim ônibus.

Não se trata de lembrar de Haddad e poupar Alckmin, como gritam alguns. Tratam-se de condições objetivas de mobilização e sua efetividade. Isso somado ao controle absoluto dos grandes meios de comunicação e seu consistente bloqueio à imagem do picolé de chuchu, está completa a equação: Haddad se dá mal. Alckmin sai ileso.

E os prefeituráveis Russomano, Datena, João Doria Jr. e Marta agradecem.

Se quiser se diferenciar de Alckmin e do PSDB, Haddad que chame uma coletiva de imprensa, declare o cancelamento do aumento da tarifa dos ônibus e diga que não admite a barbárie promovida pela PM nas ruas de sua cidade.

Até lá, na repressão aos protestos contra o aumento, a PM age também em seu nome.

 

 

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“Fim dos autos de resistência”: temos o que comemorar?

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Por Cristian Ribas* e Rodger Richer**

Nos últimos dias, veicula-se nas redes sociais e meios de comunicação em geral o “fim dos autos de resistência”. Essa informação deriva daquilo que consta na Resolução Conjunta nº 2, de 13 de Outubro de 2015 do Conselho Superior de Polícia e do Conselho Nacional dos Chefes da Polícia Civil, publicada no Diário Oficial da União do dia 4 de janeiro de 2015 que, em síntese, põe fim ao uso do termo “autos de resistência” ou “resistência seguida de morte” nos boletins de inquéritos e ocorrências policiais em todo o país.

Ao nos depararmos com tal notícia imediatamente pensamos: que ótimo início de ano! Contudo, e infelizmente analisando mais detalhadamente a resolução, encontramos profundas divergências. Vejamos:

1º – Embora seja inspirada na Resolução nº 8 de 21 de dezembro 2012, do Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH), vinculado à Secretaria Nacional de Direitos Humanos (SDH), que dispõe sobre a abolição de designações genéricas como “autos de resistência” e “resistência seguida de morte” em registros policiais, boletins de ocorrência, inquéritos policiais e notícias de crime, a publicação mantém a presunção de inocência do agente policial diante do homicídio, legítima defesa, estado de necessidade, estrito cumprimento de dever legal ou exercício regular de direito.

A alteração do uso dos termos “autos de resistência” ou “resistência seguida de morte” para “lesão corporal decorrente de oposição à intervenção policial” ou “homicídio decorrente de oposição à ação policial” não rompe com mecanismos que produzem violações dos direitos humanos;

2º – A Resolução avança na uniformização dos procedimentos internos das polícias judiciárias federal e civil, adequando os procedimentos de investigação em casos de morte ou lesão corporal provocados pela ação policial. Porém, não estende-se à Polícia Militar. Segundo a pesquisaDesigualdade Racial e Segurança Pública em São Paulo – Letalidade policial e prisões em flagrante, realizada em 2014 pelo Grupo de Estudos sobre Violência e Administração de Conflitos da Universidade Federal de São Carlos (GEVAC/UFSCar), a Polícia Militar de Estado de São Paulo entre os anos de 2009 e 2011 foi responsável por 96% das mortes em ocorrências, contra 4% da Polícia Civil. Essa pesquisa aponta, ainda, que os policiais militares envolvidos em casos de homicídios são majoritariamente aqueles ligados a grupos especiais: 39% são integrantes da ROTA e 54% pertencem à Força Tática. Com isso, nota-se que a resolução não atinge justamente o grupo policial que concentra os maiores índices de letalidade.

 

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É um grande equívoco, portanto, celebrar o fim dos “autos de resistência”, dado que a resolução trata apenas da modificação da terminologia do registro para a parcela das polícias que se encontram fora da estrutura militar e que já são acompanhadas de maior controle social. Entretanto, permanece a lógica da atual política de segurança pública, marcada pelos signos da desigualdade e do racismo, das execuções extrajudiciais, da tortura, da violação dos direitos humanos, da aplicação seletiva das leis e do extermínio sistêmico de jovens negros e pobres.

Os “autos de resistência” foram criados como medida administrativa durante a Ditadura Militar a fim de legitimar a repressão do regime e hoje entende-se que muitas vezes funcionam como uma “licença para matar” e encobrir crimes por parte dos agentes públicos de segurança, embora o ordenamento jurídico brasileiro não preveja a exclusão da ilegalidade ou da investigação pelo simples registro dos “autos de resistência”. Ainda assim, a prática constitui-se como um “modus operandi’’ para as polícias e, em segundo plano, para o judiciário dispensar elementos fundamentais para o devido processo de investigação de um homicídio decorrente de intervenção policial.

Esta forma de registro de homicídios tem levado a uma omissão sistemática do Ministério Público, que teria como função a atuação no controle externo da atividade policial e a investigação isenta e imparcial das mortes decorrentes de ação policial, bem como a titularidade da ação penal – ou seja, aquele que oferece a denúncia. Segundo o relatório “Você matou meu filho”, divulgado pela Anistia Internacional em 2015, na cidade do Rio de Janeiro,cerca 80% dos casos de homicídio praticados por policiais militares em serviço foram arquivados sem que tivessem suas investigações concluídas entre 2014 e 2015. Esses índices chegam a ser maiores em outros estados. No ano de 2014, na cidade de São Paulo, apenas 4% dos policiais autores de homicídios foram indiciados.

Juventude negra – a carne mais barata do mercado!

 

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O racismo é um dos elementos estruturais da nossa atual política de segurança publica. Ele cria uma filtragem racial elegendo “inimigos” e classificando outros como “donos do poder”. Essa compreensão é refletida diretamente nas abordagens policiais que identificam na pessoa negra uma permanente suspeita, sobretudo em se tratando da juventude, principal alvo da ação violenta e fatal do Estado.

O Relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Violência contra Jovens Negros e Pobres, publicado em julho de 2015, reafirmou o que há décadas o movimento negro vem denunciando: a existência do Racismo Institucional impregnado no modelo de Segurança Pública e a existência de um Genocídio de jovens negros e pobres.

Essa Comissão apresenta uma série de recomendações que visam a combater a violência praticada contra a juventude negra brasileira, como a aprovação do Projeto de Lei 4471/12, de autoria do Deputado Federal Paulo Teixeira (PT-SP), que põe fim aos “autos de resistência” e dispõe que a vítima não seja classificada como resistente à intervenção policial antes da investigação e prevê regras mais rigorosas de apuração, ampliando o controle externo. O PL garante ainda que a família da vítima passe a ter o direito de fazer o acompanhamento presencial das investigações, a inclusão da Defensoria Pública no processo investigativo e exige o cumprimento da função por parte do Ministério Público, além de isolar a cena do crime de uma maneira mais eficiente, já que fica proibido o acesso dos policiais antes da chegada da perícia.

De acordo com o Mapa da Violência de (2015), no ano de 2012 morreram 2,5 mais negros que brancos no Brasil. As principais vítimas dessas mortes são jovens negros (entre 15 a 29 anos) com baixa escolaridade e moradores das periferias dos grandes centros urbanos. Dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM)/Datasus apontam que mais da metade dos 56.337 mortos por homicídio em 2012 no Brasil eram jovens (27.471, correspondente a 52,63%), sendo que 93,30% do sexo masculino e 77% negros.

Grande parte dessas mortes estão relacionadas à “guerra às drogas”. Contudo, o alvo dessa guerra não são as drogas: é a população negra e pobre. Afinal, no conflito entre o tráfico e a polícia quem está morrendo não são substâncias tornadas ilícitas ou até mesmo aqueles que efetivamente se beneficiam do lucro dessas vendas ilegais, mas sim a juventude negra.

O Racismo no Brasil se escancara quando nos deparamos com as diferenças alarmantes dos índices de homicídios entre negros e brancos. Segundo informações apresentadas no Relatório da CPI já citado, ser negro no Brasil significa nascer com a expectativa de vida 114% menor que uma pessoa branca, quando se trata de homicídios. A seletividade racial dos assassinatos em nosso país é a sem duvida hoje a violação de direitos humanos mais gritante e escandalosa pratica pelo Estado Brasileiro.

Apontar as contradições e os limites da Resolução conjunta nº 2, de 13 de Outubro de 2015, é também buscar mobilizar e sensibilizar a sociedade e o Poder Público para o fortalecimento de ações que assinalem que o efetivo fim dos chamados autos de resistência é tarefa vital para o Estado Democrático de Direitos e para a garantia do direito à vida da juventude negra.

Nossa sociedade e, principalmente, o Estado brasileiro precisam entender a necessidade e urgência para com a memória, a verdade e a justiça dos crimes da nossa democracia.

 


*Cristian Trindade Ribas é Membro do Conselho Nacional de Direitos Humanos e Secretário de Organização do Coletivo Nacional de Juventude Negra – ENEGRECER

**Rodger Richer é Diretor de Combate ao Racismo da UNE e membro do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR)

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Globo e governos: o que fazer com os corpos negros na cidade olímpica?

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Como pedir calma, paciência e paz aos que sofrem historicamente com a violência, a tortura e a morte?

Por Douglas Belchior

O empresário branco denuncia.

O telejornal de maior audiência do país noticia.

O tenente-coronel, militar branco, comenta: “Nos últimos 3 meses, 69 menores foram apreendidos; 120 foram encaminhados a setores competentes“.

O delegado da Policia Civil, branco, reafirma: “Em 2015, foram 80 operações em que 120 menores foram apreendidos”.

O representante do governo, branco também, diz: “A Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social faz ações junto com a polícia no Centro do Rio“.

E, para fechar com chave de ouro, como endosso técnico para dar credibilidade à matéria, um especialista faz leitura labial no preto que, segundo o jornal, treina o bando: “Com violência, sem dó nem piedade”.

Esse foi e enredo de uma reportagem levada ao ar no, dia 5 de janeiro de 2016, pelo Jornal Nacional da TV Globo. O mesmo conteúdo fora veiculado repetidas vezes nos noticiários locais da emissora durante o dia e repercutidos por toda a semana.

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A narrativa criminalizante somada à força das imagens faz da peça jornalística uma verdadeira apologia ao ódio contra aqueles que na verdade, são as principais vítimas da contradição social e econômica que vivemos: moradores de rua ou favelados, jovens e negros em sua maioria, e não só homens, mulheres também.

Novidade alguma, já que tais conteúdos tem lugar cativo nos programas policiais de qualidade duvidosa, nas tardes de emissoras de menor audiência.

Mas o que nos importa aqui é a promoção do tema ao patamar do “padrão globo de qualidade”, alçado ao horário nobre, no jornal de maior audiência da principal rede de TV do país. Isso, com certeza, não é por acaso.

 

A sociedade brasileira não tem moral para condenar adolescentes que batem carteiras, roubam celulares, relógios ou correntes nas esquinas do Rio de Janeiro ou qualquer outra cidade do país. O Brasil não tem moral”

O Rio de Janeiro sediará, daqui a poucos meses, o maior evento esportivo do planeta, as Olimpíadas de 2016. As ruas precisam ficar livres e limpas. Corpos negros, indisciplinados, mal educados, sujos e perigosos precisam ser varridos para longe. E a opinião pública precisa estar de acordo.

Cito as Olímpidas por ser, sem dúvida, prioridade atual dos governos Municipal e Estadual do Rio, bem como do Governo Federal. Mas a verdade é que a lógica higienista, racista e genocida de atuação do Estado está presente na história e no cotidiano do Rio de Janeiro. Sua política de segurança pública é, com absoluta certeza, a principal prova desta afirmação.

Menores infratores que roubam à luz do dia, atacam quaisquer desavisados, inclusive idosos e mulheres, dondocas e trabalhadoras, não há critério objetivo. “Bandidos violentos”, “vândalos”, “monstros”. Todos, quase sempre, negros.

Mas quem são eles? Por que moram nas ruas ou vêm sempre dos morros? Por que não têm emprego? Por que não estudam? Por que eles têm ódio?

São vagabundos? Roubam porque querem? Poderiam estar lendo? Viajando? Pedalando? Malhando… mas estão ali, roubando?

 

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Vocês dão taça de veneno e quer suflair?

Racionais MC’s

Se eu não conhecesse e não compreendesse a história do Brasil, talvez até os condenasse. Mas eu conheço. Por isso não os condeno. E digo mais: a sociedade brasileira não tem moral para condenar adolescentes que batem carteiras, roubam celulares, relógios ou correntes nas esquinas do Rio de Janeiro ou qualquer outra cidade do país. Não temos – nós enquanto sociedade – moral sequer para condenar os que esfaqueiam ou engrossam as fileiras do crime organizado. Aliás, como bem já descreveu jornalista Mariana Albanese em texto publicado por este Blog, “Perto de quem realmente manda, esses moleques são tão perigosos quanto o Patati e Patatá”. O Brasil não tem moral.

Não se trata, entendam, de defesa a mau feitos ou mal feitores e sim de buscar compreender, de um ponto de vista histórico e sociológico, os porquês de determinadas práticas. Crimes contra a vida, violência e brutalidade não costumam servir como solução de problemas sociais, econômicos ou políticos. Mas um país que tem na violência e na violação de direitos a prática habitual no trato à significativa parcela da população, tem alguma condição de cobrar postura diferente? Como pedir calma, paciência e paz aos que sofrem historicamente com a violência, a tortura e a morte? Os poetas dos Racionais Mc’s, em poucas palavras, diriam: “Vocês dão taça de veneno e quer suflair?”

Não me parece justo imputar responsabilidade apenas aos que vivem em condições de séria vulnerabilidade, como se estes fossem os únicos responsáveis por essa condição.

No mais, sempre é bom lembrar que a violência e a prática criminosa não são patrimônio exclusivo dos ricos, dos maus políticos, das polícias ou da grande imprensa. Por que pretos e pobres deveriam abdicar dessa possibilidade?

Pezão quer acabar com Fundação para a Infância e Adolescência

A hipocrisia é tanta que, ao mesmo tempo em que as elites racistas querem limpar as ruas e varrer essa gente preta e mal cheirosa para longe, o governo do Rio quer fechar a fundação que acolhe adolescentes em medida de internação.

A notícia foi manchete das grandes redes de comunicação, no dia seguinte à veiculação da maldita reportagem no JN. O governo encaminhou para a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro no fim de 2015 projeto de lei em que propõe a extinção da FIA (Fundação para a Infância e Adolescência).

 

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O governador alega que faltarão recursos para manter os serviços de atendimento às crianças e adolescentes, bem como registrado na nota enviada pelo Palácio Guanabara:

“O projeto de lei, que ainda está em discussão na Alerj, estabelece a extinção de uma autarquia e seis fundações estaduais com base na brusca queda de arrecadação das receitas, agregada à previsão de sua diminuição para os próximos exercícios financeiros, especialmente em razão das incertezas dos cenários econômicos nacional e internacional.”

Como entender? Há, por um lado, a necessidade de “higienizar” a cidade maravilhosa para deleite do turismo olímpico. Já por outro, a iniciativa absurda de acabar com o principal ente público de ação de proteção à criança e ao adolescente no Estado.

Para onde, afinal de contas, seriam removidos os seres desprovidos de humanidade suficiente para dividir o espaço urbano? Cadeias dos adultos? Ainda não dá. Cunha não conseguiu terminar o serviço sujo da aprovação da redução da maioridade penal no Congresso. Então, que fazer?

O que fazer com os corpos negros fora da lei? Sumir com eles!

Sim, afinal, assassinar e deixar corpos expostos tem chamado muito a atenção. Será necessário mudar a prática, coisa que as milícias têm feito com primazia. Desaparecimentos em grande escala. Limpeza das ruas. Corpos às valas.

 

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Mas estamos falando de órgãos governamentais, da guarda municipal da cidade do Rio e da PM do Estado do Rio. São coisas diferentes. Práticas de milícias são outra coisa.

Sabemos que não.

A violência e a prática criminosa não são patrimônio exclusivo dos ricos, dos maus políticos, das polícias ou da grande imprensa”

Um estudo do sociólogo e professor Ignácio Cano, responsável pelo Laboratório de Análise da Violência da Universidade Estadual do Rio, revela um aumento drástico no índice de desaparecidos, a partir da ação de milícias.

Os números são dramáticos. Desde 2008 a quantidade de desaparecidos supera o de homicídios no estado. Em 2015 foram registrados 2533 desaparecimentos contra 995 mortes.

Em 2005 os números apontavam 1455 desaparecidos contra 2030 homicídios. Os dados correspondem a aferições nas Zonas Oeste, Norte, Sul e Subúrbio do Rio. O aumento varia de 47% à 125%.

Síntese da hipótese: TV Globo e demais emissoras expõem o cotidiano de violência das ruas do Rio, o que fortalece o sentimento de insegurança, medo e ódio em relação aos pretos e pobres moradores de ruas e favelas. Estes configuram, portanto, criminosos perigosos à solta.

A crise econômica impede o aprisionamento de tantos mais corpos vivos. Afinal, presos tem alto custo, precisam comer, vestir, dormir e, muito embora superlotar prisões seja ideal para a prática de desvios de verba que acontecem país afora, os tempos são de vacas magras. Exterminar e sumir com os corpos é barato, prático, silencioso e eficaz.

Hipótese ou desvario irresponsável? Estariam os argumentos aqui descritos, fora da realidade? Não creio.

Nenhuma novidade para a cidade que até ontem fora capital do nosso império escravocrata. Nada de novo no país da democracia racial, do futebol, do carnaval e agora, das olimpíadas.

Nenhum absurdo para o país que mais mata negros no mundo e onde a emissora que detém 80% da audiência nacional se coloca a serviço da formação da opinião pública para o apoio ao genocídio e à barbárie.

Preto, preta, sorria. Você está sendo filmado. E morto.

 

Assista a reportágem a partir de 1min40s

https://www.youtube.com/watch?v=GLdMruLVogE

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No Brasil até o Réveillon é racista

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Por Douglas Rodrigues Barros

Quais fantasias não se pode ter ao se desejar que no próximo ano tudo seja diferente? Se os romances contam as histórias dos desejos humanos, tais desejos se fundam sempre na tentativa de mudanças porque o desejo é sempre carência. E mudanças é o que nosso país mais necessita, estamos num país carente de mudanças. Não somente uma mudança de gestão, mas, uma mudança espiritual profunda que acabe de vez com esse jogo absurdo manifestado por nossas próprias ações cotidianas. Por que começo escrevendo isso?

Mais um ano se foi e durante uma curta viagem para Parati me deparei com o mesmo, aquilo que não se vai, o que se tornou permanente e naturalizado. Há algo de ritual no nosso cotidiano, um fantasma que fingimos não ver para não ficarmos constrangidos pela sua constante presença. Denunciar esse fantasma deve ser nossa tarefa, pois, sabemos que mesmo nos momentos mais corruptos da história, a baixeza tem restrições. Mas que restrições pode existir para algo tão naturalizado por nós? Por uma baixeza tão vil como a prática do racismo e da segregação social?

Como explicar que num dia de felicitações e alegrias – de tentativa de mudanças em nós mesmos, de algo dado como uma alegria universal – se tenha que passar por duas guaritas repletas de guardas para se chegar numa praia? Qual nome dessa praia, agora, privatizada e “higienizada” de gente diferenciada? Laranjeiras. De fato, a loucura dos outros jamais nos tornara sensatos e sensatez é o que falta numa sociedade dividida por muros e totalmente desigual como a nossa. A loucura de aceitar a segregação como saída só pode cobrar seu quinhão: a revolta é sempre resultado da reflexão.

Laranjeiras com suas águas transparentes e límpidas, com seu céu azulado e belezas incomensuráveis é a nossa Israel em terras tupiniquins, todo o seu entorno uma nova Palestina. Sob o seu muro está a inscrição de nossa faixa de Gaza. Eis aí o resultado de séculos de exploração, de fundamentação econômica racista, de segregação social e cultural.

A pior aristocracia, sem dúvida, é a aristocracia do dinheiro; aquela que transforma a política num balcão de negócios e banca seus escolhidos para administrarem a coisa pública. Entretanto, o tom aqui não é moralista; não torça o nariz daí achando que estou colocando a culpa nos magnatas do condomínio fechado de Laranjeiras. Eles só são a personificação de nosso modo de vida sob a tutela do sistema econômico que se formou em nossas costas. São um resultado da naturalização da opressão em suas diversas formas e, que por isso, é um verdadeiro celeiro laboratorial visto por todo mundo. Como disse em algum momento Paulo Arantes; o Brasil se tornou sem dúvida um exportador de medidas radicais de segurança e conformação contra o livre direito de ir e vir.

É um acinte humilhante e que denigre qualquer cidadania não poder chegar a praia, ou ser interpelado no seu “direito sagrado de liberdade” por seguranças privados. Duas guaritas, documento de identificação e sorriso dos guardas me fizeram crer que eu fosse um estrangeiro em minha própria casa.

Mas, como dizem por aí e como muitos aceitam: É para sua segurança! Para minha segurança? Em nome da segurança estão tolhendo a liberdade de ir e vir, além porno do acesso a coisa pública, estão nos privando do espaço natal, do jardim que percorremos nossa infância, estão nos privando do trato humano e de qualquer noção de cidadania. Privatizar a praia é sinal da aristocracia do dinheiro, e esta é insuportável e predatória.

Até no réveillon sou obrigado a refletir sobre o racismo e a segregação social.

Para minha segurança? Sem essa por favor!