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Jornal da TVT Violência Policial

Militarizada, GCM paulistana age como PM e mata criança de 11 anos

Por Douglas Belchior, com informações do site Ponte, no Nosso Jornal – TVT

 

No último domingo (26) o menino Waldik, de 11 anos, foi assassinado pela GCM – Guarda Civil Metropolitana paulistana, no bairro da Cidade Tiradentes, na Zona Leste da cidade de São Paulo. Após perseguição a carro roubado, a criança foi atingida por um disparo fatal. A ação demonstra o quanto a prática da GCM se aproxima das práticas da Policia Militar. Aliás, não há diferenças substanciais entre a Prefeitura da cidade de SP e o Governo do Estado de SP no que diz respeito as suas políticas de segurança pública. Tanto políticas quanto polícias são radicalmente militarizadas e treinadas para a proteção do patrimônio privado, logo racistas e assassinas. Esse foi o tema de nossa coluna semanal no Nosso Jornal, da TVT.

 

 

Responsabilidade da Prefeitura de São Paulo

Essa é a hora daqueles que se dizem representantes dos povos oprimidos colocarem a cara. Criticar o governo do PSDB de Alckmin a cada assassinato promovido por sua polícia fascista é hábito, gera aplausos e “curtidas” no Facebook.

Mas é inadmissível ver a passividade da prefeitura de SP diante do assassinato do menino Waldik, pela sua força armada. O comando da GCM precisa ser afastado. A prefeitura disse que “termos de regras podem ser revistos”, ou seja, a GCM não pode perseguir nem atirar, mas se necessário, sim. Um absurdo! Trata-se de mais uma vida perdida. A Guarda Municipal não poderia sequer perseguir “suspeitos”, menos ainda atirar.

Não podemos nos render a naturalização do assassinato de quem quer que seja, menos ainda de crianças! Não podemos deixar que essa gestão silencie nossa voz e nem que gente nossa, por pertencer a esse campo, guarde silêncio diante de tal brutalidade.

O afastamento do comandante da GCM é o mínimo que se espera; A devida atenção e reparação – se é que cabe esse termo, à família do garoto assassinado é obrigação; E que a prefeitura abra um debate sincero e honesto junto aos movimentos populares, de direitos humanos e à sociedade como um todo sobre a desmilitarização e retirada imediata das armas letais de sua Guarda.

Entenda como foi

Do Site da Ponte

Por André Caramante, Luís Adorno e Paulo Eduardo Dias

 

Entre sexta-feira (24) e domingo (26), dois menores de idade foram mortos em Guaianazes e Cidade Tiradentes, bairros do extremo leste de São Paulo, de maneira muito parecida. Ambos estavam em um carro roubado e, após perseguição, foram mortos. A diferença está em quem atirou contra eles. Robert, de 15 anos, morreu na sexta com três tiros (dois no peito e um na boca) deflagrados por PMs (policiais militares) da Força Tática. Ele foi alvejado após cair com o carro em um córrego e tentar sair pela janela. Já Waldik, de 11 anos, foi morto na manhã deste domingo dentro de um carro por um guarda civil metropolitano, conforme a Ponte Jornalismo publicou às 17h50 deste domingo.

Somados ao caso de Ítalo Ferreira de Jesus Siqueira, 10 anos, morto com um tiro no olho por um policial militar no dia 2 de junho deste ano, já são três casos neste mês de agentes da segurança pública de São Paulo matando crianças após perseguição a carros roubados. O corpo de Robert, que estava registrado no IML (Instituto Médico Legal) como indigente, só foi liberado à família por volta das 17 horas deste domingo (26). Os familiares tentavam tirar o corpo dele para o enterro desde o sábado (25). Ninguém da família quis falar com a reportagem.

Procurada, a SSP (Secretaria da Segurança Pública) divulgou na tarde desta segunda-feira (27) a seguinte nota: “O DHPP instaurou inquérito policial para investigar a morte em decorrência de intervenção policial ocorrida na Cidade Tiradentes, na zona leste da capital. O veículo roubado passou por perícia e foi devolvido para a proprietária. A investigação segue em andamento pela Divisão de Homicídios. A Corregedoria da PM acompanha, como é praxe neste tipo de ocorrência.”

De acordo com a Polícia Civil, o menino Waldik, de 11 anos, morreu na manhã deste domingo após roubar um Chevette prata com outros dois rapazes. Ele estava no banco de trás do carro e foi o único baleado. Os outros dois fugiram. Segundo o histórico do BO (Boletim de Ocorrência) do caso, uma viatura da GCM, com três ocupantes, foi acionada, sendo alertada que o Chevette havia sido roubado. Os GCMs acharam o carro e teria ocorrido uma perseguição. Os guardas afirmaram que os suspeitos atiraram contra eles, mas foi constatado pela equipe pericial apenas um disparo de fora para dentro do veículo, sendo que os vidros das portas estavam fechados. E não foi encontrada nenhuma arma.

A Ponte Jornalismo publicou a morte de Waldik às 17h50 deste domingo (26).

Chevette em que menor foi morto (Foto: advogado Ariel de Castro Alves)

Chevette em que menor foi morto (Foto: advogado Ariel de Castro Alves)

A perseguição acabou na rua Regresso Feliz, 131, próximo de onde ocorria uma quermesse. Os frequentadores da festa cobraram os GCMs para que eles socorressem a criança que estava agonizando dentro do carro. O menino foi levado a um Pronto-Socorro da região, mas já chegou ao local sem vida. Um PM aposentado, identificado como Jackson, e que mora na região, testemunhou à Polícia Civil que presenciou a fuga e, ao perceber que havia uma criança baleada, preservou o local.

O GCM Caio Muratori foi indiciado por homicídio culposo. Segundo a Prefeitura de São Paulo, Caio e os outros dois GCMs que estavam na perseguição ficarão afastados de suas funções até que se esclareçam os fatos. A SSP informou que, por envolver menor de idade, a apuração é mais rigorosa e, por isso, mais demorada.

 

 

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Cotas Raciais

Por que a USP não tem cotas raciais?

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Sobre a estrutura social e a Universidade de São Paulo

Por Gabrielly Oliveira

A proposta dos movimentos sociais negros da USP até o momento é que se adote a política formulada pela Frente Pró-Cotas, que ajustando-se a realidade da USP atualmente (com ENEM e FUVEST), encontrará vias para que se efetivem as cotas nos vestibulares de maneira realmente inclusiva em lugar de falsas bonificações e medidas como o ingresso pelo SISU – com suas notas mínimas surreais – que são mecanismos utilizados para solapar e silenciar quaisquer argumentos que caminhem no sentido de uma inclusão verdadeiramente social e racial nesta universidade.

A Universidade de São Paulo, no entanto, ostenta e insiste, em e-mails estarrecidos, sua hierarquia nos grandes rankings mundiais, além de se postular uma instituição com passado a ser preservado e demonstrar uma suposta preocupação com o retorno que deve ao restante da sociedade – retorno esse, restrito às classes sociais mais privilegiadas. O que fica são indícios de um ufanismo uspiano e a pergunta permanece: “Por que a USP não tem cotas?”.

Um profundo processo de democratização da universidade passa por esse caminho, que significa algo que vai além de si mesmo: é o reconhecimento de toda sorte de sofrimentos, exclusões e processos de apagamento e deslocamento a que uma grande parte da população brasileira foi submetida por anos. Isso, em caminho conjunto e sincrônico com a melhoria da educação básica, seria um dos melhores cenários dentro da política de inclusão social de grupos historicamente privados de acesso à educação e demais instâncias.

Importante é estabelecer o quanto isso será um avanço, tanto para os estudantes que estão prestando vestibular, quanto para a universidade que ganhará em diversidade de ideias, valores, real extensão e pesquisa, com interesses que poderão de fato ser voltados para a população, uma vez que essa deixará de ser utilizada apenas como legitimadora de um discurso de “meros pagantes de impostos”. Falamos aqui de um retorno real, com políticas públicas mais cientes do que está acontecendo nas comunidades e colocando pessoas de tais grupos sociais como sujeitos políticos de sua própria ação e não abstratamente como “o outro”, que deve ser pesquisado e salvo de uma periferia que existe no imaginário de quem só chegou perto dela quando assistiu “Cidade de Deus”.

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Posicionamento do corpo docente revela sua “operação abafa” desde o início da pressão externa a adesão de políticas inclusivas

Uma grande parte do corpo docente foi contra a inclusão do Enem, mas não porque incluía pouco e sim porque incluía demais. Nesse sentido, a adoção de cotas raciais para essas pessoas representa algo impensável. O grupo de professores que tem poder de voz e voto em instâncias deliberativas da burocracia, tais quais o Conselho de Graduação e o Conselho Universitário, é majoritamente branca e masculina. Isso é um indício, embora não determinante, de para quem serão tomadas as decisões e favorecimentos na universidade.

Alguns professores argumentam que a educação pública necessita de uma reformulação como um todo, e não do vestibular em si. Ora, o que as pessoas não-beneficiárias de uma educação de qualidade farão nesse período? Quais as soluções geniais que esses grandes pensadores tem para contribuir na democratização do ensino de qualidade em São Paulo e na USP que não sejam assim tão a longo prazo?

É de uma cegueira política, confortavelmente posicionada, que muitos professores continuem a tratar essa pauta como potencial “déficit de excelência”, nos colocando em um lugar de marginalidade aparentemente impossivel de transcender, no qual todas e todos estaríamos fadados eternamente a abaixar a qualidade do ensino, uma vez que não somos preparados para estar na “melhor universidade da América Latina”.

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O acesso à educação, a ditadura e o processo de escravização. O que a USP tem a ver com isso?

Os efeitos que a ditadura teve sobre a educação brasileira são incomensuráveis, na medida em que houve a partir desse momento um papel decisivo do Estado e dos militares em precarizar e distocer os conteúdos da escola pública no Brasil. Por outro lado, a universidade pública – a USP, sobretudo – passava por um grande processo de expansão universitária, e também expulsão e/ou afastamento de professores que tinham projetos destoantes do que os militares queriam à época. Criou-se, desse modo, uma nova tradição acadêmica, a saber: a lógica do lattes e da produtividade meritocrática, onde pessoas negras, indígenas e pobres não tem vez.

Os discursos correntes reconhecem a pobreza como fator determinante para exclusão de pessoas do ambiente universitário, mas por vezes, vemos que a questão racial nessa universidade ainda permanece como tabu ou até mesmo alvo de falsas informações: como a negação da dívida histórica, ou comparação com outros grupos étnicos – ignorando, através da “tortura” de estatísticas, spams, falácias, argumentos de caráter moral, os passados 358 anos dentro de um regime escravista que levou o critério da cor da pele como determinante para quem seria ou não tratado como objeto ou ser humano. Há quem diga ainda que não existe questão de classe e raça é inseparável, inclusive quando falamos sobre cotas na USP ou quaisquer outros lugares, porque a universidade como está – branca, com grades curriculares excludentes e corpo docente racista – ainda causa graves danos à saúde mental daqueles que não se enquadram no ethos do homem comum universitário, que já tem a cor e classe que não precisa nem repetir.

O professor Kabengele Munanga diz:

“Não sei que forças ocultasajudaram a arrefecer o debate iniciado em 1995, pois o reitorJacques Marcovitch, com plena consciência e grande sensibilidade quanto à questão ‘racial’ no Brasil, não se empenhou o suficiente. Seu sucessor não quis tocar no assunto. Alguns vêem na política de cotas a possibilidadede uma fratura da sociedade. Outros confessam que têm medo, mas medo de que? De errar ou de acertar? Uma sociedade que quer mudar não deve ter medo de conflitos, pois não há mudança possível sem erros e sem conflitos”.

 

O movimento estudantil e as mobilizações

Antes de 2015, era muito complicado fazer greve universitária onde as cotas raciais estavam em lugar de destaque. Na verdade, a discussão se dava de outra forma dentro de uma esquerda – que refletindo toda a USP – também ainda é muito branca e reforça(va) certos ideais que não iam no sentido de se pensar mais a respeito de inclusão na universidade, mas em outras questões que eram abstratas demais e não iam para o caminho de reivindicar a democratização do acesso.

Uma vez que os conflitos e embate direto de ideias podem trazer mudanças, é importante salientar que a atenção quanto a essas questões só se deu novamente de forma destacada no movimento através das ocupações pretas em salas de aulas no ano passado e início desse ano, que buscaram, com criatividade e imaginação política, levar a um outro patamar a pauta do acesso na universidade.

Em conjunto a isso, de forma mais interna, pessoas que residem na moradia estudantil da USP formam-se em grupos de trabalho sobre permanência, visando estabelecer debates a respeito do que significa permanecer na universidade, além de guiar e ajudar ingressantes que por muitas vezes ainda ficam de fora no contínuo processo de exclusão – passado o trauma do vestibular – da Superintendência de Assistência Social.

No fundo, a discussão sobre cotas raciais e sociais, além do debate em torno da permanência e retomadas de blocos de moradia que a reitoria não quer devolver para estudantes e os reprime quando tentam retomá-los, abala as estruturas que dão base a universidade – elitista e racista – tal como ela se mantém. Cotas é apenas o início de todo um amplo e necessário projeto de reforma educacional no estado de São Paulo e no Brasil. O movimento não ficará em silêncio diante de qualquer medida que a universidade continue tomando para excluir as populações negra, indígena e/ou pobre de dentro dos espaços acadêmicos.

Reivindicar e lutar coletivamente pelas cotas de todas as maneiras possíveis é a nossa alternativa a este projeto de universidade que nos forçam a engolir. Essa não é uma luta que deve ser apenas das pessoas negras e indígenas. É também dever das pessoas brancas que já tem acesso a debates, trazer a tona determinados assuntos e conversar com seus colegas, convencê-los e mobilizá-los para pressionar professores. Por vezes ficamos sobrecarregados de ter que sempre cumprir essa função. Essa luta é de todos nós.

 

 

 

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Matriz Africana Religião

Orixás do Candomblé: Retratos da força ancestral da fé negra

Por Douglas Belchior, do Blog Olhar de um Cipó

Com imensa satisfação, registro neste blog o trabalho de Roger Cipó, um jovem fotógrafo-pesquisador de 24 anos, educador social, candomblecista e militante contra os crimes de intolerância religiosa e do racismo. Suas produções e pesquisas fotográficas focadas em terreiros de candomblé, tem como objetivo estudar as diversas estruturas que baseiam as sociedades afro religiosas de São Paulo. Além de divulgar as belezas e riquezas existentes no cotidiano social, cultural e ritualístico das comunidades, ele usa a fotografia como ferramenta de promoção e luta contra os crimes de intolerância e racismo.

Oyá
Oyá

Por Roger Cipó

Sobre os Orixás, para além de todas as definições teóricas e técnicas de grandes pesquisadores, vou me ater a uma das definições mais sinceras e lindas que encontrei, nas palavras de Janaína Teodoro: “Orixá não é espirito daqueles que vem de fora e toma o corpo. Não somos ‘espíritas’ – não haveria problemas se fossemos. Orixá é a força que vem de dentro. Nosso corpo é o templo do sagrado!”

Orixá, ou Nkise, ou Vodun, é força mais pura que cada um trás em seu ser. É o pouco de África ancestral que renasce em quem se conecta. É a nossa capacidade de se perceber parte importante do mundo. É a folha em nós, é a água, o vento, o fogo, a poeira, o ar que dá vida, a placenta, o coração que pulsa, a vontade de vencer na vida, a certeza de que a morte é o lugar de vida também.
Assim, compartilho uma parte da série “Orixás do Candomblé – Retratos da Força Ancestral da Fé Negra”, imagens que me foram permitidas ao longo da pesquisa “Olhar de um Cipó”, numa tentativa de registrar a presença das forças de Orixá, Nkises e Voduns, quando convidados pelos toque dos atabaques e dos cantos sagrados, alinhados à fé de seus filhos e filhas que se manifestam e revivem suas histórias, lutas e relações de amor com seus descendentes.
Oxum
Oxum

 

Yewa
Yewa

 

Nanã
Nanã

 

Ogum
Ogum

 

Oxóssi
Oxóssi

 

Omolu
Omolu

 

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Hip-Hop O quê que tá pegando?

“Paz em Meio ao Caos”, novo clip do RZO

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Lançamento do videoclipe/single “Paz em Meio ao Caos” – RZO ft. Bone Thugs-N-Harmony

Dia 24/06 | Sexta | 16h00 | no canal www.youtube.com/rzooficial

 

Por Boia Fria Produções

 

Os fãs de hip hop já podem comemorar: o RZO lança em seu canal do YouTube, nesta sexta-feira (24/06, às 16h), o aguardado videoclipe e single “Paz em Meio ao Caos”, parceria com os rappers norte-americanos do Bone Thugs-N­Harmony. É a primeira vez que um grupo brasileiro grava com uma das maiores lendas do rap mundial.

A colaboração inédita desses dois ícones do rap é fruto de um encontro que aconteceu em 2015, quando o Bone Thugs veio ao Brasil para uma série de shows. Identificados com a produção e a levada do grupo de Pirituba, os norte-americanos aceitaram o convite para participar da gravação da música, que começou antes mesmo de virem ao Brasil. Além de proporcionar um show histórico do Bone Thugs com participação do RZO, o encontro rendeu também boa parte das cenas do videoclipe, gravadas na Favela do Paquetá, em Pirituba. O single ficará disponível com exclusividade no Spotify por uma semana, a partir de sexta-feira. A faixa integra o novo álbum do RZO (sigla para Rapaziada da Zona Oeste), com lançamento previsto para setembro.

Dirigido por Paulinho Caruso, da O2 filmes, o clipe de “Paz em Meio ao Caos” capta bem o clima de tensão da música ao fazer um recorte da gritante desigualdade social que afeta principalmente o morador das periferias brasileiras. Na tela, os rappers do Bone Thugs aparecem desfiando suas rimas em cima da batida do DJ Cia, com Sandrão, Helião, Negra Li, Nego Jam e Calado dando o recado em versos contundentes. Os personagens da história são interpretados pelos atores Milhem Cortaz (“Tropa de Elite”, “Carandiru”) e Marcos ‘Kikito’ Junqueira (“Cidade de Deus”, “Tropa de Elite 2”), o apresentador João Gordo e os rappers DBS e Ice Blue (Racionais MC’s).

 

Um dos mais aclamados representantes do rap brasileiro, o RZO surgiu no final da década de 1980 no bairro de Pirituba, zona oeste de São Paulo. Aliando musicalidade e ideologia com incomparável sagacidade poética, lançou em 1999 seu primeiro álbum, “Todos São Manos”, sucesso de público e crítica. O segundo disco, “Evolução é Uma Coisa”, repetiu a repercussão em 2003, ano em que os rappers ganharam o Prêmio Hutúz de Melhor Grupo. Considerado a vanguarda do rap nacional da época, o RZO criou clássicos do gênero como “O Trem” e “Paz Interior”, e revelou talentos promissores como Sabotage, Dina Di e DBS, entre outros. Após interromper as atividades em 2004, o RZO ficou 10 anos sem se reunir até que, em 2014, retornou aos palcos em grande estilo.

Apadrinhado por Eazy­E, do NWA, o Bone Thugs­N­Harmony foi criado no começo dos anos 1990, sendo conhecido mundialmente por suas rimas ligeiras e músicas recheadas de harmonia com destaque para os vocais, o que rendeu o título de “o grupo de rap mais melódico de todos os tempos”, segundo a MTV. Vencedor do Grammy, o Bone Thugs já vendeu milhões de discos, influenciou toda uma geração de rappers e tem faixas de sucesso com Eazy­E, 2Pac, Notorious B.I.G., Mariah Carey e Akon, entre outros.

Nos EUA ou no Brasil, não importa, o recado é o mesmo: “você precisa ter coragem pra encontrar paz em meio ao caos”.

+RZO

Um dos mais aclamados grupos de rap do país, o RZO surgiu no final da década de 80 no bairro de Pirituba, zona oeste de São Paulo. Aliando musicalidade e ideologia com incomparável sagacidade poética, em 1999 o RZO lançou o seu primeiro álbum, “Todos São Manos”, pela gravadora Cosa Nostra, do já então consagrado grupo Racionais MC’s. O disco foi sucesso de crítica e de vendas, garantindo que em pouco tempo o RZO conquistasse uma legião de fiéis admiradores.

No mesmo ano, com a entrada do DJ Cia como DJ e produtor do grupo, o RZO iniciou os trabalhos do seu segundo – e genial – álbum, “Evolução é Uma Coisa”, que quatro anos depois, em 2003, repetiu a repercussão do primeiro, com destaque para o nítido amadurecimento nas letras e na produção. Aclamado como a vanguarda do rap nacional da época, o grupo também passou a revelar talentos promissores como Sabotage, Dina Di, DBS, entre outros. A partir da chamada Família RZO, nos anos seguintes, esses e muitos outros MCs firmaram carreiras solo na cena nacional.

Antes da separação, que aconteceria em 2004, o RZO era reconhecido pelos jovens como um dos nomes mais representativos do rap brasileiro, legitimados pelo constante crescimento do seu público em apresentações homéricas e por receberem prêmios como o Hutúz 2003, na categoria melhor grupo. Ironicamente, ao mesmo tempo em que escrevia o seu nome para sempre na história do rap nacional, o RZO também escrevia os últimos capítulos da história do grupo até então. Durante 10 anos, sua música continuou a ecoar por todo o Brasil, conquistando novos fãs, até que o grupo decidiu voltar à atividade em 2014. O RZO experimentou a retomada do contato com o público em shows como a Virada Cultural e na aparição surpresa na primeira edição do festival SP RAP.

 

 

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Genocídio Negro Jornal da TVT

Grupo aplaude PMs que assassinaram o menino negro Ítalo

Por Douglas Belchior

Cerca de 50 pessoas recepcionaram com aplausos e gritos de “heróis”, os dois policiais militares da Rocam (Ronda Ostensiva de Motos – SP), suspeitos de terem assassinado a tiros o menino negro Ítalo, 10 anos. O crime aconteceu na Vila Andrade (zona sul de SP), onde foi feita a reconstituição, na noite deste domingo, dia 19/06. Este foi o tema da semana, na coluna do Blog NegroBelchior no Jornal da TVT. Confira:

Dentre diferentes versões apresentadas tanto pelo menino de 11 anos que sobreviveu à ação da PM, quanto pelos policiais, as teses finais são:

A versão defendida pela criança, que depois de protegida pelo Serviço de Proteção à Criança e Adolescente Ameaçado de Morte, afirmou que os policiais da Rocam teriam “plantado” uma arma no local do crime, prática – convenhamos – habitual da PM em situações como essa;

E a defendida pelo governador Alckmin, de que os policiais teriam atirado em resposta a disparos feitos pelas crianças, com o carro em pleno movimento. Ou seja, a morte do garoto teria ocorrido em uma situação de legítima defesa.

Seja qual for a verdade – e a mentira, o fato é: homens maiores de idade, formados e treinados pelo governo do Estado São Paulo, em sua atribuição de defender a cidadania, a vida e a sociedade, concluíram uma operação com a morte de uma criança pobre e preta de 10 anos de idade.

Vamos acompanhar.

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Homofobia

“Ele está chegando, eu vou morrer”

*Por LUARA COLPA

Mãe, lembra quando eu fiz 2 anos e te mostrei aquela dancinha?

Ele estava lá:

“-Se não segurar esse menino, vai virar bichinha”.

Em cada ocasião de encontro familiar, alguém sentia a necessidade de relembrar o que era “normal” e “anormal”, em tom mais alto pra que eu pudesse escutar.

Declaração pública do Deputado Federal Jair Bolsonaro

A partir de determinado momento percebi que, nos encontros familiares, os “falsos cristãos” pregavam o Evangelho, justamente para me provocar no tocante a “Deus criou o homem e a mulher…” e mesmo quem nunca havia pisado numa Igreja, nestes encontros, se portava como grande conhecedor de Leis Divinas.

Eu era uma criança, eu também queria ser elogiado por ser inteligente, saudável, estudioso. Mas nenhum elogio vinha, todos cuidavam em tentar erradicar o que saltava aos olhos.

As pessoas se incomodavam muito, né? Na escola eu apanhei calado. Aquele colega não suportou e suicidou. Lembra? Disseram que era depressão..

Recorte de entrevista pública com o Deputado Jair Bolsonaro

Mãe, ele estava lá: Nas piadas, nos descasos, nas comparações.

Lembra quando o Tio Marcos pagou por uma prostituta pra mim e para os meninos lá no Rancho?

Eu não queria, aliás, nenhum menino queria, sabe? A gente não tava preparado, a gente não teve o direito de escolher…

Eles não entendem. A gente também tem nosso tempo, nossas escolhas. Mas as pessoas… Ah! o mundo quer impor uma conduta…

Aquela moça… a prostituta, foi a primeira pessoa que eu me abri. Sentei e falei: “Não me leva a mal não, mas isso é coisa do meu tio.”

A moça sorriu, mãe. Ela me compreendia. Ela não era minha parente, mas ela sentiu uma coisa que chamou de “Empatia”. Ela disse que também não achava legal os outros meninos serem submetidos precocemente à vontade dos tios ali naquele momento, e que isso era o machismo se propagando, que era bem comum e triste. Ela não me julgou, ela foi um anjo, mãe.

Eu saí de lá e os tios bêbados, drogados, nos esperavam. Os mesmos que se apegavam a trechos de Bíblia para me impor regras, descumpriam ali o compromisso com a monogamia jurada perante seu Deus.

Eu não queria ser nenhum deles. Eu achava que eu poderia ser melhor que aquilo. Eles me deram tapas nas costas, derrubaram uísque na minha camisa, comemoraram aliviados!

Eu não disse uma palavra, mas ele estava lá neste dia também.

Tweet público pós massacre em Orlando EUA

Depois eu peguei birra daquele grupo de compadres, de suas comemorações, de tanta hipocrisia. Eu me afastei um pouco, eu trabalhava, às vezes comprava os perfumes do meu gosto, tecidos indianos. Até que o papai me pegou experimentando uma de suas saias. A primeira surra.

Ele não podia entender, né, mãe? Com toda aquela família… Eu devia ser um peso pra ele.

Mas me lembro também do banho de água morninha que a Senhora me deu depois. Tinha até um óleo calmante que pegou com a vizinha, e rimos do frasco engraçado e a Senhora derrubou um pouco no chão e ficou escorregadio!

As lágrimas chegavam quase a cair, mas eu segurava, só de pensar que saindo daquele banheiro não estaria mais em segurança, e que ele com certeza estaria ali.

Foram muitos os momentos de medo e clausura. O mundo lá fora me dizia que o “normal“ era ser um canalha que bate na companheira.

Mãe será possível que Deus não olha pra isso? Será que era eu mesmo a “aberração da família”?

Tweet público pós atentado em Orlando EUA.

Eu resolvi enfrentar aquilo tudo, desconstruir todo aquele sentimento de culpa por ser “diferente”. Eu resolvi me aceitar. Eu que só vivi tristeza até os vinte e poucos anos, eu que não conseguia emprego pelo meu visual, eu “saí do armário” e não tinha volta.

Eu me organizei, uma comunidade inteira me abraçou. E tive o direito a ser um pouco feliz também! Fazíamos planos, tínhamos projetos, sonhávamos em adotar crianças abandonadas por heterossexuais, e junto nos fortalecíamos.

Mãe, sabe o que parecia? Parecia aquele banho morno que a Senhora me deu. Todo mundo dava um banho morno no coração do outro. Todo mundo saía um pouco curado de um abraço.

Só que, assim como aquele banho, a felicidade também teria tempo para acabar, e logo à frente eu teria que encarar meu algoz.

Tweet público de Marco Feliciano

Triste. Triste são as estatísticas: A senhora sabia que a expectativa de vida de uma Travesti no seu país é 35 anos? E que cada 28hs um LGBTT é assassinado?

Todos os dias a gente esteve em risco, só por sermos quem somos.

“Mãe, ligue pra polícia, agora!

Ele está vindo

Mãe, eu vou morrer.”

Mina Justice mostra o sms enviado pelo filho minutos antes de ser assassinado no atentado de Orlano EUA.  Foto: Courtesia de Mina Justice via AP

Ele me perseguiu a vida toda.

Ele não é um maluco, não é a exceção.

Meu assassino tem nome, mãe: É O PRECONCEITO.

Tweet público após massacre em Orlando EUA.

Tweet público pós atentado à Orlando EUA

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¹ Última mensagem de um dos assassinados no Massacre em Orlando/EUA no último sábado (11) na boate LGBTT de nome “Pulse”. Cinquenta pessoas foram assassinadas e mais de cinquenta estão hospitalizadas.

“O autor dos disparos é norte americano, nascido e criado nos EUA, com cidadania americana, cursou as escolas “modelo” norte americanas (tipo Escola sem Partido defendida por muitos no Brasil). Seus pais são afegãos fugidos da intolerância talibã financiada pelos EUA nos anos 80, e depois combatida e demonizada pelos EUA nos anos 2000, e armados novamente pela mesma indústria bélica americana.

Ele é, estritamente, culturalmente, geograficamente, um produto da cultura e da política bélica americana, da tolerância ao discurso de ódio religioso, homofobia, nacionalismo. 134 tiroteios com vítimas de civis em 2016, 9 atentados (8 não tinha ligações com os Estado Islâmico)… (…) Ele escolheu uma boate com homossexuais descendente de imigrantes.

O país mais militarizado do mundo, com maior quantidade de armas, com maior número de população carcerária, com menor idade penal, com o maior número de juízes e advogados.

Este é o modelo de sociedade defendido pela direita no Brasil: A intolerância religiosa, o discurso de ódio e a violência gratuita.” (Via Sociedade sem Prisões)

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Luara Colpa é brasileira, tem 28 anos. Colunista no Bhaz. É mulher em um país patriarcal e oligárquico. Feminista e militante por conseguinte. Estuda Direito do Trabalhador e o que sente, escreve. 

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Direitos Humanos

Alexandre de Moraes paralisa Direitos Humanos por 90 dias

Por Douglas Belchior

 

 

Ministro interino da Justiça, Alexandre de Moraes emitiu uma portaria que determina a paralisação do funcionamento de todas as áreas relacionadas a Direitos Humanos, por 90 dias, em especial órgãos colegiados, excetuando apenas as áreas policiais. Esse foi o tema da nossa coluna semanal no jornal da TVT.

Abaixo temos a íntegra da portaria.

 

 

 

PORTARIA Nº 611, DE 10 DE JUNHO DE 2016

Suspende a realização de atos de gestão no âmbito do Ministério da Justiça e Cidadania.

O MINISTRO DE ESTADO DA JUSTIÇA E CIDADANIA, no uso das atribuições que lhe conferem o art. 87, parágrafo único, incisos I e IV, da Constituição; o art. 27, inciso VIII, da Lei nº 10.683, de 28 de maio de 2003; Decreto nº 7.689, de 2 de março de 2012, e a Medida Provisória nº 726, de 12 de maio de 2016, resolve:

Art. 1º Ficam suspensas, por noventa dias, as delegações de competência relativas à celebração de contratos, convênios e instrumentos congêneres, a nomeação de servidores, a autorização de repasses de quaisquer valores não contratados, a realização de despesas com diárias e passagens, e a realização de eventos, no âmbito do Ministério da Justiça e Cidadania, ressalvados os atos relacionados:

I – a operações e atividades da Força Nacional de Segurança Pública;
II – às ações de preparação e mobilização para a realização dos Jogos Olímpicos de 2016;
III – ao cumprimento de decisões judiciais;
IV – à execução do orçamento impositivo; e
V – à gestão da folha de pagamento de pessoal.

Parágrafo único. A liberação de recursos financeiros para a execução de convênios e instrumentos congêneres ficará condicionada à autorização do Ministro de Estado da Justiça e Cidadania.

Art. 2º O Ministro de Estado da Justiça e Cidadania poderá, durante o período de suspensão, autorizar a realização dos atos referidos no art. 1º.
Art. 3º A suspensão de que trata esta Portaria não se aplica à Secretaria Executiva do Ministério da Justiça e Cidadania, ao Departamento de Polícia Federal e ao Departamento de Polícia Rodoviária Federal.
Art. 4º Esta Portaria entra em vigor na data de sua publicação.
ALEXANDRE DE MORAES

 

 

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Nós, os capitães do mato

Por Luara Colpa*

Somos a atual classe média brasileira. Chegamos aqui de diversas maneiras:

Alguns ascenderam na Era Lula, outros vieram “de cima” por meio de um pai que faliu e a família precisou se reajeitar com menos luxo. Outros, sempre mantiveram este posto econômico.

A especulação imobiliária afastou os funcionários que construíram as cidades, mas nós permanecemos nos centros urbanos, endividados ou não. Viemos do interior, com alguma história triste para contar: Um bisavô que laçou uma índia, um tataravô que estuprou uma negra escravizada.

Somos assim, “mamelucos”, mas sempre pendemos para o lado do opressor. Batemos no peito com orgulho pra contar nossa ascendência portuguesa, espanhola ou o que seja. Ninguém quer mencionar a ascendência “pobre” na família.

Somos filhos da história da repressão, mas também de muita resistência, mesmo que não saibamos. Somos filhos de conflitos e vivenciamos conflitos, mas preferimos não nos posicionar.

Vivemos numa recém-democracia e temos acesso a tudo. Somos consumidores de jornais, formadores de opinião e estamos diariamente conectados com a internet, com a velocidade e imediatismo da informação.

Muitas coisas acontecem ao nosso redor e pouco participamos, a não ser para darmos nossa “valiosa” opinião.

Há uma semana, por exemplo, uma moça sofreu um estupro coletivo no Brasil, o caso repercutiu muito, e onde estávamos? Atrás da tela do computador brincando de detetives.

Herdamos dos nossos antepassados patriarcais, o costume de culpabilizar a vítima. Com certeza o fizeram com a nossa bisavó índia, tataravó negra. Julgamos o comportamento, o passado da vítima, sua sanidade, seu poder de decisão. Quando isso não foi o bastante, criminalizamos o Funk, a roupa, o horário, a favela. Tudo, menos os estupradores.

Há meses cinco jovens negros foram fuzilados com 111 tiros de graça. Todos os dias a juventude negra é executada nas favelas. Todos os dias uma bala perdida “acha” um negro. E todos os dias a culpa é dos costumes, da música, do jeito de andar. E por que não dizer logo: Do nosso racismo?

O que há conosco? Qual é o nosso problema com a periferia? Em que momento da nossa história nós deixamos de nos identificar com nossos pares e passamos a nos sentir parte da “Casa Grande”?

Qualquer criança consegue desenhar uma pirâmide econômica e compreender que estamos aqui embaixo. Nós, os “viados”, os sem terra, a garota estuprada, o Amarildo, os cinco meninos.

Acontece que a classe média tem a sina de ser Capitão do Mato¹.

Esse sentimento foi cirurgicamente acoplado, ano após ano, seja em momentos históricos de tensão, seja por propagandas publicitárias na Ditadura Militar. Também por religiões eurocêntricas que nos moldam e que criminalizam as matrizes africanas, e, entre várias outras coisas, por todo nosso passado de exploração.

O chamado “brasileiro médio” não se posiciona. E não percebe que é em sua inércia que a violência cresce. Não percebe, ou não quer perceber, que essa violência tem lado e cor.

O estudante, o intelectual, que senta e assiste a tudo, inevitavelmente violenta!

E é preciso fazer autocrítica sobre o que está colocado.

Na última sexta-feira (3), o mundo perdeuMuhammad Ali – ícone desportista, ícone como ser humano e militante. Ali, em uma de suas entrevistas, afirmou que sempre foi um bom cristão e serviu humildemente à cidade que vivia, e que, quando trouxe sua primeira medalha olímpica ao seu país, sentou-se numa lanchonete da sua cidade e pediu um cachorro quente. O que foi negado. A justificativa: ele era negro. Ali finaliza a história:“Neste dia, então, me tornei muçulmano”.


No exemplo, o negro empoderado supera o estigma de Capitão do Mato. Para isso acontecer é preciso entender o que somos e a quem servimos, na vida e na política.

Mohamed Ali - o maior boxeador do mundo.

“É a repetição de afirmações que leva a crer. E, quando a crença se transforma em convicção, as coisas começam a acontecer.” Muhammad Ali – o maior boxeador do mundo.”

O momento político em que o Brasil vive é exemplo disso: Nunca seremos convidados a sentar à mesa dos patrões. Mas insistimos em nos dividir, numa irreal sensação de superioridade.

A classe média precisa sacar que os biscoitos que nos dão é convite para a manutenção do status quo, onde poucos detêm muito e muitos não detêm nada. E, para continuar essa lógica de exploração, precisam contar conosco, fazendo nosso trabalho de cães de guarda.

A história repete-se, “como farsa ou tragédia”. A classe média segue tragicamente cumprindo o papel que lhe cabe: Entregando os irmãos para o Coronel.

Eternos coadjuvantes. E nada livres.

 

¹ “O capitão do mato era na origem um empregado público da última categoria encarregado de reprimir os pequenos delitos ocorridos no campo. Na sociedade escravocrata do Brasil, a tarefa principal ficou a de capturar os escravos fugitivos.

O termo capitão do mato passou a incluir aqueles que, moradores da cidade ou dos interiores das províncias, capturavam fugitivos para depois entrega-los aos seus amos mediante prêmio.

Os capitães do mato gozavam de pouquíssimo prestígio social, seja entre os cativos que tinham neles os seus inimigos naturais, seja na sociedade escravocrata, que os considerava inferiores até aos praças de polícia, e os suspeitava de sequestrar escravos apanhados ao acaso, esperando vê-los declarados em fuga para depois devolvê-los contra recompensa.

O artista alemão Rugendas, viajando no Brasil em 1822-1825, retratou um capitão do mato negro, montado a cavalo e puxando um cativo (também negro) com uma corda.

O autor Martins Pena, ao adaptar a figura ridícula de Pantaleone do teatro italiano para o cenário do Brasil, o colocou naquela profissão (“O Capitão do Mato”, 1855).

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Luara Colpa é brasileira, tem 28 anos, colunista no BHAZ. É mulher em um país patriarcal e oligárquico. Feminista e militante por conseguinte. Estuda Direito do Trabalhador e o que sente, escreve. 

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Mídias Negras e Alternativas

SMPIR-SP lança Prêmio Almerinda Farias Gama, para comunicadores negros e negras

O lançamento oficial do edital ocorrerá na próxima quinta-feira e abordará o tema Mídias Negras e a Democratização dos Meios de Comunicação

 

Comunicação
Foto: Blog www.doladodeca.com.br

Do Portal Geledes 

Dez projetos de comunicação em prol da igualdade racial receberão R$20 mil; as inscrições podem ser realizadas até 30/06

 

A Secretaria Municipal de Promoção da Igualdade Racial (SMPIR) está com inscrições abertas para o edital do “Prêmio Almerinda Faria Gamas”, que irá contemplar dez iniciativas ou atividades de comunicação que se destaquem na defesa dos direitos da população negra. O prazo final para envio das inscrições é dia 30 de junho, e as informações completas podem ser acessadas no site da SMPIR.

O lançamento oficial do edital ocorrerá na próxima quinta-feira, no auditório da Secretária, e abordará a democratização dos meios de comunicação, com foco nas mídias negras.

O edital tem o objetivo de reconhecer ações que, por meio de seu alcance midiático e social, colaborem para a promoção da igualdade racial no município de São Paulo. Além disso, busca garantir maior representatividade nos meios de comunicação, mobilizando e celebrando iniciativas independentes e autônomas realizadas por comunicadores negros e negras. Poderão ser premiados projetos de diferentes plataformas – físicas, digitais ou eletrônicas, como blogs, portais, colunas, vlogs, programas de rádio, jornais, revistas, entre outros.

“Com essa premiação, pretendemos ampliar as vozes da população negra na cidade de São Paulo e destacar seus relatos. Afinal, a construção de uma sociedade mais igualitária passa também pela democratização dos meios de comunicação”, afirma Maurício Pestana, Secretário Municipal de Promoção da Igualdade Racial.

Os projetos serão avaliados por uma comissão julgadora formada por representantes da Prefeitura de São Paulo, membros da sociedade civil com notório envolvimento na luta antirracista, e profissionais da área de comunicação. A análise será realizada de acordo com quatro critérios: impacto da iniciativa para a promoção da igualdade racial; adequação ao conceito de controle social da mídia; promoção da cidadania; e apresentação do conteúdo.
Entre os trabalhos premiados, no mínimo 50% deverão ser iniciativas de mulheres negras, ou que tenham sua equipe de produção formada por pelo menos metade de funcionárias ou colaboradoras negras. Cada uma das dez iniciativas vencedoras receberá R$ 20 mil, além do “Troféu Almerinda Farias Gama”.

Sobre Almerinda Farias Gama

Foi uma advogada, feminista e líder sindical nascida em Maceió (AL). Teve papel importante na construção da cidadania feminina, e foi precursora da participação da mulher negra na política nacional. Atuou como datilógrafa e publicou crônicas no jornal “A Província”, de Belém. Almerinda foi uma das primeiras mulheres negras na política brasileira, e única mulher a votar como delegada na eleição para Assembléia Nacional Constituinte de 1933. Ao se candidatar para a Câmara dos Deputados e o Senado Federal, em 1934, seu panfleto dizia “advogada consciente dos direitos das classes trabalhadoras, jornalista combativa e feminista de ação. Lutando pela independência econômica da mulher, pela garantia legal do trabalhador e pelo ensino obrigatório e gratuito de todos os brasileiros em todos os graus”.

Lançamento do Prêmio Almerinda Farias Gama

09/06/2016 (Quinta-feira) – 18h

Rua Líbero Badaró, 425, 6º andar – Centro – SP (auditório)

Tel.: (55 11) 4571-0930

Mais informações: premioalmerindafariasgama@prefeitura.sp.gov.br

Edital: www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/igualdade_racial/

 

 

 

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Genocídio Negro O quê que tá pegando?

Brasil pratica Genocídio, afirma relatório da CPI de assassinato de jovens, no Senado

 

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Durante a audiência, os debatedores colocaram em destaque a possível conivência dos operadores do Direito ao lidarem com a questão. / Cristiane Sampaio / Brasil de Fato

 

Por Cristiane Sampaio, do Brasil de Fato

 

O relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Assassinato de Jovens foi aprovado na tarde desta quarta-feira (8) no Senado. Apresentado pelo senador Lindbergh Farias (PT-RJ), relator do tema, o documento recomenda três principais ações a serem tomadas como prioridade. Entre elas, obteve destaque a discussão sobre o fim dos chamados “autos de resistência” (expressão utilizada por agentes de segurança que alegam defesa ao matar um suspeito).

Para os membros da CPI, esse dispositivo incentiva a culpabilização das vítimas, favorecendo o ataque aos direitos humanos. “Embora nessas situações a autoria do homicídio seja conhecida, os estudiosos são unânimes em afirmar que nos autos de resistência há uma negligência institucional na apuração da materialidade do crime. A ausência dos laudos periciais para indicar a causa da morte e o relato dos PMs como únicas provas testemunhais são as manifestações mais palpáveis dessa conclusão”, aponta o relatório.

Durante a audiência, os debatedores colocaram em destaque a possível conivência dos operadores do Direito ao lidarem com a questão. O procurador de Justiça Antônio Duarte, membro do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), destacou que, em setembro do ano passado, a entidade editou uma resolução sobre o assunto. “É uma orientação pra que os membros do Ministério Público (MP), em sua atuação, tenham uma postura mais questionadora diante dessa alegativa de autos de resistência em caso de morte decorrente de intervenção policial”, explicou.

A Comissão ressaltou que, apesar dos tímidos esforços institucionais, o problema continua sendo uma das causas da impunidade. No Rio de Janeiro, por exemplo, mais de 90% dos casos de assassinatos cometidos por policiais são arquivados sem investigação.

“O que mais nos mata é que parece que nossos filhos não eram nada. O Estado não dá respostas em termos de justiça. (…) Quando meu filho morreu, ele não teve voz, e nós não podemos deixar esse silêncio se perpetuar”, desabafou a integrante do Movimento Mães de Maio, Vera Lúcia Andrade, durante a audiência.

 

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Foto do Site do Senado – Douglas Belchior representante do CONANDA

 

Prioridades

O documento apresentado nesta quarta-feira reúne diversas informações sobre as causas da violência letal da juventude no Brasil. Resultado de mais de um ano de trabalho, ele aponta para o futuro, sugerindo ações que contribuam para a prevenção do problema e para o combate ao genocídio de jovens negros.

Outros dois pontos foram elencados como prioridade para linhas de ação: a criação de um Plano Nacional de Redução de Homicídios de Jovens e uma maior transparência de dados sobre segurança pública e violência.

“A situação do Brasil é considerada pela ONU como um estado de endemia, por isso queremos a aprovação desses três projetos que estão em pauta no Congresso Nacional porque são bandeiras que nos ajudariam a combater o problema”, explicou a presidenta da CPI, senadora Lídice Mata (PSB-BA).

Os dados colhidos pela Comissão mostram que, no Brasil, a problemática dos homicídios tem faixa etária, cor e gênero direcionados: dos 56 mil assassinatos registrados por ano, 53% são de jovens com idade entre 12 e 29 anos, dos quais 77% são negros e 93% do sexo masculino.

“A cada 23 minutos um jovem negro é assassinado. Isso equivale à queda de um jato cheio de jovens negros a cada dois dias. Genocídio da população negra é a expressão que melhor se enquadra à realidade atual do Brasil”, destacou Lindbergh.

O relatório produzido pela Comissão, com cerca de 150 laudas e mais de mil páginas de anexos, recomenda, entre outras coisas, a desmilitarização da polícia, sugerindo uma reestruturação do sistema de segurança pública. “O policial deve ser visto como um verdadeiro cidadão, sujeito de direitos e deveres, e não como um soldado preparado para matar e morrer”, afirmou Lindbergh, que é autor da Proposta de Emenda Constitucional (PEC 512013) sobre o tema.

Para estudar esse e os demais aspectos que atravessam a problemática dos homicídios, a CPI realizou ao todo 29 audiências, nas quais foram ouvidos cerca de 200 especialistas de diversas áreas, como direitos humanos e segurança pública, além de familiares de vítimas.

Segundo informaram os parlamentares, com a aprovação oficializada nesta quarta-feira (8), o relatório será apresentado à presidência do Senado para que seja dada prioridade às pautas destacadas pela CPI. “Nós vamos também fazer uma maratona de visitas a diversos órgãos a partir da proxima semana, para apresentar o resultados dos trabalhos da CPI e pedir que seja feito um esforço interinstitucional para tirar isso da invisibilidade porque, ao final desta audiência, pelo menos oito jovens negros terão sido mortos no Brasil”, disse Lindbergh.

 

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Foto do Site do Senado – Segunda mesa de intervenções

 

Invisibilidade histórica

Diversos militantes destacaram ainda a questão da violência contra a juventude negra como desdobramento de um processo histórico que levou à marginalização dessa parcela da população. Para o pesquisador Edson Lopes Cardoso, da Universidade Metodista de São Paulo, isso ecoa nos diversos compartimentos da vida social.

“Existe a questão do escravo, mas existe a cor do escravo como sendo considerado um problema. […] Se você vai numa escola, por exemplo, percebe que as crianças sabem que as folhas das árvores são verdes por causa da clorofila, mas elas não sabem que a pigmentação da pele se explica pela melanina. Esse tipo de coisa abre margem pra uma série de problemas porque não há uma educação que discuta as diferentes representações do ser humano ensinando que todas são legítimas”, aponta.

Na visão dele, a formação dos agentes de segurança deveria contemplar esse tipo de discussão. “Nesse contexto de discriminação, a segurança pública emerge como uma expressão maior da rejeição racial, por isso a seleção dos policiais deveria dar espaço para essas discussões já desde o concurso público, porque os agentes precisam deixar de hierarquizar as pessoas pela aparência”, defende.

Crise de narrativa

Outro aspecto levantado nos debates foi a questão da narrativa midiática no tocante à representação da população negra. A democratização dos meios de comunicação foi apontada como uma necessidade para oportunizar a pluralidade de vozes.

“Nós temos uma mídia marcada pela concentração e que não expressa a diversidade do povo brasileiro, muito menos as angústicas da população negra. Muitos desses jovens poderiam ser artistas, poderiam estar se expressando, mas essa possibilidade é interditada pelo fato de não termos uma mídia popular, participativa e democrática”, afirmou o coordenador nacional do Levante Popular da Juventude, Thiago Ferreira.

Edição: Simone Freire