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FEMINISMO E AS CORTINAS A SEREM DESPIDAS

POR LUARA COLPA* –

“Quando eu não fazia ideia do que era o feminismo, eu o repudiava. Muitas coisas repudiamos por desconhecimento. A maioria dos ‘desconhecimentos’ vêm num mesmo balaio junto ao preconceito. Isso porque todas as vezes que o sistema quer que repudiemos algo, imputa-se o medo, ou a repulsa de algo que é apenas desconhecido.

Feminismo é uma dessas palavrinhas: Quem não sabe dizer o que de fato é, repudia.

A verdade é que simplificadamente, o feminismo é um movimento que sempre buscou igualar direitos. Ora, direto ao voto, direito à jornada justa de trabalho, direito à não exploração de trabalho infantil, direito à greve, livre manifestação, salário igual, divisão de tarefas domésticas, direito à não violação dos corpos das mulheres, fim do assédio sexual, moral, a objetificação das mulheres e por aí vai.

É importante abrir um parênteses pra dizer que dentro do feminismo existem vários recortes, por exemplo o feminismo negro. É imprescindível contextualizar que as negras no Brasil ainda estavam dentro de senzalas quando as Novaiorquinas se organizaram em sindicatos. Há formas de organização múltiplas: Mulheres palestinas, indianas, muçulmanas, de todos os países da África, no Oriente Médio, sudeste asiático, México, Caribe se organizam de diferentes formas. No mundo inteiro, cada feminismo tem sua peculiaridade de acordo com a cultura, a política, o momento histórico de cada lugar.

Há ainda diversas vertentes de feminismo: O feminismo liberal, o feminismo marxista, o Feminismo “intersec” (que abarca as mulheres trans, a pauta das deficientes e etc), as “RadFem” (feministas radicais que acreditam num determinismo biológico). Dentro da vertente Radfem, há as “TERF” (Trans-Exclusionary Radical Feminists) que são feministas radicais que excluem as mulheres trans da pauta feminista.

Não pretendo aqui debruçar em todas as complexas vertentes e formatos, mas de antemão, já dá pra desvendar a primeira cortina: de que “feminista é um bando de mulher branca de peito de fora”.

O Gulabi Gang – Movimento indiano. Foto de Torstein Grude, Piraya Film

Alguma vertente pode sim ter atos políticos e performances que explorem a nudez como combatividade e denúncia, mas não apenas isso. Nenhuma das vertentes se resume à apenas isso.

A segunda cortina é: “O feminismo é o contrário do machismo”. Essa é clássica, é erroneamente clássica! O machismo é algo estrutural, o machismo arregimenta forças para manter o Patriarcado funcionando. Para que além da opressão de classes, ainda haja opressão de gênero, e por assim dizer, manter-se uma ordem no mundo.

O machismo violenta física e psicologicamente. O machismo mata.

O feminismo é um movimento e não “uma opressão às avessas”. Feminismo não quer estar no papel do machismo, feminismo não disputa esse espaço de poder e nem se pretende à isso. “Feminismo é a ideia “radical” de que mulheres são gente”, e movimenta-se para equiparar direitos. Feminismo não mata ninguém, mas salva muitas vidas.

A terceira cortina a ser retirada é a cortina do “feminista é mal comida e/ou lésbica”. O feminismo é um movimento grandioso, de libertação, de equidade de direitos. Resumir um movimento à esta frase é perpetuar a opressão, o total desprezo e desconhecimento sobre o significado de Feminismo. No mais, lutamos sim, pelo direito das mulheres serem o que são: Héteros, bissexuais, lésbicas, trans – e não morrerem por isso. Aliás, para quem não sabe, mulheres morrem pelo simples fato de serem mulheres. E isso se chama Misoginia.

A quarta cortina, é a cortina do casamento: “Mulher feminista vai ficar pra titia”. Bem, esse é um tema interessante de se discutir: O feminismo é empoderador. A partir do momento que você se sente forte o bastante para denunciar agressões, para se firmar nos relacionamentos, você começa a não se sujeitar a muitas coisas. É o amor próprio. E aí, ficar ou não numa relação que não é saudável, é uma decisão muito mais fácil para a mulher do século XXI que as nossas avós, bisavós escravas de um casamento violento – por exemplo.

Violência contra a mulher. Fonte: http://estaticog1.globo.com/2014/12/violenciacontramulher

A nossa “proposta” não é pelo fim do amor, ou do casamento. Pelo contrário, a “proposta” é: Melhorem! Parem de nos violentar, nos oprimam menos. Nos enxerguem como gente e não como objeto. Assim, quem sabe, relacionamentos saudáveis engatem e durem.

A quinta cortina é a rivalidade. “Mulher feminista odeia uma mulher bela, recatada e do lar!” – NÃO. Definitivamente! Este é o maior equívoco. O feminismo abarca mulheres. O patriarcado só se sustenta com nossa rivalidade. O mercado acha que só vende produtos por nossa rivalidade. Adoecemos por essa rivalidade. E fim das contas, no dia que olharmos pro lado e enxergarmos companheiras de verdade, o sistema todo começará a ruir. Nós não somos rivais, desprender-se disso é das coisas mais saudáveis que uma mulher pode fazer pra si!

Você pode ser, “”bela””, recatada e do lar e sim, ser feminista! Feminismo fala sobre liberdade de escolher, de ser feliz, mas de ser sobretudo, empoderada, coerente, lúcida e dona de seu corpo e seu pensamento.

Seja do lar, seja professora, seja engenheira, seja Presidenta, seja astronauta. Mas seja dona de si.

A sexta cortina é a cortina mais “besta” que o Patriarcado nos coloca: “Feminista não depila, não é bonita e blablabla”. É importante compreender que há uma força que nos esmaga e essa força vem ditar um modelo, um padrão de beleza (regra geral eurocêntrico) e que impõe: A magreza dos corpos, a espessura dos fios de cabelo, a forma como devemos nos portar, a busca por uma beleza inalcançável. Esse modelo de competitividade nos mata: Seja nas mesas de cirurgia todos os dias, seja por doenças como bulimia, anorexia, depressão e etc.

Motivos para se fazer Lipoaspiração – Fonte: http://docplayer.com.br/12532133-Uma-reflexao-sobre-a-influencia-da-estetica-na-auto-estima-auto-motivacao-e-bem-estar-do-ser-humano.html

Essa farsa, despreza a diversidade do que é belo, da grande mistura de povos, das características peculiares de cada nação, além do mais, este modelo é silenciador, despreza a espontaneidade da mulher e seu meio. E fim das contas nos leva ao consumo infindável de produtos. Depilar,não depilar? Ter um corpo fitness ou estar gordinha e feliz, O que isso lhes diz respeito? É a mulher que escolhe, e isso não faz dela mais ou menos feminista.

A sétima cortina é a cortina do aborto. Uma cortina hipócrita e prejudicial. As pessoas nos imaginam andando pra lá e pra cá com chás abortivos enfiando guela abaixo nas “grávidas de bem”. E mais uma vez o que vemos é o sistema “confundindo” mentes. Feministas – regra geral- denunciam a violência sofrida por mulheres que abortam de forma clandestina. As muitas mortes e pouca segurança.

Por Andrea Dip, da Agência Pública – Dados: OMS

Enquanto a sociedade tapa os olhos para os homens que abandonam seus filhos, o peso sob a mulher é sempre enorme. Além do mais, é preciso enxergar o Estado como laico, e retirar as cortinas moralistas e religiosas que acompanham o tema. Sendo assim, eu, por exemplo, não faria um aborto, pois tenho uma crença religiosa, uma família que me apoiaria, e uma vontade pessoal. No entanto não caberia a mim decidir sobre o corpo alheio, acho inclusive que com a legalização do aborto seguro, muitas mulheres teriam condição de conversar com médicos, psicólogos, amigos e encontrariam chance de inclusive desistirem do aborto, encontrariam abrigo e força, que não encontram na clandestinidade. É um processo muito mais de saúde pública que de qualquer outra coisa.

A oitava cortina é a da histeria, “mulheres são loucas e histéricas”. Bom, esse comportamento é fundamental para o machismo perpetuar, isso se chama Gaslighting,  e é uma das formas de silenciar uma mulher. Todas as vezes que não se concorda com o que ela diz, chamam-na de louca. O fato de questionar a própria sanidade é dos sentimentos mais violentos que uma mulher passa em vida. Além de cruel, essa ação gera insegurança, rivalidade e muitos questionamentos. Quem pratica Gaslighting é violentador, e o feminismo tem por obrigação denunciar essa prática.

Na imagem resta claro, para o Treinador Dunga: “O DOM da fúria”, para a Presidenta da República, a histeria, as “explosões nervosas”.

A nona cortina é a do “acho um absurdo homens não poderem ser feministas”. Acreditamos que seja ok os homens em desconstrução nos apoiarem, mas é importante que entendam a importância maior da auto-organização. Afinal, um branco não faz parte de um coletivo de negros, justamente por ser um processo de um grupo de pessoas específico, com opressões específicas sofridas, com intimidade pra debater certas coisas. Organizar-se, debruçar-se sob uma pauta, diz respeito aos impactos sofridos por aquele nicho de pessoas. É assim com os sem terra e suas pautas específicas, é assim  com LGBTTs, é assim com a luta contra a gordofobia, e é assim com o feminismo. Nos apoiem, mas não queiram tomar protagonismo do que não vivenciam!

A décima cortina é a do “o mundo está ficando muito chato com feministas”. Aí sim. Se lutar por respeito, direitos e saúde mental, é ser “chatas”, é isso o que somos!

malala
Malala, a Paquistanesa vencedora do Nobel da Paz pelos Direitos Humanos e educação das mulheres. No cartaz a frase “Eu sou mais forte que o medo”.

O feminismo tem mil cortinas a serem desvendadas por quem tem no mínimo curiosidade e respeito. O feminismo é libertação, mas ao mesmo tempo não nos impõe nada.

Você pode ser loira, negra, gorda, magra, rica, pobre, do lar e feminista em todos os casos. Você pode se vestir como quiser, inclusive com o corpo todo tampado. Você pode ter a profissão que quiser, inclusive nenhuma! Você pode ter o comportamento social que achar melhor, e ninguém vai te forçar a ser o que não desejar. ‘Vadias’, recatadas, trabalhadoras, de minissaia ou burca. O feminismo não transforma a sua “carcaça”, mas transforma a mente para que compreendamos o quão forte somos – e em coletivo esses saltos de consciência são ainda mais gratificantes!

Somos Muitas, somos diversas e não nos cabe mais um século de opressões.

Por uma Nova Maioria! Por representatividade! Pela vida das mulheres: Que venha o feminismo!!!

https://www.youtube.com/watch?v=5gYDRCKXjTo

MEXEU COM UMA, MEXEU COM TODAS”

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Luara Colpa é colunista no BHAZ, brasileira, 29 anos. É mulher em um país patriarcal e oligárquico. Feminista e militante por conseguinte. Estuda Direito do Trabalhador e o que sente, escreve. 

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Escola sem partido. Parlamento sem moral. Governo sem vergonha.

lousa

 

Por Douglas Belchior

 

Escola Sem Igrejas, bíblia ou crucifixo na parede;

Escola Sem hino nacional às quartas-feiras;

Escola Sem festa junina com música country americana;

Escola Sem cartilha “pedagógica” do governo;

Escola Sem exaltação à meritocracia;

Escola Sem miséria, com direito à merenda e papel higiênico no banheiro dos estudantes;

Escola Sem ‘Festa das Nações’ com desfiles das crianças vestidas de colônia Italiana, portuguesa, espanhola, holandesa e até alemã… E só!!!! \o/;

Escola Sem excursão para o programa do Luciano Huck;

Escola Sem PM ou GCM tomando cafezinho na cozinha da merenda bem na hora do intervalo;

Escola Sem indicação política para os cargos de direção, vice e coordenação pedagógica;

Escola Sem “livro negro”;

Escola Sem grades e cadeados;

Escola Sem vidros quebrados, lousa aos pedaços, goteira na sala e uma boa e silenciosa descarga nas privadas;

Escola Sem Projeto Político Pedagógico racista, machista e homofóbico, que ignora

relações raciais, gênero, diversidade e história da África e dos povos originários;

Escola Sem servidores desesperados com as contas do fim de mês, em pleno ano olímpico;

Escolas Sem ausência de plano de carreira, formação continuada e reconhecimento profissional;

Escola Sem professores tristes, desestimulados e humilhados pelos governos;

E se for assim, o “partido” não fará

falta.

 

 

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educação

MEC, Conib e Revista Veja querem ‘Universidade Sem Partido’ e atacam edital da UFABC

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Por Douglas Belchior

O fascismo do governo Temer, a mídia golpista e setores conservadores da sociedade, para além dos retrocessos nos direitos sociais, prometem ataques permanentes à democracia nos espaços educacionais. A absurda proposta da Escola Sem Partido tem como alvo não apenas as escolas públicas de nível fundamental e médio, mas também as universidades públicas.

A prova real temos agora, com a intervenção autoritária, desrespeitosa quanto à sua própria autonomia e a serviço do governo golpista, caracterizada pela postura da Reitoria da UFABC, que pressionada pelo ministro da Educação do atual governo ilegítimo, pela Confederação Israelita do Brasil (Conib) e pela revista Veja, modificou os termos do edital de um concurso para a área de relação raciais, eliminando a menção ao sionismo, que foi interpretada e denunciada pelo Conib como “edital antissemita”.

Destilando ódio em um texto mal escrito, o blogueiro da Revista Veja Reinaldo Azevedo, amplificou o argumento defendido pelo Conib – e que foi objeto de reunião entre os Israelitas e o Ministro da Educação, que resultou na alteração do edital. O desprezível Azevedo chega escrever que “Dá para fazer picadinho de cada item” do edital, chama de “delinqüência intelectual” o ítem que trata das óbvias “Conexões da branquidade e dos regimes racistas: apartheid, nazismo, sionismo” e, entre outros absurdos, chama de detestável “Os Condenados da Terra”, de Frantz Fanon.

O edital 145/2016 de 21 de Junho, tem como objetivo selecionar a partir de concurso público, professores para as áreas e sub-áreas de relações raciais, desigualdades de raça, gênero e renda, diáspora negra, direitos humanos e racismo. São 4 vagas, com reserva (cota) de uma vaga para negra/o. Como sabemos, a universidade brasileira tem caminhado a passos lentos no sentido de promover conteúdos relativos às questões raciais e de gênero, bem como a uma maior participação de professores negros em seus quadros decentes. Sem dúvida que o ataque a esse edital, que traz uma elaboração de conteúdo profundamente avançado do ponto de vista da diversidade e relações raciais, está relacionada ao momento de ataques que vivemos em todas as esferas.

Sobre a acusação feita pelo Conib, de que o edital seria antissemita, em Carta Aberta à Comunidade, que segue abaixo em sua íntegra, os professores Muryatan Santana Barbosa e Paris Yeros registram que

 

O ponto do edital referente ao estudo comparativo de regimes racistas (4.3.1.4), incluindo apartheid, nazismo e sionismo, se refere a um corpo de pesquisa já estabelecido e a um dos assuntos que mais preocupou a Assembleia Geral da ONU, resultando na Resolução No. 3379/1975 que tipificou a opressão do povo palestino como racismo. A resolução foi anulada em 1991, porém o assunto continua a polarizar, como o fez na III Conferência sobre o Racismo, Xenofobia e Intolerâncias Correlatas, realizada na cidade de Durban em 2001.

 

Registro aqui total solidariedade aos professores Muryatan Santana Barbosa e Paris Yeros, bem como ao professores que compõem a Associação dos Docentes da UFABC, que se dedicam diuturnamente a fazer da UFABC uma universidade plural e democrática.

Abaixo segue manifestações de professores da UFABC:

 

Carta aberta à Comunidade Acadêmica

Carta aberta à Comunidade Acadêmica em relação ao Edital 145/2016 (“4×4”)

Como membros do GT do CECS para o concurso sobre Relações Étnico-Raciais (Edital 145/2016, www.ufabc.edu.br/index.php…) vemos, por meio desta, esclarecer alguns pontos fundamentais a respeito.

  1. O estudo das relações étnico-raciais é um campo estabelecido mundialmente, constituído por uma ampla agenda de pesquisa e diversidade de abordagens.
  2. O estudo das relações étnico-raciais no Brasil se desenvolveu insatisfatoriamente na academia, como resultado do tipo de racismo vivido no país, que se negou a reconhecer sua própria existência como fator estruturante da sociedade brasileira. Este fato foi reforçado ao longo do tempo pela ausência quase total de pesquisadores(as) negros(as) nas universidades brasileiras.
  3. A importância do estudo e do ensino das relações étnico-raciais no sistema de educação brasileiro foi tardiamente reconhecida pelo Governo Federal na década passada, começando pela Lei 10.639/2003 sobre o ensino da História e da Cultura Afro-brasileira e Africana e pela Resolução No. 1 do Conselho Nacional de Educação, que instituiu as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais. Juntamente com leis posteriores, especialmente a Lei 10.645/2008, o processo de reconhecimento tomou corpo no Plano Nacional de Implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação das Relações Étnico-raciais, que inter alia exigiu da educação superior um esforço sistemático para contribuir à formação de jovens pesquisadores(as), professores(as) e cidadãos(ãs) conscientes das realidades brasileiras.
  4. A exclusão de negros(as) foi também reconhecida, resultando, em primeiro lugar, na adoção de cotas raciais em universidades federais, prioritariamente em nível de graduação. Atualmente, cotas raciais são exigidas em cursos de pós-graduação. Adicionalmente, a Lei 12.990/2014 reservou aos(as) negros(as) 20% das vagas em concursos públicos, o que no caso do ensino superior se traduz na reserva de uma vaga em cada três, em editais com três ou mais vagas.
  5. O concurso em questão é uma das primeiras iniciativas de viabilizar tanto a Lei 12.990, como fazer avançar no Plano Nacional de Implementação, por articular quatro bacharelados das Ciências Humanas e Sociais Aplicadas (Ciências Econômicas, Políticas Públicas, Planejamento Territorial, e Relações Internacionais) na alocação de uma vaga por curso a um esforço coletivo. O processo amadureceu ao longo de mais de um ano, passando pelas quatro plenárias, as quais também definiram os pontos da subárea que lhes cabia separadamente. As plenárias e seus colegiados são, portanto, responsáveis pela autoria dos pontos.
  6. O ponto do edital referente ao estudo comparativo de regimes racistas (4.3.1.4), incluindo apartheid, nazismo e sionismo, se refere a um corpo de pesquisa já estabelecido e a um dos assuntos que mais preocupou a Assembleia Geral da ONU, resultando na Resolução No. 3379/1975 que tipificou a opressão do povo palestino como racismo. A resolução foi anulada em 1991, porém o assunto continua a polarizar, como o fez na III Conferência sobre o Racismo, Xenofobia e Intolerâncias Correlatas, realizada na cidade de Durban em 2001.
  7. O ponto do edital não pressupõe que formas de governo e ideologias são iguais em suas características, dinâmicas e consequências. Ele exige que candidatos tenham domínio sobre esses estudos comparativos.
  8. É possível e necessário debater livremente sobre o assunto e a forma como ele foi colocado no edital, porém não cabe a uma Reitoria decretar o que é ou não é apropriado no estudo das relações étnico-raciais. Tal intervenção fere gravemente a liberdade acadêmica e cria um precedente perigoso.
  9. Quaisquer que sejam as divergências sobre o referido ponto do edital, vale lembrar que é apenas um dos quarenta pontos ali existentes, que versam, em sua grande maioria, sobre à questão étnico-racial da população negra no Brasil.

O concurso em questão é resultado de reivindicações históricas do povo negro brasileiro por reconhecimento e inclusão efetiva na sociedade brasileira. Como tal, deve ser defendido por todos(as) aqueles(as) interessados(as) na formação de um país mais justo e democrático. O mínimo que se espera, feita a retificação do referido ponto, é que se respeite a integridade e a legalidade do concurso.

Saudações acadêmicas,

Muryatan Santana Barbosa (BCH/BRI/CECS)
Paris Yeros (BCH/BCE/CECS)

 

Nota da ADUFABC sobre a retificação do edital 145/2016: a universidade não existe sem autonomia

No último dia 13 de julho, a UFABC publicou no Diário Oficial da União o edital n°160/2016 que, como afirma nota divulgada pela reitoria no mesmo dia, “corrige uma parte do Edital 145/2016 que, de forma inapropriada, tratou no mesmo contexto regimes políticos e acontecimentos históricos muito diferentes entre si”.

Como todos acompanhamos, a decisão da reitoria de retificar o edital tinha o objetivo de encerrar uma forte polêmica envolvendo um dos pontos do referido concurso que mencionava o debate sobre “Conexões da branquidade e dos regimes racistas: apartheid, nazismo, sionismo”. A reação ao ponto envolveu, além de manifestações de parte da imprensa e da comunidade judaica, uma demanda direta do próprio ministro interino da educação.

A universidade, como qualquer outra instituição social, não existe fora da sociedade. Portanto, é perfeitamente compreensível – e até mesmo desejável – que seja objeto de questionamentos de forças sociais diversas, de natureza política, econômica, cultural ou religiosa, sobretudo considerando-se a legitimidade e a eficácia do conhecimento produzido no seu interior.

Mas se é esperado da sociedade que questione a universidade, é igualmente esperado que esta responda respeitando o princípio da autonomia.

A universidade constituiu-se historicamente como instituição lutando contra o poder político e religioso da Igreja, ainda na Idade Média. Da mesma forma, a emergência da ciência moderna no século XVII é impensável sem a afirmação do ideal da autonomia, materializado no expediente da “revisão por pares”, que reconheceu como princípio basilar da moderna produção de conhecimento, a ideia de que só pode julgar a validade de um saber aqueles que sejam capazes, por longo processo de formação, de compreendê-lo e avaliá-lo.

Foi reafirmando esses princípios fundamentais, e em resposta aos traumas e retrocessos causados pelas constantes intervenções da ditadura militar no interior da universidade, que a Constituição Federal de 1988 estabeleceu, no seu artigo 207, o princípio da autonomia universitária, com destaque para a autonomia didático-científica.

Reconhecer a autonomia da universidade não significa isentá-la de controle e responsabilidade social, mas significa afirmar que estes se exercerão segundo determinadas regras, inspiradas nesse princípio constitucional.

É partindo desta reflexão que a diretoria da Associação dos Docentes da UFABC vem por meio desta nota externar a sua profunda preocupação com a forma como o edital 145/2016 foi retificado pela reitoria da UFABC no último dia 13. Se havia uma demanda externa, mesmo que de origem pouco qualificada como foi o caso, para que o edital 145 fosse retificado, isso deveria ter sido feito à luz do princípio da autonomia e respeitando-se as instâncias universitárias, o que, em nossa opinião, exigia que o mesmo fosse reencaminhado de modo oficial para o colegiado responsável pela sua formulação, com uma solicitação de avaliação do questionamento apresentado e de eventuais esclarecimentos e, se este julgasse necessário, de reelaboração do referido ponto do edital.

Como se sabe, a discussão sobre racismo, sobretudo nos seus pontos de intersecção com a política e a religião, é assunto que mobiliza paixões e gera enormes polêmicas. No entanto, é função da universidade formar profissionais capazes de dominar criticamente os debates científicos e acadêmicos que alimentam e analisam tais polêmicas. Aliás, é isso que diz o edital de condições gerais de concurso da UFABC (n° 96/2013), no seu item 11.3:

“A Prova Escrita tem como objetivo avaliar a competência do candidato na utilização de conceitos, técnicas e suas inter-relações, de acordo com a área/subárea de conhecimento em exame, bem como avaliar sua capacidade de argumentação e crítica, domínio conceitual e vocabulário da área/subárea”.

A ideia de estabelecer no edital do concurso pontos ao invés de perguntas fechadas pressupõe a capacidade do candidato de argumentar livremente, inclusive de forma crítica. Assim, qualquer um que conhecesse o edital de condições gerais de concurso da UFABC, saberia que, ao contrário do que foi dito, não se esperava um candidato que equiparasse nazismo, sionismo e apartheid, nem que afirmasse o caráter racista do sionismo. Parece-nos evidente que o edital esperava, na verdade, um candidato que dominasse criticamente o debate por ele evocado.

Vale notar que a associação entre sionismo e ideologia da branquidade, portanto racismo no sentido sociológico do termo, é objeto de um amplo e conceituado debate no campo das ciências sociais, com desdobramentos muito particulares na área acadêmica e profissional das relações internacionais. Prova disso são os constantes debates e embates travados no âmbito da Organização das Nações Unidas para a definição ou não do sionismo como forma de racismo.

Que a Universidade Federal do ABC forme profissionais que lidem com esse debate de forma dogmática é inaceitável. Assim como é inaceitável que esse debate seja interditado a ponto de não poder ser citado em um edital de concurso, como se ele não fosse objeto de análise crítica e objetiva das ciências sociais.

As ciências sociais, de todas as áreas da ciência moderna, são as que mais dificuldades encontram para afirmar a sua autonomia e isso é patente nos constantes debates que se travam no espaço público da UFABC. Em um momento em que assistimos a uma escalada de radicalização política e religiosa no mundo todo, a universidade deve lutar para permanecer como espaço livre, crítico e objetivo de pesquisa e discussão. E isso não pode ser feito sem a preservação do princípio fundamental e constitucional da autonomia universitária. O precedente aberto pela revisão do Edital 145/2016 é, a nosso ver, perigosíssimo. Editais podem, sim, ser revistos, mas segundo critérios muito bem estabelecidos de respeito à autonomia universitária e às especialidades das diferentes áreas. Qualquer procedimento que escape a isso, flerta perigosamente com posições anticientíficas, anti-intelectuais e anti-modernas.

Diante do exposto, a ADUFABC solicita publicamente à Reitoria os seguintes esclarecimentos: 1) Como chegou à Reitoria a demanda de alterações no edital em questão? 2) Quais razões levaram a Reitoria a ignorar as instâncias devidas, notadamente o colegiado de curso que aprovou e referido edital? 3) Qual resposta a Reitoria pretende dar ao veículo de imprensa que, de forma agressiva e leviana, denegriu a imagem da UFABC e de seu corpo docente?

Por fim, a ADUFABC é solidária à Carta Aberta dos professores Muryatan Barbosa e Paris Yeros, membros do GT responsável pelo referido concurso, e reafirma a importância do edital 145/2016, cujo objetivo central é contratar professores que tenham pleno domínio do debate acadêmico-científico sobre a questão étnico-racial em suas diferentes dimensões, mas sobretudo no que concerne ao estudo e à pesquisa do povo negro brasileiro.

São Bernardo do Campo
18 de julho de 2016
ADUFABC
Gestão Democracia, Diversidade e Direitos (2016-2018)

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Escrita da história

Hoje é dia de Mandela, acolhido no Brasil em 1991 por Erundina e Brizola

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Por Douglas Belchior

 

Dia 18 de Julho é aniversário de Nelson Mandela. O grande ícone da luta antirracista na África do Sul faria hoje 98 anos. Sua morte em 5 de dezembro de 2013 comoveu e mundo e seu exemplo em vida é uma verdadeira lição de resistência e humanidade.

Como reconhecimento de sua luta, a ONU instituiu ainda em 2009, a data de 18 de Julho como o Dia Internacional Nelson Mandela – Pela liberdade, justiça e democracia, uma homenagem à sua dedicação e seus serviços à humanidade, pela mediação de conflitos, pelo combate ao racismo e

pela promoção de direitos humanos.

 

Blog Negro Belchior
Luiza Erundina, prefeita de São Paulo, recebe o líder Nelson Mandela em 1991

 

No Brasil, Mandela foi abraçado pelo povo negro brasileiro, recebido por chefes de Estado e acolhido em especial pela então prefeita de São Paulo, Luiza Erundina (foto) e pelo inesquicivel governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola, que levou Madiba a ser recebido por mais de 40 mil pessoas em plena Praça da Apoteose, como bem registra o vídeo do acervo Cultne, abaixo.

Também sobre sua passagem pelo

Brasil, recupero o texto dos geniais Oswaldo Faustino e Celso Fontana, publicada pela revista Raça em sua edição de número 181.

Em tempos de continuidade barbárie racial mundo afora, seja nos conflitos super noticiados a partir dos EUA e da xenofobia europeia, seja nos invisibilizados massacres de negros em países africanos ou no Brasil, o fato é que a mensagem de Madiba continua urgente e necessária.

Feliz dia Internacional Nelson Mandela pra você também!

 

 

A passagem de Nelson Mandela pelo Brasil

Por Oswaldo Faustino e Celson Fontana

Após sua libertação, em 1990, Mandela foi eleito presidente do Congresso Nacional Africano (CNA), o partido das maiorias negras da África do Sul. Em posse desse cargo e já em campanha para a presidência do país, nas eleições que aconteceriam em 1994, ele desembarcou no Rio de Janeiro, em 1º de agosto de 1991, numa visita que durou seis dias e incluiu passagens por São Paulo e Brasília. Uma das histórias mais marcantes da visita ao Brasil ocorreu durante sua estadia na capital paulista, quando participou de uma sessão ordinária no plenário maior do Palácio 9 de Julho (que tem o nome Juscelino Kubitscheck), no dia 2 de agosto. A assembleia atraiu grande público nas galerias: eram representantes de dezenas de entidades negras, populares e sindicais de todas as regiões do Brasil.

Entre os parlamentares presentes naquela sessão presidida por Carlos Apolinário, estavam Teodosina Ribeiro – primeira mulher negra a exercer o mandato de deputada estadual –, Luiza Erundina, a prefeita de São Paulo na época, e destacaram-se o então deputado Jamil Murad, autor do projeto que criou o SOS Racismo da Assembleia, e o vereador paulistano Vital Nolasco, autor do projeto que concedeu o título de Cidadão Paulista a Nelson Mandela, ambos do Partido Comunista do Brasil (PCdoB). “Enquanto Mandela esteve encarcerado, fizemos um ato em São Paulo para apoiar sua libertação. Personalidades como João do Vale, Beth Carvalho e Martinho da Vila participaram daquela manifestação, que foi a nossa maneira de prestar solidariedade ao povo africano. Tempos depois, quando soube que ele viria para o Brasil, resolvi lhe prestar a singela homenagem. O grande estadista Mandela demonstrou-se extremamente simples, mas com grande convicção de suas ideias. Além disso, o homem esbanjava felicidade”, recorda Nolasco, hoje secretário de finanças do PCdoB. A deputada Célia Leão, do PSDB, também fez discurso notório. Diversos parlamentares quiseram fazer uso da palavra, mas Mandelaestava muito cansado, pois, na véspera, havia participado de diversos eventos e homenagens no Rio de Janeiro, acompanhado pelo governador Leonel Brizola.

Conforme relata o autor Celso Fontana, em seu e-book “… E Mandela presidiu a Assembleia Paulista…”, obra que descreve as homenagens ao grande líder sul-africano, “os funcionários dos vários setores da Assembleia, em especial os envolvidos na recepção e nos trabalhos de plenário, estavam visivelmente emocionados”. A associação e o sindicato dos funcionários da Assembleia, Afalesp e Sinfalesp (atual Sindalesp), apoiaram a homenagem. A Coordenadora do Quilombhoje Literatura, Esmeralda Ribeiro, recebeu os cumprimentos em nome dos artistas que se apresentaram durante o evento. Por fim, Mandela presidiu, simbolicamente, a Assembleia Paulista.

 

 

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Filosofia Política

O Programa Escola sem Partido e os furúnculos de Karl Marx

Existe-doutrinação-marxista-nas-escolas

 

Por Douglas Rodrigues Barros [1][2]

 

O judeu assimilado Karl Marx não era, e nem é, um santo. Ele estaria mais – nas palavras do brilhante conservador, Nelson Rodrigues – para calhorda.  Fumante inveterado, como aliás quase todo homem de ideias, acumulava pilhas de fósforos ao redor de sua mesa e idolatrava o Château Margaux.

Foi entre as centenas de livros, fósforos e páginas de jornais que teve a inconsequência de fazer um filho em Helene Demuth, sua governanta. Este (in)feliz deslize, no entanto, foi assumido por Engels e, só descoberto por uma de suas filhas, Eleanor quando, a incrível lutadora Jenny von Westphalen (sua esposa) já havia morrido.E, portanto, estava protegida de saber de toda a verdade.

Isso para falsos moralistas é algo intragável. Ao saber do (in)feliz deslize um periódico famoso, e com a cara de mídia brasileira, dedicou dezenas de laudas para atacar o velho barbudo chamando-o de bêbado, parasitário, traidor e que não gostava de tomar banho. De repente, o grande filósofo havia se convertido numa espécie de vilão da novela das oito.

Na juventude, logo que chegou na universidade, Marx se envolveu nos círculos de pensadores da filosofia hegeliana, destacando-se entre os chamados hegelianos de esquerda. Isto é, aqueles que aplicavam o método historicista de Hegel à análise social. Comprou uma pistola e nos arroubos românticos da época duelou tomando um tiro de raspão na têmpora esquerda. Adquiriu o hábito de beber muito e, por sua vez, escrever poesias que eram, segundo ele mesmo, péssimas…

Em 1837, Karl dedicou-se integralmente a filosofia e frequentando o café na Rua dos Franceses conheceu um dos seus mais íntimos amigos Bruno Bauer, outro hegeliano de esquerda, que futuramente teria problemas com o governo prussiano. Decidiu completar seus estudos em Berlim e dedicou-se ao preparo de sua tese de doutorado. No mês de março daquele ano, torna seu noivado com Jenny oficial, tendo a aceitação do pai da moça, pois, ainda que fosse judeu (preconceito persistente no ocidente), o futuro calhorda, Marx, era um rapaz inteligentíssimo e simpático.

É preciso dizer que Marx viu nesses anos o surgimento, ou melhor, a explosão da Revolução Industrial, embora, a Prússia – futura Alemanha – ainda guardasse aspectos do antigo regime.Em 1840 morre Frederico Guilherme III imperador da Prússia. Os liberais alemães se animam, todavia, descobrem, para desgosto próprio, que Guilherme IV, que o substituíra, tinha tendências ainda mais reacionárias. Sob este novo governo, a filosofia de Hegel é proibida, e as portas de uma vida estável se fecham para o futuro e sem-vergonha Marx. Que em breve chegará a Dean Street em Londres e estará frente à frente com a barbárie da Revolução Industrial. Deu no que deu.

176 anos depois, o pensamento de Marx, tal como o de seu outrora mestre Hegel, está sendo proibido nas escolas do mundo subdesenvolvido (me refiro, também, a Hungria que tem um governo declaradamente de extrema direita) e não estamos sob o reinado de nenhum imperador. Sabemos, contudo, – ou melhor, aprendemos com o velho calhorda – que as ideias, muito amiúde, se convertem em força material.

Marx, tal como um espectro, ainda paira como uma força motriz dos humilhados e ofendidos arrancando tremores, grunhidos e receios daqueles que defendem a manutenção do status quo. Tais incômodos nos dão notícias, porém, de que seu pensamento ainda se constitui como força material. Não fosse assim; sua proibição, escárnio, escracho nas redes do ódio e, agora, nos parlamentos fundamentalistas tupiniquins não teria razão de existir.

Sob vários aspectos é difícil conceber como minimamente aceitável a aberração chamada Escola sem Partido. Um liberal clássico qualquer teria arrepio de se ver ligado a esse “programa” pela tamanha desonestidade intelectual. Max Weber o paladino do liberalismo desencantado já havia dito que quem se decide pela neutralidade, se decide pelo mais forte. E ao falar de neutralidade, o projeto de lei,Escola sem Partido, opta pelo partido único, ou,o seu partido. Uma de suas tópicas é: neutralidade política, ideológica e religiosa do Estado. Ora, se é Estado não pode haver neutralidade.

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O Estado sempre é tomado por um governo que opta ideologicamente e politicamente pela sua condução. Dizer que o Estado é neutro é o mesmo que decretar o fim da política, do debate e da discussão. É afirmar a apoteose do mesmo, isto é, a manutenção silenciosa das desigualdades imperantes desde sempre. Nem o mais disparatado tecnocrata poderia prever algo dessa dimensão.

Naturalmente este item é confuso – como aliás todo o resto –, provavelmente está correlatado a escola estadual. Se for assim, esquecem, contudo, que mesmo na posição das mesas e carteiras já há uma opção ideológica e a escola tem um princípio político-econômico nos trópicos, qual seja: oferecer mão de obra barata para as empresas e, se possível, qualificada. Assim, ao afirmar qualquer tipo de neutralidade no interior dessa correlação é pôr fim a discussão e não o contrário.

Estabelecem isso como norma, contudo,para não fugirem da Constituição, num intenso malabarismo legal,afirmam que estão de acordo com os pluralismos de ideias no ambiente acadêmico.Claramente ao vetar o debate ideológico, religioso e político esse postulado é vão e se serve de retórica complacente e juridicamente pedante para impor o que realmente se deseja; o fim das discussões e, porque não, a imediata suspensão da filosofia e da sociologia em sala de aula. Desse modo, o pluralismo de ideias defendido não passa de forma sem conteúdo. Não à toa, no momento em que escrevo uma professora já se tornou vítima dessa aberração e foi afastada por ter abordado, em sala de aula, o calhorda descrito acima.

Mas, um dos itens mais interessantes é o que segue, denunciando a vontade impronunciável do retorno da velha Educação Moral e Cívica, trata-se do: direito dos pais a que seus filhos recebam a educação moral que esteja de acordo com suas próprias convicções.Mas, a educação moral não é propriamente os pais quem dão? Como esses defensores da tradição julgam que a escola – que sofre de todas as mazelas pela falta de investimento e interesse do poder público –é a responsável pela educação moral?

Tendo isso posto, fica evidente que o que está explicito aí, na verdade, é um fundamentalismo religioso tacanho que se volta inconfessadamente contra os avanços da discussão sobre a sexualidade. Implicitamente o que esses reacionários querem dizer é que cabe aos pais escolherem a sexualidade de seus filhos, como se, ao se abordar esses temas na escola, – inclusive tendo com isso um devido esclarecimento que geraria a humanização do assunto com o fim dos tabus – tais temas influenciassem os alunos em suas escolhas sexuais.

As excrecências banais são muitas e uma chama especial atenção pela aberração intelectual que somente em tempos sombrios e obscurantistas podem surgir, vejamos: Finalmente, um Estado que se define como laico – e que, portanto deve ser neutro em relação a todas as religiões – não pode usar o sistema de ensino para promover uma determinada moralidade, já que a moral é em regra inseparável da religião. A moral é em regra inseparável da religião? Eis aí uma grande novidade que nem Espinosa, nem Kant na Crítica da Razão Prática foram capazes de conceber.

 

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Se a moralidade é inseparável da religião então é impossível; ou haver um Estado moral, posto que laico, ou o próprio Estado laico é uma fanfarrice sem fim, posto que não pode ser moral. Outro malabarismo incrível que desconcerta pela presunção de ignorância por parte de seus leitores.

E assim voltamos a cartilha do catecismo que o santíssimo programa quer impor, pois, para estes “Liberdade de ensinar – assegurada pelo art. 206, II, da Constituição Federal – não se confunde com liberdade de expressão; não existe liberdade de expressão no exercício estrito da atividade docente, sob pena de ser anulada a liberdade de consciência e de crença dos estudantes, que formam, em sala de aula, uma audiência cativa”.

O que seria a tal liberdade de consciência? Audiência cativa?Nunca entraram numa sala de aula em escola pública. Quem seria o juiz para determinar que a liberdade de uma consciência foi desrespeitada por outra consciência? Idealismo abstrato ou desfaçatez concreta? Somente uma cartilha poderia alinhavar isso e aí entra o trabalho das velhas figuras que teimam em voltar na história do país: os censores. Não devem haver dúvidas, portanto, que em breve censores estarão com poder de polícia dentro da sala de aula se tal proposta for levada adiante.Não é em vão queum exército de censores nas redes sociais já se formoue estão prontos para destilar o veneno da própria ignorância.

A presunção sem fim destes senhores – sim, porque serão eles que darão as diretrizes do ensino – é horripilante. O processo de formação de qualquer consciência, o princípio da própria civilização, segundo Freud – mas não só –, é a negação. E esta negação é o desmonte das convicções fundamentadas em dogmas e formas preconcebidas advindas das tradições. Enfim, o processo de aprendizado é a dúvida como aquilo que movimenta a consciência. E a dúvida diz não.

A dúvida, como princípio de desmonte das verdades prontas, preconcebidas e acabadas de formas de vida e de pensar,é aquilo que torna possível o respeito e reconhecimento do Outro. Mas, para os novos fundadores da religião doutrinária do Escola sem Partido isso é abusivo, e claro, porque eles são mais inteligentes que Freud, Nietzsche, Pascal, Montaigne, Einstein etc. etc…

Será que voltamos aos tempos de Marx em que a liberdade de discussão era proibida? “A história se repete como farsa”, diria o velho barbudo calhorda. Por isso, o incômodo gerado pelas suas ideias é vivo e presente, principalmente numa sociedade cortada pelas contradições de uma desigualdade que funda a própria sociabilidade, ou em termos simples, funda a forma de pensamento e interação social.

Marx sabia que estava contribuindo grandemente para humanidade ao estudar cerca de doze horas por dia – por vezes, até dezesseis – para legar ao mundo sua maior obra. Com imensas dificuldades financeiras – chegou a ficar, por alguns dias, com o filho preferido morto dentro de casa por não ter dinheiro para enterrá-lo – não perdia o humor. Por ler e escrever, sentado o dia inteiro, adquiriu enormes e dolorosos furúnculos e numa carta cheia de ironia, amarga e viva, escreveu ao seu amigo Engels:

A burguesia enquanto viver, há de sempre lembrar de meus furúnculos!

Está aí o Escola sem Partido para não deixá-lo mentir.

 

[1] Este pequeno artigo é uma continuação da discussão anterior sobre a formação do fascismo.

[2]Escritor e mestre em filosofia, atualmente é doutorando em ética e filosofia política pela Universidade Federal de São Paulo.

 

 

 

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Futebol

O futebol é indissociável. O futebol é o povo.

Por LUARA COLPA

“Há um tempo discute-se a problemática “Futebol Moderno”. Falar de Futebol Moderno é falar de regras impostas por uma Federação alheia ao povo. É falar de proibição: Proibição de sinalizadores (mesmo os que só ascendem), proibição de assistir o jogo em pé, de brincar com o adversário, de “chapéu pra trás”, e dribles que só quem é menino dá conta!

Futebol moderno é ainda: chuteira colorida, perda de espontaneidade, lógica de mercado, de marketing, elitização do futebol, de expulsão das Gerais, de ingresso caríssimo e de jogo às 22hs. Futebol moderno é aquilo que tratora a dinâmica das cidades, junto com Megaeventos que de legado só deixa: Gentrificação, desmonte de cultura popular, despejos forçados e impactos reais em quem de fato protagoniza o futebol: A torcida, os moradores, as cidades!

Quem propõe o Futebol Moderno faz o discurso “Fair Play” pela boca, e “Unfair Player” na prática. Noutras palavras: Estabelece-se um roteiro de práticas de jogo e práticas econômicas, que teoricamente existem para “organizar positivamente” o futebol, e no entanto coloca-se para gerir o roteiro, entidades demagogas e corruptas.

O futebol moderno é fruto de uma cúpula poderosa que gere, mas que despreza pessoas, culturas e organização popular.

Talvez Blatters, Teixeiras e outros sanguessugas não saibam, mas não existe uma ocupação urbana (espontânea ou organizada) que surja em torno de um campinho e que invada o campo. Já repararam? Campo de futebol é sagrado. É lá no terrão que se darão as dinâmicas diárias. É lá que o moleque cai e levanta. É a Dona Maria que cura depressão fazendo suco pra meninada. É a outra senhora que lava os uniformes e tem permissão pra dar bronca na criança até a fase adulta. Terrão é torcida, é briga, é emoção, choro e riso… Solidariedade.

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Foto: Renato Stockler – na exposição “Terrão de cima”

Terrão pode ser campo, pode ser rua, até viela, só não pode deixar de existir. E o jogo só interrompe se passar um sofá no meio, uma mudança de alguém. Todo mundo para e ajuda. Aqui, no Alemão, no Vale das Pedrinhas, em Guiné Bissau, na Argentina:

Futebol não é ópio. E terrão molda caráter.

Foto: Renato Stockler - na exposição "Terrão de cima"
Foto: Renato Stockler – na exposição “Terrão de cima”

Trazendo a pauta especificamente para o Brasil, pode-se comparar o Futebol Moderno também ao modus operandi da política institucionalizada. Essa que teve e tem espaço para se re-significar nas ruas mas que, também passa pela mesma crise: O distanciamento do povo.

Ambos não se atentam para o óbvio. O futebol, assim como a política, não é objeto de barganha de uma cúpula, o futebol e a política são do Povo, porque o futebol e a política são o povo. Indissociáveis.

Que cada dia mais se entenda o quão dono dessas dinâmicas nós somos. Que tomemos para nós o protagonismo. Que venham nossos meninos no futebol e na política, para um mundo com mais Pelés e menos Edsons – se é que me entendem!”

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Luara Colpa é brasileira, tem 28 anos. Colunista no BHAZ. É mulher em um país patriarcal e oligárquico. Feminista e militante por conseguinte. Estuda Direito do Trabalhador e o que sente, escreve. 

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Cultura

‘O Topo do Montanha’, com Taís Araújo e Lázaro Ramos: Se você é negra ou negro, deve assistir!

 

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Diferente, revelador e profético

Por Douglas Belchior

 

O espetáculo O Topo da Montanha, adaptação do texto de Katori Hall, dirigida por Lázaro Ramos, produzida e protagonizada por ele e Taís Araújo, reestreou no último dia 8 de julho e segue em cartaz até 4 de setembro, sempre as sextas, sábados e domingos, no Teatro Faap em São Paulo.

Assisti duas vezes e recomendo.

Como águas turbulentas ante a calmaria de um riacho; como um debate entre a sagaz sede de justiça e a paciência histórica, própria dos grandes sábios, assim é o encontro entre o imponente líder Martin Luther King e a humilde camareira Camae, num texto incrível e surpreendente, brilhantemente interpretado pelo casal mais emblemático do empoderamento negro atual.

Você é negra? Você é negro? Então deve assistir!

Sim, brancos de boa de vontade devem assistir também. Mas é certo que para negras e negros que superlotaram as apresentações da primeira temporada em um teatro de um bairro nobre (branco) de SP, o significado de estar ali em comunidade e experimentar este texto e esta interpretação é algo diferente, revelador e profético. Uma experiência magistralmente descrita pela jornalista e militante do movimento negro Ana Flávia Magalhães Pinto, em suas Notas a partir do lugar de público negro, já publicado por este Blog e que recupero abaixo. Vale a pena ler. Vale a pena assistir.

E depois nos diga se aceita o bastão.

 

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Notas a partir do lugar de público negro

Por Ana Flávia Magalhães Pinto*

 

Longe de ser uma crítica de arte, escrevo a partir tão somente do lugar de público. Mas não apenas público, substantivo carente de materialidade. Falo como integrante do público negro, um conjunto de espectadores/as comumente subestimado ou até muito sonhado, porém tido como distanciado das salas de teatro, cinema, galerias, etc., por razões que dialogam com as violentas e sofisticadas práticas de exclusão sociorracial.

Faço isso porque acredito sinceramente que, afora autoras/es, obras e críticos/as especializados/as, o público é também fundamental para que a arte exista. E nós, público negro, não

só existimos, mas também, tal como aconteceu na noite do último sábado (10), podemos nos fazer presentes em quantidade e qualidade!

Estou me referindo à experiência de assistir à peça O Topo da Montanha, uma adaptação do texto de Katori Hall, dirigida por Lázaro Ramos, produzida e protagonizada por ele e Taís Araújo, que estreou no Teatro Faap, São Paulo.

Eu e um casal de amigos nos dirigimos a essa casa localizada no elegante bairro de Higienópolis bem achando que seríamos a famigerada limitada cota negra entre uma maioria de espectadores brancos. Diferentemente do previsto e como chegamos cedo, pudemos nos deliciar ao ver a entrada de seguidos pequenos grupos de amigos, famílias, casais e homens e mulheres solitárias de pele escura, cabelo crespo e com umas caras de contentamento indisfarçável! As pessoas estavam gostando de se ver ocupando aquele lugar!

 

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De todo modo, é preciso dizer que essa não foi a primeira vez que vi isso acontecer. Na verdade, observo esse fenômeno se repetir cada vez com mais frequência e intensidade nos últimos anos. Considero que eu mesma sou prova disso. Ouso até especular se a incorporação das cotas raciais ao debate público já não está servindo para catalisar a expansão dos limites da participação negra em outros espaços… É, pode ser, mas isso é assunto para outro texto.

Por ora, é melhor continuar no Topo da Montanha. Aliás, a escolha desse texto é, por si, um grande presente, sobretudo para nós, público negro. Em tempos de marchas em defesa da vida da população negra no Brasil ‑, o que inclui aproximações e conflitos de natureza variada ‑, recuperar a trajetória de Martin Luther King a partir do registro de múltiplas dimensões da vida humana serve como uma boa oportunidade para se refletir como temos encaminhado nossas práticas de resistência ao que nos oprime. O reconhecimento da confluência entre medo e esperança, egoísmo e altruísmo, vaidade e humildade num sujeito emblemático como King é, de fato, uma das várias qualidades da escrita de Katori Hall.

Natural de Memphis, Tennessee, ela é uma jovem escritora negra, de 34 anos, formada em instituições de renome como Columbia e Harvard, tendo sido a primeira mulher negra a receber o prêmio Laurence Olivier de melhor peça estreante, em março de 2010, por The Mountaintop, título original em inglês. Para além dos títulos acadêmicos e prêmios, vale mesmo a pena acompanhar a trajetória de Katori por sua capacidade criativa. Atualmente, ela está trabalhando em seu primeiro filme de curta metragem, Arkabutla, que fala sobre relações familiares e racismo.

Outras escolhas feitas para o espetáculo também nos convidam a reconhecer e destacar mais um punhado de talentos negros do teatro. A consultoria dramática e cênica é assinada por Ângelo Flávio. Ator, dramaturgo e diretor, ele é um dos expoentes do teatro negro brasileiro, fundador da Cia Teatral Abdias Nascimento (CAN) na UFBA, em 2002, e responsável, entre outras, pela montagem da peça A casa dos espectros (2006), a partir da obra Funnyhouse of a Negro (1964), de Adrienne Kennedy, outra escritora afro-estadunidense.

 

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O figurino é de Tereza Nabuco, artista que há anos atua em produções da Rede Globo.

O desenho de luz, recurso fundamental para a garantia da dramaticidade do espetáculo, está sob os cuidados do experiente iluminador cênico Valmyr Ferreira. Afora diversos trabalhos no teatro, Ferreira assinou a iluminação da exposição “Abdias Nascimentos 90 anos ‑ Memória Viva”, no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, 2004.Por sua vez, o cantor, ator, pianista, compositor e arranjador Wladimir Pinheiro assina a Trilha Original. Até bem recentemente, Wladimir esteve em cartaz com a peça Ataulfo Alves – O Bom Crioulo, dirigida por Luiz Antonio Pilar, no Teatro Dulcina do Rio. Bem que essa também poderia circular por outras cidades.

Somado a tudo isso, a interpretação da dupla Taís Araújo e Lázaro Ramos é capaz de emocionar ainda mais. Além de sustentarem muito bem o dinamismo das falas e do encaminhamento dado ao toque de inusitado fantástico da narrativa (tem que ir para entender!), os atores são capazes de garantir muito sentido até para os momentos de silêncio.

A performance de Taís, em especial, está digna de todos os aplausos de pé ao final. Vendo a maturidade de sua interpretação, foi impossível não lembrar do discurso de Viola Davis ao receber o Emmy 2015 de Melhor Atriz: “A única coisa que separa mulheres de cor de qualquer outra pessoa é oportunidade. Você não pode vencer o Emmy por papeis que não existem”. E mais uma vez livre de sabotagens, Taís Araújo se mostra uma gigante no palco. A atuação de Lázaro Ramos não deixa por menos. O brinde extra é perceber que o homem está jogando tão bem em tantas áreas!

Apagam-se as luzes, vem aquela sensação de quero mais! E, assim, ir ao teatro firma-se como algo que faz muito sentido para a vida, mesmo que isso implique reorganizar as finanças da semana ou do mês! É isso, o teatro também é nosso lugar, público negro!

 

* Ana Flávia é Doutora e mestre em História, jornalista, ativista do Movimento Negro, autora do livro “Imprensa negra no Brasil do século XIX” (Selo Negro, 2010)

 

 

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Religião

Ensaio “aFÉto” revela amor do povo de santo às Divindades Africanas

O quão bem faz um abraço de quem se Ama? E se o mundo abraçasse, com respeito, a pluralidade de expressões afetivas construídas a partir de diferentes experiências? O ensaio “aFÉto” é mais um lindo trabalho de Roger, em

Olhar de um Cipó

 

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Por Roger Cipó

 

A série fotográfica aFÉto é um registro das emoções do povo de santo e sua relação de amor com as Divindades Ancestrais Africanas, que por intermédio de seus descendentes, assumem a condição física (em transe), para dançar, encontrar e cuidar dos filhos e as filhas de Orixás, durante as cerimônias e cotidiano dos terreiros.

 

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Mais que retratar abraços entre divindades e fiéis, aFÉto propõe um diálogo de sensibilização para a urgência de se respeitar a integridade da religiosidade negra, seus elementos e presença social, apresentando imagens reais do amor ancestral, chamadas pelo fotógrafo Roger Cipó de “a verdadeira imagem da fé do candomblé”.

 

“Porque quando me perguntam o que Orixá faz, eu respondo: ‘Ama.Orixá Ama!”

 

A intolerância e racismo religioso, males que geram violência que através da agressão de famílias, queima de terreiros, apedrejamento de crianças, criaram também, no imaginário da sociedade, imagens demonizadas e demonizadoras da relação de fé e dignidade do culto aos Orixás, inferiorizando e invisibilizando as expressões de vida existentes nesses espaços de fortalecimento identitário, resistência, auto-amor e cuidado coletivo, que resignificam os sentidos de família, a partir da cosmovisão dos terreiros de se relacionar com o mundo por meio dos orixás, ancestrais divinizados na natureza.

 

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A série fotográfica aFÉto evidencia que o Candomblé, ao contrário do que afirma o fundamentalismo, é espaço que possibilita a reconstrução de relações sociais e afetivas de grupos socialmente violentados pela normatividade excludente de uma sociedade pouco sensível à diversidade humana. “Porque quando me perguntam o que Orixá faz, eu respondo: ‘Ama.Orixá Ama!” (Roger Cipó).

 

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Política

5 maneiras de como o idiota fascista é produzido historicamente

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Por Douglas Rodrigues Barros[1]

 

Quando Adorno escreveu Educação após Auschwitz, ele tinha como objetivo prevenir a catástrofe fascista. O crítico chamava a atenção para a importância da análise sociológica como aquela que informaria “sobre o jogo de forças localizado por trás da superfície das formas políticas”. Com efeito, um sintoma de proto-fascismo se evidencia quando a sociologia é posta em dúvida, ou é alvo de piadas em alguns centros de risadas forçadas e irreflexivas.

Não é à toa que o que se oculta no interior do programa Escola sem Partido é, na verdade, aquele incomodo sexagenário gerado pelo retorno da filosofia e da sociologia à “grade” curricular. Os defensores de tais programas revelam assim seus inconfessáveis desejos de ver a velha Educação Moral e Cívica que, subserviente a interesses escusos, – esta sim – doutrinava e excluía de si toda a dúvida. O que estes temem de fato é a potencialidade crítica da dúvida que essas matérias promovem no interior da sala de aula, gerando inclusive o inconformismo dos estudantes ante a total desagregação da educação pública no país. Mas isso será tema de um próximo artigo.

Por enquanto falemos da gravidade da situação política que se espalha não só pelo Brasil, mas pelo mundo como um todo. O fascismo sem dúvida é uma idiotice. No entanto, é uma idiotice que não se pode, em hipótese nenhuma, ser subestimada. Quando um aloprado deputado, que cospe reacionarismo, se joga, tal como um rockstar, da carroceria de um caminhão e se estabaca no chão sobre o aplauso e histeria de centenas de seguidores, apesar da grotesca cena e da babaquice em questão, é um sintoma para ser levado a sério.

Uma das questões mais importantes que o fascismo nos legou é que, apesar das formas grotescas de sua expressão, ele deve ser objeto de denuncia constante. Afinal, na Alemanha pré-nazista ninguém levava a sério um baixinho de bigode raspado, com estandartes ridículos que esbravejava impropérios contra a civilização, querendo romanticamente uma sociedade na qual o super-homem nietzschiano – obviamente integrado e desvirtuado pela ideologia nazista – teria espaço.

Nesse sentido, o que apresento aqui é uma síntese cabível neste espaço sobre como o fascismo é produzido na oficina da história pela crise e falta de perspectiva. Aqueles que se interessarem pelo tema e quiserem se aprofundar podem pesquisar não apenas Adorno e os escritos da, vulgarmente chamada, Escola de Frankfurt, como também, um dos livros mais sagazes e profundos sobre o fascismo: Labirintos do Fascismo de João Bernardo.

Vamos às cinco características:

1 – O fascismo é uma revolta dentro da ordem

Ele aparece como uma potencialidade de transformação, mas esbarra nos limites de uma mudança feita para nada mudar. Isso porque seus adeptos geralmente esbarram em questões que pairam na superficialidade dos problemas. Numa moralização unilateral que evidencia somente os aspectos mais pragmáticos e, por isso, propagandísticos nas crises políticas e econômicas. Por exemplo:o principal motor da xenofobia em 1930 e na presente fascitização europeia e paulista é enxergar o problema do desemprego no imigrante e não na crise estrutural pelo qual passa a economia. Do mesmo modo, a propaganda contra a corrupção se torna unilateral. Ela não denuncia que a própria engrenagem político-econômica fomenta a corrupção como algo necessário para sua própria manutenção.

2 – O fascismo é fenômeno de crise e falta de perspectiva de mudanças profundas

O fascismo nasce de alguns desastres históricos. Não apenas de uma profunda crise econômica, mas de uma crise político-social que lá atrás arrastou a Europa para a Grande Guerra. E o horizonte hoje com o começo da dissolução da zona do euro e ressentimentos de toda ordem não se apresenta tão diferente. Do mesmo modo, a crise estrutural no Brasil fomenta atividades e ressentimentos de classe e posições altamente conservadoras e reacionárias. Separatismo e paixões provincianas, além do nacionalismo tacanho, marcam também algumas de suas características fundadas na falta de perspectivas reais de melhorias.

3 – As instituições democráticas são irrelevantes para o fascista

Já em 1921 Benito Mussolini discursava marcando

algumas características que permeariam a noção do ser fascista: “Estaremos com o Estado e a favor do Estado sempre que ele se mostrar um guarda intransigente” dizia o idealizador fascista, “mobilizar-nos-emos contra o Estado se ele vier a cair nas mãos de quem ameaça a vida do país e atenta contra ela”. Com certeza, uns cem números de leitores dessa revista devem ter gostado e simpatizados com a fala do líder, Mussolini, que muito tem em comum com aquele outro que deu de cara no chão.De um lado, o respeito pelas instituições democráticas só é feito tendo em vista a participação dos próprios fascistas na partilha do poder. Por outro lado, o fascismo pretende substituir o poder estatal quando a democracia não compartilhar de suas crenças.

4 – O fascismo avança quando os progressistas retrocedem

A partir dos duros golpes sofridos e no retrocesso da tentativa de superar a desigualdade histórica; a ideia de uma revolução dentro da ordem, para salvaguardar a sociedade do comunista comedor de criancinhas, se consolida e ganha aos poucos as mentes e os corações.A assim chamada “revolta dentro da ordem” como uma das características centrais do fascismo assume muitos dos aspectos tradicionais da luta dos trabalhadores, mas para colocá-lo na perspectiva da ordem da economia imperante. Assim, quando uma massa amorfa de verde-amarelo sai as ruas e utiliza palavras de ordem e formas de luta tradicionalmente de esquerda (como por exemplo a ocupação da Paulista) ela não está sendo original, esse caminho já é conhecido.

5 – O ser fascista detém a capacidade de maquinar, remodelar e recriar fatos históricos e corriqueiros

Nenhuma outra corrente política recorreu tanto a estetização da política como forma de impor seu pensamento, em termos mais simples, nenhuma outra corrente recorreu tanto a possibilidade de ludibriar, mentir e persuadir aqueles que querem. Como nos mostra João Bernardo (2015): a versatilidade das palavras, a possibilidade de moldá-las a seu favor e unir isso a uma propaganda massiva foi um dos grandes atributos do fascismo, assim como; escrachar figuras públicas, criar factoides e manipular dados.

Qualquer semelhança com nossa época atual não será mera coincidência.Os números oficiais indicam que todos os dias morrem duas pessoas por erros policiais. A cada dez minutos uma pessoa é assassinada no Brasil, o Anuário de segurança pública revela ainda que, por dia, seis pessoas foram assassinadas

por policiais no Estado de São Paulo em 2013. Acaba de sair uma matéria no New York Times indicando que o Brasil é o país mais perigoso do mundo para os homossexuais. De tal maneira, qualquer estudo mínimo sobre as estatísticas da guerra particular no Brasil revela os horrores instaurados e provenientes de uma ditadura não encerrada.

Não faz muito tempo, entretanto, que tal violência, pelo menos no nível do discurso, era combatida, mesmo pelos meios hegemônicos de comunicação de massa.Atualmente, porém, parece que algo se alterou no quadro de interesses da elite sempre conservadora do país. Agora a carnificina diária apreciada e difundida pelos programas policialescos instaura um sentimento de terror que se orienta na criação de um inimigo comum. Aonde isso vai dar, eis a questão, se é fascismo ou não, é um problema a se pensar. Talvez seja algo ainda pior, posto que não identificado, mas, já amplamente naturalizado.

 

[1]Escritor e mestre em filosofia, atualmente é doutorando em ética e filosofia política pela Universidade Federal de São Paulo.

 

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Política

Os primeiros meses do golpe: balanço necessário e provisório

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Por Douglas Rodrigues Barros

 

Um historiador no ano de 2100 procura, numa renomada biblioteca digital, documentos que o ajudarão a preparar sua hipótese para um futuro doutorado e escreve uma introdução como parte de um projeto de pesquisa.

Abaixo segue sua introdução vinda diretamente do futuro:

“Nos primeiros meses subsequentes ao sofisticado golpe jurídico-legalista de 2016 ficou visível e evidente que as mudanças políticas se ajustavam a medidas econômicas no intuito de cercear e suprimir direitos, principalmente, trabalhistas. O objetivo, como ficou claro depois, era o de salvaguardar a ideologia de mercado e se ajustar as mudanças globais de retraimento e crise estrutural da economia.

Ambas as mudanças, políticas e econômicas, influíam diretamente no campo social. Após o golpe o aumento da violência, em seus diversos sentidos, foi a tônica – com o assassinato de crianças negras pela polícia militar, com o endurecimento da repressão sobre os movimentos sociais, com a retração da liberdade crítica, inclusive com a perseguição de professores das escolas públicas por meio do projeto Escola sem partido.

O Brasil seguia, em partes, uma complicada tendência mundial de recuo nos horizontes de crescimento e desenvolvimento sociais, exportando inclusive tecnologia de repressão para outros países como França, Inglaterra e EUA, que a seu modo criaram suas próprias UPP’s (ou como era alcunhado, eufemisticamente, à época: Unidade de Polícia Pacificadora).

O terreno histórico alavancava um solo propício para ações de direita que foi aos poucos se consolidando frente ao vácuo deixado pelos movimentos sociais e organizações civis que tinham se atrelado ao PT (partido dos trabalhadores). A partir dos duros golpes sofridos no campo econômico pela instauração de uma crise profunda, a ideia de uma revolução dentro da ordem propagada pelos meios midiáticos e movimentos de direita, financiados por grupos empresariais avessos ao partido da ocasião, ajudaram a manter um estado de completa indiferença social.

A crise, que ia se aprofundando nos meses pré-golpe, propiciou o surgimento de grupos que assumiram aspectos tradicionais da luta de esquerda, “subvertendo-os” e os colocando na perspectiva da ordem. A massa confusa de verde-amarelo demonstrou que independente dos escândalos de corrupção, o que a interessava era simplesmente a derrubada do PT. Isto fica evidente se analisarmos o número de escândalos e envolvimentos na corrupção pela nova base governista – instaurada depois do impeachment – e que foi respondida com total indiferença do discurso moralista anterior ao golpe por parte desse grupo.

A capacidade de maquinar, remodelar e recriar fatos históricos e corriqueiros utilizando as redes sociais deixou de existir. Oitenta e quatro anos depois ficou evidente na história do país que nenhuma outra orientação política recorreu tanto a estetização da política, utilizando inclusive a comunicação de massa para impor sua pauta.

Era sem dúvida o fim de uma era cujas raízes se mostravam no ano de 2013 – mas tinham sido semeadas na abertura democrática em 1988 – denunciando talvez a mais profunda crise daqueles tempos.

A recessão econômica nos meses que seguira o golpe não arrefeceu, e as medidas de ajustes e austeridade, propugnadas pelo governo interino, pareciam cada vez mais refluir qualquer possibilidade de melhoria. O surto inflacionário atingiu as necessidades básicas – como a alimentação – elevando o feijão carioca a um objeto de luxo enquanto o leite tinha que ser substituído por outras fontes de nutrição. O desemprego se aprofundou e a precarização do trabalho existente foi alavancada pelas medidas impostas pelo governo do golpe.

Muitos teóricos de então, entendiam o esgotamento daquele ciclo, como o fim da medida terapêutica por parte do Partido dos trabalhadores (PT) que tentava fazer com que os aspectos mais ordinários da crise do capital fossem remediados. Falava-se em gestão da barbárie. Chegavam, assim, a conclusão de que houvera um esgotamento simultâneo de saídas para a crise econômica unida ao esgarçamento da transição democrática. Em linhas gerais: a forma de gestão do capital já não tinha nada em comum com a democracia em seu sentido mais rasteiro, formal e representativo. Era o tempo da barbárie sem gestão.

Com efeito, os primeiros meses pós-golpe apresentou tais sintomas por meio dos inúmeros assassinatos – inclusive de lideranças populares, principalmente no campo – e o aprofundamento do extermínio da juventude negra que eram respondidas pela indiferença da opinião pública hegemonizada por setores midiáticos ligados ao golpe. A crise social crescente assumia todos os poros da vida e a política no pais estava em frangalhos com um presidente interino que detinha, em sua cúpula de poder, corruptos historicamente reconhecidos enquanto tais.

Havia uma convergência de exaustões. Por um lado, uma exaustão sobre a forma política adotada nos idos de 1988; por outro, uma exaustão propiciada pelo desmantelado crescimento econômico dos anos lulistas que, aproveitando-se da crise global do subprime de 2008, decolou sendo inclusive objeto de capa da revista The Economist. Como se sabe, a marolinha se tornou um tsunami e, nos meses que anteciparam o golpe de 2016, o governo Dilma Rousseff havia sido atingido em cheio pelo deslocamento dos investimentos financeiros e pela própria financeirização da vida política da qual havia se tornado refém.

Todo esse desenho, contudo, estava sendo rabiscado no próprio processo de formação dos anos pós ditadura militar. Cuja transição para democracia fora em partes sabotada por interesses de setores ligados a ditadura e, que influenciaram demasiadamente a transição democrática que era agora completamente sabotada. Em outras palavras, no período em questão, não havia sido consolidada – no plano formal e legalista – as próprias instituições democráticas. Podia-se dizer que 1964 – ano em que foi instaurado o golpe militar – era um ano que não tinha terminado.

Desse modo, os meses subsequentes ao golpe marcaram não apenas um aprofundamento da crise econômica, como uma total exaustão do modelo político. Revelando que na carta de 1988 se ocultavam grandes problemas que mantinham uma continuidade e interação de formas arcaicas de políticas cuja correspondência estava atada diretamente aos vintes anos de ditadura militar. O balanço era que a indiferença social, o modelo de desfaçatez e ignorância contra aquilo que origina a corrupção, a ressaca sentida pelos movimentos sociais e organizações civis, a continuidade e o aprofundamento da violência policial traduziram não apenas a forma, mas o conteúdo daquele golpe.

Anos determinantes para nossa situação atual”.