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“A política não é lugar pra preto vagabundo feito você!”




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A verdade catastrófica de um governo golpista

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Por Douglas Rodrigues Barros *

 

Perante a vergonhosa derrota experimentada ante as obscuras forças de uma contrarrevolução sem revolução no Brasil se tornou oportuno apresentar seus resultados pelas medidas tomadas, a toque de caixa, pelo governo ilegítimo. Medidas estas que colocarão o país num permanente estado de sítio.

Sabemos que uma crise acarreta a perda intensa de bens, mas não só, as atuais crises mundiais levaram a perda de direitos em todo o globo. As perdas monetárias não são um fim absoluto, porém, a perda de relações sociais é impossível de ser recuperada com um pagamento. E o governo Temer é o governo da desagregação social.

Com efeito, chamar o seu atual Ministro da Fazenda de fundamentalista ortodoxo do neoliberalismo não é certamente má-fé, mas, em todo caso, denota ingenuidade, tendo em vista que aí não se trata de convicção, se trata de interesses. E, no caso em questão, de interesses ilícitos. Ele age com a máxima; privatizar o lucro e socializar os custos. Quem pagará pelos custos? Os mais pobres, os trabalhadores, os professores, etc…

As medidas impostas triunfam como um carrasco invisível para centenas de milhares prix du cialis 5mg en pharmacie de trabalhadores. Infelizmente, elas cumprem um papel bem orquestrado de continuação lógica ante uma reação que usurpou o poder e cujos interesses são megalômanos e antissociais. A PEC 241/2016 que em síntese é o congelamento de investimentos em áreas centrais como saúde, educação, assistência social e previdência é a face perversa de um modelo que aposta na destruição social.

Mas, não é só isso: ao se manter essas áreas com investimentos congelados, ou limitados à correção da inflação do ano anterior, se deixará de investir na demanda crescente dessas áreas. Em outras palavras, se sucateará o bem público. Essa é a face mais sanguinolenta desse governo. Nesse ponto, há o total desmonte das garantias de saúde, educação, previdência e assistência social da Constituição de 1988 e, aí, o golpe revela ao que veio.

Ora, acima afirmei que se tratava de interesses ilícitos, explico o porquê agora: na PEC 241/2016 há um parágrafo que diz o seguinte: § 6 – Não se incluem nos limites previstos neste artigo (…) V- despesas com aumento de capital de empresas estatais não dependentes. O que isso significa? Ora, ao mesmo tempo que a PEC acima passava pela CCJ (Comissão de Constituição, Justiça), no submundo de Brasília era criado um Projeto de lei do senado (PLS) de número 204/2016 que visa legalizar um esquema financeiro ligado às empresas estatais não dependentes.

Empresas estatais não dependentes são na verdade órgãos parasitários feitos para a venda de papéis financeiros cujos juros exorbitantes atingem 23% do valor dos papéis. Quem irá pagar esses juros? O Estado ou Município. Para quem irá pagar? Para investidores Seniores – os tubarões do mercado financeiro. De onde sairão esses recursos? Daqueles que ficarão congelados por 20 anos. Em suma, se congela os investimentos na educação e saúde para repassar dinheiro público aos grandes banqueiros

Dessa maneira, o governo Temer mata dois coelhos com uma cajadada só; o primeiro, com o sucateamento das áreas essenciais garantidas pela Constituição; o segundo, com a criação de empresas estatais não dependentes que beneficiará os mais ricos realizando uma terceirização indireta e forçada. Vulgarmente falando o dinheiro hoje que vai para educação, saúde e previdência irá para as mãos dos riscos e o governo ainda terá que pagar mais 23% de juros a estes.

Esse esquema, que foi o mesmo que dilapidou o Estado grego, já está em curso em diversos estados do Brasil e sua realidade diabólica é a geração de dívida pública sem contrapartida alguma.  O governo de Michel Temer opta por deixar de investir em setores sociais essenciais para pagar juros e amortizações de papéis financeiros à grandes investidores. Em suma, é a transferência brutal de recursos públicos para o setor financeiro.

O repasse dos custos às pessoas comuns em benefício dos grandes investidores sempre esteve na agenda da direita. Nesse esquema ilegal, a ocorrência de inadimplência em massa de governos municipais e estaduais será o estipêndio pago pelos mais pobres e miseráveis aos mais ricos e investidores. O aprofundamento da crise é, pois, o mais provável e será bem mais difícil de resolver, em parte devido a nova profundidade e extensão e em parte fatalmente por razões políticas.

Sendo assim, quando governantes e economistas especializados parecem tão indiferentes e inconsequentes à propensão do aprofundamento da crise, quando tão sorridentes ignoram os sinais de alerta no entorno, então, é porque estão seguros de si. Quando uma taxa de desemprego sobe a treze pontos percentuais e a persistência da perda de postos de trabalho se mantem e nada é feito dá indícios do estado calamitoso da sociedade.

No momento em que escrevo há um sentido profundo assim como uma abundância de provas tangíveis da gravidade de nossa situação: 1,5 milhões de empregos foram perdidos e é o pior índice desde 1985. O cenário é de calamidade social e o horizonte permanece decrescente. Não há nada de novo e não se enxerga nenhuma alternativa realmente efetiva para a mudança do quadro em que estamos.

A desagregação social parece uma realidade mais efetiva do que qualquer mudança de rumo real. A apatia se generaliza e o berro verde e amarelo consolidou o maior descalabro social da história do país levado por uma agenda em que se tira do mais pobre para dar ao mais rico. Por isso, os comportamentos autodestrutivos desse governo precisam ser barrados antes que seja tarde demais. Se torna imperativo que sua verdade seja barrada, pois, dela emana a catástrofe.

 

 

* Douglas Rodrigues Barros é escritor e doutorando em filosofia pela UNIFESP

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Eleições 2016 Política

O que as urnas revelam sobre o racismo nosso de cada dia

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Por *Jorge Américo e **Douglas Belchior

 

No Brasil todo mundo já namorou uma negra. Chamou um negro de genro. Adora ouvir as histórias do porteiro (que é negro). Considera a diarista (também negra) uma pessoa da família. Se emociona quando vê aquele gari (negro) que gosta de sambar, ser aplaudido pelos gringos. Tamanha harmonia é a consumação plena da principal regra da nossa democracia racial. Ou seja, a população negra sempre será tratada bem, desde que saiba qual é o seu lugar e dele não queira sair. Curioso como o gari continua sendo gari mesmo depois de tantos anos aparecendo na televisão.

Se não falha a memória, o ex-jogador de futebol Pelé foi o primeiro ministro de Estado negro do período chamado de redemocratização do Brasil. Sua nomeação para a pasta de Esportes se deu no ano de 1993, no governo FHC. Caso a preguiça desse uma trégua, seria muito proveitoso investigar se ele não terá sido o primeiro da história republicana. Dez anos mais adiante outro negro de renomada trajetória, Gilberto Gil, assumiria o ministério da Cultura, no primeiro mandato de Lula.

Pelé e Gil são dois ícones da cultura nacional. Chegaram ao topo dos únicos lugares onde negras e negros podem chegar ao topo. Um fez carreira no futebol, outro na música. Pela experiência e capacidade intelectual, tinham credencial para serem ministros da Saúde e Educação, respectivamente – podendo comandar dois dos orçamentos mais gordos da União. Afinal, a prática esportiva (aliada a uma alimentação adequada) é o que existe de mais avançado em saúde preventiva. E a capacidade criativa e postura crítica diante dos dilemas da humanidade são o melhor que um sistema educacional público e de qualidade poderia oferecer aos nossos jovens.

Mesmo no período prix cialis pharmacie de maior expansão das políticas de ações afirmativas, poucas alterações ocorreram nas estruturas de poder. Com rara exceção, a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) – criada por Lula e extinta por Michel Temer – se tornou o ministério exclusivo das negras e negros, o único lugar onde puderam exercer cargos de primeiro a décimo escalão. Era praticamente o quartinho da empregada do Palácio do Planalto. Ao mesmo tempo, muita gente incompetente (e pouco comprometida com os brasileiros que vivem com as menores rendas) esteve à frente dos ministérios da Fazenda, Planejamento e direção do Banco Central. Como diz a brilhante Rosane Borges, “em um período de avanços sociais a população negra foi beneficiária, mas nem sequer foi cogitada para ser gestora de políticas públicas”.

Vez ou outra algum dirigente de alta patente se colocou a favor da reserva de vagas para negros nas universidades e concursos públicos, mas ninguém praticou a pedagogia do bom exemplo. Nem as sucessivas chefias da Presidência da República nem dos governos estaduais e municipais se preocuparam em ter sua cota ministerial ou de secretariado formada por negras e negros. A universidade e as mobilizações populares produziram mão-de-obra negra qualificadíssima no último período. Isso significa que o corpo técnico e político das instituições públicas só não abrigaram negras e negros por opção de quem estava na Direção.

Esse esvaziamento e falta de diversidade étnico-racial também é comum nos cargos eletivos, responsabilidade do povo brasileiro em geral, este sob radical influência do meio ambiente racista a que somos expostos desde que nascemos. Existem perguntas que não são feitas por questão de decoro, mas que estão colocadas e devem ser enfrentadas com sinceridade. Principalmente num momento – eleitoral – como este, em que tanta gente coloca seus dons, talentos e boas intenções a serviço da população. Afinal, quem aceita ser representado por uma negra ou um negro na prefeitura ou na câmara municipal? Quem é capaz de reconhecer que não é racista na vida cotidiana, mas o é na hora de votar? As urnas revelarão este segredo que cada um esconde no coração.

 

*Jorge Américo é jornalista, poeta e educador popular.
**Douglas Belchior é professor de história e editor deste Blog.
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Cotas Raciais Universidade

Cotas raciais em cursos de pós-graduação da Unicamp

Educação pública, gratuita e para todas(os): nossa luta, sua luta!

 

No último dia 5 de setembro foi publicado pela Faculdade de Educação da Unicamp o primeiro Edital com cotas para negras(os), indígenas e pessoas com deficiência para a Pós-Graduação (Mestrado e Doutorado). Este Edital merece destaque por dois motivos: 1) Foi o primeiro com ações afirmativas nos mais de 40 anos da Faculdade; e 2) A proposta de reserva de vagas foi gestada a partir da reivindicação e da atuação política e acadêmica de estudantes da graduação e pós-graduação, reunidos em coletivos que debatem essa temática.

A luta dos Coletivos por reserva de vagas na pós-graduação da Unicamp teve início no fim de em 2014, quando foi aprovada a reserva de vagas no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) para negras(os) e indígenas. Em 2016, ingressaram os primeiros estudantes cotistas nos cursos de Sociologia, Antropologia, Ciência Política, História e Relações Internacionais. A partir desta experiência, outros Institutos e Faculdades da Unicamp começaram a discutir ações afirmativas.

O processo na Faculdade de Educação ocorreu a partir de um primeiro encontro entre os estudantes da Faculdade de Educação (FE) e da Frente Pró-Cotas da Unicamp em 2015. Deste encontro formou-se uma agenda de trabalho com objetivo de formular uma proposta de cotas. O grupo solicitou às instancias deliberativas da Faculdade a criação de um Grupo de Trabalho (GT) com a presença de estudantes, professores(as) e representantes de movimentos sociais da Unicamp para discutir o projeto considerando as lutas, conquistas e experiências do IFCH.

Além de representar uma importante iniciativa para romper com o histórico de exclusão presente nas universidades estaduais paulistas, a conquista de cotas na pós-graduação parece desenhar um novo paradigma com o qual a Unicamp se defrontará: a presença de outros grupos sociais, pouco representados ou mesmo inexistentes até agora.

Apesar dos avanços, acreditamos que estas inquietações estão apenas começando, uma vez que uma Universidade mais democrática também pressupõe processos seletivos transparentes e com a presença de todos os grupos que compõem a sociedade brasileira. Se considerarmos apenas o critério raça/cor, no estado de São Paulo quase 90% dos mestres e doutores são auto-declarados brancos, segundo os dados do IBGE/2010. Enfim, ajustes inerentes a entrada de “novos sujeitos” na Universidade são necessários e de forma sistemática e não mais excepcional.

Existem outros desafios que se apresentam às iniciativas de democratização deste espaço de conhecimento formal e ainda muito elitizado. O caminho a ser percorrido pela FE, IFCH, entre outas unidades da Unicamp será indubitavelmente complexo, porém mudanças urgentes são necessárias frente a esses dados e tantos outros que demonstram as desigualdades presentes e latentes em nossa sociedade.

Organizar-se é preciso. Lutar é preciso. Educação é um Direito e mesmo após uma grande vitória, respiramos e resistimos, porque prontos para as batalhas que nos esperam em prol de uma sociedade verdadeiramente democrática e que buscamos construir.

Seguimos em luta!

 

FRENTE PRÓ-COTAS DA UNICAMP

NÚCLEO DE CONSCIÊNCIA NEGRA DA UNICAMP

 

Editais disponíveis em:

Faculdade de Educação – https://www.fe.unicamp.br/pos-graduacao/processo-seletivo

Instituto de Filosofia e Ciências Humanas – http://www.ifch.unicamp.br/ifch/pos

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Política

Não tinham alma. Não havia provas. Mas, por convicção, a escravidão se fez.

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Diziam que meu povo não tinha alma.

Não havia provas. Mas, por convicção, a escravidão se fez. Quase 400 anos!

Não havia provas mas havia convicção de que o Brasil seria tomado por comunistas, comedores de criancinhas. Resultado: duas ditaduras. A última durou quase 30 anos.

Sem provas e por convicção, o genocídio é promovido: Chacina do Carandiru, Candelária, Vigário Geral, Eldorado dos Carajás, Crimes de Maio de 2006 e tantos outros.

Sem provas, mas por convicção, 111 tiros num carro e o assassinato de 5 jovens negros; um tiro de fuzil seguido de arrastamento no asfalto,

de Cláudia Ferreira no Rio de Janeiro; O espancamento e a morte de Luana dos Reis no interior de São Paulo. Sem provas e por convicção se deu também a chacina do Cabula, em Salvador.

Pela mais pura convicção e sem nenhuma prova, Rafael Braga continua preso.

Por convicção a polícia continua esculachando, desrespeitando cidadãos em suas abordagens em cada esquina de quebradas, periferias e favelas desse país. Quando não somem com corpos; Quando não assassinam sobretudo a juventude e as crianças negras país afora.

Sem provas, mas por convicção, depuseram uma presidenta eleita pelo voto direto.

Não podemos permitir que sem provas e por pura convicção a política se faça, como tem acontecido no Brasil. Sabemos que a convicção que não requer prova, é uma convicção de classe, uma convicção ideológica, política e a serviço das elites atrasadas desse país. Trata-se de uma convicção de explícito traço fascista, racista e autoritário.

Não podemos permitir que essa prática se dê contra quem quer que seja. Práticas autoritárias contra pessoas famosas, empoderadas ou lideranças políticas do campo progressista quase sempre servem para endossar, justificar, naturalizar e aprofundar ainda mais a violência e a negação de direitos na base da pirâmide, entre os trabalhadores pobres, moradores de periferias, negras e negros, jovens e crianças em todo o país.

Sem provas, apenas por convicção reacionária, nós não vamos permitir. Não vamos aceitar. Ao contrário, deste lado de cá há sim convicção. Mas há provas!

Provas de nossa resistência, de nossa ancestralidade, da resiliência de um povo que, apesar do massacre imposto desde a invasão europeia, se reinventa, se organiza e luta.

Nós vamos reagir, afinal, com a licença de Albert Camus: “A violência não é patrimônio dos exploradores. Os explorados, os pobres, os oprimidos também podem emprega-la!”

Vamos enfrentar o fascismo nas ruas, no judiciário, na política e nas urnas!

 

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Periferia Política

Periferia, a dama mais cortejada da cidade

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Por Jorge Américo e Douglas Belchior

 

As eleições municipais estão aí e se apresentam como uma oportunidade de aprendizado interdisciplinar. Em nenhum outro momento da vida nacional vemos tanta gente falar sobre o que não conhece. Os linguistas e semióticos precisariam de ajuda dos matemáticos para contar quantas vezes a palavra “periferia” aparece na boca dos políticos.

Depois de quatro anos seguidos de apedrejamentos e “rebosteios”, a periferia deixa de ser a Geni da canção do Chico para ser a dama mais cortejada da cidade. Não há quem não a ame. Não há quem não queira tomar o café da Dona Maria num copo de requeijão, tirar uma selfie com o Seu Zé ou comer uma asinha de frango na laje com a rapaziada ao som do Exaltasamba. Militares, empresários, delegados, médicos, apresentadores de televisão, socialites, enfim, todo mundo quer estar nos braços da periferia.

Na maioria dos discursos eleitoreiros, a periferia é romantizada. É uma terra de bárbaros de bom coração que precisa ser colonizada e domesticada por alguém que conheceu as coisas boas da vida. A periferia precisa de alguém que leve o progresso, o conhecimento, a recreação, o desporto, a água tratada, a segurança, o pediatra, o xarope, o sinal de Wifi. Os marqueteiros usam técnicas hollywoodianas para tentar convencer os eleitores de que quatro anos são suficientes para sanar todas as sequelas geradas pelos 388 anos de escravidão e outros 128 de exclusão, opressão e violência de toda espécie.

 

Na maioria dos discursos eleitoreiros, a periferia é romantizada. É uma terra de bárbaros de bom coração que precisa ser colonizada e domesticada por alguém que conheceu as coisas boas da vida

 

Por outro lado, a cidade dos ricos nunca aparece nas campanhas eleitorais, embora seja e continuará sendo alvo das principais intervenções urbanísticas – independentemente de quem vencer as eleições. As vias alargadas, iluminadas e arborizadas continuarão a proporcionar mobilidade, segurança e ar fresco. Os parques públicos, teatros e museus oferecerão boas opções de recreação. E se alguém tomar um tombo e ralar o joelho nas ciclovias, uma rede formada pelos melhores hospitais do país estará pronta para prestar o melhor atendimento.

O que mais angustia é o desrespeito com as pessoas mais simples que abrem as portas com simpatia para quem quer que seja. Bem treinados, os caçadores de voto deixam sua zona de conforto e se exibem com desenvoltura diante das câmeras. Comem pastel na feira, fazem caras e bocas quando ouvem histórias tristes, choram e até abraçam os moradores da periferia. Seria hilário imaginarmos o contrário. Que rico abriria a porta de sua mansão nos jardins ou em sua cobertura em Higienópolis, para um candidato negro nascido e criado na periferia que quisesse apresentar seus projetos para uma cidade mais justa e democrática? Que rico serviria um drinque para este candidato na beira da piscina, mostraria a cama onde dorme, a mesa onde come, revelaria toda a sua intimidade?

 

Que rico abriria a porta de sua mansão nos jardins ou em sua cobertura em Higienópolis, para um candidato negro nascido e criado na periferia que quisesse apresentar seus projetos para uma cidade mais justa e democrática?

 

Isso não acontece nos bairros nobres porque somente a cidade dos pobres está em disputa e precisa ser salva. No fundo, tamanha vontade de salvar a periferia esconde um desejo secreto de ser salvo por ela. Ora, ninguém se elege sem os votos da periferia,

que é maioria sem ser. Este é, portanto, o momento de a periferia ser defendida como nunca por todas as vozes que sempre declararam seu amor a ela, seja rimando, seja recitando, interpretando ou organizando luta política na própria periferia.

A desavergonhada baixaria da política torna legítima a posição de quem se cala para não dar ibope aos partidos políticos pelos quais não simpatiza. Mas, por outro lado, é legítimo também afirmar que a omissão, em tempos de golpe, é um voto de confiança na gravata que sempre oprimiu e na farda que sempre matou.

Não. Não é tempo de omissões.

 

*Jorge Américo é jornalista, poeta e educador popular.
*Douglas Belchior é professor de história e editor deste Blog.

 

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Eleições 2016 Política de Assistência Social

Sobre políticas da assistência social e eleições municipais

Cracolandia
Região da Luz, conhecida como Cracolândia, em São Paulo
Por Deise Fernandes do Nascimento, Emiliano Palmada Liu e Douglas Belchior

Estamos em época de campanha eleitoral. Candidatos a prefeito e vereador concorrem entre si pela preferência e pelo voto do eleitor, debatendo públicamente e por meio de peças publicitárias diversos temas das políticas públicas (de educação, saúde, finanças, transporte público, segurança, etc.). É um fenômeno raro esse, que se repete a cada 4 anos, o 29 de Fevereiro no mundo da política: os representantes políticos que serão escolhidos pelo voto popular se esforçam por aparecer e desejam ficar mais em evidência do que todos os outros, para que, depois de passada essa maré cheia em que transbordam para os espaços públicos, se recolham pelos próximos 4 anos na segurança e no conforto uterino dos seus gabinetes. Grande parte deles, pelo menos.

Mas o nosso tema de hoje é sobre o que fica oculto, o que permanece de alguma forma invisível no contexto desse debate público sobre as políticas de governo e de Estado. Toda e qualquer política pública, inevitavelmente, possui a sua dimensão de temas conhecidos e desconhecidos, assim como entre as diferentes políticas públicas existentes, algumas são mais desconhecidas do que outras. Podemos pensar, por exemplo, que, normalmente, políticas tais como as de educação, saúde e transporte público, numa cidade como São Paulo, costumam ocupar o lugar central dos interesses públicos e dos debates políticos da sociedade. São, de fato, questões de suma importância, que afetam a vida de milhões de pessoas, e que são sentidos diretamente, de uma forma explícita e perceptível, na pele, e muitas vezes de um modo muito duro, dramático e sofrido. Outras políticas, no entanto, tendem a ficar marginalizadas nesse processo de conhecimento e de debate público. É como se houvessem muros que as cercam e impedem que se as vejam. Uma delas é, sem nenhuma dúvida, a Política de Assistência Social.

Sejamos justos no entanto. A política de assistência social, hoje, já não é assim tão desconhecida como talvez o fosse antes de 2004. Muita gente sabe, nos nossos dias, o que é um CRAS e qual é a sua importância, principalmente por causa de um benefício que se tornou muito conhecido e polêmico: o Bolsa Família. Naturalmente, o BF não entra muito no cenário do debate político municipal, pois todas as competências que se referem ao seu planejamento e dotação orçamentárias estão no âmbito do Governo Federal. As obrigações dos municípios são predominantemente (mas não só) administrativas, de cadastramento, acompanhamento e fiscalização. Daí a importância de um CRAS inserido no seu território.

Mas, deixando por um momento de lado o BF e o CRAS, quem é que já ouviu falar ou conhece como funciona o SUAS, a Tipificação Nacional dos Serviços Socioassistencias, a Portaria 46/47 da SMADS/SP, o SINASE, etc? Pouca gente na verdade, e, entre estes, principalmente os que, de algum modo, estão vinculados profissionalmente a essa política. Os segmentos da população que são atendidos pela assistência social são muito bem conhecidos da sociedade em geral: o adolescente que comete ato infracional, a criança ou a mulher que é vítima de algum tipo de violência ou de violação de direitos, o morador em situação de rua, entre outros. A maioria dessa população é pobre, negra e vive nas periferias da nossa cidade. O que não se conhece, de fato, são os dispositivos institucionais que foram estruturados dentro da política de assistência social para dar conta, de uma forma muito específica, do atendimento social dessa população. E, na base desse desconhecimento é que se constrói o preconceito: o entendimento comum de que assistência social equivale a caridade, levando a um olhar extremamente messiânico, o qual rompe com a perspectiva do DIREITO conquistado e reforça a lógica perversa do FAVOR e da MERITOCRACIA. Nada mais equivocado

do que isso.

Exemplo disso, hoje, é a proposta apresentada por Celso Russomano, candidato líder em todas as pesquisas na disputa à prefeitura da cidade de São Paulo. Ele promete construir um “muro” policial de isolamento da região da cracolândia, como método para fazer desaparecer de lá o tráfico e o consumo de drogas.

A invisibilidade social dos serviços da assistência social acarreta também um outro problema: ficam mais suscetíveis ao exercício do arbítrio e da violência institucional, pois, por não serem vistos e nem haver muito esse desejo, tendem a ser serviços menos transparentes e menos sujeitos ao controle social por parte da população. Por fim, isso também dá margem ao apoio popular de propostas mais cruéis e ineficientes, em completo desacordo com a lógica da política de assistência social, tal como é preconizada pelas leis. Exemplo disso, hoje, é a proposta apresentada por Celso Russomano, candidato líder em todas as pesquisas na disputa à prefeitura da cidade de São Paulo. Ele promete construir um “muro” policial de isolamento da região da cracolândia, como método para fazer desaparecer de lá o tráfico e o consumo de drogas. Mais uma vez, é como varrer a sujeira para debaixo do tapete, sem esquecer que a sujeira é gente, e o tapete são as periferias.

Mas, o que é então o trabalho da Política de Assistência Social em relação a essa população de rua que vive na região da cracolândia e/ou em condições similares nos mais diversos municípios? Quase ninguém sabe dizer. Vamos explicar um pouco disso em um próximo texto aqui no Blog. Até lá, que tal pesquisar um pouco sobre Política de Assistência Social e procurar em sua cidade, candidaturas que tratem do tema? Fica a dica!

*Deise Fernandes do Nascimento é Assistente Social, Mestra em Educação e Saúde na Infância e Adolescência pela UNIFESP; Emiliano Palmada Liu é sociólogo e mestrando em Ciências Sociais pela UNIFESP; Douglas Belchior é editor deste blog.
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Mulheres

“A revolução não é o porre. A revolução está na ressaca do dia seguinte.” – Ou carta à Dilma Roussef.

Por LUARA COLPA  –

“É certo camarada Dilma, que somos companheiras de várias trincheiras. É certo que você, bem mais militante que eu.

É certo que sou jovem e à minha jovialidade cabe muito o ato de criticar. As dimensões de mundo que tenho, são outras, ainda estou “subindo a serra” como dizem.

Eu sou a jovem militante que aponto os problemas do governismo, do fisiologismo, das muitas entradas erradas do seu partido. Ao mesmo tempo, Dilma, eu sei bem que Impeachment não é saída para crise. Sei bem que muito necessário se fez as muitas ações sociais que diferem seu governo do governo FHC por exemplo. Com muitas críticas, mas ainda assim vejo as propostas sociais como trampolim para um Brasil minimamente mais justo.

E é certo sobretudo, que só de pensar nisso, os grandiosos enlouquecem.

Fonte: Jornal GGN - http://jornalggn.com.br/noticia/as-omissoes-na-transcricao-da-conversa-de-juca-e-machado-por-marcelo-zelic
Fonte: Jornal GGN – http://jornalggn.com.br/noticia/as-omissoes-na-transcricao-da-conversa-de-juca-e-machado-por-marcelo-zelic

Fonte: Jornal GGN - http://jornalggn.com.br/noticia/as-omissoes-na-transcricao-da-conversa-de-juca-e-machado-por-marcelo-zelic
Fonte: Jornal GGN – http://jornalggn.com.br/noticia/as-omissoes-na-transcricao-da-conversa-de-juca-e-machado-por-marcelo-zelic

Pra que nunca se esqueça: GOLPE. Não existe outra palavra que sugira, nem de longe, o que acontece no ano de 2016 nessa jovem democracia Tupiniquim. Eu viví para ver o Estado Democrático de Direito sucumbir aos pés de uma grandiosa mulher. Altiva e forte. A mesma fortaleza e energia que a rodeava lá atrás em seu julgamento na Ditadura.

Que exemplo de Resistência temos no Brasil. Quem aguentaria tudo isso?

Sabe Dilma, Uma vez minha mãe leu uma história pra mim e lá estava escrito que as Sacerdotizas eram tão poderosas, que em momentos de decisão, elas podiam crescer até 15 centímetros e se posicionarem magníficas, matriarcas, donas de toda a energia do ambiente. Olhe bem pra você, olhe bem pra tudo o que nós, mulheres, podemos ser após o seu mandato. Todas as relações se alteram porque uma Senhora ousou ser Presidenta. E isso incomoda, é perturbador vê-la no poder.

Dilma, eu quero te contar que sou ainda muito pouco, mas só sou porquê tu és.

E se minha filha tiver sonhos, sonhos serão grandes porque teus passos foram grandiosos e ousados.

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Você é grande e nem aqui cabe. Nessa terra de coronéis, de compadres, de objetificação da mulher. Nós somos pequenos demais para o seu tamanho. Nós, que ainda precisamos nos impor ao mundo forjando uma família perfeita que contenha: Um Senhor inescrupuloso, uma esposa silenciada e infantilizada e uma criança exposta ao sair da escola – para forjar-nos a família ideal. Olhe bem para nós. Veja se te cabe aqui?

Não.

Certamente te devemos desculpas, por estarmos ainda tão aquém do seu tamanho, querida Dilma.

Ontem tomamos uma porrada, a acusação usou argumentos que mais pareciam a Santa Inquisição. Inquisição que queimava mulheres livres. O Brasil não estava preparado para uma mulher livre. E todas as vezes que nos colocamos livres, somos loucas, histéricas, desequilibradas, estamos nervosas. Eu sei bem.

Hoje é o dia seguinte, Dilma. É certo que a revolução não veio. Não estamos nem perto de sermos o país socialista que brandavam os opositores. Somos pequenos demais para isso. Sequer conseguimos segurar a democracia. Hoje ela foge entre os dedos infantis.

O Brasil acorda órfão. Da janela olho e ouço: Choveu em BH toda a noite. O céu lava as ruas e o dia amanhece. Alguns caminham cabisbaixos, outros sequer compreenderam o que se passa.

Mas você segue abrindo caminhos. Você segue, e nós ficaremos. Nós e nossos muitos coronéis, com nossos direitos comprometidos, com nossos corações rasgados, com nossa ressaca dolorida. Ao menos você segue! Siga e seja.

Por nós! “Pelo justo, pelo bom, pelo melhor do mundo”

Obrigada, Dilma Roussef.

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Luara Colpa é brasileira, tem 29 anos. É mulher em um país patriarcal e oligárquico. Feminista e militante por conseguinte. Estuda Direito do Trabalhador e o que sente, escreve.