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Enfrentar o fundamentalismo e aprender com os Evangélicos

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Por Douglas Belchior

A vitória do Bisco da Igreja Universal do Reino de Deus, Marcelo Crivella (PRB), na disputa para a prefeitura do Rio de Janeiro desencadeou uma porção de declarações e pseudo-análises nas redes sociais, eivadas de preconceito e ofensas à comunidade evangélica. Eu não sou evangélico e tenho todas as críticas à maneira como lideranças religiosas fazem uso político da fé das pessoas e professam o ódio em nome de Deus, aliás, como bem fazem outras muitas religiões. Mas não podemos deixar esse momento de tristeza e derrota momentânea nos cegar e repetir o erro e a conduta que tanto criticamos em nossos adversários.

Figuras abomináveis como Crivella, Pastor Everaldo, Malafaias, Valdomiros ou Macedos não representam o todo da comunidade evangélica. Tampouco a representação do que eu prefiro chamar de ‘fundamentalistas religiosos’ – e não evangélicos de maneira genérica, se limita a esses nomes mais conhecidos. Há anos vemos crescer, eleição após eleição, esta representação parlamentar nas câmaras municipais e estaduais em todo país, a ponto de termos uma bancada fundamentalista poderosíssima no Congresso Nacional. Mas não apenas: Cadeiras em conselhos de diretos, conselhos tutelares e espaços sindicais tem sido sistematicamente ocupados por este seguimento. Ainda assim, reafirmo: não representam o todo.

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Pastor Ariovaldo Ramos, em Ato de Evangélicos pela Democracia

 

Embora minoritários, há grupos progressistas importantes que se organizam no seio da comunidade evangélica e que, inclusive, estiveram junto com Freixo (Psol) nestas eleições. Ganha força entre os evangélicos, a Teologia da Missão Integral, algo bem parecido com a Teologia da Libertação, uma vertente teológica evangélica desenvolvida na América Latina e que defende que a dignidade humana, o cuidado com o meio ambiente e a luta contra toda a forma de opressão e injustiça são aspectos indissociáveis da mensagem do Evangelho. No Brasil, essa teologia inspira articulações tais como o MEP- Movimento Evangélico Progressista, que encampa pautas próprias do campo da esquerda já há muitos anos. Há ainda uma iniciativa que ganhou notoriedade a se colocar contrária ao Golpe de Estado sofrido pela presidenta Dilma, a Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, que sob a liderança do pastor Ariovaldo Ramos, ao lado dos Batistas Marco Davi e Luiz de Jesus, da jornalista Nilza Valéria e do teólogo Ronilson Pacheco, promovem um trabalho politicamente comprometido com as causas populares, com os direitos humanos e com a diversidade religiosa, além de defender o estado laico.

Sim, é preciso enfrentar o fundamentalismo religioso, conservador, neoliberal, preconceituoso e perverso que floresce e não é de hoje. Sempre bom lembrar que, lamentavelmente, este seguimento fora também alimentado e fortalecido pelo pragmatismo petista desde o primeiro mandato de Lula na Presidência da República. Fundamentalismo religioso é uma coisa. Comunidade evangélica é outra. É nossa tarefa separar o joio do trigo, dar voz e fortalecer politicamente os evangélicos coerentes, compreender a importância e a força da comunidade evangélica, trocar ideias e vivências, construir em conjunto e até aprender com ela, bem como nos provoca refletir o polêmico texto abaixo, publicado pelo @senshosp em 2013. Afinal, a esquerda brasileira tem algo a aprender com os evangélicos?

Vale a pena ler.

 

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O QUE A ESQUERDA TEM A APRENDER COM OS EVANGÉLICOS

“As massas de homens que nunca são abandonadas pelos sentimentos religiosos 
então nada mais vêem senão o desvio das crenças estabelecidas. 
O instinto de outra vida as conduz sem dificuldades 
ao pé dos altares e entrega seus corações aos preceitos 
e às consolações da fé.”
Alexis de Tocqueville, “A Democracia na América” (1830), p. 220. 

No Brasil, um novo confronto, na forma como dado e cada vez mais evidente e violento, será o mais inútil de todos: o do esclarecimento político contra o obscurantismo religioso, principalmente o evangélico, pentecostal ou, mais precisamente, o neopentecostal. Lamento informar, mas na briga entre os dois barbudos – Marx e Cristo – fatalmente perderemos: o Nazareno triunfa. Por uma razão muito simples, as igrejas são o maior e mais eficiente espaço brasileiro de socialização e de simulação democrática. Nenhum partido político, nenhum governo, nenhum sindicato, nenhuma ONG e nenhuma associação de classe ou defesa das minorias tem competência e habilidade para reproduzir o modelo vitorioso de participação popular que se instalou em cada uma das dezenas de milhares de pequenas igrejas evangélicas, pentencostais e neopentecostais no Brasil. Eles ganharão qualquer disputa: são competentes, diferentemente de nós.

Muitos se assustam com o poder que os evangélicos alcançaram: a posse do senador Marcello Crivela, também bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, no Ministério da Pesca e a autoridade da chamada “bancada evangélica” no Câmara dos Deputados são dois dos mais recentes exemplos. Quem se impressiona não reconhece o que isso representa para um a cada cinco brasileiros, o número dos que professam a fé evangélica ou pentecostal no Brasil. Segundo a análise feita pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), a partir dos microdados da Pesquisa de Orçamento Familiar 2009 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a soma de evangélicos pentecostais e outras denominações evangélicas alcança 20,23% da população brasileira. Outros indicadores sustentam que em 1890 eles representavam 1% da população nacional; em 1960, 4,02%.

O crescimento dos evangélicos não é um milagre, é resultado de um trabalho incansável de aproximação do povo que tem sido negligenciado por décadas pelas classes mais progressistas brasileiras. Enquanto a esquerda, ainda na oposição política, entre a abertura democrática pós-ditadura e a vitória do primeiro governo popular no Brasil, apenas esbravejava, pastores e missionários evangélicos percorreram cada canto do país, instalaram-se nas regiões periféricas dos grandes centros urbanos, abriram suas portas para os rejeitados e ofereceram, em muitos momentos, não apenas o conforto espiritual, mas soluções materiais para as agruras do presente, por meio de uma rede comunitária de colaboração e apoio. O que teve fome e dificuldade, o desempregado, o doente, o sem-teto: todos eles, de alguma forma, encontraram conforto e solução por meio dos irmãos na fé. Enquanto isso, a esquerda tinha uma linda (e legítima) obsessão: “Fora ALCA!”.

O crescimento dos evangélicos não é um milagre, é resultado de um trabalho incansável de aproximação com o povo

 

Desde Lutero, a fé como um ato de resistência (Life of Martin Luther and and the Heros of Reformation, litografia, 1874)

 

O mapa da religiosidade no Brasil revela nossa incompetência social: os evangélicos e pentecostais são mais numerosos entre mulheres (22,11% delas; homens, 18,25%), pretos, pardos e indígenas (24,86%, 20,85% e 23,84%, respectivamente), entre os menos instruídos (sem instrução ou até três anos de escolaridade: 19,80%; entre quatro e sete anos de instrução: 20,89% e de oito a onze anos: 21,71%) e na região norte do país, onde 26,13% da população declara-se evangélica ou pentecostal. O Acre, esse Estado que muitos acham que não existe, blague infantilmente repetida até mesmo por esclarecidos militantes de esquerda, tem 36,64% de evangélicos e pentecostais. É o Estado mais evangélico do país. Simples: a igreja falou aos corações e mentes daqueles com os quais a esquerda nunca verdadeiramente se importou, a não ser em suas dialéticas discussões revolucionárias de gabinete, universidade e assembleia.

O projeto de poder evangélico não é fortuito. Ele não nasceu com o governo Dilma Rousseff. Ele não é resultado de um afrouxamento ideológico do PT e nem significa, supõe-se, adesão religiosa dos quadros partidários. Ele é fruto de uma condição evangélica do país e de uma sistemática ação pela conquista do poder por vias democráticas, capitalizada por uma rede de colaboração financeira de ofertas e dízimos. Só não parece legítimo a quem está do lado de fora da igreja, porque, para cada um dos evangélicos e pentecostais, estar no poder é um direito. Eles não chegaram ao Congresso Nacional e, mais recentemente, ao Poder Executivo nacional por meio de um golpe. Se, por um lado, é lamentável que o uso da máquina governamental pode produzir intolerância e mistificação, por outro, acostumemo-nos, a presença deles ali faz parte da democracia. As mesmas regras políticas que permitiram um operário, retirante nordestino e sindicalista chegar ao poder são as que garantem nas vitória e posse de figuras conhecidas das igrejas evangélicas a câmaras de vereadores, prefeituras, governos de Estado, assembleias legislativas e Congresso Nacional. O lema “un homme, une voix” (“um homem, uma voz”) do revolucionário socialista L.A. Blanqui (1805-1881), “O Encarcerado”, tem disso.

Afora a legitimidade política – o método democrático e a representação popular não nos deixam mentir – a esquerda não conhece os evangélicos. A esquerda não frequentou as igrejas, a não ser nos indefectíveis cultos preparados como palanques para nossos candidatos demonstrarem respeito e apreço pelas denominações evangélicas em época de campanha, em troca de apoio dos crentes e de algumas imagens para a TV. A esquerda nunca dialogou com os evangélicos, nunca lhes apresentou seus planos, nunca lhes explicou sequer o valor que o Estado Laico tem, inclusive como garantia que poderão continuar assim, evangélicos ou como queiram, até o fim dos tempos. E agora muitos militantes, indignados com a presença deles no poder, os rechaçam com violência, como se isso resolvesse o problema fundamental que representam.

A esquerda nunca dialogou com os evangélicos,
nunca lhes apresentou seus planos,
nunca lhes explicou sequer o valor do Estado Laico
(George Whitefield (1714-1770) pregando nas colônias britânicas)
Apenas quem foi evangélico sabe que a experiência da igreja não é puramente espiritual. E é nesse ponto que erramos como esquerda. A experiência da igreja envolve uma dimensão de resistência que é, de alguma forma, também política. O “não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito” (Paulo para os Romanos, capítulo 12, versículo 2) é uma palavra de ordem poderosa e, por que não, revolucionária, ainda que utilizada a partir de um ponto de vista conservador.Em nenhuma organização política o homem comum terá protagonismo tão rápido quanto em uma igreja evangélica. O poder que se manifesta pela fé, a partir da suposta salvação da alma com o ato simples de “aceitar Jesus no coração como senhor e salvador”, segundo a expressão amplamente utilizada nos apelos de conversão, transforma o homem comum, que duas horas antes entrou pela porta da igreja imundo, em um irmão na fé, semelhante a todos os outros da congregação. Instantaneamente ele está apto a falar: dá-se o testemunho, relata-se a alegria e a emoção do resgate pago por Jesus na cruz. Entre os que estão sob Cristo, e são batizados por imersão, e recebem o ensino da palavra, e congregam da fé, não há diferenciação. Basta um pouco de tempo, ele pode se candidatar a obreiro. Com um pouco mais, torna-se elegível a presbítero, a diácono, a liderança do grupo de jovens ou de mulheres, a professor da escola dominical. Que outra organização social brasileira tem a flexibilidade de aceitação do outro e a capacidade de empoderamento tal qual se vêem nas pequenas e médias igrejas brasileiras, de Rio Branco, das cidades-satélite de Brasília, do Pará, de Salvador, de Carapicuíba, em São Paulo, ou Santa Cruz, no Rio de Janeiro? Nenhuma.

 

Se esqueçam dos megacultos paulistanos televisionados a partir da Av. João Dias, na Universal, ou da São João, do missionário R.R. Soares. Aquilo é Broadway. Estamos falando destas e outras denominações espalhadas em todo o território nacional, pequenas igrejas improvisadas em antigos comércios – as portas de enrolar revelam a velha vocação de uma loja, um supermercado, uma farmácia – reuniões de gente pobre com sua melhor roupa, pastores disponíveis ao diálogo, festas de aniversário e celebrações onde cada um leva seu prato para dividir com os irmãos. A menina que tem talento para ensinar, ensina. O irmão que tem uma van, presta serviços para o grupo (e recebe por isso). A mulher que trabalha como faxineira durante a semana é a diva gospel no culto de domingo à noite: canta e leva seus iguais ao júbilo espiritual com os hinos. A bíblia, palavra de ninguém menos que Deus, é lida, discutida, debatida. Milhares e milhares de evangélicos em todo o país foram alfabetizados nos programas de Educação de Jovens e Adultos (EJAs) para simplesmente “ler a palavra”, como dizem. Raríssimo o analfabeto que tenha sido fisgado pela vontade ler “O Capital”, infelizmente. As esquerdas menosprezaram a experiência gregária das igrejas e permaneceram, nos últimos 30 anos, encasteladas em seus debates áridos sobre uma revolução teórica que nunca alcançou o coração do homem comum. Os pastores grassaram.

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Meio Ambiente

Em Ubatuba-SP, novo zoneamento ameaça Comunidades tradicionais e áreas de Mata Atlântica

 

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Fonte: preservareresistir.org

 

Por Vanessa Cancian – Comunicação do FCT (Fórum de Comunidades Tradicionais)

 

Após audiência pública polêmica e cheia de controvérsias, mapa do novo zoneamento costeiro continua com poucas justificativas técnicas e que podem causar danos irreversíveis aos moradores e à natureza do litoral Norte de SP.

Em audiência pública realizada no dia 24 de outubro, em Ubatuba, lideranças comunitárias, o Ministério Público Federal (MPF) e o Ministério Público Estadual (MPE) e entidades ligadas à conservação costeira e aos direitos socioambientais questionam a legitimidade do processo que irá concretizar o novo Zoneamento Ecológico e Econômico do Gerenciamento Costeiro (Gerco) do Litoral Norte do Estado de São Paulo (ZEE LN). Falta de informação, interesse de iniciativas privadas e um grupo setorial sem representatividade dos povos e comunidades tradicionais foram alguns dos pontos elencados pelo público que lotou o auditório no município.

Minuta do decreto que explica o que é o processo do ZEE

Cortada pela rodovia Rio-Santos (BR 101), a cidade é também o local onde vivem povos e comunidades tradicionais desconhecidos da maioria dos turistas e visitantes. Quatro quilombos, duas aldeias indígenas e dezenas de comunidades caiçaras resistem à especulação imobiliária e ao turismo exploratório, lutando para continuar em seus territórios. As grandes áreas ainda preservadas no município dialogam com a existência dessas comunidades, ainda que legislações ambientais arbitrárias (e aplicações de sanções injustas) também prejudiquem a todo instante os  modos de vida tradicionais que ainda existem na região.

Neste território de luta e resistência, o turismo de massa e a especulação imobiliária fazem com que grande parte das pessoas que frequentam o local  não conheçam  a diversidade cultural presente e muito menos os enfrentamentos de cada comunidade para manter-se em seus territórios. Atualmente, o município passa pela revisão do mapa do Zoneamento Econômico e Ecológico (ZEE/LN), que faz parte do Gerenciamento Costeiro (Gerco), ferramenta que define como se dá o uso, ocupação e utilização das áreas costeiras.

A audiência pública demonstrou pela voz de comunitários, ambientalistas, moradores, pesquisadores que o processo não foi construído de maneira participativa e que faltam embasamentos técnicos e justificativas para algumas mudanças no zoneamento. O Ministério Público Federal e o Estadual questionaram também a gravidade dos interesses privados que têm regido uma série de definições  do ZEE/LN.

“Não se trata somente de falar em Z1, Z2, mas sim em saber o que é cada uma dessas zonas e qual a consequência de cada uma delas na vida das comunidades, ponderar os pontos positivos e os pontos negativos, colocar na balança. O que eu estou vendo é que está havendo mentiras por parte do interesse privado para trazer algumas comunidades para o lado de alguns empreendedores”, pontuou a Dra. Walquíria Imamura Pícolli, Procuradora da República.

“Existem vários setores com interesses diversos, marinas, meio ambiente, setor imobiliário, todos legítimos, desde que sejam defendidos com clareza e, sem mentiras. Agora não dá pra sair enganando comunidade tradicional, falar em demolição, fazer promessas de desenvolvimento. O Gerco não determina a instalação de escola, emprego, saúde, luz elétrica, isso é promessinha de empreendedor que quer enganar as comunidades”, alertou a Procuradora sobre a situação alarmante de Ubatuba. Os empresários com interesses em abrir e facilitar seus empreendimentos estão dialogando diretamente com as comunidades com falsas promessas e prejudicando a legitimidade do processo.

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Fonte: informarubatuba.com

A voz do povo chegou tarde

“Este processo participativo está chegando no final e isso é inadmissível!”, ressaltou Tami Albuquerque, do Conselho Municipal de Meio Ambiente e do Coletivo de entidades ambientalistas de Ubatuba. “O Estado ter ido esclarecer o que é o zoneamento dentro das comunidades tradicionais cinco dias antes da audiência pública é vergonhoso. Essas informações deveriam ter chegado anos atrás”, completa. Na semana anterior a audiência, a CPLA realizou quatro reuniões em comunidades cujas decisões ainda não estavam de acordo, além de não ter sanado o problema, diversas outras comunidades ficaram sem essa assistência e seguem controvérsias no mapa apresentado.  Ademais, as reuniões só foram realizadas porque as comunidades se manifestaram e ocuparam o último encontro do Gerco que tinha como finalidade avançar e aprovar o mapa sem quase nenhuma participação popular.

“É evidente também que não há representatividade neste grupo de trabalho e que ele não representa a diversidade brasileira. Faz séculos que o território do Brasil é comandado por homens brancos e para homens brancos, e isso foi perpetuado no processo. Onde estão as mulheres e a diversidade de povos e comunidades tradicionais existentes?”, questionou Albuquerque. Ela ressaltou que as cadeiras para as comunidades deveriam ter sido inseridas de toda forma e que isso prejudicou a legitimidade do processo. “Sem essa participação, como que eles podem decidir com consciência quais áreas deveriam ser eleitas para cada situação?” finalizou.

“De acordo com a Convenção 169 da OIT, deveria ter sido feita a consulta prévia e informada às comunidades tradicionais”, segundo explica a Dra. Maria Capucci, Procuradora Geral da República. Capucci salienta também que mesmo se representantes estivessem alinhados com a defesa das populações tradicionais, ainda é preciso refazer os processos de consultas para suprir o que é exigido por lei.

Em paralelo aos interesses de grandes empresários do setor da construção civil e do setor náutico, as comunidades caiçaras, indígenas e quilombolas não foram ouvidas e a falta de informação predominou durante toda a elaboração do zoneamento. Isso significa dizer que as populações que habitam a região e que possuem suas vidas diretamente ligadas ao manejo tradicional ficaram aquém das decisões importantes.

O Grupo Setorial do Gerco, que coordenou o processo junto a Coordenadoria de Planejamento Ambiental da Secretaria Estadual de Meio Ambiente (CPLA) não contemplou com nenhuma cadeira os povos e comunidades tradicionais do município, ou seja, a representatividade para essas comunidades ficou anulada durante todo o decorrer do processo.

 

Zoneamento sem justificativas técnicas e sem respeito às populações tradicionais

Ficou evidente na audiência pública que a população presente clama por mais respeito ao meio ambiente e aos povos tradicionais. A abertura de grandes áreas para empreendimentos como se pretende na praia do Ubatumirim (no Norte de Ubatuba) é um dos pontos mais polêmicos do zoneamento. Empresários de marina e do setor da construção civil demonstraram abertamente seus interesses e o Gerco, até o momento, colocou uma grande mancha de Z4OD em uma área que já está nas mãos de uma das maiores construtoras de Ubatuba.

“Segundo trabalho da professora Celia Regina de Gouveia Souza, do Instituto Geológico do Estado de São Paulo (também ligado a SEMA), Ubatumirim é um local apontado como área de risco costeiro muito alto. E a praia do Félix é indicada como área de alto grau de erosão costeira”, como pontou Bruno Gios, Assistente Técnico do Ministério Público Federal. Bruno questionou o fato da pesquisa, que está vinculada a um instituto da própria secretaria não estar sendo levada em conta. “Estimular a ocupação dessas áreas poderá causar consequências drásticas à praia, aos ambientes naturais e aos próprios usos de atividades antrópicas na costeira, e ambas aparecem no mapa como Z4OD”.

“Não acredito ser adequado, ou coerente você fomentar a ocupação urbana em locais onde o risco de erosão costeira é muito elevado”, destacou Gios. O especialista alertou que as consequências dessa ocupação são: aumento da frequência e magnitude de inundações costeiras causadas por ressacas, comprometimento do potencial turístico da região costeira e gastos astronômicos com a recuperação das praias e reconstrução da orla marítima.

“Na região Sul de Ubatuba, na Maranduba há uma área de 170 hectares marcada no mapa como Z5, zoneamento que não prevê nenhuma porcentagem de preservação. Dentro dessa área há um polígono de 70 hectares de maciço florestal que equivale a 40% deste território”, salientou o biólogo. O especialista afirma que não há cabimento compreender toda essa região com esse zoneamento, ou seja, a precarização do ecossistema será ainda mais intensa sem considerar a área que já existe preservada.

Da mesma maneira que foi feito no zoneamento anterior, comunidades tradicionais já demarcadas como o quilombo da Fazenda, de Camburi e a aldeia Boa Vista seguem sem ser sinalizadas pelo mapa, ou seja, aparecem somente como áreas verdes, o que chancela as injustiças territoriais e desconsidera o modo de vida feitas destas comunidades. Além disso, repetem a forma autoritária feita no passado que criou os parques estaduais sem sinalizar os povos e comunidades tradicionais que já estavam no local antes da consolidação dos mesmos.

A manutenção e garantia dos modos de vida tradicionais das comunidades em seus territórios não está sendo considerada. “Em nome do progresso” o zoneamento costeiro desconsiderou inclusive laudos técnicos que apresentam incompatibilidade dos zoneamentos propostos com a realidade do município.

 

Como vai ficar o mapa?

Após a longa audiência e a evidente insatisfação da população de Ubatuba com relação ao mapa proposto pelo Grupo Setorial do Gerco, é incerto saber se a CPLA irá ou não considerar as alterações propostas. A CPLA irá concluir as audiências públicas do Litoral Norte, que inclui as cidades de Caraguatatuba, São Sebastiao e Ilhabela até o dia 4 de novembro.

Mesmo aqueles que não participaram da audiência ainda podem encaminhar sugestões de mudança e os documentos devem ser protocolados pessoalmente até o dia 11 de novembro. O local de recebimento em Ubatuba é na Sede da Fundação Florestal localizada na Rua Esteves da Silva, 510, centro. Além disso, também podem ser enviadass por carta registrada para a SMA/CPLA (Av. Prof. Frederico Hermann Jr., 345, Alto de Pinheiros, São Paulo – SP. CEP 05419-010) ou por e-mail para [email protected]

 

Para saber mais:

O que é o ZEE?

A revisão do zoneamento define como é permitido ocupar o solo em cada área do território, como por exemplo, onde é permitido ou proibido pescar, criar marisco, construir casas e prédios, praticar agricultura, colocar estruturas náuticas, entre outras coisas. A alteração das áreas implica diretamente nos interesses da iniciativa privada uma vez que grandes empreiteiros e empresários visam determinadas áreas de comunidades para empreender em nome do capital e sem considerar a soberania dos povos tradicionais que vivem ali. O processo de revisão que teve início em 2014 e em cada um dos municípios do litoral Norte criou grupos de trabalho para executar as ações com membros do poder público e da sociedade civil, mas não contemplou a participação de comunidades tradicionais com a chamada consulta prévia informada, segundo exige a convenção 19 da OIT

 

O que é o Gerco?

O Gerenciamento Costeiro é uma ferramenta utilizada por vários países para ordenar os diferentes usos das áreas costeiras. No Brasil, a Política Nacional de Gerenciamento Costeiro foi instituída legalmente em 1988.  Na esfera estadual, São Paulo foi o primeiro Estado a instituir legalmente o Plano Estadual de Gerenciamento Costeiro – PEGC em 1998.O Zoneamento Ecológico Econômico – ZEE é um dos instrumento do PEGC e visa classificar o território em unidades e disciplinar os usos.  O primeiro ZEE foi instituído em 2004 e passa, atualmente, por um processo de revisão. Esse processo está ocorrendo desde 2011 e deveria ocorrer com a  participação de toda a sociedade. O Grupo Setorial do Litoral Norte é o fórum colegiado responsável por elaborar o ZEE. Esse grupo é tripartite composto por 24 cadeiras: ⅓ de representantes do Governo do Estado, ⅓ de representantes dos municípios (2 de Ubatuba, 2 de Caraguatatuba, 2 de São Sebastião e 2 de Ilhabela) e ⅓ de representantes da sociedade civil. Para definir os representantes da sociedade civil é realizado um processo eleitoral.

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Política

Sobre João Dória, MBL, a esquerda e nós negras e negros

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Por Douglas Belchior

 

A campanha de João Dória, do PSDB em São Paulo, foi honesta.

Ele disse que não era político. De fato, nunca foi um político no conceito ao qual a maioria da população percebe.

Ele disse ser trabalhador. Eu também discordo. Mas há na sociedade a hegemonia de uma lógica meritocrática que valoriza o empenho e a prosperidade, logo, se ele enriqueceu dentro das regras do capital – a da exploração do homem pelo homem, tá tudo certo. Isso é sim honesto. Todos desejam. Se ele conseguiu, parabéns!

Ele se disse ultra-liberal, anti-PT (que tem o significado, por mais que discordemos, anti-esquerda); Ele prometeu privatizar ao máximo, diminuir o tamanho físico do estado, aumentar a repressão e acabar com secretarias “desnecessárias”, tais como Igualdade Racial, Mulheres, LGBT e Direitos Humanos. Ignorante que é, não se deu conta de que as de mulheres e Lgbts sequer são secretarias, e que Direitos Humanos e Igualdade Racial, sempre foram mais simbólicas que efetivamente valorizadas (do ponto da destinação de recursos) mesmo pelo atual governo. Ele, João Dória, disse e repetiu isso tudo. E conseguiu mais da metade dos votos válidos no pleito eleitoral. Bom reiterar: Maioria dos votos válidos, e não maioria em apoio popular, visto que votos brancos, nulos e abstenções superaram sua votação, dado este que merece reflexão exclusiva, mas em outro texto.

A Câmara de vereadores seguiu a mesma onda. A bancada fundamentalista, a bancada da bala e a bancada da especulação imobiliária e dos grandes interesses corporativos aumentou. Nossos inimigos de classe estão explícitos ali, tanto na nova Câmara quanto no novo executivo municipal, caçula do tripé dos infernos, Temer/Alckmin/Dória.

O rapaz do MBL, eleito em São Paulo, é só mais um no jogo. Estridente, barulhento, sarcástico e com marcas físicas que o aproxima ao grupo racial majoritário da classe trabalhadora. Tudo que a direita sempre quis ter. Paciência. Eles tem, nós não temos. Agora é enfrentar!

A direita entende muito mais de luta de classes que nós. Desde o fim da escravidão, cooptaram cialis kiszereles lideranças, movimentos, e iniciativas negras. Não há novidades nisso. Cabe perguntar porque a direita forjou, nesse momento político do Brasil, a sua liderança negra, cujo papel é o diálogo direto com a maioria da classe trabalhadora (negra que é), e a esquerda não.

No Brasil, a dominação de classe por parte dos ricos sempre se deu a partir das relações raciais. Somos um país fruto de quase 400 anos de escravidão. Eles sempre souberam que a manutenção do poder dependeria da continuidade da lógica escravocrata, mesmo no período pós escravidão. Eles a fizeram. Daí a importância do racismo estrutural para a sua permanência no poder. Do lado canhoto, no entanto, nunca se deu importância aos negros enquanto agentes e lideranças políticas, apesar de seu explícito potencial mobilizador.

O rapaz do MBL estará na Câmara Municipal de SP para desestabilizar, para fazer barulho, para provocar. Ele é uma encomenda. Deve ser enfrentado na política e não desqualificado por ser “um negro de direita”. Ele foi eleito a partir da defesa de uma plataforma ultra-liberal, de defesa do interesse privado e de crítica às bandeiras históricas dos diversos movimentos populares e de direitos humanos. É de se lamentar, mas tal deformação também é um direito. Há mulheres de direita, homossexuais de direita, nordestinos e pobres de direita. A questão central não é o fato de ele, sendo quem é, defender as pautas que defende. A questão central é, como enfrentaremos o projeto político nazi-fascista, racista, patriarcal e radicalmente liberal que, de tão eficaz, usa e convence o povo pobre, trabalhador, periférico e negro a cerrar fileiras nas redes, ruas e urnas juntos aos seus algozes. E convence mesmo, de maneira generalizada, não apenas os negros. E mais: o quanto interessa a branquitude de esquerda levar esse debate a sério e à prática.

Ou não aprendemos nada com a História.

Em tempo: Áurea Carolina e Mirielle Franco, BH e RJ, pretas e de esquerda, eleitas vereadoras pelo Psol, nos fazem ter fé no futuro. A sobrevida da esquerda brasileira é preta e periférica, ou não será!

 

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