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Em cartaz: ‘Cartas à Madame Satã’ reflete afetividade de negros e negras

Foto: Roniel Felipe

Peça ‘Cartas à Madame Satã, ou Me Desespero Sem Notícias Suas’, estará em cartaz no Sesc Belenzinho, Zona Leste de SP, dias 2, 3 e 4 de Março, às 21h30

 

Com Cia. Os Crespos

Em seu quarto, um homem negro se corresponde com a figura mítica de Madame Satã. Fragmentos de histórias revelam, através das cartas, trajetórias e casos de amor numa cidade-país carregada de doenças, que mantém sob cárcere privado um jovem apaixonado. A personagem, em tom confessional, mescla a força do gesto com a delicadeza no discurso, buscando a cumplicidade do espectador para tornar público uma afetividade cercada de tabus.

Trata-se do terceiro espetáculo de uma trilogia da Cia. Os Crespos, ‘Cartas à Madame Satã, ou Me Desespero Sem Notícias Suas’. A montagem do texto contou com a colaboração de diversas pessoas que enviaram cartas ao grupo contando sobre suas experiências de vida. Na peça, o ator Sidney Santiago Kuanza utiliza dessas cartas para se comunicar com Madame Satã, transformista emblemático do início do século XX.

Com direção de Lucelia Sergio, direção musical e operação de Dani Nega e colaboração dos atores Luis Navarro e Vitor Bassi, as apresentações estão confirmadas para essa próxima quinta, sexta e sábado, 02, 03 e 04/03, às 21h30,  na Sala de Espetáculos I do Sesc Belenzinho. O vídeo abaixo deixa uma pitada do espetáculo.

Imperdível!

+ Os Crespos

Os Crespos é um coletivo teatral de pesquisa cênica e audiovisual, debates e intervenções públicas, composto por atores negros. O embrião da companhia foi um grupo de estudos formado em 2005 na Escola de Arte Dramática da USP, influenciado pela trajetória do Teatro Experimental do Negro (TEN) de Abdias do Nascimento. Era integrado por Sidney Santiago, Lucélia Sérgio, Mawusi Tulani e Joyce Barbosa, e dedicado à pesquisa sobre a presença negra no teatro. Em 2006 o núcleo tornou-se o grupo teatral Filhos de Olorum. No ano seguinte, adotou o nome Os Crespos e montou seu primeiro espetáculo, Ensaio sobre Carolina.

A estreia em 2007, com direção de José Fernando de Azevedo, primeiro professor negro da EAD-USP, era uma releitura do texto de Quarto de Despejo, de Carolina de Jesus. Depois de um ensaio aberto em Berlim, Ensaio sobre Carolina ficou em cartaz em São Paulo e no Rio de Janeiro até 2010. Com um projeto sobre essa peça, Lucelia Sergio da Conceição, membro do grupo, foi uma das 86 agraciadas do edital “prêmio Myriam Muniz”, da Funarte, em 2009.

Em 2014, o grupo lançou a revista Legítima Defesa, reunindo entrevistas, artigos e dramaturgia. No mesmo ano a companhia estreou o espetáculo ‘Cartas a Madame Satã ou me Desespero sem Notícias Suas’ que contou com a colaboração de diversas pessoas que enviaram cartas ao grupo contando sobre suas experiências de vida. Na peça o ator Sidney Santiago Kuanza utiliza dessas cartas para se comunicar com Madame Satã, transformista emblemático do início do século XX.

Serviço

Peça: Cartas à Madame Satã, ou Me Desespero Sem Notícias Suas
Datas: 02,03 e 04 de Março de 2017
Local: Sala de Espetáculos I – Sesc Belenzinho – Rua Padre Adelino, 1000, próximo Metrô Belém
Ingressos: Inteira R$ 20,00 – Meia: R$ 10,00
Limite de 4 ingressos por pessoa
Não recomendado para menores de 16 anos

 

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Cultura Hip-Hop

Abram alas pro rap

Foto: Renato Stockler

 

O rapper Rincon Sapiência evoca Carnaval e afrodescendência no videoclipe do single “Meu Bloco”

De Boia Fria Produções

 

Não foi por acaso que o rapper Rincon Sapiência escolheu o carnaval para lançar o videoclipe e o single “Meu Bloco” nas suas redes sociais e principais plataformas de streaming. O lançamento promete surpreender o público ao misturar trap, rap e samba com rimas inspiradas em referências da maior manifestação da cultura popular brasileira. Em meio ao atual movimento de retomada do Carnaval de rua em todo o país, que este ano contará pela primeira vez com blocos específicos dedicados ao rap, “Meu Bloco” traz versos repletos de alusões às tradicionais figuras da festa, que tem como protagonistas em sua gênese os afrodescendentes brasileiros tanto no aspecto rítmico-musical quanto na dança.

Assim, Rincon Sapiência deslancha o seu já tão aclamado flow num som que ele mesmo define como afrorap e que exalta o empoderamento através da cultura preta com metáforas contundentes, uma das marcas registradas de seu discurso, que se somam aos sons de tamborins e de uma bateria, ambientando o ouvinte à atmosfera de Carnaval que dita o tom da música e do videoclipe. Produzida pelo próprio Rincon, a faixa conta com scratches do Dj Luba Construktor, que também o acompanha nos palcos. O videoclipe, uma realização da Boia Fria Produções , foi dirigido por Jorge Dayeh (Anão) e gravado em um ousado plano sequência no barracão da escola de samba paulistana Pérola Negra, o que lhe confere originalidade ao adotar uma estética carnavalesca de raiz.

Após o sucesso do single e do videoclipe de “Ponta de Lança (verso livre)“, que em menos de dois meses já conta com mais de 2,6 milhões de visualizações no Youtube e mais de 1 milhão no Facebook, com “Meu Bloco” Rincon Sapiência prepara os fãs para o seu tão aguardado álbum de estréia “Galanga Livre”, em maio, que trará ao público o resultado de sua imersão no universo da música africana e da incessante busca por suas raízes musicais.

Produzido pelo próprio rapper, o disco conta com coprodução e mixagem do experiente William Magalhães, líder da Banda Black Rio, e masterização de Arthur Joly. Para além de sua irreverência, o rapper mostra no álbum a justa medida entre balanço e romantismo, formula mágica de discos consagrados da nossa música até então pouco presente no rap nacional, trazendo influências da negritude que vão desde a capoeira até o blues, passando pelo coco e pela tropicália, até o afrobeat, permeadas pela veia rock and roll que caracteriza a obra de Rincon, que também é conhecido na cena pelo seu vulgo Manicongo. 

+ Rincon Sapiência

Com a originalidade de suas composições, marcadas por influências das músicas africana, eletrônica, jamaicana e vertentes do rock, desde o ano 2000, o artista traduz em versos inteligentes e sagazes as experiências vividas nas ruas da periferia paulistana desde os anos 80. Abordando questões raciais e sociais no contexto da metrópole, Rincon Sapiência apresenta um rap com clima de positividade, sem prejuízo à postura crítica do discurso, resultado da sua notável fome de rima aliada à sua habilidade nata de jogar com as palavras. Versátil, ele também atua como beatmaker em seus próprios trabalhos.

Em 2005, Rincon lançou sua primeira faixa, intitulada “Aventureiro” e, em 2008, participou no disco solo de Kamau, Non Ducor Duco, nas faixas “Porque eu Rimo” e “Tambor”. No ano seguinte, se firmou como protagonista na cena rap com o sucesso “Elegância”, cujo videoclipe entrou na programação da MTV Brasil e foi indicado ao VMB 2010 na categoria Melhor Videoclipe de Rap. No mesmo ano, Rincon Sapiência participou do álbum Projeto Paralelo, da banda NX Zero, na faixa “Tarde pra Desistir”.

A referência e a exaltação de temas relacionados à negritude e às raízes africanas são frequentes nas músicas de Rincon Sapiência, que abordam a consciência e a valorização da afrodescendência, reconhecidas em solo africano durante os renomados festivais dos quais Rincon participou em 2012 (Festival 2H, em Dakar, Senegal; e Festival Asalam Maleikum Hip Hop, na Mauritânia). Em 2014, Rincon lançou o EP SP Gueto, com oito faixas oficiais e duas faixas bônus. Um dos destaques do rap nacional daquele ano, o EP foi em grande parte produzido pelo próprio Mc, e traz uma forte identidade musical, com influências das músicas eletrônica, rock, ska, reggae, samba, timbres 808 e até o clássico estilo boombap dos anos 90.

Lançado em maio de 2016, o videoclipe “A Coisa Tá Preta”, deu ao público uma pequena amostra das possíveis sonoridades e temáticas do primeiro álbum. Em clima de festa, um time de dançarinos e figurantes representa a diversidade da beleza negra no clipe, reforçando o ideal de que os negros também descendem de reis e rainhas africanos, uma constante nos trabalhos de Rincon Sapiência. A universalidade da música e dos temas abordados pelo repertório de Rincon favorecem o seu trânsito em outros círculos que não sejam necessariamente periféricos. Sua forte identidade artística, reforçada por um estilo original, também está presente nos clipes “Elegância”, “Transporte Público”, “Linhas de Soco”, “Profissão Perigo” e “Coisas de Brasil”.

A estreia como ator veio nas telonas em 2013, ao contracenar com o ator Wagner Moura no filme “A Busca”, dirigido por Luciano Moura, seguida da participação no filme “Jonas”, dirigido por Lô Polliti, do qual também participaram os rappers Criolo e Karol Conka.

 

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Cinema racismo

“Branco é uma metáfora do poder” ou: Porque você deve assistir “Eu Não Sou Seu Negro”

Presença de prestigiados ativistas negras e negros. Foto: Angela Peres

Branco é uma metáfora do poder

Por Douglas Belchior

Assisti, nesta sexta dia 10/02 pela manhã, em uma sala de cinema repleta de nagras e negros, em uma sessão especial para esse público, o documentário indicado ao Oscar 2017 “EU NÃO SOU SEU NEGRO”. Sobre o impactos que me causou: Estou cansado de depender de “heróis brancos”, de líderes brancos, de políticos aliados, muitos até cheios de boa vontade, mas brancos! E quando digo “branco”, não é só na origem racial ou na cor da pele. Falo de brancos na forma de fazer, de pensar, de agir, de construir política, de se auto proteger e os seus iguais raciais, de sabotar a organização, as iniciativas e as lideranças negras, de manter as estruturas de tal forma organizadas que sempre estarão na condição de ajudar os negros e os negros de depender de ajuda, da compreensão e dos favores dos brancos. Afinal, no limite do entendimento racional humano, não existe branco ou preto. Existem seres humanos. Mas, como bem afirma James Baldwin, “Branco é uma metáfora do poder”. Metáfora essa, que não fomos nós, negras e negros, quem inventou! Em alguma esquina da história essa corrente, essa permanência estamental racializada vai se quebrar. E eu vou me empenhar pra isso!

Mas porque palavras tão duras? Por que assisti, repito, o documentário “Não Sou o Seu Negro”, irmanado à minha comunidade. Sugiro à você que assista também.

Angela Peres, em matéria para o site Todos os Negros do Mundo, descreve com primor o que foi esta manhã.

Pré-estreia de “Eu não sou seu negro”

Por Angela Peres do site Todos os Negros do Mundo

Quando preenchi o questionário para assistir à pré-estreia do filme Eu não sou seu negro – um dos concorrentes ao Oscar de melhor documentário – havia um campo sobre qual movimento social eu militava. Parei para pensar. Fui aluna Educafro, parte de um coletivo negro na universidade, professora da Uneafro e escrevo e apresento para um portal de notícias chamado Todos Negros do Mundo. Ainda assim, tive dificuldades em enquadrar minha “militância”. Mal sabia eu que esse filme me apresentaria caminhos para pensar atitudes para além de enquadramentos classificatórios.

Presença de prestigiados ativistas negras e negros. Foto: Angela Peres

Ao chegar na Av. Paulista 900, já procurava por cabelos e peles que me indicassem o local exato da exibição. Depois, um homem disse ter achado o lugar me seguindo: “Essa preta deve estar indo pra lá”, disse ele revelando seu pensamento. A fila não era tão grande, não por causa do filme, mas sexta-feira às 10 horas da manhã militantes estamos vendendo nossa força de trabalho e nem sempre temos autonomia quanto a horários. Ainda assim, o espaço estava ocupado e representado.

Alguns rostos conhecidos e uma expectativa geral. O que veríamos ali era a história dos Estados Unidos da América, uma história real e ocultada. Três amigos: Medgar Evers, Malcom X e Martin Luther King. E uma testemunha: James Baldwin, o autor do manuscrito “Remember this house”, que baseou o filme.

Presença de prestigiados ativistas negras e negros. Foto: Angela Peres

Para além de se fixar as mazelas produzidas pelo sistema segregacionista, o filme apresenta as teorias de Baldwin sobre as relações raciais nos EUA através dos olhos de Raoul Peck, o diretor. A refinada análise sobre a influência do cinema na visão perpetuada sobre os “brancos heróis” e os “negros submissos” é o que costura os fatos históricos apresentados. A narrativa não separa os fenômenos, das ideias criadas sobre esses fenômenos e poderia ser discutida num curso de História, Ciências Sociais, Filosofia, Cinema, ou numa sede de movimento social, numa escola de Ensino Médio ou Fundamental 2, ou simplesmente por aqueles que se incomodam com a violência produzida por esse sistema opressor. Credito as diversas possibilidades na análise do discurso desse documentário ao cuidado em não tratar o tema de maneira superficial.

As diversas camadas apresentadas passam por vidas sacrificadas por uma luta, Lorraine – a jornalista assassinada e esquecida, um presidente indiferente, brados e choros anônimos, entrevistas em emissoras de televisão, atores brancos e negros que interpretam o status quo, um filósofo que não sabe o que lutar para sobreviver e disputas. A sutileza do filme está em mostrar que as principais disputas não são fotografadas, são as disputas de ideias. “Branco é uma metáfora do poder”.

Presença de prestigiados ativistas negras e negros. Foto: Angela Peres

Para Baldwin, o assassinato dos três líderes negros e a indiferença da maioria dos brancos com a questão das relações entre brancos e negros é sintoma de uma necessidade de apagamento da história. Eles precisam disso para não se sentirem culpados pelo crime que seus antepassados cometeram. A raiva que eles vêem em nós é fruto dessa culpa por algo que não querem reconhecer. Nós, só estamos tentado sobreviver enquanto o sistema ainda tenta matar a todos. Enquanto isso, o cinema cria ficções para amenizar e dizer que não foi e que não é tão ruim assim.

Homens que querem aliviar a culpa que sentem por oprimir dizendo que mulheres são dramáticas, brancos que tentam aliviar a culpa que sentem dizendo que negros são amargos ou revoltados, tudo isso diz respeito às estruturas de dominação. Enquanto não pensarmos com mais seriedade sobre elas, ou enquanto a maioria continuar indiferente às mortes que continuam ocorrendo, estaremos longe de acabar com essa guerra silenciosa.

Utilizo a primeira pessoa do plural porque considero muitos aspectos semelhantes com a realidade brasileira, principalmente a desigualdade, a violência policial traduzida em números de genocídio e a indiferença de todos aqueles que não querem discutir a questão.

Quantas salas de cinema passarão o filme no Brasil? Muito poucas! Por quê? Talvez pensem que ao contarmos essa história, estaremos contra os brancos. Mas estão enganados. Estamos contra uma estrutura opressora, a não ser que seja a favor dessa estrutura, pode ir ao cinema tranquilamente. Minha vontade é que muitos, muitos brancos tenham coragem de assistir para desconstruírem essa ideia de negro que eles mesmos inventaram. É, eu não sou sua negra!

Serviço:

Estreia no Brasil: 16 de Fevereiro

PRÉ-ESTREIA DIA 11/02

Belo Horizonte: Cinearte Ponteio
Brasília: Cine Cultura Liberty Mall | Cine Brasília | Espaço Itaú Brasília
Porto Alegre: Cine Guion Center | Espaço Itaú Porto Alegre
Recife: Cinema da Fundação Joaquim Nabuco
Rio de Janeiro: Cine Odeon | Espaço Itaú Botafogo | Reserva Cultural Niterói
São Paulo: Reserva Cultural | Espaço Itaú Augusta | Cinesystem Morumbi Town

Ficha Técnica:

Título original: I Am Not Your Negro; Direção: Raoul Peck; Roteiro: Raoul Peck, James Baldwin; Produção: Rémi Grellety, Raoul Peck, Hébert Peck; Fotografia: Henry Adebonojo, Bill Ross, Turner Ross; Edição: Alexandra Strauss; Música: Alexei Aigui

Elenco: Samuel L. Jackson

Gênero: Documentário / País: EUA, França Bélgica, Suíça. Ano: 2016 COR/PB. Duração: 93 minutos Classificação: a verificar

SOBRE A AUTORAAngela Peres é doutoranda em Antropologia pelo Museu Nacional (UFRJ), além de atriz e apresentadora. Atualmente compõe o quadro de TNMistas tanto na frente das câmeras quanto na frente do computador. Prefere escrever colunas ensaísticas por pensar a arte como um modo de ver o mundo e não apenas algo que se exerce ocasionalmente. Sem muitos crachás, apenas busca ser uma pessoa melhor e acredita que o trabalho é o que deixamos para o mundo.