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Cotas Raciais Movimento Negro

Faculdade de Direito da USP aprova cotas raciais

Uneafro promete celebração da aprovação das Cotas em ato com centenas de estudantes negras e periféricas, neste sábado, a partir das 09h00, na SanFran.

 

Por Douglas Belchior e Suzy Pistache

 

A Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo – USP, aprovou nesta quinta-feira, 30, pela primeira vez em sua história, uma política de acesso com recorte explicitamente racial.

A partir de 2018, o vestibular vai obedecer a seguinte distribuição de suas vagas: 20% para Pretos, Pardos, e Indígenas vindos de Escola Pública, via Enem; 10% para estudantes oriundos de Escola Pública, via Enem; 70% de vagas pelo caminho tradicional, via FUVEST.

Luta histórica do movimento negro brasileiro, o acesso à universidade continua sendo um grande desafio para a população preta e pobre. A Universidade de São Paulo, bem como a Unicamp, duas estaduais que se mantém sob o rígido comando do governo tucano há décadas, mantém suas características de Casa Grande: portas fechadas para essa população.

Nos últimos anos, porém, graças à pressão incansável do movimento negro, movimento de cursinhos comunitários e de diversos grupos de estudantes sensíveis às pautas, a universidade tem sido obrigada a responder. E tem feito por meio de medidas ineficazes, como nos casos do Inclusp e do Pimesp, propostas de acesso que não apresentaram alteração substancial no perfil dos ingressantes.

Os departamentos uspianos também tem sido provocados a usar de sua autonomia. Por serem mais “próximos” dos estudantes, esses espaços tem sido alvo de muita pressão. Exemplo foi a postura do Departamento de Jornalismo e Editoração que decidiu, em junho de 2016, adotar 13,5% das vagas de cada uma das duas carreiras, para negros e indígenas oriundos de escolas públicas.

Ato a favor da adoção de Cotas Raciais, durante reunião da Congregação – SanFran

 

Hoje, convidado pelos estudantes da faculdade, estive em meio ao Ato de pressão junto ao Conselho que se reunia, representando a UNEafro Brasil, ao lado Frei David e de dezenas de estudantes da Educafro, organização de onde surgiu a Uneafro e onde eu aprendi grande parte do que sei e faço.

O resultado positivo, em certa medida, nos fez lembrar as tantas ações que construímos ao lado de organizações negras que há tempos, muito antes de nós, já faziam esta luta. Companheiros da Rede Quilombação, do Instituto Luiz Gama, do Núcleo de Consciência Negra na USP, do Movimento Negro Unificado – MNU, da CONEN, da UNEGRO, das APN’s, do Círculo Palmarino, do Kilombagem, do Coletivo de Esquerda Força Ativa, do Geledés Instituto da Mulher Negra, do Levante Popular da Juventude, do Instituto do Negro Padre Batista entre outros tantos.

O resultado é satisfatório? Não. Na verdade é pouco. Muito menos que o justo. Mas em tempos de golpes e retrocesso, chega a dar um fôlego para continuar a luta.

 

Um pouco mais de História, por Suzy Pistache

 

Hoje em reunião histórica a congregação da Faculdade de Direito da USP aprova a adoção de cotas raciais para ingresso na graduação. Esta vitória me fez lembrar uma história importante, apesar de invisibilizada. Em pleno período escravocrata um ex-seminarista negro, chamado José Rubino de Oliveira ousou ser aluno da Faculdade de Direito do Largo São Francisco e como se não bastasse, ousou ser docente da casa. A ilustre Faculdade que ecoava em São Paulo as teorias eugenistas teve que abrir as portas pra este destemido negro após dez concursos consecutivos pra docente. Ele não desistiria mesmo, pois sabia fazer barulho; assim como seu companheiro de batalhas, o grande Luis Gama.

Outro negro tentou a mesma façanha no começo do século XX. Se chamava Pinto Pereira, que apesar de toda erudição, sua carreira se resumiu a de ser apenas um “docente curinga”, conforme adjetivou Miguel Reale, que chegou a ser seu aluno. O martírio de Pinto Pereira na sala de aula foi tremendo, já que alunos brancos e bem nascidos como Reale não lhe endereçavam o devido respeito, apesar da suposta hierarquia entre professor e aluno. Mas chegou o tempo em que a Sanfran teve que se dobrar a genialidade de Antonio Cesarino Júnior, negro e estruturador do Direito do Trabalho no Brasil. E somente nos anos 80, quase no ocaso do século passado, é que a Faculdade de Direito tem sua primeira professora negra, a Dra. Eunice Prudente, que foi também a primeira mulher a ocupar o posto de Secretária de Justiça do Estado de São Paulo.

Assim, fundada em 1827 e tendo participação importante no debate racial brasileiro, ainda hoje é possível contar nos dedos os/as docentes negros/as na história desta faculdade.

Que a conquista de hoje, fruto de tanta luta, escancare as portas desta instituição para a população negra, honrando também com este segmento racial sua tradicional vocação de celeiro de verdadeiros aprendizes e artífices do poder, conforme indicou Adorno (1988)*.

Celebração da conquista

O Movimento Uneafro Brasil já havia programado um grande encontro de estudantes de seus cursinhos populares para este próximo sábado, dia 1 de Abril, para acontecer justamente na Faculdade de Direito da USP. O encontro, batizado de “Aulão da Uneafro”, está mantido, mas agora tem um sabor a mais. “É importante celebrar a conquista da aprovação das Cotas Raciais na Faculdade de Direito da USP, mas principalmente lembrar e gritar, para que todos ouçam: É pouco! Queremos o que é justo!”, promete Rosangela Martins, Coordenadora do Movimento.

A rica programação está confirmada com a presença da presidenta da ANPG – Associação Nacional de Pós-Graduandos, Tamara Naiz, do líder do MTST, Guilherme Boulos, do poeta Sergio Vaz, da produtora Cultural Eliane Dias, da ativista negra Monique Evelle e da Rapper Preta Rara.
Divulgue o EVENTO: https://www.facebook.com/events/278358275925834/

 

Sobre a Uneafro Brasil

UNEafro Brasil é um movimento de ação comunitária e educação popular que há quase 10 anos ajuda a escrever histórias de superação na vida de jovens, negras/os e periféricas/os.

Escolhemos enfrentar o racismo, o genocídio, o machismo e as desigualdades econômicas através da educação popular e da ação direta na vida real das pessoas em nossas próprias comunidades.

 

 

*Fonte: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/48/48134/tde-19112015-133530/pt-br.php
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Movimento Negro Política

“Reformas de Temer são racistas e genocidas”, diz movimento negro ao convocar protesto

Por Douglas Belchior

 

O ataque covarde de Temer e sua rataria aos direitos fundamentais do povo brasileiro ameaça arrancar o pão de nossas mesas e colocar ainda mais armas em nossas cabeças. Não podemos fingir que não é com a gente. A população negra será, sem nenhuma dúvida, a parcela mais afetada com o fim das aposentadorias, com o desmonte dos direitos trabalhistas, com o congelamento de investimentos sociais e com o aumento da repressão, alvo naturalizado que somos, das leis punitivas e da ação violenta das polícias.

É preciso reagir! Daí a importância em se somar aos esforços da unidade no campo progressista, que tem promovido crescentes manifestações em defesa dos direitos. Esta semana teremos paralisação nacional nesta sexta, 31 de Março em todo o país. E em São Paulo, as mobilizações acontecem também no sábado, dia 1 de abril. O Movimento negro está convocando uma grande marcha “Contra as Reformas Racistas e Genocidas de Temer” (Goo.gl/npvSVi), com concentração às 13h00 no Largo São Francisco, centro da capital. Esta marcha seguirá até a Avenida Paulista, onde se encontra com o já tradicional Cordão da Mentira, que se concentra em frente do MASP, a partir das 16h (https://goo.gl/cqjDaa).

Abaixo o forte manifesto do movimento negro, subscrito por dezenas de organizações.

 

 

 

MARCHA NEGRA CONTRA AS REFORMAS GENOCIDAS DE TEMER

São Paulo, 30 de Março de 2017

A população negra, alvo histórico da desigualdade e da violência, fruto direto das consequências e continuidades dos 4 séculos de escravidão, jamais usufruiu da efetiva cidadania, demarcada em nossos avanços constitucionais.

Mesmo os direitos até hoje conquistados, civis, sociais, trabalhistas, fruto das lutas dos trabalhadores brasileiros, sempre foram sistematicamente negados ao nosso povo. O genocídio, o direto e o simbólico, sempre foi a principal característica da relação entre nós e o Estado.

Em momentos de crise do sistema do capital, como o que vivemos agora, as forças do “deus mercado” e dos grandes empresários e especuladores mundiais apertam o cerco e, por via de governos covardes e entreguistas, como o de Temer, buscam retirar os poucos direitos conquistados pelos trabalhadores, custe o golpe que custar. A ganância de manter e aumentar suas margens de lucro não tem fim.

Por outro lado, para reprimir a população e manter a “ordem social”, investem pesadamente em seu aparato militar, em regulamentações punitivas e restritivas de liberdade. O povo, cada vez mais pobre, é o inimigo. E a população negra, seguimento majoritário da classe trabalhadora é, mais uma vez, o descarte prioritário.

O fim do direito a aposentadoria, o desmonte dos direitos trabalhistas, a terceirização irrestrita do trabalho, o congelamento de investimentos sociais por 20 anos e o aumento da repressão e da violência policial tem um caráter explicitamente racista e genocida. Políticas de ações afirmativas comprovadamente eficazes para um equilíbrio futuro de oportunidades entre negras/os e não negras/os tem sido destruídas. É o que vemos com fim da ampliação de vagas em universidades federais, com a gradual diminuição do prouni e fies, a descaracterização do enem, com o esvaziamento da importância da lei 10.639, ou seja, a reprodução em nível federal, do que faz o governo do estado de SP através de USP e UNICAMP, que se opõem sistematicamente às políticas de cotas raciais em cursos de graduação e pós-graduação. Sim, com as reformas de Temer, os efeitos do racismo e o genocídio negro vão se aprofundar.

Nós, povo negro, temos um lado e vamos ocupar nosso lugar nesta luta, que não é só o de fazer volume em manifestações, mas de ajudar a dirigir – como maioria que somos – o processo revolucionário e a luta contra as elites racistas que querem nossa morte, que matam nossos filhos na bala, que estupram nossas mulheres pretas, que matam nossos velhos nas filas de hospital.

Por isso tudo, nos somamos às manifestações convocadas pelas Frentes de movimentos sociais, partidos e sindicatos, mas também construiremos agendas da luta negra, para a quais esperamos a mesma unidade.

Neste Sábado, 01 de Abril, estaremos em Marcha, a partir das 13h00, no Largo São Francisco, centro de SP, ‘Negras e Negros, contra as reformas racistas e genocidas de Temer !’.

Povo negro unido é povo negro forte!

Assinam:

Frente Alternativa Preta
Negras e Negros Sem Medo
Uneafro-Brasil
MTST
Núcleo de Consciência Negra na USP
Kilombagem
MNU – Movimento Negro Unificado SP
Geledés – Instituto da Mulher Negra
Rede Quilombação
Instituto Luis Gama
Circulo Palmarino
Coletivo de Esquerda Força Ativa
Unegro – União de Negras e Negros pela Igualdade
CONEN – Coordenação Nacional de Entidades Negras SP
Mães de Maio
Associação Amparar
Núcleo Impulsor da Marcha das Mulheres Negras SP
Cooperifa
Frente Pro Cotas UNICAMP
Coletivo Rosa Zumbi
Núcleo de Consciência Negra da UNICAMP
Comitê Contra o Genocídio
Instituto do Negro Padre Batista
Fala Negão\Fala Mulher – ZL\SP
Nós, Madalenas (Coletivo Audiovisual de Mulheres)
Blog NegroBelchior
Portal Alma Preta
Coletivo Negro Vozes
Coletivo de Negras e Negros Raízes da Liberdade
Levante Negro
CEERT
AEUSP – Associação de Educadores dá USP
AMO – Associação Mulheres de Odin
Espaço Cultural Cachoeiras – Cohab Raposo Tavares
#Mais
Marcha Mundial de Mulheres
Don’t Touch My Hair – A Festa
Coletivo Martin Luther King Jr. Salvador-Bahia
Movimento de favelas do Rio de Janeiro
Fórum de Juventudes do Rio de Janeiro
Coletivo de comunicadores comunitários e populares de favelas do Rio de Janeiro

 

 

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Política

Como foi que perdemos tudo?

 

Por Douglas Belchior

 

Uma jovem estudante me perguntou, “Como foi, professor Douglas, que os trabalhadores perderam os direitos que tinham conquistado com tanta luta?”.

Fiquei em silêncio por um instante. Depois disse à ela que os motivos foram muitos. E muito complicados. Que não dava pra explicar em pouco tempo o contexto que havia nos levado àquele dia… e então ela quis saber: “Você se lembra daquele dia? Como foi?”

Então me lembrei de 2017.

Era 18h55 de uma quarta-feira, 22 de Março, dia útil, horário de pico. Em Brasília, capital federal do país, 513 deputados votavam (e aprovavam horas depois) um projeto de lei ressuscitado de 1998, que autorizou a terceirização irrestrita no regime do trabalho formal no Brasil.

Eu estava num ônibus lotado de trabalhadores, voltando pra casa depois de um duro dia de trabalho. Os trens estavam lotados, o metrô estava lotado e, em desespero, outros cerca de 12 milhões aguardavam o dia seguinte para sair cedo de casa em busca de um emprego.

As feições cansadas não pareciam estar preocupadas com o que os canalhas estavam a fazer em Brasília. Os mais jovens, belos e sorridentes, não pareciam ter ideia da importância de um emprego com carteira assinada e benefícios. Tampouco aposentadoria. A maioria nessa fase da vida ainda acredita que ficarão ricos e que não precisarão “dessa miséria” do estado.

Desejei ter sido mais um corpo, dentre milhares de corpos, em fúria, ocupando as ruas e invadindo o congresso em meio àquela votação. Mas não houve grandes mobilizações naquele dia. E o meu era só um corpo cansado, dentre outros corpos cansados e apertados dentro daquele busão lotado, desejando chuveiro e cama.

Imaginei, naquele momento, quebrar a vidraça de um banco ou botar fogo num ônibus. Eu admirava a turma que fazia isso. Mas minha pegada era a da “nobreza” da política. Violência, eu pensava, era pra quem não tinha argumentos. Como era idiota!

Imaginei amarrar uma bomba no corpo e explodir o plenário lotado da câmara federal naquele instante. Mas não teria essa coragem. Não entendia como esse tipo de ação radical acontecia em tantos países muitas vezes menos pobres que o nosso… e aqui nada.

Ali, naquele ônibus e naquele instante, eu fui um popular apenas. Fui mais povo do que nunca. Minha consciência política não me diferenciava dos demais passageiros ali. Éramos todas e todos, naquele exato momento, a massa alienada tanto da riqueza que produzíamos, quanto incapazes de incidir na realidade que nos oprimia.

Resolvi aprofundar o tema com a curiosa estudante, que parecia tão interessada em saber. Falei do Golpe de 2016, do parlamento mais conservador da história do Brasil, do caráter entreguista do governo golpista do falecido Temer, dos super poderes dos meios de comunicação e do judiciário, em especial do STF e de um Juíz de primeira instância em Coritiba, chamado Sergio Moro. Expliquei à ela como estes atores, PMDB, PSDB, STF, Globo, FIESP, Sergio Moro e EUA, faziam sexo explícito sem camisinha em plena praça pública, tudo sob as bençãos de setores conservadores de católicos e evangélicos. Um escárnio absoluto! Falei à ela da violência do estado, do genocídio negro e da repressão à classe média progressista.

Bom… mas  tive que dizer também de nossos erros, da irresponsabilidade e dos equívocos conciliadores da única experiência de chegada ao poder pelas forças de esquerda e de sua incompreensível opção em não enfrentar o oligopólio da grande mídia, umas principais responsáveis pela nossa derrota. Falei das divisões da classe, da estupidez da esquerda em não reconhecer o potencial revolucionário das lutas negras, periféricas, feministas e Lgbt’s, do corporativismo e do peleguismo dos sindicatos, da leniência das igrejas e da mesquinhez, da covardia e da hipocrisia dos grupos que se auto-flagelavam em disputas internas nos partidos, sindicatos e movimentos. Minhas costas doíam. E a consciência também. Encerrei a conversa.

Hoje, disse à ela buscando dar fim ao papo, tantos anos depois, velho, cansado e obrigado a trabalhar para comer – afinal, não tenho direito a aposentadoria – sinto vergonha de ler essa passagem nos livros de história.

Mas não culpo meu povo. Não mesmo.

E lá no fundo, ainda acredito em nós.

Acredito em você minha filha.

Bora recomeçar a luta!

 

 

 

 

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No JL: https://goo.gl/yM21Zu

No Geledes: https://goo.gl/XHdk6W

 

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Trabalho Escravo

TERCEIRIZAM-ME

** POR: LUARA COLPA.

“Laçam-me. À mim e os meus

Botam-me novamente no tronco

Alugam-me e definem sobre mim todas as regras

Sou escravo alugado

Meu aluguel é simples:

Trabalho temporário estendido a nove meses e depois me descartam

Contratam outro

um tal de “exército de reserva” se estabelece nesse rodízio

Estamos todos à disposição.

Somos mais de 60 milhões precarizados ¹

Recebemos 40% a menos pelo mesmo serviço que empresas matizes ofereciam

Trabalhamos 3 horas por semana a mais

A cada 10 acidentes com sequela, 8 nos afetam

A cada 5 acidentes com morte, 4 somos nós

Não temos alimentação, nem vale transporte

Empurram-me à informalidade (enquanto as grandes empresas não precisam passar por taxação de grandes impostos e dividendos. E os latifúndios seguem basicamente sem taxação tributária ou limitação de propriedade e exploração).

Alguns Órgãos Internacionais já cobram explicações sobre os trabalhadores escravos do meu país, mas o país nada faz.

Terceirizaram-me.

Sou escravo alugado.

Alugam não só a minha força de trabalho, mas o meu futuro. (Por que motivo irei discutir minha Previdência se sequer carteira assinada tenho direito?)

Com todos os recortes que quiserem me colocar: Mulher, homem, negro, trans, cis, vegetariano, “coxinha”, “mortadela”, “petralha”, “pós moderno”, “anarco”… dêem os “sub-nomes” que quiserem: No fim somos todos escravos.

Precisamos apenas decidir se nos curvaremos à função de Capitão do Mato, ou se nos juntaremos às trincheiras de Resistência.

Sem dispersar. Pois terceirizaram-me. E Terceirizaram-te também, amigo.”

 

¹ (sem nenhum direito garantido, sem décimo terceiro, férias, FGTS e horas extras.)


Luara Colpa é brasileira, colunista no BHAZ e na Carta Capital via Blog Negro Belchior. É mulher em um país patriarcal e oligárquico. Feminista e militante por conseguinte. Estuda Direito do Trabalhador e o que sente, escreve.

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Política

Chapa com 80% de mulheres negras busca vitória inédita em DCE da UFABC

Na saída do Bandejão, integrantes da Chapa Universal se preparam para mais uma noite de aula

 

Como no cinema, candidatura denuncia a ingrata tarefa de mulheres que trabalham duro nos bastidores para alçar os homens às maiores alturas

 

Por Jorge Américo*

 

Dias desses todo mundo correu em alvoroço para assistir nos cinemas aquela história encantadora das três mulheres negras que ajudaram a colocar um homem branco na Lua. A narrativa hollywoodiana inspirada em fatos reais provocou uma bagunça emocional nas mentes e corações dos brasileiros porque é verossímil e se repete cotidianamente na vida doméstica, no trabalho, na universidade ou na militância política. Contra essa lógica, um grupo de estudantes formado por oito jovens negras e dois negros lançou uma candidatura para representar 10.809 estudantes na Universidade Federal do ABC (UFABC).

 

A chapa “Universal” tenta, pela primeira vez, assumir a direção do Diretório Central dos Estudantes (DCE). Tarefa difícil, ainda mais agora que a UFABC aparece como a 5ª melhor universidade brasileira no Índice Geral de Cursos do Ministério da Educação (MEC), tornando acirrada qualquer disputa por posições de visibilidade.

 

Aos 21 anos de idade Laurielen Rodrigues foi indicada para a presidência. A estudante de Ciências e Humanidades acredita que as chances são reais, mas demandam muito trabalho e organização. “A ideia de que até o sonho é um privilégio sempre aparece nas nossas conversas internas. Nós queremos, no mínimo, poder sonhar também. Porém, isso não anula nosso dever de apresentar uma plataforma política consistente e com propostas realizáveis”, reflete.

 

O papel do DCE é defender os interesses dos estudantes em âmbito local sem perder de vista os desafios conjunturais e a luta por uma educação pública gratuita e de qualidade. As prioridades de uma possível gestão serão a luta pela moradia estudantil e permanência na universidade e o combate à lesbofobia, homofobia, racismo e machismo. “Não estou fora dessas realidades, não as discuto com base nas constatações terceiras. Pelo contrário, sou o próprio produto dessas constatações, as vivo, as presencio e sei por onde começar a lutar e resistir”, declara Laurielen.

 

A futura bacharel em políticas públicas Diana Mendes concorre ao cargo de tesoureira. Fã de Cartola e leitora de Ângela Davis, ela se diz preocupada com os rumos da educação e defende que a representação estudantil não se limite ao espaço físico da universidade. “Devemos lutar contra o corte de recursos para o ensino superior, mas também não podemos aceitar os ataques do atual governo contra os direitos dos trabalhadores. Temos de barrar a reforma da previdência e a reforma maluca do ensino médio. Senão o resultado disso vai ser cada vez menos negros nas universidades e cada vez mais negros vivendo na pobreza”, destaca Diana.

 

Laurielen Rodrigues concorre à presidência do DCE da UFABC

 

“Figuras ocultas”

 

Fundada em 2006, a UFABC é uma das instituições federais de ensino superior que aderiram ao sistema de cotas. A ação afirmativa praticada pela universidade reserva 50% das vagas dos cursos de graduação para estudantes egressos da escola pública. Ao final do processo seletivo, aproximadamente 18% das vagas totais são ocupadas por negros e indígenas.

 

Diante da aparente diversidade, a bacharelanda em Matemática Bruna Magno acredita ser muito difícil transformar a empatia das relações cotidianas em confiança política. Moradora do bairro Cidade Ademar, na Zona Sul de São Paulo, e indicada para a vice-presidência, ela explica que o nome da chapa não poderia surgir em um contexto mais apropriado.

 

“Esse nome, “Universal”, foi inspirado em uma palestra da Rosane Borges, uma das maiores intelectuais da atualidade. Ela falava sobre representatividade e sobre essa visão eurocêntrica que não aceita que pessoas negras possam representar o universal, representar todo e qualquer ser humano”, recorda Bruna. “Essas palavras revoltam, mas também dão um grande ânimo. Afinal, como diz a Nina Simone, liberdade é não ter medo”, conclui.

 

A iniciativa de lançar uma chapa formada por pessoas negras se torna mais ousada quando 80% das vagas são ocupadas por mulheres. Os dois homens que integram o grupo, Jorge Costa e Manuel Pedro, se dizem orgulhosos. “È uma experiência nova e desafiadora ver os papéis se inverterem. Queremos dar todo o suporte e respeitar o protagonismo delas”, se compromete Jorge.

 

Não se pode deixar de, novamente, fazer analogia ao filme “Estrelas Além do Tempo” (uma péssima tradução do título original “Hidden Figures”). Mais que tentar vencer uma eleição para o DCE, essas “figuras ocultas” questionam e denunciam a ingrata tarefa de mulheres que, mundo afora, trabalham duro nos bastidores para alçar os homens às maiores alturas.

 

Perfil dos integrantes da Chapa Universal

 

Presidente

Laurielen Rodrigues – Bacharelado em Ciências e Humanidades

Vice-Presidente

Bruna Magno – Bacharelado em Matemática

Tesouraria

Andressa Romero – Bacharelado em Ciências e Humanidades

Diana Mendes – Bacharelado em Políticas Públicas

Secretaria-Geral

Gabriela Sabino – Bacharelado em Ciência e Tecnologia

Diretoria Cultural e Acadêmica

Gabriella Guinlle – Engenharia de Gestão

Diretoria de Comunicação

Ana Cristina Carvalho – Engenharia de Energia

Carolina Maria Santana – Licenciatura/Bacharelado em Ciências Biológicas

Diretoria Social:

Manoel Pedro dos Santos – Bacharelado em Ciência e Tecnologia

Secretária de Políticas Educacionais

Jorge Costa – Engenharia de Materiais e Licenciatura em Matemática

 

 

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* Jorge Américo é jornalista, poeta e educador. Editor do blog “Poemas de Gaveta” (poemasdegaveta.blogspot.com.br).

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Cultura

Samba e Negritude: uma roda de historias e boa música na zona leste de SP

“Samba & Negritude” – Uma conversa sobre as comunidades negras do samba, carnaval, indústria fonográfica e para discutir o papel do samba como organizador da população negra no combate ao racismo, acontece no próximo dia 25 de Março, na Zona Leste de SP

 

Por Negrume

 

A indústria Cultural se mostra ao longo dos anos tão racista quanto tantas outras indústrias. Esvaziamento de significados e símbolos, deslocamento de protagonismos e desrespeito a bases culturais, dentre outros crimes.

 

Atualmente a discussão sobre Apropriação Cultural está acontecendo graças as denúncias constantes da população NEGRA que não tolera mais ser roubada e enganada.

 

Nesse contexto é cada vez mais relevante e importante estudar e questionar o avanço da branquitude nos sambas através dos tempos. A entrada de empresários, carnavalescos e pessoas BRANCAS de fora das comunidades do samba, fez com que através dos tempos a manifestação cultural se distanciasse de suas origens, impediu um maior avanço anti-capitalista e anti-racista e em alguns locais descaracterizou o samba como estética musical e voz negra da cultura brasileira.

 

Convidamos a todxs para bater um papo sobre o racismo no samba, carnaval e indústria cultural.

 

Esta edição da roda do NEGRUME surgiu a partir da leitura dos livros “Samba Negro, espoliação branca” de Ana Maria Rodrigues, “Batuque memorável do Samba Pauistano” de Carlos Gomes e “Carnaval em branco e Negro” de Olga Rodrigues de Moraes Von.

 

Convidadxs:

CAROL NASCIMENTO, cantora, compositora e membra da roda de samba Sambadas.

MARIA HELENA EMBAIXATRIZ, cantora e embaixatriz do samba de São Paulo.

SELITO SD, cantor, compositor, pesquisador e membro da roda de samba do Cordão da Mentira.

OSWALDO FAUSTINO, Jornalista e escritor.

TANIA REGINA PINTO, Jornalista, educomunicadora e blogueira no blog “Primeiros Negros”.

MOISÉS DA ROCHA, produtor, pesquisador e radialista do programa “O samba pede passagem”.

 

Data: 25/03 Sábado
Local: CEU Lajeado (Guaianases)
Horário: 14h às 18h

 

Como chegar: Descer na estação Guaianases da CPTM e pegar a lotação Jd. Fanganiello (10min)

 

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Cultura racismo

André Sturm e o racismo institucional de sempre

Por Douglas Belchior

 

Replico abaixo, um grito de desespero do irmão e artista popular Aloysio Letra que, em nome da luta pela cultura popular em São Paulo, entrega sua vida e é afrontado com a postura arrogante e incompreensiva daqueles que detém o poder. Sua voz representa um seguimento que tem sido alvo do ataque conservador da gestão do Prefeito Dória em São Paulo. E não por acaso, afinal, daí surgiram parte das principais lutas por direitos nos últimos anos em São Paulo. Leia e compartilhe. É importante.

 

Aloysio Letra, artista popular, vitima de racismo em atividade com Secretario de Cultura, em SP

 

 

Por ALOYSIO LETRA

 

Oprê !

 

Sou NEGRO, moro em Guaianases e não tenho relação com partidos políticos! Estou frisando isso porque faz parte de todo um contexto do que vem acontecendo comigo e daí já vou dizendo: Não sou do PT ! Nem vem com essa !

 

Já não bastassem todas as arbitrariedades criminosas dessa prefeitura, ontem, 21 de Março, dia Mundial de Luta contra o racismo, eu sofri discriminação e fui praticamente expulso de uma reunião pública.

Os responsáveis pelo crime: André Sturm, secretário de “cultura” municipal e sua assessora Lara.

 

Neste dia 21 de Março, aproximadamente às 17h teríamos uma reunião do Fomento a Dança, um dos fomentos ameaçados pela gestão Dória/Sturm. Subi quieto e pacificamente a Galeria Olido para uma reunião com a comissão da dança na Secretaria Municipal de Cultura. Eu tinha o consentimento total dxs presentes, acompanhava o Fórum de Artes Negras e Periféricas pois sou membro orgânico do Movimento Cultural das Periferias (organização que tem em conta a importância de discutir a questão étnico-racial). Eu substituía na reunião a presença de Douglas Issus do grupo Fragmento Urbano, grupo aqui de Guaianases e que pesquisa a cultura NEGRA.

 

André Sturm se recusou a iniciar a reunião caso eu não saísse da sala. Ele não disse isso aos presentes. Usou a Assessora, Lara, que disse que a princípio que só estariam pessoas que estavam na lista enviada ao gabinete previamente, mas que abriria exceção para Solange que representaria outra organização da dança. Solange, que é testemunha do que fizeram comigo, é uma pessoa branca (ou não-negra). DETALHE: A princípio Solange poderia ficar e eu teria de sair sem maiores justificativas, mesmo Solange também não estando na referida lista. Solange inclusive dado todo incomodo na sala, queria sair pra eu substitui-la. Não aceitei. Eu tinha direito legitimo de estar na reunião e sabia que não estava numa manifestação de rua. Enfim, sou adulto há tempos…

 

Todxs presentes, cerca de 10 pessoas solicitaram a Lara que informasse o Secretário Sturm que eu estava lá para reunião substituindo legitimamente uma pessoa e representando coletividades da periferia. Disseram que gostariam que eu participasse da reunião e que ela informasse André Sturm. Lara levou o pedido ao gabinete e André Sturm foi irredutível. Se eu não saísse não haveria reunião !

 

Resolvi pela saída e relatei que aquilo era fruto de uma perseguição política, pois no fim de semana eu estava em manifestações pelo DESCONGELAMENTO, atos que ocorreram na Casa de Cultura de Guaianases e Itaim Paulista no dia 18/03. Falei que isso não era justificativa para me retirar da sala, mas que não queria prejudicar a reunião e sairia. Afirmei que Lara, como assessora de Sturm, foi co-autora de discriminação. Ao meu ver ação criminosa.

 

Ao sair da sala percebi que André Sturm e seus assessores pediram 2 seguranças para blindar a sala da reunião. Voltei e relatei a todxs que estavam na reunião que chamaram seguranças para restringir o acesso a sala e para me constranger. Depois de sair de novo ao corredor Lara me disse “Você não vai chamar o elevador?”. Ignorei-a e fiquei no corredor.

 

Fiquei das 17h30 às 19h30 do lado de fora enquanto cerca de 5 seguranças se revezavam fechando o acesso ao corredor inclusive proibindo o acesso aos banheiros para todxs demais ocupantes do andar. Perguntei se aquele era o procedimento comum e muitxs seguranças estranharam e não sabiam o porquê daquele pedido. Não era comum este procedimento e o revesamente de seguranças foi usado para eles também não saberem o motivo da presença deles por lá. Alias, pra mim deve ser ilegal isso já que era uma pauta pública e como já disse eu estava lá com o consentimento da comissão.

 

Companheirxs do grupo Treme Terra e da Cia Sansacroma são testemunhas dos fatos aqui relatados e fizeram falas na reunião sobre o que ocorreu comigo. Vocês podem testemunhar neste vídeo: http://bit.ly/2mQeG4l (No tempo de 1.16 há na reunião discussão sobre minha retirada da reunião. Sturm não assume o erro ou a discriminação. Ouçam com fones de ouvidos. O áudio está ruim).

 

Não é um fato isolado essa perseguição. Dia 14/03 no encontro “Secretaria Escuta” do Cinema de Baixo Orçamento, André Sturm se recusou a responder apenas uma pergunta dirigida a Secretaria de Cultura. A pergunta que se recusou a responder foi “Qual a visão da Secretaria sobre medidas afirmativas nos programas de cultura e na SPcine ?” Quem fez a pergunta fui eu e ele não respondeu apenas a MINHA pergunta. Ele não quer tratar sobre as desigualdades territoriais, raciais e de gênero. Fica evidente. Há testemunhas nesse dia também, companheirxs da A.P.A.N como Renato Candido e Thais Scabio.

 

Também não é um caso isolado em relação a outrxs indígenas, negros e periféricos da cidade. Infelizmente tenho que relatar aqui que nas quebradas várias pessoas, principalmente mulheres, estão passando por chantagens, perseguições, complôs, assédios morais e além disso o próprio André Sturm pelo facebook vem ofendendo diversas pessoas. Não posso citar nomes aqui para não expor as pessoas, mas há casos diversos que testemunhei na ZL e ZS.

 

É coronelismo puro gente ! Precisamos da solidariedade de vocês ! Compartilhem esse relato por favor !

 

Quero a ajuda de advogadxs NEGRXS que se disponham a me orientar de como proceder.

 

Racismo institucional e discriminação é crime!

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Cinema racismo

De Moonlight a Negro Drama

São impressões. O texto não dá conta de quase nada do filme, só de um pouco do que senti e pensei depois dele e como relaciono isso com o que já carrego. Se pá, de outro ângulo a ideia seja outra, mas tá aí.

Por Igor Gomes*, de seu blog pessoal

“Sou um homem, afirmo.
Acima de tudo.
Apesar de tudo
E por causa de tudo: um homem.”

Roberta Estrela D’alva

Daria um filme!

A história de cada garoto negro no mundo — e existem negros no mundo todo — daria um filme. E deu. Um filme que se desenrola debaixo da luz da lua, aqui nessa terra onde garotos negros não choram, no mesmo lugar onde o choro dos nossos ancestrais temperou o mar.

“E a gente rimando remando contra a maré, a sós.

Cavoucando vulcões, por debaixo de nossas lagrimas

Há rebelde erupções, guerrilhando ardentes em nossa voz.”

Akins Kintê

 

 Moonlight é um filme sobre muita coisa e por isso é um filme sobre meninos negros, sobre homens negros. Muita fita. A identificação e o estranhamento perseguem a gente durante cada cena. Um elenco todo negro faz com que o racismo nem apareça enquanto dilema, mas ele está ali: limitando a trajetória dos homens e mulheres do filme. A presença do tráfico e do abuso de drogas; o abandono paterno; a imposição de uma masculinidade agressiva; a solidão de uma mãe negra; a pobreza; a homofobia; a prisão e mais uma pá de fita estão ali como dramas da comunidade negra mas não reduzem os personagens a estereótipos. Tudo está debaixo das lágrimas, eclode em um ou outro grito, em um ou outro diálogo mas permanece guardado. Profundo. No fundo do mar que é o peito.

“Diz que homem não chora, tá bom, falou…”

Racionais MC’s

 

“Despencados de voos cansativos.

Complicados e pensativos.

Machucados após tantos crivos,

Blindados com nossos motivos…”

Emicida

 

O filme se passa na gringa mas nos toca como se fosse aqui. Somos também esses garotos negros em nossas próprias quebradas. Tão diferentes mas tão parecidos. O Chiron, que na mesma vida também é Little, também é Black. Também pode ser Kaique Augusto; João Victor; Ithalo; Jonathan; Douglas Rodrigues; Igor; Matheus e tantos outros. Furo em algumas estatísticas, vítima de outras.

Sob a luz da lua convivem a fragilidade e a violência. “Eai, suave”; “se xingar minha mãe ta fudido”; “fuma desse aqui”; “bicha, bicha!”; “te pego na saída”; “é nois, parça”. É dialeto básico nas ruas daqui e de lá. Da ficção e da realidade. Por isso Moonlight é tanta fita. É estranho ver tanto de nós mesmos numa tela, exposto, ali para quem quiser ver, pra gente mesmo ver. A colonização pode até nos convencer de que somos animais mas não pode nos impedir de ver que a nossa pele brilha quando bate a luz da lua.

“Brilhar é resistir nesse campo de fardas.”

Rico Dalasam

 

A rapidez e a intensidade das cenas. Os olhares dos personagens. A força das poucas palavras ditas. Tudo vai deixando o olho marejado. A nossa fragilidade fica exposta e é como se existisse uma tristeza ali, até mesmo no tom da luz, na brisa suave que faz a gente ouvir só o barulho do coração. Mas a gente não chora. É como se a gente ficasse à espera de uma surra que arranque toda lágrima represada. O soco nos acerta em cheio com a pergunta “você chora? ” Mas ainda assim não choramos. Chiron diz que chora, que chora muito como se quase fosse se transformar em lágrimas. Temos medo de morrer afogados. Temos medo do mar. Temos medo do Atlântico. Temos medo do oceano que somos nós mesmos.

“A gente nem segue os próprios conselhos, né?

A gente nem se olha direito no espelho, né?”

Nego E

O zika do Deivison Nkosi, em seu texto “O pênis sem o falo: algumas reflexões sobre homens negros, masculinidades e racismo”, nos diz que “quando não é invisibilizado o negro é representado como contraponto antitetico do humano, a sua aparição, quando autorizada, é reduzida a uma dimensão corpórea, emotiva ou ameaçadora, tal como um King Kong descontrolado: tão grande, tão rústico, tão negro. ”

A colonização nos impõe um modelo de sociedade e também de existência. Limita as possibilidades do corpo e da alma. Essa masculinidade (ou hiper masculinidade) imposta aos negros tá ligada a tentativa de nos animalizar, de tornar nosso corpo matavel. Tipo o King Kong (rei do Congo, se traduzirmos); tipo o maluco violento das gangues que não tem nada a perder logo pode (e deve) ser morto num enquadro; tipo as diversas propagandas racistas que colocam o “negro do pau grande” como o maior risco pra sociedade.

Nadar contra a corrente é lutar contra o de fora, mas é também lutar contra nós. Contra aquilo que fizeram de nós, contra a forma que nos representam. É ressignificar e destruir o tempo todo. Quase tudo que sabemos sobre nós foi dito por eles. Não sabemos o que somos e o que achamos que somos. Tomar de volta a parcela de humanidade que nos foi roubada também é lutar contra o tal do sistema.

Acima de tudo, por causa de tudo e apesar de tudo: somos humanos.

“Black Boys Don’t Cry.” by: IGGYLDN

“Eu sei o quanto dói, mas viva pra ver se passa.” Amiri

 

É o mano Deivison que nos diz ainda que “urge chamar a atenção para o caráter colonial das masculinidades hegemônicas, tanto para compreender as outras masculinidades invisíveis em sua generalização abstrata, quanto as próprias masculinidades hegemônicas em suas intersecções de poder sobre as mulheres e outros homens.”

A masculinidade dominante, amarrada com os tantos dilemas de raça, classe, sexualidade, território e etc, é essa em que os homens são dominadores e as mulheres são colocadas como dominadas. Em que o pai acredita não ter o dever de assumir o filho ou cuidar da casa. Essa que não só permite mas também incentiva os homens a violentar e até a matar as mulheres. Que, para se manter dominante, precisa marginalizar a diversidade de gênero e de sexualidade. É a mesma que vigia e controla os corpos negros.

A violência policial; o encarceramento em massa; o assassinato de crianças e adolescentes; o alto índice de mulheres negras assassinadas durante o parto e tantas outras brutalidades (as vezes sutis) do genocídio negro vão se articulando com a destruição do nosso poder sobre nós. Vai se criando essa casca que nos afasta de nós mesmos. Quando se leva socos e pontapés todos os dias parece que a única opção é sair na rua com o rosto sangrando.

“Lave o rosto nas águas sagradas da pia.”

Racionais MCs

Pra quem não leu o negro drama, pra quem não assistiu o negro drama, pra quem vive o negro drama é urgente lavar o rosto nas águas sagradas da pia. Perceber o brilho da lua quando bate na nossa pele. Entender de onde vem o brilho, entender de onde vem nossa pele. É urgente decidir o que fazer com isso. Cada um vê cada coisa de onde está. Foi também isso que me disse Moonlight nessa primeira vez que assisti. Não é só sobre uma tal de representatividade nos cinemas. É sobre se manter vivo e lutar pra manter vivos uns aos outros. Vidas negras importam. Que o tamo junto seja tamo junto memo.

Sente o negro drama, vai, tenta ser feliz!

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*  Igor é um jovem negro de 21 anos, estudante de História, que faz um corre no Observatório da Juventude – Zona Norte de SP

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Cultura Política

Seminário descentraliza discussão sobre cultura e política na cidade de São Paulo

Organizado pelo Movimento Cultural das Periferias, o seminário “Insurgências Periféricas: A cidade que queremos”, tem o objetivo de expandir o debate sobre as desigualdades sociais na cidade de São Paulo e na América Latina.

 

Por Movimento Cultural das Periferias

O Movimento Cultural das Periferias, formado por coletivos culturais de toda a cidade, coloca em pauta uma discussão sobre a cidade de São Paulo suas múltiplas desigualdades e resistências, com a realização do seu seminário nos dias 11 e 12 de março, no Sacolão das Artes, espaço de resistência cultural, localizado no Parque Santo Antônio, zona sul de São Paulo.

O diálogo “Lutas Políticas e Libertárias no Brasil” abre o seminário no sábado às 10h, com Dennis de Oliveira e Rosane Borges. No decorrer do dia, após o almoço, acontece a segunda mesa com o debate “Olhares de luta pela América Latina, com o diálogo entre Renata Eleutério, Sandro Oliveira e a Coletiva Fala Guerreira, com início previsto para às 15h. Para encerrar o primeiro dia da programação, a organização do evento abre espaço para artistas apresentarem seu trabalho ao público presente.

No domingo, a programação no período da manhã será dedicada a discutir as “A cidade que temos – Histórico de Lutas Populares” com Enrico Watanabe. E no período da tarde serão realizadas dinâmicas práticas, envolvendo metodologias que facilitam a sistematização de conhecimentos e ideias. Ao final do seminário haverá a leitura da relatoria e a elaboração de um documento que contenham os desdobramentos e encaminhamentos elencados ao longo dos dois dias.

 

Formado por diversas coletividades, grupos, artistas, cidadãos e movimentos periféricos,o Movimento Cultural das Periferias surge em 2014, a partir de uma série de encontros e fóruns de articulação política e cultural na cidade, para promover atividades que visam difundir conceitos e práticas de participação política entre as classes populares e periféricas. Uma de suas principais conquistas no campo de políticas públicas é a construção da Lei de Fomento à Cultura da Periferia, iniciativa pautada no fomento aos coletivos culturais da periferia, visando a descentralização e melhor distribuição das verbas de políticas culturais na cidade.

Além de atrair e instigar o público presente com informações sobre a cena política e cultural em São Paulo e na América Latina, o evento será ainda uma ferramenta para apresentar os propósitos de atuação do Movimento Cultural das Periferias. “A importância do evento também vai se dar por entender o que é esse tal Movimento Cultural das Periferias, que não é um coletivo, são várias coletividades, vários fóruns, várias frentes, que se identificam com esse símbolo, que não quer discutir cultura apenas como política pública”, conta Pablo Paternostro, um dos integrantes do Movimento, relatando o seu ponto de vista sobre a relevância do seminário.

Juntamente com os debates sobre cultura, direito à cidade e participação política, outras questões ligadas à vida do cidadão periférico também serão pautadas no evento, como por exemplo o acesso a educação, saúde e mobilidade.

A agenda de luta do Movimento Cultural das Periferias está focada nos processos históricos de exclusão e na garantia de mecanismos para promoção da equidade social. Para uma cidade ideal é necessário assumir dentro e fora das políticas públicas ações efetivas e afirmativas, que promovam reparações históricas.

 

“Costumamos dizer que lutamos pelo óbvio, mas até mesmo o óbvio precisa ser dito. Nós da periferia nos vemos como uma grande classe de pessoas que através das gerações passaram por espécies de “diásporas”. Muitos de nós somos de famílias migrantes, indígenas ou negras. Somos as pessoas que foram e são expulsas por processos de higienização, gentrificação e outros processos perversos que expulsam as pessoas da cidade. Estar na periferia é também estar fora do centro das prioridades do Estado, exceção apenas para a polícia e código penal”, enfatiza Aloysio Letra, integrante do Movimento Cultural das Periferias.

Para participar do seminário “Insurgências Periféricas: A cidade que queremos”, é necessário fazer a inscrição na página do evento no Facebook ou acessar direto o formulário de inscrições.

 

Agenda:

1º Seminário – “Insurgência Periféricas: A cidade queremos”

Local: Sacolão das Artes

Endereço: Avenida Cândido José Xavier, 577, Parque Santo Antônio

Data: 11/03 – 12/03

Horário: 09h às 20h

Entrada: Gratuita

 

Programação

11/03 – Sábado

9h – Café da manhã coletivo

9h30 – Dinâmicas de Integração, relaxamento e concentração

10h – Abertura Oficial – Memória – Quem somos e como chegamos até aqui… narrando a história do MCP – Katia Alves e Elaine Mineiro

10h30 – Mesa: Lutas Políticas e Libertárias no Brasil

Rosane Borges, jornalista, professora do Celac (Centro de Estudos Latino-Americanos em Comunicação e Cultura) da Universidade de São Paulo (USP), pós- doutoranda em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo(ECA-USP) articulista do blog da editora Boitempo e do site Justificando.

Dennis de Oliveira, professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA–USP)

Mediação de Queila Rodrigues e Aloysio Letra

13h30 – Almoço

15h – Mesa Olhares de Luta Pela América Latina

Renata Eleutério, educadora popular, artista periférica e cientista social. Integra o Movimento Cultural das Periferias, é graduada em Ciências Sociais pela Fundação Santo André e mestranda pela Unifesp. Faz parte do coletivo teatral NoBatente, coletivo de memória CPDOC Guaianás, também participa do Quilombo Sambaqui e da Congada de Moçambique Cambaiá.

Sandro Barbosa de Oliveira, cientista social, educador popular, professor e sujeito periférico da quebrada. Mestre em Ciências Sociais pela Unifesp e doutorando em Sociologia pela Unicamp. É associado do Coletivo autogestionário Usina e faz parte da Escola de Samba Unidos da Lona Preta – MST.

Coletiva Fala Guerreira – Coletiva formada por mulheres residentes na periferia de São Paulo, que busca dar voz e visibilidade as mulheres periféricas a partir das vivências e histórias que carregam.

18h30 – Jantar

20h – Noite Cultural

 

12/03 – Domingo

9h – Café da Manhã Coletivo

9h30 – Dinâmica de despertar

10h – Mesa A Cidade que temos – Histórico de lutas populares

Enrico Watanabe, formado em direito, trabalhou na defesa de direitos em diversas organizações não governamentais e atualmente presta assistência jurídica à grupos, coletivos e organizações sociais e sindicais, mantendo ao longo dos anos a atividade de Educador Popular do NEP 13 de Maio.

13h – Almoço

14h30 – Ações Para Cidade que queremos

Grupos de trabalho

Facilitação Silvia Lopes e Aluízio Marino

 

19h Encerramento

 

Mais informações:

Popular Comunicação

Ronaldo Matos – [email protected]

(11) 9 8470-62123 (11) 4604-4734

 

 

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Mulheres Negras

Por um 8 de março de mulheres pretas, pobres e periféricas

Militantes da Uneafro-Brasil em ato de 20 de Novembro de 2015

 

Por Rosângela Martins*

 

Nós militantes feministas negras, estamos com nossas bandeiras empunhadas, nossas faixas, nossos batuques, para que nossas vozes possam ecoar pelas ruas das cidades.  

O 8 de março é uma data de extrema importância para o movimento de mulheres, e este ano, em especial, corresponde a um chamado de paralisação internacional ou greve geral das mulheres.

Por óbvio, não podemos perder de vista o fato de que no Brasil, vivenciamos um golpe político com a clara intenção de promover uma deliberada retirada de direitos conquistados a duras penas. O mais triste é ver o quanto isso reflete na vida das mulheres negras. Motivo que nos leva a parar.

 

As mães negras, que choram a perda de seus filhos por conta da violência policial, verdadeiro genocídio da juventude preta, estão em luta.

 

É notável que a mulher negra será o principal alvo a ser atingido com a prometida reforma da previdência social. Já no campo da educação, setor composto por uma maioria de mulheres, o enorme impacto implicará na desqualificação do já sofrível ensino público, sucateado há muito tempo. Mas será que todas nós conseguiremos parar?

Imagine um dia totalmente paralisado pelas mulheres.

Um dia em que a trabalhadora do lar, ciente de que está ameaçado o seu direito à aposentadoria, por todos os anos em que manteve a dinâmica de uma casa, e sem remuneração, deixasse de preparar a alimentação, lavar as roupas das pessoas que ali vivem, levar seus filhos à escola…

Militantes da Uneafro-Brasil em manifestação pública

 

Um dia em que as professoras decidissem abandonar a sala de aula para lecionar nas ruas, invocando seus direitos pela valorização da categoria, pela não redução de seus salários, contra a reforma da educação que elimina matérias de suma importância para a formação de todas nós…

Um dia em que nossas jovens, nossas filhas, que almejam mais do que um diploma de ensino médio, que desejam chegar à universidade, encarar profissões desafiadoras a partir de oportunidades igualitárias, também parassem…

Um dia em que parassem também as trabalhadoras terceirizadas, em sua maioria negra, que limpam as escolas, preparam as merendas, estão no telemarketing, submetidas a empregadores que mais violam os seus direitos pagando cada vez menos e exigindo cada vez mais…

Um dia em que as empregadas domésticas, que demoraram anos para terem seus direitos trabalhistas reconhecidos, e agora, diante da reforma da previdência, vêem a aposentadoria como algo inalcançável, cruzassem seus braços…

Militantes da Uneafro-Brasil em manifestação pública

 

Talvez não alcancemos o todo da massa feminina brasileira já neste dia 8, mas está evidente a potência mobilizadora da luta das mulheres em todo o mundo. Nossas irmãs, que rompem com o silêncio, com relacionamentos abusivos e violentos, refazem a vida, reconstroem sua história, sua auto-estima, sua luta, e gritam para que não sejam mais um número de vítimas do feminicídio, estão em luta.

As mães negras, que choram a perda de seus filhos por conta da violência policial, verdadeiro genocídio da juventude preta, e ainda, as que enfrentam uma “via crucis” para que seu filho, companheiro, pai, irmão, sobrevivam apesar de um sistema penal seletivo que encarcera pretos de forma massiva, estão em luta.

Somos essas mulheres. Por todas elas e por todas nós, paramos.

Juntas, somos muitas. Juntas, venceremos!

 

Grupo de formação feminista negra da Uneafro-Brasil

 

*Rosângela Martins é advogada, feminista negra e coordenadora nacional do movimento Uneafro-Brasil