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Cotas Raciais racismo

Unicamp pune estudante negro por ativismo a favor de cotas raciais

Unicamp persegue e impõe suspensão de dois semestres a estudante negro, ativista do movimento de luta por cotas raciais na universidade.

 

Por Douglas Belchior

Em nota, o Diretório Central dos Estudantes da Unicamp detalha a perseguição racista que o estudante Guilherme Montenegro tem sofrido por parte da reitoria desta universidade. Montenegro tem sido alvo de insultos e até ameaças sem que, no entanto, a reitoria se manifeste sobre isso. Ou seja, a universidade pune um estudante negro por seu ativismo por cotas raciais e democratização da instituição e por outro, é conivente com práticas racistas em seu ambiente.

Segue abaixo o relato de Guilherme.

 

Guilherme Montenegro em protesto contra o racismo na Unicamp

 

Por Guilherme Montenegro

Ao entrar na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) qualquer aluno se depara com a caracterização de uma universidade de ponta, grande polo científico e tecnológico brasileiro, mas ainda assim é impossível não notar a expressão da desigualdade. Ser um estudante negro em uma universidade majoritariamente branca me fez enxergar duas coisas: 1. o quanto é difícil estar em um ambiente onde nada do que se vê foi feito para você; 2. não conseguiria, enxergando essa realidade, me calar diante de tanta injustiça.

Desde o meu ingresso na Unicamp participei do movimento estudantil e pouco tempo depois do movimento negro. Achava que esse lugar de vasta produção científica seria automaticamente mais tolerante, mas o elitismo e o racismo enraizado nas instituições brasileiras e no nosso cotidiano permite absurdos como cartazes e pichações de cunho racista ou mesmo a omissão da reitoria da universidade em tratar desse tema e de outros tão importantes, como a implementação de cotas étnico-raciais, de ampliação das políticas de permanência etc. Foi a partir dessa insatisfação com a situação da universidade, que nós estudantes da Unicamp, construímos em 2016 a maior greve estudantil da história dessa instituição. No momento em que se intensificam os ataques aos de baixo pelos de cima, contar com uma mobilização dessas trouxe um sentimento progressivo de que era possível a partir desse processo alcançar um modelo de universidade mais democrático, com cotas e respeito as diferenças.

Conquistamos a realização de três audiências públicas que discutiram as cotas nas universidades e uma votação no conselho universitário que pode passar a escrever um novo capítulo da história da Unicamp, mudando essa situação de exclusão. Essas conquistas ainda assim não refletem a posição da Reitoria da Unicamp diante desse enorme movimento.

 

Criminalização

Em julho de 2016 fui notificado da abertura de um processo disciplinar contra mim por ter participado de uma das ações que os estudantes grevistas organizaram coletivamente. Nesse processo fui julgado arbitrariamente por uma comissão abertamente contrária a greve, que foi escolhida a dedo pela reitoria para aplicar uma punição severa contra mim de dois semestres de suspensão ou dez horas de trabalho semanal na universidade, sendo que por depender da bolsa de auxílio social já cumpro outras quinze horas semanais, ou seja, o estudante bolsista da Unicamp tem uma pena de sessenta horas a menos de estudo no mês devido a sua condição econômica.

Assim que divulgado um vídeo da ação que participei durante a greve, recebi diversas ameaças de morte de grupos de extermínio, insultos racistas e diversas manifestações pedindo minha expulsão e até meu cárcere.

Enquanto isso, a Unicamp ainda não respondeu a denúncia feita pelos estudantes através de um dossiê feito pelo DCE (Diretório Central dos Estudantes) que comprovam práticas racistas de docentes como chamar alunos negros de primatas, chamar uma manifestação que simulou a Via Crucis de terreiro de pomba-gira ou mesmo o ato de me expor nas redes sociais suscitando uma perseguição cibernética racista.

 

 

Toda essa situação evidencia aquilo que notei quando pisei na Unicamp. De fato a universidade, apesar de teoricamente pública, não foi feita para mim ou para qualquer jovem negro que sonha com outro futuro. O futuro que é concedido para nós, segundo o lugar social que ocupamos nas estatísticas é outro. Assim que divulgado um vídeo da ação que participei durante a greve, recebi diversas ameaças de morte de grupos de extermínio, insultos racistas e diversas manifestações pedindo minha expulsão e até meu cárcere. É esse o lugar que gostariam que todos os jovens negros ocupassem e em certa medida já ocupam, como é evidenciado no caso de Rafael Braga, jovem negro em situação de rua preso em 2013 por portar Pinho-Sol em uma manifestação no Rio de Janeiro. Ele que sequer estava participando das ações, foi condenado recentemente a 11 anos de prisão por tráfico de drogas, alegado pela polícia militar de forma bastante duvidosa.

 

 

Se a luta por direitos políticos acontece mesmo no regime “democrático”, qual o lugar dos negros nessa democracia?

O Estado tenta nos esmagar. Se a luta por direitos políticos acontece mesmo no regime “democrático”, qual o lugar dos negros nessa democracia? Isso não significa que precisamos aceitar esses desfechos. Lutaremos até o fim pelo nosso direito a organização política, a livre manifestação de ideias e por universidades cuja composição racial seja equivalente a da sociedade brasileira. Em pouco mais de um mês, no dia 30 de maio, teremos a votação de cotas no Conselho Universitário da Unicamp. Espero estar ocupando a cadeira da representação discente para qual fui eleito e não ser proibido de participar da possibilidade de outro futuro para jovens negros, que como eu, ainda estão expostos a essas barreiras do vestibular e do racismo institucional.

 

 

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Mulheres Negras

Temer não é padrinho das mulheres negras, de nossa luta e história!

Por Núcleo Impulsor da M.M.N-SP – Após declaração de Luislinda Valois, ministra de direitos humanos, de que Michel Temer seria “padrinho das mulheres negras brasileiras” (Vídeo abaixo), Marcha de Mulheres de Negras de São Paulo emite forte Nota pública

 

Do Facebook do Núcleo Impulsor da M.M.N

 

No último dia 12 de abril a ministra dos direitos humanos Luislinda Valois falou em nome das mulheres negras brasileiras afirmando que Michel Temer seria “um padrinho das mulheres negras”. A Marcha de Mulheres Negras de São Paulo não reconhece essa posição. Ao afirmar que Michel Temer tem feito bem para nós negras deste país acaba demonstrando profundo desconhecimento de qual vem sendo a posição apresentada pelo nosso movimento nos últimos anos.

A política do apadrinhamento remete aos tempos coronelistas. Era através dessa forma de lidar com as pessoas que a Casa Grande mostrava sua força junto a população local e negra. Reivindicar isso é reivindicar que as mulheres negras brasileiras são seres de segunda classe e que devem baixar a cabeça para “padrinhos” brancos para assim poderem estar nos espaços de poder e da política.

 

A ministra pode se sentir apadrinhada por Michel Temer, pode falar em seu próprio nome, mas não no nosso!

 

É inconcebível para nós reconhecer um homem, branco, heterossexual, golpista e representante direto da Casa Grande e da retirada de direitos da população negra como padrinho. Em São Paulo, mais de 3 mil mulheres negras ocuparam as ruas do centro no dia 25 de julho de 2016 denunciando o racismo e machismo existente na política e também nos colocando na rua contra o governo Temer. Luislinda pode acreditar que o golpista Temer é seu padrinho político, mas não pode ignorar a intensa movimentação política que o movimento de mulheres negras vem fazendo se colocando contra os ataques que temos sofrido e que se aprofundam com o golpe.

Falar que nossos passos vem de longe e que uma sobe e puxa outra tem um valor para nós mulheres negras de nos reconhecermos no combate cotidiano contra o racismo e o machismo. São os nossos corpos e daqueles que amamos que tombam todos os dias pelas mãos do Estado racista e misógino enquanto os que apoiam o governo de Michel Temer negam o racismo e o machismo, vociferam para que o genocídio da nossa população continue acontecendo e que morramos presos. Nossos passos vem de longe por que não baixamos a cabeça para aqueles que insistem em nos exterminar.

Os ataques que Michel Temer tem feito desde que assumiu a presidência nos atingem diretamente. Luislinda deveria ter lembrado disso ao colocar em nossas bocas e em nossos nomes posição que não reivindicamos. Houve corte de 61% do orçamento federal para o combate à violência contra mulher e nós mulheres negras morremos mais por causa de feminicídio e a ação deste governo golpista é nos relegar ainda mais à morte.

O desmonte da educação e saúde através do congelamento de investimentos por 20 anos é mais uma demonstração do quanto Temer não se importa com as nossas vidas e dos nossos. Temos o fechamento de programas como a Farmácia Popular e o aumento do valor da inscrição para o PROUNI. São as mulheres negras que mais recorrem aos serviços públicos e que terão sua saúde e educação negligenciadas por 20 anos.

Não podemos esquecer também do carro-chefe do governo Michel Temer: a Reforma da Previdência. A proposta de modificar a idade mínima para aposentadoria é uma proposta para nos matar de trabalhar. A nossa expectativa de vida média no Brasil é praticamente igual à proposta apresentada de idade mínima pelo governo. Em algumas regiões chega a ser menor do que 65 anos. Temer não aprofunda apenas a precarização das nossas vidas, mas inclui requintes de crueldade para nossa morte.

A ministra pode se sentir apadrinhada por Michel Temer, pode falar em seu próprio nome, mas não no nosso! Ser mulher negra no Brasil, com tudo o que significou a diáspora africana forçada e o processo de escravidão nesse país , não é fácil. Enfrentamos violências cotidianas e Luislinda também vive isso e por viver isso não pode nos colocar nesta posição subserviente à Casa Grande. Não aceitaremos isso! Continuamos os passos de nossas ancestrais na luta contra o racismo e o machismo, continuamos a resistência, nos aquilombamos e não ajoelhamos frente àqueles que tiram de nós a nossa vida.

Seguimos a nossa luta diária contra o racismo, machismo, misoginia, lesbofobia e transfobia. Contra o genocídio da juventude negra, pela demarcação das terras indígenas e quilombolas, contra a violência sexista que nos mata e estupra a cada minuto e contra a retirada de direitos que Temer vem fazendo!

Temer não é nosso padrinho! Estamos aqui pra dizer que nós fazemos por nós esse enfrentamento cotidiano!

 

Marcha das Mulheres Negras de São Paulo

 

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Cotas Raciais

Nós viemos para bagunçar os lugares da mesa

Por Taina Aparecida Silva Santos* – Uma reflexão sobre a luta por cotas nas universidades estaduais paulistas, em particular na Unicamp

Foto de Rafael Kennedy

 

Falar sobre o atual panorama da luta por cotas nas universidades estaduais paulistas, em particular na Unicamp, me remete a pensar numa epígrafe contida no texto Racismo e sexismo na cultura brasileira, de Lélia Gonzáles. Ela diz o seguinte:

“Foi então que uns brancos muito legais convidaram a gente prá uma festa deles, dizendo que era pra gente também. Negócio de livro sobre a gente, a gente foi muito bem recebido e tratado com toda a consideração. Chamaram até para sentar na mesa onde eles estavam sentados, fazendo discurso bonito, dizendo que a gente era oprimido, discriminado, explorado. Eram todos gente fina, educada e viajada por esse mundo de Deus. Sabiam das coisas. E a gente foi sentar lá na mesa. Só que tava cheia de gente que não deu prá sentar junto com eles. Mas a gente se arrumou muito bem, procurando umas cadeiras e sentando bem atrás deles. Eles tavam tão ocupados, ensinando um monte de coisa pro crioléu da platéia, que nem reparam que se apertasse um pouco até que dava para abrir um espaçozinho e todo mundo sentar junto na mesa. […] A gente tinha que ser educado. E era discurso e mais discurso, tudo com muito aplauso. Foi aí que a neguinha que estava sentada com a gente deu uma de atrevida. Tinham chamado ela pra responder uma pergunta. Ela se levantou, foi lá na mesa pra falar no microfone e começou a reclamar por causa de certas coisas que tavam acontecendo na festa. Tava armada a quizumba. A negrada parecia que tava esperando por isso prá bagunçar tudo. E era um tal de falar alto, gritar, vaiar, que nem dava prá ouvir discurso nenhum. Tá na cara que os brancos ficaram brancos de raiva e com razão. […].”

 

Pensando na experiência que tive em participar da construção da luta por cotas, enquanto membro do  Núcleo de Consciência Negra da Unicamp me dedicarei ao longo deste texto a narrar a forma que fomos e estamos sendo recebidos nessa “festa”. Coloco isto não apenas como denúncia do racismo corriqueiro que enfrentamos cotidianamente em espaços brancos e elitistas como as universidades do estado de São Paulo, mas, também, enquanto uma proposta de fazer uma discussão sobre o lugar da luta antirracista nas agendas dos movimentos sociais. Nesse caso, daqueles que compõem a comunidade acadêmica e pouco se importam em dialogar com o movimento negro.

 

A resistência da Unicamp em, pelo menos, discutir a implementação do sistema de cotas no ingresso dos cursos de graduação há muito vem sendo denunciada por negras e negros que passaram por essa universidade. Numa breve conversa com antigos membros do NEN – Núcleo de Estudos Negros, que existiu há, aproximadamente, dez anos , é possível tomar conhecimento da presença desses debates e questionamentos de longa data. Depois de todo esse tempo, ocorreram novas configurações da organização negra e da luta antirracista na Unicamp, o que culminou na existência do atual Núcleo de Consciência Negra e da Frente Pró-Cotas, que, em 2015, potencializaram os acúmulos que resultaram na implementação da reserva de vagas para negros e indígenas em alguns programas de pós-graduação. A conquista da reserva de vagas em alguns programas de pós do IFCH – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas abriu os caminhos. No ano de 2016, o programa da Faculdade de Educação também implementou e, na última semana, a pós-graduação do Instituto de Economia também se somou à adoção dessa política.

 

Nesse percurso, a necessidade da implementação de cotas no sistema de ingresso dos cursos de graduação evidenciou-se ainda mais, pois, nenhuma política de ação afirmativa que a Unicamp utilizou, até então, foi eficaz no que se refere ao acesso de negras e negros. Ao ser colocada em cheque a credibilidade do PAAIS (Programa de Ação Afirmativa para a Inclusão Social,) a discussão causou mais impactos que trouxeram à tona muitas sutilezas do racismo presente na cultura brasileira e que orientou as maneiras que fomos recebidos nessa “festa”.

 

O primeiro espanto, de boa parte das pessoas atingidas pela discussão, foi a possibilidade de não estarmos loucos e a cotas serem uma saída para democratização do acesso à universidade pública. Entendo que boa parte desse desconhecimento pôde ser oriundo de ignorância, mas a experiência das federais foi praticamente ignorada por essas bandas. Isso foi e ainda é muito nítido: é incrível o número de pessoas, entre elas, professores e professoras, que não tinham noção, e muitos, nem interesse em relação ao que ocorreu nas outras universidades brasileiras. Entre trancos e barrancos seguimos num terreno um pouco menos desconfortável, mas ainda sim, nada favorável. Esse marco pode ser ilustrado pela possibilidade de, já em alguns espaços durante os debates, a ideia de qualquer pessoa poderia ser racista no Brasil não fosse tratada como loucura.

 

Foto de Rafael Kennedy

 

O avanço e ganho político nesse embate, no qual se destacou o processo de luta pelas cotas, ficaram marcados por um momento nunca visto na Unicamp até 2016: uma greve de aproximadamente cem dias, na qual as reivindicações das cotas raciais, sociais e ampliação da permanência estudantil foram o carro chefe. Claro que isso não poderia ocorrer sem ter tido uma acirrada disputa. Foram longos e desgastantes afrontes para que isso fosse possível. Nos ápices das discussões, momentos em que tivemos que falar sobre branquitude, por exemplo, fomos acusados de estarmos “atrapalhando a discussão”.

 

Quando passamos da fase de falarmos sozinhos ou para nós mesmos, o racismo foi reconhecido enquanto problema, porém, de maneira superficial, sem a profundidade e atenção que merece. Começamos a ser convidados para as festinhas, em que, no primeiro momento, “os brancos legais” falavam sobre todo o assunto de gente entendida, faziam “as discussões políticas” e depois nos cediam lugar na mesa para falar de “problemas específicos”, como se não tivessem responsabilidade nenhuma sobre, absolutamente, nada. Entretanto, não foram poucas as vezes que esperavam, somente, uma fala sobre nós: o lugar de negro – vítima, do oprimido – sem agência e sem resposta. A partir de então, algumas resistências passaram a fazer mais sentido para mim e foi possível perceber que mais coisas informavam os anseios de quem tinha expectativa que os negros “estivessem na universidade para sambar”.  Sutilezas que escancaram as leituras racializadas que são feitas dos nossos corpos e das nossas ações num espaço como este.

 

As afirmações corriqueiras passaram a ter algo a mais, inclusive uma clássica: a que as pessoas negras são invisíveis quando ocupam lugares de produção de conhecimento, de poder, ou seja, aqueles em que se naturalizou a presença de brancos. Eu não discordo, porém acho que a situação é um pouco mais complexa e o debate deve ser mais qualificado para não nos aprisionarmos no perigo de uma história única, como alertou Chimamanda Ngozi Adichie. Além disso, ficarmos atentos para o que, quem ou do que provém esse silenciamento é um bom começo.

 

No exercício de se isentar da discussão sobre relações raciais, aqueles que têm boa retórica usam como defesa, e até mesmo como álibi, a “questão de classe”. De maneira simplista subordinam a raça a ponto de quase apagá-la às custas de manter a integridade das questões “maiores”… de gente fina e educada. O lugar do subemprego ocupado por trabalhadoras e trabalhadores negros na universidade é volta e meia usado como um objeto para demonstrar empatia à população negra e conhecimento sobre o problema do racismo. Discurso que se acaba nele mesmo quando não se dá importância para que uma política como as cotas poderia ter na vida de famílias como as dessas pessoas que, no limite, são como as família de poucos pretos e pretas que ainda são os únicos nas suas salas. Frente a isso, quando chegamos nessa “festa” e tomamos o microfone para falar sobre isso, “está armada quizumba”, a possibilidade de passarmos despercebidos se esvai e se iniciam as tentativas de desqualificação e silenciamentos. No entanto, reconhece que nos calar não tem sido uma tarefa fácil, pois nós viemos para mudar os lugares na mesa.

 

O trabalho científico e acadêmico de muitas pessoas negras sobre o assunto ainda continua sob um silêncio ensurdecedor, pois mesmo nossa argumentação sendo bem fundamentada, ela não vale, simplesmente porque inclui o pensamento de pessoas que a comunidade acadêmica deixa à margem. A atuação política do movimento negro brasileiro, que pauta as cotas raciais já em termpos anteriores à redemocratização, não conta e torna-se enfeite, pois, para muitos, a política de reserva de vagas “foi um mecanismo de cooptação que o Partido dos Trabalhadores – PT utilizou para conquistar essa população”. Foi, também no sentido de sanar esse “desconhecimento” da realidade que assombra o Brasil que foram organizadas três audiências públicas durante o segundo semestre de 2016. Foi um evento proveitoso, que contou com intelectuais, ativistas de movimentos sociais, estudantes de dentro e fora da Unicamp, cursinhos populares e etc. Desse processo, resultou um material elaborado pelo Grupo de Trabalho responsável pela organização dessas audiências que contém as transcrições, resumo das falas e, ainda, uma proposta para que a Unicamp adote as cotas raciais como política de ação afirmativa.

 

Nas vésperas da votação do Conselho Universitário que irá decidir se a Unicamp implantará as cotas ou não, continuamos sendo ignorados por muita gente que ainda têm coragem de dizer esse não é o caminho para prosseguirmos nessa luta e até que precisamos de mais tempo para fazer esse debate, pois “a Unicamp precisa cuidar dos negros de dentro para depois incluir os de fora”. Posicionamentos que não são de se espantar e também não são inéditos- a experiência das universidades federais nos ensinaram  boas lições nesse sentido.

 

Após 2012, ano no qual a discussão sobre cotas tomou âmbito nacional, uma série de estudantes e professores de uma universidade “de ponta” alegam incompreensão sobre o assunto e continuamos na saga de convencer essas pessoas que direitos sociais não são privilégio para os brancos. Espero que o dia 30 de maio seja um dia mudança, pois se, até lá, não conseguirem entender que negros e negras também são cidadãos deste país, não terão motivos para mais tarde nos chamarem de radicais.

 

Taina Aparecida Silva Santos* – Milita no movimento negro e no movimento de mulheres negras da cidade de Campinas; graduanda em História no  IFCH/ UNICAMP.

 

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Direitos Humanos Violência Policial

Morte de manifestante pela polícia causa revolta no interior de Pernanbuco

Mais um atentado à liberdade de expressão, à liberdade de manifestação e à (cambaleante, ou mesmo inexistente) democracia brasileira: o jovem Edvaldo Alves, de 19 anos, morreu nesta terça-feira (11), após ser alvejado pela Polícia Militar durante protesto realizado no dia 17 de março em Itambé, Pernambuco.

O jovem participava, junto com outros moradores, de um ato público contra a violência na cidade, quando foi baleado por um policial militar. Já no chão, e sangrando, foi ainda agredido no rosto com cassetete e arrastado pelos policiais até a viatura da Polícia, onde foi lançado em cima da carroceria.

 

Não apenas em Pernambuco, mas em todo o Brasil, a força policial tem sido usada de maneira indiscriminada contra trabalhadores, estudantes, contra a população organizada. Não são poucos os casos de manifestantes abordados de forma truculenta e agredidos pela Polícia Militar durante manifestações.

Vivemos, cotidianamente, cenas dignas de um Estado de exceção. Edvaldo foi velado na última quarta-feira (12). Uma multidão esteve presente no velório e acompanhou o cortejo. Morreu porque estava lutando. Uma luta que, como tantas, custou uma vida.

Velório de jovem morto pela Polícia aconteceu nesta quarta-feira (12) / Foto: Felipe Ribeiro/Folha de Pernambuco

 

Lutar não é crime! Crime é o que o Estado faz ao atentar contra os direitos humanos de reunião e de livre manifestação do pensamento. Que os responsáveis pelo assassinato de Edvaldo Alves sejam responsabilizados e punidos.

Cortejo desta quarta-feira (12) reuniu centenas de pessoas em Itambé-PE / Foto: Felipe Ribeiro/Folha de Pernambuco

 

Para o Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH), a conduta do governo do Estado de Pernambuco não só atinge a Constituição Federal, como também atenta contra a própria democracia. “o Estado Brasileiro é responsável por assegurar a proteção da vida das pessoas e garantir os direitos humanos de livre manifestação do pensamento e de reunião, essenciais ao exercício da democracia”, afirma o CNDH em nota pública.

O Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) também emitiu posicionamento em repúdio ao assassinato do manifestante. “É preciso parar o massacre! O Brasil vive um clima de repressão intensa ao direito humano de expressar-se livremente, inclusive cobrando a própria vida de quem ousa se manifestar.”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Cotas Raciais

Cotas raciais aprovadas no Instituto de Economia da UNICAMP

Sobre o processo de COTAS no Instituto de Economia (IE) da Unicamp:

O processo de Cotas no IE começa a ganhar força ainda no primeiro semestre de 2016. O cenário de recente aprovação de Cotas no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) e o debate avançado que estava ocorrendo na Faculdade de Educação (FE) foram inspirações para que pessoas conseguissem levar adiante a discussão em seus institutos, foi o caso do IE, do Instituto de Geociências, do Instituto de Artes dentre outros.

No IE, bem como nos outros espaços, foram promovidas atividades (tanto por parte do centro acadêmico, quanto da Frente Pró Cotas) com o fim de inteirar as pessoas sobre o debate de Cotas em âmbito nacional e internacional, bem como repensar as relações raciais no e a História do negro no Brasil. Estas atividades tinham como público alvo os estudantes, ainda que fossem abertos para professores. Neste primeiro momento, importante salientar, os professores estavam ausentes das discussões em curso no instituto.

Com a chegada da greve no meio do ano (onde os alunos do IE estavam bastante presentes) as discussões tomaram uma nova proporção e os professores se inseriram de diferentes formas em meio à discussão. Nesse período alguns professores se mostraram abertamente contrários à proposta (e mesmo a discussão), inclusive chegando à máxima de xingar os alunos que defendiam a proposta de macacos. Em contrapartida a discussão na Comissão de Pós Graduação (CPG), onde os alunos têm mais voz e peso, parecia evoluir, contanto inclusive com a construção de uma pré-proposta de Cotas por parte dos alunos. A proposta contava também com um levantamento do perfil racial dos alunos da pós, algo até então não levado em consideração pelas instâncias administrativas do IE. Com o fim da greve, alguns professores haviam decidido somar-se a causa e construir, em conjunto com os alunos um grupo de trabalho (GT) para levar a proposta adiante no instituto.

O GT passa então a estudar propostas de cotas para a Pós Graduação em um primeiro momento, propostas estas que vão para além da Unicamp inclusive, mas dando-se especial atenção aos editais no IFCH e o projeto que estava sendo discutido na FE – posteriormente aprovado. Alunos e professores após algumas conversas e leituras passam, através do GT e pensar um circuito de debates, com pesquisadores e militantes nas temáticas de políticas de reserva de vagas, racismo, ações afirmativas e questão indígena.

Deste circuito – bastante frutífero – destacam-se, em um primeiro momento, duas mesas: A primeira, com o título: “Herança escravista e ação social afirmativa: a experiência brasileira” contava com Luiz Felipe de Alencastro (FGV-SP) e Ana Flávia Magalhães Pinto (IFCH-Unicamp) como convidados. A segunda mesa propunha um debate sobre a “Problemática das Cotas Étnico-Raciais nas Universidades Paulistas”, tendo como convidados: Fabiana Mendes de Souza (doutora em Antropologia, IFCH-Unicamp), Angela Soligo (professora da Faculdade de Educação, Unicamp) e Ariabo Kezo (representante do Centro de Culturas Indígenas da UFSCAR).

Enquanto as primeiras atividades aconteciam (respectivamente em Agosto e Setembro) outro GT estava construindo uma série de três audiências públicas para discussão de cotas na Unicamp – uma das conquistas da greve. Com o início desta série de debates de grande porte, foi-se decidido que o IE se somaria a estas atividades em detrimento da construção de suas próprias. Ainda assim é penoso recordar que poucos são os docentes e discentes do instituto que compareceram a ao menos uma das três audiências que ocorreram em Outubro, Novembro e Dezembro.

Neste período o que se destaca é a realização da primeira semana de consciência negra da história do IE. Com duração de três dias repletos de atividades culturais, debates e palestras o evento foi sem dúvida um marco, tanto na história do instituto como na discussão sobre racismo e políticas de ações afirmativas na pós graduação da Unicamp. Também neste evento estavam presentes diversos pesquisadores e pesquisadoras, bem como militantes da área e produtores culturais periféricos.

A partir de então, com o fim do ano iminente as discussões se mantiveram bem como foi decidido que a proposta, saída da CPG iria passar pela congregação, afim de que se aprovasse o princípio de cotas para o instituto. Se o papel dos professores era importante no GT é a partir deste momento que ele ganha ainda mais relevância. Após um hiato – durante as férias letivas – a discussão volta ao IE, desta vez em torno dos professores, que se organizam para propor uma plenária aberta a todo o corpo discente a fim de discutir a política de reserva de vagas como forma de inclusão no processo seletivo da pós graduação (mestrado e doutorado).

O resultado desta plenária foi uma proposta inicial e preliminar de cotas étnico raciais de 20%, independentemente de qualquer critério de renda, tendo todos os ingressantes cotistas acesso às bolsas: uma proposta bastante interessante no que tange a vinculação das questões de acesso e permanência. Hoje, dia 10/04/17 a proposta foi levada à congregação onde o princípio de cotas foi aprovado. Agora cabe a CPG escrever o edital, onde as porcentagens e a distribuição de bolsas serão de fato repensadas, que será levado novamente à congregação para discussão e aprovação, de forma que o processo seletivo deste ano conte com cotas !!!

O processo, além de altamente informativo e importante para aqueles que fizeram parte e para o IE levantou diversas outras questões: a possibilidade (e as limitações) da cooperação entre alunos e professores em prol de causas comuns; a rigidez e opacidade dos atuais processos seletivos para a pós graduação; a importância da diversidade nos espaços de construção de conhecimento; e, sobretudo a importância das mobilizações e da luta por uma universidade verdadeiramente pública. Hoje conquistamos mais um avanço no estado de São Paulo, e na Unicamp. Esperamos que o acontecido sirva como combustível para os processos ainda em curso, tal qual ainda é a luta por acesso e permanência na graduação da USP e UNICAMP.
Seguimos em luta, COTAS JÁ! nas graduações e pós graduações do país.

Aquiles Coelho Silva, membro da Frente Pró Cotas da Unicamp

Eventos citados:
https://www.facebook.com/events/1144896222222844/
https://www.facebook.com/events/337463439938072/
https://www.facebook.com/events/221991438222302/

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Mbira – o instrumento-símbolo de um povo

Por Luiza Gannibal

Entre junho e agosto de 2016, estivemos no ventre do mundo: Zimbábue – África profunda.

DZIMBA DZEMABWE. Casa de Pedras. Fortaleza espiritual.

Nosso propósito era investigar as especificidades deste solo semi-árido donde brotou a riquíssima cultura do povo shona que, agora, podemos definir numa só palavra: Mbira.

Na bagagem, trouxemos um material vasto, projetos mil, e a vontade de partilhar essa história.

Mas… o que é Mbira?

Mbira é o nome em língua shona para o instrumento tradicional do POVO SHONA (comunidade pertencente à família etnolinguística BANTU, difusa por grande parte da África subsaariana), que vive, em sua maioria, na região do ZIMBÁBUE, país que faz fronteira com a Zâmbia, África do Sul, Moçambique e Botswana.

A mbira pertence à família dos lamelofones. Lamelofones são populares por toda África, e, via de regra, eles variam em número de teclas, disposição das notas, e se possuem (ou não) um ressonador (uma cabaça ou caixa de madeira que repercute o som). Kalimba, sanza, likembe, kisanji e gongoma são alguns dos nomes dados a lamelofones africanos de acordo com suas características particulares e região/povo a que pertencem.

Além de ser o mais sofisticado dos lamelofones africanos, a MBIRA foi o primeiro lamelofone a surgir na África – mais especificamente no Vale do Rio Zambeze ao norte do Zimbábue –, sendo uma espécie de protótipo para todos os outros.  

Não é possível se referir à mbira, portanto, apenas como um instrumento. Pelo menos não da maneira que se faz no Ocidente. A mbira designa, obrigatoriamente, a cultura shona e, nesse viés, a espiritualidade desse povo da África Bantu.

A mbira faz parte do povo, e o povo, igualmente, faz parte da mbira.

Como relata o professor Perminus Matiure, servindo de meio de comunicação entre os vivos e os mortos, “a mbira age como um repositório da espiritualidade shona”.  Em rituais chamados de “bira”, ela é tocada para os ancestrais, que, por falarem a língua da “música de mbira” – cuja gramática é composta por temas tradicionais -, são atraídos para a dimensão dos vivos, onde o tempo sagrado é assim instaurado.  Daí o nome “mbira dzaVadzimu”, que significa mbira dos (dza) ancestrais (Vadzimu).

Em “The Soul of Mbira”, Paul Berliner explica: “Um mandamento tradicional da religião shona postula que, após a morte, os espíritos das pessoas continuam afetando a vida de seus descendentes. Em outras palavras, o mundo dos vivos está em função dos acontecimentos do mundo dos espíritos. ” Daí a importância do diálogo permanente com essa arena mítica.

Outro nome dado à Mbira dzaVadzimu é “Nhare” que, em shona, significa telefone. E aqui a dimensão sagrada fica ainda mais evidente: ou seja, trata-se de um instrumento que, ao ser executado (ao tocar) conecta dois universos.

“A mbira é o instrumento musical tradicional primário do povo falante da língua shona. Ele tem sido tocado desde tempos imemoriais. A mbira é a voz dos espíritos (mbira i zwi re midzimu). Quando tocamos a mbira, nós estamos chamando os espíritos, e essa voz é forte o bastante para ser ouvida na morada dos ancestrais (nyikadzimu).” – diz, direto de Chinamassa, aldeia shona de Nyazura, no Zimbábue, nosso querido mestre Barnabas Ngalande.

Berliner complementa: “No contexto da Bira, as pessoas acreditam que a mbira tem o poder de projetar seu som pelos ares e alcançar os céus, estabelecendo uma ponte entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos, e atraindo, assim, a atenção dos ancestrais.”

A despeito de haver inúmeras “Áfricas”, há, segundo o tradicionalista Hampâté Bâ, algumas constantes em todas as tradições africanas: a presença do sagrado em todas as coisas, as relações entre os mundos visível e invisível e entre os vivos e os mortos. Não é à toa que nossa passagem pelo Zimbábue esteve sempre cercada de reiterada espiritualidade.

A Mbira Nyunga Nyunga

Outra mbira bastante popular no Zimbábue é a Nyunga Nyunga. Ela foi trazida para o Zimbábue pelos VaNyungwe, povo da província de Tete, em Moçambique.

Por ser de mais simples entendimento, ela é largamente utilizada nas escolas e como primeiro aprendizado daqueles que se interessam pelo instrumento. Tivemos (e temos) alguns mestres no Zimbábue que tocam e fabricam a Nyunga Nyunga, como o Barnabas, já mencionado, e Ticha Muzavazi, que faz um belíssimo trabalho com crianças especiais.

Fabricar e tocar, aliás, são atividades que caminham juntas em toda África, revelando o caráter orgânico (e não industrial, como o é no Ocidente) da relação das pessoas com os elementos que compõem sua existência essencial.

Ambas as mbiras, cabe frisar, são instrumentos-símbolo de resistência de uma cultura que teima em seguir adiante, aferrada a suas raízes, apesar dos pesares e dos “desgovernos” que acometem o povo shona – íntegro o bastante para perceber que a tradição é imprescindível como forma de blindagem contra as influências perniciosas: sejam elas mundanas ou espirituais.

Cultura é identidade. E a música, o modo mais natural de expressá-la. Ao dedilhar sua mbira, portanto, o homem shona expressa o que é – e, dessa maneira, pode “ser” no mundo.

Mbiracles

Por mais de 300 anos, africanos de origem bantu chegaram aos portos brasileiros, constituindo-se no maior contingente de negros a entrar no país. Apesar da invisibilidade que desejou se dar a essa influência grandiosa, as marcas do legado bantu estão em nossa música, língua, instrumentos, estratégias de resistência (quilombos), danças, técnicas de trabalho, e, claro, no fenótipo de nossa gente.

Sendo um elemento autêntico e paradigmático de uma cultura riquíssima, portanto, a mbira, segundo o músico e fabricante de instrumentos africanos Fabio Simões, é “um cordão umbilical do tempo”. Uma maneira pela qual podemos reaver de forma íntegra esse legado ancestral que nos foi, outrora, drasticamente subtraído, e que nos conecta à “mãe” – palavra que pode também ser entendida como “terra”. Afinal de contas, o menino africano se torna homem quando parte do regaço da mãe biológica para os braços da mãe-natureza. E a música, rebento desse ambiente natural, é sua maior forma de expressão.  

A proposta do projeto Mbiracles, assim, é a vivência da música tradicional africana sob o prisma dessa mãe-natureza, dessa terra ancestral. É a reflexão prática de “quem somos nós” a partir de artefatos que enredam uma cultura milenar, telúrica, e que, como as pirâmides do Egito, ou, mais apropriadamente, as ruínas do Grande Zimbábue (a maior estrutura pré-colonial da África Subsaariana), nos indicam os caminhos que traçaram os homens que nos antecederam, as músicas que cantaram, as melodias que dedilharam. Sendeiros sonoros que perfazem, com efeito, a linguagem-raiz desse homem. Uma linguagem que nos falta – e que, por isso, nos cabe.

Como sugere o símbolo da Sankofa, o retorno às origens é necessário para que possamos seguir adiante. São nossas raízes, nossos pés, fundamentos, pilares. “Para destruir um povo, basta destruir sua cultura”, afirmou Franz Fanon. Daí que, para sermos um povo, e tudo que isso comporta, precisamos reconstruir nossos laços com a África. Ativamente.

Mbiracles é um projeto que pretende trazer à tona, através de uma série de atividades cujo núcleo é a mbira (oficinas, palestras, exposições, instalações), a África mãe. Essa África que diz tanto a respeito de quem somos e de onde viemos.  

Eis a música: meio capaz de traduzir com maior expressividade e ludicidade a cosmovisão de um povo. Eis a mbira: instrumento que está no cerne da tradição shona.

Venha conosco conhecer e praticar a mbira.

Estamos na rede:
www.mbiracles.com
https://www.facebook.com/mbiracles/

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Movimento Negro

Negras e negros tomam ruas de SP contra reformas de Temer

Marcha Negra reuniu uma multidão de negras e negros pelas ruas do centro de São Paulo, em protesto contra as reformas racistas e genocidas de Michel Temer.

 

Por Douglas Belchior, (com fotos de Jornalistas Livres, Mídia Ninja, Ponte Jornalismo e Sergio Silva)

 

Neste último sábado, dia 1 de Abril, diversos grupos e organizações do movimento negro de São Paulo convocaram a Marcha Negra Contra as Reformas Genocidas de Temer. A Uneafro Brasil, rede de Cursinhos comunitários para jovens negros e pobres, mobilizou seus estudantes após uma aula-pública na faculdade de direito da USP, local de concentração do ato. Em parceria com MTST, onde mantém unidades de cursinhos em acampamentos da cidade de São Paulo, mobilizaram estudantes e moradores Sem Teto.

Ativistas negras de diversos grupos participaram, entre eles representações da Frente Alternativa Preta, Negras e Negros Sem Medo, Núcleo de Consciência Negra na USP, MNU -Movimento Negro Unificado, APN’s – Agentes de Pastoral Negras e Negros, Conen – Coordenação Nacional de Entidades Negras de SP, Kilombagem, Associação Amparar, Núcleo Impulsor da Marcha das Mulheres Negras SP, Cooperifa, Coletivo Rosa Zumbi, além de ativistas e grupos autônomos.

 

 

A principal motivação para a Marcha são os possíveis efeitos nas condições já precarizadas de vida da população negra, a partir das atuais politicas e reformas implementadas pelo governo golpista de Temer, com amplo apoio do congresso nacional e da grande mídia, conforme trecho da Nota publicada pelo conjunto de movimentos negros.

 

O fim do direito a aposentadoria, o desmonte dos direitos trabalhistas, a terceirização irrestrita do trabalho, o congelamento de investimentos sociais por 20 anos e o aumento da repressão e da violência policial tem um caráter explicitamente racista e genocida(…) Sim, com as reformas de Temer, os efeitos do racismo e o genocídio negro vão se aprofundar.

 

A Marcha de concentrou no Largo São Francisco, de frente à Faculdade de Direito da USP e seguiu até o MASP, na Avenida Paulista, onde se encontrou com o tradicional bloco do Cordão da Mentira.

Vejam fotos e videos:

 

https://www.facebook.com/borgescw/videos/684780248373369/

(Vídeo do facebook de Cleyton Borges)

 

Multidão de negras e negros contra as reformas de Temer

 

Milton Barbosa, fundador do MNU – Movimento Negro Unificado e Maria José Menezes, fundadora do Núcleo de Consciência Negra na USP

 

Estudantes da Uneafro Lembram Luana e Maria Eduarda, assassinadas pela violência do estado.

 

Estudantes dos Cursinhos da Uneafro

 

Ativistas, artistas, sem teto, estudantes. gente comum e heróica, na luta do povo brasileiro

 

Núcleo Impulsor da Marcha de Mulheres Negras, presente na Marcha

 

Luiz de Jesus, Coordenador do Núcleo Uneafro Jabaquara e membro da Frente de Evangélicos Pelo Estado de Direito

 

Beatriz Lourenço, Frente Alternativa Preta

 

Pelo direito a vida e a liberdade!

 

Kaio Gabriel, militante da Uneafro Brasil

 

 

 

 

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Educação Popular Uneafro

Faculdade de Direito da Usp é ocupada por negras e negros em luta

Sergio Silva <fotografosergiosilva@gmail.com>

Depois da histórica aprovação da adoção de 30% de Cotas para negro/as, indígenas e estudantes de escolas públicas, a Faculdade de Direito da USP, de onde surgiram nada mais nada menos que os golpistas Michel Temer e Alexandre de Moraes, é ocupada por estudantes dos Cursinhos Comunitários da Uneafro Brasil.

 

Por Douglas Belchior, com fotos de Sergio Silva.

 

Neste último sábado, dia 1 de Abril, cerca de 800 estudantes dos Cursinhos da Uneafro-Brasil, das unidades da região metropolitana de São Paulo, participaram do primeiro Aulão deste ano de 2017. O Local escolhido foi a Faculdade de Direito da USP, no Largo São Francisco, centro de SP.

 

Trabalho de base permanente, ação direta e comunitária com prática da Educação Popular.Acreditamos nessa fórmula como alternativa de luta política antissistêmica.Emocione-se com o resultado.

Posted by UNEafro Brasil on Sunday, April 2, 2017

 

Estudantes, em sua maioria jovens negros e mulheres lotaram o pátio das arcadas e a sala dos etudantes para ouvir professores convidados em uma maratona de cidadania e conscientização.

Tamara Naiz, presidente da ANPG – Associação Nacional de Pós-Graduandos tratou do tema “O que é Ciência e Tecnologia?”, e provocou nos estudantes mais curiosidade sobre um assunto que pouco aparece em escolas públicas brasileiras.

Guilherme Boulos, do MTST, tratou do tema das atuais reformas propostas pelo governo ilegitimo de Temer, em especial as consequências da Reforma da Previdência e Trabalhista para a vida das famílias de trabalhadores moradores de periferias.

Monique Evelle, jovem ativista soteropolitana, fez um contagiante depoimento sobre sua história de superação e resgate da identidade negra.

O poeta Sergio e Vaz e a rapper Preta Rara e a poetiza Luiza Romão deram um show a parte, com muita música engajada, poesia revolucionária e papo reto com a estudantada.

Outro momento forte da atividade, foi a rápida, mas super potente, apresentação do Teatro dos Secundas, grupo formado por secundaristas que dirigiram ocupações de escolas públicas no último ano.Em sua apresentação “Só me convidem para uma revolução onde eu possa dançar”, com direção de Martha Kiss Perrone, lembraram a a luta dos secundas por educação pública de qualidade e morte de Maria Eduarda, de 13 anos, atingida por um tiro de fuzil durante a aula de Ed. Física em uma escola pública do bairro da Fazenda Botafogo, no Rio de Janeiro.

Falta de Respeito

Apesar de insistentes tentativas de estudantes da faculdade de direito, do Centro Acadêmico e de professores aliados dos movimentos, que protocolaram pedido de utilização do salão nobre da faculdade, o Diretor José Rogério Cruz e Tucci não autorizou seu uso pelos estudantes dos Cursinhos Comunitários da Uneafro. Por isso, a decisão do movimento foi realizar o Aulão no pátio das arcadas. Embora a previsão fosse de sol o dia inteiro, a manhã de sábado estava chuvosa, o que atrapalhou o início da atividade e obrigou o uso da precária e pequena Sala dos Estudantes, onde os quase 800 estudantes se espremeram e ocuparam também seu saguão de saída. Veja o Vídeo.

 

Posted by Joyce Fernandes on Saturday, April 1, 2017

 

Vejam mais videos desse momento de luta do movimento de cursinhos populares e do movimento de São Paulo:

 

Teatro dos Secundas

 

a luta é o que pode nos mover – nunca houve outra alternativa. Esse é um brasil que escapa, traça um novo campo do possível e emerge com força insubmissa pra nos dizer que nunca mais seremos o que fomos. Ainda bem! Só a luta cria.(essa é a faculdade de direito da USP – de onde saíram Temer e Alexandre de Moraes. E essa também é a imagem exata do que eles mais temem. )

Posted by Alana Moraes on Sunday, April 2, 2017

 

Guilherme Boulos – MTST

Posted by UNEafro Brasil on Saturday, April 1, 2017

 

Poeta Sergio Vaz

Posted by UNEafro Brasil on Saturday, April 1, 2017

 

Conheça a Uneafro Brasil

A Uneafro Brasil é um movimento de ação comunitária e educação popular que há quase 10 anos ajuda a escrever histórias de superação na vida de jovens, negros e periféricos.

Como uma organização do movimento negro, escolhemos enfrentar o racismo, o genocídio, o machismo e as desigualdades econômicas através da ação direta na vida real das pessoas, em nossas próprias comunidades.

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Posted by UNEafro Brasil on Sunday, February 12, 2017