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Cotas Raciais racismo

A seletividade racista das punições na Unicamp

Fábio Eduardo Matias de Siqueira

 

 

por Fábio Eduardo Matias de Siqueira – Du Kiddy*

 

Meu nome é Fábio Eduardo, conhecido como Du Kiddy, nome artístico. Sou músico, aluno do curso de graduação de licenciatura em música pela Unicamp, onde milito no Núcleo de Consciência Negra (NCN) e também faço parte do Centro Acadêmico do Instituto de Artes (CAIA), onde estudo.  Venho através deste texto expor a situação que tenho vivido na Unicamp nos últimos meses: estou sendo processado disciplinarmente por minha participação política na greve histórica de 2016.

No início do mês de abril soube, através de um e-mail institucional, que a UNICAMP havia aberto um processo disciplinar contra mim em 21 de Dezembro de 2016. Fui enquadrado no artigo 227 do regimento geral da universidade e nos incisos I, III, IV, VIII. Estou sendo acusado de calúnia, insulto, perseguição, abuso, intimidação, coerção, violência verbal, depredação de patrimônio público, danos às instalações de pesquisa, agressão física, abuso de autoridade(?), desrespeito às normas de conduta e desrespeito a hierarquia. As punições previstas vão desde advertência até expulsão. As provas apresentadas na comissão disciplinar no processo movido contra mim são um vídeo feito por um professor no dia da mobilização que participei e dois depoimentos desse mesmo professor do IFGW -Instituto de Física Gleb Wataghin.

Durante o ano de 2016, participei ativamente da greve ocorrida na Unicamp,  que durou cerca de 100 dias. A greve foi deliberada por uma assembleia estudantil legítima e com quórum, convocada pelo DCE da Unicamp (Diretório Central dos Estudantes). Dentre as pautas principais contaram a necessidade da implementação das cotas raciais, sociais, além da ampliação da moradia e das políticas de permanência estudantil. Participei de algumas ações coletivas tiradas em assembleia para garantir que as decisões dos alunos fossem respeitadas e hoje estou sendo punido, individualmente, por essa ação coletiva. É nítido que essa situação configura perseguição política com um recorte racial que reproduz formas de racismo institucional, pois os processos gerados em decorrência da greve envolvem, em sua grande maioria, estudantes negros. Ocaso emblemático e que ganhou repercussão nacional foi o do estudante Guilherme Montenegro, que recebeu ameaças de morte por um grupo de extermínio, além de ser hostilizado e perseguido por pessoas na internet, redes sociais e também no Campus. Tudo isso, pelo fato de ter apagado a lousa de uma suposta aula de um professor da Unicamp ligado ao MBL (Movimento Brasil Livre). Este aluno teve como penalização a suspensão de um ano ou a prestação de serviços não remunerados para a universidade durante o mesmo período.

É importante ressaltar que as punições não se restringiram aos estudantes negros, entretanto, a de Guilherme Montenegro foi aquela alçada aos termos de punição exemplar, sendo que, as opiniões e até mesmo as pressões sobre a gestão da universidade para que fosse punido, foram e estão sendo inflamadas pelo ódio e pela violência. Eu também sou aluno da UNICAMP, um homem negro, bolsista e com participação ativa no movimento estudantil, características semelhantes às de Guilherme Montenegro. Sem contar que também fui enquadrado nos mesmos incisos que caracterizam a infração da qual o Guilherme é acusado.

 

… disposta a avançar no princípio da diversidade, a partir do processo da implementação das cotas raciais, a instituição se enrosca numa contradição quando pune os negros que lutaram para que isso se tornasse possível.

 

Num contexto em que a punição “exemplar” emerge enquanto uma resposta para os movimentos organizados dentro da universidade e também para dialogar com os grupos políticos anti-greve que atuam nesse espaço, fica explícito que está aberto um precedente para que outros estudantes, principalmente os negros, sejam penalizados. Além de manifestar uma retaliação ao movimento estudantil, essa medida foi uma tentativa de amedrontar, desmobilizar e deslegitimar as nossas lutas e as ações de combate ao racismo, sustentada por uma correlação de forças desigual.

Estritamente políticas, essas ações dialogam diretamente com a organização de estudantes negras e negros que vêm atuando na Unicamp há tempos, tendo em vista que a maior conquista da greve foram às audiências públicas que culminaram na votação e aprovação da implementação do princípio de cotas raciais no sistema de ingresso nos cursos de graduação. A agressividade dessas punições racistas é, também, proveniente da formação das comissões que julgam e dão o parecer sobre os processos disciplinares abertos durante a greve. Essas comissões são formadas por pessoas brancas, contra a greve e, em muitos casos, contra a implementação do principio de cotas. Isso influencia diretamente tanto o meu processo, como o do Guilherme, pois as seletividades dessas punições falam o tempo todo sobre um racismo institucional que é reproduzido a partir de suposto silêncio em relação aos nossos corpos. Silêncio que não fala sobre raça de maneira explícita, mas evidencia o racismo arraigado na sociedade brasileira que opera a partir dessas seletividades. Por mais que a instituição da qual sou aluno tenha certa dificuldade em se auto examinar racista, por fazer parte de uma sociedade construída sobre a desigualdade racial, o que, consequentemente, implica na reprodução do racismo na sua esfera institucional, elencar a punição aos negros enquanto uma punição “exemplar”, explicita o lugar da marginalidade a partir do qual somos vistos. Lutar por aquilo que é meu direito – a cidadania, tornou-se crime na cidade universitária.

 

Foto de Marcelo Mendes

 

Anunciando-se disposta a avançar no princípio da diversidade, a partir do processo da implementação das cotas raciais, a instituição se enrosca numa contradição quando pune os negros que lutaram para que isso se tornasse possível. Sinto que, tanto eu, como o Guilherme, estamos sendo desqualificados e silenciados por nos arriscarmos em nos defender ou não aceitarmos esses processos calados. A troco da conveniência com práticas racistas que acontecem por aqui até hoje, a administração não se pronunciou sobre as denúncias feitas pelos estudantes junto ao ministério público, através de um dossiê que compilava uma série de atos racistas por parte de docentes. Diga-se de passagem, a antiga gestão da reitoria deu um fim nesse documento. Vale lembrar também que, recentemente, em resposta a aprovação das cotas, o professor do curso de Medicina, Paulo Palma, afirmou que estar-se-ia “trocando cérebro por nádegas”, com a implementação da nova política de ação afirmativa e a reitoria se manifestou, apenas, dizendo que tomaria “medidas cabíveis”… para um crime previsto na constituição federal. Será que Paulo Palma receberá apenas uma advertência, ou será alvo de um processo como o que sofro?

Além dessa pergunta, outra me tem vindo a mente: Qual a moral da UNICAMP para me julgar? A de uma universidade que trata casos de fraudes em bancas de concursos cometidas pelos docentes com trinta dias de afastamento e pune um estudante negro por lutar pela melhoria do ensino público com um ano de suspensão? A aprovação do princípio de cotas raciais foi um passo no reconhecimento de que o racismo é um problema que limita as oportunidades e a mobilidade social dos negros, mas, mesmo adotando essa política pública de ação afirmativa a UNICAMP não deixa de ser racista e reprodutora do racismo estrutural e institucional. Ao adotar a postura de “neutralidade” quando casos de discriminação racial aparecem no ambiente acadêmico, a instituição demonstra claramente qual o tratamento que dará para os racistas meritocratas que se julgam acima da lei nesse espaço.

 

…recentemente, em resposta a aprovação das cotas, o professor do curso de Medicina, Paulo Palma, afirmou que estar-se-ia “trocando cérebro por nádegas” (…) a reitoria se manifestou, apenas, dizendo que tomaria “medidas cabíveis” para um crime previsto na constituição federal. Será que Paulo Palma receberá apenas uma advertência, ou será alvo de um processo como o que sofro?

 

A Universidade de Campinas precisa entender que é necessário combater o racismo e todas as suas formas de reprodução, inclusive àqueles para além dos limites de suas cercas, com a mesma agressividade que trata as punições que afetam os estudantes que lutaram pela implementação das cotas raciais. Enquanto o meu processo disciplinar se desenrola eu sigo na batalha por uma universidade com uma população negra que não seja sub-representada nesse espaço feito para os brancos, espaço elitista, burguês e cheio de crueldades onde a cor da minha pele é fator determinante para o percurso que o meu processo irá tomar aqui dentro. Fala-se muito em democracia, em justiça, em oportunidade social, mas isso aqui dentro é quase que falácia enquanto essa balança das punições pender sempre para o mesmo lado: o dos estudantes negros!

 

*Graduando em Música pelo Instituto de Artes da Unicamp, militante do movimento Estudantil e do Movimento Negro.

 


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Mulheres

A louca e a puta

** POR LUARA COLPA*

Ontem na festinha um cara ficou me olhando muito, desagradável.
Fui dançar mais pra frente, ele seguiu.. comentou com os amigos e ficou fazendo aquela cara ridícula de sedução que os héteros fazem.
Desprezei.

Não passou 5 minutos apareceu a sua companheira. Como prevíamos.
Ela o abraçou por trás e olhou pra mim. Como prevíamos.
Fui pra mais longe ainda.
Quando saí do banheiro ele estava lá com um canudo idiota na boca em câmera lenta me olhando.
Olhei pra cima e a moça viu a cena.
Peguei minhas coisas e fui embora.

O resto da história: a moça vai ficar chateada com razão, vai brigar.
O camarada vai dizer que não fez nada e que ela está louca. Vai argumentar que ‘não aguenta ciumera’ e que se for isso ele ‘sai fora’.
Vai falar com soberba e desprezo com uma narrativa que a ponha em dúvida.

Ela vai duvidar de si e me ver como inimiga.
Talvez chore. Talvez só fique um pouco quieta.
Vão se abraçar e transar/dormir.

Se eu aparecer novamente numa outra festa, a moça vai ficar insegura.. e o ciclo de repete.

Pra sociedade eu sou a puta
Ela é a louca, ciumenta, fraca.
Ele é só um homem.

E assim segue o ciclo. Eu a entendo. Também sou a louca, ciumenta, fraca… ou puta.
Se eu tivesse falado alto com ele, se eu tivesse falado com ela. Se ela tivesse apelado com ele, ou até terminado o raio do namoro..
Ainda assim seríamos: a louca e a puta.
O homem é sempre o homem.

______________________________________________________________________________________________________
Luara Colpa tem 29 anos, é brasileira e colunista no BHAZ. É mulher em um país patriarcal e oligárquico. Feminista e militante por conseguinte. Estuda Direito do Trabalhador e o que sente, escreve.


 

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Intolerância racismo

“Vou doar uma rola branca” e “Por mim, morrem de fome”: ódio e racismo contra campanha da Uneafro

 

Campanha de financiamento coletivo para trabalho educacional do movimento Uneafro-Brasil, fez transbordar ódio e racismo em redes sociais, mas também provoca solidariedade e apoio. Organização promete denunciar agressores.

 

Por Douglas Belchior

 

Não faltaram manifestações de intolerância e ódio na reação de dezenas de internautas à campanha de financiamento coletivo  da Uneafro-Brasil, organização que se dedica à enfrentar o racismo através da educação popular nas periferias de São Paulo e do Brasil. Há poucos dias do fim da campanha, que segue até 28 de junho, uma coleção de pérolas do cancioneiro ultraconservador, racista, xenófobo, machista e sexista, próprio destes tempos de intolerância política, transbordaram nas redes sociais. “Entre o silêncio dos bons e o escândalo dos maus, esperamos que o exemplo de Luther King prevaleça”, diz Rosangela Martins, coordenadora do movimento.

 

“Mas a o solidariedade vai superar o ódio”

Antes embrulhar o estômago dos leitores com a necessária exposição das manifestações de ódio e intolerância e seus autores, é preciso dizer: a solidariedade de centenas de apoiadores está superando a contra-campanha de grupos fascistas que, de maneira organizada, atacam a campanha da Uneafro. “Apesar das dificuldades, ultrapassamos os 70% do total a ser arrecadado”, diz Carol Fonseca, que foi aluna da Uneafro, chegou à universidade, se formou em Serviço Social e hoje é coordenadora da organização. A campanha visa arrecadar 59 mil reais para manter o trabalho do escritório central do movimento até o final do ano de 2017, além de propiciar a produção de um material didático para formação dos estudantes dos cursinhos comunitários. Faltam poucos dias para o fim da campanha e as colaborações podem ser feitas por este link: catarse/uneafrobrasil

 

 

O ódio racista de sempre, mais explícito que nunca

As amigas Preta Rara e Renata Prado, artistas negras e ativistas nacionalmente reconhecidas, o professor de comunicação da USP, Dennis Oliveira, o poeta Sergio Vaz, o ator Wagner Moura, o líder do MTST Guilherme Boulos e as lideranças políticas de refugiados africanos e sírios no Brasil, Jean Katumba e Abdulbaset Jarour, gravaram vídeos de apoio à campanha. Haters, bolsominions e fascistas de toda estirpe não economizaram ofensas e ameaças. Algumas, absurdas como de costume.

 

Apoio que custa caro. Mas vale a pena!

Wagner Moura, por colocar sua fama a serviço de causas sociais e humanitárias, sofre ataques de todo tipo, como esses abaixo. Talvez por isso prefira ficar fora do mundo das redes sociais, espaço onde não mantém contas e perfis. Tem motivos pra isso.

O internauta Henrique Sergio, que em seu perfil no facebook exalta santos e referências religiosas, não se constrangeu em oferecer sua genitália ariana ao reagir ao vídeo de Moura. Que pecado, hein!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Intolerância e ameaças

Guilherme Boulos, líder do Movimento dos Sem Teto e da Frente Povo Sem Medo é outro que provoca a histeria deste tipo de público. “Pode sim, conseguir uma surra se alguém te achar na rua, seu FDP”, ameaça Clésio Ribas, um clássico cidadão de bem. “Vou colaborar com um canhão voltado para vagabundos”, diz Silvio Soares de Barros, entre outras ofensas gratuitas e próprias da superfície de uma valeta em dia de chuva:

 

 

Racismo e Xenofobia

A xenofobia do miscigenado povo brasileiro talvez seja a maior das contradições do conservadorismo nacional. Coerência é luxo! Os vídeos do diretor da Ong África do Coração, o congolês Jean Katumba e de seu colega Abdulbaset Jarour, refugiado Sírio de Alepo fez cair a máscara da hipocrisia e transbordar ódio e ignorância de vários internautas. Roger Mackay mitou, lacrou e tudo o mais que o aproxima de um ser desprezível:

 

” Por que só vem imigrantes fudidos pra cá, só gente miserável, estamos de braços abertos pra receber imigrantes, mais não esses terroristas do oriente médio, queremos os imigrantes japoneses que tanto contribuíram para nossa agricultura, queremos os imigrantes alemães, italianos que tem coragem de trabalhar, duvido se esses tais imigrantes que vcs trazer vão pegar no pesado, vão encostar em algum canto e receber algum tipo de bolsa imigração pra nós trouxas de sempre tá ajudando a sustentar.

#VAOEMBORA #NAOGOSTAMOSDEVCS “

 

O internauta vomita valores e pressupostos escravocratas que teimam em permear nossa sociabilidade. Não há surpresa, apenas a certeza de que esse tipo de pensamento, fomentado pelos grandes meios de comunicação e politicamente utilizado pelos grupos que conformam o apoio ao atual governo, endossa toda a violência e desumanização que vitima historicamente a população negra, indígena e periférica. Realidade a qual o projeto proposto pela Uneafro se atreve enfrentar. Aqui o link do perfil do nobre Roger Mackay, caso interesse a alguém.

 

Mackay não está sozinho. Em dezenas de outros posts, conteúdos similares, sejam formulando novas escrotices, sejam apoiando ideias fascistas, como fizeram Marcilio Pereira, “Tá horrível pra sustentar vagabundo nascido aqui, agora vem os de fora ainda”, e Paulo Sergio Aparecido Moreira, “Esse povo são considerados pragas em seus países(…) Daqui uns dias eles vai (sic) tomar o Brasil”

 

 

Nós, que construímos o dia a dia do movimento Uneafro, refletimos um bom tempo antes de decidir fazer essa postagem. A fizemos justamente para que a permanência e a repetição destes tipos de manifestações não se naturalizem, pelo contrário, que continuem a nos provocar enjoo, revolta e solidariedade entre os nossos.

 


 

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Cultura Filosofia Formação

“Com certeza sou mais um marginalizado”: uma conversa com o autor de Cartas estudantis

 

“As Cartas Estudantis só têm essa proximidade com a política porque suas personagens estão implicadas no mundo social, trata-se de uma estudante e um “ex-estudante”. Agora, é inegável minha aproximação com a política, sou militante da Uneafro e comunista“.

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Debate

Nas periferias, o saber acadêmico, as vivências de artistas populares e ativistas sociais tem o mesmo peso

 

Por Negrume

UNI DIVERSIDADE DE SABERES é um espaço de troca, vivências e práticas em torno da produção de conhecimento com foco em Território, Participação Social / Direitos Humanos, Economia e Comunicação Popular.

Cada encontro da UniDiversidade é organizado em roda, de forma que saberes acadêmicos terão o mesmo peso que griots, militantes de movimentos sociais, pesquisadorxs independentes e artistas. A ideia é que cada encontro seja um escambo, troca entre diferentes saberes sobre um mesmo tema ou assunto. Os escambos acontecem todas as quartas-feiras com inicio às 19h, em 4 regiões periféricas da cidade.

Próximos Encontros:

14/06/2017 | 19h | ZONA LESTE

Tema: ECONOMIA: Racismo e a exclusão do negro no mercado de trabalho livre
Convidados (as):
MARCIO FARIAS, membro do Nutas (Núcleo de Pesquisa, trabalho e ação social) e do Nepafro (Núcleo de Estudos e pesquisas Afro-Americanas.
KATIARA OLIVEIRA, militante da Frente Alternativa Preta e da organização Preta Kilombagem.

Organização: Fórum de Cultura da Zona Leste
Local: Okupação Cultural Coragem
Endereço: Rua Vicente Avelar, 53 – Cohab II – Itaquera (Fica a 10 min andando da estação de trem José Bonifácio

21/06/2017 | 19h | ZONA SUL

Tema: LUTAS POPULARES E DIREITOS HUMANOS
Organização: Brechoteca Biblioteca Popular
Local: EMEF Dr. Sócrates
Endereço: Rua Professora Nina Stocco, 570 – Jd. Catanduva (próximo ao Bradesco da Estrada do Campo Limpo, altura do número 4500)

28/06/2017 | 19h | ZONA NORTE

Tema: COMUNICAÇÃO
Organização: Casa no Meio do Mundo
Local: Escola Estadual Victor dos Santos Cunha
Endereço: Av. João Simão de Castro, 180 – Vila Sabrina

05/07/2017 | 19h | ZONA NOROESTE

Tema: CULTURA, POLÍTICA E TERRITÓRIO
Organização/Local: Comunidade Quilombaque
Endereço: Travessa Cambaratiba, 05 – Perus (Próximo a estação de trem Perus)

 

OBS.: Devido ao 1º Seminário Internacional de Juventudes e Vulnerabilidades, o encontro na noroeste foi cancelado e transferido para o mês de julho.

Seguimos!

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Mobilização

Carta às historiadoras e aos historiadores do futuro: “negros” não são etc.

 

 

Foto de Rafael Kennedy

 

Por

Taina Aparecida Silva Santos – Graduanda em História no IFCH/Unicamp – Militante do movimento negros do movimento de mulheres negras da cidade de Campinas e Bruno Nzinga Ribeiro – Graduando em Ciências Sociais no IFCH/Unicamp/Militante dos movimentos negro e LGBT.

 

Na última terça-feira, dia 30 de maio, o movimento negro brasileiro teve uma vitória histórica marcada pela adoção das cotas raciais e sociais no sistema de ingresso dos cursos de graduação da Universidade Estadual de Campinas. Passada quase uma semana do ocorrido, nos vem à mente algumas lições sobre história e memória das quais nos lembra o historiador Thomas C. Holt. Segundo ele, o cotidiano é o campo no qual os indivíduos aplicam os seus meios (Cf. HOLT, Thomas C. Race, race-Makingandwritingofhistory. In: The American HistoricalReview, vol. 100, n. 1, Feb. 1995), e, haja vista as já demonstradas seletividades nas narrativas em torno da luta pela implementação das cotas na Unicamp, podemos enxergar algumas facetas do racismo que permeiam a nossa vida social, o imaginário coletivo e que continuam demonstrando o quanto a reivindicação de um protagonismo negro ainda é vista como um problema. Dessa maneira, entre alguns alertas, gostaríamos deixar um recado para os historiadores e historiadoras do futuro: nem todos os nossos contemporâneos que se sensibilizam com a necessidade das cotas raciais no Brasil estão comprometidos com a derrocada da desnaturalização de ideias e práticas racistas. Esses indivíduos podem ser simpáticos e polidos; podem se esforçar para se comportarem bem quando andam entre nós, entretanto, isso não significa, ainda, que estamos vivendo uma “primavera negra” na bolha campineira.

Muitas e muitos ainda comemoram em ares de triunfo uma greve que terminou vitoriosa. É óbvio, mas não parece, que um número considerável de negras e negros, infelizmente, têm pagado caro, há anos, para que isso se tornasse possível. Alguns com sua vida ou a saúde mental, outros com o comprometimento da realização dos seus trabalhos de pesquisa, e outros tendo seus sonhos ameaçados a troco de uma punição “exemplar”. Entretanto, quando se conta a história do triunfo sem as pessoas, ela simplesmente se embranquece e, num contexto em que a implementação das cotas na Unicamp representa uma vitória não só para o movimento negro, mas também para a esquerda, que pouco contribuiu nesse processo, as memórias sobre ocorrido se dão de maneira bem seletiva apagando a história da presença negra e fazendo ode à branquitude convertida e ressentida pelo privilégio que possui. Enquanto isso, um ou outro negro é lembrado e os outros virão etc.

A indiferença perceptível em relação em relação à existência de um Núcleo de Consciência Negra na Unicamp e até de um movimento negro organizado não só no Brasil, mas na cidade de Campinas faz coro aos agradecimentos e saudações àqueles que permaneceram agarrados ao conforto da branquitude até não ter mais escolha a não ser se posicionar em relação a necessidade de implementação da política de cotas em um dos bastiões do atraso do ensino superior público brasileiro. De maneira que, fica difícil não nos incomodarmos com comentários desonestos, oportunistas e algumas notas que mais têm puxado sardinha para algumas organizações que pouco contribuíram para que uma mudança como essa fosse possível e ainda têm comprometimento limitado no que se refere ao combate ao racismo. Algo grave, pois, se há um ensinamento que a história social nos proporciona é que basta suprimir a existência de algumas pessoas e, consequentemente, as experiências cotidianas nas quais elas estavam inseridas, que está feito um silêncio na história.

O descaso de que falamos é tamanho que, recentemente, ao participarmos da organização de um atividade sobre cotas a convite de uma associação que atua na universidade, quando propomos que um dos integrantes do grupo de estudantes negros participasse do debate foi dito que era necessário checar se algum de nós “estávamos à altura” para estar entre as debatedoras e debatedores. E, apenas para fins de registro, essas palavras vieram da boca de um desses doutores de esquerda que ainda a alegava a necessidade de ser convencido que as cotas eram algo importante para universidade. Mas, enfim “deixa para lá, né???? É só o jeito dele lidar com conformações políticas contemporâneas”.

Outra memória que não pode passar em branco para as futuras análises das historiadoras e historiadores do futuro, é um evento que se passou no Festival Pela Implementação das Cotas na Unicamp, que ocorreu no dia 29 de março. Ao lado da Frente Pró-Cotas da Unicamp, fizemos uma campanha financeira, na qual uma série de pessoas, sindicatos, entidades estudantis e etc. contribuíram para que pudéssemos bancar a estrutura do evento. As parcerias estavam muito boas, até que um dos membros da União Estadual dos Estudantes – UEE, usou das mais diversas formas da ignorância para impossibilitar nosso contato com uma das artistas e no meio do show dela, além de estender a bandeira desse grupo político sobre as caixas de som que estavam no palco, pediu para que artista agradecesse exclusivamente à organização que ele fazia parte. “E o empenho dos ‘negros’?” Se perguntarão os historiadores do futuro! Não queremos jogar um balde de água fria, mas informamos que não foi algo lembrado naquele momento, da mesma forma que o rapaz também não lembrou que a organização dele contribuiu com, apenas, um quarto do dinheiro que conseguimos arrecadar para realização do festival e do ato que ocorreu no dia 30. E, mais uma vez, só para fins de registro, isso ocorreu após uma atividade do Festival que tinha como intuito contar a história de Raquel Trindade, uma das pioneiras na discussão de cotas na Unicamp, que contou com alguns dos nossos mais velhos que há anos se dedicam a manter de pé o movimento negro de na cidade de Campinas.

Caras historiadoras e caros historiadores, à primeira vista, quem lança os olhos sobre a acalorada discussão no conselho universitário, pode imaginar que a luta pelas cotas se deu em uma disputa com o alto escalão e a burocracia universitária. Doce engano! O grosso do problema não foi a elite universitária, mas, sim, o que ela exalava nos campi da Unicamp. A preocupação com a “excelência acadêmica” parecia justificar a ausência de parte significativa da população pobre, negra e indígena, o orgulho “unicamper” era um perfume impregnado nas roupas dos playboys que viam seus lugares na Unicamp, como um direito natural e inalienável. Na contramão deste pensamento, disputamos consciências e questionamos a genialidade e o mérito de quem sempre teve acesso a tudo, e que insistiam em nos colocar em uma posição de igualdade com argumentos de que “somos todos humanos”, como se partíssemos de lugares semelhantes, de um mesmo ponto de partida.

 

Foto de Rafael Kennedy

Após muitas atividades, desde a greve de 2016, a política central da movimentação política feita pelos estudantes da Unicamp (não colocamos os movimentos estudantis, pois parte considerável brota apenas nos momentos de campanha para o DCE) foi a reivindicação das cotas. Esta terra, que parece dar os primeiros frutos em 2019 (ano que deve chegar os primeiros estudantes cotistas), foi preparada há alguns anos com a criação do Núcleo de Consciência Negra da Unicamp e da Frente Pró-cotas da Unicamp.  Ressalta-se a dificuldade de sensibilização do conjunto dos estudantes, sobretudo das entidades estudantis que sempre se colocaram como barreiras, seja com a falácia de que cotas era algo trivial ou como verdadeiros embustes que atravancavam as discussões e decisões. Nós do Núcleo de Consciência Negra da Unicamp fomos apontados como “reformistas”, “apoiadores da reitoria”, “movimentos cooptados pelo PT” e até mesmo chamado de fascistas por: ousarmos disputar assembleias sem estar ligados a partidos políticos; apontar as manobras e burocratização no movimento; elevar o nível do debate, não nos contentando com a  leitura de panfletos essencializadores; reivindicar lugar na mesa de negociação quando as discussões girassem em torno das pautas de acesso e permanência; propor as cotas como tarefa central, entendendo que o reitor, sob nenhuma circunstância, poderia implementar as cotas sem consentimento do Conselho Universitário, logo propor as audiências e uma institucionalização desta discussão, ao lado da mobilização dos estudantes e por fim, ter legitimidade e confiança dos estudantes e dos movimentos sociais da cidade.

Historiadores do futuro, as próprias lacunas e omissões dizem muito sobre este processo e sobre as nossas estruturas sociais. Não à toa, o esquecimento/apagamento de intelectuais como Virginia Leone Bicudo, mulher negra que trouxe a psicanálise para o Brasil e produziu um belíssimo texto no Projeto Unesco ou Ruth Landes, judia norte-americana que, na década de 40, escreveu sobre a presença de homossexuais em cultos afro-brasileiros no Brasil, ousando adentrar em uma área de estudos dominados por homens brancos – os “Estudos do Negro”- nos informam sobre a necessidade de criar nossas próprias narrativas. Narrativas de presenças e não de sombras, pois o racismo e o sexismo ignoram, amenizam ou, como nas palavras de Janaina Damasceno, acinzentam as nossas trajetórias.

Como já foi dito, nós viemos para bagunçar os lugares da mesa. “Nós”, neste contexto, queremos nossos verdadeiros iguais por aqui. “Nós” temos nomes, “nós” temos cor. “Nós” não nos calamos diante de narrativas que nos retirem de cena. Na medida em que não é razoável ter uma bicha preta de vestido curto no conselho universitário, diante de olhares furiosos, se fazendo presente com a maior quantidade de falas e com os mais longos discursos, ter um estudante negro que enfrenta uma suspenção e decide estar presente na frente de quem sustenta tal injustiça ou ter uma representante dos movimentos negros da cidade lutando pelas cotas em um lugar tão hostil, por exemplo, sendo “esquecidos” nos relatos, resumos e créditos desta conquista, sendo que pessoas que repetem o que dizemos há anos e sequer abrem a boca, e até mesmo o novo reitor são fortemente parabenizados por uma falaciosa “heroica atuação em defesa da diversidade”.

Por fim, vale a pena repetir que nossos questionamentos ocorrem no contexto da conquista das cotas étnico-racias em uma universidade que se vangloria como sendo “de ponta”, mas, que ainda assim, admitiu a ausência de argumentos qualificados em um debate tão importante, uma nítida concessão à brancura.Por isso, é preciso compreender que em termos de epistemologia, nossa luta ainda está longe de acabar: a uma semana da votação no conselho universitário, nós, negras e negros, por mais vitoriosos e competentes precisamos, infelizmente, registrar que não seremos complacentes com narrativas que nos coloquem como “e-t-ceteras” da história e nos lancem para as pequeníssimas e raramente-lidas notas de rodapé!

Saudações do nosso tempo de Bruno Nzinga Ribeiro e Taina Aparecida Silva Santos.

Campinas, 06 de junho de 2017

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Política

Uma Frente Ampla e Nacional por novos rumos para o país, sem pretas e pretos. É isso mesmo, produção?

 

Por Douglas Belchior

 

Eu havia acabado de postar um vídeo, que só fiz por se tratar do assunto mais grave do país: O escandaloso número de homicídios e do genocídio negro (http://zip.net/bvtKVC). Postei com receio de ter pegado pesado com os primos de esquerda (como eu). Mas em seguida tomei conhecimento da notícia de uma iniciativa que avalio importante: Frente Ampla Nacional Pelas Diretas Já. Li e Desacreditei (http://bit.ly/2rNLIbu). Uma Nota sobre a conjuntura do País e a necessidade de Eleições Diretas (termos com os quais concordo integralmente). 53 assinaturas. 53 organizações. 53 entidades, todas ou quase todas, do chamado “campo progressista brasileiro” ou da “esquerda brasileira”. Dentre elas, nenhuma organização negra. É certo que havia pessoas negras no encontro – vi a foto -, e é certo que cada uma das 53 siglas reunidas, cada uma delas, tem seu cômodo reservado para negros “lá em casa”. Mas ali, representando politicamente o segmento maior, diga-se de passagem, 54% da população brasileira, não, nenhum, nem mesmo as mais tradicionais como MNU, CONEN, UNEGRO, CNAB, CEN, APN’s, CONAQ, entre outras, nenhuma meu pai Oxalá, nada! Nenhumazinha para que eu não me sentisse obrigado a vir aqui escrever esse texto com a dor de quem delata o próprio pai.

Não é possível que à esta altura, os companheiros – e mantenho o gênero masculino aqui propositadamente, porque pelo que vi, apenas duas organizações de mulheres estavam presentes – não se atenham para a importância do debate racial como estruturante dos problemas brasileiros. E antes que algum vermelho caia na tentação coxinha de me acusar de mimimi vitimista, não me refiro ao simples fato de estar ou não na reunião, até porque, pessoalmente, repito, tenho acordo com o conteúdo da Nota e da iniciativa. Ocorre que configura profunda falta de sensibilidade o fato de que, quando se promove ações públicas, debates, mesas, manifestações, a presença negra passou a ser – por conquista nossa – regra. Mesmo que a contra gosto. O medo do constrangimento público, muitas vezes bem maior que a sincera percepção da importância política, leva organizações negras a serem convidadas a participar de desses momentos. Nenhum ato público da esquerda brasileira, nesta quadra da história, será legítimo se não endossado pela presença negra. Artistas negros mobilizam público e criam o vínculo de identidade (conceito tão criticado pelas esquerdas) com o povo e simbolizam resistência política e cultural; Lideranças, militantes e ativistas negras/os legitimam politicamente as atividades e manifestações de esquerda. Eu mesmo, incontáveis vezes, me prestei a esse serviço. Mas o espaço de formulação da macro-política, de debate sobre um projeto de país, a direção e as decisões políticas de fato, continuam territórios de privilégio branco, latifúndio a ser ocupado por negras/os.

Piada infame, diz-se que não há negros nas listas da operação Lava Jato. Se procurar, talvez até encontre no quinto ou sexto escalão da porra toda. Mulheres, quando envolvidas, quase sempre na condição de cúmplices de seus maridos. Reclamação legítima, não por se desejar negras/os no mais alto escalão da criminalidade e da canalhice nacional. Mas por perceber a prova real ao fato de que negros e mulheres não habitam os espaços dos grandes negócios e da jogatina do poder. Triste, mas é isso, em que pese a construção no imaginário coletivo de que bandido, ladrão e traficante espelham o contrário do terno, da gravata e da pele alva. Guardada a medida, mas sem medo de ofender, a mesma lógica se aplica às esquerdas, já que, muito embora a maior parte dos movimentos populares, sindicatos e partidos de esquerda existam em função de causas da população mais pobre, logo, povo majoritariamente preto, suas direções estão muito longe de representar as bases, se não, imaginem: assalariados formais, trabalhadores informais e precarizados, desempregados, domésticas, camponeses, favelados, moradores em situação de rua, entre outros, ou, com o termo que mais contemplam: a própria classe trabalhadora.

Ora, perguntaria um ortodoxo qualquer, porque então não há uma grande organização negra, um grande e estruturado movimento negro no Brasil? Por que não há um movimento que por si só seria lembrado para momentos ricos de formulação de política ou iniciativas nacionais como a reclamada aqui? Por quê? E outro incrédulo responderia: Culpa dos próprios pretos! Sem competência para construir suas próprias organizações representativas, seus próprios sindicatos ou partidos, incapazes de eleger seus representantes, afinal, o que adianta ser maioria desorganizada, não é mesmo?

A miscigenação, a democracia racial e a permanente negação da plena humanidade da gente negra ou, com o termo apropriado: o racismo nu e cru, levou as organizações negras e suas lideranças a serem diluídas nas estruturas brancas, tornando-as – organizações e pessoas – dependentes das estruturas e da benevolência dos brancos. E ainda é assim. Mas não por muito tempo.

É provável que alguém tenha coragem de dizer em voz alta o que sussurram nos corredores, banheiros e reuniões fechadas: isso é divisionismo: “Absurdo que num momento de crise tão aguda e de necessária e unidade dos que lutam, tenhamos q debater coisas menores ou provocar debates desnecessários”. Nesse caso eu teria que lembrar que já convivemos com o “divisionismo” da vida real. Um mundo dividido entre os trabalhadores que nunca tiveram carteira assinada ou que já sofrem há anos com a terceirização do trabalho, ante aqueles que correm o risco de perder isso só agora; o divisionismo dos jovens que reclamam balas de borrachas ante aqueles que silenciam a morte prematura nas periferias ou ainda o divisionismo dos presos políticos provisórios e bem defendidos ante os presos comuns, portadores de pinho sol e excesso de melanina. Ou os dois. Sim, eu devolveria a acusação, lembrando que para gritar “Fora Temer” e “Diretas Já”, palavras de ordem que concordo e à plenos pulmões repito, é preciso estar vivo e livre, condição sobre a qual o divisionismo racial opera radicalmente, vide o Atlas da Violência sobre o qual tratei no vídeo citado acima.

Ainda assim, há quem possa dizer: “O encontro foi aberto! Participou quem quis.” Mas onde fora noticiado? Ou não. O encontro foi fechado para convidados. Movimentos negros não foram convidados? Se foram convidados, porque não estavam? Se não puderam estar, porque não puderam? Nenhuma pôde? São muitas as situações que levam à ausência do seguimento negro nos espaços de poder e decisão. Tais condições estão além da boa vontade de quem promove a ação. A isso chamamos racismo estrutural. Tudo leva à invisibilidade negra, à ausência natural desta representação. Para enfrentar esse fenômeno são necessárias práticas. É sobre isso que escrevo aqui.

Printei. Achei que a qualquer momento alguém iria perceber a insanidade e corrigir o documento. 53 organizações. Apenas duas representativas de mulheres. Nenhuma de pretos/as. Nenhuma indígena. Nenhuma LGBTQIA. E chamam isso de Frente Ampla e Nacional. Mas de qual país?

 

É possível que a qualquer momento uma ou outra organização negra venha a público tentar mediação ou dizer que houve um engano, que estava presente mas que não foi relatada, que foi convidada mas não pode estar presente ou coisa assim. Não duvido. Mas se forem sinceros consigo mesmo e com a causa que representam, o melhor caminho seria uma articulação unitária de todas as organizações, entidades, coletivos e personalidades negras do país para exigir um novo pacto racial no campo da esquerda. Este termo, cujo qual peço licença à Sueli Carneiro, proferida em sua recente entrevista à revista Cult, quando fala da necessidade de “um novo pacto racial, que destitua as hegemonias que o racismo e o sexismo construíram, e isso é urgente para a esquerda compreender, na medida em que nós não queremos mais que ninguém fale em nosso nome”.

Esse pacto, obviamente, só será possível no campo da esquerda, uma vez que da direita, racista, patriarcal e escravagista nada se espera. Espera-se, isso sim, do lugar de onde somos pela própria natureza, dos que se organizam ao lado dos historicamente oprimidos. No entanto, em uma nova condição, não mais apenas como a massa liderada, tampouco como um grupo que se contenta com a partilha ou a integração, embora nem a isso tenhamos experimentado. O que se almeja nestes tempos é, com as palavras de Érica Malunguinho – essa sim, liderança nata de seu povo (se não conhece, procure conhecer), “o pleno exercício democrático da alternância de poder”. E lá se foram 517 anos. Que venham então, os próximos! Mas o que os primos acham disso?

Sei do custo de posicionamentos como este. Isolamento, desqualificação, ostracismo. Muitos dos nossos viveram isso e, de alguma maneira já experimento esse gosto junto ao partido que milito. E justamente pelo atrevimento de fazer apontamentos semelhantes aos que relato aqui. A História dirá.

Para quem suportou ler até aqui, acho importante que saibam que esse relato é bastante pessoal mesmo. Sou dos que defendem partidos, sindicatos, valorizo e construo as Frentes que hoje dirigem a luta política em nosso campo. Mas não me parece respeitosa a forma como tratam a representação política negra nesses espaços. E digo isso fraternalmente, como alguém que acredita na luta coletiva. Não sou essencialista. Solano Trindade nos ensina: “Nem todo branco é inimigo, nem todo negro é aliado, companheiro é aquele que luta ao nosso lado”. Tenho plena consciência de que a questão racial não dá conta de todos os problemas brasileiros. Mas nenhum problema brasileiro será resolvido se não perpassar por essa questão. Reivindico posições de esquerda, seus pressupostos, seus valores. Humanidade, solidariedade, respeito, cuidado, partilha, justiça, igualdade, diversidade e tudo isso produzido e empregado aos oprimidos pela História, no caso brasileiro, povo negro-indígena, seguido dos pobres de todas as cores. De maneira que me resta dizer aos que heroicamente, e o faço com respeito, se dedicam à construção de uma alternativa popular para o Brasil que, ou a esquerda será negra, ou não será esquerda.

 

 

 


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