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Filosofia Formação Nazi-fascismo

O que explica o crescimento da direita?

Por Douglas Rodrigues Barros[1]

 

Semana passada um instigante e detalhado artigo publicado no The intercept Brazil[2] trouxe à tona aquilo que intuíamos, mas que, não obstante, carecia de um estudo mínimo que desse nome aos bois. O bom trabalho jornalístico de Lee Fang cumpre uma lacuna existente entre a forma aparente da atuação da direita – os meios de divulgação, a violência implicitamente contida nas suas mensagens, o trabalho de distorcer conceitos e fatos históricos, etc. – e sua estruturação material fornecida por grandes grupos empresariais, por meio dos think tanks financiados pelo Departamento de Estado e o National Endowment for Democracy (Fundação Nacional para a Democracia – NED), braço crucial do soft power norte-americano.

Todos aqueles que se preocupam com o caráter de desagregação social levado adiante por essas organizações, que atuam na tentativa de pulverização das forças políticas instituídas para engendrar uma abertura ao capital financeiro, deveriam ler este artigo que desnuda a atuação e financiamento de várias forças da direita – de conservadores à extrema direita – além do próprio MBL, Instituto Millenium et. caterva.

Com essa matéria, portanto, fica evidente que as formas de atuação da burguesia para deter avanços contrários aos seus interesses permanecem seguindo a fórmula de financiar sabujos que rezam seu credo, como as palavras de Schüler[3] deixam transluzir:  “O sistema previdenciário é absurdo, e eu privatizaria toda a educação”. Vale ressaltar ainda que a matéria surgiu coincidentemente na mesma semana em que a extrema direita estadunidense fez uma vítima fatal e, numa demonstração horrenda, acenderam tochas aquecendo todos os velhos fantasmas que o multiculturalismo identitário não conseguiu exorcizar.

Apesar dos elogios que faço ao artigo, entretanto, há duas coisas que se distinguem nele que gostaria de trazer para discussão com os leitores. A meu ver, duas ocorrências incômodas, que fazem parte do modo como se configurou a disputa política e o debate no interior dos pressupostos da sociabilidade “neoliberal”.

Em primeiro lugar, o uso da palavra “política socialista” – socialismo como algo correspondente às políticas aplicadas pelo governo do PT e pelos governos dito de esquerda na América Latina – juntamente com a alcunha de “libertários” dada aqueles que creem na utopia de mercado. Em segundo lugar, a redução conceitual perpetrada pela direita por meio das excepcionais alterações semânticas que limitam a prática política. Falarei desses limites não necessariamente na ordem acima exposta.

A respeito do termo “libertário” é preciso salientar que a disputa por esse conceito – originário da esquerda radical – visa incutir a ideia de que liberdade só é possível no interior das relações de mercado. Essa prática de redobrar os conceitos e distorcê-los à sombra de políticas pintadas de escolhas subjetivas – tão denunciado pelo socialista George Orwell – é historicamente conhecida. Da mesma forma, tomar para si formas de ação que eram da esquerda – como sair as ruas, fazer ocupações de espaços, etc. – é uma prática que remete aos anos 1920-30. O leitor atento já deve reconhecer os protagonistas dessas ações, oculto o adjetivo para não gastar. A crença no mercado também não é coisa nova.

Desde que o capitalismo grassou no mundo, a utopia de mercado acompanhou seu desenvolvimento. A mão invisível de Adam Smith não seria aquela força utópica capaz de regular sob condições ideais uma alocação eficiente de recursos escassos? Já em 1848 quando as ruas de Paris ardiam pela revolução que entronou a burguesia bancária surgiriam os primeiros embates entre socialistas e liberais. Estes últimos, que tinha no Journal des Économistes sua expressão, condenavam os socialistas como aqueles que “que empurram os poderes públicos a adotarem medidas artificiais incoerentes, prejudiciais e ruinosas” (Journal des Économistes, 1848, p. 2). Nada tão diferente de hoje.

Nesse sentido, deve-se ter claro que aqueles que adotam o mercado como um deus a ser seguido, a despeito da tragédia diária que esta forma de sociabilidade proporciona, não devem ser entendidos como sujeitos egoístas, senão como indivíduos que acreditam que o mercado é o melhor para a sociedade. Parece, assim, ser mais interessante buscar os fundamentos dessa fé para depois no interior de suas “teses” desmontá-las.

Mesmo com o reforço dessa crença algo, não obstante, fugiu do controle da cúpula burguesa. Vimos que a crise iniciada em 2008 implodiu por dentro a teologia, mas quanto mais se desnuda o deus, mais desesperador para seus fiéis é a falta de sentido que daí advém e mais se agarram ao cadáver. Como um jogo de cartas assistiu-se no outono de 2008 a queda sequencial dos grandes bancos de investimento em Wall Street. Quando o Lehman Brothers ruiu sob a ficção solenemente produzida e vivida por seus investidores, apresentou-se, finalmente, uma nova esquina da história. Toda essa implosão tem, todavia, precedentes anteriores:

Na lengalenga do mercado como o melhor para a sociedade ninguém pôde garantir que os reinvestimentos feitos pelos capitalistas retornassem à expansão da produção. Como isso não era mais interessante dado o baixo retorno imediato que os investimentos teriam sobretudo depois dos anos 1970, o capital deixou de “gerar e internalizar a sua própria demanda efetiva”. O resultado dessa lógica foi o crescimento do famoso exército de reserva, horda de desempregados que no início do século XXI impôs a muitos trabalhadores as áreas precarizadas, o constante crescimento e expansão do processo de terceirização no Brasil.

O fenômeno da globalização trouxe um limite geográfico a expansão e manutenção da taxa de crescimento de capitais, a tecnologia por sua vez, colocou um limite social ao trabalho como fonte de manutenção do consumo e processo de circulação de mercadorias. Com todas as suas contradições, a centralização de capital e seu progresso se autonomizaram “do incremento positivo de capital social”.

A teologia do mercado, porém, financiada pela alta burguesia, sobrevivente a despeito de seu cataclismo, passou a fornecer ainda mais cultos, palestras e dinheiro para convencer das benesses e perenidade do capital. Destacado da produção real, porém, a acumulação de capital tornou-se fictícia e o seu caráter abstrato se sobressaiu sobre seu caráter concreto de geração e produção de riquezas.

Além dos aspectos materialmente traumáticos da crise – como a expulsão de famílias inteiras de seus lares que não podiam pagar suas hipotecas – ela poderia ser vista também como a quebra da ideologia dominante. Nos EUA o processo de favelização e a ruína de grandes cidades levaram os trabalhadores, diante do vazio de uma esquerda radical, para os braços neofascista. Não havia qualquer organização revolucionária a altura do processo revolucionário, o que abriu caminho para a extrema-direita e sua retórica belicosa.

Isso desnuda a utopia de mercado propagada como ferramenta da burguesia no tabuleiro da luta de classes. Nós, não obstante, assistimos indefesos os Estados salvarem os grandes capitalistas, isso a despeito da crença de seus fiéis que o Estado não deve intervir na Economia. Desse modo, um novo processo cujo impacto social é ainda mais grave começou a ser produzido ao redor do globo: o inchaço nas dívidas públicas.

Tal processo, já conhecido e visto até mesmo pelo bom burguês Thomas Piketty levou a resultados desastrosos: a taxa de rendimento do capital passou a ser por um longo período muito mais alta que o crescimento da economia, levando ao forte crescimento da desigualdade[4] e a oligarquização da economia. A crise tornou-se afinal um bom negócio tanto como forma de governo quanto para os investimentos.

Ademais, ainda sob influxo do vácuo gerado pela aniquilação do “socialismo realmente existente”, o imaginário político se prendeu cada vez mais as formas de gestão imposta pela “vitória” do capital.

No Brasil, como mostra Christian Gilioti, estávamos numa encruzilhada entre “a construção de uma Nova República, de tipo burguês, no entanto, comprometida com os direitos sociais e impulsionada democraticamente pelas massas operárias e pelos movimentos populares do campo e da cidade que se reorganizavam durante a “transição”, ou a absoluta sujeição ao regime neoliberal, inteiramente alinhado ao imperialismo dos EUA, cujas diretrizes gerais foram implementadas na Inglaterra por Margareth Tatcher, na década de 70, renovadas e consagradas em 1989, pelo Consenso de Washington[5]. Não se pode dizer que a nova república já nasceu com esses dispositivos latentes? Os anos 90 não foram marca distintiva de um processo cuja ausência de alternativa trouxe, em especial para América Latina, formas neoliberais de organização e estruturação produtiva algumas trajadas de políticas progressistas?

Vale ressaltar que as formulações do Consenso foram aquelas que impulsionaram as think tanks financiadas pela grande burguesia ao redor do globo. As organizações de direita passaram a atuar como braços propedêuticos da tentativa de um consenso social pró-mercado. Enquanto isso, a luta entre Capital/ trabalho encontrava aqui sua resolução na redemocratização que culminaria nos anos FHC e posteriormente no lulopetismo.

Como disse noutro lugar[6]: fora erguido um projeto determinante para a ofensiva do capital, qual seja: em primeiro lugar, a imposição de austeridade monetária com intuito de integrá-las às políticas de ajustes macroeconômicos. Em segundo, políticas que envolviam o sucateamento de serviços públicos para a construção de consenso sobre a eficiência da privatização. E acima de tudo um projeto nacional de conciliação de classes que imprimiria um retrocesso nas agendas das esquerdas institucionais.

Em suma, para essa esquerda não havia mais horizontes para além do Capital, ao mesmo tempo que, sua gerência dos recursos públicos esbarraria nos limites da crise facilitando os ataques da direita organizada. Anestesiados pelas formas de gestão política a distância das bases marcou o apogeu do maior partido de esquerda do mundo, abrindo caminho para as reacionárias igrejas neopentecostais, a ilusão com o consumo e a raiva contra qualquer posicionamento de esquerda.

Para esquerda que fora hegemonizada pelo PT – contrariamente a afirmação de Lee Fang não desenvolveu politicas socialistas senão algumas benesses que melhoravam a circulação e os investimento no capital nacional – perdia-se de vista qualquer possibilidade de uma transformação realmente emancipatória e efetiva, ou era cinicamente deixada para “a melhor hora”. Ao mesmo tempo distante da realidade efetiva, o pós-modernismo entrava em cena contra a totalidade “homogeneizadora e totalitária” do processo revolucionário e do conceito de classes.

Já estávamos jogando na casa do inimigo, agora, jogávamos com as regras do inimigo. Nossa própria gramática tornou-se a gramática do império e nossos limites estavam determinados pelo mercado. O apego a esses limites foi determinante para aquilo que Paulo Arantes sabiamente chamou de contrarrevolução sem revolução.

Nesse sentido, é preciso ter algo claro: 1) O PT e os governos de esquerda da América Latina não eram socialistas apesar de algumas medidas que realmente contribuíam para diminuição da desigualdade cujo caráter era francamente voltado para dinamizar a economia; 2) os libertários de mercado acreditam num deus que deixou claro que o laissez-faire leva a desagregação social. Ambos se tocam em sua crendice de se respeitar os limites do jogo. É preciso, pois, implodir esses limites baseado no formato imposto pelo inimigo histórico da classe, tarefa de uma organização revolucionária.

A falta de alternativas e adoções de uma postura realmente emancipatória por parte da esquerda, que amedrontada se refugia na negação de seus próprios fantasmas, está levando o mundo inteiro ao abismo.

Há ainda outro instigante texto intitulado Sobre a necessidade de se rebelar: apologia ao motim, crítica à revolução[7] de meu camarada Ramon Brandão que teço doravante algumas críticas por entender que nas entrelinhas desse artigo se oculta outro elemento de nossa fraqueza. O artigo em questão traduz uma postura sintomática que grassou e foi o paradoxo de grande parte da esquerda: a afirmação de microestruturas que pelo seu caráter “guerrilheiro” não são absorvidas.

Em todo texto, por mais original que soe ser, fantasmas circundam suas entrelinhas, vozes orquestram sua composição e teses de gente morta dão acabamento a sua forma. Nada diferente com o texto de Ramon, implicitamente a voz do conceito de história nietzsche-deleuziano se distende em suas linhas. Voz mais ou menos bronzeada pelo cientista político brasileiro que compreende a história no círculo mítico de um eterno retorno, “cada vez mais aprimorado, cada vez mais preciso, cada vez mais invisível e, por isso mesmo, cada vez mais presente”. Não obstante a teleologia que se encontra nessa percepção para não cairmos na crítica materialista vulgar tentemos ver aí o que tais pressupostos figuram.

Aos dezessetes anos influenciado pela filosofia “quase-hegeliana”[8], Nietzsche escrevia: “na medida que o homem é arrastado nos círculos da história universal, surge essa luta da vontade individual com a vontade geral; aqui se insinua este problema infinitamente importante, a questão do direito do indivíduo ao povo, do povo à humanidade, da humanidade ao mundo; aqui se acha também a relação fundamental entre fado e história”[9]. Tal relação permeia cem anos depois as linhas de Ramon; as agruras entre indivíduo e sociedade, entre sociedade e Estado, entre possibilidade de revolta e absorção se colocam entre o fado e a história.

É então que a suspensão, aquilo que chama de motim, é o único momento ambicionado por uma individualidade que necessita interromper a “maquinaria violenta” que congela qualquer potência de transformação. Nesse caso, anêmico, o motim seria a bebedeira e a revolução a ressaca.  Ao abordar a história e o Estado, porém, abstratamente, o argumento perde-se numa ótima retórica, de fato, bem construída e sensual. Mas, poderíamos igualmente cometer uma diabrura: e se invertêssemos a temática e apostássemos que o motim é aquilo que realmente é absorvido? Sabemos que o motim realizado numa prisão não constitui nenhuma emancipação senão melhores condições para continuar prisioneiro.

E, se talvez essa concepção fosse só um lampejo anêmico de alguma mudança que ao invés de barrar as estruturas do poder, dinamizam-na? Tal conclusão não corrobora com a ideia do próprio autor ao dizer que: “Ademais, em seus relâmpagos, tais experiências proporcionam vitalidade, intensidade e potência de maneira a transformar toda uma vida individualmente […] É aí, então, que aquela maquinaria com suas botas bem lustradas retorna – afinal, o eterno retorno é implacável – e percebem que algo mudou, que trocas e interações ocorreram nas experiências cotidianas e que isso, efetivamente, constituiu alguma diferença”. Alguma diferença em qual sentido? O eterno retorno é realmente um retorno?

Tais pressupostos não lembram o escarnio de Hegel ao avaliar as figuras do ativismo romântico chamado de lei do coração[10]? De um lado, a efetividade do Estado forja suas leis e costumes pela qual a individualidade é oprimida: uma ordem violenta no mundo. Por outro lado, existe uma humanidade que padece sob essa lei que não consegue seguir a lei do coração e está submetida a uma ordem estranha. Para a individualidade que busca no motim sua realização, essa efetividade aparece como uma lacuna entre sua individualidade e a verdade “de microcosmo ativo dos antigos sonhos de liberdade”.

Essa individualidade quer superar a necessidade que vai contra sua lei do coração. É a seriedade de um alto desígnio que procura seu prazer na produção do bem da humanidade e acredita que seu prazer é universal e está em todos os corações. A lei do Estado se opõe aos altos desígnios e, claramente, a humanidade não vive na unidade bem-aventurada, mas no sofrimento. Ora como o Estado está separado dessa individualidade é para ela somente uma aparência que deve perder o poder e a efetividade. O indivíduo amotinado busca então criar novos espaços e dispositivos para que “as transformações ganhem vida nos momentos de motim”.

Nessa efetivação, porém, aquilo que o motim buscou se realiza, ou seja, a lei do coração torna-se a própria relação que deveria ser superada, tal como presos que queriam colchões novos e o obtém para bom andamento do presídio. Por isso, deixa de ser lei do coração, pois, é absorvido em seus pressupostos pela universalidade do Estado, a qual esse coração é indiferente. Conclui Hegel: e o indivíduo ao estabelecer sua própria ordem não a enxerga como sua, a lei que o motim acabou de conquistar, o direito que acabou de legitimar aparece ao indivíduo amotinado como algo estranho.

E aqui a argumentação do Ramon Brandão exibe seu calcanhar de Aquiles: “nosso grande trunfo estará em nossa invisibilidade. Ocultação que não se fará ver pelo Estado exatamente por não se permitir definir pela História”. A invisibilidade é conquistada no mesmo instante em que o motim se concretiza, o indivíduo é absorvido pela maquinaria que se dinamizou pelo resultado de seu agir e a história continua agindo por trás das costas dos indivíduos. Por meio do motim sabemos como se volta contra o indivíduo a universalidade efetiva. Sua ação pertence ao universal, porém seu conteúdo é a própria singularidade que quer se manter enquanto tal, mas já perdeu-se.

Não podemos apontar diversos exemplos concretos em que essa definição hegeliana se tornou força material: 1968, ou mais recentemente, junho de 2013, ou ainda o Occupy? Não podemos devolver a pergunta ao autor? O motim tão propalado ao redor do mundo, da Grécia à Istambul, passando pelo Rio de Janeiro e Brasília, tem nos levado a algum lugar?

As mesmas provocações de Ramon, no entanto, aparecem nos belos livretos do Comitê Invisível[11] que não tenho como abordar em suas especificidades senão tirar das sombras essa característica singular ao texto. Sei que tal pressuposto se baseia numa tática e aqui exprime-se a verdade de sua posição: uma tentativa de resposta que se afaste das carcomidas formas de organização imperante na esquerda.

“Assumamos que a equação homem deu errado”, diz Ramon “ou transformemos de uma vez por todas, o mundo”. Aqui podemos cometer outra diabrura, tais posições não são excludentes, pelo contrário, é exatamente porque a equação do homem deu errado que se necessita transformar o mundo. O homem como um sujeito fantasmático e incompleto, um não-idêntico perpétuo que movimenta-se, é um desvio da natureza que nega a própria natureza.

E aqui o elemento do trágico nietzschiano tem sua razão de ser, o aspecto contingencial da história é o que fundamenta a liberdade humana na construção do seu destino e não a essencialização que o autor comete quando declara que “as revoluções, por mais – ou menos – virtuosas que sejam suas ideias, não passam de uma armadilha do destino, de um pesadelo no qual, não importa o quanto lutemos, sempre seremos capturados e submetidos ao infinito ciclo da roda cármica de um eterno retorno que incuba Estados e governos”.

Tudo bem, mas a roda cármica de um eterno retorno é bem melhor que a roda da tortura da idade média. Esse olhar retroativo que reconfigura o passado não implica numa teleologia, mas, é a compreensão, óbvia em todo caso, de que de fato avanços foram obtidos com a instauração da Revolução Francesa, do Estado Burguês e com a moderna divisão do trabalho por meio da Revolução Industrial. A negação abstrata do Estado sem sua complementaridade no capital leva a indícios de obscurantismo romântico na própria crítica e, por sua vez, o motim como fim em si mesmo permanece no registro do capital e é muito bem-vindo.

Disso chegamos à conclusão que a crítica da economia política continua sendo o pressuposto de toda crítica.  O Estado, ao contrário do que implicitamente diz Ramon, nem sempre existiu e pode desaparecer. Aliás no atual estágio ele cumpre a função mínima de desviar a riqueza produzida socialmente para os bolsos da elite e socializar os prejuízos, o que indica que a morfologia de seu funcionamento está se esgotando e isso desnuda um problema interessante: se, capital e estado se complementam, o esgotamento de um, ao mesmo tempo, pode ser o de outro, implicando uma emergência revolucionária. Muito embora, no atual cenário se o Estado ruir – coisa que os neoliberais definitivamente não desejam – restariam feudos e corporações.

Nesse ponto é preciso que a esquerda esquerdize-se e assuma seus fantasmas. É preciso que novamente a tradição de todas as gerações mortas oprimam como um pesadelo nossos cérebros, que conjuremos ansiosamente em nosso auxilio os espíritos do passado. Sem a atávica abstração nem romantismo que inevitavelmente jogam lenha na fogueira da direita, mas partindo do reconhecimento das necessidades político-econômicas e de organização revolucionária, algo que sabemos não estar alicerçada em formas individualistas de ação ou na utopia de inclusão pelo mercado. Algo sem o qual a direita continuará a crescer… Talvez, tudo isso ou nada disso explique o crescimento da direita.

NOTAS

*** Texto originalmente publicado no LavraPalavra

[1] Acabou de publicar o livro Cartas Estudantis, é doutorando em filosofia política pela Unifesp e membro do CEII.

[2] Esse artigo é imprescindível para aqueles que desejam compreender o fenômeno da direita atual, seus grupos de financiamento, sua estrutura e forma de militância https://theintercept.com/2017/08/11/esfera-de-influencia-como-os-libertarios-americanos-estao-reinventando-a-politica-latino-americana/?comments=1#comments

[3] Fernando Schüler, acadêmico e colunista associado ao Instituto Millenium.

[4] Conferir em: PIKETTY, T. O capital no século XXI. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014 p. 368.

[5] Conferir em http://www.revistacampoaberto.com.br/2017/08/16/guerra-declarada-ii/

[6] http://passapalavra.info/2017/08/114769

[7] https://www.pragmatismopolitico.com.br/2017/05/necessidade-rebelar-apologia-revolucao.html

[8] Entendemos que depois da morte de Hegel houve uma pacificação de sua filosofia que fora desvirtuada de seu princípio francamente subversivo a partir de Schelling, por isso o quase-hegeliana. Tal modo de concepção da filosofia de Hegel, no entanto, como sabemos influenciou uma gama enorme de pensadores e só muito recentemente, o núcleo subversivo fora recuperado.

[9] NIETZSCHE, F. Fado e história p. 165 (in: ______________. Genealogia da moral; uma polêmica. São Paulo: Companhia das Letras, 1998

[10] Noutra parte, no tom bem humorado e suábio Hegel despenca: “esses rapazes, brigam, lutam e se amotinam para logo depois se casarem!”­­

[11] http://dazibao.cc/wp-content/uploads/2015/11/A-insurreic%CC%A7a%CC%83o-que-vem-CI.pdf

https://we.riseup.net/assets/262783/AosNossosAmigos2014.pdf

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Mobilização

Tarde Anti-Nazista debaterá o avanço do racismo no mundo

Ante ao genocídio do povo preto no Brasil e no mundo e ao avanço da ideologia nazista e racista que teve sua expressão mais recente diante dos lamentáveis acontecimentos de Charlottesville em 11 de agosto, a Frente Alternativa Preta convoca uma tarde de reflexões e debates sobre o tema.

Pela Vida do Povo Preto!

#LibertemRafaelBraga
#CharlottesVilleÉaqui
#FrenteAlternativaPreta

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O nazismo é uma ideologia amplamente aceita em todos os países europeus e povos brancos espalhados pelo mundo colonizado. A peculiaridade da Alemanha fora tão somente as condições sócio econômicas que permitiram a formação de um regime que levasse a efeito o que já se bradava pelos quatro cantos do velho continente. É essa história que explica a possibilidade de situações como a de Charlottesville, nos EUA, assim como responde ao porque embora reconhecido e lamentado por boa parte da humanidade o holocausto judeu, não haja o mesmo reconhecimento e reparação aos holocaustos causados pela Bélgica no Congo e pela Alemanha na Namíbia.

Da mesma forma, essa história autoriza a impunidade do ideal de supremacia branca no Brasil que encontra sua expressão mais violenta na ação cotidiana da polícia que mais mata gente preta no mundo. Tais atrocidades são chanceladas descaradamente pelo judiciário através de uma política de encarceramento em massa. Além disso, é comum que se garanta a liberdade de brancos flagrados na prática de crimes, como o caso em que foram transportados 450 kg de pasta base para cocaína no helicóptero pertencente ao atual Senador Zeze Perella, e que se condene diariamente negros que sequer praticaram crime, como é o caso de Rafael Braga.

Novo comando da Rota em SP promete, descaradamente, aumentar repressão nas periferias

Ricardo Augusto Nascimento de Mello Araújo é o nome do novo comandante da ROTA em SP. Nesta semana, para marcar a sua estreia, em acordo com o governador Geraldo Alckmin, ele resolveu ocupar as ruas com 100% da tropa. A motivação para isso, segundo ele, seria para que “São Paulo não vire Rio de Janeiro”. O tenente-coronel de 46 anos, sem qualquer constrangimento ou meias palavras verbalizou, em entrevista para o site UOL, o que deveria ser um absurdo, mas que em tempos de racismo e explicito, se tornou normal:

“É uma outra realidade. São pessoas diferentes que transitam por lá. A forma dele abordar tem que ser diferente. Se ele [policial] for abordar uma pessoa [na periferia], da mesma forma que ele for abordar uma pessoa aqui nos Jardins, ele vai ter dificuldade. Ele não vai ser respeitado.”

Ou, em outras palavras, poderíamos compreender: Mais Rota na rua, sobretudo nas periferias, para reprimir, prender e matar  negros.

Não vamos tolerar!

Assim, conclamamos à reação todos aqueles que, independentemente de sua etnia ou credo, não toleram essas ideias racistas, LGBTfóbicas e misóginas que representam o que há de pior nos humanos. Convocamos pretos, brancos e não brancos de todas as nações a reagirem contra esses atos racistas de demonstração espúria de aspiração por uma sociedade pautada na injustiça, na desigualdade, na violência, no medo, enfim, em bases que sequer o demônio pensou ao imaginar um mundo à sua imagem.

A Frente Alternativa Preta continuará se opondo às manifestações racistas que ocorram em qualquer parte do globo e convoca à uma tarde antinazista! Para que possamos somar forças e marcar nosso projeto de sociedade igualitário, justo e humano para o povo.

Tarde Anti-Nazista | 26 de Agosto | A partir das 14h00 | Praça Roosevelt

Pela Vida do Povo Preto!

 

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Cultura

Cia. Os Crespos lança segunda edição da revista Legítima Defesa, no Sesc Belenzinho em SP

 

Por Cia Os Crespos

 

A Cia. Os Crespos lança no dia 30 de agosto de 2017 no Sesc Belenzinho (Rua Padre Adelino, 1000 – Sala de espetáculos II – 3o andar), das 15h às 21h30, o segundo número da revista “Legítima Defesa – Uma Revista de Teatro Negro”.

A entrada é gratuito traz ao público intensa programação cultural que envolve mesa de debates sobre o percurso do Teatro Negro no Brasil, além de shows musicais com convidados, intervenção artística da Cia. Os Crespos e distribuição gratuita de exemplares. Os Crespos contam, novamente, com o apoio da Lei de Fomento para a Cidade de São Paulo e de recursos próprios para sua publicação física e virtual.

A Revista “Legítima Defesa – Uma Revista de Teatro Negro” é uma publicação da Cia Os Crespos. Nela são discutidos critérios estéticos e políticos do Teatro Negro , possibilitando a inscrição e historicização dos processos artísticos. Um dos grandes legados desta iniciativa é que ela poderá, futuramente, servir de base para pesquisas de estudantes de teatro e interessados em saber um pouco mais a respeito do teatro negro brasileiro. A revista aborda questões relevantes sobre a investigação e debates dos temas referentes à população negra e à representação do negro no Teatro Brasileiro. A importância desta publicação na contemporaneidade reside em seu conteúdo que possibilita maior difusão dos trabalhos realizados nessa vertente. O intuito dos Crespos é fomentar o intercâmbio de pesquisas que impulsionem a criação artística e a formação, tanto de público como dos “fazedores” dessa arte. A revista Legítima Defesa, que surgiu como uma homenagem ao Movimento “Negritude” e à revista “La Légitime Défense”, de Léopold Sedar Senhor e Aimé Césaire, teve seu primeiro número lançado no segundo semestre de 2014, através de fomento ao projeto “Dos Desmanches Aos Sonhos – poética em legítima Defesa” da Cia Os Crespos, com recursos da Lei de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo.

Nesse segundo número a revista junta em suas páginas mulheres e homens negros, que compreendem o teatro como uma ação política de discussão social e ferramenta redimensionadora de nossas existências. A publicação segue discutindo tradição religiosa no teatro, falando sobre legado, memória e ativismo, fazendo intercâmbio com o teatro caribenho, discutindo escolhas estéticas e tecendo crítica teatral de espetáculos atuais, apresentando os textos de peças de dramaturgos negros, além da discussão sobre a imagem do negro nas polêmicas sobre black face e personagem negra.

A revista será entregue gratuitamente no evento de lançamento, além de ser distribuída para bibliotecas e entidades de ensino de vários Estados do país, mas também estará disponível na internet no site da Cia, onde o público poderá ter acesso aos dois números da revista. “Estamos muito felizes com o apoio do Sesc para a realização do evento e esperamos que essa junção de artistas e este espaço de debate possam enriquecer e aquecer nossa arte, assim como colocar em pauta assuntos tão urgentes para o teatro Negro, principalmente em  tempos de crise, no qual recursos e reconhecimento estão sendo cortados e negados.”, explica Lucélia Sergio, dos Crespos.

Programação

Das 15h às 17h – mesa de debate – Memória e Ativismo – A história do Teatro Negro e a cena contemporânea.

A mesa propõe o aprofundamento dos temas discutidos na revista com relação ao percurso histórico e ao impacto social e artístico desse teatro durante sua existência, desde 1920. Abordando sua relação com o teatro tradicional e as estratégias de reconhecimento e inscrição artística. Expondo uma perspectiva histórica e contemporânea. Com a Cia Os Crespos e Leda Maria Martins.

Debatedor – Leda Maria Martins: Poeta, ensaísta, dramaturga e pesquisadora da cultura Negra brasileira. Professora na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais UFMG. Suas principais obras são: O Moderno teatro de Qorpo Santo, 1991; A Cena em Sombras, 1995; Afrografias da memória: O Reinado do rosário no Jatobá, 1997 Debatedor – Lucelia Sergio (Os Crespos): Atriz, diretora, pesquisadora de estética negra e arte-educadora especializada em relações étnico-raciais. Co-fundadora da Cia Os Crespos e co-criadora da Revista Legítima Defesa.

Mediador: Sidney Santiago Kuanza (Os Crespos): ator, pesquisador de Teatro Negro e produtor. Co-fundador da Cia Os Crespos e do Coletivo Homens de Cor e, também, co-criador da Revista Llegítima Defesa.

19h – Intervenção Os Crespos com cenas de sua última montagem “Alguma Coisa a Ver com uma Missão”, inspirado no célebre texto “A Missão” de Heiner Müller. O texto convida o espectador para acompanhar a viagem mística de uma auxiliar de enfermagem e uma gari pelo passado. Elas visitam alguns episódios de revoluções negras no Brasil e na América Latina.

19h30 – abertura do evento e pocket show Dani Nega e Craca

O músico e a MC levam aos palcos seu manifesto musical poético, político e dançante. Craca e Dani Nega fazem a fusão do rap, como palavra falada, com o eletrônico multicultural e experimental. O encaixe surpreendente aconteceu por razões musicais, mas também pelas convicções em comum, o clamor por justiça e anseio por transformações sociais. O som vem acompanhado por projeções de imagens, que cuidadosamente completam a narrativa de denúncias, reflexões e provocações. Craca é incorporado por Felipe Julián, músico, produtor musical e artista visual.

20h10 – apresentação do segundo número da Legítima Defesa e distribuição dos exemplares

20h45 – pocket show Vitor da Trindade e banda O artista está lançando seu primeiro disco solo, OSSÉ. Composto quase que integralmente, sobre a poesia de Solano Trindade, traz ritmos que refletem a experiência multi cultural do artista dentro da música. Cantor, compositor, percussionista e arte educador, Vitor atua há trinta e cinco anos profissionalmente na música brasileira.

21h30 – encerramento do evento

 

Serviço

Lançamento da revista “Legítima Defesa –

Uma Revista de Teatro Negro”

Quando: dia 30 de agosto, das 15h às 21h30

Onde: Sesc Belenzinho – Rua Padre Adelino, 1000 – 3o andar

Telefone para informações: 11 – 2076-9700

Grátis

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Filosofia Formação

Por que a verdade é monstruosa?

Por Douglas Rodrigues Barros[1]

 

Nos idos de 2010, quando o senhor ex-presidente Lula dizia a plenos pulmões que enquanto nos países centrais a crise econômica do subprime tinha sido um tsunami, no Brasil tinha sido apenas uma marolinha. Estava eu nas fileiras de um debate com a presença de um grego que acompanhava as fortes revoltas em Atenas. Naquela época escutei da boca dele algo que tomei como premonitório e que se revelaria previdente mais tarde: “O Brasil não passa por nenhuma crise”, dizia, “E já é essa barbárie… imagina quando a crise chegar por aqui!”.

Como sabemos, a crise chegou e trouxe à luz o que só se sentia no inconsciente coletivo da chamada esquerda. Toda podridão reacionária subiu dos bueiros e ratos de todo tamanho ocultados pelas valas perderam o medo e saíram das sombras. Como num relógio com ponteiros atrasados, experimentamos só muito depois – em descompasso com o mundo desenvolvido – o fracasso da experiência trabalhista. A degeneração imposta pela legalidade e rotinização da pauta dos trabalhadores, o fracasso modernista, a noção de progresso teleológico rumo ao futuro desenvolvimentista encontraram limites incontornáveis. Atingíamos o fim do ciclo de uma experiência que se iniciou com a Carta de 1988 e, com ele, todos os restos podres da velha oligarquia que tinha sido ocultado pelo pacto de paz social vieram à luz.

Os sonhos de aplicar um modelo mais humanista ao capital com um governo capaz de levar as pautas sociais adiante por uma via parlamentar e democrática, verteu-se em pesadelo. Ainda que promovamos imensos debates com os pensadores da moda do Facebook. Ainda que suprimamos e abafemos qualquer voz crítica e destoante do reformismo-conservador e dos bons modos democraticistas no balcão de negócios chamado Estado. Ainda que queiramos convencer a imensa maioria que a política se faz desse modo. A verdade de uma democracia representativa feita para evitar uma democracia efetiva revela sua face mais cruel, qual seja: o assassinato diário de jovens pobres e negros promovido pelo Estado. Como diz o panfleto anarquista: “até no seu silêncio, a população parece infinitamente mais adulta do que todos os fantoches que se atropelam para a governar”.

O atual modelo de gestão da barbárie parece ter se esgotado e nada há no horizonte que aponte algo propositivo, pegos de calça curtas, enquanto a ingenuidade clama por uma suposta unidade da esquerda conquistada pela submissão de toda divergência a pauta governista e eleitoreira, a direita avança disputando o imaginário daqueles que ela explora. A barbárie do governismo de esquerda que era inconsciente, isto é, se aplicava só nas periferias pelo extermínio da juventude pela polícia, nas áreas rurais tomadas pelo agronegócio, pelo roubo das terras indígenas, se tornou doravante consciente e já em Copacabana é possível ver tanques de guerra desfilando. Temer é sua mais concreta verdade.

Do lirismo democrático-representativo e bem-comportado a população, entretanto, parece estar farta! Mas, o grosso da esquerda – em sentido literal – espera calmamente a eleição de 2018 para emplacar sua reconquista da desgraça. Enquanto a palavra revolta sumiu do dicionário da esquerda, a palavra revolução se tornou coisa de herege. As marchas cívicas que imitam o modus operandi da extrema direita – passeata bem-comportada aos domingos – sugerem sua verdade. Atores globais engrossam as fileiras, o simbólico vazio de conteúdo só deixa evidente a emergência e a posição de recuo.  O horizonte decrescente caminha como um colosso desperto a largos passos.

Parece que a derrota da esquerda se tornou inevitável porque o próprio modelo de que é partidária se esgotou, não apenas politicamente, mas, principalmente economicamente. Aliás, o modelo político só se esgotou porque o modelo econômico não encontra mais possibilidade de crescimento senão pela imposição da repressão clara, direta e massacrante. Enquanto a esquerda romanceia nostalgicamente uma volta quase sebastianista de Lula, a direita sabe muito bem cumprir a agenda de que é perita. A direita toca fogo em Roma, seremos nós os bombeiros?

É passado o momento de uma crítica que não tenha medo dos excessos. O exagero é condição necessária de tornar o impossível, possível. Não resta outra coisa. A pena para a covardia ou a reticência perante o óbvio é a morte de centenas na fila dos hospitais que já passam pelo desmonte do governo que usurpou o poder; é o analfabetismo funcional beligerantemente fascista que grassa nas periferias como única forma de superar a crise; é a instituição da monstruosidade feudal ligada as oligarquias financeiras que tomarão conta de áreas populares essenciais, enquanto a nova religião sob a insígnia de neopentecostalismo capitalista fomenta um país fundamentalista, surdo e violento. É preciso que a imaginação estruture uma nova forma de sociabilidade.

Ao mesmo tempo é necessário puxar o tapete de esperança dessa esquerda que hoje já se apresenta como uma peça envelhecida no xadrez do capital. Essa esperança é o conformismo de se aguardar até que as coisas voltem para seu devido lugar. É preciso dizer de novo: não há mais lugar, os limites foram implodidos pelo desenvolvimento histórico do capitalismo. Como dizia o sábio Abujamra: “a esperança fodeu a América Latina!”. A pergunta que deve ser feita é: será mesmo que o parlamento não se tornou o fim fetichista dessa esquerda? Será mesmo que o único intuito que ela tem não é senão retomar a governabilidade do barco que lentamente naufraga e os delírios de acreditar ter nas mãos o poder?

A falência dessa esquerda que se forjou nos idos finais da década de 1970 demonstra que aquela paixão pela pratica, imediata e irrefletida, legitimou não apenas um falso ativismo, como também, uma falsa alternativa emancipatória. A ação desesperada mediante a crise deve ser o monopólio dessa esquerda, que atávica, acredita que sua forma de vida permanece intacta enquanto dá seus últimos suspiros. Não estava certa as palavras do esquecido revolucionário que cem anos atrás deixava um importante ensinamento quando dizia que: “as divergências de opinião entre partidos políticos […] são em geral resolvidas pelo próprio correr da vida política e pelos debates teóricos. Em especial, sob a pressão dos acontecimentos, que desmentem os raciocínios errados e os privam da sua razão de ser”?

Para seguir esse ensinamento, entretanto, é preciso nos despojar das velhas figuras cujo cadáver já cheira mal, pois a pressão dos acontecimentos indica que erramos, o que é comum e esperado, se agarrar ao cadáver e apodrecer com ele é, no entanto, patológico. Isso nos ensina algo elementar, nós nos refugiamos em cenários catastróficos para evitar a contradição concreta da vida, as imagens da catástrofe, tão amplamente divulgada pela torpe TV brasileira, a polarização virtual e o xingamento satisfatório, em vez de fornecer o acesso ao concreto da vida, a vida real, funcionam como escudo protetor contra a concretude. Isso se revela na confortável sensação de que a tragédia só acontece com o outro. É como uma medida de defesa desesperada que erguemos os fantasmas virtuais e as soluções que giram no interior abstrato da rede social. Eis porque a verdade é monstruosa, porque nos revela nessa patologia que no fundo todo esse apego e polarização é baseado num narcisismo das pequenas diferenças. Esquerda/Direita se tornaram o mesmo bater de botas. Só iremos nos distanciar disso se formos insubmissos ao que reza a cartilha do mercado[2].

 

 

 

NOTAS

[1] Acabou de publicar o livro Cartas Estudantis, é doutorando em filosofia política pela Unifesp e membro do CEII.

[2] Tanto o título quanto essa reflexão foram obtidas através da obra de Žižek, O absoluto frágil, sobretudo no capítulo homônimo ao meu artigo

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Filosofia Intolerância Religião

Não fale em nome de Deus

Por Douglas Rodrigues Barros **

Semana passada circulou em vários grupos de Whatsapp um texto supostamente escrito por um deputado que tem em seu currículo não apenas a liderança religiosa, como também, a acusação de abuso contra uma mulher e a contratação de cinco pastores que não cumpriram as funções determinadas pelo cargo: o famoso empregado fantasma. Haja vista, contudo, que tais textos não são criteriosos e dificilmente se comprovaria a autenticidade da autoria, o seu conteúdo, não obstante, é no mínimo estarrecedor e antirrepublicano no sentido mais baixo do termo. O pequeno artigo em questão buscava justificar o voto do deputado contra a investigação sobre Michel Temer, baseando-se numa suposta ordem divina ipso facto.

É mais que evidente que, nos últimos anos, a influência de algumas igrejas evangélicas na política se tornou assombrosa. O famoso parlamentar Eduardo Cunha, por exemplo, que faz parte da Assembleia de Deus – ministério Madureira – foi acusado pelo procurador-geral da República Rodrigo Janot de utilizar essa igreja para receber 5 milhões em propina[1]. Além disso, os casos de corrupção, abuso de poder e desrespeito as diferenças cometidos por parlamentares ligados ao neopentecostalismo são muitos e bem conhecidos.

Não se pode tomar, porém, a parte pelo todo. Sabe-se do trabalho efetivo que muitas igrejas evangélicas fazem nas periferias e, mais importante que isso, do sentimento sincero de muitos dos adeptos dessas igrejas que majoritariamente são mulheres e homens pobres. De fato, a religião continua sendo o coração de um mundo sem coração (Marx). E qualquer apreciação supostamente ateia-iluminista soaria estéril frente a falta de expectativas reais de melhoria social ou de locais de recreação, entretenimento e aprendizado que, na sua total ausência, transfere para as igrejas evangélicas o tributo da socialização.

Eu poderia ainda tecer críticas utilizando-me do materialismo vulgar ou do ateísmo religioso que no fundo reafirmam a fé em uma ciência que fora igualmente mistificada pela sociabilidade mercadológica. Sabemos, contudo, que o ateísmo voltairiano é conquista de poucos rincões “iluminados” e endinheirados. Contra todos os prognósticos políticos e filosóficos, a religião continua sendo elemento social cuja importância, não poucas vezes, fora subestimada. Ela “a despeito dos seus múltiplos significados se manteve, mesmo que a fé saia de um deus todo-poderoso e passe para as últimas pesquisas da nanotecnologia”[2], o véu de maia permanece intacto. Tal verdade deveria ser matéria de discussão, mas pouco ou nada se fala a respeito, mesmo sabendo que o legado cristão é precioso demais para ser deixado aos fanáticos fundamentalistas, assistimos boquiabertos a nova espiritualidade proclamar seus ritos e morais em tempo real na televisão.

Do Oriente ao Ocidente, do Oiapoque ao Chui, a crença continua produzindo a sombra de um sentido para milhares de almas que enxergam, na atual sociabilidade capitalista, a podridão e a falta de razões para a existência. E isso desde a fé de Nova Era – espiritismo, budismo, umbandismo classe-média, esoterismo –, passando pelo neopentecostalismo, até a desvirtuação do Islã. A religião permanece, portanto, como fonte de respostas aos anseios da alma que esvaziada pelo consumo, se volta para a felicidade eterna por meio de um mundo extra-humano.

O problema, entretanto, surge quando, num processo regressivo, a “religião” – utilizo as aspas para indicar que estamos falando de algo específico – se utiliza da fé e em nome de Deus passa a fazer política. Os exemplos dessa maldição são muitos: desde os massacres envolvendo protestantes e católicos até a justificação na perseguição de etnias e grupos de outras crenças.

Ora, o que fundamentou os direitos universais do homem foi a conquista da liberdade religiosa. Conquista que só pôde ser efetivada a partir do momento em que a Religião deixou de estar atrelada ao Estado. Como consequência é possível compreender que uma das conquistas mais profundas da Revolução Francesa fora a separação entre o Estado e a Igreja. Essa conquista torna-se assim um bastião inabalável da própria liberalidade democrática fazendo com que sua defesa seja intransigente e independente do posicionamento no espectro político. O Estado é laico, e sua laicidade é o pressuposto da própria liberdade religiosa.

Assistimos hoje impassíveis,  cada vez mais o perigo do crescimento de líderes religiosos vinculados à política partidária. Tais lideres justificam seu conservadorismo e no nome de Deus cospem preconceito e ódio insuflando a crença em um inimigo imaginário para se elevar politicamente. Ora, qualquer consciência minimante informada sabe como esse obscurantismo é catastrófico para a vida social numa simples pesquisa na internet se chega à conclusão de como os desastres da aproximação Estado/Religião influíram em massacres, censuras de pesquisas, destruição de livros, etc. O sonho por um Estado religioso, portanto, sempre esteve permeado pela negação radical – ou seja, pelo massacre – daqueles que não creem no mesmo. E o ódio pelas diferenças, propugnados por esses mesmos líderes, deveria ser nosso sinal de alerta.

 

** Acabou de publicar o romance Cartas Estudantis, é doutorando em filosofia política pela Universidade Federal de São Paulo.

[1] http://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/janot-acusa-cunha-de-usar-assembleia-de-deus-para-receber-propina/

[2] https://lavrapalavra.com/2017/03/17/deus-no-diva-reflexoes-sobre-a-monstruosidade-de-cristo/

Imagem de Cleiton Custódio Ferreira

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Arte Cultura

Formação de produtores culturais negros na Zona Leste de SP

 

Formação para gestão de projetos culturais é parte de uma parceria entre o projeto Podepá e a Okupação Coragem. O workshop acontece sábado, 19/08, das 9h às 17h00, na Praça Mãe Menininha do Gantois (Jd.Bonifácio)

 

Por Negrume

A presença negra é grande nas artes brasileiras. Esta afirmação é até correta, mas conta apenas parte da história.

Nos últimos anos muitos questionamentos estão vindo à tona nas redes sociais chegando até algumas mídias brasileiras. A população negra vem denunciando o racismo nas artes, inclusive já existe uma plataforma para essas denúncias, a página #ContraORacismoNasArtes .

Nos grandes festivais, seminários e encontros da classe artística, sobretudo em pautas estruturais como economia da cultura e outros eventos que contem com a presença de “grandes”diretores, gestores e produtores culturais, a presença negra é tipicamente minoritária.

Estes não são fatos novos, mas vem sendo cada vez mais discutidos no interior da comunidade negra. O teatro, de 3 anos pra cá foi diversas vezes denunciado. A Flip 2016 foi muito questionada por invisibilizar escritores e escritoras negras. O cinema brasileiro foi denunciado por ter menos de 2% de lideranças de profissionais negros e, em diversos outros nichos culturais, dos institutos pesquisadores das culturas tradicionais até chegar às linguagens artísticas da indústria cultural, o cenário não é diferente: monopólio e pouca abertura de oportunidades reais e efetivas.

A verdade é que há muitxs negros e negras, mas geralmente não estão em situação de poder, ou seja, há poucas casos em que negrxs são gestores, curadores, pareceristas, idealizadores. Lamentavelmente até mesmo em linguagens que originam-se de suas matrizes culturais. Reflexos de um país racista e excludente que precisa aprender muito para ser levado a sério como uma democracia madura.

Pensando em medidas para mudar este cenário dois negros das artes se uniram: Aloysio Letra, do Negrume e o gestor cultural Renato Adriano Rosa, da Podepá – Gestão e Produção Cultural. Juntos eles idealizaram uma parceria para viabilizar um curso gratuito de Produção e Gestão Cultural, o “Laboratório de Ideias”, um workshop que é oferecido gratuitamente a negras e negros. O workshop tem 8h de duração com a proposta de capacitar produtores periféricos com as técnicas de estruturação de projetos culturais, a partir do planejamento e de dicas importantes para organização das ideias no papel. Para ir muito além de fomentos e editais culturais.

O workshop será promovido pelo NEGRUME em 19/08, das 9h às 17h, na Okupação C.O.R.A.G.E.M , espaço autônomo de cultura que fica na Praça Mãe Menininha de Gantois, Cohab 2, ao lado da estação Jd. Bonifácio, na zona leste de São Paulo.

INSCRIÇÕES abertas até dia 5/8 no link: https://goo.gl/forms/jo0X61KxktLcAirl2


Organização: Negrume e Podepá – Gestão e Produção Cultural

Local: Okupação Cultural C.O.R.A.G.E.M.

Rua Vicente Avelar, nº53 – Cohab José Bonifácio – Itaquera (próximo à Estação José Bonifácio da CPTM).

 

Negrume, cultura e consciência negra

Na luta negra por liberdade e afirmação da cultura e resistências negras, historicamente negros da diáspora e negros da África caminham, marcham ou cortejam as ruas e seus ancestrais. Hoje, após a globalização do racismo contra pessoas negras, se faz necessário manter essa tradição de ocupar as ruas em prol da consciência negra.

No Brasil os afoxés na Bahia e Pernambuco, os maracatus em Alagoas, Ceará e Pernambuco e as congadas no Sudeste do país, cortejam as ruas saudando seus orixás e os reinados negros do Congo.

O projeto NEGRUME surgiu em Novembro de 2014 no bairro de Guaianases como um cortejo que homenageia as caminhadas e marchas da comunidade negra. É uma mescla das tradições negras populares com a luta dos movimentos sociais negros. Firmamos batuques para a afirmação cultural e política da resistência negra contra o genocídio da população negra, contra o racismo estrutural, contra o mito da democracia racial e contra todas as mazelas originadas no preconceito de cor.

Em 2016 o projeto se estabelece também como um blog periférico e articula em Guaianases, periferia da zona leste, rodas de conversa sobre temas da cultura e consciência negra.NEGRUME promoverá periodicamente bate-papo com especialistas, militantes negrxs e artistas, sempre com participação atuante da nossa comunidade.

Nosso estandarte contra o racismo: Negrume!

Acessem nosso blog: https://negrume.wordpress.com/

 

 

 


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