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Crônicas Mexistas

O valor democrático da morte

Por Douglas Rodrigues Barros

Sentado frente ao mar, abandono-me a reflexões que o ócio permite. Quantas mulheres de biquíni carregando suas filhas pela mão passaram antes nessa orla? Quantos vieram antes de mim e se sentaram, tal como estou, admirando as espumas provocadas pela onda? Todos passaram, também vou passar. O navio da humanidade tem, ao que se julga, um silêncio sempre vivo. Talvez, quem nos desvendasse a essência da vida nos entregaria a mais desagradável desilusão. Não é a vida como algo que nos é palpável que é bela, mas a vida como uma noção errônea que é sempre tão rica de sentido, tão profunda, tão maravilhosa e… tão rápida.

Numa sociedade que se move com a imposição do gozo, dificilmente a reflexão sobre a morte terá lugar. Numa sociabilidade na qual as lágrimas são sinônimo de fracassos, dificilmente a reflexão sobre as dores da alma, aquilo que nos distingue dos animais, terá lugar. E mesmo assim, quem dentre nós não perdeu algum ente querido? E quem dentre nós não vai morrer em breve? O escritor Camus denunciou-nos o sentimento do absurdo, aquele instante em que, ao perder o chão, observamos que nada tem sentido. Acrescentaria que, de fato, a perda do sentido é o fundamento de uma transformação do próprio eu. Sabemos, sempre é perigoso acreditar demais.

Entre as várias coisas que podem levar uma pessoa ao desespero figura o reconhecimento de que a morte é fim óbvio para todos. A superação disso, no entanto, está em reconhecer que a despeito de tudo o que importa é o caminho, nunca a chegada… o desencanto é primeiro sinal de maturidade. Porém, numa sociedade em que se valoriza a imaturidade pregada como zona de consumo, dificilmente esse olhar elevado poderá ser alcançado. Desencantar-se é necessário, isto não significa evadir-se, ser nostálgico ou melancólico. Por isso, gosto de Walter Benjamin, porque entendeu que a única forma de ultrapassar o estado de coisas do mundo mercadológico é compreendendo o vazio de seus limites. O vazio que o constitui ao nos constituir.

O valor democrático da morte coloca-nos a todos como um rebanho, indiferente e a despeito de critérios, cedo ou tarde, chegará nossa vez. O valor democrático de se ter isso em vista é a possibilidade de subverter nosso destino na busca de realização daquilo que realmente nos importa e naquilo que compreendemos ser digno de nós. Reconhecer os limites de nossa vida, de nossa carcaça que cedo ou tarde ficará exposta a terra ou ao fogo, é um passo imprescindível na superação daquilo que somos e dos limites a nós impostos. Refletir sobre a morte é perigoso porque além de demonstrar a falta de sentido da vida, demonstra também que podemos construir um outro sentido para essa mesma vida.

Desencantar-se ao refletir sobre a morte é reconhecer, por fim, que fora desse sentido que criamos o resto é silêncio…
E isso… é muito subversivo, é explosivo…

 

Imagem: Óleo sobre tela do Mexista João Pedro Dias

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Movimento Negro Política

Lideranças negras de diversas regiões do país lançam o “Vamos de Preto! Negras e negros Sem Medo de mudar o Brasil”

 

“As velhas formas das esquerdas já não nos representam. E qual o papel da pauta racial neste momento histórico da política no Brasil? O que o Povo Negro tem a dizer e a exigir neste processo de reorganização?” Essas e outras inquietações levarão lideranças negras de diversas regiões do país a se encontram em Recife-PE, para dar vida à iniciativa “Vamos de Preto! Negras e negros Sem Medo de mudar o brasil”, que acontece na próxima tarde de 2 de novembro, feriado de finados.

 

Por Douglas Belchior, via “Vamos de Preto!”

 

O Brasil é a maior nação negra fora do continente africano. Mas é proibido é esta população qualquer possibilidade de igualdade. Assim como em outros momentos na trajetória de lutas do movimento negro, é tempo de nos organizar, de nos aquilombar e traçar estratégias para um projeto político que tenha como objetivo central a superação do racismo que estrutura as desigualdades sociais e permeia todas as faces da sociedade brasileira. O “Vamos de Preto!” surge como uma iniciativa nesse sentido e será lançado com um grande ato político-cultural que reunirá parlamentares, representantes de religiões de matriz africana, intelectuais, ativistas, coletivos culturais, de juventude e militantes do movimento negro de diferentes Estados brasileiros.

 

A partir desta iniciativa, queremos inaugurar um grande processo de escuta coletiva e avançar em diagnósticos e soluções para a superação do racismo, do genocídio negro, do machismo, da homofobia, da intolerância religiosa e todas as formas de opressão características da sociedade desigual e, que vivemos. Com o axé de nossos ancestrais, “VAMOS DE PRETO!”, por dentro e por fora!

 

Vamos de Preto! | Pátio de São Pedro | Recife – Pernambuco

 

O “Vamos de Preto!” será lançado no dia dia 02 de novembro, feriado de Finados, a partir das 14h00, no Pátio de São Pedro, Recife – Pernambuco.

 

O Ato terá a presença de militantes e lideranças políticas de todo o país, entre elas, Vera Baroni, da Articulação de Mulheres Negras Brasileiras e Rede de Mulheres de Terreiro; Helio Santos, professor e pesquisador da temática sociorracial no Brasil e fundador do Instituto Brasileiro de Diversidade; Laina Crisóstomo, advogada feminista, presidente da ONG TamuJuntas; Winnie Bueno, Yalorixá e ativista feminista negra do Rio Grande do Sul; Edilson Silva, deputado estadual pelo Psol de Pernambuco; Áurea Carolina, cientista política, educadora e vereadora de BH pelo Psol; Fábio Nogueira, professor, pesquisador da temática racial, presidente do Psol da Bahia e fundador do Círculo Palmarino; Marielle Franco, socióloga e vereadora da cidade do Rio de Janeiro, pelo Psol; Mestra Janja, historiadora, capoeirista e fundadora do Instituto Nzinga de Estudos da Capoeira Angola; Douglas Belchior, professor de história e militante da Uneafro-Brasil, de SP; e outras tantas lideranças de reconhecida atuação na luta social e antirracista de Pernanbuco e do Brasil.

 

Teremos também presenças artísticas e ativismo, com a Roda de Capoeira Angola com a Mestra Di, uma edição da Batalha da Escadaria, Recital de Poesia, Shows, Roda de Diálogo com o Coletivo Cabelaço de Mulheres Negras Feministas, Feira empreendedora de produtos Afro-Étnicos e Cerveja Artesanal Carranca Espantando Mau-Olhado.

 

O “Vamos de Preto!”é uma iniciativa do Núcleo de Negras e Negros do mandato do deputado estadual Edilson Silva (PSOL/PE), para interagir com a plataforma política do “VAMOS!” e da Frente Povo Sem Medo, congregando lideranças, intelectuais e ativistas com atuação na luta contra o racismo e a discriminação.

 

Negras e Negros Sem Medo e com urgência de mudar o Brasil!

 

O Brasil e o mundo vivem um momento de redefinição política. Crise de paradigmas, de caminhos. Fundamentalismos afloram. Velhos preconceitos saem do armário. As velhas formas das esquerdas já não nos representam. E qual o papel da pauta racial neste momento histórico da política no Brasil? O que o Povo Negro tem a dizer e a exigir neste processo de reorganização? “Vamos de Preto!” é uma iniciativa ousada que busca congregar negras e negros, de forma suprapartidária e apartidária, para afirmar que vamos continuar lutando, mas que nossa pauta agora deve ter protagonismo e urgência; que não aceitamos mais que o genocídio do Povo Negro faça parte da paisagem social deste país.

 

O que é o “VAMOS!” ?

 

O “Vamos! Sem medo de mudar o Brasil” é uma iniciativa da Frente Povo Sem Medo, cuja função é servir como espaço de interlocução, debates e contribuições para a construção de um novo projeto político para o Brasil. Com um programa estruturado em cinco eixos, lança o desafio de uma proposta construída sem medo e pelo próprio povo.

Presencialmente, capitais e cidades do interior do Brasil tem realizado e continuarão à realizar encontros com especialistas de cada um dos eixos para provocar a discussão e pactuar consensos. No âmbito online, um texto-manifesto orientará a discussão dos eixos e cada cidadão poderá participar levantando propostas e interagindo com as já existentes, o que criará um processo ativo de participação social. A plataforma ainda reunirá os participantes em grupos de opinião, a partir de suas afinidades, apresentando as linhas que formam mais consenso.

Ao final do ciclo de discussões, o acúmulo será disponibilizado de forma transparente e aberta, até que um novo desenho de Brasil seja delineado pelas nossas mãos.

 

Mais sobre as convidadas

 

 

Cientista política, educadora popular e ativista de movimentos feministas, negros, juvenis e da cidade. Vereadora em BH pelo PSOL.

Áurea Carolina começou sua atuação política no movimento hip hop de Belo Horizonte. No início dos anos 2000, participou do coletivo Hip Hop Chama que, em suas palavras, surgia para “aliar o fazer artístico com o pensamento crítico, nas quebradas e em toda a cidade”. Participou ativamente da consolidação do hip hop feminino na cena local, tendo sido uma das integrantes do grupo Atitude de Mulher, que contribuiu para abrir caminhos para as mulheres do rap.

Cientista política pela UFMG, durante o seu mestrado pesquisou a inclusão das mulheres jovens na agenda governamental. Também é especialista em gênero e igualdade pela Universidade Autônoma de Barcelona. Atuou na gestão pública durante cinco meses, em 2015, quando foi subsecretária de Políticas para as Mulheres de Minas Gerais. É uma das fundadoras do Fórum das Juventudes da Grande BH e constrói as Muitas pela Cidade que Queremos desde o seu surgimento. É feminista e colaboradora da #partidA. Está filiada ao PSOL e foi a vereadora mais votada nas eleições de 2016 em Belo Horizonte.

 

MARIELLE FRANCO

Mulher negra, cria da favela da Maré, defensora dos Direitos Humanos, socióloga e vereadora da Câmara do Rio de Janeiro pelo PSOL.
Marielle Franco é cria da favela da Maré. É socióloga formada pela PUC-Rio e mestra em Administração Pública pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Sua dissertação de mestrado teve como tema: “UPP: a redução da favela a três letras”. Trabalhou em organizações da sociedade civil ,como a Brasil Foundation e o Centro de Ações Solidárias da Maré (Ceasm). Coordenou a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), ao lado de Marcelo Freixo. É recém eleita Vereadora da Câmara Municipal do Rio de Janeiro pelo PSOL.

Mulher, negra, mãe, favelada, Marielle Franco foi a quinta vereadora mais votada no Rio de Janeiro nas eleições de 2016, com 46.502 votos.

Iniciou sua militância em direitos humanos após ingressar no pré vestibular comunitário e perder uma amiga, vítima de bala perdida, num tiroteio entre policiais e traficantes no Complexo da Maré. Ao se tornar mãe aos 19 anos, de uma menina, Marielle também começou a se constituir como lutadora pelos direitos das mulheres e debater essa temática na periferia. As questões do feminismo, da luta contra o racismo, bem como a defesa dos direitos humanos nas favelas do país dão a tônica do perfil de seu mandato e de seus projetos em busca de um modelo de cidade mais justo para todos e todas.

 

WINNIE BUENO

Yalorixá, ativista feminista negra latino-americana.

Winnie Bueno é Yalorixá, ativista feminista negra latino-americana, bacharel em Direito pela Universidade Federal de Pelotas, mestranda em Direito Público pela Universidade do Vale Rio dos Sinos. Também é coordenadora do projeto Emancipa Mulher, um projeto de educação feminista e anti-racista desenvolvido em Porto Alegre.

Atua junto às mulheres e à população negra ministrando cursos e dando palestras sobre temas relativos às questões de raça, gênero, sexualidades, inquietudes sócio-raciais e racismo religioso. Tem desenvolvido estudos sobre o pensamento feminista negro, principalmente através das articulações teóricas de Patrícia Hill Collins. Também colabora para o site Justificando, através de uma coluna fixa. É também vlogger, produzindo conteúdo audiovisual focado nas questões das mulheres negras no canal Preta Expressa.

 

 

LAINA CRISÓSTOMO

Advogada, feminista interseccional e presidenta da ONG TamoJuntas. Integrante da Rede Nacional de Ciberativistas Negras.

 

Laina é advogada feminista, feminista interseccional, militante pelo direito das mulheres e presidenta da ONG TamoJuntas, que presta assessoria multidisciplinar para mulheres em situação de violência. Faz parte da Rede Nacional de Ciberativistas Negras e é filiada ao PSOL. Especialista em Gênero e Raça, pós graduada em Violência urbana e insegurança desde um enfoque de gênero e mestranda em Ciências Criminais. Foi escolhida no ano de 2016 como mulher inspiradora pelo site Think Olga e, em 2017, para a lista Under 30 da Revista Forbes Brasil pelo trabalho social que desenvolve com mulheres em situação de violência.

 

FÁBIO NOGUEIRA

 

Professor, pesquisador da temática racial e fundador do Círculo Palmarino.

 

Fábio Nogueira é Doutor em Sociologia (Universidade de São Paulo), professor da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e fundador do Círculo Palmarino. Estudioso da temática racial numa perspectiva transdisciplinar atuou como pesquisador na Universidade de Princeton (EUA) e em Cuba, defendendo tese de doutorado, em 2015, sobre a agência dos intelectuais negros cubanos na primeira metade do século XX.

 

É autor de “Clóvis Moura: trajetória intelectual, práxis e resistência negra” (Eduneb, 2016) e de artigos sobre a temática racial no Brasil publicados em coletâneas, revistas acadêmicas e na imprensa.

 

HÉLIO SANTOS

 

Professor e pesquisador da temática sociorracial no Brasil. Um dos fundadores do Instituto Brasileiro da Diversidade.

 

Helio Santos é mineiro de Belo Horizonte e pesquisador da temática sociorracial no Brasil.
Helio iniciou seu ativismo em meados dos anos 1970 em São Paulo e, em 1984, participou da fundação da primeira iniciativa do estado brasileiro para trabalhar a questão do negro no pós-Abolição, sendo o presidente fundador do Conselho da Comunidade Negra do Estado de São Paulo – órgão pioneiro que induziu várias iniciativas semelhantes em todo o País. Se origina daí as primeiras políticas públicas voltadas para a correção das históricas desvantagens da população negra no campo da Educação e do mercado de trabalho.

 

Mestre em Finanças e Doutor em Administração pela Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo. Lecionou em diversas instituições como PUC-Campinas e Universidade São Marcos no estado de São Paulo. Atualmente, leciona na Fundação Visconde de Cairu (Salvador) no mestrado em Desenvolvimento Humano e Responsabilidade Social. É um dos fundadores do IBD – Instituto Brasileiro da Diversidade, organização não governamental com foco na Gestão da Diversidade. Preside o Conselho Deliberativo do Fundo Baobá, entidade voltada para o fortalecimento das organizações que trabalham pela equidade racial no país.

 

Autor do livro A busca de um caminho para o Brasil: a trilha do círculo vicioso, ensaio que tem como tema o desenvolvimento socioeconômico nacional com sustentabilidade (Editora Senac), 2001. Também é autor de O homem lésbico, romance em que se evidencia um tipo de homem mais adequado à sensibilidade feminina na contemporaneidade (Editora Global), 2011.

 

DOUGLAS BELCHIOR

 

Professor de História, militante da Uneafro-Brasil e colunista da revista Carta Capital.

Negro Belchior nasceu e cresceu no fundão das periferias da cidade de São Paulo, nos limites entre Itaim Paulista, divisa com Ferraz de Vasconcelos, Itaquaquecetuba e Poá. É formado em História pela PUC/SP, professor Rede Pública Estadual; Fundador e professor do Movimento Uneafro-Brasil; Palestrante/Conferencista sobre a temática “História das Lutas Sociais no Brasil”, “Questão Racial no Brasil” e “Direitos Humanos”; Atualmente é consultor para a área da justiça criminal, violência do estado, encarceramento e política de drogas, do Fundo Brasil de Direitos Humanos. Participa ativamente das diversas articulações do Movimento Negro contra o Genocídio da População Negra. Ajudou a construir a Frente Pró Cotas Raciais do Estado de São Paulo e é um dos fundadores do Comitê de Luta Contra o Genocídio do Povo Preto, Pobre e Periférico.

 

Por sua atuação em defesa dos direitos humanos, recebeu o Prêmio Almerinda Farias Gama – Smpir – Prefeitura de São Paulo, 2017; o Prêmio Zumbi dos Palmares – S.O.S. Racismo – Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, 2016; O Prêmio Dr. Benedicto Galvão – OAB-SP, 2015; O Prêmio Movimento Nacional de Direitos Humanos, 2015 e o Prêmio Virada Sustentável-Catraca Livre, 2014.

 

VERA BARONI

 

Lutadora popular contra o racismo. Integrante da Articulação de Mulheres Negras Brasileiras e da Rede de Mulheres de Terreiro.

 

Vera Baroni nasceu no Rio de Janeiro em 16 de maio de 1945. Desde 1968 no Recife, Vera está inserida no contexto da luta popular e das mulheres negras, na defesa dos direitos humanos e enfrentamento ao racismo. É integrante da Articulação de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB) e da Rede de Mulheres de Terreiro.

 

EDILSON SILVA

 

Técnico industrial, ex dirigente sindical, e da CUT. Militante do Movimento Negro. Fundador do PSOL e membro de sua Executiva Nacional. Deputado Estadual do PSOL em Pernambuco.

 

Edilson é o primeiro deputado estadual eleito pelo partido em Pernambuco, membro da Executiva Estadual do PSOL-PE e da Executiva Nacional do PSOL. Em 2012, concorreu a uma cadeira na Câmara Municipal, quando foi o terceiro mais votado no Recife, mas não foi eleito por causa das regras eleitorais. Elegeu-se deputado estadual em 2014, e assumiu o mandato na Assembleia Legislativa em fevereiro de 2015, onde é presidente da Comissão de Cidadania, Direitos Humanos e Participação Popular. Tem desempenhado importante papel na fiscalização do governo Paulo Câmara.

 

Filho de pai paraibano e mãe catarinense, iniciou a militância política como secundarista, presidindo o grêmio da Escola Técnica onde formou-se técnico industrial. Com 19 anos, ingressou na antiga Rede Ferroviária Federal (RFFSA), trabalhando na manutenção de locomotivas. Ali começou sua vida sindical, onde conheceu o PT, partido ao qual filiou-se em 1988. Foi dirigente sindical dos Ferroviários de Tubarão (SC), dos Ferroviários do Nordeste, da Federação Nacional da categoria e da CUT. Foi Coordenador do MNU – Movimento Negro Unificado. Deixou o PT em 1992; fundou o PSTU em 1994, onde ficou até 2002. Em 2004, foi um dos fundadores do PSOL.

 

Em 30 anos de militância, sempre atuou na organização da participação popular nos principais momentos da vida política do país: na luta contra o governo Sarney, na Constituição de 1988, no Fora Collor, na defesa das estatais e serviços públicos, contra a reforma da previdência de FHC e Lula, pela reforma agrária e urbana, pelas demandas dos estudantes, das juventudes e do povo pobre.

 

 

MESTRA JANJA

Historiadora e Capoeirista, fundadora do Instituto Nzinga de Estudos da Capoeira Angola.

 

Rosângela Costa Araújo, conhecida como Mestra Janja é historiadora e capoeirista. Uma das fundadoras do Grupo de Capoeira Angola Pelourinho/Bahia, onde permaneceu até 1995. Formada em História pela UFBA, foi para São Paulo onde fez o mestrado e doutorado em Educação na USP. Nessa época, fundou o Grupo Nzinga para se dedicar à preservação dos valores e fundamentos da Capoeira Angola seguindo a linhagem do Mestre Pastinha.

 

Em 2001 formou o Instituto Nzinga de Estudos da Capoeira Angola e Tradições Educativas Banto no Brasil, entidade atua na pesquisa e difusão das diversas tradições de matriz banto, promovendo ações sociais e educativas. Voltou para Salvador para coordenar o Departamento de Mulheres da Secretaria de Promoção da Igualdade do Estado da Bahia.

 

Mais tarde assumiu o cargo de professora do Departamento de Estudos de Gênero e Feminismo da UFBA. Em 2015 publicou o livro “É Preta Kalunga: A Capoeira Angola como Prática Política entre os Angoleiros Baianos – Anos 80-90”, pela Fundação Gregório de Mattos.

 

ATIVIDADES CULTURAIS

 

 

RODA DE CAPOEIRA

 

Às 14:00 teremos uma roda de capoeira angola liderada pela Mestra Adriana Luz do Nascimento, mais conhecida como Mestra Di. Na ocasião contaremos também com a presença de outros grupos de capoeira que se somarão a esse momento celebrativo e de muita reflexão política.Fundadora do Centro de Capoeira Luz Di Angola, foi criada na pedagogia da capoeira desde menina pelas ladeiras de Olinda. Mulher negra, mãe, da periferia e militante das causas sociais e feministas.

 

 

BATALHA DA ESCADARIA

 

A Batalha da  Escadaria é um duelo de MC’s, que existe desde 2008 em Recife, é realizado na primeira e terceira sexta-feira de cada mês, na escadaria de uma loja no centro da capital pernambucana, localizada na esquina da Rua do Hospício com a Avenida Conde da Boa Vista (um dos principais corredores de ônibus da cidade), em frente ao Beco da Fome, famoso ponto de encontro dos integrantes do movimento Hip Hop na cidade.

 

 

Mais informações:

 

Evento no Facebookhttps://www.facebook.com/events/151515992253630/

Mais informações: www.vamosdepreto.com.br

 

 

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Crônicas Mexistas

Memórias de minha velha mãe

Por Douglas Rodrigues Barros

I[1]

Eram os seus dias de luta. Queria-os melhores! Começavam longos, barulhentos, mal servidos; sem dinheiro ou vaga em creche, entregava-me a vizinha, beijava-me. Com dois anos de idade não recordo esse drama, mas sei que as pessoas iam tão amontoadas no trem que se tinha dificuldades para mexer os cotovelos. O suor escorria por todas as frontes; primeiro dia de um trabalho. Sonhava com as possibilidades da parca diária.

Como uma cintilante estrela solitária cruzou o chão quente da cidade e se deparou com uma dessas casas funcionais de classe média. Então viu-se avançar sobre o quintal convidada por uma velha senhora, que parecia empantufar-se em roupas de gosto duvidoso. Seu rosto era mais plissado de rugas do que maracujá maduro, e das mangas da camisa ultrapassavam duas longas mãos cujas veias verdes sob a pele clara tornavam-se repulsivas.

Um pouco com timidez iniciou o trabalho sob olhares inquiridores da velha senhora. Com a vassoura varreu toda a casa e com um pano acabou com a poeira. A força de ter servido, dolorosamente como seus antepassados, apresentava por si só os humildes testemunhos de tantos sofrimentos suportados. Indiferente a isso, a velha senhora ia atrás passando o dedo nos móveis para conferir. Um ultraje e num relance lancinante exclamou: “Escuta aqui dona, vá para lá que eu não gosto de ninguém me enchendo o saco não!

Algo de uma rigidez inesperada realçou o rosto da velha. Se, nenhum sentimento amolecia aquele olhar pálido, a afronta de uma trabalhadora que não se calava causou espanto. Desabou no sofá como se fosse desfalecer e ficou sem graça. Mais tarde, porém, não engolindo o torrão da ofensa, a velha senhora foi certificar-se da lavagem do quintal e vendo que nada podia dizer, imperiosamente ordenou: “você precisa lavar a rua!”.

“Quer saber!”, retrucou de imediato, “pegue a mangueira e lave a senhora, porque não sou paga para lavar a rua!”.

“Eu não acredito que você está falando isso para mim!”

“Pois estou, vamos pegue a mangueira e lave a senhora!”

“Fora da minha casa!”

“Nem precisa pedir!”, – fez retirando imediatamente o avental.

“O que?”

“É isso mesmo, tome!” – lançou o avental na respeitável senhora que com ódio bradou:

“Só que você não sai daqui sem eu revistar a sua bolsa!”

“O que você está dizendo mulher? Olha só eu vou contar até três se você não sair da minha frente eu enfio a minha mão na sua cara!”. E como uma pantera avançou portão afora. A impotência da sensação penetrada por uma injustiça secular doía-lhe no peito (nada mudou) e, como grãos de areia numa ventania, turbilhonavam seus batimentos que espalhava o constrangimento sobre a sua alma. Ela abriu as narinas repetidas vezes, nervosamente, quando se lembrou que não tinha recebido a diária e nem tinha o dinheiro da passagem para voltar para casa. Revirou a bolsa, enxugou as mãos; depois, observou ao seu redor e constatou que teria que pedir dinheiro para o retorno…

 

[1] Doravante quinzenalmente.

Imagens do artista mexista Piruá

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Cultura Matriz Africana

Exposição ‘aFÉto’ chega a São Paulo para temporada na Aparelha Luzia

aFÉto, exposição de imagens do sagrado negro a partir de terreiros de candomblé, chega à São Paulo para temporada no quilombo urbano da Aparelha Luzia, espaço de arte, cultura e resistência política afro-indígena e feminina. Lançamento será neste sábado, 21 de Outubro, a partir das 20h.

Por Olhar de um Cipó

 

Sucesso no Festival Internacional de Fotografia do Rio de Janeiro 2017, AFÉTO, a primeira exposição individual de Roger Cipó, com curadoria de Marco Antonio Teobaldo, é resultado de anos de observação do cotidiano de terreiros de candomblé em São Paulo e Rio de Janeiro, numa tentativa de recriar a imagem do sagrado negro a partir da perspectiva de evidenciar a humanidade dos adeptos do candomblé, povo que historicamente tem sido vitimado pelo racismo religioso.

 

Nessa perspectiva, o trabalho propõe um diálogo imagético como contra-narrativa às imagens criadas em olhares desconhecidos que de forma superficial olhou para as práticas pretas de fé com “lentes fetichizadas”, atribuindo lugares pejorativos e quase nunca olhado para as dimensões sagradas e valorosas desses povos e seus territórios. AFÉTO vai de encontro à uma nova construção daquilo que se pode entender por ver o candomblé e sua digna totalidade.

 

Uma atmosfera que reivindica o sagrado afrobrasileiro como caminho de auto-cura coletiva de um povo forjado na luta, não só por liberdade, mas pelas possibilidade de viver.

 

Em AFÉTO, Cipó, um jovem que descobriu a fotografia como forma de comunicar sobre sua relação com sua fé, compartilha imagens pouco conhecidas no imaginário da sociedade quando o assunto é candomblé.

 

Seus retratos contam histórias de amor que nascem a partir da experiência de fé nos orixás. De acordo com o artista, mais que um registro documental sobre um aspecto específico do Candomblé, o trabalho reitera a importância das relações interpessoais como forma de resistência do legado africano.

 

Exposição aFÉto

Quando: A partir de 21 de Outubro – às 20h00

Local: Aparelha Luzia

Enredeço: Rua. Apa, 78 – Centro SP – Próximo metrô Marechal Deodoro


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Crônicas Mexistas

Eu queria beber com Simone de Beauvoir

Por Douglas Rodrigues Barros

 

Também o céu às vezes é tomado de assalto. É bom lembrar para não desanimar. A frieza das pessoas nas ruas sujas e o calor fumegante das calçadas geralmente nos faz esquecer a vergonha de se tiranizar… e tiranizar. Todo mundo é gentil e educado até pegar o metrô das dezoito horas na Sé.

Antes disso, porém, estava numa biblioteca famosa longe de casa. Com direito a cafezinhos e ar condicionado, com gente educada até as tampas, terminava a leitura de A cerimônia do Adeus. Com desajeito saiu para fumar observando no visor do celular o horário de pico se aproximando como barco a vapor.

Sob o impacto da leitura refletia que por detrás de uma suposta moralidade à esquerda há sempre um sentimento católico recalcado principalmente no Brasil. Suspirou com o primeiro trago a sarça ardente das fumaças próximas ao Anhangabaú. Olhou para as novas meninas que passavam com cabelos esvoaçantes e lembrou-se de Beauvoir.

Que diria Beauvoir de sua acusação de binarismo? Que diria de suas leitoras tropicais? Ela que agora era acusada de rica e de não entender nada sobre as mulheres pretas e periféricas.

Justo ela que lutou na resistência contra os nazifascistas e escondeu revolucionários no seu sótão. Justo ela que não titubeou no enfrentamento contra De Gaulle e exortou Sartre a se posicionar radicalmente. Justo ele que apoiou a luta de independência dos Argelinos, viajou para conhecer a Revolução Cubana, escreveu sobre a Revolução Chinesa e tomou a benção da mãe de Santo com Jorge Amado na deliciosa Bahia. Justo ela que a despeito de todas essas coisas ainda encontrou tempo para escrever O segundo sexo. Justo ela…

Deu um segundo trago e pensou: traça-se à vida hoje limites muito estreitos ao se exigir que dela só se possa obter o trivial. Simone pensou muito além do trivial e muito além de supostas características herdadas por um modo de sociabilidade que inferioriza grupos para manter a ordem social. Sua leveza e “leviandade” imaginativa foram necessárias para mitigar sua índole desmesuradamente apaixonada pelo Outro. O Outro negativo que me forma e me traduz a impossibilidade de saber quem sou, porque nunca sou, estou sempre sendo.

Nessa conclusão tudo entregou ao assombro. Riu consigo mesmo, desejou beber com Simone de Beauvoir e repetiu: ainda não se nasce mulher, torna-se… ainda o ser humano é ser social. Ainda bem!

*Imagem: Óleo em tela de Cleiton Custódio Ferreira (Mexista)

 


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Política Protestos

Césare Battisti e o Juiz na Bruzundanga Revisitada

Por Espaço Cultural Mané Garrincha

Até que nos prove o contrário, a cidade de Corumbá, no Mato Grosso do Sul, continua sob jurisdição brasileira. Mas não parece ser este o entender do senhor juiz Odilon de Oliveira, da 3.ª Vara Federal de Campo Grande, ao proferir a prisão preventiva do ex-ativista italiano, e hoje escritor literário, Césare Battisti, no último dia 4 do mês corrente. Para coroar o show de sapiências e confirmar que essa é mesmo a terra dos bruzundangas de que nos advertira Lima Barreto, o doutor Odilon convocou uma coletiva de imprensa para (pasmem!) anunciar que aquele era seu último dia de desembargador e que no ano seguinte seria candidato ao pleito eleitoral.
Segundo o mesmo juiz, Battisti fora preso por questão de segurança nacional (sic) e possível fuga do país, ainda que o acusado já esteja vivendo no Brasil há onze anos sem nenhuma atitude que desabone sua conduta, sendo resguardado pela lei que lhe confere status de imigrante permanente concedido pelo decreto presidencial de Lula da Silva em 2010 e ratificado pelo STF em 2011.
Integrante do PAC (Proletários Armados pelo Comunismo), organização revolucionária clandestina nos anos setenta, Battisti foi julgado à revelia em seu país após delação premiada de um traidor e sentenciado a duas prisões perpétuas por supostos quatro homicídios. Desses, (pasmem novamente) dois ocorridos no mesmo dia e instantes, porém, em cidades separadas por mais de 200 km de distâncias uma da outra.
Seu país de origem é um país controverso. Livrou-se de Benito Mussolini no pós-guerra e abraçou a democracia, porém, encastelou toda uma gama de fascistas em suas repartições públicas. A máfia, que bem sabe da importância de um Estado deste tipo para negócios ilícitos bem sucedidos também foi buscar seu quinhão, ou alguém acha que Berlusconi caiu de páraquedas na chefia daquele Estado? Pois bem, foi esse tipo de Estado que Césare Battisti combateu de armas nas mãos.
Derrotado militarmente, fugiu para não ser assassinado por seus inimigos. Vindo parar em terras brasileiras, sua vida continua ameaçada. Portanto exigimos:
1) Que o status de imigrante permanente conferido a Césare Battisti pelo Estado brasileiro não seja mera retórica, mas força de lei; 2) Que a Itália pare de tratar o Brasil como fosse uma criança envelhecida que não sabe o que faz e passe a respeitar a nossa soberania nacional; 3) Que Michel Temer não suje suas mãos de sangue ao entregar Césare Battisti à justiça italiana; 4) Que a mesma exigência feita a Michel Temer seja estendida ao ministro Luiz Fux do STF, responsável pelo desfecho jurídico da situação de Césare Battisti no Brasil;
É o que tínhamos por dizer para o momento.

 

PETIÇÃO CONTRA A EXTRADIÇÃO DE CESARE BATTISTI

 

Queridos amigos:

Numerosas organizações, sindicatos, movimentos sociais, partidos, entidades culturais, e pessoas de todos os setores e atividades, estamos pedindo assinaturas em favor do direito de Cesare Battisti de conservar sua condição de residente permanente no Brasil.

Ao mesmo tempo, em nossa petição exigimos o fim da interminável perseguição contra ele,movida por interesses políticos, por ódio ideológico e cultural, por sentimento de vingança, e, sobretudo, pelo interesse tortuoso de ambos os governos, o italiano e o brasileiro, de distrair a atenção de seus povos fazendo um circo romano.

Há seis anos e meio que Battisti vive em liberdade no Brasil, escrevendo livros que são publicados em diversos países, e cuidando de sua família e de sua vida social. Ele tem um filho brasileiro de quatro anos que é dependente econômica e afetivamente dele.

Apesar da extrema perseguição por parte das elites, de duas graves tentativas de sequestros apoiadas por grupos ligados à polícia, o MP, e, agora, ao governo, Battisti manteve sempre a serenidade, a dignidade e a observância da lei Brasileira.

Pedimos a todos os amigos que cliquem este link, assinem e façam conhecer a seus amigos e contatos.

 

www.peticaopublica.com.br/pview.aspx?pi=BR102530

 


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Crônicas Mexistas

Pelo direito de não ser informado

 

Por Douglas Rodrigues Barros[1]

 

Fora da zona magnética em que somos cativados pelo mágico azul facebookiano, a vista descansa refletindo na calmaria de uma segunda-feira a tarde[2]. Vejo, na ponta do cigarro, a fumaça se perder no ar e dar voltas sobre si. Enquanto isso, a aranha silenciosa do tédio fia sua casa calmamente. Uma semana atrás, numa conversa, cheguei à seguinte conclusão: a própria política tornou-se facebookiana.

No Feed de notícias convergem os instintos sopitados de revolta e indignação. Uma cachoeira de espetáculos midiáticos numa praça virtual feita zona de guerra que colocaria Guy Debord em aflição. Cada um sabe mais que o outro. De repente, é como se todos soubessem de tudo. Sacrifica-se de golpe retórico o amigo, o vizinho e até o parente: um rasgo de falsa heroicidade.

Um general ameaça tomar o país com seu Zeppelin gigante. Tédio absoluto seguido de palmas entusiasmadas de uns tantos seguidores. Desço a barrinha. Lula não é mais Lula é agora uma ideia. Palmas e xingamentos. Reflito jocoso: confunde, no seu desejo, as sensualidades do poder. Ao primeiro encontro com o link, se vê que, afinal, a situação de crise é normal, tornou-se forma de governo. Tédio. Segue-se a rolagem da barrinha: um vídeo com um gatinho miando desperta a sensação de falsa ternura, centenas de curtidas.

Ao mesmo tempo, como os filósofos atribulados, busco consolação em outro canto da tela. Uma militante anuncia a necessidade do empoderamento coletivo, ao se empoderar um, empoderam-se todos. Entediado, chego à conclusão de que prefiro o existencialismo, pois apesar de ver na escolha de um, uma escolha que implica a humanidade, o existencialismo nunca teve ilusões com as formas de poder instituídas. Ai! Deus! Desperto meu lado anarquista – graças a Deus. Por pouco tempo.

Sinto-me amesquinhado com tanta notícia e tanta gente sabendo de tudo. Sinto-me amesquinhado sob o peso de tantas revelações sobre a humanidade, os países, os planetas, as últimas descobertas científicas, o perigo da guerra nuclear, as últimas doenças descobertas pelo hábito de tomar café, o homem nu e a criança. Outro trago. Saio do Facebook. O alivio alivia. Gozo criminosamente o sobressalto da descoberta: não preciso de tanta informação. Se tanta gente sabe de tudo e a coisa anda desse jeito, reservo-me o direito inabalável de permanecer na minha ignorância sobre o mundo virtual.

Nietzsche vivia falando algo como transvalorização de valores. Vai ver que hoje subverter valores, seja algo bem mais tranquilo do que foi na época do filósofo ermitão, talvez, consista simplesmente na prática contínua de não querer abrir o feed de notícias. Como disse uma personagem perdida em meus livros: É melhor viver cercados de grandiosas questões, que viver no meio de verdades medíocres. Realmente, é melhor as dúvidas do que as respostas de nosso Feed de Notícias.

 

[1] É escritor e doutorando em filosofia.

[2] Crônicas Mexistas.

 


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Arte Cultura

Exposição sobre populações negras da Amazônia chega à Caixa Cultural SP

Madona negra

A exposição (Re)Conhecendo a Amazônia Negra, da fotógrafa Marcela Bonfim, chega à Caixa Cultural SP em 7 de outubro (sábado) e vai até 17 de dezembro. São 55 fotos de diversas populações negras: quilombolas, afro-indígenas, barbadianos e haitianos, que também fizeram parte do processo da própria fotógrafa em se reconhecer como mulher negra.

 

Por Jéssica Moreira

A CAIXA Cultural São Paulo apresenta, de 7 de outubro a 17 de dezembro, a exposição (Re)Conhecendo a Amazônia Negra, da fotógrafa Marcela Bonfim. A mostra traz obras que ilustram as mais diversas identidades e culturas presentes entre os povos negros do local e a importância social das religiões de matriz africana na construção do Brasil. No dia 11 de novembro, haverá o lançamento do catálogo e um bate-papo com a fotógrafa.  O patrocínio do evento é da Caixa Econômica Federal, com visitação gratuita e classificação livre.

Ao todo, são 55 obras que trazem de maneira sensível e original as mais diversas expressões dos grupos que residem na região norte do país, dentre eles remanescentes quilombolas, afro-indígenas, barbadianos e também haitianos. Todos carregam em seus traços as heranças socioculturais de uma parcela importante da população brasileira que ainda não é reconhecida historicamente.

As fotos foram produzidas a partir de 2013, durante as visitas de Marcela a comunidades quilombolas, tradicionais, indígenas e urbanas, além de terreiros e festejos religiosos na região do Vale do Guaporé (RO), em um processo que coincidiu com o próprio reconhecimento da fotógrafa enquanto mulher negra. Nesta edição, a exposição traz também imagens do Mato Grosso (MT), Maranhão (MA) e Pará (PA).

Segundo Marcela, a proposta é utilizar a fotografia como instrumento de resgate da memória dessas populações e mostrar sua importância e legado para a construção da sociedade brasileira.

“Mais que fotografia, o aspecto fundamental da proposta é a crítica ao percurso da história oficial sobre a negritude brasileira. Apesar do importante papel que os negros desempenharam e ainda desempenham para o desenvolvimento econômico, cultural e social do país, há mais de 500 anos, ainda padecem com as ambiguidades e injustiças causadas inicialmente pela seletividade das informações contidas nos livros de história e demais registros de memória, o que é um projeto de degradação e inferiorização destas populações, dos seus costumes e cultura”, aponta.

Chico Rameiro

Expressões de fé

Organizada em dois núcleos, a instalação prevê um verdadeiro mergulho na cultura e subjetividade dos povos negros da Amazônia, trazendo histórias de vida e também de expressões religiosas de matriz africana.

Logo na entrada, o visitante irá encontrar um altar trazendo alguns dos objetos de variadas religiões, encaminhando-o à primeira parte da mostra, com 35 retratos distribuídos ao longo da galeria e também em uma grande estrutura de madeira no hall principal.

O corredor de fotos levará até a Sala dos Ritos e Cultos Religiosos, com 20 imagens das mais variadas expressões de fé impressas nos detalhes de mãos, pés e semblantes de um povo que mantém fortemente suas tradições e festas religiosas. Elementos como espadas-de-são-jorge e sal grosso também irão compor a expografia, no intuito de apresentar ao público um pouco dos costumes presentes no cotidiano dos povos fotografados.

Sobre os povos negros na Amazônia

A população negra amazônica foi constituída a partir de 1750 com o povoamento do Vale do Guaporé – que fica entre a Floresta Amazônica e Pantanal – por negros escravizados vindos de Vila Bela da Santíssima Trindade (MT), em decorrência do ouro e da construção do aparato colonial de defesa militar “Forte Príncipe da Beira”. A partir de 1870, outras migrações negras, principalmente do Pará e do Maranhão, chegaram à região para a extração da borracha e de minérios e metais preciosos nos períodos conhecidos como “Ciclo do Ouro” e “Ciclo da Borracha”.

Entre 1873 e 1912, trabalhadores barbadianos contribuíram com mão de obra qualificada para a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Esse foi considerado o primeiro fluxo migratório livre negro no Brasil e foi um elemento importante, principalmente, nas áreas da saúde, da educação e da religiosidade. E, a partir de 2011, imigrantes negros haitianos passaram a habitar a região norte e se espalhar pelo Brasil após fluxo migratório que ocorreu por conta dos desastres e demais dificuldades que enfrentavam em seu país naquele momento.

Sobre a fotógrafa Marcela Bonfim

Fotógrafa, Marcela Bonfim, 34, é formada em Ciências Econômicas (2008) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e é especialista em Direitos Humanos e Segurança Pública (2011) pela Fundação Universidade Federal de Rondônia (UNIR). A fotografia entrou em sua vida no processo de resgate de sua identidade enquanto mulher negra, quando foi morar em Rondônia e entrou em contato com diferentes culturas, principalmente a dos barbadianos. Foi por meio das lentes que ela se aproximou das religiões de matriz africana e também de populações em situação de vulnerabilidade, fazendo de seu trabalho um espelho para si mesma.

Serviço

Exposição (Re)Conhecendo a Amazônia Negra – Marcela Bonfim

Local: CAIXA Cultural São Paulo –  Praça da Sé, 111 – Centro – São Paulo – SP – próxima à estação Sé do Metrô)

Abertura: 7 de outubro, sábado, às 11h.

Visitação: de 7 de outubro a 17 de dezembro (terça-feira a domingo)

Horário: 9h às 19h

Classificação indicativa: livre para todos os públicos

Entrada franca

Acesso para pessoas com deficiência

Site da Exposição: https://www.marcelabonfim.com/

Facebook: https://www.facebook.com/AmazoniaNegra/    

Clique AQUI para acessar o evento no Facebook


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Cinema Filosofia

O Jovem Marx, de Raoul Peck

 

por Lucas Gomes

 

Os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; agora é preciso transformá-lo.

 

No filme “O Jovem Marx”, o filósofo alemão diz ao seu então novo amigo Engels, que acabara de ter o aparentemente simples insight que abre esta resenha, ambos bêbados depois de uma noitada regada a xadrez e álcool. Talvez uma frase dita com hálito de vômito. Será que foi realmente assim? Não saberia dizê-lo.

Esta resenha não é escrita por um especialista em Marx, em sua biografia. Não disputo bolsas ou cargos acadêmicos na base de estudos meticulosos sobre tal ou qual autor. Marx também não era esse tipo de pensador. O que vemos na tela é um Marx jovem jornalista semi-clandestino que foge da polícia. Não é genial poder recuperar este Marx e não aquilo que foi canonizado nas universidades?

Mas se o homem Marx pôde chegar a ser tão reconhecido em tais meios, foi porque o seu fugir da polícia tinha um ímpeto forte: tratar de entender o mundo com profundidade e demolir as versões falsas e errôneas oferecidas tanto por colegas como por inimigos (gente grande na política). A narrativa começa com uma cena de violência que bem poderia ser a abertura de um episódio de Game of Thrones: é a acumulação primitiva, cercamento dos bosques, transformação da propriedade comunal em privada. “Mas o que é a propriedade privada?”, indaga nosso protagonista, buscando a melhor pergunta antes de arriscar respostas.

Não estamos frente a uma obra que prime por uma direção “de autor”. Apenas segue o ritmo que se poderia dizer “comercial”. Ideal para transmitir uma história simples. Ponto para o diretor que não usou de recursos realistas/naturalistas para mostrar a miséria da classe trabalhadora. Isto é reservado apenas para a cena da acumulação primitiva.

Interessante, pois se o capitalismo reproduz a violência sistêmica contra os homens e mulheres (e crianças) do proletariado, boa parte de seu desenvolvimento enquanto sistema econômico se baseia na inovação da exploração do trabalho, por meios menos violentos e mais “sofisticados”: a mais-valia relativa.

Mais de uma vez o ator nos convence da ilusão cinematográfica e cremos ver ali o olhar atento e cheio de julgamento sobre os líderes socialistas de então, questionando as frases pomposas e grandiloquentes, abstratas. Já não se trata de corrigir a descrição do mundo, o filósofo deve incidir em sua transformação. Mas para fazê-lo ele deve sustentar-se em pilares firmes, em um bom entendimento do mundo. Não pode basear-se em ideias bonitas e boa vontade.

Mais do que carisma, se necessita formação e debate franco. Só assim foi possível superar o espírito progressista de sua época, filhos da Revolução Francesa, e afirmar: os homens não são todos irmãos. Existem os que exploram e os que são explorados. A nossa vida não é paz e tranquilidade. É luta. Luta cotidiana. Isso nos caracteriza, proletários do mundo. Definitivamente, o filme do diretor haitiano Raoul Peck é uma contribuição no esforço importante de tirar Marx do envoltório acadêmico e “marxista-leninista” no qual tem sido preservado com zelo pela ortodoxia.

 

Filósofos

Sócrates pegou em armas

e não abandonou a guarda – talvez por isso

suas picadas doessem mais

do que a de cães preguiçosos.

depois foi Nietzche quem se apercebeu

que o corpo produz substância espiritual,

ainda que seja da mais funesta, o abismo.

quando os filósofos se tornam leitores

deixam de ser poetas.

E ao retornarem à caverna,

já não sabem mobilizar ao sol.

e se lá fora encontram a mais gélida e fera noite,

devem tomar em suas mãos a fogueira

e assaltar os céus.

(Lucas Gomes)

 

 


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educação Lei 10639

UFABC aprova disciplinas de “Afro-Matemática” em seu currículo de licenciatura

Tabuleiro de Awale, jogo matemático africano, da família do Mancala

Coletivo Negro Vozes e professores sensíveis ao tema propõem e UFABC cria duas novas disciplinas no curso de licenciatura em matemática: Estudos Étnico-Raciais e Afro-Matemática como Transformadora Social, esta última formalizada com o nome de Seminários em Modalidades Diversas em Matemática.

 

Por Douglas Belchior

 

O que você sabe sobre a contribuição de negras e negros nas áreas de matemática, física ou química? Essa pergunta acompanha os afro-brasileiros nos espaços acadêmicos, sobretudo aqueles que se dedicam ao campo das ciências exatas. E quase não temos respostas.

Justamente por conta desse vazio de explicações, da sub-representação de negras/os, tanto entre estudantes quanto entre professores e da ausência de referências africanas e afrodescendentes nos cursos relacionados e, mais especificamente, na licenciatura em matemática, o Coletivo Negro Vozes, da Universidade Federal do ABC, decidiu se dedicar a projetos de pesquisa com estas preocupações, dando origem assim ao projeto MatemÁfrica. A plataforma é um espaço de publicação de projetos e pesquisas sobre as possibilidades e desafios que envolvem o ensino e aprendizagem da Afro-Matemática apoiados por processos colaborativos de autoria digital, tomando como referência as orientações e perspectivas da lei 10.639/03 e 11.645/08.

 

Quando a lei afirma que a prática  deve ser adota em TODO o currículo, isso inclui as disciplinas de ciências exatas e biológicas e não somente as humanidades. Também nesse campo é necessário descolonizar o ensino e os referenciais teóricos na formação de professores

Jorge Costa, criador da plataforma MatemÁfrica

 

Jorge Costa, formado em Ciências e Tecnologia, prestes a se formar em Engenharia de Materiais com licenciatura em Matemática, coordenador do Cursinho Popular Carolina de Jesus, no Capão Redondo, zona sul de São Paulo, é um dos criadores da iniciativa e diz que o projeto “é uma resposta que nós trouxemos, primeiro para nós mesmos, depois para a coletividade, sobre a importância de promover o ensino de matemática partindo de outros referenciais.”

As provocações do Coletivo Negro Vozes ganharam corpo. Na medida em que formulavam cobranças junto aos professores e coordenação do curso, sobretudo sobre a aplicação das leis 10.639/03 e 11/645/08, que legislam sobre obrigatoriedade do ensino de história e cultura africana, afro-brasileira e indígena em todo o curriculum escolar, as pesquisas ganharam consistência e se tornaram propostas concretas de mudança no currículo do curso de licenciatura em matemática.

 

Referências como o filme ‘Estrela Além do Tempo’, demonstram o quanto negras e negros são produtoras de conhecimento científico e que devem ser introduzidos em nossas escolas, com a finalidade de se quebrar estereótipos e demonstrar o talento e a genialidade de nosso povo também nas áreas consideradas ciências duras como matemática, física e química

Jorge Costa, criador da plataforma MatemÁfrica

 

“Quando a lei afirma que a prática  deve ser adota em TODO o currículo, isso inclui as disciplinas de ciências exatas e biológicas e não somente as humanidades. Também nesse campo é necessário descolonizar o ensino e os referenciais teóricos na formação de professores, para que estes não reproduzam o racismo dentro da sala de aula e consigam, no processo de ensino e aprendizagem, demostrar o quanto negras e negros sempre foram produtoras de conhecimento científico em toda a história da humanidade”, afirma Jorge Costa.

Jorge continua: “Exemplos como o dos Fractais Africanos, Sona, Mancala, jogos e técnicas de lógica, raciocínio e equações geométricas e matemáticas de origem africana, devem ser utilizados dentro da sala de aula para desenvolver o raciocínio lógico e, principalmente aos estudantes que possuem dificuldades em progressão aritmética (PA), progressão geométrica(PG) e geometria de modo geral”.

 

Desenhos Cokwe – Plataforma MatemÁfrica

 

O resultado das provocações e da atuação politica dos estudantes e de professores sensíveis ao tema, foi a criação de duas novas disciplinas no Curso de Licenciatura em Matemática na UFABC, sendo elas: Estudos Étnicos-raciais e Afro-matemática como Transformadora Social, esta última formalizada com outro nome, conforme processo relatado abaixo.

A proposta defendida pelo Coletivo Negro Vozes se deu num momento propício, uma vez que o curso teria que passar por mudanças, que por orientação de resolução do MEC, aumentaria a carga horária. Contudo, o núcleo responsável pela reestruturação e desenvolvimento do projeto pedagógico da licenciatura em matemática não havia, até então, percebido a importância de acrescentar ao currículo o debate racial através de disciplinas de aprofundamento das questões, nem tampouco a percepção sobre a importância de metodologias voltadas para o aprendizado de jovens negros e negras.

“A disciplina de matemática é uma das responsáveis pela exclusão de negros e negras das escolas, e consequentemente dos cursos superiores nas áreas tecnológicas. Referências como o filme ‘Estrela Além do Tempo’, demonstram o quanto negras e negros são produtoras de conhecimento científico e que devem ser introduzidos em nossas escolas, com a finalidade de se quebrar estereótipos e demonstrar o talento e a genialidade de nosso povo também nas áreas consideradas ciências duras como matemática, física e química”, explica Jorge.

O debate interno

Depois de formalizada a proposta de inserção de novas disciplinas no currículo do curso de matemática e de prévia análise, representantes do Núcleo Estruturante da Licenciatura em Matemática afirmaram não ser possível a inclusão das ementas, pois não haviam professores aptos a trabalhar as referidas temáticas. A contratação de novos professores também foi descartada.

A contra proposta apresentada foi resgatar disciplinas já existentes na UFABC e após alguns debates entre coordenação e o coletivo de estudantes, chegou-se ao consenso de se implementar a disciplina de Estudos Étnico-raciais e da criação de uma outra disciplina.

A proposta defendida pelos estudantes para esta segunda disciplina foi a de “Afro-matemática como transformadora social”. Mas a elaboração conceitual não agradou os responsáveis pela reforma, que a reapresentaram na forma de disciplina de seminários com o nome de “Seminários em Modalidades Diversas em Matemática”. A ementa e a bibliografia proposta pelos estudantes foi mantida, o que significou uma grande vitória.

Após debates sobre forma e conteúdo nas diversas esferas de deliberação da Universidade, no Conselho de Centro – CMCC (Centro de Matemática, Computação e Cognição) e, por fim, após análise do CONSEPE, último órgão deliberativo para projetos pedagógicos, as alterações foram aprovadas por unanimidade em 26 de setembro de 2017, dia histórico para o movimento negro auto organizado na UFABC para todas e todos que professam e defendem uma educação descolonizada.

“Este talvez seja o primeiro ou um dos primeiros cursos de licenciatura em matemática que se propõe a discutir o racismo de modo estruturante como uma obrigatoriedade da instituição. Trazer esse debate no campo das ciências exatas, principalmente nos cursos de licenciaturas que trabalham com a “formação” de novos professores e professoras é necessário e urgente. Conseguimos um passo importante, mas é somente o começo. Temos muito a caminhar”, finaliza Jorge.

 

 


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