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Em SP, ativistas refletem desafios e vivências de LGBTQ negros no universo cultural brasileiro

Artistas e personalidades debaterão preconceito e intolerância na cena cultural do país e contarão como superaram barreiras para serem reconhecidos

 

De Assessoria de Imprensa 

 

Para fazer uma reflexão sobre a vivência no segmento da cultura e de suas distintas expressões artísticas por pessoas que se auto identificam como negros e LGBTQ, o Instituto Brasileiro da Diversidade (IBD), com apoio institucional da APAA – Associação Paulista Amigos da Arte, do Teatro Sérgio Cardoso e da Secretaria Cultura do Governo do Estado de São Paulo, realizam o debate Conciliação LGBTQ+Negra no próximo dia 30 de novembro de 2017, às 15h00, no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo (SP).

 

O debate, com a intermediação do jornalista Tony Goes, colunista da Folha.com e apresentação de João Lindolfo, sociólogo, radialista comunitário e ativista, contará com profissionais e personalidades com experiências variadas nas áreas da cultura, relatando como ultrapassaram barreiras como preconceito, ódio e intolerância, entre outras, para conquistarem reconhecimento nos seus segmentos de atuação.

 

“O objetivo é refletir sobre a diversidade, esse tema tão complexo e polêmico, e os seus impactos sociais, culturais e econômicos, pois trata-se de um tabu pouco discutido em profundidade no Brasil, porque implica num engajamento de toda a sociedade para que possamos romper com um círculo vicioso de exclusão e de desigualdades”, afirma Helio Santos, presidente do Instituto Brasileiro da Diversidade (IBD),  realizador do evento.

 

“Nesse sentido, reconhecer, respeitar e valorizar as diferenças é um desafio estratégico, cotidiano, que não pode ser negligenciado pelo conjunto da sociedade, e deve ser enfrentado sistematicamente com rigor”, acrescenta.

 

Participantes:

 

 

‘Hélio Santos (convidado especial) – Professor Doutor, fundador e diretor-presidente do Instituto Brasileiro da Diversidade (IBD). Mineiro, tornou-se doutor em Administração pela FEA-USP e radicou-se em Salvador (BA), onde leciona na Fundação Visconde de Cairu. É pesquisador, autor e co-autor de livros relacionados à questão sociorracial brasileira, além de consultor de diversidade de várias empresas. OIBDé uma organização sem fins lucrativos, formada por pessoas e entidades que se dedicam à promoção da diversidade como instrumento de inclusão social.

 

André Fischer– O jornalista carioca é diretor do Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade, que acaba de realizar a sua 25ª edição em São Paulo (SP). Organizado pela Associação Cultural Mix Brasil desde 1993, o evento visa promover o respeito e a livre expressão da diversidade sexual, buscando novas perspectivas para a compreensão da comunidade LGBTQ, distintas de preconceitos, fomentando o respeito, promovendo a cidadania e o combate a toda e qualquer forma de homofobia e transfobia. É também DJ, apresentador, autor e tradutor de diversos livros sobre diversidade. Foi colaborador da coluna GLS da Revista da Folha.

 

 

Mel Gonçalves – Cantora, apresentadora de TV e ativista pelos direitos LGBTQ+. A cantora goiana, vocalista da banda , é a primeira mulher transexual a estrelar uma campanha da Avon. Mel tem 26 anos e apresenta o programa Estação Plural, na TV Brasil.

 

 

Caio Prado – Cantor e compositor carioca que, além da carreira solo, integra o trio Não Recomendados. Caio tem 26 anos e se formou na Escola de Música Villa-Lobos, no Rio de Janeiro. Criado no subúrbio do Rio, participou de festivais musicais, nos quais, além de elogios, também acumulou prêmios. Lançou o primeiro álbum em 2014 e acaba de gravar o segundo, chamado Incendeia. Sua música “Não Recomendado”, que o projetou nacionalmente e inspirou o nome do grupo, costuma ser interpretada por Elza Soares em shows.

 

 

Mc DELLACROIX – A rapper paulistana lançou este ano, digitalmente, seu primeiro single intitulado #QUEBRada. O single foi lançado em parceria com o projeto internacional Brazillian Spring, do qual a artista é porta-voz aqui no Brasil. Segundo a artista, #QUEBRada é sobre a realidade de um corpo negro e travesti resistindo à sociedade estando na periferia e das lembranças do que é (sobre) viver em uma realidade ainda marginalizada.

 

 

Rico Dalasam – É o nome artístico de Jefferson Ricardo da Silva, de 25 anos, o único rapper abertamente gay da cena musical brasileira, e desponta como representante do movimento “queer rap”. Antes de começar a se dedicar somente à música, Dalasam trabalhava como produtor de moda em São Paulo. O seu primeiro trabalho na cena musical foi o EP “Modo Diverso”.

 

 

Jéssica Ipólito– A jovem paulista, de 23 anos, é autora do blog Gorda e Sapatão, feminista e ativista do movimento negro feminino.

Debate Conciliação LGBTQ+Negra
Dia: 30 de novembro de 2017, quinta-feira
Horário: 15 horas às 18 horas
Performance musical: Mc Dellacroix, 18 horas às 19 horas
Local: Teatro Sérgio Cardoso – Sala Paschoal Carlos Magno
Endereço: Rua Rui Barbosa, 153 – Bixiga – São Paulo (SP)

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Cultura Ditadura Militar Formação

A arte popular e nossos mortos

por Lucas Gomes

 

Existe um estilo de música na Argentina que é em muitas coisas análoga ao funk carioca: a cumbia villera. O preto pobre periférico no Brasil não sabe o que o pobre periférico indígena escuta na Argentina, e vice-versa. Bem, na Argentina se escuta desde o fim dos anos 90′ a cumbia villera [cumbia favelera]. A cumbia é um estilo de música popular escutada em toda a América Latina, contando com algumas tradições próprias de países variados, como na Colômbia (mais tradicionalista) ou no Peru (que nos anos 80′ viu nascer a cumbia psicodélica). A cumbia popular argentina tem como um de seus principais ícones Gilda, cantora que morre no auge de sua carreira em um acidente de carro.

Mas a novidade surge a partir de uma banda que hoje é mítica, Damas Gratis, e seu cantor, Pablito Lescano. Se trata de uma cumbia de “baixo orçamento” que fala sobre mulheres (de forma misógina), sobre drogas (principalmente consumo) e sobre a polícia. Qualquer semelhança com o funk, temática ou cronológica, não é mera coincidência. Se alguém tiver interesse em conferir como soa esse estilo hoje em dia, também visualmente, pode conferir o clip da música “Yo uso Visera”eu uso boné.

 

*

 

Claudio Hugo Lepratti, também conhecido como “Pocho” [pronunciado como potcho] foi um militante social argentino assassinado aos 35 anos pela polícia da província de Santa Fe no dia 19 de dezembro de 2001. Foi uma das 36 pessoas mortas no Argentinazo, nos dias 19 e 20 de dezembro de 2001 que marcaram o auge da crise social e política que o país vinha vivendo. Suas principais causas foram o altíssimo desemprego e a crise da dívida soberana na qual culminou os anos do neoliberalismo argentino da década de 90′.

“Pocho” era um militante vinculado à teologia da libertação, atuou em organizações de bairro e também como ativista sindical enquanto trabalhador do estado. No ano de seu assassinato trabalhava como auxiliar de cozinha de uma escola situada em um bairro periférico da cidade de Rosario. Nos fatídicos dias do Argentinazo, como já se havia tornado comum pelo país nos anos anteriores, diversas porções da população empobrecida se dirigiam às principais cadeias de hipermercados para exigir comida. Ao ser-lhes negada, esta mesma população tomava a iniciativa de praticar saques a fim de remediar sua situação de miséria (busquem por fotos na internet e verão senhoras com bolsas e carrinhos de feira olhando para a polícia).

Entretanto, como a polícia existe para proteger o bom funcionamento do capital, estes atos eram reprimidos fervorosamente. Com esta desculpa, a polícia se aproximou da escola em que trabalhava Pocho dando tiros à esmo contra os moradores, o que incitou o militante a subir no telhado da escola e gritar a frase que seria sua lembrança póstuma: ¡Bajen las armas que acá sólo hay pibes comiendo! –  Abaixem as armas que aqui só tem crianças comendo! Foi assassinado com um tiro de escopeta. O policial que efetuou o disparo foi condenado a 14 anos de prisão, cumpriu 9 anos e hoje é militante do PRO, partido de Maurício Macri.

A música “El angel de la bicicleta” é uma homenagem do cantor León Gieco à Pocho, sendo a letra de sua autoria e a composição do pianista Luis Gurevich. O título faz referência ao apelido do militante, ganhado por usar muito a bicicleta como meio de transporte (e, obviamente, circular em um ambiente católico). León Gieco é um “cantaautor” famoso por engajar-se com causas sociais, é um dos herdeiros da “música de protesto” latinoamericana dos anos 60-70, Mercedes Sosa chegou a gravar algumas de suas composições. Para esta homenagem, no entanto, preferiu recorrer a um estilo que não costumava transitar, a cumbia.

A música de León Gieco, entretanto, é uma cumbia mais refinada e se sente isso principalmente na harmonia, com acordes inimagináveis em composições da cumbia villera original, e também um arranjo que não pertence ao estilo. Está lá sim o ritmo e os famosos solos de teclado com o timbre tão característico. Uma apropriação do artista para aproximar-se dos territórios que marcaram a trilha do militante Claudio Hugo Lepratti, brutalmente assassinado ao defender jovens estudantes. A letra é uma poesia dolorida, pois fala de um nós-lírico trágico, cindido: “nós deixamos isso acontecer. Por falta de poder para fazer que tudo seja diferente”.

Uma outra manifestação artística em homenagem à Pocho são os estênceis onde se vê uma bicicleta montada por uma pessoa com asas, imagem também presente em um monumento em sua memória na sua cidade natal, a pequena Concepción del Uruguay. Essa e uma figura de formiga, representando outro apelido seu, “Pochormiga” (Pocho-formiga) foram as formas que os artistas e ativistas encontraram de prolongar a memória deste militante assassinado pelas ruas dos bairros, como canta León Gieco em sua letra.

Abaixo compartilho uma tradução.

 

Trocamos olhos por céu

Suas palavras tão doces, tão claras

trocamos por trovões

 

Tiramos corpo, colocamos asas

e agora vemos uma bicicleta alada que viaja

Pelas esquinas do bairro, por ruas

Pelas paredes de banheiros e cárceres

Abaixem as armas

que aqui só tem crianças comendo!

 

Trocamos fé por lágrimas

Com qual livro se educou esta besta

com sanha e sem alma?

Deixamos ir um anjo

e fica esta merda

que mata sem se importar

De onde viemos, o que fazemos, o que pensamos?

Se somos trabalhadores, padres ou médicos?

Abaixem as armas

que aqui só tem crianças comendo!

 

Trocamos boas por más

e o anjo da bicicleta o fizemos de lata

Felicidade por pranto

Nem a vida nem a morte se rendem

com seus berços e suas cruzes

 

Vou cobrir tua luta mais que com flores

Vou cuidar de tua bondade mais que com plegárias

 

 

 

 

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Crônicas Mexistas

Memórias de minha velha mãe

Por Douglas Rodrigues Barros

II

Era hora da novela; sentadas e quietas. Um tapete ocupava grande parte do subchão da imensa sala, entre o vigamento do contrapiso e a terra cimentada. Era casa de coronel. A impressão viva de surpresa corava o rosto da meninada vestida em roupas de saco. Em frente, um tubo impunha imagem preta e branca de moça bonita. Atriz. Alva mais que a neve. 1964, ano simbólico para o país, mas no interior do Ceará nada se sabia de democracia, que dirá ditadura.

O coronel dizia-se ser bondoso; deixava a meninada assistir televisão. Naquela brandura patriarcal, porém, descascava-se o inesperado se alguma criança fosse vista querendo comida. “Damos a mão, esse povo quer logo o braço!”.

A meninada sentava uma do lado da outra e em fileira. Nos olhos da menina magrela e “cor de bosta” – como diziam – o brilho frente a grande novidade. No estômago, entretanto, o vazio frente a falta do almoço.

De pé vexadíssima, sentia brumar-se a vista, numa fumaça de vertigem. Mas, Lurdinha, a de olhos verdes, era bondosa e mais temente a Deus que o pai. O resto, uma cambadinha indistinta, sentadinha com os cabelos volumosos sendo puxados pelos cabrinhas. Adormentados nos últimos espaços, confundidos na sombra preguiçosa do fundo da sala.

Zumbia aos ouvidos da menina a palavra bonita e jocosa da tevê. A composição deste cenário era, contudo, alegre, inocente, vivo… Sim, devia ser isto; um movimento de formas infantis, roupas desgastadas, risos soltos, um turbilhão de imaginação, deslocados ao capricho de todas as fantasias, tocando-se, saltando a sarabanda da alegria. Essa coisa que é monopólio da irresponsabilidade séria da criança. Tudo isso a despeito da pobreza e da situação de miséria daquela meninada.

A fome, contudo ainda estava lá, no estomago da menina magrela – a que seria minha futura mãe – Lurdinha comia e enchia o copo de seu pai de cachaça para que dormisse logo. Quando esse começava a cochilar, por debaixo da mesa dava a menina magrela a comida que vinha de seu prato. Esta disfarçadamente enfiava a mão com arroz, farinha e feijão verde na boca. Saciava-se na bondade da amiga e depois lavava a mão “peguenta” de gordura.

A beleza, se há, é que a constância da bússola é uma, mas a criança a ignora. Assistir televisão na casa de Coronel Seu Antônio Jeremias era assim; matava-se a fome e a imaginação frente a tevê.

 

 

Imagem

Cleiton Custódio (Mexista)

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Cultura Política Sexualidade

Contra onda conservadora, Erica Maluguinho leva Aparelha Luzia a festival de Artes Queer na Irlanda do Norte

Érica Malunguinho - Blog Negro Belchior
Erica Malunguinho, parideira do quilombo Aparelha Luzia, em SP

 

Convidada especial de uma das atividades principais do Festival, o Simpósio de Artes Queer, cujo objetivo declarado é desenvolver projetos e redes internacionais de arte queer, a Malunguinho, claro, vai falar de luta.

 

Por Sandra Silva, internacionalista por formação e princípios; mestra em relações internacionais.

 

De 9 a 18 de novembro de 2017, ocorre em Belfast, capital da Irlanda do Norte, o Outburst Festival de Artes Queer – como o nome sugere, uma explosão internacional de trabalhos artísticos pensados por pessoas que desafiam os binarismos de gênero. Este ano, o festival contará com uma convidada preta, trans e nordestina: Erica Malunguinho, a parideira da Aparelha Luzia, quilombo que se ergue na região central da selva paulistana. Convidada especial de uma das atividades principais do Festival, o Simpósio de Artes Queer, cujo objetivo declarado é desenvolver projetos e redes internacionais de arte queer, Malunguinho, claro, vai falar de luta.

No Brasil em que museus são apedrejados e artes queer são combatidas por forças conservadoras organizadas, mais e mais pessoas vivenciam experiências de ódio e de negação às quais o povo preto e periférico vem resistindo há mais de 500 anos

 

Desde o século XVI, a Ilha da Irlanda tem sido lugar de uma disputa entre católicos e protestantes que forçou à independência do Reino Unido, nos anos 1920, do que hoje se conhece como a República da Irlanda, cuja capital é Dublin. Junto com Inglaterra, Escócia e País de Gales, o norte da ilha segue como parte do império britânico na forma de Irlanda do Norte, a menor das quatro nações que o conformam e um dos países mais pobres da Europa. Até hoje, Belfast, com seus muros separando zonas católicas e protestantes, é retrato vivo de uma história global de conflitos religiosos, desde que as cruzadas deram o pontapé para a difusão de fundamentalismos mundo afora. Esse mesmo fundamentalismo que justifica “guerras ao terror”  destrói e demoniza tudo o que está fora do establishment cristão, dentro de uma ideologia racista que permite que, hoje, terreiros de matriz africana sejam queimados Brasil adentro.

 

Há onze anos, o Outburst desafia valores estruturados em séculos de conflitos e segregações. Na batalha das ideias, mentes e corações, a explosão da arte queer se esboça não somente como movimento artístico, mas também político, emancipatório de pessoas e de corpos que potencializam exatamente o que os tornam abjeto. No debate corpo-político vivido na Aparelha Luzia, a pretitude não é um recorte de análise, e sim o fundamento de onde emergem as movimentações da experiência humana ao longo das diásporas. Neste território quilombola, as múltiplas maneiras de construção, autoconhecimento e reconhecimento de identidades e sexualidades são indissociáveis e inerentes a toda e qualquer atividade. Esses temas são vividos tanto no campo objetivo das muitas interações e eventos que se realizam na Aparelha, quanto no campo das subjetividades próprias dos processos de sociabilidade em que os afetos, a espontaneidade e o cotidiano são rios navegáveis de águas profundas e de densidades diversas. Os passos da Aparelha vêm de longe, resultado de lutas contra o colonialismo que ainda nos assombra, a despeito do esforço descolonizador que vem sendo levado a cabo desde o primeiro quilombo, do primeiro terreiro de candomblé e de tantas outras iniciativas de auto organização e resistência que dizem muito sobre a presença dos povos originários sequestrados da África e das Américas.

 

O “empoderamento” preto de que tanto se fala não se resume a uma afirmação estética, mas à disputa por poder político, econômico e social – em particular, em um país como o Brasil, cuja população é 54% negra: o maior povo preto fora da África, e o mundo nem sabe. Não raro, os movimentos de resistência e existência preta são relegados a um balaio “pós-moderno” pra onde vai tudo o que desafia centenas de anos de binarismos políticos, econômicos e sociais. Vozes e potências resistindo à uma cultura política racista, machista e doutrinária.

 

O elemento chave desta conjuntura de disputas e lutas são as mulheres –  pretas, cis, pobres, trans e travestis que teceram e tecem caminhos para o desmonte do patriarcado, impondo margens aos maiores ataques de abjeção existencial. No Brasil em que museus são apedrejados e artes queer são combatidas por forças conservadoras organizadas, mais e mais pessoas vivenciam experiências de ódio e de negação às quais o povo preto e periférico vem resistindo há mais de 500 anos. Neste Brasil, é urgente discutir projeto de futuro e de poder. O “empoderamento” preto de que tanto se fala não se resume a uma afirmação estética, mas à disputa por poder político, econômico e social – em particular, em um país como o Brasil, cuja população é 54% negra: o maior povo preto fora da África, e o mundo nem sabe. Não raro, os movimentos de resistência e existência preta são relegados a um balaio “pós-moderno” pra onde vai tudo o que desafia centenas de anos de binarismos políticos, econômicos e sociais. Vozes e potências resistindo à uma cultura política racista, machista e doutrinária.

 

A Aparelha Luzia, idealizada por Erica Malunguinho, é um espaço de encontro político, artístico, cultural, pedagógico, econômico, social e afetivo para toda existência, inteligência e potência preta, viva e em movimento. A Aparelha permite a realização de histórias e existências entre irmãos – sobretudo, entre irmãs: as gays, as trans, as travestis, as drags, as queer tudo. Esse convite para participar no Outburst certamente reconhece que a sensibilidade da mulher que pariu esse quilombo sabe de onde vem o marco civilizatório que alterou o nosso conhecimento sensível. A exposição internacional também é refletir sobre as dores coletivas, abrindo a possibilidade de projetar futuro. Qualquer ideia de paz não será o remendo de uma história de exploração e de racismo da qual o continente africano é principal alvo, resultando em infindáveis disputas e guerras entre irmãos, muitos dos quais forçados a solicitar refúgio em sociedades que os odeiam. Malunguinho vai à Irlanda fazer o que os movimentos emancipatórios fazem desde longe, de onde vêm os nossos passos: ampliar perspectivas de mundo e horizontes de luta.

 

Foto perfomance: Pro Sol nascente em mim. 2014. - Érica Malunguinho - Blog Negro Belchior
Foto perfomance: Marítima: pro sol nascente em mim. 2014. Erica Maluguinho.