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Escrita da história Genocídio Negro

Pessoas negras queimadas vivas, enforcadas, espancadas até a morte: Memorial resgata histórias de terror no Sul dos EUA

Monumento do Memorial Nacional para Justiça e Paz na cidade de Montgomery, no estado do Alabama, EUA

 

Por Douglas Belchior

 

A notícia sobre a inauguração do Memorial Nacional para Justiça e Paz na cidade de Montgomery, no estado do Alabama, EUA, não ocupou muito espaço na imprensa brasileira.

Inspirada no memorial do Holocausto em Berlin, na Alemanha e no memorial do Apartheid, em Johanesburgo, África do Sul, este monumento em memória às vítimas do terror racial promovida por supremacistas brancos que enforcaram, queimaram vivos, afogaram e espancaram até a morte mais de 4400 pessoas negras no sul dos Estados Unidos, é uma demonstração da força política da comunidade afro-americana. É também, para este Blog, a oportunidade de inaugurar a parceria com o Blog O lado B em NYC do nosso irmão Edson Cadette, negro brasileiro, jornalista e radicado em Nova York há mais de 20 anos. Em nossos diálogos de comparação sobre a questão racial no Brasil-EUA, transborda agonia ante a supremacia racial tupiniquim: O racismo no Brasil é igual ou pior, talvez até mais violento do que foi e é nos EUA. Como é possível não discutirmos isso em alto nível? Onde estão nossos memoriais? Quando o terror racial no Brasil será pauta nacional? Seguimos nós aqui, em busca de respostas e em tentativas de ação.

Com vocês, Edson Cadette, sobre memórias que também são nossas:

 

 

Por Edson Cadette do Blog LadoBNY – Correspondente em NY

 

Localizado no local de um antigo depósito onde os negros foram escravizados em Montgomery, Alabama, este museu narrativo usa mídia interativa, escultura, videografia e exposições para imergir os visitantes nas vistas e sons do tráfico doméstico de escravos, o terrorismo racial, o Jim Crow. Sul e o maior sistema prisional do mundo.Visuais convincentes e exposições ricas em dados fornecem uma oportunidade única para investigar a história de injustiça racial dos EUA e seu legado – para criar conexões dinâmicas entre gerações de americanos impactados pela trágica história da desigualdade racial.

Mais de 4400 homens, mulheres e crianças afro-americanas foram enforcados, queimados vivos, abatidos, afogados e espancados até a morte por multidões brancas entre 1877 e 1950. Milhões de pessoas fugiram do sul como refugiados do terrorismo racial. Até antão, não havia nenhum marco conreto de reconhecimento às vítimas de linchamentos por terrorismo racial. Em um terreno de seis acres no topo de uma colina com vista para Montgomery, o memorial do linchamento nacional é um espaço sagrado para a narração da verdade e a reflexão sobre o racismo nos Estados Unidos e seu legado.

 

 

O “Memorial Nacional Para Justiça E Paz” (National Memorial For Peace And Justice) inaugurado no último dia 25 de abril na Montgomery, no Estado do Alabama, foi projetado para homenagear os afro-americanos linchados durante décadas por aqueles que defendiam a supremacia racial branca nos Estados Unidos. Poderíamos também chamá-lo de Memorial do Terror.

O Memorial é uma antiga demanda da comunidade afro-americana para forçar a América a reconhecer uma de suas piores atrocidades direcionada especificamente contra os negros particularmente nos estados do Sul.

Com o final do período conhecido como Reconstrução (1865-1877), chamado também de reunificação do país após a Guerra Civil (1861-1865), os Estados confederados criaram suas próprias constituições estaduais juntamente com barreiras legais para impedir o avanço sócio-econômico dos ex-escravos, tratando-os como cidadãos sem qualquer direito constitucional.

 

Exposição interna ao Memorial

 

Este período de terror amparado em leis segregacionistas e racistas, colocadas em prática em todo sul do país, ficou conhecida como a era “Jim Crow”. Entre 1877 e 1950, uma campanha sórdida de terror apoiada pelo Estado, inflamou as relações entre negros e brancos acarretando nos linchamentos de mais de 4 mil pessoas.

A magnitude destas mortes que em muitas vezes ocorreram por questões banais como, por exemplo, a morte de Park Banks apenas por carregar no seu bolso a foto de uma mulher branca,  ou a morte de Mary Caleb Gadly, linchada depois de denunciar a morte do seu esposo. Grávida, ela foi pendurada de ponta cabeça. Teve seu corpo incendiado e cortado ao meio enquanto seu feto, ainda vivo, caia no chão.

Muitos destes linchamentos eram motivos de verdadeiros pic-nics com direito a fotos ao lado dos cadáveres pendurados. São notórias também as fotografias tiradas nos linchamentos sendo usadas como cartões postais enviados a amigos e familiares.

Estas mortes deixaram cicatrizes tão profundas na comunidade afro-americana que ainda hoje elas podem ser sentidas por todos aqueles conectados com os mortos.

 

Estátuas representando pessoas acorrentadas

 

Segundo o advogado Bryan Stevenson, fundador da ONG “Iniciativa de Justiça Igualitária” (Equal Initiative Justice), e responsável por este importante Memorial, muitos dos nomes dos mortos que agora fazem parte do memorial jamais vieram a público antes.

Segundo reportagem publicada no periódico The New York Times, Bryan Stevenson e um grupo de advogados mergulharam de cabeça nas pequenas livrarias espalhadas pelos vários condados nos estados do Sul para documentarem os milhares de assassinatos. Segundo o grupo, foram catalogados mais de 4 mil linchamentos.

Baseado nos dois mais importantes memoriais do planeta, o memorial do Holocausto em Berlin, e o memorial do Apartheid em Johanesburgo, Bryan Stevenson decidiu por construir um memorial único onde o impacto seria ainda maior para dar uma ideia mais completa da dimensão do horror perpetrado. Além dos nomes das vítimas escritos nas madeiras penduradas no teto representando cada condado, o memorial colocou em pequenos jarros a terra onde os linchamentos ocorreram.

 

Jarros a terra onde os linchamentos ocorreram

 

Segundo Bryan Stevenson, a ideia de construção do Memorial do Linchamento surgiu durante as décadas visitando as cortes no Alabama onde o sistema judiciário local ainda trata os cidadãos afro-americanos com crueldade e indiferença.

Há quase 30 anos a “Iniciativa de Justiça Igualitária” vem oferecendo serviços jurídicos para a população mais pobre dentro de um Estado ainda mergulhado em memórias, imagens e comemorações aos soldados confederados. O Estado do Alabama tem o maior número de sentenças per capta nos Estados Unidos. Maioria esmagadora dos condenados, sejam quais forem os motivos, são negros.“Não estou interessado em falar sobre a história porque eu quero punir os EUA”, disse o advogado Bryan. “Na verdade, quero libertar a América”.

O Memorial do Linchamento não é um museu normal. Foi criado com o propósito de mostrar que a escravidão não terminou com a emancipação dos escravos. A instituição continuou se transformando com o tráfico de escravos interno, com as décadas das leis segregacionistas, com os linchamentos, e por fim, nos dias atuais com a prisão em massa dos afro-americanos.

 

 

 

 

 

 

 

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Educação Popular Política Trabalho Escravo

Uneafro inicia Curso “Jovens Promotores de Direito Anti-Discriminatório” com sala cheia

Cerca de 200 estudantes acompanharam a aula inaugural do curso para promotores de direitos

 

Por Douglas Belchior

 

A aula inaugural do Curso de formação de “Jovens Promotores de Direito Antidiscriminatório”, realizada no último sábado, dia 28 de fevereiro, na Faculdade de Direito da FMU, em São Paulo, foi um sucesso.

O encontro, promovido pela Uneafro Brasil em parceria com o Ministério Público do Trabalho (MPT-SP) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT), reuniu cerca de 200 pessoas, maioria jovens negras, negros e periféricos estudantes dos núcleos de educação popular do movimento.

Elisiane Santos procuradora do MPT-SP; Thaís Dumêt Faria, da OIT; Cleyton Borges, coordenador da Uneafro e Valdirene Assis da CoordIgualdade, do MPT.

 

A aula foi precedida pela apresentação do curso e reflexões sobre sua importância num momento tão complexo da vida econômica e política brasileira, com a presença de Cleyton Borges, coordenador da Uneafro, Elisiane Santos e Eliane Lucina procuradoras do MPT-SP, estas idealizadoras, ao lado da Uneafro, da proposta do curso; Valdirene Assis, procuradora do Trabalho e Coordenadora Nacional de Promoção de Igualdade de Oportunidades e Eliminação da Discriminação no Trabalho do MPT e Thaís Dumêt Faria, Oficial em Princípios e Direitos Fundamentais no Trabalho da OIT.

O tema de abertura do Curso foi “Escravidão Contemporânea”, e contou com aula de Antonio Carlos de Mello Rosa, que atua com o Sistema das Nações Unidas e da Organização Internacional do Trabalho nas temáticas de trabalho infantil e trabalho escravo. Atualmente Rosa é coordenador da unidade de Combate ao Trabalho Forçado da OIT.

 

Antonio Carlos de Mello Rosa, da OIT, dialogando com estudantes

 

No segundo tempo da aula inaugural, Christiane Nogueira (MPT-SP) e Natália Suzuki (Repórter Brasil) trabalharam importantes conceitos que caracterizam o trabalho escravo moderno, jornada exaustiva ou forçada, ambientes insalubres e condições degradantes, restrição de locomoção e fomento de dívidas junto ao empregador ou proposto. “Foi um momento de muito aprendizado. Esse conteúdo jurídico e social será levado aos núcleos e territórios periféricos onde a Uneafro atua”, disse a professora e coordenadora da Uneafro na zona leste de São Paulo, Elaine Correia de Oliveira.

Observatório Digital do Trabalho Escravo no Brasil revela que 1,73% (ou 613) dos 35.341 trabalhadores resgatados da escravidão no país entre 2003 e 2017 foram vítimas desse crime ao menos duas vezes. Quatro pessoas foram resgatadas quatro vezes e outras 22, três vezes. A ferramenta é mantida pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) e pelo Ministério Público do Trabalho (MPT).

Elaine Correia (primeira de azul), em meio aos estudantes dos Núcleos da Uneafro da Zona Leste de SP

 

Próximos encontros

Serão ao todo 8 aulas, sempre nos últimos sábados de cada mês. A participação é livre e gratuita, mas só terão direito aos certificados aquelas que participarem de no mínimo 75% das aulas, de forma que ainda dá tempo de se inscrever e participar. Os próximos encontros serão itinerantes, realizados em diversas regiões da cidade de São Paulo e região do Alto Tietê. O Curso contará ainda com duas aulas especiais, uma em 25 de Julho, dia internacional da mulher negra latino americana e outra no encerramento do curso, em Novembro, mês da consciência negra. Interessados ainda podem se inscrever através deste formulário.

 

 

 

 

 

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educação

Projeto “Jovens Promotores de Direito Antidiscriminatório” terá aula inaugural gratuita neste sábado

A Uneafro Brasil, União de Núcleos de Educação Popular para negras e negros, e a Classe Trabalhadora, movimento social que organiza cursinhos comunitários e populares, em parceria com o Ministério Público do Trabalho (MPT-SP) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT), irão promover uma aula inaugural do projeto “Jovens Promotores de Direito Antidiscriminatório” gratuita neste sábado, 28/4, das 9h às 13h, no Auditório da Casa Metropolitana do Direito – FMU, em São Paulo.

A aula inaugural será aberta ao público em geral, principalmente para os estudantes de cursinhos populares, de escolas públicas, ativistas e universitários interessados na temática. O número de vagas é limitado por conta do espaço do auditório. Para garantir sua inscrição, basta preencher este formulário.

O evento contará com uma aula de Antonio Carlos de Mello Rosa, que atua com o Sistema das Nações Unidas e da Organização Internacional do Trabalho nas temáticas de trabalho infantil e trabalho escravo, sendo atualmente coordenador da unidade de Combate ao Trabalho Forçado. Além disso, Antonio Carlos falará sobre Direitos Humanos e o enfrentamento ao trabalho escravo, tráfico de pessoas, escravidão contemporânea, migrações, territórios e populações vulneráveis.

Para falar sobre trabalho escravo urbano e temas ligados a gênero, racismo, trabalho escravo e ações preventivas, a aula também contará com a presença de Christiane Vieira Nogueira, procuradora do trabalho, mestra em Direito Constitucional pela Universidade Federal do Ceará e integrante da coordenação nacional para erradicação do trabalho escravo.

Conheça o projeto
O curso visa fortalecer o protagonismo juvenil, a conscientização para a questão étnico-racial, de gênero, diversidade, combate ao trabalho infantil e denúncia de discriminação e assédio no trabalho. O projeto conta com professores do campo jurídico e de movimentos sociais. Segundo Elisiane Santos, Procuradora do Trabalho e Vice Coordenadora de Combate à Discriminação no Ministério Público do Trabalho em São Paulo, a parceria desses movimentos é uma importante ferramenta para romper as barreiras do mercado de trabalho e do espaço acadêmico. “Embora tenhamos avanços com a implementação das cotas raciais nas universidades, ainda há muito a ser trilhado”, explica.

Para o coordenador e professor voluntário da Uneafro, Cleyton Borges, o projeto busca radicalizar a formação política dos participantes por meio de uma perspectiva crítica e engajada. “Para nós que atuamos nos cursinhos populares, a educação e o estudo sempre estão ligados a uma luta concreta e também à necessidade de nos mobilizarmos enquanto movimento social. Por isso, o novo curso terá conteúdos teóricos e práticos ligados ao enfretamento das discriminações”.

A procuradora do Trabalho Valdirene Silva de Assis entende que o projeto não beneficia apenas o aluno: “O investimento na capacitação de jovens promotores é uma medida muito importante, pois esses estudantes serão multiplicadores de conhecimento. E isso se reverte em proveito deles e de toda coletividade na qual eles estão inseridos”, comenta. Jessica Vianna, aluna do projeto, explica a contribuição que a inciativa dará para a sua formação pessoal e profissional: “Acredito que este projeto contribua de forma a me fortalecer, sobretudo, em um lugar que ainda invisibiliza e silencia vozes de mulheres negras e periféricas, como eu”.

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Cultura

Centro Cultural Banco do Brasil SP terá exposição sobre arte contemporânea africana

O evento é gratuito e livre para todas as idades (Foto: Courtesy Kudzanai Chiurai)

Por Redação

A partir deste sábado até o dia 16 de julho, o Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo receberá a maior exposição de arte contemporânea africana realizada no país, a Ex Africa. O público poderá encontrar na mostra mais de 90 artes visuais do continente africano.

Uma instalação com grandes proporções – que ficará na entrada do prédio – do ganês Ibrahim Mahama, retratos provocativos do senegalês Omar Victor Diop e as fotografias do ativista zimbabueano Kudzanai Chiurai são algumas das atrações da exposição. Além dos 18 artistas de oito países da África, os brasileiros Arjan Martins e Dalton Paula, que contam com obras dedicadas à herança africana na cultura brasileira, também terão seus trabalhos expostos na mostra.

Com curadoria de Alfons Hug, ex-diretor do Instituto Goethe em Lagos, na Nigéria, a mostra terá esculturas, fotografias, instalações, performances, pinturas e vídeos que traçam um microcosmo da África de ontem e de hoje por meio de quatro eixos: Ecos da História, Corpos e Retratos, O Drama Urbano e Explosões Musicais.

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Política

Universidade de Harvard recebe evento sobre racismo e movimentos negros no Brasil

Por Redação

Nos dias 27 e 28 de abril, a Universidade de Harvard, em Boston, receberá mais de 30 intelectuais, ativistas e acadêmicos negros e negras para dialogar sobre questões ligadas ao impacto do racismo na experiência brasileira e a atuação dos movimentos negros na luta pela superação das desigualdades no país.  A atividade conta com organização dos professores Alejandro de la Fuente e Sidney Chalhoub,  do Alari/Harvard; e da professora Ana Flávia Magalhães Pinto, da Universidade de Brasília (UnB).

De acordo com a professora Ana Flávia, os palestrantes vão contribuir com percepções múltiplas sobre o tema. “Mesmo não dando conta de toda a diversidade do Movimento Negro, as pessoas convidadas são aptas a dar uma boa medida da recente atuação política de sujeitos coletivos negros cujas trajetórias remetem à maioria da população brasileira”, comenta.

A programação do simpósio “Afrodescendentes no Brasil: conquistas, desafios do presente e perspectivas para o futuro” está disponível neste site. O evento contará com uma transmissão ao vivo pelo canal do Youtube do Afro-Latin American Research Institute (Alari): goo.gl/bhHPHR. Na sexta-feira, 27/4, a palestra começa às 10h (no horário de Brasília) e no sábado, inicia às 6h (no horário de Brasília).

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Cultura

Coletiva Luana Barbosa, Larissa Ibúmi Moreira e Douglas Belchior promovem debate no SESC Carmo sobre juventude periférica


SESC Carmo recebe bate-papo, documentário “Eu sou a próxima” e livro “Vozes transcendentes: os novos gêneros na música brasileira”.

Nesta segunda-feira, 23 de abril, das 16h às 18h, o SESC Carmo recebe o debate “Juventudes Periféricas: gênero, sexualidade, identidade e resistência” com a Coletiva Luana Barbosa, Larissa Ibúmi Moreira e Douglas Belchior.

O objetivo é trazer uma discussão sobre a juventude periférica, sobretudo o caráter de opressão e violência, mas também enquanto resistência e produção cultural relacionadas às questões de gênero, sexualidade e raça.

O bate-papo começa pela temática do feminicídio e lesbofobia com a exibição do documentário “Eu sou a próxima”, produzido pela Coletiva Luana Barbosa, formada por um grupo de nove mulheres periféricas, duas mães, todas negras e/ou indígenas, oito lésbicas e uma bissexual.

A historiadora, Larissa Ibúmi Moreira, traz o seu livro recém lançado “Vozes transcendentes: os novos gêneros na música brasileira” e trará a discussão sobre a produção cultural enquanto expressão e resistência.

Douglas Belchior trará provocações sobre a história e narrativa da resistência negra no Brasil e os legados da escravidão para a formação da sociedade atual, além de pontuações sobre a organização política e resistência negro a partir do período pós-abolição.

O evento é aberto ao público e convida os jovens a pensar sobre os caminhos de se construir, lutar e resistir na sociedade.

SERVIÇO
Dia 23/4, segunda, das 16h às 18h
AUDITÓRIO
Não recomendado para menores de 14 anos
Grátis – Inscrições gratuitas na Central de Atendimento – Vagas limitadas.

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Política

MOBILIZAÇÃO NACIONAL CONTRA O CORTE DE GASTOS DISCUTE CONSEQUÊNCIAS PARA A POPULAÇÃO NEGRA

Campanha vai até 28 de abril e propõe a realização de rodas de conversa pelo país sobre os reflexos da crise econômica, como queda na renda da população negra.

 

Redes e entidades de sociedade civil, movimentos sociais, conselhos nacionais e pesquisadoras e pesquisadores de várias áreas das políticas sociais realizam a primeira mobilização nacional da Campanha Direitos Valem Mais, Não aos Cortes Sociais: por uma economia a favor da vida e contra todas as desigualdades.

A Campanha é promovida pela Coalizão Anti-austeridade e pela revogação da Emenda Constitucional 95 e visa estimular o debate público sobre os impactos negativos da chamada política econômica de austeridade no cotidiano da população e articular um conjunto de ações destinadas a dar fim a Emenda do Teto dos Gastos Sociais.

Aprovada em dezembro de 2016, a Emenda Constitucional 95 estabelece a redução do gasto público em educação, saúde, assistência social e em outras políticas sociais por vinte anos, aprofundado a miséria, acentuando as desigualdades sociais do país, em especial, comprometendo ainda mais as condições de sobrevivência da população pobre e negra. O impacto das medidas de austeridade pode ser sentido, por exemplo, no aumento da disparidade entre os rendimentos de brancos e negros. A renda de pretos e pardos passou a sofrer variação negativa – 1,6% e 2,8%, respectivamente -, enquanto os brancos mantiveram o índice de rendimento positivo, em 0,8%. Além disso, é importante destacar que o governo federal cortou drasticamente recursos dos programas destinados à promoção da igualdade racial e retirou o status de Ministério da Seppir (Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial).

Estudos da Plataforma DHESCA; do Inesc/Oxfam/Centro para os Direitos Econômicos e Sociais; e do IPEA vêm demonstrando o impacto da Emenda em várias áreas sociais, acarretando grandes retrocessos na garantia de direitos e a piora acelerada da situação dos indicadores sociais do país. O Relator Especial da ONU para Extrema Pobreza, Philip Alston, caracterizou a Emenda Constitucional 95 uma medida drástica que contraria as obrigações do Estado brasileiro na garantia dos direitos sociais.

 

Rodas de Conversa

Um dos objetivos da Campanha é democratizar o debate público referente às opções econômicas do país, multiplicando rodas de conversa em todo o território nacional sobre como a Emenda Constitucional 95 e a crise econômica vêm afetando a vida das famílias e comunidades e quais são os caminhos para a superação dessa situação.

Para alimentar o debate público, foi lançado um site (www.direitosvalemmais.org.br) e foram produzidos vídeos e outros materiais para apoiar as rodas de conversa. As rodas podem ser reuniões entre amigos ou vizinhos, audiências públicas, seminários, aulas públicas, atividades em praças, saraus de poesia, rodas de música, entre outras muitas alternativas propostas nos materiais.

Confira a programação das rodas de conversa já agendadas neste link.

 

 

 

 

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racismo

Abordagem racista da polícia militar resulta em processo contra o Estado

Marcelo Camargo/ABr
Além da situação vexatória, a vitima também foi diagnosticada com síndrome de estresse pós-traumático.

Por Redação

Após passar por uma revista abusiva de policiais militares, jovem negro receberá indenização de R15 mil reais do Estado. A decisão partiu da 10.ª Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça de São Paulo. Segundo a Comissão de Direitos Humanos da Seção São Paulo da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP), essa é primeira vez que o Brasil registra acórdão para esse tipo de ocorrência.

A situação envolvendo Nathan Palmares da Silva Firmo, vítima que passou pela revista, aconteceu no dia 8 de maio de 2010, em São Paulo. Com 13 anos na época, Nathan e seu pai saíram da estação Marechal Deodoro e caminharam até o Estádio do Pacaembu, onde aconteceu um jogo do Corinthians contra o Flamengo pela Libertadores da América.

No dia do jogo, o estudante de Ciências Contábeis andava a frente do seu pai, usando um moletom no qual apoiava as mãos no bolso. Gritando frases de ordem, um policial falou ao jovem: “Pare, tire a mão do bolso, levante para o alto e encoste na parede”. Segundo o pai de Nathan, o policial caminhou em direção ao menino e apontou a arma para a sua cabeça.

Sinvaldo José Firmo, de 55 anos, conversou com o PM e explicou que era pai de Nathan e advogado. Os policiais duvidaram das informações e revistaram Sinvaldo, que também é negro e integra a Comissão de Direitos Humanos da OAB, além de ser especialista em crimes raciais e participante da ONG Instituto do Negro Padre Batista.

Segundo o acórdão do Tribunal de Justiça, o advogado teve seu corpo empurrado contra a parede e foi obrigado a ficar com as mãos na cabeça. Em uma tentativa de ligar para a OAB e pedir ajuda, Sinvaldo recebeu ameaça de um dos policiais, que ainda apontou uma espingarda calibre 12 para sua cabeça. “Pode denunciar para quem quiser, mas não vai telefonar” disse o PM.

Após o ocorrido, pai e filho não assistiram ao jogo e retornaram para casa. Nathan passou a apresentar oscilações comportamentais e, de acordo com um psiquiatra, foi diagnosticou com uma síndrome de estresse pós-traumático, oriunda da brutal revista.

Mesmo com a perda do processo em primeira instância, a defesa da vítima conseguiu reverter à decisão por unanimidade pelo Tribunal de Justiça de São Paulo. Sobre o acórdão, Sinvaldo comenta que a decisão representa um conquista coletiva. “Essa vitória não é só minha nem do meu filho. Essa vitória é da população negra em especial da juventude negra brasileira, que sofre todos os dias abordagem policial”.

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Direitos da Criança e do Adolescente Política

Luta, reconhecimento e emoção marcam o 1º Prêmio Marielle Franco, organizado pela Uneafro

 

Um mês após o assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes, o movimento Uneafro realizou neste sábado, 14/4, a entrega do 1º Prêmio Marielle Franco, que homenageou personalidades e instituições referências para os movimentos contra o racismo, machismo e homofobia.

Com os olhares atentos de mais de 800 jovens alunos dos cursinhos populares de Uneafro, o auditório de Geografia da Universidade de São Paulo (USP) foi palco para iniciativa que premiou nomes como Regina Militão e Milton Barbosa, do Movimento Negro Unificado, Maria José Menezes e Jupiara Castros, Núcleo de Consciência Negra, e Sueli Carneiro, do Portal Geledés. A cria da Maré tem uma trajetória semelhante à dos alunos que estavam na plateia. Marielle também estudou em um cursinho popular, que fazia um trabalho parecido ao da Uneafro.

Para Zezé Menezes, a premiação foi uma grata surpresa. “Eu não esperava por este reconhecimento. Nós, ativistas, estamos acostumados às pressões, dificuldades, decepções, então ter um momento de alegria como aquele me fortaleceu”, comenta. Sobre a parceria com a Uneafro, ela enfatiza: ”Nosso trabalho só acontece quando temos parceiros, e a Uneafro tem sido uma importante entidade parceira do Núcleo de Consciência Negra, dentro e fora da USP”.

Regina Militão, do Movimento Negro Unificado, comenta sobre a importância da iniciativa, principalmente no cenário político atual. “Estar num ambiente cheio de esperança, onde a juventude representa e ombreada por pessoas magníficas, nestes tempos tão difíceis do Brasil do golpe e de ataques a direitos primários como a vida, a educação e a saúde. Na premiação eu senti a luta viva pedindo respostas ao assassinato de Marielle e por Lula livre”, aponta.

O professor e fundador do movimento, Douglas Belchior, comenta sobre as diretrizes principais para estruturar essa iniciativa. “Organizando a comunidade, promovendo solidariedade com professores voluntários e construindo espaços para tocar o coração e a mente dos estudantes pra consciência de classe, racial e de gênero e diversidade sexual”.

Do ponto de vista dos alunos, a estudante Aline Guimarães, fala sobre a diferença que uma premiação como essa impacta à sua vida: “Um bom começo para ter um futuro melhor, antes não tínhamos muitas chances de mudar e fazer a diferença. Com esses exemplos, nós vemos que é possível transformar”, explica a jovem.

“Esse reconhecimento nos faz acreditar que a nossa trajetória valeu a pena. Tudo o que nos arriscamos a fazer era necessário fazer, nós travamos um bom combate pelas causas que consideramos mais justas da humanidade”, salienta uma das homenageadas do evento, Sueli Carneiro.