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Cultura O quê que tá pegando?

Em parceria inédita, MASP e Instituto Tomie Ohtake recebem exposição coletiva “Histórias afro-atlânticas”

A exposição coletiva “Histórias Afro-Atlânticas” fica em cartaz no Masp e no Instituto Tomie Ohtake até o dia 21 de outubro de 2018 (Foto: Divulgação Tomie Ohtake)

Dando continuidade à exposição “Histórias mestiças”, realizada por Adriano Pedrosa e Lilia Schwarcz, em 2014, a exposição coletiva “Histórias afro-atlânticas” será lançada ao público neste sábado, 30, nas duas principais instituições culturais de São Paulo: o Museu de Arte de São Paulo (MASP) e o Instituto Tomie Ohtake. Com os mesmos curadores da mostra de 2014, a assinatura de “Histórias afro-atlânticas” ganhou um reforço com a participação dos artistas Ayrson Heráclito e Hélio Menezes, curadores convidados, e Tomás Toledo, como curador assistente.

O público poderá conferir cerca de 400 obras do acervo do MASP e de coleções brasileiras e internacionais, incluindo desenhos, pinturas, esculturas, filmes, vídeos, instalações e fotografias, além de documentos e publicações, de arte africana, europeia, latino e norte-americana, caribenha, entre outras.

O conteúdo apresentado nos dois ambientes é distinto. No Tomie Ohtake estão os seguintes núcleos temáticos: Emancipações; Ativismos e resistências. Já no MASP os setores: Mapas e margens; Cotidiana; Ritos e Ritmos; Retratos; Modernismos afro-atlânticos; Rotas e transes: Áfricas, Jamaica, Bahia. Em cada núcleo, encontram-se distintos movimentos artísticos, geografias, temporalidades e materialidades.

A exposição coletiva “Histórias Afro-Atlânticas” fica em cartaz no Masp (Av. Paulista, 1578) e no Instituto Tomie Ohtake (Rua Coropés, 88) até o dia 21 de outubro de 2018. Às terças-feiras, a entrada é gratuita nos dois espaços. Já aos domingos, o público tem entrada franca apenas no Tomie Ohtake.

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Cultura

Djamila Ribeiro lança livro “Quem Tem Medo do Feminismo Negro?” em São Paulo

Camila Pitanga, Erica Malunguinho, Djamila Ribeiro e Douglas Belchior

Na última segunda-feira, 25, a escritora e filósofa Djamila Ribeiro apresentou ao público sua nova obra, “Quem Tem Medo do Feminismo Negro?”, na Casa Natura Musical, em São Paulo. Com edição da Companhia das Letras, o lançamento do livro reuniu um grande público ao evento.

Para o lançamento do livro, a escritora participou de um bate-papo sobre a obra com a atriz Camila Pitanga. Além disso, o público ainda pode conferir a exposição das falas de Erica Malunguinho e Douglas Belchior e um pocket show da cantora Xênia França.

Depois do sucesso do seu livro “O Que É Lugar de Fala?”, Djamila  consolida sua carreira na literatura cada vez mais. Prova disso é o apoio que a escritora recebe da população e de importantes representantes do movimento negro, da política e das artes, como Maria Gadú, Liniker, Rodney William e Pathy de Jesus.

O livro “Quem Tem Medo do Feminismo Negro?” já está à venda nas livrarias de todo Brasil.

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Genocídio Negro

Genocídio na África e a omissão da França

Ruandeses da etnia tusti buscando refúgio do genocídio

Por Edson Cadette, do Blog Lado B NY

Em 1994 o presidente de Ruanda, o ditador Juvenal Habyarimana, da etnia hutu, morreu em um controverso acidente aéreo. O caso foi o estopim que desencadeou o genocídio de aproximadamente 800 mil cidadãos da etnia tutsi dentro do seu próprio país.

De acordo com um relatório publicado no final do ano passado pelo governo de Ruanda, a França por meio de seus militares teve uma participação ativa nas milhares de mortes.

O relatório, comissionado pelo atual governo de Ruanda e conduzido por um escritório de advocacia dos EUA, descobriu que os militares franceses não só treinaram soldados ruandeses, como forneceram todo tipo de armamento militar mesmo depois de um embargo de armas contra Ruanda.

Documentos arquivados mostram claramente uma aliança entre os dois governos e como a França reservou-se a um papel de espectador, enquanto o massacre ocorria. O EUA sob o comando do presidente Bill Clinton também foi omisso neste massacre. Na época os Estados Unidos não queriam interferir por causa da intervenção desastrosa ocorrida na Somália dois anos antes.

Os documentos mostram também que o filho do ex-presidente francês, François Mitterrand, era um dos aliados próximo do líder ruandês, cujo governo de etnia hutu encorajou o massacre. “Houve casos onde os soldados franceses encontravam cidadãos tutsis apavorados com o clima de terror e simplesmente viraram as costas e deixaram a execução acontecer”, disse Timothy P. Longman, diretor do Centro de Estudos Africanos na Universidade de Boston. “É uma coisa atrás da outra. Os franceses absolutamente merecem ser condenados por uma catastrófica omissão”, completa.

800 mil cidadãos de etnia tutsi foram mortos em Ruanda em 1994

Enquanto isso os governos da França e de Ruanda entram num verdadeiro cabo de guerra sobre as informações disponibilizadas recentemente a respeito das verdadeiras responsabilidades.

Segundo informações divulgadas por diplomatas franceses, na época, eles culpam os rebeldes tutsis liderados por Paul Kagane, o atual presidente de Ruanda. Com isso, o presidente rompeu relações com a França entre 2006 e 2009. A relutância do governo francês em processar os indivíduos envolvidos no genocídio agravou ainda mais o relacionamento diplomático entre os dois países.

Em outubro de 2017, um juiz na Corte de Apelação em Paris manteve a decisão de não investigar dois altos comandantes franceses com participações comprovadas no genocídio.  Ruandeses morando na França e suspeitos de terem participado no genocídio incluindo a mulher do presidente na época jamais foram formalmente processados pelo que aconteceu.

A corte francesa negou o pedido para o pequisador François Braner acessar os documentos do arquivo de François Mitterrand em novembro de 2017. O pesquisador entrou com um pedido de apelação na corte europeia dos direitos humanos.

“A intervenção em Ruanda é a mais simbólica das mais de 50 intervenções francesa no continente africano”, disse François Graner. “A força armada francesa ainda está envolvida na África. Elas estão implantadas com quase os mesmos mecanismo de decisão que foram usados em Ruanda”, disse o pesquisador.

Depois 24 anos das atrocidades, muita gente ao redor do mundo acredita que a França teve uma participação importante no planejamento, concepção e na execução do massacre.

 

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Com produção dos estudantes secundaristas de 2015, a peça “Quando Quebra Queima” estará em cartaz no Teatro Oficina neste fim de semana

“Quando Quebra Queima” é um produto da forte interação e troca de experiência que os alunos do movimento secundarista passaram em 2015 e 2016. As ocupações nas escolas, que tinham o intuito de cobrar por condições melhores do ensino público, reuniram diversos estudantes. A partir desse coletivo, 14 integrantes resolveram levar a vivência para os palcos, criando uma narrativa conjunta e comum por meio da perspectiva de quem viveu o dia a dia dentro do movimento.

A peça é uma “dança-luta” coletiva construída a partir das experiências recentes de cada performer: textos, músicas, coreografias e fotos feitas pelos próprios secundaristas compõem as cenas das peças; gritos de luta são cantados; ações e movimentos de rua são evocados no corpo de todos que participam. Ocupando o tempo presente, a ColetivA Ocupação provoca de maneira pulsante o universo que compõe esse movimento que transformou o corpo e vida de todos que participaram.

Se você quer conferir a produção, garanta seu ingresso antecipado neste site. Os moradores do bairro do Bixiga pagam R$ 10. Já os secundaristas de escola pública e aprendiz da Fábrica de Cultura têm entrada gratuita. A peça fica em cartaz no Teatro Oficina durante este fim de semana, com sessão às 19h.

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Mobilização O quê que tá pegando?

Afropotências: Não só luta contra o preconceito, mas poder para o povo preto!

A primeira de uma série de reportagens sobre pretas e pretos protagonistas no Empreendedorismo, Arte, Justiça e Educação do Espírito Santo e de destaque nacional

 

Lais Rocio, de Vitória/ES
Publicado originalmente no portal da empresa social Atitude Inicial 

Uma negritude protagonista, com poder para ser o que quiser. Não aceita mais ser minoria social, e reivindica ser em todos os espaços a mesma maioria que são no país, onde mais da metade da população é preta ou parda.  Por isso decidem chutar a porta e ocupar tudo. Criam um novo mundo em que a pele preta é força e poder, e não fraqueza.

Fazem tudo isso sob o mesmo solo em que o racismo extermina vidas negras. Por isso resistem e lutam só ao existir, mas não apenas existem: são potências, transformam tudo, valorizam a própria história.

Inventam um passado não só feito de senzala e escravidão, mas de quilombo, capoeira, orixás e África ancestral. Um presente não de violência na periferia, mas de oportunidades pra sonhar e conquistar seja lá o que for com a riqueza, cultura e sabedoria da favela. E um futuro afrofuturista, feito da tecnologia do tambor do funk e do Candomblé, com a criatividade de um povo preto livre.

“A história já colocou a gente num lugar sem valor nenhum, do preto no lugar do escravizado. Essa não é a única narrativa possível.
Quando vejo um professor ou empresário negro fazendo uma revolução na sua comunidade, vejo que não somos só resistência contra o preconceito. Somos potentes mesmo!”,
afirma Jota Júnior, empreendedor social.  

Assim, em revoluções diárias eles invadem a política e os governos, refazem a história do país, da sua cidade ou da sua comunidade. Lotam os palcos, passarelas, cinemas, comerciais e também seus bastidores e produções, valorizando seus traços, vozes e cabelos crespos. Essa mesma negritude toma a frente de negócios e empresas, lidera inovações, criações e empreendimentos. E também transforma museus de arte, universidades, espaços acadêmicos e científicos.

São mulheres negras periféricas, bichas pretas da favela, homens e mulheres trans e travestis, meninas e meninos pretos que ousaram sonhar com esse mundo diferente. Essa negritude inteira, diversa e potente, atua exatamente nos lugares para onde nunca foram convidados. São referência e inspiração justamente aonde nunca se viu um negro liderar, representar, ser dono do dinheiro, ser parte da maioria ou personagem principal. Desafiam sociedades e Estados inteiros apenas sendo o que são, potências negras.

“O problema é que sou preta e ótima. Ninguém conta para as nossas crianças pretas que nós somos ótimas.
Se eu fosse preta e ruim, seria o esperavam que eu fosse”,
reconhece Priscila Gama,
empresária e afroencer digital.

Toda essa realidade existe sim, e é só o começo. Porque ainda hoje, ao mesmo tempo em que vive essa negritude tão rica e potente, homens negros sofrem agressões e assassinatos pela violência policial, mulheres pretas são vítimas de feminicídios, abusos sexuais e padrões de beleza, e as lésbicas, gays, trans e travestis negrxs continuam sendo brutalmente violentados e marginalizados nas ruas.

Assim, todo o empoderamento e representatividade negra são também luta diária, e acontecem inclusive para contrariar as heranças dos quatro séculos de escravidão, no último país da América a abolir o maior tráfico de africanos no mundo, que foi o Brasil.

E quando aboliu, deu um fim sem direito a recomeço. Um regime imensamente doloroso e desumano que acabava sem dar o mínimo de acesso para uma vida digna a partir dali. 130 anos depois dessa falsa abolição, o racismo apenas mudou de endereço. Das senzalas para periferias, atualizou seus autores e jeitos de continuar excluindo e desvalorizando a negritude em todos os lugares e momentos da vida.

“É preciso encarar as sequelas da escravidão. Perdemos as referências, fomos desumanizados. Cada família preta e afrodescendente tinha que ter assistência social e psicológica.”, lembra Flavio Tongo, engenheiro e empresário.

Hoje, pessoas pretas e pardas são vítimas de mais de 70% dos assassinatos no país a cada ano, de acordo com o Atlas da Violência 2018. A pele negra como alvo principal da guerra brasileira se revela cada vez mais, inclusive na violência contra a mulher e a juventude. Tal como disse a vereadora negra e periférica Marielle Franco, pouco antes de ser brutalmente assassinada: “Quanto mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?”. Essa é a questão que fica quando olhamos para os dados e suas histórias por trás:

Como reflexo disso, a pele negra também determina a parte mais prejudicada em diversos outros espaços, como nas escolas, hospitais, no mercado de trabalho, mídia, entre outros. 

Com isso, nos dividimos em diversos Brasis com desafios e oportunidades diferentes para cada cor de pele. O Espírito Santo é um dos destaques nacionais na desigualdade racial, onde negros vivem com quase os mesmos riscos de homicídios no 4º país do mundo com mais mortes, a Colômbia, em uma situação bem diferente da população branca:

Fora do eixo Rio-São Paulo, para onde os olhos do Brasil geralmente enxergam tudo acontecendo, a negritude do Espírito Santo transforma essa realidade repartida protagonizando novas cenas, que alcançam potência nacional e internacional. De empresários a artistas, pretos e pretas capixabas mudam rumos do empreendedorismo até a arte, da educação até a justiça.

“Se não oportunizamos e não incluímos os negros em várias áreas de destaque profissional, estamos privando a nação dos nossos melhores nomes também”, afirma o advogado negro e capixaba André Moreira.

Assim, se reerguem dia após dia afropotências como Jota Júnior, idealizador da empresa social Atitude Inicial, que inclusive oportuniza que pessoas pretas e de periferia sejam potencializadas a mudar o mundo e atuar com o que amam. Tal como a empreendedora social e presidente do Instituto das Pretas, Priscila Gama. Ela resolveu criar por conta própria projetos culturais inéditos, dedicados e totalmente protagonizados pela negritude, principalmente feminina.

Também foi assim que a rapper Afari transformou palcos e batalhas de rap em lugares povoados por mulheres negras e periféricas cheias de poder. Com a poesia das suas rimas ela valoriza a identidade preta e periférica, atuando com um sentimento comum entre várias afropotências:

“A nossa juventude está sendo exterminada e escravizada, mas ainda assim conseguimos extrair a beleza, a alegria, o sorriso das crianças o colorido da comunidade. Para nós, o desacreditar das pessoas é um combustível. Podem até desacreditar, mas vão ver nossa evolução através disso. A superação é o mais importante de tudo isso, é o que nos transforma.”

Por outros lados por onde o racismo também tenta calar vozes negras, ecoam os gritos da representatividade. Nas Artes Plásticas, Castiel reivindica seu lugar como bicha preta e periférica. Leva a cultura preta e da favela para dentro dos museus e galerias de arte. O cineasta Izah abre caminho para a representatividade, igualdade e diversidade racial para dentro dos roteiros e direções. Por meio das lentes, conta histórias de empoderamento de várias vidas negras. Assim como o ator Vander Neri, que descobriu no teatro um universo para ser o que quiser: negro, gay, periférico e umbandista, cheio de desejos e sonhos que antes nunca pensou que podia simplesmente imaginar.

Os irmãos, sócios, engenheiros e empresários Ana Paula Tongo e Flavio Tongo transformam o mundo negócios em espaços para que pretos potentes sejam lideranças, e não apenas minorias. E o diretor escolar Elizeu Moreira dos Santos atua em uma escola pública de periferia para resgatar e criar novas perspectivas para jovens negros. Tudo isso também se reflete na justiça para o povo preto, com o advogado André Moreira, que promove acesso à justiça e aos direitos humanos para a negritude.

Todas esses personagens fazem parte da série de reportagens Afropotências, produzidas dentro do Projeto Entalado, feito para quebrar tabus e preconceitos, pela empresa social Atitude Inicial. Ao longo das próximas semanas, vamos contar as histórias, desafios, realizações e sonhos dessas pessoas em diversos espaços de destaque. Aqui, retratamos sua potência no Empreendorismo, na Arte, nas Políticas e Direitos Humanos. A cada matéria, narramos a negritude protagonizando e revolucionando cada uma dessas área de atuação.

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Direitos Humanos

EUA, o país selvagem

“Quem não se comove diante da lágrima de uma criança não pode ser considerado humano porque não se comoverá diante de qualquer vida!”

Por Fábio José Garcia Paes

Esse título é para chamar a atenção das pessoas que sempre idolatraram os EUA como território progressista, referência do conhecimento universal, do padrão elitizado daquilo que se entende por humanidade e das nuances da inteligência societária como se fossem o centro e o resto a periferia do mundo subdesenvolvido e subumano. Mas a história revela que esse “imaginário mundial”, e intencional desse país, nunca foi uma verdade absolutizada e comprovada, mas teve seus acentos e singularidades interessantes gestados em um contexto de amplo e massivo racismo, egocentrismo, bairrismo, autoritarismo e segregacionismo. Por isso, forjados nessa realidade, surgem para esse país, e para o mundo, um Martin Luther King e outros expoentes que foram produtos explosivos de revolta desse sistema estadunidense destrutivo, opressor e fatal.

 

O que Trump aprontou de forma criminosa para as crianças e adolescentes imigrantes escapa de qualquer princípio legal e sentimento societário atual. Isso tudo denota uma atitude patológica, daquelas histórias horrendas geradas por maníacos, psicóticos e seriais killers vistos em documentários ou nos exagerados filmes hollywoodianos. Por isso, comparar essa ação política e programática com o nazismo é algo de associação simples pelas características doentias que exibe. O cenário é medieval e de caráter repulsivo. As notas públicas das Organizações Sociais e mecanismos internacionais são ventos perto da urgência iminente da realidade perversa imposta por esse representante de Estado.

 

Mas o que essa ação aponta enquanto conclusões e reflexões sobre a vida e suas relações de poder, exploração, liberdade e direitos humanos? Diante do absurdo dos dados e fatos apresentados é preciso analisar os tentáculos dessa ação que é maior e mais profunda do que parece, por isso, mais criminosa e desumana do que aparenta ser.

 

O primeiro recado para o mundo e aqueles que acreditam que o universo financeiro é referência de análise e de sabedoria é que essa crença deve cair totalmente por terra. Trump, um empresário renomado, empreendedor, homem referência do mercado e do neocapitalismo é cego, ignorante, desprovido de virtudes humanas e de gestão pública e que não entende nada de política como “bem para [email protected]”.

 

Essa falácia eleitoreira, no mundo, traz contextos e situações equivocados de governos “empresariais”, basta ver o que aconteceu em São Paulo com João Dória. Isso se evidencia de forma abrupta e sem qualquer dúvida com Trump, que desconhece acordos, teorias e metodologias eficientes e mais humanas para governar. Enfim, falas e programas descontemporanizados que são ilegais e criminosos.

 

As mídias e comentaristas de plantão, que se intitulam “jornalistas e analistas políticos e econômicos”, adoram partir do princípio de que o mercado e o mundo econômico regem a vida em sociedade e aquilo que deveria ser a política representativa de um Estado e de uma nação.

 

Outra questão importante é que, em 2019, serão comemorados os dez anos da aprovação das Diretrizes da ONU para Cuidados Alternativos de Crianças e Adolescentes, marco internacional de referência para as crianças e adolescentes que estão em risco de perder ou que perderam o cuidado parental. Irônica tragédia?

 

Hoje, em muitos países, as leis parecem alucinações e doutrinas de poucos e estão nos porões dos encastelados poderes regidos por interesses privados de grupos hegemônicos.

 

O que acontece na fronteira do EUA se reproduz em nossa Terra Brasilis. Temos mais de 46 mil crianças em serviços de acolhimento (retiradas do seu ambiente familiar de origem) e esse número, que revela os índices de desemprego e vulnerabilidade social das famílias, tem crescido a cada dia.

 

Aqui, neste “país tropical, abençoado por deus”, há juiz que separa crianças e adolescentes de suas famílias por questões de conflitos familiares ou simplesmente por serem pobres e não responderem de forma “qualitativa” frente à relação e condição mínima para o desenvolvimento dos seus filhos e filhas. Mas, a lei não orienta diferente? Aqui, ao invés de a justiça julgar o Estado, que não prove condições para as famílias cuidarem bem de seus filhos e filhas, criminaliza as famílias sob a régia do dever absoluto. Isso pode ser observado desde a caneta do juiz às abordagens preconceituosas e equivocadas de conselheiros tutelares que são instrumentos do policiamento às famílias. A mesma política de criminalização para os imigrantes utilizada pelos EUA, aqui no Brasil e em muitos países é política judiciária e assistencial para as famílias sem acesso a serviços e sem renda básica.

 

Ao ver as cenas dos “presídios” para as crianças imigrantes (três presídios para bebês) lembrei dos abrigos de acolhimento que, ao invés de terem cuidadores, têm meros monitores, como os bedéis nos corredores de sala de aula, o que também recorda todo o sistema de medida socioeducativa que, ao invés de educadores, têm policiais armados e prontos para “educar” por meio de castigos e pancadaria; em lugar de salas educativas, há escuras e sujas celas que, no lugar de trazer oportunidades tem a muralha de um destino marcado pela punição e criminalização da sociedade que não faz bullying, assassina! Exagero linguístico? Basta atentar para o número de meninos e meninas mortos depois que saem desse sistema socioeducativo, sem falar na violação do direito de viver em família e em comunidade, algo grave, no país.

 

Recentemente, recebi uma denúncia de uma cidade do estado de Santa Catarina, em que uma juíza destituiu o poder familiar de uma mãe com três filhos porque ela era quilombola e negra. O processo atesta essa ação racista e criminosa. Hoje, as crianças negras vivem com uma família adotante enquanto sua mãe luta, diante da mesma justiça, para ter de volta os filhos que lhe pertencem.

 

Esse exemplo prolifera em diversas comunidades tradicionais e nas periferias do país: famílias pobres, periféricas, na sua grande maioria negras, perdem seus filhos para adoção, sem direito de restituir laços e ambientes protetores para deles cuidar. Por isso, em medidas e formatos quase diferentes, pode-se constatar o descaso com as diversas infâncias no Brasil, o que é chancelado pelo Estado, assim como acontece nos EUA.

 

Mas Trump representa os EUA. Por isso, é fundamental separar o “autor-representante” do coletivo maior: o povo norteamericano. É preciso também aprofundar a reflexão sobre o sistema democrático. O que é democracia? Hoje, a democracia é justificada pelas urnas que são alimentadas pela massa. Mas, por qual massa? Será que o balizador para a governabilidade está apenas na condição de indicação popular e massiva de um representante? Os EUA não é o Trump, mas o Trump representa publicamente os EUA. Equívoco generalizador? Essa questão é central para o debate colocado, hoje, para as nações.

 

Por outro lado, como trabalhar, nas visões de mundo de um coletivo, para o despertar para a urgência da equidade e da justiça entre todos e todas como condição estruturante da vida? Sem o respeito pelo outro e a reverência pela vida somos marcados por tragédias construídas pelas nossas escolhas e omissões. Vivemos juntos e somos juntos. Essa relação é intrínseca, ontológica e fundante de qualquer ser. Por isso, reconhecer e respeitar o outro é elemento primária no pacto da vida.

 

No Brasil, Trump é aspiração e inspiração de personagens políticos e de grupos distraídos pela ideia de um mundo onde a moral do ridículo e do distorcido eticamente são princípios vitais de uma nova governança de país. Será que essa “tendência social e política” é parte do jogo da democracia ou é o registro de uma patologia societária que deve ser administrada e curada por um Estado ético e democrático, no sentido honesto, contemporâneo e necessário para a vida em sociedade?

 

Passamos de tempos difíceis para tempos de aberrações e selvagerias societárias: bebês, crianças e adolescentes são objetos de uma loucura egoísta e perversa de uma pessoa que não passa, bem de perto, de uma figura representativa de um Estado. Trump é assunto psiquiátrico e jurídico penal. Para quem não percebe a singularidade e importância de desenvolvimento da criança e o fundamental e intransponível poder dos vínculos familiares nesse processo, merece ser tratado e preso para o bem daquilo que nos sobra de humanidade.

 

E um grande alerta: a lágrima e o choro das crianças imigrantes nos EUA são as mesmas daquelas afastadas de seus ambientes familiares, aqui no Brasil e no Japão, por motivos outros e não os de preservar seu interesse superior. Internacionalizar este debate e luta é urgente.

 

O direito à convivência familiar e comunitária é básico para o desenvolvimento integral da vida. Precisa desenhar? Quantas vidas mais precisam ser violentadas para cair a ficha?

 

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Mobilização O quê que tá pegando?

Conceição Evaristo entrega carta oficializando sua candidatura à Academia Brasileira de Letras

Conceição Evaristo oficializa sua candidatura à ABL nesta segunda, 18 (Foto: wikimedia commons)

Nesta segunda-feira, 18, Conceição Evaristo, renomada escritora negra, oficializou sua candidatura ao entregar a carta de autoapresentação para concorrer à cadeira de número 7, originalmente ocupada por Castro Alves, da Academia Brasileira de Letras (ABL). Segundo o Portal da Literatura Afro-Brasileira, a autora escreveu na carta: “assinalo o meu desejo e minha disposição de diálogo e espero por essa oportunidade”.

Na década de 70, na favela do Pindura Saia, em Belo Horizonte, começou a trajetória de Conceição Evaristo. Depois de passar a infância e a juventude em terras mineiras, a escritora se mudou para o Rio de Janeiro em busca de melhores condições de vida. Lá, Conceição realizou mestrado, doutorado e ainda se tornou professora universitária. No ano de 2017, recebeu o Prêmio Governo de Minas Gerais em decorrência do sucesso de seu trabalho.

Com a campanha de incentivo ao ingresso da escritora mineira, que conta com uma petição online, o desejo coletivo para ter uma representante literária negra ganhou mais força. Autora de obras como Ponciá Vicêncio (2003), Becos da Memória (2006), Poemas da recordação e outros movimentos (2008) e Insubmissas lágrimas de mulheres (Nandyala, 2011), Conceição apresenta em seu trabalho a história do Brasil por meio do olhar de quem ocupa esse país na contramão da supremacia branca, elitista e patriarcal brasileira. Da realidade de seus ancestrais às questões cotidianas.

Estruturada e fundada pelo também escritor negro Machado de Assis, um dos principais agentes contra o sistema escravocrata no país, a Academia Brasileira de Letras ainda carece de figuras com o trabalho que contemple as particularidades sociais de uma maneira crítica e literária. A presença de Conceição na ABL tem o poder de promover uma mudança estrutural e intelectual na literatura brasileira, que ainda afasta e pouco valoriza escritoras e escritores negros.

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Direitos da Criança e do Adolescente

Aluno não consegue ser rematriculado em colégio particular após diagnóstico de TDAH

Distração, agitação, impulsividade, esquecimento, desorganização e adiamento crônico são alguns dos sintomas do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Vinícius Santana, de 11 anos, foi diagnosticado com TDAH aos sete anos de idade. Entretanto, a doença nunca foi impedimento para o garoto ter uma rotina como as demais crianças.

Em 2016, a matrícula no Colégio Mundo Atual foi realizada sem problemas. Após comunicar a escola sobre o diagnóstico de Vinícius, no ano seguinte, Luzia Santana – mãe de Vinícius e Conciliadora Judicial do TJSP – foi surpreendida ao sabe

r que rematrícula do aluno foi negada. Os argumentos utilizados pelo colégio foram de que o aluno apresentava um mau comportamento e dificuldade de socialização. Por conta de uma liminar da Justiça, julgada em primeira instância, Vinicius continuou os estudos em 2017. Entretanto, o juiz Daniel Fabretti não autorizou a rematrícula deste ano por não ser objeto do processo.

 

Durante o período letivo garantido pela liminar, Vinícius passou por algumas situações vexatórias dentro da escola. Segundo Luzia, o garoto chegou a pedir permissão para ir ao banheiro oito vezes, mas a professora ignorava ou negava as solicitações, além de liberar a saída de outros alunos. Com isso, o menino urinou em suas vestes dentro da sala de aula, sendo exposto aos comentários ofensivos dos colegas.

Luzia guarda os boletins do filho que mostram as notas acima da média. Desde 2005, as escolas particulares e públicas não podem negar matricula aos alunos com necessidades especiais. A Lei 7853/89 ainda tem uma pena de 2 a 5 anos para as instituições que descumprirem a norma. Além disso, a norma garante que a escola deve fornecer, sem custo adicional, um profissional para acompanhar o aluno com necessidade especial.

“Não admito que os direitos do meu filho sejam cerceados dessa maneira, tanto que as medidas judiciais cabíveis já foram inclusive adotadas”, explica a mãe do garoto, que entrou com um processo contra a instituição. De acordo com Luzia, o Colégio Mundo Atual informou que a rematrícula foi negada por conta de más condutas por parte dela. “Para mascarar a conduta racista e discriminatória, a instituição de ensino busca utilizar o estereótipo da negra barraqueira e dizer que o problema é o meu comportamento. Mesmo existindo gravações e testemunhas que comprovem o contrário”.

Os colégios Suller Garcia, Dom Felipe, Palmarino Calabrez e o XV de Novembro também foram procurados pela mãe do garoto, mas todos informaram que a matrícula do aluno não poderia ser realizada pela ausência de vagas. Vinícius continua longe da sala de aula, enquanto a situação não é resolvida.

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Cultura O quê que tá pegando?

Com entrada gratuita, a peça “Isto É um Negro?” estará em cartaz até domingo (17) em São Paulo

A peça “Isto É um Negro”, de Tarina Quelho, estará em cartaz até domingo, 17, no Itaú Cultural, em São Paulo (Foto: Divulgação)

Em busca de respostas provocativas à pergunta “Isto É um Negro?”, a peça que leva o mesmo nome da indagação promete abordar as particularidades do que é ser uma pessoa negra atualmente no Brasil. Ou seja, uma reflexão pertinente tanto para os negros quanto para os não negros.

A montagem, dirigida por Tarina Quelho, conta com referências de pensadores como Achille Mbembe, Angela Davis e Sueli Carneiro, além da experiência pessoal de cada um dos intérpretes – Ivy Souza, Lucas Wickhaus, Mirella Façanha e Raoni Garcia. Isto É um Negro? também deve prender a atenção do público com seu dinamismo, já que linguagem e cenas variam a todo instante.

Com aproximadamente 1h40 de duração, a peça terá sessões nesta sexta (15) e sábado (16), às 20h, e no domingo (17), às 19h. O público preferencial poderá retirar o ingresso uma hora antes do espetáculo, com direito a um acompanhante, que deve estar presente na retirada. O público não preferencial também poderá retirar o ingresso com uma hora de antecedência, mas terá direito a um convite por pessoa.

Para mais informações, acesso o site do Itaú Cultural.

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O quê que tá pegando? Política

Lei que exige identificação racial em cadastros e bancos de dados estaduais é aprovada

A Deputada Federal Leci Brandão, do PCdoB, responsável pela criação da Lei Nº 16.758 (Foto: Rafael Berezinski)

Por Redação

Declarar cor ou identidade racial em cadastros, bancos de dados e registros de informações assemelhados, públicos e privados, tornou-se uma medida obrigatória no Estado de São Paulo.

A Lei Nº 16.758, da Deputada Estadual Leci Brandão, do PCdoB, foi decretada pela Assembleia Legislativa e promulgada pelo Governo do Estado de São Paulo na última sexta-feira, 8. O Poder Executivo irá regulamentar a lei até o dia 8/7/2018.

Com a aprovação do novo recurso, os cidadãos maiores de 16 anos devem informar sozinhos a autodeclaração. Já no caso dos menores de 16 anos, a informação deve ser preenchida pelos pais ou responsáveis legais.

Os critérios e as metodologias utilizados pelo censo populacional do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, em relação à cor ou identificação racial, devem ser os mesmos para os cadastros, bancos de dados e registros de informações.

Segundo artigo 2º da Lei, as informações coletadas serão enviadas semestralmente para a Coordenação de Políticas para População Negra e Indígena, da Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania, com o intuito de atualizar dos cadastros.