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O quê que tá pegando? Política

Qual o custo da eliminação de uma liderança negra do cenário político institucional para a Democracia?

Por Adriana de Cássia Moreira

 

E quem mudaria? Quem mudaria seria quem estivesse no sofrimento. Quem arreda a pedra não é aquele que sufoca o outro, mas justo aquele que sufocado está.  (Ensinamentos de Vó Rita, personagem do romance Becos da Memória de Conceição Evaristo)

 

No dia 23/07, foi publicada no portal do UOL uma entrevista com o pré-candidato Douglas Belchior, professor,  dirigente da UneAFRO Brasil, organização do movimento negro que, há 10 anos pelo menos, trabalha com educação popular e hoje conta com mais de 40 núcleos de base em funcionamento, fazendo formação política e fortalecendo as trajetórias educacionais de jovens [email protected] e pobres nas mais diversas regiões periferizadas do Estado de São Paulo, a entrevista em questão tratava sobre política partidária, negritude, financiamento e distribuição de recursos em campanhas eleitorais.

Financiamento de campanha é, definitivamente, uma questão dura a ser enfrentada, calcanhar de Aquiles do sistema político brasileiro, muito já se debateu sobre a questão e poucas ações de modo a produzir avanços do ponto de vista democrático foram encaminhadas. A temática abordada na entrevista, justamente, tocou em uma das questões fundantes, muito cara à política brasileira, sobretudo nestes momentos de organização interna dos partidos tendo em vista o início do período eleitoral, qual seja, como os recursos do fundo partidário são distribuídos entre as candidaturas nas legendas partidárias.

O debate enunciado por Belchior, na entrevista, não nega um debate mais aprofundado a respeito de como se pensar um sistema eleitoral mais democrático, gastando menos dinheiro, sendo mais efetivo em comunicação de propostas do que em marketing pessoal levando em conta o fato de que, mesmo que seja do ponto de vista retórico, há um consenso  na sociedade brasileira sobre a necessidade de renovação de propostas que encaminham um projeto nacional e que tal empreita não pode prescindir de [email protected] quadros e lideranças políticas.

Daí surge uma questão que se pressupunha capital para o campo progressista: como fortalecer lideranças políticas que representem a inovação do ponto de vista da representatividade e ao mesmo tempo estejam vinculadas a um tradição de luta social orgânica, quadros que performassem na disputa da política institucional os setores mais vulnerabilizados da sociedade brasileira nas suas formulações, conteúdos e métodos mesmo em um cenário adverso.

Cenário político esse que, de maneira sintética, poderia ser caracterizado pela principal liderança política popular brasileira presa sem nenhuma prova concreta que o condene; com apenas 45 dias oficiais de campanha eleitoral; com objetivas perseguições aos partidos do campo popular e os mais diversos expedientes mobilizados para se criminalizar a militância social; a ausência de interdição social dos discursos  de ódio sustentadores de considerações apressadas e simplórias do estado de coisas em que se vive aliado a compreensões politicas dos mais variados tons os quais perpassam o liberalismo econômico e o conservadorismo moral; e a descrença da população na política institucional de maneira geral.

Ingenuidade histórica acreditar que nesta conjuntura, preocupações tão importantes tal como democratizar a acesso da população negra, indígena, mulheres e LGBTs  aos poderes da política institucional centralizariam as agendas partidárias a ponto de os partidos políticos se debruçarem por sobre os seus funcionamentos e repensassem os mecanismos viciados de distribuição de recursos internos para fazer, inclusive, com que as representações das populações mais vulnerabilizadas da sociedade brasileira obtivessem estruturas suficiente para realizar, no âmbito da política eleitoral,  o potencial pleno das experiências acumuladas em mais de 300 anos de sujeição e luta para garantir vidas historicamente sufocadas.

Lamentavelmente, neste momento singular de reorganização histórica do campo progressista, após um golpe institucional que parece não cessar nunca, a necessidade premente de se discutir uma proposta alternativa, progressista e que se centralize à partir da garantia da vida, um dos principais instrumentos estratégicos desse período, o PSOL não ter a grandeza política e a generosidade revolucionária necessária para suportar os questionamentos, que não dizem respeito apenas a ele próprio, muito embora Douglas Belchior cerre fileiras neste partido, ampliar o debate, rever posicionamentos e abrir mão do papel histórico, transformador da política nacional, que lhe caberia.

O que se viu no último período, em particular nas redes sociais, foram exemplos cabais de tentativas de desconstrução da legitimidade de uma liderança social do movimento negro com 20 anos de história de luta,  que entre tantas outras que poderiam estar na disputa, foi uma das que resistiu e sempre vocalizou a denúncia, a  construção e as proposições das  formulações construídas por forças políticas negras.

Uma das perversidades do racismo contra negros é considerar pessoas negras menos inteligentes, pouco afeitas aos pensamento lógico racional e incapazes de formulações políticas, quando observamos  a maneira pouco digna pela qual o debate enunciado por Belchior percorreu, no sentido de potencializar desqualificações metodológicas e, como bem considerou a advogada e militante do Movimento Negro Beatriz Lourenço, ausente de coragem em não enfrentar o mérito da questão, demonstra de maneira exemplar como o racismo opera no jogo político-narrativo nos partidos.

A título de exemplo do que ocorreu na última semana, no intuito de materializar, exatamente, o expediente racista dessa política-narrativa é possível destacar a maneira pouco honesta com a qual o professor Maringoni, militante histórico da esquerda brasileira, filiado e com atuação de revelo no PSOL, tentou encaminhar o debate.

Como pode ser observado no post, o intelectual demonstrou a sua pouca sensibilidade e compreensão da complexidade da sociedade brasileira e  de como o racismo é um força promotora de morte. No intuito de desqualificar Belchior e o trabalho da UneAFRO- Brasil que, por meio de um edital público promovido por uma organização internacional, conquistou a possibilidade  de receber recursos para custear algumas atividades destinadas a estudantes [email protected] e pobres como transporte e lanche, além de recursos mínimos para o funcionamento de uma secretaria diminuta, que causaria espanto se comparado a qualquer grande ONG financiada pelas mesmos tipos de instituições, as quais tem em seus conselhos intelectuais renomados, via de regra, brancos, ligados a instituições públicas de ensino e pesquisa, que constroem suas respectivas carreiras acadêmicas teorizando muito de como o mundo deve vir-a-ser, por vezes, engajados em partidos políticos e com gordurosos pró-labores, mas pouco sensíveis e incapazes de traduzir o sofrimento do povo em proposições políticas  efetivas e que superem os sofrimentos destas coletividades; boa parte das vezes, distanciados e pouco sensíveis do cotidiano subalternizado da vida.

Esse episódio da vida pública nacional, também, demonstrou, enquanto sociedade, nossa pouca compreensão histórica da política brasileira, nossa pouca atenção ou talvez, interesse em aprender com os erros passados.  Como se sabe, a memória de uma sociedade é muito mais aquilo que se narra, os motivos que foram relevantes para se escolher os fatos que foram narrados e as forças sociais que legitimam a narração. Cabe, portanto aqui, um esforço de recontar um passado recente, momentos iniciais de disputa interna do campo democrático e construção da Nova Republica que, costumeiramente, foi deixada ao lado, porém, sempre que possível retomada pelo Movimento Negro.

Lélia Gonzales, uma mulher negra resistente, uma das militantes de maior expressão do movimento negro dos anos 80, filiada ao PT desde 81, em 1985, entregou sua carta de desfiliação, tendo como um dos argumentos centrais o fato do partido, mesmo tendo em suas fileiras homens e mulheres negras alinhados com a estratégia, suas formulações e protagonismo nunca eram centralizadores do processo político do partido mais popular da história do Brasil, escreveu:

Afinal, foi graças ao PT (às suas propostas) que me decidi a entrar na vida político-partidária, acreditando na possibilidade de inovação dentro da mesma. Disso, não poderei me esquecer; embora sabendo que os caminhos são tortuosos e que a luta não pode deixar de continuar junto com e em favor dos explorados, oprimidos, discriminados e que a luta não pode deixar de continuar junto com e em favor dos explorados, oprimidos, discriminados. Com respeito de sempre, as saudações cordiais de quem sempre buscou estar nas lutas dos discriminados. (GONZALES, Lélia. 1985)

É chegada a hora do campo progressista, dos partidos políticos de esquerda observarem o seu passado recente, reconhecerem que os erros históricos não são prerrogativas exclusiva do governo Lula ou a sua adesão a um projeto nacional Neo-desenvolvimentista; enfrentar suas singulares  dificuldades em reconhecer o RACISMO e o PATRIARCADO como forças construtoras das desigualdades nacionais e que impõe suas dinâmicas às CLASSES SOCIAIS;  que um projeto alternativo de soberania nacional, geração e distribuição de riquezas só faz sentido se a garantia da vida de todas as pessoas for o fim; que há de se ter coragem para enfrentar e criar estratégias que incidam sobre os poderes internos aos partidos de forma a construir mecanismo para que os militantes da base, @s negros, as mulheres, @s LGBTs sejam reconhecidos como formuladores políticos legítimos, não apenas operadores da política;  e que o reconhecimento de tal legitimidade se dá, inclusive, não apenas, por meio de condições estruturais de promover os debates, as proposições, as lideranças e, por que não, estrutura robusta para se participar do processo eleitoral; reconhecer que não é possível assumir o erro histórico, como acontecera no passado, de tornar insustentáveis a permanência de lideranças negras, mulheres, LGBTs dos partidos, das organizações e coletivos dos movimento sociais.

O preço do não enfrentamento radical ao racismo pelos partidos de esquerda foi: por mais de trinta anos o sufocamento de um debate progressista sobre a garantia da vida e segurança pública no Brasil, o que resultou nos mais de 60 mil homicídios anuais que a sociedade brasileira tem de conviver e fazem de nosso país apenas um ensaio débil de uma pretensa e frágil democracia.

 

Por todas as pessoas que foram sequestradas do continente africano e morreram na travessia do Atlântico.

Por todas as pessoas que aqui chegaram e foram forçadas ao trabalho compulsório;

Por todas as pessoas que sofreram as torturas dos corpos e das almas;

Por todas as mulheres negras e indígenas estupradas;

Por todas as crianças forçadas ao trabalho para sobreviver;

Por todas as mães dos filhos mortos pelo Estado;

Por todas as mulheres negras que sofrem violência doméstica e no parto;

Por todas as pessoas presas que foram impossibilitadas de construir caminhos para a vida distante do cárcere;

Pelo direito à vida livre das amarras do racismo, do patriarcado, da lgbtfobia e do capital;

Por [email protected] os povos [email protected] do mundo;

Por Zumbi dos Palmares, Dandara de Palmares, Maria Firmina dos Reis, Cruz e Souza, Lima Barreto, Antônio Conselheiro, Mariguella, Oswaldão, Helenira Rezende, Dadá (Maria Sérgia), Carolina Maria de Jesus, Guerreiro Ramos, Luana Barbosa, Matheusa, Amarildo, Marcos Vinícios, Lélia Gonzales, Beatriz do Nascimento, Clóvis Moura, Abdias do Nascimento, Milton Santos, Eduardo Oliveira, Amilton Cardoso, Virgínia Bicudo, Neusa Santos, Sabotage, Marielle Franco  e [email protected] [email protected]

#FaremosPalmaresDeNovo

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Cultura

Livros de Djamila Ribeiro estão entre as obras mais vendidas na Flip 

Uma das mais tradicionais feiras literárias do mundo, a Flip, levou milhares de leitores para Paraty, no Rio de Janeiro, durante a última semana. A autora homenageada da 16ª edição do evento, Hilda Hilst (1930-2004), ficou no primeiro lugar dos livros mais vendidos na livraria oficial ao longo da semana.

Em segundo e terceiro lugar estão os livros “O que é lugar de fala?”, da editora Letramento, e “Quem tem medo do feminismo negro?”, da Companhia das Letras, ambos com a autoria de Djamila Ribeiro.

A filósofa, que vem conquistando cada vez mais seguidores do seu trabalho, lançou recentemente o seu livro “Quem tem medo do feminismo negro?”. A obra, que faz parte de uma série de publicações sobre as questões raciais, contempla situações de silenciamento, presente em diversas fases da vida de Djamila.

No evento, a autora também participou de uma mesa intitulada “Amada viada”, a qual abordou questões como femicídio e a execução de Marielle Franco.

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Mulheres Negras O quê que tá pegando?

Aula pública: Palavra é poder com Elisa Lucinda

Nesta terça-feira, a UneAfro, em parceria com o Ministério Público do Trabalho, promoverá uma aula especial do Curso Jovens Promotores de Direito Antidiscriminatório com a atriz, jornalista e poetisa! A iniciativa “Palavra é poder” será voltada à questão da mulher negra, ação e participação social. O evento acontece no auditório do MASP, dia 24/7, às 19h. Os interessados devem realizar a inscrição neste link.

SOBRE O PROJETO JOVENS PROMOTORES DE DIREITO ANTIDISCRIMINATÓRIO

De iniciativa da Uneafro Brasil, em parceria com o Ministério Público do Trabalho (MPT-SP) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT), propõe a formação de jovens oriundos de cursinhos comunitários da Uneafro e pessoas interessadas em geral, com encontros mensais na temática de Diversidade, Direitos Humanos, Direito Antidiscriminatório e na área edição de vídeos, para ação estratégica em suas comunidades, com apoio do SESC Ipiranga e Associação Franciscana de Defesa de Direitos e Formação Popular.
O curso visa fortalecer o protagonismo juvenil, a conscientização para a questão étnico-racial, de gênero, diversidade, combate ao trabalho infantil e denúncia de discriminação e assédio no trabalho. Conta com professores do campo jurídico e de movimentos sociais que atuam diretamente com tais temáticas, numa perspectiva crítica e transformadora.

SOBRE O MÓDULO DO CURSO
Mulher negra, ação e participação social – COM ELISA LUCINDA

A palavra historicamente negada à população negra como direito humano de livre expressão, formação cultural, intelectual, desenvolvimento e cidadania. O poder de transformação social através de narrativas negras femininas, ainda silenciadas na sociedade brasileira, que refletem realidades marcadas pela opressão, machismo, desigualdades, violências, força, luta, resistência. Desafios no combate ao racismo a partir da ocupação dos espaços sociais e do lugar de fala da mulher negra.

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Cinema O quê que tá pegando?

A força de uma iconoclasta

Por Edson Cadette

A jamaicana Grace Beverly Jones começou sua fabulosa carreira primeiro como modelo no final dos anos 1960. Nesses 50 anos de atuação artística, a talentosa septuagenária gravou músicas que estouraram nas paradas de sucesso ao redor do planeta e também trabalhou como atriz.

Na longínqua década dos anos 1970, mais precisamente no auge da Disco Music, Grace Jones assinou um contrato com a gravadora Island Records e estourou nas paradas de sucesso com o album “Fame” gravado em 1978. Nesta mesma época, tornou-se também uma habitue regular na famosa casa Studio 54, a discoteca mais badalada nas noites novaiorquinas.

Grace Jones agraciou as capas das famosas revistas Elle e Vogue numa época em que oportunidades para modelos negras era uma raridade. Ela atuou em filmes que marcaram uma época ao lado dos ícones cinematográficos de Hollywood. Entre eles estão: Roger Moore, Eddie Murphy, e Arnold Shwazzenegger.

No excelente documentário “Grace Jones Bloodlight and Bami”, dirigido por Sophie Fiennes, também conhecemos a iconoclasta e artista como avó, filha e irmã. Em outras palavras, o filme revela um outro lado da “exótica” mulher negra que hipnotizou o planeta como modelo, cantora ou simplesmente atriz.

O documentário não pode ser considerado simplesmente uma retrospectiva da vida artística de Grace Jones, nem tão pouco um filme sobre sua importância cultural nos últimos 50 anos. A diretora fez questão de acompanhar Grace Jones por mais de 15 anos observando-a dentro e fora dos palcos.  Sophie Fiennes mostra o ícone junto a seus familiares na Jamaica, dançando em clubes e gravando o álbum “hurricane” em 2008.

Qualquer questão cronológica foi deixada de lado pela diretora. Por causa disso, fica a critério do expectador tentar adivinhar a época ou o local onde o shows estão acontecendo.

Com esplêndidas tomadas, Sophie Fiennes mostra o que Grace Jones sempre foi um símbolo de muita força, que esteve a espreita para defender-se ou dar o seu bote se for preciso.

Grace Jones: Bloodlight and Bami

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Mulheres Negras

Veja como contribuir para a Marcha das Mulheres Negras

A Marcha das Mulheres Negras volta insubordinada às ruas do Centro de São Paulo no dia 25 de Julho de 2018 para enfrentar e afrontar o racismo, o machismo e a LGBTfobia. O eixo deste ano é “Por nós, por todas nós e pelo bem viver”.

Para ajudar na 3ª edição da Marcha das Mulheres Negras em SP, que celebrará o Dia Nacional de Teresa de Benguela e Dia Internacional da Mulher Afrolatinoamericana e Caribenha, basta acessar este site. Ao contribuir com esta campanha, você estará ajudando a arrecadar recursos para o autofinanciamento do ato para cobrir despesas com transporte, alimentação, produção de materiais e infraestrutura. Colabore!

 

 

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Consciência Negra

100 anos de Mandela pela visão de Barack Obama

Por Douglas Belchior

Há cem anos, o mundo ganhava um dos principais líderes de toda história. Nelson Mandela abraçou uma luta necessária para nós, negros, em prol dos direitos humanos e pelo fim da segregação racial na África do Sul. Mesmo com os princípios da resistência não-violenta, a missão libertária de Madiba rendeu um período de 27 anos na prisão. Mas, com a união da comunidade local e internacional, ele conseguiu sua liberdade e ainda foi eleito o primeiro presidente da África do Sul livre. O seu legado serve como prova de que é possível promover mudanças e lutar pelos nossos direitos mesmo em períodos difíceis e conservadores. Viva, Mandela!

Confira abaixo o discurso do ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama sobre o centenário de Mandela

“Quando minha equipe me disse que eu deveria fazer uma palestra, pensei nos antigos professores abafados de gravata-borboleta e tweed, e me perguntei se esse era mais um sinal do estágio da vida em que estou entrando, junto com o cinza cabelo e visão levemente falhando. Pensei no fato de que minhas filhas acham que qualquer coisa que eu diga é uma palestra.

Pensei na imprensa americana e em como eles frequentemente ficavam frustrados com as minhas longas respostas em coletivas de imprensa, quando minhas respostas não correspondiam a sons de dois minutos. Mas dados os tempos estranhos e incertos em que estamos – e eles são estranhos, e eles são incertos – com os ciclos de notícias de cada dia trazendo mais manchetes e manchetes perturbadoras, eu pensei que talvez fosse útil dar um passo atrás por um momento e tente obter alguma perspectiva.

Então, eu espero que você me permita, apesar do frio leve, enquanto eu gasto muito desta palestra refletindo sobre onde estivemos, e como chegamos ao presente momento, na esperança de que isso nos oferecerá um roteiro para onde precisamos ir em seguida.

Cem anos atrás, Madiba nasceu na aldeia de Mvezo – em sua autobiografia ele descreve uma infância feliz; ele está cuidando do gado, ele está brincando com os outros garotos, eventualmente frequenta uma escola onde seu professor lhe deu o nome em inglês Nelson. E como muitos de vocês sabem, ele disse: “Por que ela me deu esse nome em particular, eu não tenho ideia”.

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Não havia razão para acreditar que um jovem negro neste momento, neste lugar, pudesse de alguma forma alterar a história. Afinal de contas, a África do Sul estava então com menos de uma década de total controle britânico. As leis já estavam sendo codificadas para implementar a segregação e subjugação racial, a rede de leis que seria conhecida como apartheid. A maior parte da África, incluindo a terra natal de meu pai, estava sob o domínio colonial.

As potências européias dominantes, tendo terminado uma terrível guerra mundial poucos meses após o nascimento de Madiba, viam este continente e seu povo principalmente como espoliação em uma disputa por território e abundantes recursos naturais e mão-de-obra barata. E a inferioridade da raça negra, uma indiferença em relação à cultura negra e aos interesses e aspirações, era um dado adquirido.

E tal visão do mundo – que certas raças, certas nações, certos grupos eram inerentemente superiores, e que a violência e a coerção eram a base primária da governança, que os fortes necessariamente exploram os fracos, que a riqueza é determinada principalmente pela conquista – que a visão do mundo dificilmente se limitava às relações entre a Europa e a África, ou as relações entre brancos e negros. Os brancos estavam felizes em explorar outros brancos quando podiam. E, a propósito, os negros muitas vezes estavam dispostos a explorar outros negros.

E em todo o mundo, a maioria das pessoas vivia em níveis de subsistência, sem falar nas políticas ou forças econômicas que determinavam suas vidas. Muitas vezes eles estavam sujeitos aos caprichos e crueldades de líderes distantes. A pessoa comum não via nenhuma possibilidade de avançar das circunstâncias de seu nascimento. As mulheres eram quase uniformemente subordinadas aos homens. Privilégio e status estavam rigidamente vinculados por casta e cor e etnia e religião. E mesmo em meu próprio país, mesmo em democracias como os Estados Unidos, fundado em uma declaração de que todos os homens são criados iguais, a segregação racial e a discriminação sistêmica eram a lei em quase metade do país e a norma em todo o resto do país.

 

Esse foi o mundo apenas 100 anos atrás. Há pessoas vivas hoje que estavam vivas naquele mundo. É difícil, então, exagerar as notáveis ​​transformações que ocorreram desde aquela época. Uma segunda guerra mundial, ainda mais terrível do que a primeira, juntamente com uma cascata de movimentos de libertação da África para a Ásia, América Latina, Oriente Médio, finalmente acabaria com o domínio colonial. Mais e mais povos, tendo testemunhado os horrores do totalitarismo, os repetidos massacres em massa do século XX, começaram a abraçar uma nova visão para a humanidade, uma nova ideia, baseada não apenas no princípio da autodeterminação nacional, mas também os princípios da democracia e do Estado de direito e dos direitos civis e a dignidade inerente de cada indivíduo.

Nos países com economias baseadas no mercado, de repente, movimentos sindicais se desenvolveram; e saúde e segurança e regulamentações comerciais foram instituídas; e o acesso à educação pública foi ampliado; e os sistemas de bem-estar social surgiram, todos com o objetivo de restringir os excessos do capitalismo e aumentar sua capacidade de oferecer oportunidades não apenas para alguns, mas para todas as pessoas. E o resultado foi um crescimento econômico inigualável e um crescimento da classe média. E no meu próprio país, a força moral do movimento dos direitos civis não apenas derrubou as leis de Jim Crow, mas abriu as comportas para mulheres e grupos historicamente marginalizados para se reimaginarem, encontrar suas próprias vozes, fazer suas próprias reivindicações de cidadania plena. .

Foi a serviço dessa longa caminhada em direção à liberdade e à justiça e oportunidades iguais que Nelson Mandela dedicou sua vida. No início, sua luta era particular para este lugar, para sua terra natal – uma luta para acabar com o apartheid, uma luta para assegurar a duradoura igualdade política, social e econômica para seus cidadãos não brancos marginalizados. Mas através do seu sacrifício e liderança inabalável e, talvez acima de tudo, através do seu exemplo moral, Mandela e o movimento que ele liderou viriam a significar algo maior. Ele passou a incorporar as aspirações universais de pessoas despossuídas em todo o mundo, suas esperanças de uma vida melhor, a possibilidade de uma transformação moral na condução dos assuntos humanos.

A luz de Madiba brilhava tão intensamente, mesmo naquela estreita cela de Robben Island, que no final dos anos 70 ele podia inspirar um jovem universitário do outro lado do mundo a reexaminar suas próprias prioridades, poderia me fazer pensar no pequeno papel que poderia desempenhar em dobrar o arco do mundo para a justiça. E quando, mais tarde, como estudante de direito, presenciei Madiba sair da prisão, apenas alguns meses, você se lembra, depois da queda do Muro de Berlim, senti a mesma onda de esperança que inundou corações em todo o mundo. Você se lembra desse sentimento? Parecia que as forças do progresso estavam em marcha, que elas eram inexoráveis. Cada passo que ele deu,

E então, como Madiba guiou esta nação através da negociação meticulosamente, reconciliação, suas primeiras eleições justas e livres; Como todos nós testemunhamos a graça e a generosidade com que ele abraçou os antigos inimigos, a sabedoria para ele se afastar do poder uma vez que ele sentiu que seu trabalho estava completo, nós entendemos que entendemos que não eram apenas os subjugados, os oprimidos que eram sendo libertado dos grilhões do passado. O subjugador estava recebendo um presente, tendo a oportunidade de ver de uma nova maneira, tendo a chance de participar do trabalho de construir um mundo melhor.

E durante as últimas décadas do século XX, a visão progressista e democrática que Nelson Mandela representou de muitas maneiras definiu os termos do debate político internacional. Isso não significa que a visão sempre foi vitoriosa, mas estabeleceu os termos, os parâmetros; guiou como pensamos sobre o significado do progresso e continuou a impulsionar o mundo para frente. Sim, ainda havia tragédias – sangrentas guerras civis dos Bálcãs ao Congo. Apesar do fato de que o conflito étnico e sectário ainda incendiou com regularidade devastadora, apesar de tudo isso como consequência da continuação da détente nuclear, e de um Japão pacífico e próspero, e uma Europa unificada ancorada na OTAN, e a entrada da China na sistema mundial de comércio – tudo isso reduziu enormemente a perspectiva de guerra entre as grandes potências mundiais.

A marcha estava ligada. Um respeito pelos direitos humanos e pelo estado de direito, enumerados em uma declaração das Nações Unidas, tornou-se a norma orientadora para a maioria das nações, mesmo em lugares onde a realidade ficou muito aquém do ideal. Mesmo quando esses direitos humanos foram violados, aqueles que violaram os direitos humanos estavam na defensiva.

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E com essas mudanças geopolíticas vieram mudanças econômicas devastadoras. A introdução de princípios baseados no mercado, nos quais economias anteriormente fechadas, juntamente com as forças da integração global impulsionadas por novas tecnologias, de repente liberaram talentos empresariais àqueles que já haviam sido relegados à periferia da economia mundial, que não haviam contado. De repente, eles contaram. Eles tinham algum poder; eles tinham as possibilidades de fazer negócios. E então vieram avanços científicos e novas infraestruturas e a redução de conflitos armados.

E, de repente, um bilhão de pessoas foram retiradas da pobreza, e uma vez as nações famintas conseguiram se alimentar, e as taxas de mortalidade infantil despencaram. E enquanto isso, a disseminação da internet possibilitou que as pessoas se conectassem através dos oceanos, e culturas e continentes instantaneamente foram reunidos e, potencialmente, todo o conhecimento do mundo poderia estar nas mãos de uma criança pequena, mesmo na aldeia mais remota.

Foi o que aconteceu no decorrer de algumas décadas. E todo esse progresso é real. Tem sido amplo e profundo, e tudo aconteceu em que – pelos padrões da história humana – nada mais era do que um piscar de olhos. E agora toda uma geração cresceu em um mundo que, pela maioria das medidas, se tornou cada vez mais livre e mais saudável e mais rico e menos violento e mais tolerante durante suas vidas.

Isso deveria nos deixar esperançosos. Mas se não podemos negar os avanços reais que o nosso mundo fez desde o momento em que Madiba deu os primeiros passos no confinamento, também temos que reconhecer todas as maneiras pelas quais a ordem internacional ficou aquém de sua promessa. De fato, é em parte por causa dos fracassos dos governos e das poderosas elites em responder diretamente às deficiências e contradições dessa ordem internacional que vemos agora grande parte do mundo ameaçando retornar a um modo mais antigo, mais perigoso, mais brutal. de fazer negócios.

Portanto, temos de começar admitindo que quaisquer leis que possam ter existido nos livros, quaisquer que sejam os pronunciamentos maravilhosos existentes nas constituições, quaisquer palavras bonitas que tenham sido pronunciadas durante estas últimas décadas em conferências internacionais ou nos halls das Nações Unidas, as estruturas anteriores de privilégio e poder e injustiça e exploração nunca desapareceram completamente. Eles nunca foram totalmente desalojados.

Diferenças de castas ainda afetam as chances de vida das pessoas no subcontinente indiano. Diferenças étnicas e religiosas ainda determinam quem recebe oportunidades da Europa Central para o Golfo. É um fato claro que a discriminação racial ainda existe nos Estados Unidos e na África do Sul. E também é um fato que as desvantagens acumuladas de anos de opressão institucionalizada criaram enormes disparidades em renda, riqueza e educação, saúde, segurança pessoal e acesso ao crédito. Mulheres e meninas em todo o mundo continuam bloqueadas de posições de poder e autoridade. Eles continuam sendo impedidos de obter uma educação básica. Eles são desproporcionalmente vitimizados pela violência e abuso. Eles ainda recebem menos que os homens por fazer o mesmo trabalho. Isso ainda está acontecendo.

Oportunidade econômica, por toda a magnificência da economia global, todos os arranha-céus brilhantes que transformaram a paisagem ao redor do mundo, bairros inteiros, cidades inteiras, regiões inteiras, nações inteiras foram contornadas. Em outras palavras, para muitas pessoas, quanto mais as coisas mudam, mais as coisas permanecem as mesmas.

E enquanto a globalização e a tecnologia abriram novas oportunidades, têm impulsionado um crescimento econômico notável em partes do mundo anteriormente em dificuldades, a globalização também derrubou os setores agrícola e manufatureiro em muitos países. Também reduziu bastante a demanda por certos trabalhadores, ajudou a enfraquecer os sindicatos e o poder de barganha do trabalho. Tornou mais fácil para o capital evitar as leis tributárias e os regulamentos dos estados-nação – pode apenas movimentar bilhões, trilhões de dólares com um toque de chave de computador.

E o resultado de todas essas tendências foi uma explosão da desigualdade econômica. Significa que algumas dezenas de indivíduos controlam a mesma quantidade de riqueza que a metade mais pobre da humanidade. Isso não é um exagero, é uma estatística. Pense sobre isso. Em muitos países de rendimento médio e em desenvolvimento, a nova riqueza acaba de acompanhar o antigo mau negócio que as pessoas obtiveram porque reforçou ou até agravou os padrões existentes de desigualdade, a única diferença é que criou oportunidades ainda maiores de corrupção numa escala épica. E por uma vez solidamente famílias de classe média em economias avançadas como os Estados Unidos, essas tendências significam maior insegurança econômica, especialmente para aqueles que não têm habilidades especializadas, pessoas que estavam na indústria, pessoas trabalhando em fábricas, pessoas trabalhando em fazendas. .

Em todos os países, a influência econômica desproporcional dos que ocupam o topo tem proporcionado a esses indivíduos uma influência desproporcional sobre a vida política de seus países e sobre sua mídia; em que políticas são perseguidas e cujos interesses acabam sendo ignorados. Agora, deve-se notar que esta nova elite internacional, a classe profissional que os sustenta, difere em aspectos importantes das aristocracias dominantes de antigamente. Inclui muitos que são feitos por si mesmos. Inclui campeões de meritocracia. E embora ainda predominantemente brancos e masculinos, eles refletem uma diversidade de nacionalidades e etnias que não existiriam há cem anos. Uma porcentagem decente considera-se liberal em sua política, moderna e cosmopolita em sua perspectiva.

Desabitada pelo paroquialismo, ou nacionalismo, ou preconceito racial manifesto ou forte sentimento religioso, eles estão igualmente à vontade em Nova York, Londres, Xangai, Nairóbi, Buenos Aires ou Joanesburgo. Muitos são sinceros e eficazes em sua filantropia. Alguns deles contam Nelson Mandela entre seus heróis. Alguns até apoiaram Barack Obama para a presidência dos Estados Unidos, e em virtude do meu status como ex-chefe de Estado, alguns deles me consideram um membro honorário do clube. E eu fui convidada para essas coisas extravagantes, sabe? Eles vão me expulsar.

Mas o que é verdade, no entanto, é que em seus negócios, muitos titãs da indústria e das finanças estão cada vez mais separados de qualquer local ou estado-nação, e vivem vidas cada vez mais isoladas das lutas das pessoas comuns em seus países de origem.

E suas decisões – suas decisões de fechar uma fábrica ou tentar minimizar sua conta fiscal transferindo lucros para um paraíso fiscal com a ajuda de contadores ou advogados caros, ou sua decisão de tirar proveito de imigrantes de baixo custo. trabalho, ou a sua decisão de pagar um suborno – são muitas vezes feitas sem malícia; é apenas uma resposta racional, eles consideram, às demandas de seus balanços e seus acionistas e pressões competitivas.

Mas, com demasiada frequência, essas decisões também são tomadas sem referência a noções de solidariedade humana – ou um entendimento no nível do solo das conseqüências que serão sentidas por determinadas pessoas em determinadas comunidades pelas decisões tomadas. E de suas salas de diretoria ou retiros, tomadores de decisão globais não têm a chance de ver, às vezes, a dor nos rostos dos trabalhadores demitidos.

Seus filhos não sofrem quando os cortes na educação pública e nos cuidados de saúde resultam de uma base fiscal reduzida devido à evasão fiscal. Eles não podem ouvir o ressentimento de um comerciante mais velho quando ele reclama que um recém-chegado não fala sua língua em um local de trabalho onde ele trabalhou uma vez. Eles estão menos sujeitos ao desconforto e ao deslocamento que alguns de seus conterrâneos podem sentir como a globalização embaralha não apenas os arranjos econômicos existentes, mas os costumes sociais e religiosos tradicionais.

É por isso que, no final do século 20, enquanto alguns comentaristas ocidentais estavam declarando o fim da história e o inevitável triunfo da democracia liberal e as virtudes da cadeia global de suprimentos, tantos sinais errados de uma reação adversa – uma reação que chegou em muitas formas. Anunciou-se de forma mais violenta com o 11/9 e o surgimento de redes terroristas transnacionais, alimentadas por uma ideologia que perverteu uma das grandes religiões do mundo e afirmou uma luta não apenas entre o Islã e o Ocidente, mas entre o Islã e a modernidade e uma doença. aconselhou a invasão do Iraque pelos EUA não ajudou, acelerando um conflito sectário. A Rússia, já humilhada pela sua reduzida influência desde o colapso da União Soviética, sentindo-se ameaçada pelos movimentos democráticos ao longo de suas fronteiras,

A China, encorajada por seu sucesso econômico, começou a protestar contra as críticas ao seu histórico de direitos humanos; enquadrava a promoção de valores universais como nada mais que interferência estrangeira, imperialismo sob um novo nome.

Dentro dos Estados Unidos, dentro da União Européia, os desafios à globalização vieram primeiro da esquerda, mas vieram mais fortemente da direita, quando começaram a ver movimentos populistas – que, aliás, são cinicamente financiados por bilionários de direita. na redução das restrições do governo em seus interesses comerciais – esses movimentos aproveitaram o mal-estar que foi sentido por muitas pessoas que viviam fora dos núcleos urbanos; temia que a segurança econômica estivesse se esvaindo, que seu status social e privilégios estivessem se deteriorando, que suas identidades culturais estavam sendo ameaçadas por estranhos, alguém que não se parecia com eles ou soava como eles ou orava como eles faziam.

E talvez mais do que qualquer outra coisa, o impacto devastador da crise financeira de 2008, em que o comportamento imprudente das elites financeiras resultou em anos de dificuldades para pessoas comuns em todo o mundo, fez todas as garantias anteriores de especialistas parecerem vazias – todas essas garantias que de alguma forma os reguladores financeiros sabiam o que estavam fazendo, que alguém estava cuidando da loja, que a integração econômica global era um bem não adulterado.

Por causa das ações tomadas pelos governos durante e após a crise, incluindo, devo acrescentar, por medidas agressivas da minha administração, a economia global voltou agora a um crescimento saudável. Mas a credibilidade do sistema internacional, a fé em especialistas em lugares como Washington ou Bruxelas, tudo isso levou um golpe.

E uma política de medo e ressentimento e retração começaram a aparecer, e esse tipo de política está agora em movimento. Está em movimento a um ritmo que teria parecido inimaginável há alguns anos. Eu não estou sendo alarmista, estou simplesmente declarando os fatos. Olhar em volta. As políticas do homem forte estão ascendendo repentinamente, por meio das quais as eleições e alguma pretensão democrática são mantidas – a forma dela – mas os que estão no poder procuram minar todas as instituições ou normas que dão significado à democracia. No Ocidente, você tem partidos de extrema-direita que muitas vezes se baseiam não apenas em plataformas de protecionismo e fronteiras fechadas, mas também em nacionalismo racial pouco oculto.

Muitos países em desenvolvimento agora estão considerando o modelo de controle autoritário da China combinado com o capitalismo mercantilista como preferível à confusão da democracia. Quem precisa de liberdade de expressão enquanto a economia estiver indo bem? A imprensa livre está sob ataque. A censura e o controle estatal da mídia estão em ascensão. A mídia social – antes vista como um mecanismo para promover o conhecimento, a compreensão e a solidariedade – provou ser igualmente eficaz na promoção do ódio e da paranoia e das teorias de propaganda e conspiração.

Assim, no aniversário de 100 anos de Madiba, estamos agora em uma encruzilhada – um momento no tempo em que duas visões muito diferentes do futuro da humanidade competem pelos corações e mentes dos cidadãos ao redor do mundo. Duas histórias diferentes, duas narrativas diferentes sobre quem somos e quem devemos ser. Como devemos responder?

Deveríamos ver aquela onda de esperança que sentimos com a libertação de Madiba da prisão, do Muro de Berlim descendo – devemos ver essa esperança que tínhamos ingênuo e mal orientado? Deveríamos entender os últimos 25 anos de integração global como nada mais do que um desvio do ciclo inevitável da história anterior – onde a causa pode acertar, e a política é uma competição hostil entre tribos e raças e religiões, e as nações competem em uma soma zero? jogo, constantemente à beira do conflito até que a guerra completa irrompe? É isso que pensamos?

Deixe-me dizer o que eu acredito. Eu acredito na visão de Nelson Mandela. Eu acredito em uma visão compartilhada por Gandhi e King e Abraham Lincoln. Acredito em uma visão de igualdade, justiça, liberdade e democracia multirracial, construída com base na premissa de que todas as pessoas são criadas iguais e dotadas pelo nosso criador de certos direitos inalienáveis. E acredito que um mundo governado por tais princípios é possível e que pode alcançar mais paz e mais cooperação na busca de um bem comum. Isso é o que eu acredito.

E acredito que não temos escolha a não ser seguir em frente; que aqueles de nós que acreditam na democracia e nos direitos civis e uma humanidade comum têm uma história melhor para contar. E eu acredito que isso não se baseia apenas no sentimento, acredito que seja baseado em evidências concretas.

O fato de que as sociedades mais prósperas e bem-sucedidas do mundo, aquelas com os mais altos padrões de vida e os mais altos níveis de satisfação entre seus povos, são aquelas que mais se aproximam do ideal progressista liberal de que falamos e alimentaram o mundo. talentos e contribuições de todos os seus cidadãos.

O fato de que governos autoritários têm sido mostrados repetidamente para criar corrupção, porque eles não são responsáveis; reprimir seu povo; perder o contato eventualmente com a realidade; envolver-se em mentiras maiores e maiores que acabam por resultar em estagnação econômica e política e cultural e científica. Olhe para a história. Olhe para os fatos.

O fato de que países que se baseiam em nacionalismo e xenofobia raivosos e doutrinas de superioridade tribal, racial ou religiosa são seus principais princípios organizadores, o que mantém as pessoas unidas – eventualmente esses países se vêem consumidos pela guerra civil ou guerra externa. Confira os livros de história.

O fato de que a tecnologia não pode ser colocada de volta em uma garrafa, então estamos presos ao fato de que agora vivemos juntos e as populações vão se mexer, e os desafios ambientais não vão desaparecer sozinhos, A única maneira de abordar efetivamente problemas como mudança climática ou migração em massa ou doenças pandêmicas será desenvolver sistemas para mais cooperação internacional, não menos.

Nós temos uma história melhor para contar. Mas dizer que nossa visão para o futuro é melhor não é dizer que ela irá inevitavelmente vencer. Porque a história também mostra o poder do medo. A história mostra o domínio duradouro da ganância e o desejo de dominar os outros nas mentes dos homens. Especialmente homens. (Laughter and History mostra com que facilidade as pessoas podem ser convencidas a ligar os que parecem diferentes ou a adorar a Deus de uma maneira diferente.

Então, se formos verdadeiramente continuar a longa caminhada de Madiba em direção à liberdade, teremos que trabalhar mais e teremos que ser mais inteligentes. Nós vamos ter que aprender com os erros do passado recente. E assim, no breve tempo restante, deixe-me sugerir apenas algumas diretrizes para o caminho a seguir, diretrizes que tiram do trabalho de Madiba, suas palavras, as lições de sua vida.

Primeiro, Madiba mostra aqueles de nós que acreditam na liberdade e na democracia que teremos que lutar mais para reduzir a desigualdade e promover oportunidades econômicas duradouras para todas as pessoas.

Agora, não acredito no determinismo econômico. Os seres humanos não vivem só de pão. Mas eles precisam de pão. E a história mostra que as sociedades que toleram grandes diferenças de riqueza alimentam ressentimentos e reduzem a solidariedade e, na verdade, crescem mais lentamente; e que, uma vez que as pessoas alcancem mais do que mera subsistência, elas estão medindo seu bem-estar comparando-se com seus vizinhos e se seus filhos podem esperar viver uma vida melhor.

E quando o poder econômico está concentrado nas mãos de poucos, a história também mostra que o poder político certamente se seguirá – e essa dinâmica corrói a democracia. Às vezes pode ser uma corrupção direta, mas às vezes pode não envolver a troca de dinheiro; é só gente que é tão rica que consegue o que quer, e isso prejudica a liberdade humana.

E Madiba entendeu isso. Isso não é novidade. Ele nos alertou sobre isso. Ele disse: “Onde a globalização significa, como tantas vezes acontece, que os ricos e os poderosos agora têm novos meios para enriquecer e fortalecer a si mesmos à custa dos mais pobres e mais fracos, [então] temos a responsabilidade de protestar em o nome da liberdade universal ”. Foi o que ele disse.

Então, se estamos falando sério sobre a liberdade universal hoje, se nos preocupamos com a justiça social hoje, então temos a responsabilidade de fazer algo a respeito. E eu respeitosamente emendaria o que Madiba disse. Eu não faço isso com frequência, mas eu diria que não é o suficiente para protestarmos; vamos ter que construir, vamos ter que inovar, vamos ter que descobrir como podemos fechar esse abismo crescente de riqueza e oportunidade, tanto dentro dos países como entre eles.

E como conseguimos isso vai variar de país para país, e sei que seu novo presidente está empenhado em arregaçar as mangas e tentar fazê-lo. Mas podemos aprender com os últimos 70 anos que isso não envolverá capitalismo desregulado, desenfreado e antiético. Também não envolverá o socialismo de comando e controle de estilo antigo no topo. Isso foi tentado; Não funcionou muito bem. Para quase todos os países, o progresso dependerá de um sistema de mercado inclusivo – que ofereça educação para todas as crianças; que protege a negociação coletiva e assegure os direitos de todos os trabalhadores – que destrói monopólios para encorajar a concorrência em pequenas e médias empresas; e possui leis que erradicam a corrupção e garantem negociações justas nos negócios;

Eu devo acrescentar, a propósito, agora estou realmente surpreso com quanto dinheiro eu tenho, e deixe-me dizer uma coisa: eu não tenho metade da maioria dessas pessoas ou de um décimo ou centésimo. . Há tanta coisa que você pode comer. Há apenas uma casa tão grande que você pode ter. Há apenas tantas viagens agradáveis ​​que você pode fazer. Quero dizer, é o suficiente. Você não tem que fazer um voto de pobreza apenas para dizer: “Bem, deixe-me ajudar e deixar algumas das outras pessoas – deixe-me olhar para aquela criança lá fora que não tem o suficiente para comer ou precisa de algum taxas escolares, deixe-me ajudá-lo. Eu vou pagar um pouco mais em impostos. Está bem. Eu posso pagar isso.”

Quero dizer, isso mostra uma pobreza de ambição de apenas querer tomar mais e mais e mais, em vez de dizer: “Uau, eu tenho muito. Quem posso ajudar? Como posso dar mais e mais e mais? ”Isso é ambição. Isso é impacto. Isso é influência. Que presente incrível para ajudar as pessoas, não apenas você. Onde eu estava? Eu improvisei. Você entendeu.

Envolve promover um capitalismo inclusivo tanto dentro das nações como entre as nações. E, como perseguimos, por exemplo, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, temos que superar a mentalidade de caridade. Temos que trazer mais recursos para os bolsos esquecidos do mundo através do investimento e do empreendedorismo, porque há talento em todo o mundo se for dada uma oportunidade.

Quando se trata do sistema internacional de comércio e comércio, é legítimo que os países mais pobres continuem a buscar acesso aos mercados mais ricos. E, a propósito, mercados mais ricos, esse não é o grande problema que você está tendo – que um pequeno país africano está enviando chá e flores para você. Esse não é o seu maior desafio econômico. Também é apropriado para as economias avançadas, como os Estados Unidos, insistir na reciprocidade de países como a China, que não são mais apenas países pobres, para garantir o acesso aos seus mercados e deixar de tomar propriedade intelectual e hackear nossos servidores.

Mas mesmo que haja discussões em torno do comércio e do comércio, é importante reconhecer essa realidade: enquanto a terceirização de empregos de norte a sul, de leste a oeste, enquanto muito disso era uma tendência dominante no final do século XX. , o maior desafio para os trabalhadores em países como o meu hoje é a tecnologia.

E o maior desafio para o seu novo presidente quando pensarmos em empregar mais pessoas aqui também será a tecnologia, porque a inteligência artificial está aqui e está acelerando, e você terá carros sem motorista, e você terá mais e mais serviços automatizados, e isso dará ao trabalho de dar a todos um trabalho mais significativo, e teremos que ser mais imaginativos, e o pacto de mudança vai nos exigir fazer uma re-imaginação mais fundamental de nossos arranjos sociais e políticos, para proteger a segurança econômica e a dignidade que vem com um trabalho. Não é apenas dinheiro que um emprego oferece; fornece dignidade e estrutura, senso de lugar e senso de propósito.

Assim, teremos que considerar novas maneiras de pensar sobre esses problemas, como uma renda universal, uma revisão de nossa jornada de trabalho, como treinamos nossos jovens, como fazemos de todos um empreendedor em algum nível. Mas vamos ter que nos preocupar com economia se quisermos colocar a democracia de volta nos trilhos.

Segundo, Madiba nos ensina que alguns princípios são realmente universais – e o mais importante é o princípio de que estamos unidos por uma humanidade comum e que cada indivíduo tem dignidade e valor inerentes.

Agora, é surpreendente que tenhamos que afirmar esta verdade hoje. Mais de um quarto de século depois que Madiba saiu da prisão, eu ainda tenho que ficar aqui em uma palestra e dedicar algum tempo para dizer que negros e brancos e asiáticos e latino-americanos e mulheres e homens e gays e heterossexuais, isso somos todos humanos, que nossas diferenças são superficiais e que devemos tratar uns aos outros com cuidado e respeito. Eu teria pensado que teríamos descoberto isso agora. Eu achava que essa noção básica estava bem estabelecida. Mas acontece que, como vemos nessa recente tendência à política reacionária, a luta pela justiça básica nunca está realmente terminada. Então temos que estar constantemente atentos e lutar por pessoas que buscam se elevar colocando alguém abaixo.

E, a propósito, também temos que resistir ativamente – isso é importante, particularmente em alguns países da África, como a pátria de meu pai; Já fiz isso antes – temos que resistir à noção de que os direitos humanos básicos, como a liberdade de discordância, ou o direito das mulheres de participar plenamente da sociedade, ou o direito das minorias à igualdade de tratamento, ou os direitos das pessoas não para sermos espancados e presos por causa de sua orientação sexual – temos que ter cuidado para não dizer que de alguma forma, bem, isso não se aplica a nós, que essas são idéias ocidentais, e não imperativos universais.

Mais uma vez, Madiba, ele antecipou as coisas. Ele sabia do que estava falando. Em 1964, antes de receber a sentença que o condenou a morrer na prisão, ele explicou do banco dos réus que, “A Carta Magna, a Petição de Direitos, a Declaração de Direitos são documentos que são mantidos em veneração por democratas em todo o mundo. Em outras palavras, ele não disse bem, esses livros não foram escritos por sul-africanos, então eu simplesmente não posso reivindicá-los. Não, ele disse que é parte da minha herança.

Isso é parte da herança humana. Isso se aplica aqui neste país, para mim e para você. E isso é parte do que lhe deu a autoridade moral que o regime do apartheid nunca poderia reivindicar, porque estava mais familiarizado com seus melhores valores do que eles. Ele lera seus documentos com mais cuidado do que eles. E ele prosseguiu dizendo: “A divisão política baseada na cor é inteiramente artificial e, quando desaparece, a dominação de um grupo de cores por outro também.” Isso é Nelson Mandela falando em 1964, quando eu tinha três anos de idade.

O que era verdade, então, permanece verdadeiro hoje. Verdades básicas não mudam. É uma verdade que pode ser adotada pelos ingleses e pelos indianos e pelos mexicanos e bantos e pelos luo e pelos americanos. É uma verdade que está no coração de toda religião mundial – que devemos fazer aos outros como gostaríamos que fizessem a nós. Que nos vemos em outras pessoas. Que podemos reconhecer esperanças comuns e sonhos comuns. E é uma verdade que é incompatível com qualquer forma de discriminação baseada em raça ou religião ou gênero ou orientação sexual. E é uma verdade que, a propósito, quando abraçada, realmente proporciona benefícios práticos, uma vez que garante que uma sociedade possa aproveitar os talentos, a energia e a habilidade de todas as pessoas. E se você duvida, basta perguntar ao time de futebol francês que acabou de ganhar a Copa do Mundo. Porque nem todas essas pessoas – nem todas essas pessoas se parecem com gauleses para mim. Mas eles são franceses. Eles são franceses.

Abraçando nossa humanidade comum não significa que tenhamos que abandonar nossas identidades étnicas, nacionais e religiosas. Madiba nunca deixou de se orgulhar de sua herança tribal. Ele não deixou de se orgulhar de ser negro e de ser sul-africano.

Mas ele acreditava, como eu acredito, que você pode se orgulhar de sua herança sem denegrir os de uma herança diferente. Na verdade, você desonra sua herança. Isso me faria pensar que você é um pouco inseguro sobre sua herança se tiver que colocar a herança de outra pessoa para baixo. Sim, está certo. Você não sente que às vezes – mais uma vez, eu estou improvisando aqui – que essas pessoas que estão tão concentradas em colocar as pessoas para baixo e se embotando que elas são de coração pequeno, que há algo que elas estão com medo do.

Madiba sabia que não podemos reivindicar justiça para nós mesmos quando isso é reservado apenas para alguns. Madiba entendeu que não podemos dizer que temos uma sociedade justa simplesmente porque substituímos a cor da pessoa em cima de um sistema injusto, então a pessoa se parece conosco mesmo que esteja fazendo a mesma coisa, e de alguma forma agora nós temos justiça. Isso não funciona. Não é justiça se agora você estiver no topo, então vou fazer a mesma coisa que aquelas pessoas estavam fazendo comigo e agora vou fazer isso com você. Isso não é justiça. “Eu detesto o racismo”, disse ele, “se vem de um homem negro ou de um homem branco”.

Agora, temos que reconhecer que há desorientação que vem da rápida mudança e modernização, e o fato de que o mundo encolheu, e vamos ter que encontrar maneiras de diminuir os medos daqueles que se sentem ameaçados. No debate atual do Ocidente em torno da imigração, por exemplo, não é errado insistir que as fronteiras nacionais importam; se você é um cidadão ou não vai importar para um governo, que as leis precisam ser seguidas; que, no âmbito público, os recém-chegados devem se esforçar para adaptar-se à linguagem e aos costumes de seu novo lar. Essas são coisas legítimas e temos que ser capazes de envolver as pessoas que se sentem como se as coisas não estivessem em ordem. Mas isso não pode ser uma desculpa para políticas de imigração baseadas em raça, etnia ou religião. Tem que haver alguma consistência. E podemos impor a lei respeitando a humanidade essencial daqueles que estão lutando por uma vida melhor. Para uma mãe com um filho nos braços, podemos reconhecer que poderia ser alguém da nossa família, que poderia ser meu filho.

Em terceiro lugar, Madiba nos lembra que a democracia é mais do que apenas eleições.

Quando ele foi libertado da prisão, a popularidade de Madiba – bem, você não podia nem medir isso. Ele poderia ter sido presidente vitalício. Estou errado? Quem iria correr contra ele? Quero dizer, Ramaphosa era popular, mas vamos lá. Além disso, ele era jovem – ele era jovem demais. Se ele tivesse escolhido, Madiba poderia ter governado por decreto executivo, sem restrição de contrapesos. Mas, em vez disso, ajudou a guiar a África do Sul através da elaboração de uma nova Constituição, baseada em todas as práticas institucionais e ideais democráticos que se mostraram mais robustos, atentos ao fato de que nenhum indivíduo possui o monopólio da sabedoria.

Nenhum indivíduo – nem Mandela, nem Obama – é totalmente imune às influências corruptoras do poder absoluto, se você puder fazer o que quiser e todo mundo tem medo de dizer quando você cometer um erro. Ninguém está imune aos perigos disso.

Mandela entendeu isso. Ele disse: “A democracia é baseada no princípio da maioria. Isso é especialmente verdadeiro em um país como o nosso, onde a grande maioria tem sistematicamente negado seus direitos. Ao mesmo tempo, a democracia também exige que os direitos das minorias políticas e outras sejam salvaguardados ”. Ele entendeu que não é apenas sobre quem tem mais votos. É também sobre a cultura cívica que construímos que faz a democracia funcionar.

Então temos que parar de fingir que os países que apenas realizam uma eleição onde às vezes o vencedor magicamente obtém 90% dos votos porque toda a oposição está trancada – ou não podem entrar na TV, é uma democracia. A democracia depende de instituições fortes e é sobre os direitos das minorias e freios e contrapesos, e liberdade de expressão e liberdade de expressão e imprensa livre, e o direito de protestar e peticionar o governo, e um judiciário independente, e todos têm que seguir a lei .

E sim, a democracia pode ser confusa, e pode ser lenta, e pode ser frustrante. Eu sei, eu prometo. Mas a eficiência oferecida por um autocrata é uma promessa falsa. Não o leve, porque leva, invariavelmente, a uma maior consolidação da riqueza no topo e ao poder no topo, e torna mais fácil esconder a corrupção e o abuso. Apesar de todas as suas imperfeições, a democracia real sustenta melhor a ideia de que o governo existe para servir o indivíduo e não o contrário. E é a única forma de governo que tem a possibilidade de tornar essa ideia real.

Então, para aqueles de nós que estão interessados ​​em fortalecer a democracia, paremos também – é hora de pararmos de prestar atenção às capitais mundiais e aos centros de poder e começar a nos concentrar mais nas bases, porque é aí que a legitimidade democrática vem de. Não de cima para baixo, não de teorias abstratas, não apenas de especialistas, mas de baixo para cima. Conhecer as vidas daqueles que estão lutando.

Como organizadora da comunidade, aprendi muito com um trabalhador de aço desempregado em Chicago ou com uma mãe solteira em um bairro pobre que visitei, como aprendi com os melhores economistas do Salão Oval. Democracia significa estar em contato e em sintonia com a vida como é vivida em nossas comunidades, e isso é o que devemos esperar de nossos líderes, e depende do cultivo de líderes na base que podem ajudar a trazer mudanças e implementá-las no terreno e podem diga aos líderes em edifícios extravagantes, isso não está funcionando aqui.

E para fazer a democracia funcionar, Madiba nos mostra que também temos que continuar ensinando nossos filhos, e a nós mesmos – e isso é realmente difícil – a nos engajar com pessoas que não apenas têm uma aparência diferente, mas possuem visões diferentes. Isto é difícil.

A maioria de nós prefere nos cercar de opiniões que validem o que já acreditamos. Você percebe que as pessoas que você acha inteligentes são as pessoas que concordam com você. Engraçado como isso funciona. Mas a democracia exige que também possamos entrar na realidade das pessoas que são diferentes de nós para que possamos entender seu ponto de vista. Talvez possamos mudar de idéia, mas talvez eles mudem os nossos. E você não pode fazer isso se você simplesmente ignorar o que seus oponentes têm a dizer desde o início. E você não pode fazer isso se você insiste que aqueles que não são como você – porque são brancos, ou porque são do sexo masculino – que de alguma forma não há como eles entenderem o que eu sinto, que de alguma forma eles não têm de pé para falar sobre certos assuntos.

Madiba, ele viveu essa complexidade. Na prisão, ele estudou afrikaans para poder entender melhor as pessoas que o estavam encarcerando. E quando ele saiu da prisão, ele estendeu a mão para aqueles que o haviam prendido, porque ele sabia que eles tinham que ser parte da África do Sul democrática que ele queria construir. “Para fazer as pazes com um inimigo”, escreveu ele, “é preciso trabalhar com esse inimigo e esse inimigo torna-se parceiro de alguém”.

Assim, aqueles que traficam em absolutos quando se trata de política, seja à esquerda ou à direita, tornam a democracia inviável. Você não pode esperar obter 100% do que você quer o tempo todo; às vezes, você tem que comprometer. Isso não significa abandonar seus princípios, mas significa manter esses princípios e ter a confiança de que eles resistirão a um debate democrático sério. Foi assim que os Fundadores da América planejaram que nosso sistema funcionasse – que, através do teste de idéias e da aplicação da razão e da prova, seria possível chegar a uma base para um terreno comum.

E devo acrescentar que isso funcione, temos que realmente acreditar em uma realidade objetiva. Essa é outra dessas coisas que eu não tive que fazer palestras. Você tem que acreditar em fatos. Sem fatos, não há base para cooperação. Se eu disser que este é um pódio e você diz que isso é um elefante, vai ser difícil para nós cooperarmos. Eu posso encontrar um terreno comum para aqueles que se opõem aos Acordos de Paris porque, por exemplo, eles podem dizer, bem, não vai funcionar, você não pode fazer com que todos cooperem, ou eles podem dizer que é mais importante para nós fornecermos produtos baratos. energia para os pobres, mesmo que isso signifique, a curto prazo, que haja mais poluição.

Pelo menos eu posso ter um debate com eles sobre isso e posso mostrar a eles porque eu acho que a energia limpa é o melhor caminho, especialmente para os países pobres, que você pode ultrapassar tecnologias antigas. Não consigo encontrar um terreno comum se alguém diz que a mudança climática não está acontecendo, quando quase todos os cientistas do mundo nos dizem que é. Eu não sei por onde começar a falar sobre isso. Se você começar a dizer que é uma farsa elaborada, eu não sei o que fazer – onde começamos?

Infelizmente, muita da política hoje parece rejeitar o próprio conceito de verdade objetiva. As pessoas inventam coisas. Eles apenas inventam coisas. Nós vemos isso na propaganda patrocinada pelo estado; vemos isso em fabricações conduzidas pela Internet, vemos isso na confusão de linhas entre notícias e entretenimento, vemos a total perda de vergonha entre os líderes políticos, onde eles são pegos em uma mentira e eles simplesmente dobram e mentem um pouco mais. Políticos sempre mentiram, mas costumava ser, se você os pegasse mentindo, seria tipo “Oh, cara”. Agora eles continuam mentindo.

Aliás, isso é o que eu acho que Mama Graça estava falando em termos de algum senso de humildade que Madiba sentia, como às vezes coisas básicas, eu não mentir para as pessoas parece básico, eu não penso em mim como um grande líder só porque eu não invisto completamente. Você acha que foi uma linha de base. De qualquer forma, vemos isso na promoção do anti-intelectualismo e na rejeição da ciência por parte de líderes que acham o pensamento crítico e os dados de alguma forma politicamente inconvenientes.

E, como na negação de direitos, a negação de fatos vai contra a democracia, pode ser a sua ruína, e é por isso que devemos proteger zelosamente a mídia independente; e temos que nos proteger contra a tendência das mídias sociais se tornarem puramente uma plataforma para espetáculo, indignação ou desinformação; e temos que insistir que nossas escolas ensinem o pensamento crítico aos nossos jovens, não apenas a obediência cega.

O que, tenho certeza de que você é grato, leva ao meu último ponto: temos que seguir o exemplo de persistência e esperança de Madiba.

É tentador ceder ao cinismo: acreditar que as mudanças recentes na política global são muito poderosas para retroceder; que o pêndulo oscilou permanentemente. Assim como as pessoas falaram sobre o triunfo da democracia nos anos 90, agora vocês estão ouvindo as pessoas falarem sobre o fim da democracia e o triunfo do tribalismo e do homem forte. Temos que resistir a esse cinismo.

Porque, nós passamos por tempos mais escuros, nós estivemos em vales mais baixos e vales mais profundos. Sim, até o final de sua vida, Madiba incorporou a luta bem-sucedida pelos direitos humanos, mas a jornada não foi fácil, não foi pré-ordenada. O homem foi preso por quase três décadas. Ele dividiu o calcário no calor, dormiu em uma pequena cela e foi repetidamente colocado em confinamento solitário. E eu lembro de ter conversado com alguns de seus ex-colegas dizendo como eles não tinham percebido quando foram libertados, apenas a visão de uma criança, a ideia de segurar uma criança, eles haviam perdido – não era algo disponível para eles, por décadas.

E, no entanto, seu poder realmente cresceu durante aqueles anos – e o poder de seus carcereiros diminuiu, porque ele sabia que se você mantivesse o que é verdade, se você sabe o que está em seu coração, e você está disposto a se sacrificar por isso, mesmo no face de chances esmagadoras, de que isso pode não acontecer amanhã, pode não acontecer na próxima semana, pode nem acontecer em sua vida.

As coisas podem retroceder por um tempo, mas no final das contas, certo faz poder, e não o contrário, a história melhor pode vencer e tão forte quanto o espírito de Madiba pode ter sido, ele não teria sustentado essa esperança se estivesse sozinho na luta, parte da motivação era que ele soubesse que a cada ano, as fileiras de combatentes da liberdade estavam se reabastecendo, homens e mulheres jovens, aqui na África do Sul, no ANC e além; negros, indianos e brancos, do outro lado do campo, por todo o continente, em todo o mundo, que naqueles dias mais difíceis continuariam trabalhando em prol de sua visão.

E é disso que precisamos agora, não precisamos apenas de um líder, não precisamos apenas de uma inspiração, o que precisamos agora é desse espírito coletivo. E eu sei que aqueles jovens, aqueles portadores de esperança estão se reunindo ao redor do mundo. Porque a história mostra que sempre que o progresso é ameaçado, e as coisas que mais nos interessam estão em questão, devemos ouvir as palavras de Robert Kennedy – falado aqui na África do Sul, ele disse: “Nossa resposta é a esperança do mundo: é confiar na juventude. É confiar no espírito dos jovens ”.

Então, os jovens, que estão na platéia, que estão ouvindo, minha mensagem para você é simples, continue acreditando, continue marchando, continue construindo, continue levantando sua voz. Toda geração tem a oportunidade de refazer o mundo. Mandela disse: “Os jovens são capazes, quando despertados, de derrubar as torres da opressão e levantar as bandeiras da liberdade”. Agora é um bom momento para ser despertado. Agora é um bom momento para se animar.

E, para aqueles de nós que se preocupam com o legado que nós honramos aqui hoje – sobre igualdade e dignidade e democracia e solidariedade e bondade, aqueles de nós que permanecem jovens no coração, se não no corpo – temos a obrigação de ajudar nossos jovens ter sucesso. Alguns de vocês sabem, aqui na África do Sul, minha Fundação está convocando nos últimos dias, duzentos jovens de todo o continente que estão fazendo o trabalho duro de fazer mudanças em suas comunidades; que refletem os valores de Madiba, que estão preparados para liderar o caminho.

Pessoas como Abaas Mpindi, um jornalista de Uganda, que fundou a Media Challenge Initiative, para ajudar outros jovens a obter o treinamento necessário para contar as histórias que o mundo precisa saber.

Pessoas como Caren Wakoli, uma empreendedora do Quênia, que fundou a Emerging Leaders Foundation para envolver os jovens no trabalho de combater a pobreza e promover a dignidade humana.

Pessoas como Enock Nkulanga, que dirige a missão African Children, que ajuda crianças em Uganda e no Quênia a obterem a educação de que precisam e, em seu tempo livre, defende os direitos das crianças em todo o mundo e fundou uma organização chamada LeadMinds Africa. , que faz exatamente o que diz.

Você conhece essas pessoas, fala com elas, elas lhe dão esperança. Eles estão tomando o bastão, eles sabem que não podem simplesmente descansar sobre as realizações do passado, até mesmo as realizações daqueles tão importantes quanto os de Nelson Mandela. Eles ficam sobre os ombros daqueles que vieram antes, incluindo aquele jovem negro nascido há 100 anos, mas eles sabem que agora é a vez deles fazerem o trabalho.

Madiba nos lembra que: “Ninguém nasce odiando outra pessoa por causa da cor de sua pele, de sua origem ou de sua religião. As pessoas devem aprender a odiar, e se elas podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar, pois o amor vem mais naturalmente ao coração humano. ”O amor vem mais naturalmente ao coração humano, vamos nos lembrar dessa verdade. Vamos ver isso como nossa Estrela do Norte, vamos nos alegrar em nossa luta para fazer essa verdade se manifestar aqui na terra para que daqui a 100 anos, futuras gerações olhem para trás e digam, “eles mantiveram a marcha, é por isso que vivemos sob novos banners de liberdade ”.

Muito obrigado, África do Sul, obrigado”. (Barack Obama)

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Cultura

FIM: O Festival de Cinema Feminista Urgente e Necessário

Por Viviane A. Pistache

De antemão é precisar dizer que este texto se propõe a duas tarefas: Um olhar geral sobre o FIM e análise de alguns filmes exibidos no festival. Na semana de 04 a 11 de julho aconteceu em São Paulo a primeira edição do FIM (Festival Internacional de Mulheres no Cinema).

O festival nasceu com uma missão fundamental: exigir o fim da abissal desigualdade de gênero e raça no corpo de realizadores do audiovisual no Brasil. Esta edição homenageou a atriz Zezé Motta cuja carreira no cinema é emblemática para se pensar o modo como tem sido a construção de personagens negras no cinema e seu impacto na sedimentação de imaginários sobre ser mulher negra neste país. Mas para superar velhos e novos estereótipos e para que novas narrativas possam ser construídas, um conjunto de desigualdades devem ser escancarados. A Agência Nacional de Cinema, ANCINE, em seus 16 anos de existência tem se deparado com a necessidade cada vez mais premente de enfrentar o debate sobre diversidade na produção do audiovisual brasileiro.

O primeiro debate sobre a questão aconteceu a partir da Lei 12.485 de 2011 foi a respeito da diversidade regional tendo em vista o caráter continental do país. A partir da lei está prevista a destinação de 40% dos recursos do Fundo Setorial do Audiovisual para a realização de produções fora do eixo Rio-São Paulo. Em 2015 a agência começa a pensar a gritante disparidade de gênero no setor e somente em 2017 entra em pauta as desigualdades raciais, com a criação da Comissão de Gênero, Raça e Diversidade da ANCINE. Apesar destas iniciativas fundamentais, é desolador o cenário da realização no audiovisual brasileiro quando se considera as categorias de gênero e raça: Em 2017 apenas 21% dos filmes produzidos nacionalmente foram realizados por mulheres; mas o número de mulheres negras ainda não chega a 1%. Como diz a pesquisadora e curadora Janaína de Oliveira, nós mulheres negras continuamos reféns do 0% que nos invisibiliza e nos silencia.

Para sairmos das trincheiras e irmos para a linha de frente, foi realizado dentro do FIM o 2º Seminário Internacional Mulheres no Audiovisual. Foi um dia inteiro de debates com a presença de mulheres que conquistaram posições estratégicas, a exemplo de Debora Ivanov (Diretora da Ancine), Mariana Ribas (Secretária Executiva do MinC), Carolina Costa (Presidente da Comissão de Gênero, Raça e Diversidade da Ancine), Marina Pompeu (Analista de Projetos e Conteúdo do Canal Brasil), Daniela Mignani (Diretora GNT, Viva e Mais Globosat), Nadine Gasner (Representante da ONU Mulheres do Brasil). No conjunto de representantes brasileiras a única negra foi Maria Ângela de Jesus que é diretora de conteúdo original internacional da Netflix. O que certamente nos deixou esperançosas. Dentre as convidadas internacionais duas outras importantes mulheres negras: Fanshen Cox DiGiovanni, que é atriz, dramaturga e produtora norteamericana, membra do Conselho da Anneberg Inclusion Initiative e Mercedes Cooper, ninguém menos que a diretora de marketing da Array, empresa fundada pela cineasta Ava DuVernay para a distribuição e divulgação de filmes produzidos por mulheres e pessoas negras.

Mas ainda somos poucas nos espaços de decisão. O seminário que trouxe iniciativas para a superação do hiato de gênero e raça a partir de alianças entre poder público, empresas e sociedade civil, firmou também o importante Pacto Pelo Fim do Assédio no Audiovisual, debate urgente tendo em vista o quão violentadas as mulheres têm sido historicamente neste mundo marcadamente masculino que é o audiovisual. O Festival foi fruto das parcerias e compromissos firmados entre Casa Redonda, Associação Cultural Kinoforum, Sesc São Paulo, Mulheres do Audiovisual Brasil (um exército de mais 18 mil guerreiras) e Avon, que patrocinou o evento por meio do FAMA – Fundo Avon de Mulheres no Audiovisual, iniciativa para igualdade de gênero no setor audiovisual brasileiro.

Esta semana de festival foi de pura potência, palcos de microfones e escutas abertas, de trocas, de formação. Foi um rico espaço de aprendizado nos espaços onde muitas profissionais compartilharam suas trajetórias em algumas áreas de atuação, a exemplo da produção executiva, distribuição, direção, intervenção da mulher no documentário, a diversidade de olhares na crítica, cinema negro, história e protagonismo de mulheres negras, bem como uma verdadeira clínica sobre o funcionamento das vísceras burocráticas da Ancine. Um momento de caloroso afeto e fortalecimento foi a edição especial do Cine da Vela, que contou com Adélia Sampaio, que inaugurou a presença da mulher negra na direção de longa-metragem de ficção em 1984. Adélia, uma belorizontina filha de empregada doméstica, que chegou a ser vítima de sequestro e trabalho escravo na infância, conheceu todos os meandros da realização até fazer uma aposta de alto risco, ao dirigir um filme que pôs em tela um tema até hoje apedrejado, como se verá melhor a seguir. A mesa contou ainda com a atriz, rapper, slammer, cineasta e apresentadora Roberta Estrela D’Alva que compartilhou os desafios vividos ao longo de sua carreira. Juliana Vicente, diretora e fundadora da produtora Preta Portê também compartilhou os desafios vividos nos contextos de criação e realização cinematográfica.

Os 28 filmes exibidos, de 29 diretoras foram agrupados em 4 mostras dentro do festival: Lute como uma Mulher, O Fogo que não de Acaba, Competitivas Nacional e Internacional e Homenagem. O filme brasileiro que venceu a competitiva nacional foi o “Slam: Voz de Levante”, de Tatiana Lohmann e Roberta Estrela D’Alva, dando visibilidade à luta de duas diretoras negras.

Na competitiva internacional venceu o longa mexicano “Tesoros”, de María Novaro. O coletivo Elvira de crítica de cinema sob o viés feminista premiou filme “Lampião da Esquina”, de Lívia Perez, que integrou a mostra “Lute Como uma Mulher”. O FIM também semeou esperanças ao anunciar cinco projetos contemplados na 1ª edição do FAMA – Fundo Avon de Mulheres no Audiovisual, tornando realidade obras de duas diretoras brancas: Cristiane Oliveira (A primeira Morte de Joana), Larissa Ribeiro Bezerra (Daqui de Dentro); e três diretoras negras: Sabrina Fidalgo (Cidade do Funk), Safira Moreira dos Santos (Cais) e Tatiana Lohman (Minha Fortaleza, os filhos de fulano) e co-diretora do vencedor “Slam: Voz de Levante”.

O FIM foi uma intensa semana que envolveu seminários, masterclasses, cursos, paralelas, quatro mostras, uma necessária homenagem a Zéze Motta, além da exibição de 28 filmes com debates pós-sessão com diretoras, equipe e elenco. Acompanhando essa maratona, pude a exibição de quase metade dos filmes. Aproveitando o ensejo, gostaria de esboçar pequenas notas sobre alguns deles: Amor Maldito: Filme da pioneira Adélia Sampaio lançado em 1984, traz o olhar de uma mulher negra sobre um tema pouco abordado no cinema: relações afetivas e sexuais entre duas mulheres. Num Brasil acostumado às pornochanchadas, Adélia desafiou pontos de vistas machistas, que fetichizam o corpo feminino, implodindo a costumeira prática de objetificação destes corpos.

Adélia revelou-se uma exímia conhecedora de importantes movimentos do cinema nacional, a exemplo do Cinema Novo, Cinema Marginal, Chanchadas e Porno-chanchadas. Assumiu com segurança o leme de uma trama, ao colocar em tela as hipocrisias religiosas e da justiça na leitura e julgamento das relações lésbicas. O destino trágico de uma das personagens é uma denúncia das múltiplas mortes e silenciamentos a que estão submetidas historicamente as mulheres lésbicas e bissexuais. Vale lembrar que a temática é ainda muito rara no cinema e envolve polêmicas e controvérsias, a exemplo do conhecido Azul é a Cor Mais Quente, lançado em 2013 pelo diretor Abdellatif Kechiche, homem negro de ascendência franco-tunisina. Apesar de ter agradado a crítica quando dirigiu o doloroso Vênus Negra em 2010, o diretor colecionou acusações de abusos e outras polêmicas ao adaptar para o cinema o romance A Vida de Adele, no filme que também lhe rendeu consagração em Cannes. Apesar dos 29 anos que separam as duas obras e das fulcrais diferenças dos olhares femininos e masculinos, Adélia Sampaio e Abdellatif Kechiche compartilham a ousadia de abordar relações afetivo-sexuais entre duas mulheres brancas a partir de pontos de vista negros.

Slam: Voz de Levante. Conforme dito anteriormente, o filme vencedor do FIM é uma obra dirigida por duas mulheres negras. O filme traça a história do Slam no Brasil a partir do envolvimento da protagonista Roberta Estrela D’Alva com o movimento poetry slam em suas articulações diaspóricas. Roberta apresenta a cena slammer em Nova York, Chicago, Paris, Rio de Janeiro e São Paulo como potente Ágora de liberdade de pensamento e expressão. Slam revela a importância da ocupação do espaço político para a escuta de vozes em distintos idiomas que exigem equidade de gênero, raça e orientação sexual, bem como a reversão da onda mundial de retrocessos e perda de direitos. O documentário destaca também a trajetória de Dona Mauri, mulher negra que se revela poeta aos 65 anos, após anos de militância, sendo figura central do Coletivo Frente 3 de Fevereiro. O longa traz ainda a esperança e luta de Luz Ribeiro, poetisa negra que venceu o campeonato nacional e representou o Brasil em Paris na Copa do Mundo de Poetry Slam, tarefa que também coube à Roberta em copas anteriores.

Praça Paris: Premiado no Festival do Rio de 2017 nas categorias de direção para Lúcia Murat e atriz coadjuvante para Grace Passô, é certamente um dos filmes mais instigantes do último ano. A trama é bem representativa dos desafios das relações raciais no país, colocando dedos nas feridas, expondo cicatrizes históricas. A história se passa em torno da relação entre Glória, mulher negra e moradora de favela e (magistralmente vivida por Grace Passô) e Camila (Joana Verona) sua terapeuta, pesquisadora acadêmica e portuguesa. Apesar de compartilharem a confidencialidade que emerge numa relação terapêutica entre ambas há infinitos abismos. Já na cena de abertura o filme faz uso da paisagem como metáfora para privilégios. Camila tem todo azul do mar e horizontes para si. No entanto, sua alma entorpecida e atormentada se joga num racismo suicida.

Para Grace está reservada a claustrofobia do sobe e desce no elevador, da revista vexatória, do barraco humilde e asseado. A Cidade Maravilhosa é apresentada em seus desencantos, sem chance para cartões postais. Neste sentido, o filme é uma crítica peça anti-publicidade: um samba pálido é engolido pelas britadeiras de uma cidade sempre em reforma, num eterno devir, pelos helicópteros que farejam em ronda, pelo esculacho das UPPs, pelos tiros de bala, por um funk que embala a vida marginal. O som ao redor figura como imprescindível para entender a atmosfera do terror que é a alma do filme. É uma bela ilustração da chamada “Onda Negra, Medo Branco”1. Assim, o filme traz imagens especulares da Grace: diante de sua terapeuta Camila, escancara a face dos privilégios da branquitude. Diante de seu irmão e seu pai, as violências de gênero. Sua personagem é também refém da esterelidade ou violência das instituições: a polícia que mata, a UERJ, que apesar de pioneira nas cotas, não garante acesso para maior parte da juventude negra e carioca; além da Febem e do sistema prisional que deforma em massa masculinidades negras. Se Glória é ou assume ares de psicopata num roteiro ambíguo, é também dissimulada e esperta o suficiente para subverter o texto e não cristalizar estereótipos. E as modulações de temperatura da atuação de Grace Passô garantem que o filme seja dela, passando rasteira nas intenções primeiras da narrativa. Assim Glória é uma sobrevivente, ainda que tenha que matar, ou garantir que a classe média branca tenha pesadelos. E a branquitude se denuncia com sua empatia míope, a fragilidade de suas boas intenções, seu utilitarismo acadêmico e seus vícios colonizatórios (não por acaso Camila é portuguesa). Nisto reside à desesperança do filme: um Rio de Janeiro sitiado; onde a população negra não tem vez e a branquitude é tão simpática quanto o beijo de Judas e tão omissa quanto Poncio Pilatos.

Mataram nossos Filhos: Filme de Susanna Lira lançado em 2016 traz um retrato muito tocante sobre as Mães de Maio, mulheres vítimas do genocídio da juventude negra perpetrado pelo Estado brasileiro. É certamente admirável a sensibilidade do olhar da diretora no sentido de politizar a maternidade e a dor destas mulheres que transformam luto em luta, exigindo do Estado e da sociedade que a morte de seus filhos tenha justiça e que a desmilitarização da Polícia seja a via do fim do massacre que ceifa milhares de vidas negras todos os anos. O filme é potente para mostrar como a tragédia mobiliza a consciência política e torna essas mulheres lideranças e ativistas o documentário mostra como ativistas do quilate de Débora Silva e Vera Lúcia Gonzaga dos Santos (valoroza guerreira que sucumbiu ao insuportável da dor em maio de 2018, na ocasião da falsa abolição e dos dias das mães) ambas das Mães de Maio e Ana Paula de Manguinhos Estas e tantas outras mulheres e homens se agigantam diante do poder público no entendimento do que é injustiça e o eco de suas vozes se faz ouvir internacionalmente. Esses são certamente méritos da obra, que no entanto peca pela ausência do debate da articulação da luta destas Mães com entidades do movimento negro nacional ou eixo Rio-São Paulo, priorizado no documentário. Vale lembrar que o movimento negro em suas múltiplas entidades e orientações pelo país afora, tem sido a mais importante voz de denúncia do genocídio do povo preto, em íntima articulação com a luta das Mães que perderam seus filhos. Mas esta relação vital não está colocada na obra de Susanna Lira, apesar da movimentação em torno dos quarentas anos de refundação e luta do Movimento Negro Unificado.

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Consciência Negra

Ser empresário é coisa de preto

Para afropotências do empreendedorismo social, ser criativo e inovador não é nada novo. É o que sempre foram na favela.

Por Lais Rocio (Vitória/ES)
Publicado originalmente pela empresa social
Atitude Inicial

Ser negro e empresário é diariamente revolucionário. É jogar o jogo do mercado, para dar poder às ideias de quem nunca foi incentivado a apostar o próprio sonho na competição do empresariado. E ao mesmo tempo, empreender com a estratégia que a negritude sempre teve para reinventar a vida. Na favela, no quilombo e nos vários espaços que ousaram dizer que um preto não podia ser dono da própria história, ou do próprio negócio. Esse é o cenário das afropotências do empreendedorismo social Jota Júnior, da  Atitude Inicial, e Priscila Gama, do Instituto das Pretas. Retratados no segundo episódio da série de reportagens Afropotências, do Projeto Entalado

“Somos empreendedores desde que pegamos a nossa carta de alforria e não tínhamos para onde ir”, reconhece a empresária paulista Michelle Fernandes, durante o Encontro Das Pretas (Vitória/ES).

É um saber e fazer que não costuma ser ensinado nas escolas, nos cursinhos profissionalizantes ou em outros serviços públicos que atendem à população negra. Mas é o que faz as comunidades inventarem os seus próprios negócios, artesanatos, gambiarras, feiras e vendinhas. Que vão para além do próprio sustento, e despertam união de talentos e propósitos de vida.

Tudo isso fortalece um mercado que, diante das crises, cada vez mais se alia à economia criativa. Envolve inovação, sustentabilidade, diversidade cultural e inclusão social. Valores indispensáveis aos ditos novos negócios, mas que os afroempeendedores sempre viram acontecer ao seu redor. Ao longo de sua vida, Jota Júnior presencia sua mãe, costureira e artesã, abrindo pequenos empreendimentos no bairro e cursinhos para ensinar seu ofício a outras mulheres como ela. Diversas vezes, ele entendeu o significado da economia criativa quando via a vizinhança montar feirinhas no bairro para vender seus produtos caseiros.

“Inovação empresarial não é só tecnologias de máquinas, é inovar nas ideias. E isso é o que as favelas fazem há anos”, afirma Priscila Gama.

Por isso, alguns empresários negros lutam também para que essa criatividade periférica não seja reapropriada por pessoas não negras que dão novos nomes a essas práticas, e as afastam de suas origens, como observa Priscila. E com isso, afroempreendedores ocupam o mundo dos negócios, para que essas criações e habilidades sejam reconhecidas como as potencialidades que são. Ao abrirem caminhos inéditos de igualdade racial e protagonismo, tornam-se por conta própria autores dessa transformação:

 

“Se não tem espaço para mulheres negras, então nós vamos criar! Criamos nosso próprio lugar, com nossos direitos de viver, curtir, ser livre e bonita”, conta Priscila Gama, sobre os projetos que desenvolve.

 

Assim, abrem novas possibilidades para que negros tenham múltiplas chances, inclusive financeiras, de serem o que quiserem profissionalmente. Para que não tenham como únicos caminhos possíveis o envolvimento com a violência, ou as profissões e cargos mais desvalorizadas pela sociedade. Como explica o advogado e defensor dos direitos humanos André Moreira: “Ás vezes os nossos melhores nomes estão lá no crime, com pessoas tão boas em organização que organizam o tráfico. Cada um emprega sua capacidade naquilo que dá sobrevivência”. Foi acreditando em tudo isso que os personagens dessas histórias, Priscila e Jota, ergueram empresas com propósitos que transcendem suas profissões individuais.

 

“Negócios sociais existem para resolver problemas que a gente enxerga todos os dias. São negócios feitos para mudar o mundo”, explica Jota Júnior.



O fantástico mundo de Jota

O gosto por desafiar a realidade e sonhar a partir da escassez foi despertado em Jota desde cedo. Quando nem imaginava idealizar e ser diretor executivo da empresa social Atitude Inicial, que hoje chega a seis anos de existência, mais de 150 projetos desenvolvidos, e 600 mil reais de faturamento ao ano.

Ao longo da infância, Jota se via como no Fantástico Mundo de Bob, um desenho animado dos anos 90. Era sobre uma criança que imaginava mundos coloridos, espaços siderais e outros cenários incríveis no lugar da sua simples casa suburbana. E também era assim que Jota reinventada sua vida de um menino de família pobre, morador de uma região marginalizada do bairro Santo Antônio (comunidade em Vitória/ES, que mistura moradias tradicionais e outras mais precárias, originárias de ocupações em morros e mangues).  Criava as próprias brincadeiras, como rifas na escola para dividir o lanche que nem todas as crianças tinham. Idealizava seus brinquedos no lugar daqueles que não tinha acesso, e até mesmo novas memórias para substituir traumas familiares mais sérios, como relembra:

“Eu inventava um mundo em que eu podia ser o que quisesse. Que não fosse tão precário quanto o que tinha ao meu redor.”

Da mesma forma, sempre rejeitou as imposições, e questionava os porquês da realidade ser como era. Tudo isso guiou Jota a descobrir, mais tarde, que podia não só desvendar essas razões, mas também mudar tudo de fato. E depois, percebeu que esse desejo não precisava ser apenas um hobbie, mas a sua missão principal de vida e profissão. Com isso, se identificava cada vez mais com o verso de um rap do Emicida que serviu como mantra: “só água na geladeira e eu querendo salvar o mundo”.

Com quase nada além da própria imaginação, foi ultrapassando as fronteiras impostas em seu bairro periférico. Começou a trabalhar com 15 anos de idade, e com o salário pagava um de seus primeiros cursos técnicos. Passou pelo teatro, design, comunicação e administração. E percorria esses caminhos na contramão da educação e do trabalho tradicionais, em que muitos jovens como ele se sentem realizados apenas quando recebem o salário ao final do mês, como ele mesmo sempre comenta.

Entendeu isso mais ainda ao iniciar sua vida profissional coordenando projetos culturais em um programa social de conscientização no trânsito, financiado pelo governo. Quando esse Programa oportunizou a sua primeira viagem para o exterior, ele percebeu que era possível: “Foi um marco na vida, quando percebi que eu conseguia pegar aquele fantástico mundo que eu imaginava e transformar em realidade”.

Mesmo com o rompimento desse trabalho, o sentimento de mudança de mundo foi mantido por ele, ao lado de pessoas e realidades que compartilhavam desse desejo. Esse foi o papel do fotógrafo, historiador e militante dos movimentos sociais, Serginho Neglia, que tornou-se um mentor desde aquele momento até os dias de hoje. Com isso, empreender foi para Jota o único caminho possível. Assim como criar um mundo e universo nas suas brincadeiras de infância era a única forma de conquistar seus sonhos, mesmo que fosse apenas no campo das ideias:

“Sou preto e empresário porque essa foi a única opção que me restou: Inventar uma empresa era fazer, mais uma vez, com que os dias fossem menos difíceis”.

A partir daí, Jota criou a Atitude junto com muita gente que acreditava nessa mesma loucura, tal como Valéria Nogueira, hoje sócia e coordenadora de produção. Multiplicaram e expandiram o velho hábito de Jota em sonhar a partir da escassez, de ressignificar a dor e mudar tudo o que incomoda. Antes mesmo de ter um CNPJ ou uma sede estruturada, ele teve a ousadia de propor um projeto de conscientização ambiental à uma grande empresa da cidade. Essa primeira intervenção realizada consolidou uma parceria que se mantém até hoje. E foi o ponto de partida para percorrer criando revoluções e soluções diárias para as injustiças sociais e ambienteis. Como diz a própria equipe, são sempre ideias reais para problemas, pessoas e mundos reais.

Ao mesmo tempo em que conectam pessoas e ideias, a Atitude Inicial serve para despertar e potencializar inclusive negros de periferia para aquilo que fazem de melhor. E assim reúnem pessoas que amam ser artistas, comunicadores, atores, jornalistas, designers, entre muitos outros, para que sejam bons inclusive em mudar o mundo. Dessa foram, a arte, a cultura, a comunicação e outras diversas ferramentas desenvolvidas na empresa se tornam, sobretudo, tecnologias sociais feitas para transformar realidades. Como acredita Jota:

“Esse lugar é para todo mundo saber o tamanho que tem. Enxergo as pessoas para despertar o melhor delas. Sempre me pergunto: onde essa pessoa vai servir dentro da revolução do mundo?”

 

Priscila: uma vida por muitas histórias de pretas protagonistas

Foto: Priscila Gama -Arquivo pessoal

Ao viver realidades de educação e profissão em que se incomodavam até com suas conquistas simplesmente por ser negra, Priscila Gama descobriu o seu papel no mundo: promover a demarcação e o protagonismo do povo preto, em qualquer que seja o lugar. Tudo isso por mais espaços afrocentrados, em que, por exemplo, ela não fosse mais a única negra nas salas de aula, como foi muitas vezes.

Desde criança, Priscila sempre se sentiu bonita, inteligente e inspirada pela beleza dos poucos artistas negros que via na TV. No entanto, junto com as oportunidades de frequentar escolas e faculdades particulares renomadas de sua cidade, veio a dor do racismo que violenta pessoas só por existirem, e mais ainda quando mostram algum destaque na sociedade.

“Era como se de um dia pro outro eu tivesse ficado mais preta. Aquela não era o meu lugar. Era agressivo para aqueles meninos e meninas conviverem comigo”, relembra, sobre a sensação que teve ao frequentar os cursinhos privados de pré-vestibular.

Sua resistência a isso fez com que, anos depois de ter sido uma das poucas pretas no curso de Direito, Priscila hoje seja convidada para voltar à essa mesma faculdade. Mas dessa vez, é para compor a banca das apresentações de TCC, formaturas e grêmios estudantis de alunos negros, em que vê mulheres como ela conquistando seus diplomas. E também é assim que essas pessoas agradecem a ela, simplesmente por um dia ter lhes dito: “Vai, e não para. Porque eles querem que você pare”. Refletindo sobre isso, emocionada, ela sente que está conseguindo plantar algo que nunca teve quando precisou. Mas reconhece que é só o começo, e ainda há muito a ser feito.

São sentimentos como esse que marcam sua história como empreendedora social de projetos de protagonismo negro. Também atua como afroencer digital, e gestora de promoção da igualdade racial na Prefeitura Municipal de Vitória, Espírito Santo. Nesses vários espaços, dedica-se a valorizar a pretitude periférica desde quando educa seu filho para lidar com o racismo até quando faz questão de contratar médicos, advogados ou arquitetos pretos. Ela também se responsabiliza a reconhecer e lutar contra diversas formas de violência racial, seja ao apontar a falta de representatividade nos eventos que frequenta, ou em constranger situações de racismo que presencia.

Foi o que fez, por exemplo, quando soube que uma amiga sofria racismo no trabalho. Diante dessa atitude, ela enviou para os responsáveis dessa ofensa uma boneca negra, da marca de brinquedos afrocentrados Era uma vez o mundo, que representava e homenageava a própria Priscila, junto com uma carta. Ali, falou sobre a importância do respeito à estética e identidade negra da menina que foi vítima, avisando que ela não está sozinha.

É nessas revoluções diárias, de pouco a pouco e muitas vezes em silêncio, que Priscila constrói um mundo para incentivar que pretos e pretas periféricas possam voar para onde quiserem, sem limitações. E à medida em que alcança essas conquistas, sente também o impulso de multiplicá-las: “Eu queria que outras mulheres como eu se sentissem como eu me sentia: cheia de direitos”, conta ela, sobre o que move seus empreendimentos.

Foto: Bekoo das Pretas.

Conectar e reunir o público feminino em torno da questão racial e de gênero foi o ponto de partida para a trajetória do Instituto das Pretas, que há cinco anos ergue realidades até então inimagináveis. Do pequeno grupo de mulheres negras que se reunia em 2013, surgiram milhares de outras necessidades que só podiam ser preenchidas por elas mesmas. Uma delas foi o Encontro das Pretas, que a cada ano unifica em um evento as discussões e realizações afrocentradas da cidade. Da falta de autoestima com seus traços e cabelos crespos, surgiram também atividades de valorização da beleza afro. O que as fez organizar, na própria cidade, o movimento nacional Marcha do Orgulho Crespo. E daí vieram novas iniciativas, ao perceberem que ainda havia muito mais a ser debatido e conquistado:

“Empoderamento preto não é só se sentir bonito, mas também fortalecer a autonomia e independência. De que adianta eu dar poder sem ensinar para a pessoa o que ela vai fazer com isso?”, explica Priscila, sobre o que a levou a produzir diversos espaços para inspiração e orientação.

Nesse sentido, o Instituto movimenta várias outras ações, como o Quilombinho, uma colônia de férias para acolher crianças negras da periferia, com a construção de suas identidades afro-brasileiras. Oferecem aprendizados lúdicos com tradições como capoeira, dança afro e tambores. E assim também criaram o Bekoo das Pretas: um festival em que pretos, e principalmente mulheres pretas, protagonizam e representam em todos os sentidos. A negritude é maioria em toda a produção e organização. E a programação, sempre focada na cultura afrocentrada, faz explodir no palco rappers, dançarinxs, dj’s e atrações com a diversidade dessas expressões artísticas.

Lançado há cerca de dois anos, o Bekoo também conquista territórios nacionais. A festa já realizou uma edição em São Paulo com a rapper Karol Conka, e frequentemente traz para o Espírito Santo artistas de fora, como o dj KL Jay, que integra o grupo Racionais MC’s, e a rapper paulistana Drik Barbosa.

 

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Igualdade racial

Dois anos sem Luiza Bairros

Há dois anos, a ex-ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial do Brasil (SEPPIR) e ativista Luiza Bairros faleceu em decorrência de um câncer no pulmão. A gaúcha nasceu no dia 27 de março de 1953, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, mas foi no estado baiano que a administradora consolidou sua carreira política. Além da perda inestimável para os familiares e amigos, Luiza também deixou uma lacuna dentro do movimento negro e político.

“Há dois anos o Brasil perdia uma das suas mais importantes intelectuais; o movimento negro perdia uma das suas mais qualificadas e combativas militantes e eu perdia também uma amiga de mais de 30 anos.

Luiza Bairros nos deixou em 12 de julho de 2016 e a sua partida abriu uma lacuna imensa da qual ainda não conseguimos nos recuperar nem do ponto de vista político nem no âmbito pessoal. A sua ausência é sentida sempre que lembramos da sua análise de conjuntura precisa e rigorosa; da sua disciplina militante permanente e radical; de sua surpreendente capacidade de gestão que pensava os grandes problemas do país e apontava com rigor os entraves e desafios centrais para o enfrentamento ao racismo e para promoção da igualdade racial; da militante feminista negra que jamais recuou diante do machismo e do sexismo que persiste entre nós. No entanto, o que fica de mais importante é a saudade do humor inteligente de Luiza compartilhado afetuosamente pelos/as seus amigos/as e familiares; saudade da sua generosidade profunda manifesta repetidamente em favor de dezenas e dezenas de companheiros e companheiras de militância; saudade de uma companheira profundamente humana capaz de atos incríveis na defesa dos seus projetos de justiça e liberdade.

A marca de Luiza pode ser encontrada nas mais importantes formulações do movimento negro brasileiro contemporâneo e suas palavras – duras e precisas – estão para sempre inscritas na história e na caminhada de todos e todas nós.

Viva Luiza Bairros!
Viva às lindas e belas histórias do movimento negro brasileiro.” (Luiz Alberto)

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Cultura

A peça “Tragam-me a cabeça de Lima Barreto” estreia nesta quinta (12) em São Paulo

A partir desta quinta-feira (12), o público de São Paulo poderá conferir a peça a “Tragam-me a cabeça de Lima Barreto”, com direção de Fernanda Júlia, em cartaz no Sesc Pompeia em São Paulo até 5/8. A produção trata-se de uma livre inspiração na obra do escritor e jornalista brasileiro Lima Barreto.

“O intuito da peça é provocar na plateia uma reflexão sobre as causas do racismo e apresentar a história desse escritor tão atual que é Lima Barreto. Além disso, o público ainda pode desfrutar de um escape durante a apresentação, já que algumas cenas seguem um tom de comédia”, comenta o ator Hilton Cobra, protagonista da peça.

Por meio de um monólogo, a peça conta com um texto fictício, contextualizado após a morte de Lima Barreto, quando eugenistas exigem a exumação do seu cadáver para uma autópsia, a fim de esclarecer “como um cérebro inferior poderia ter produzido tantas obras literárias – romances, crônicas, contos, ensaios e outros alfarrábios – se o privilégio da arte nobre e da boa escrita é das raças superiores?”. A peça também mostra as várias facetas da personalidade e da genialidade de Lima Barreto, sua vida, família, a loucura, o alcoolismo, sua convivência com a pobreza, sua obra não reconhecida, racismo, suas lembranças e tristezas.

A peça tem sessões de quinta a sábado, às 21h30, e domingo, às 18h30, no Sesc Pompeia, que fica na Rua Clélia, 93. Os ingressos custam de R$6 a R$20 reais e podem ser adquiridos neste site.

 

Dramaturgia: Luiz Marfuz

Direção: Fernanda Júlia

Direção de Movimentos: Zebrinha

Direção Musical: Jarbas Bittencourt

Direção de Vídeo: David Aynnan