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Mídias Negras e Alternativas

A arte feita por negros na frente e atrás das câmeras

Para artistas pretos, representatividade não é só aparecer. É criar o roteiro e ser protagonista da cena.

Por Lais Rocio, de Vitória/ES
Publicado originalmente no portal da empresa social Atitude Inicial

 

“Uso minha voz para dizer o que se cala”, assim como canta Elza Soares, quebrar o silêncio é o que move os artistas que protagonizam este terceiro episódio da série de reportagens Afropotências. Para a rapper Afari, a artista plástica Castiel Vitorino, o cineasta Izah Cândido e o ator Vander Neri, a arte é um grito que vem da alma, elevando a voz de tantas vidas silenciadas.

“Faço o meu rap para dizer o que sinto
na minha comunidade,
com tantos jovens morrendo.
Canto para falar de toda a dificuldade,
e ainda assim extrair beleza e superação”
,
diz Afari Mc.

Assim eles trazem protagonismo negro para o universo da arte, onde os pretos ainda são pouco representados, como mostra Castiel: “Representatividade não é fazer um filme com uma pessoa negra. Se o Brasil tem 54% da população preta, tem que ter uma novela com essa mesma proporção. Temos que apostar muito mais na equidade”.

Para eles, a presença da negritude nos diversos espaços artísticos e culturais significa muito mais do que aparecer e ser visto. Deve também gerar poder, oportunidades e autonomia para que possam criar o próprio enredo. Para que protagonizem não só nas cenas, mas também nos seus bastidores, produções e direções. Por isso, as afropotências dessa reportagem ocupam telas, cenários, palcos e galerias com toda a diversidade afro. E com isso revelam para o mundo seus infinitos traços, nuances e tons.

 

Foto: Alexandre Barrenha | Programa Manos e Minas

 Afari, a rapper que lota os palcos com mulheres pretas

“A arte não me convidou, ela me arrastou pelo cabelo e disse: se enxerga”, com essa frase Afari descreve o momento em que o sonho de ser artista surgiu em sua vida. Veio para contrariar os destinos impostos a uma mulher preta e de periferia como ela, que relembra: “Saí do meu estado de conforto, de aceitar que eu ia ser pobre a vida toda”.

Em sua comunidade periférica, ela sempre viu a juventude negra sendo explorada e exterminada. Para mudar isso, a solução encontrada não foi sair da favela, nem fugir ou se esconder da sua realidade. Ao contrário disso, Afari passou a olhar ainda mais para o seu mundo, combatendo a opressão e violência com diálogo, conhecimento e troca de ideias. Foi assim que ela descobriu o universo do hip hop, e todo o movimento negro e feminista que vinha de dentro da periferia, como conta:

“O rap me deu a sensação do lugar de fala. Me senti escutada.
As batalhas de rima me fizeram falar
sobre tudo o que eu estava vivendo,
e como aquela situação podia melhorar.”

Desde então, ela traz para o rap não só a denúncia das dores e violências dessa realidade, mas também a valorização de suas riquezas e potencialidades. “Ainda assim temos beleza e alegria nos sorriso das crianças, no colorido da comunidade. É lindo entrar ali e ver pessoas de todas as cores, vivendo com pouco e ainda sorrindo”, reconhece, relembrando o tema de uma de suas músicas, Cenários. Com mais de 11 mil visualizações no Youtube, a faixa é uma das principais do grupo de rap feminino que ela faz parte, o Melanina Mc’s.

Afari descobriu que os palcos também eram feitos para mulheres como ela, ao ver um show do Melanina Mc’s, quando nem imaginava que se tornaria uma de suas vocalistas. Até então, suas únicas referências femininas no rap eram apenas quatro cantoras de sucesso nacional, entre elas Negra Li e Dina Di. Mesmo assim, aquilo ainda parecia distante de sua realidade, e ela desenvolvia suas rimas no funk, lidando com o machismo nesse universo. “Era muito homem em cima do palco. Eu ficava até tímida para mandar meu som, tinha que me sexualizar para atrair atenção do público. Eu queria contribuir muito mais com as minhas ideias”, afirma a rapper.

No Melanina Mc’s, ela se inspirou com a arte que sempre quis fazer. Após algum tempo como fã assídua do grupo, foi convidada para ser integrante. Pela primeira vez, subia em um palco lotado de mulheres, ao lado das parceiras Geeh, Lola e Mary Jane. E desde então, com empoderamento feminino negro, o quarteto enfrenta os desafios vividos por milhares como elas.

 “Quando uma mulher preta e periférica
se vê protagonista da sua realidade,
ela empodera várias outras mulheres.
Acreditar em nós mesmas é o que nos motiva”,
conta Afari.

Foto: Produção Melanina Mc’s

 

Em seis anos de estrada, elas escancaram as portas de entrada para o protagonismo das pretas da favela. Com destaque nacional, realizam shows dentro e fora do Espírito Santo. No últimos meses, lançaram o videoclipe “Casa da Madeira” pela produtora de rap’s do país inteiro Rapbox; e foram convidadas especiais do Programa Manos e Minas, da TV Cultura, que já recebeu artistas como Mano Brow e Criolo. Em seu primeiro disco, Sistema Feminino, elas reúnem histórias, dores e sonhos de mulheres negras. E com a mistura de ritmos e vozes de várias musicistas convidadas para o projeto, combatem mais um desafio do machismo no hip hop: o de poder ser o que quiser, sem ter que se masculinizar ou estar com homens para protagonizar a cena.

Acreditando transformar o mundo com suas ideias, uma caneta e um microfone, Afari também criou o coletivo Batalha da Ponte, junto com o rapper capixaba MD Silva. Desde 2014, o projeto ocupa uma praça todos os domingos com batalhas de mc’s, mobilizando jovens de pelo menos cinco comunidades periféricas. “Disseminamos a arte e cultura urbana na cidade, e também incentivamos os jovens a criarem batalhas de rap nos seus bairros. O projeto criou o protagonismo e atuação de novos mc’s e poetas, aumentando seus trampos individuais como artistas”,
reconhece a rapper.

Castiel, a artista que ocupa museus com mandingas da cultura negra

Foto: Castiel | Arquivo

A arte esbarrou no meio do caminho de Castiel Vitorino em busca de si mesma, como narra ela: “uso a arte como arma de guerra, contra a colonização dos meus pensamentos e desejos”. Criada na periferia, a performer, artista plástica e estudante de Psicologia teve a infância acolhida por valores poéticos e fundamentais do orgulho e cultura afro transmitidos por sua família. No entanto, seu jeito afeminado desafiava o ideal do homem negro masculino, forte e destemido que esperavam que fosse, a exemplo de seu pai, um capoeirista de destaque no morro.

Após passar pela infância e adolescência com medos e angústias por conta da sexualidade, Castiel entendeu que sempre foi bicha preta: um gênero e movimento de pessoas negras e femininas, com órgão sexual lido como masculino, discriminadas e violentadas por serem quem são. Como explica ela, as bichas pretas se diferenciam de gays, trans e travestis. E se reivindicam ao criar novos significados para o xingamento que escutaram a vida inteira:

“As bichas pretas são uma desobediência
contra tudo que a sociedade entende como homem negro.
Elas debocham e trazem alegria a partir de muito sofrimento.” 

A primeira de sua família a ingressar na universidade, Castiel foi aprovada em primeiro lugar no vestibular para Psicologia. Ao entrar na graduação, deparou-se com teorias acadêmicas de origem europeia e estadunidense, feitas por pessoas não negras e voltadas para elas mesmas. Boa parte das oportunidades que apareciam para exercer a profissão de psicóloga estavam bem distantes da periferia e da cultura afro.

Para contrariar isso, Castiel resolveu extrapolar os limites daquele espaço: “Apostei em levar a psicologia para os territórios da população negra”. No lugar dos centros terapêuticos elitizados e acessíveis somente para quem paga caro por eles, ela viu as terapias oferecidas por e para pessoas pretas, com educação, cultura e saúde pública na periferia. Indo mais além, descobriu a psicologia presente na cura das tradições afro. E assim, encontrou a arte:

“Uso a arte para produzir saúde para o povo preto.
Para desnaturalizar as mazelas do racismo
e intensificar o que fazemos de bom,
nossos saberes tradicionais como a capoeira, as bandas de congo, o candomblé, a umbanda, o hip hop e funk.”

Castiel durante uma de suas perfomances, “Benzimento”, sobre adoecimento e saúde para corpos negros | Foto: Rodrigo Jesus

Com o artesanato, a costura, as performances e intervenções artísticas, Castiel expressa as diversas lutas e criações que fazem parte da sua história, como explica: “Tento traduzir e atualizar ensinamentos ancestrais oferecidos por africanos, entidades afro-brasileiras, negros que vivem diásporas diferentes da minha”.

Em um de seus projetos atuais, ela irá levar para dentro de uma galeria de arte da cidade as plantas sagradas, usadas no banho de 7 ervas dos terreiros de religiões afro-brasileiras. Na obra, elas ficam armazenados em uma colete salva- vidas costurado por Castiel, com um significado: “Quando sofremos, parece que estamos afundando no mar. A cura das ervas naturais nos dá a sensação de subir à superfície e aprender a mergulhar”. Tudo isso será dedicado ao “Projeto Malungas”, exposição contemplada por um edital da Prefeitura de Vitória, que irá ocupar o Museu Capixaba do Negro (Mucane) no próximo mês.

O resgate da medicina natural também foi tema de sua performance “Plantas que curam”, criada por ela e a benzedeira Yasmin Ferreira. Em uma barraca de medicamentos e mandingas nas ruas de periferias da cidade, elas convidam pessoas para uma conversa sobre suas dores e cansaços, transmitindo ensinamentos e tratamentos com suas receitas de ervas cultuadas pelas tradições ancestrais africanas.

Assim Castiel resgata e recria a história da negritude nesses e em outros projetos que realiza, dentre imersões e residências artísticas, direções de arte, perfomances e diversas produções culturais, algumas apoiadas por editais de arte e cultura. Para cada ação, ela se inspira e se guia pelos versos da ativista Beatriz Nascimento: “É preciso mostrar no gesto que não somos mais cativos.”

 

Izah, o cineasta que conta histórias de vidas negras nas telas

Foto: Atitude Inicial

 

No cinema, Izah Cândido refaz o roteiro de sua própria vida como um observador curioso, que carrega muitas histórias dentro de si. Sua arte é nutrida pelas inspirações de tantas pretas e pretos, principalmente trans, bichas, travestis e sapatões que fortalecem a diversidade e cultura negra. Em meio a espaços que excluem e violentam essas vidas, ele reconstrói sua identidade como homem negro e trans.

 “Nem sempre estamos pisando em solo confortável.
É assim que a diáspora africana se fez e faz.
Em uma migração forçada, corpos negros foram
levados a todos os cantos do mundo.
E assim, resistentes, constroem suas identidades”,
narra Izah, em uma de suas produções audiovisuais.

Ao longo de sua história, a descoberta dos desafios do racismo veio junto com as lutas que o acolheram desde a infância, inicialmente com a participação ativa de sua mãe no movimento negro. Quando vivenciou sua transição de gênero, Izah esbarrou com novas formas de preconceito: “Como mulher negra, me olhavam como hipersexualizada, poderia ser vítima de estupro. Hoje, como homem, me olham como predador e suspeito”. Vindo do interior de Minas Gerais, ao ingressar no curso de cinema na Universidade Federal do Espírito Santo, ele dedicou-se a lutar e produzir da melhor forma possível em defesa da negritude.

Assim se identificou com o cinema negro, marcado pelo manifesto Dogma Feijoada (2001), do cineasta Jefferson De. Esse movimento levanta a urgência de diversas ações, tais como realizar filmes com diretores e protagonistas negros, retratando temáticas da cultura afro, entre outras demandas. Exemplo nítido que justifica essa luta por representatividade, as produções cinematográficas do país não tiveram nenhuma diretora ou roteirista preta, e 2% de homens pretos nas direções e roteiros, entre 2002 e 2012. As atrizes e atores afrodescendentes foram, respectivamente, 4 e 14% nos elencos principais. Todos esses dados foram levantados pela pesquisa “A Cara do Cinema Nacional”, do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA), do IESP-UERJ.

Trecho do webdoc Corpo Flor, com roteiro, direção e produção executiva de Izah Cândido e Wanderson Viana | Foto: Corpo Flor

Para fortalecer a potência afro nas telas, Izah criou o vlog e websérie Corpo Flor, em parceria com seu amigo e também cineasta Wanderson Viana. O projeto revela como pessoas negras se descobrem, reconstroem sua identidade e potencializam as riquezas afro-brasileiras, que haviam sido silenciadas e perdidas pelo racismo em diversos espaços. A cada episódio, são retratados temas como espiritualidade, estética, sexualidade, ente outros.
O Corpo Flor foi contemplado neste ano pelo edital Juventude Vlogueira, do Ministério da Cultura, que premiou iniciativas do país inteiro como apoio financeiro para se realizarem. O webdoc também contou com a parceria da Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro (APAN). Entre essa e outras produções, Izah traduz na prática o que acredita:

“Buscamos fazer com que as histórias sejam escritas e interpretadas por negros,
na frente e atrás das câmeras.
Para que a população preta tenha
mais autonomia no fazer artístico”,
relata Izah.

 

Vander, o ator que ergue o protagonismo negro no teatro

 

Foto: Atitude Inicial

 

Para o ator Vander Neri, ser bicha preta, artista e umbandista são potências que representam muito de sua essência e história. E tudo isso não deve limitar suas conquistas, talentos e potencialidades. Quando criança, de origem pobre, ele não costumava desejar o que queria ser na vida. Ao conhecer o teatro na adolescência, descobriu que podia ser o que quisesse:

“O teatro chegou na minha vida dando um tapa.
Era um lugar que cabia todo mundo.
Me mostrou que eu também podia fazer.
E veio essa vontade de ganhar o mundo”,
relembra Vander.

A consciência de sua negritude surgiu de um jeito inusitado, quando saiu na capa de um jornal. Ao verem aquilo, seus familiares e professores disseram “preserva isso”, referindo-se ao fato dele ser o único negro na foto, que estampava a matéria sobre a turma de adolescentes que faziam teatro. Ali, Vander percebeu que era diferente dos outros.

Desde então, vieram inúmeros desejos e talentos, ao mesmo tempo em que apareciam inúmeras dificuldades, enfrentadas com a própria arte. Com a necessidade de se sustentar e a falta de recursos para isso, enquanto distribuía currículos por todos os lugares possíveis, Vander se vestia de palhaço para vender balas no sinal. Trabalhou em supermercados e teve vários bicos, chegou a mudar de cidade algumas vezes em busca de novas oportunidades, e percorreu boa parte desses momentos sendo um artista de rua.

Quando foi contratado para atuar em espetáculos de empresas e companhias, a discriminação racial criou novos impasses. Em alguns lugares que trabalhou, percebia diversos casos em que atores não negros eram os primeiros escolhidos para atuar em papéis principais, personagens e peças teatrais mais valorizadas. Com isso, costumava ser a última opção, selecionado em último caso quando esses outros atores não estavam disponíveis.

Vander encenando uma de suas principais intervenções teatrais sobre conscientização social | Foto: Atitude Inicial

A mudança dessa realidade veio quando foi chamado para compor o time da empresa social Atitude Inicial, há cerca de três anos. O simples fato de ter sido convidado por sua atuação e potencialidades profissionais, bem antes de pensarem em sua cor de pele, fez toda a diferença para ele. Desde então, é protagonista nos espetáculos e oficinas teatrais da empresa, que usa o teatro como uma das tecnologias sociais para causar conscientização, reflexão e revoluções diárias na vida das pessoas. Ali, Vander também percebe o diferencial de um espaço artístico e profissional que acolhe suas ideias e propostas, inclusive por terem outras pessoas negras entre seus idealizadores, funcionários e diversos colaboradores.

“Não é só porque é meu rosto está ali,
é porque eles não acham que isso vai espantar as pessoas.
Isso deve ser valorizado não só porque sou bicha preta,
mas também porque os lugares
tem portas e caminhos para todos,
e porque temos capacidade”,
reconhece Vander.

As peças e performances encenadas por ele não necessariamente abordam questões raciais. Isso porque, para quem luta pelo protagonismo preto na arte, também importa envolver, incluir e valorizar pessoas pretas de forma orgânica e essencial nas produções. Para que isso vá além da obrigação, do oportunismo e do ‘braço social das empresas’, como acredita Jota Júnior, também negro, empresário e idealizador da Atitude Inicial: “Os talentos não têm cor. Eu não consigo pensar se uma pessoa é mais ou menos talentosa pela cor de pele. Precisamos olhar para suas habilidades e seus dons, reconhecer o que fazem e abrir espaço para o que quiserem ser.”

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Política racismo

A branquitude não tem limites, inclusive no campo das esquerdas

 

 

Por Douglas Belchior, do Post.

 

A teoria antirracista, em geral, tem se dedicado a pesquisar e elaborar sobre o seguimento oprimido, negras e negros, e pouco sobre o grupo opressor, brancas e brancos. Isso reforça a ideia de que a opressão é um problema só do oprimido, o que, sabemos, não é verdade. Mas há elaborações teóricas, estudos e pesquisas poderosas que se dedicam a estudar e compreender o opressor, não os indivíduos especificamente, mas o sistema que naturaliza o privilégio branco, que chamamos branquitude. Sugiro aqui este texto bem inicial de Hernani Francisco da Silva, publicado pelo Geledes, e este PodCast com o professor Marcio André de Oliveira, Doutor em Ciências Políticas e professor da UNILAB. O naturalizado privilégio branco, assim como o privilégio do gênero masculino, deveria ser tema de estudo obrigatório desde o ensino fundamental. Taí uma boa proposta para levar ao parlamento: branquitude e masculinidades como temas multidisciplinares no currículo obrigatório, desde o ensino fundamental.

 

Como funciona a cabeça das pessoas brancas? Em especial daquelas de famílias abastadas, classe média perfil puc-usp-zona oeste paulistana? Por que, por mais progressista, gente boa e bem intencionado que sejam, cometem atrocidades? Precisamos falar sobre isso.

 

Tenho amigos queridos neste seguimento. E escrevo aqui, fraternalmente, mas com seriedade.

 

Reafirmo aqui: A branquitude não tem limites. E me refiro agora a uma situação emblemática e especifica: o conflito que a candidatura parlamentar federal que represento tem tido com o Psol de SP, sobretudo desde a publicação de uma entrevista em que aponto contradições e o racismo institucional no partido.

 

Em recente entrevista ao site ImprenÇa, candidato a vice governador de SP pelo Psol, Maurício Costa de Carvalho, foi questionado em relação ao referido tema. Ele teve a chance de propor um diálogo honesto sobre o assunto, mas preferiu reafirmar a lógica da desqualificação. Sem nenhuma sensibilidade e disposição à autocritica, defendeu o indefensável e deixou transbordar o racismo imperceptível para olhares pouco treinados. Insiste na tese de que nossa ação se pautou pelo interesse individual, e quando faz isso, ignora a legitimidade e a construção de candidaturas que nas últimas duas eleições alcançaram, sem nenhum apoio do partido, duas suplências e um número de votos muito próximo das candidaturas eleitas, abonadas pela máquina partidária. Ignoram a representação legítima e historicamente construída de um seguimento do movimento negro de São Paulo e com repercussão no país e fora dele. Sim, um segmento, afinal, o movimento negro é diverso e não há pessoa ou grupo que possa sintetizá-lo. Mas ainda assim, um segmento respeitável e legítimo. Desconsideram-se as amplas manifestações de apoio de organizações e personalidades históricas do movimento. Não, Sr. Maurício, nossos apontamentos não são de caráter individual, em que pese o fato de o individual e o privado serem também políticos. Sugiro o ótimo artigo do professor da FGV, Thiago Amparo sobre esse papo de “individual versus coletivo” no que diz respeito ao racismo. Mauricio foi desrespeitoso e desonesto. Deixo abaixo, para que não tenha trabalho, alguns links de documentos públicos que reafirmam nossa caracterização enquanto representação legítima e coletiva.

 

Respeito é o mínimo que se espera de uma pessoa que visa ser vice-governador do estado com o maior número de negros, do país mais negro do mundo fora da África. Curioso é que as manifestações das lideranças brancas do Psol sobre esse assunto, nos servem para reafirmar cada um dos apontamentos e críticas que fizemos. Mauricio é apenas mais um. Em entrevista ao Nexo, o deputado Ivan Valente, questionado sobre o tema, disse que “preferia não opinar sobre a absurda acusação de que a legenda seja racista, já que o presidente do partido é negro”. Em entrevista ao 247, o presidente nacional do partido, Juliano Medeiros, disse que o presidente do partido em SP, que é negro, “recebeu bem menos e não tá reclamando”. Deixo a critério dos leitores a interpretação destas palavras. Fato é que a “neguinha atrevida” continua levando a culpa, bem como escreveu nossa pensadora Lélia Gonzales, que lembrei num artigo publicado dia desses. Leia, Mauricio. Fará bem.

 

Omitir os absurdos aos quais temos sido submetidos seria irresponsável e incoerente de nossa parte. Nossa campanha não é contra o Psol, pelo contrário. Ajuda o Psol a ser melhor, mais acolhedor com a elaboração do movimento social negro, mesmo sabendo que esta melhora não virá a partir do tratamento que dão à nossa candidatura. Mas no futuro será diferente. E teremos feito nossa parte. Seguimos construindo nossa campanha. Contra a vontade de muitos, lutaremos para eleger um mandato do movimento negro para o Congresso Nacional. Uma campanha linda, representativa e propositiva por um partido que reivindico, ajudei a construir e que nasceu para ser melhor do que é.

 

Como fui citado na referida entrevista, me vejo no direito de me posicionar aqui.

 

Em quatro longas respostas, o candidato a vice fez menção ao mérito da questão uma única vez, quando diz que: “Existe uma política afirmativa de novas lideranças, de novas referências políticas (…) Agora, se isso significa que o problema tá resolvido, não, não está.” Ou seja, no que mais importa, concordamos. Não está resolvido. E pelo jeito, não se resolverá tão cedo. E o racismo institucional continuará operando, como bem fica explícito em todo o resto de suas declarações, que comento abaixo.

 

O referido defendeu os critérios utilizados pelo partido para a distribuição dos recursos do fundo partidário para as candidaturas. O que significa dizer: critérios para escolher quais candidaturas terão chances de serem eleitas. Mas é preciso lembrar, em pleno 2018, a um líder de um partido de esquerda, que se enuncia “precursor de um novo ciclo”, que critérios, por mais públicos que sejam, mas que geram resultados de manutenção do privilégio branco, são critérios racistas. A pergunta que se deve fazer é: que resultados esses critérios têm gerado? Vamos olhar para eles e tomar uma iniciativa política objetiva e eficaz no sentido de reverter o resultado racializado/racista? Seria lindo um debate público sobre esse tema, não acham? Eles não tem essa coragem. Ah, e não é verdade que os critérios foram públicos, tanto que pedimos informações com base no regimento interno do partido, que nunca foram respondidas – o que caberia inclusive cobrança judicial, mas fiquem tranquilos, não faremos.

 

Mauricio se exibe ao dizer que o partido cumpre a reserva de 30% dos recursos do fundo partidário para candidaturas de mulheres, em função da lei. Pergunto: quem aqui acredita que dariam essa importância para a pauta, não fosse a lei obrigar?

 

Ele alega que minha postura incomodou grande parte da militância do partido, o que não é verdade, convenhamos. No geral, os “linha de direção” se submeteram a defender a nobre instituição partidária. A base, em grande parte, concorda com as críticas. A maioria não é linha de direção, e sim base. Inclusive muitos questionamentos internos às correntes foram feitas por militantes. Houve até militantes que se desligaram de suas correntes ou manifestaram suas inquietações também. Seguimos com o apoio de valorosos companheiros e companheiras de diversos grupos do partido.

 

Há, aqui, uma divergência fundamental em relação à concepção partidária. Os grupos internos que detém o comando, o poder, os cargos, os mandatos e as chaves dos cofres do partido entendem que construir o partido é estar alinhado a algumas destas forças internas. Ou isso ou nada. Se você não se submete a elas, se não for tapete dos interesses dos mandatários do partido, você não tem voz, não tem importância e pouco importa o trabalho que constrói fora dos muros do partido. Todos os que já vivenciaram ambientes de construção partidária, sindical e de movimentos mais tradicionais sabem do que estou falando. Sejamos justos, não se trata de exclusividade do Psol. Os partidos são propriedades quase privadas destes grupos. Por mais que se dilacerem internamente, há um acordo tácito entre eles, de se manterem cada qual com suas garrafas, disputando a máquina partidária, a grana e o poder. Nunca me submeti a isso. A tensão, exposta publicamente na matéria que dá origem a essa polemica, existe há muito tempo. Muitos sabem e acompanham esse desgaste há anos. Maurício sabe, mas evidentemente não pode admitir. E nisso repete a prática dos políticos caricatos que tanto criticamos.

 

Acredito no partido movimento, no partido sentimento, aquele com o qual as pessoas se identificam, independentemente de serem filiadas ou não, se vão à reunião ou não, se são membros de “correntes” ou não. Até porque, investimento de tempo e energia física, psicológica e financeira para a dinâmica interna, quase sempre antropofágica dos partidos, é também privilégios de uns poucos.

A armadilha, a enganação promovida por todos os partidos em relação à pauta da “representatividade negra” é assumida pelo Maurício, que o faz sem nenhum constrangimento. Ele diz que a proporção de candidaturas de negras e negros, “se não se engana”, é maior que a proporção de negros no estado de São Paulo. Acho que ele se engana, mas a questão não é esta. Assim como nos partidos de direita, candidaturas negras são fundamentais, pois trazem votos necessários para que se atinja o número total de votos necessário para a eleição dos mais bem votados do partido. No entanto, contam-se nos dedos as candidaturas negras que são alvo da priorização e investimento do partido para que estejam entre os mais votadas e, logo, sejam eleitas. Daí que o entrevistado não percebe (quero acreditar) a gravidade da afirmação. Quanto mais negros candidatos sem estrutura e sem recursos, maior o uso do trabalho, do sacrifício físico, mental e financeiro, de negras e negros, para a eleição dos escolhidos pelo partido. E o mantra se repete: bons para votar e juntar votos, mas não para ser votados e eleitos. A nós, cabe o ilustre papel de cabos eleitorais ou, no máximo, “cargos de confiança”. Resultado: elegem-se os brancos, com o apoio fundamental do voto dos negros. Gente, por favor, saiamos da conjectura, do subjetivo e vamos ao concreto: o nome disso é racismo.

Autocritica é instrumento fundamental para a construção do novo ciclo que tanto se enuncia. Autocrítica não apenas discursiva, mas com ações práticas. Só assim teremos uma esquerda ligada à classe trabalhadora, majoritariamente negra que é. Quando for mais barro e menos zona oeste, mais preta e menos colonial, mais rua e menos gabinete e mandato. Na real, deviam ter vergonha!

 

Matéria da Revista Fórum, sobre qual seria o papel da esquerda em relação ao debate racial nessas eleições

Não Maurício, nossa candidatura e nossas reivindicações não são individuais. Respeite!

Reivindicação individual? Você leu esse manifesto?

Saiba de onde vem nossa candidatura. Por que rejeitam? O que temem?

Entrevista com declarações do Ivan

Entrevista com declarações do presidente nacional, Juliano Medeiros

 

 

 

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Política

MPT e ANPT divulgam nota de repúdio após comentários preconceituosos do candidato Jair Bolsonaro

Neste domingo, 26, o Ministério Público do Trabalho (MPT) e a Associação Nacional de Procuradores do Trabalho (ANPT) divulgaram uma nota de repúdio às manifestações de desprezo institucional e preconceito contra os direitos sociais dos trabalhadores brasileiros por parte do candidato à presidência Jair Bolsonaro.

Confira abaixo a nota na íntegra.

“A imprensa repercutiu manifestações do candidato à presidência da República Jair Bolsonaro que, em campanha no interior de São Paulo, teria se referido à atuação do Ministério Público do Trabalho (MPT) como um entrave ao desenvolvimento econômico do país. Segundo afirmação atribuída ao candidato, “um país que tem um Ministério Público do Trabalho atrapalhando não tem como ir para frente”.

 

Com essas afirmações, o candidato demonstra descaso com uma das mais importantes conquistas do processo de redemocratização do país. A partir da Constituição de 1988 o Ministério Público do Trabalho foi incumbido da defesa dos direitos fundamentais sociais relacionados ao trabalho, desenvolvendo uma rica trajetória de atuação no combate ao trabalho escravo e ao trabalho infantil, na defesa do meio ambiente do trabalho e do concurso público nos entes estatais, no combate à discriminação e às fraudes no mercado de trabalho e na promoção da liberdade sindical, dentre outras tantas ações de relevante cunho social.

 

É inadmissível que a atuação social eficaz do MPT seja alvo de ataque por um político descrente do projeto constitucional democrático, que se encontra no exercício de mandato parlamentar há quase 30 anos na Câmara dos Deputados. Nesse mesmo período, o Ministério Público do Trabalho dedicou sua atuação à promoção de melhores condições de trabalho, com respeito igualitário à participação de mulheres, negros, homossexuais, pessoas com deficiência e outras minorias no mercado de trabalho; atuou pela erradicação do trabalho escravo e do trabalho infantil, com vistas à superação do triste histórico brasileiro de desigualdade social; defendeu o regime de emprego e a negociação coletiva como instrumentos de proteção social e zelou pela prevenção de acidentes e adoecimentos no ambiente de trabalho, devotando sua atuação aos mais elevados ideais humanitários e democráticos que inspiraram o Constituinte de 1988.

 

Exemplo de atuação vitoriosa do MPT poderia ter sido observada pelo candidato Jair Bolsonaro, em sua passagem pelo interior do estado de São Paulo, quando visitou o Hospital do Câncer de Barretos, entidade recentemente beneficiada pelo MPT com a destinação de R$ 70 milhões para construção e equipamento do Centro de Pesquisa Molecular em Prevenção de Câncer, que permitirá a pesquisa para o tratamento de vítimas da doença em decorrência da exposição a agentes cancerígenos no ambiente de trabalho.

O conhecimento e as reais intenções do sr. Jair Bolsonaro são postos em dúvida quando se refere a reclamações que lhe teriam sido transmitidas por um piscicultor da região de Catanduva e que não guardam qualquer relação com as atribuições do MPT.

 

Estivesse o candidato informado e bem intencionado sobre a atuação do MPT, quando de sua visita àquele estabelecimento de saúde, saberia que esses recursos são provenientes de ação ajuizada em face da Shell, em cuja fábrica de agrotóxicos (Paulínea-SP), posteriormente vendida para a Basf, a exposição a produtos cancerígenos vitimou mais de 60 ex-empregados. Nesta ação, firmou-se acordo judicial que garantiu atendimento médico vitalício a outros 1.058 trabalhadores vitimados.

 

A Constituição e a Lei Complementar 75/1993, que disciplina as atribuições do Ministério Público do Trabalho, lhe garantem instrumentos de atuação institucional que, não raro, atraem a ira de parcela do poder econômico sem compromisso com os direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça no ambiente de trabalho, como valores de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos. Lamentável é que reação dessa natureza provenha de candidato à chefia de Estado, a quem incumbe a defesa do Estado Democrático de Direito.

 

O Ministério Público do Trabalho e seus mais de 700 membros em todo o Brasil, ao tempo em que repudiam a manifestação de desprezo institucional e preconceito contra os direitos sociais dos trabalhadores, expressada pelo candidato Jair Bolsonaro, exortam os candidatos à presidência da República ao debate elevado sobre medidas de promoção do pleno emprego e do trabalho decente, com vistas à construção de uma sociedade livre, justa e solidária que, garantindo o desenvolvimento nacional, erradique a pobreza e a marginalização e reduza as desigualdades, para que seja promovido o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação, em sintonia com os ideias da Constituição de 1988”.

 

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Consciência Negra

Hélio Santos: A ascensão dos negros no Brasil X O genocídio de jovens 

Texto de Hélio Santos divulgado no site Brasil de Carne e Osso

“Quase 500 mil pessoas que se declaram pretas e pardas ascenderam às classes A e B em 2017”. Essa frase de efeito, publicada pelo jornal Folha de S.Paulo do dia 13/8, abriu matéria de capa em que se estranhava tal crescimento em pleno momento de retração econômica. De fato, à primeira vista, chama a atenção, pois naquele ano cerca de 800 mil pessoas foram rebaixadas de seus estratos em função de uma das piores crises econômicas sofridas pelo Brasil. Mais: o fenômeno foi o único positivo entre todas as classes de renda. Ou seja, esse empoderamento econômico de negros e negras corre na contramão do Brasil de carne e osso, como chamo o país real aqui em nossa página.

Por outro lado, noutra direção, 17 dias antes (28/7) o mesmo jornal trazia outra notícia de capa tão impactante quanto a da ascensão de negras e negros. A Polícia Civil de São Paulo descobriu um plano do PCC – o Primeiro Comando da Capital – para recrutar cerca de 1.000 novos integrantes por mês. A campanha do grupo criminoso atende pelo nome de “adote um irmão”. Considerando a realidade das periferias brasileiras, apinhadas de jovens “Nem – Nem” – aqueles que nem estudam e nem trabalham -, o plano do PCC de recrutar 12 mil novos integrantes por ano pode ser considerado modesto. Segundo o Banco Mundial são cerca de 11 milhões de jovens na faixa etária de 15 a 29 anos e que raramente rompem o gargalo do ensino médio. A meta do PCC – 12 mil recrutas por ano – é cerca de 0,1% do número de “Nem – Nem” estimado pelo Banco.  Desnecessário dizer quem é a maioria desses recrutas, candidatos a morrerem antes de completar 30 anos. São jovens oriundos do que denomino “família de risco” – pobre, negra, periférica e geralmente liderada por uma mulher.

Não se reconhece, mas a ascensão às classes A e B, em larga medida, se deve às políticas afirmativas (Cotas Raciais) tão criticadas num passado recente. Em 1997, o grupo que eu coordenei no Ministério da Justiça, fez o primeiro encontro governamental para discutirmos essas políticas. O encontro ocorreu na cidade de Vitória (ES) e contou com especialistas do IPEA, Itamaraty, Ministério da Justiça e Educação, dentre outros. Diversos cenários foram desenhados: eu sempre defendi que as ações afirmativas trariam essa ascensão e que ocorreria  ao mesmo tempo uma onda de racismo mais visível, menos envergonhado. Precisamente o que se dá hoje na cena brasileira, mais de 20 anos depois. Nesse texto breve não cabe avaliar as variáveis que me fizeram projetar esse cenário antagônico. Aqui, o que me parece mais importante destacar é a ausência de políticas públicas para um grupo vulnerável superior às populações do Paraguai e do Uruguai juntas.

Novas Políticas Afirmativas

Hoje, a manutenção mensal de um presidiário está em torno de 2.400 reais. Já a manutenção anual de um jovem estudante do ensino médio é de 2.200 reais. Explicando: o custo de um encarcerado por ano equivale ao valor investido em 13 estudantes do ensino médio onde a tragédia dos “Nem – Nem” ganha corpo. Não se investe na juventude, pois prefere-se encarcerá-la depois. O tráfico oferece “oportunidade” real de trabalho com consequências catastróficas para as famílias de risco.

As políticas para esse colapso das esperanças desses jovens devem focar na criação de uma nova escola que propicie competências contemporâneas, período integral e bolsa em dinheiro para a retenção da juventude empobrecida no ambiente escolar. Simultaneamente, são necessárias políticas de apoio integral às famílias de risco, o que não se confunde com o Programa Bolsa Família.

#NãoVoteNoInimigo

Acabei de ver agora (dia 17/8) o debate dos candidatos à presidência pela Rede TV. Ninguém tem uma proposta efetiva para a sangria que ceifa as vidas de 63 jovens negros por dia. Qual partido – qual candidato – tem uma pista segura para reverter esse quadro? No passado recente, muitos foram silenciosos em relação ao furioso ataque sofrido pelas cotas raciais na universidade pública – a mais eficaz política pública para reduzir desigualdades no país. Hoje, enquanto as cotas raciais aproveitam os talentos outrora relegados, na outra ponta os homicídios matam 23 mil por ano.

Quem projeta os programas dos presidenciáveis são economistas. Estes seres sinistros jamais tentaram calcular o custo de oportunidade que o país paga por ceifar talentos; o que deveria ser a sua obrigação. A reversão desse genocídio exige estadistas; não tecnocratas que não pensam o país real. Ao que tudo indica, estamos diante de um deserto cuja aridez teremos que enfrentar.

O voto negro precisa funcionar. Eu chamo de “desvoto” o ato de boicotar os candidatos a postos majoritários que não tenham uma pauta específica para a maioria da população. O momento é de organização desse voto – o mais barato do mercado eleitoral, como reconheceu Jânio Quadros há mais de 50 anos. Não faz sentido empoderar aqueles que uma vez eleitos operam com especial zelo contra os seus direitos.

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Política racismo

Briga na festa progressista: A culpa é da neguinha atrevida?

Por Douglas Belchior

“Cumé que a gente fica?”

 

“Foi então que uns brancos muito legais convidaram a gente pra uma festa deles, dizendo que era pra gente também. Negócio de livro sobre a gente. A gente foi muito bem recebido e tratado com toda consideração. Chamaram até pra sentar na mesa onde eles estavam sentados, fazendo discurso bonito, dizendo que a gente era oprimido, discriminado, explorado.

Eram todos gente fina, educada, viajada por esse mundo de Deus. Sabiam das coisas. E a gente foi se sentar lá na mesa. Só que tava cheia de gente que não deu pra gente sentar junto com eles. Mas a gente se arrumou muito bem, procurando umas cadeiras e sentando bem atrás deles.

Eles tavam tão ocupados, ensinando um monte de coisa pro crioléu da plateia, que nem repararam que se apertasse um pouco até que dava pra abrir um espaçozinho e todo mundo sentar junto na mesa. Mas a festa foi eles que fizeram, e a gente não podia bagunçar com essa de chega pra cá, chega pra lá. A gente tinha que ser educado. E era discurso e mais discurso, tudo com muito aplauso.

Foi aí que a neguinha que tava sentada com a gente, deu uma de atrevida. Tinham chamado ela pra responder uma pergunta. Ela se levantou, foi lá na mesa pra falar no microfone e começou a reclamar por causa de certas coisas que tavam acontecendo na festa. Tava armada a quizumba.

A negrada parecia que tava esperando por isso pra bagunçar tudo. E era um tal de falar alto, gritar, vaiar, que nem dava mais pra ouvir discurso nenhum. Tá na cara que os brancos ficaram brancos de raiva e com razão. Tinham chamado a gente pra festa de um livro que falava da gente, e a gente se comportava daquele jeito, catimbando a discurseira deles.

Onde já se viu? Se eles sabiam da gente mais do que a gente mesmo? Teve uma hora que não deu pra aguentar aquela zoada toda da negrada ignorante e mal-educada. Era demais. Foi aí que um branco enfezado partiu pra cima de um crioulo que tinha pegado no microfone pra falar contra os brancos. E a festa acabou em briga…

Agora, aqui pra nós, quem teve a culpa? Aquela neguinha atrevida, ora. Se não tivesse dado com a língua nos dentes… Agora tá queimada entre os brancos. Malham ela até hoje. Também quem mandou não saber se comportar? Não é à toa que eles vivem dizendo que ‘preto quando não caga na entrada caga na saída…”

(Lelia Gonzales)

 

A cultura colonial, escravocrata e cristã que inunda o imaginário e, de alguma maneira, nos educa a todas e todos no Brasil, cumpre fundamental papel na maneira como nos organizamos ou não, em todas as dimensões da vida. Inclusive no que diz respeito a política.

Sou candidato a deputado federal nestas eleições de 2018. A opção que fiz pela militância política no movimento negro e, fundamentalmente, por ser um homem negro e da classe trabalhadora, sempre impôs drásticos limites para minha atuação. A maneira como pessoas de origem como a minha são tratados quando se atrevem a enfrentar o status quo de herança colonial provoca reações sinceras: “Preto vagabundo!”. Esse é o termo que sintetiza o que muitos pensam e poucos tem coragem de dizer publicamente. Afinal, Política não é lugar de pessoas como você!

No último período resolvi tornar pública divergências e contradições internas de meu partido, o Psol de SP, no que diz respeito ao racismo institucional que reproduz. As respostas não podiam ser diferentes: Ataques covardes, calúnias, desqualificação, isolamento e nenhuma capacidade de diálogo e autocritica, em que pese a legitimidade de nossa candidatura e as centenas de manifestações de apoio à denúncia e crítica ao partido. O texto de Lélia Gonzales descrito acima, à mim apresentado pela amiga querida Luh Souza e pelo amigo Francisco Antero, autores de “Teste do Pescoço”, é mais que pedagógico no sentido de ilustrar a situação corriqueira a que militantes negras e negros são colocados nos ambientes da luta política, independentes do lugar ideológico. Nada de novo. Apenas a repetição da lógica colonial, praticada por quem diz negá-la. E pior, com o aval, o endosso de membros de nossa comunidade.

Os desafios para a construção de uma movimentação política que contagie e de fato represente o povo brasileiro passa pelo protagonismo deste povo. E o povo brasileiro é negro. Não por acaso é, o racismo, pano de fundo e fundamental elemento mediador das relações, das desigualdades e dos conflitos sociais brasileiros. Quando este povo enuncia politicamente sobre suas mazelas e propostas de solução, não fala para o povo ou sobre o povo ou mesmo junto com o povo. Está falando de si. Esta é a questão. É certo que a direção, a condução do chamado campo popular, seja do lado das forças hegemônicas dos últimos 40 anos, seja do chamado novo ciclo da esquerda brasileira, continua a ser objeto de desejo dos descendentes de colonizadores que não se constrangem em se colocar como representação e voz dos desgraçados. Pois sou grato à Oxalá por viver o tempo histórico desta transição. Se não esta manhã, amanhã à noite. Já não precisamos nem toleramos intermediários. Antes da próxima colheita, falaremos em nosso nome, por nosso povo.

Fica a pergunta de Lelia: a culpa é mesmo da neguinha atrevida?

 

 

Texto da imortal Lélia Gonzalez (1935–1994), intelectual, professora, antropóloga e militante brasileira. Publicado como epígrafe de “Racismo e sexismo na cultura brasileira”, este texto dela foi apresentado pela primeira vez na Reunião do Grupo de Trabalho “Temas e Problemas da População Negra no Brasil”, durante o IV Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais, realizado no Rio de Janeiro, entre os dias 29 a 31 de outubro de 1980.
Publicado aqui.
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Matriz Africana

Eugênio Lima realiza estudos gratuitos sobre futuros possíveis e diáspora africana

O projeto AFROTOPIA- Estudos sobre outros futuros possíveis é uma série de três encontros informais, sendo que os próximos irão acontecer nos dias 23 e 30 de agosto. Uma roda de conversa sobre a ideia de futuro, fora da perspectiva colonial. Um espaço para reflexão do tempo que virá seus desdobramentos sociais históricos e seus reflexos na construção da imagem da diáspora africana, no âmbito das linguagens artísticas.

Com organização do Pequeno Ato, o evento terá a mediação feita por Eugenio Lima, que é ator, DJ, pesquisador da cultura diaspórica, membro fundador do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos e da Frente 3 de Fevereiro. Para participar do estudo, os interessados precisam comparecer à sede do Pequeno Ato, que fica na Rua Teodoro Baima, 78, São Paulo, nos dias 23 e 30 de agosto, das 20h às 23h.

Confira, abaixo, a programação completa:

Encontro 2 – 23/08 
Afropolitanismo

Afrorisma III
“O afropolitanismo não é o mesmo que o pan-africanismo ou a Negritude. O afropolitanismo é uma estilística, uma estética e uma certa poética do mundo. É uma maneira de ser no mundo que recusa, por princípio, toda forma de identidade vitimizadora, o que não significa que ela não tenha consciência das injustiças e da violência que a lei do mundo infringiu a esse continente e a seus habitantes. É igualmente uma tomada de posição política e cultural em relação à nação, à raça e à questão da diferença em geral. Na medida em que nossos Estados são invenções (além do mais, recentes), eles não têm, estritamente falado, nada em sua essência que nos obrigaria a lhes render um culto – o que não significa que nós sejamos indiferentes ao seu destino.”Achile Mbembe, Afropolitanismo Tradução de Cleber Daniel Lambert da Silva.

Encontro 3 – 30/08
Afrotopia

Afrorisma IV
AFROTOPIA é uma ideia força cujo principal objetivo é servir e proteger os corpos Negrxs, criando um refúgio, um lugar seguro para explorar futuros. AFROTOPIA é uma TAZ, uma zona autônoma temporária, um local de engajamento ativo para a criação de futuros negros.

Afrorisma V
AFROTOPIA, é a transmissão de uma contribuição africana para um mundo no qual é necessário inventar os recursos para criar o futuro. No seu já clássico “Os Condenados da Terra”, Frantz Fanon, escreve que –“Se quisermos que a humanidade avance um passo adiante (…) então devemos inventar, devemos fazer descobertas.” Acreditamos que o desafio de pensar fora da estrutura hegemônica ajudará a mudar a consciência necessária para manifestar futuros descolonizados.

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Direitos da Criança e do Adolescente

Jovens de regiões periféricas podem participar de programa gratuito de mentorias

A ponteAponte, empresa que estrutura chamadas públicas e dá suporte às iniciativas de impacto social, acaba de lançar o Potencializa – programa de mentorias para jovens. As inscrições estão abertas até o dia  24 de agosto e são gratuitas.

Desenvolvida voluntariamente pela ponteAponte com apoio de diversos parceiros, a iniciativa vai oferecer 24h de mentorias individuais e coletivas ao longo de três meses para jovens de contextos periféricos da Grande São Paulo que queiram atuar no campo socioambiental, seja trabalhando em uma organização social, seja empreendendo no setor. Para esta edição serão selecionados até seis jovens que tenham entre 18 e 28 anos e renda familiar de até três salários mínimos. O programa se baseia em três pilares: autoconhecimento, conhecimento sobre o campo socioambiental e possibilidades de atuação no campo. Serão três encontros presencias de 6h cada um e 6h de mentorias personalizadas para cada jovem selecionado, de setembro a novembro. Será oferecido vale-transporte e lanche para os dias dos encontros coletivos.

O processo seletivo tem duas fases, ambas eliminatórias, sendo um formulário online e uma entrevista a distância. Os critérios de seleção são o interesse e o engajamento demonstrados pelo(a) candidato(a) em participar de todo o processo, a contribuição do programa a ele/ela e como o(a) jovem pretende aplicar (e replicar) o que aprender.
O regulamento e o link para inscrição podem ser acessados neste link. Para mais informações, envie um e-mail para [email protected]

Serviço

Potencializa – programa ponteAponte de mentorias para jovens
Valor: gratuito
Inscrições abertas de 13 a 24 de agosto pelo link: https://bit.ly/2vsIlaN
Mais informações: [email protected]

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Cultura

Salloma Salomão e Cesar Lacerda lançam seus novos trabalhos neste fim de semana no Itaú Cultural

Salloma Salomão em apresentação

Cesar Lacerda e Salloma Salomão lançam seus novos trabalhos no Itaú Cultural. Lacerda apresenta seu terceiro disco Tudo Tudo Tudo, no dia 17 (sexta-feira), às 20h. Já Sallomão lança o espetáculo musical Agosto na Cidade Murada nos dias 18 (sábado), às 20h, e 19 (domingo), às 19h.

 

A direção artística de Tudo Tudo Tudo é do jornalista Marcus Preto, que vem trabalhando com músicos como Gal Costa, Tom Zé, Nando Reis e Mallu Magalhães. Nele, Cesar Lacerda se aventura por uma linguagem mais pop. O trabalho contém uma regravação da canção Me Adora, da cantora baiana Pitty, e a participação especial de Maria Gadú, na música Quando Alguém.

Cesar Lacerda

No show de lançamento, o músico se apresenta apenas com o violão tocando canções de seus discos e interpretando artistas consagrados como Ângela Ro Ro, Caetano Veloso, Rita Lee, Lady Gaga e Só Pra Contrariar. Segundo ele, a intenção é fundir a exuberância perfeita de João Gilberto, por exemplo, com a sedução de personagens mais pop como Ed Sheeran. “A busca por uma interpretação que evidencie a potência das canções é o norte deste novo show ”, diz.

 

No sábado e no domingo é hora de conhecer o novo trabalho de Saloma Sallomão, no palco do Itaú Cultural, inicialmente formulado como roteiro de HQ e inspirado por nomes como os de Itamar Assumpção e Arthur Bispo do Rosário. Em Agosto na Cidade Murada, teatro e música se interpõem, dando corpo a uma tragicomédia em forma de teatro-show, com um elenco totalmente composto de jovens artistas afroperiféricos.

 

A narrativa expressa o esboço dramatúrgico de um mundo saturado de violência e conformismo, em uma fábula urbana sobre processos de dominação em contraponto às lutas emancipatórias. A trama se desenrola em uma sociedade pós-racial, dividida por um longo muro visível, há um velho mameluco e uma alma-índia e vaga, como alusão remota à liberdade, e lampejos de utopias de Darcy Ribeiro e Taiguara. Um déspota midiático-narcisista antagoniza, com dois jovens periféricos e sua mãe, uma decadente ex-professora de sociologia, transformada em passeadora profissional de cachorros. Dois líderes secundaristas Akinjide e Afolabi encontram a fragilidade do muro que separa cândidos do “resto” das pessoas, moradores da área externa e estranha à cidade.

 

A partir deste panorama, textos orais e gestuais são intercalados por canções inéditas. A direção do espetáculo é de Jé Oliveira e Mariana Souto Mayor. No elenco, entre outros, estão Martinha Soares, o grupo Clariô, de teatro, e seu projeto musical Clarianas, Talita Araujo, do coletivo teatral Zona Autônoma, e Ana Raquel Rodrigues, atriz, poetiza e slamer.

 

Saloma Sallomão observa que, neste trabalho, busca uma estética negra de multilinguagem, contudo, esta não é sua primeira experiência neste campo. Há três anos apresentou 3 Mil Tons. O espetáculo reuniu membros dos principais coletivos de artes negras de São Paulo: Cia Capulanas, Clarianas, Clariô, Cia Deodara, Banda Al Andalus, Coletivo Negro, NucleozonaautônomAa e Ouro e Chá para celebrar vida e obra de três Miltons – Santos, Gonçalves e Nascimento. Dessa vez, em Agosto na Cidade Murada, o artista retoma nos palcos, esta junção de linguagens evocando uma perspectiva sobre a urbanidade, combinadas a questões afrodiaspóricas, tema central em seus trabalhos.

 

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Cultura O quê que tá pegando?

Da Zona Leste de SP a Moçambique: conheça o poeta Cleyton Mendes

Durante a juventude no extremo leste de São Paulo, Cleyton Mendes escutava partido alto, Cartola, Racionais, entre outros cantores e ritmos originários da periferia. Na época, aquelas melodias eram tão próximas à sua realidade que era impossível identificá-las como poesia. A descoberta só veio alguns anos depois, quando o jovem começou a frequentar o Sarau do Suburbano Convicto, no Bixiga, em São Paulo.

Com isso, a mente de Cleyton que já armazenava um acervo literário e de cultura periférica teve um incentivo maior para traduzir todo aquele conteúdo em palavras. As primeiras anotações, até então despretensiosas, ganharam uma roupagem mais estruturada com métricas e rimas.

Relatos de uma insônia, Contra indicação e Etcetera são os três livros já publicados pelo autor. Dar forma a essas obras não foi uma tarefa fácil, Cleyton precisou juntar seu salário de carteiro e reunir amigos para concretizar o sonho de levar suas poesias para um número maior de leitores.

O trabalho de Cleyton segue em expansão. Em setembro, o artista passará uma temporada em Moçambique, na África, em que realizará uma série de atividades culturais com artistas locais.

 

Confira, abaixo, a entrevista com o poeta, slammer e ativista cultural Cleyton Mendes:

 

Como que surgiu a sua relação com a poesia?

Ela sempre existiu porque eu cresci escutando partido alto, Cartola e Racionais, só que eu não sabia que isso era poesia. Depois que comecei a frequentar os saraus, que fui percebi e ter noção do que era poesia e que eu já fazia isso.

 

Os saraus entraram na sua rotina em qual ocasião?

Para mim, poesia era algo distante, daqueles escritores que a gente só ouvia na escola. Mas isso mudou quando um amigo do trabalho me convidou para ir ao Sarau dos Suburbanos. Lá, percebi que todo mundo falava as mesmas coisas que eu e dialogava com a minha realidade, além disso, descobri que também fazia poesia. Eu não sabia que as minhas confissões poderiam ser consideradas poesias.

 

Quais eram os assuntos e como você organizava essas primeiras anotações?

Era como se fosse um diário. Cada pessoa tem uma forma de se libertar, algumas vão para a igreja e outras para o boteco. E eu escrevia sobre o que sentia, só que com a influência do rap e do samba inconscientemente eu fazia rimas, mas deixava guardado.

 

Como foi a experiência de levar seu trabalho para os jovens da Fundação Casa?

Eu sempre fugi da escola e de repente minhas poesias começaram a ser trabalhada dentro de salas de aula, por isso eu tive contato com alguns professores e coletivos. A partir desse momento, recebi um convite do “Portas Abertas” para levar meu trabalho à Fundação Casa. Ao mesmo tempo em que é motivador fazer um trabalho como esse, é muito assustador também. Existe uma semelhança bem nítida entre a escola pública e a Fundação Casa que vai desde as trancas e grades até o tratamento negligente com quem está lá.

“A diferença entre eu e um menor é muito pouca”, diz Cleyton em relação aos jovens da Fundação Casa.

 

Como foi o processo de publicação dos seus livros?

Para concluir o meu primeiro livro “Relatos de uma insônia”, fui guardando meu salário como carteiro e consegui publicar por uma editora, só que ela não tinha contato com a literatura marginal. Já os livretos “Contra Indicação” e “Etcetera” foram feitos de um jeito independente, com a ajuda de amigos e parceiros. Inclusive, a proposta de ser um livreto com poemas curtos é uma maneira de atrair pessoas que não estão acostumadas a ler.

Dia 11 de setembro, você chega a Moçambique. Como surgiu essa oportunidade?

O autor Féling Capela veio para o Brasil e ficou apaixonado pelo trabalho dos escritores de poesia marginal aqui do Brasil. Ele nos convidou para ir a Moçambique, mas algumas pessoas não conseguiram dar continuidade ao projeto por conta da falta de apoio e questões financeiras. Nesse período, eu vendi meus livros em feiras literárias, como a FLIP, além de transporte público. Entre as atividades confirmadas que vou realizar em Moçambique estão dois encontro nos dias 13/9, no Centro Cultural Moçambicano-Alemão (CCMA), e 14/9, na Embaixada da Alemanha.

 

 

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Cultura

A escritora Rutendo Tavengerwei, do  Zimbábue, estará em São Paulo e Salvador nesta semana

A jovem escritora estará neste mês em mesa de conversa na 2ª Festa Literária Internacional do Pelourinho (FLIPELÔ), em Salvador, e realizará bate-papo com blogueiras no Sesc Avenida Paulista

A jovem escritora e revelação literária do Zimbábue, Rutento Tavengerwei, estará no Brasil neste mês para participar da 2ª Festa Literária Internacional do Pelourinho (FLIPELÔ), que acontecerá de 8 a 12, em Salvador. O encontro, ao lado da historiadora Luiza Reis, será na quinta-feira (9), às 18h00, no Teatro do Sesc-Senac. Durante o evento, a autora, que lançou recentemente no Brasil pela Kapulana o romance young adult Esperança para voar, conversará sobre a sua obra de estreia, assim como o seu processo criativo, a construção da narrativa, das personagens, a repressão onde cresceu, no Zimbábue de 2008, ano em que o país sofreu uma forte crise financeira e política.

Nesta terça-feira, a escritora realiza, às 19h00, no Sesc Avenida Paulista, em São Paulo, uma mesa de conversa sobre literaturas africanas, influências culturais e do enredo de seu romance, ao lado das blogueiras Lu Bento (A Mãe Preta e do canal Quilombo Literário), e Bianca Gonçalves (do blog “Bianca não é branca” e do projeto “Leia Mulheres Negras”).

Leia também: Porque este blogueiro,  Douglas Belchior, homem preto, professor e ativista do movimento negro é candidato a deputado federal

Em Esperança para voar, Rutendo narra a história de amizade de duas adolescentes. Depois de anos morando no Reino Unido, Shamiso precisa voltar para o Zimbábue após a morte do pai, jornalista de oposição ao regime ditatorial da época. A obra apresenta um lugar destroçado pela corrupção e pelo autoritarismo, mas amado por seu povo resiliente. Abre-se um enredo sobre como jovens do século XXI enfrentam perdas, rupturas, dores, miséria e autoritarismo. Delicado e emocionante, ao mesmo tempo em que nos apresenta um cenário africano com muita musicalidade, a obra é contada de forma a mostrar que aqueles fatos poderiam ter ocorrido em qualquer país, em qualquer tempo.

 “Quando refleti sobre 2008, percebi que a maioria das minhas lembranças e a maneira como eu via o mundo era da perspectiva de uma adolescente, então fez sentido para mim que as protagonistas fossem adolescentes”, explicou Rutendo. “Ainda mais porque lições sobre esperança e perseverança são importantes, e eu queria compartilhá-las especialmente com o público jovem”, concluiu.

Sobre a autora

Rutendo Tavergerwei  nasceu, cresceu e estudou no Zimbábue, onde morou até os 18 anos. Continuou, então, seus estudos na África do Sul, na área de Direito na Universidade de Witwatersrand, onde recebeu o diploma de especialização em Direito Comercial Internacional. Na Suíça, completou um Mestrado no World Trade Institute, Universidade de Berna. Atualmente, trabalha na Organização Mundial do Comércio, em Genebra. Esperança para voar (Hope is our only wing) é seu primeiro livro de ficção publicado no Brasil, pela Kapulana.

Serviço – Rutendo Tavengerwei no Brasil

Sesc Avenida Paulista (Biblioteca – 15º andar)

Data: 7 de agosto, terça-feira

Horário: 19h00

Endereço: Av. Paulista, 119 – Bela Vista, São Paulo – SP

Mais informações:  https://www.sescsp.org.br/programacao/161881_VOZES+DA+AFRICA+RUTENDO+TAVENGERWEI

2ª Festa Literária Internacional do Pelourinho (FLIPELÔ)

Data: 9 de agosto, quarta-feira

Horário: 18h00

Local: Teatro Sesc-Senac Pelourinho

Endereço: Largo do Pelourinho, 19 – Pelourinho, Salvador – BA

Mais informaçõeswww.flipelo.com.br