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Política

Parece óbvio, mas não é…

Por Gaby Conde

O que tenho aprendido nessa jornada como candidata à “política oficial”? Estive pensando sobre isso esses dias…

Da condição de “gente comum” – dessas que vive nos corres da vida, se virando para pagar boleto, para não faltar a reunião na escola das filhas, para colocar o pão nosso de cada dia na mesa, para não desistir do ativismo e da militância e para seguir acreditando em dias melhores – me vi, de repente, com uma agenda lotada de compromissos, de reuniões para discussões de pautas e propostas, de viagens a lugares que já conhecia e a outros novos.

Tenho ouvido muitas histórias, conhecido e conversado com pessoas de identidades e trajetórias diversas. Tenho recebido apoio de quem eu nem esperava e, preciso confessar que os ataques – tão comuns nesses dias de ódio – tem sido bem menos numerosos do que eu pensava que viriam.

Tenho aprendido que o racismo, que combato há tantos anos, está tão profundamente enraizado no DNA dessa nação que, até onde se fala e defende Direitos Humanos e igualdade ele está lá presente. Ora de maneira sutil, quase imperceptível para quem o pratica, ora de modo mais escancarado mesmo. Frontal. Institucional.

De igual forma, o patriarcado e seu machismo. Ainda que sejam homens “desconstruídos”, de esquerda, progressistas, bobeou, pimba! Tá lá algum traço que explicita um pensar de alguma superioridade advinda, exclusivamente, do gênero.

Todo dia tenho aprendido que nem todas as pessoas que batem nas minhas costas são aliadas ou que, de verdade, torcem para o meu bem-estar, independente de eleição. Mas, tenho sido muito grata também por poder perceber e distinguir isso.

Nos inevitáveis planos de ano novo, em 1° de janeiro de 2018, sequer passava pela minha cabeça viver as coisas que já vivi e tenho vivido neste ano. Tem sido novo. E um novo que, até quando ruim, tem trazido lições.

Quando me perguntam por que eu me meti nessa de querer ser deputada federal, a resposta que aprendi, de dentro pra fora, é a de que não “me meti”. Eu já estava metida. Sempre estive. Só não me dava conta disso. E, nessas caminhadas de campanha, tenho encontrado um monte de gente que está como eu, antes.

Gente que já luta, que já resiste para poder existir e garantir a existência de sua comunidade e que acha que precisa de alguém “de fora” para falar por e defender as suas pautas e demandas, sabe? Gente guerreira que acha que aquele lugar não é para ela e que, muitas vezes por pensar assim, acabou elegendo o seu próprio opressor.

Essas andanças tiraram essa cortina dos meus olhos e eu aprendi que representatividade não é só uma palavra que virou modinha. E que esse fazer político, de quatro em quatro anos, comer pastel nos mercados, colocar criancinha no colo acontece também porque gente como eu, que legitimamente tá no enfrentamento das tantas desigualdades deste país, se (r)encolhe à coadjuvância de se ver, apenas e tão-somente, como aquela pessoa que vota, mas que não nasceu para ser votada.

Aprendi também que, além de votos, campanha política é feita de abraços. Dos sinceros abraços que eu falo. Pois são eles que sustentam o corpo cansado da maratona e a alma abatida pelas violências e violações de direitos denunciadas.

Sem os afetos que recebo todo dia, toda hora, não tenho dúvidas que já teria adoecido. Caído. Desistido. Mas, nas horas dos fraquejos da dona coragem, vem alguém e agradece por uma fala, por uma proposta da plataforma, por ter coragem!! Aí, ela (a coragem), envaidecida, volta com carga total!

Tenho aprendido que, sim, é “caminhando que se faz o caminho”, porém que esse caminho só tem sentido se caminhado com pessoas que partilham ideais. Tô aprendendo com quem já está na estrada da política institucional a mais tempo do que eu e que tem – mais do que aberto portas para mim – aberto meus olhos, minha criticidade, minha capacidade de ver para além do que está exposto. E sou profundamente grata por isso também.

Ser agente político institucional nesse Brasil (sobretudo no Nordeste) tem sido, desde os tempos remotos, coisa que se passa de pai pra filho, a capitania hereditária virou curral eleitoral e, não raro, tem três, quatro gerações de um mesmo sobrenome, com os mesmos vícios e crimes.

E a campanha eleitoral reflete as desigualdades vista no dia a dia. Fazer campanha tendo ideias e ideais como moeda é muito mais difícil, mas infinitamente mais rico e valioso. É processo de convencimento, de diálogo, de mudança de cultura daquela pessoa que vem acostumada a lidar com candidatos que saem com notas e mais notas de dinheiro para, literalmente, comprar aquele voto.

É uma militância feita por gente que me conhece há anos, de outras lutas, de outras resistências, de gente que conheceu agora mais foi conquistada pela ideia e que agora arregaça as mangas junto, vai pras ruas, declara apoio e parte atrás de mais voto.

Agora, nessa reta final, sinto validada minha luta até aqui. Meus vinte e cinco anos de militância antirracista e feminista através da capoeira, da dança e da arte-educação como um todo valeram e valerão sempre a pena. Tanto como história, como bagagem, quanto como legado.

Aprendi que há uma irmandade que rompe fronteiras e tempo e que tem uma turma potente espalhada Brasil afora determinada a mudar as estruturas apodrecidas e viciadas desse país e que essas eleições – ainda, ou por causa disso, que os tempos estejam tão nebulosos – sejam talvez a mais bela, rica e diversa da história da nossa frágil democracia.

Tem feministas, pessoas negras, deficientes físicos, candidatxs trans, muita gente da periferia (de verdade!), gente que, como eu, resolveu se colocar à disposição para construir, coletivamente, com seus iguais uma política que atenda às demandas e às necessidades sociais e populares.

E, aprendi, finalmente, que política se faz antes de se ser, inclusive, que fizeram antes de mim, que meus ancestrais já lutavam a luta que luto hoje em seus quilombos e que essa luta não se encerra nessas eleições, nem em mim.

Parece óbvio. Mas, creia, não é!

É isso, então! Tenho aprendido muito e sairei desse processo bem maior do que entrei. Vou-me embora porque tenho uma agenda pra cumprir!!

 

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Debate Direitos Humanos O quê que tá pegando?

Seminário abordará a relação do Racismo Institucional e o Serviço Social no Brasil

Nesta sexta-feira, 28/9, o Nucress Leste, em parceria com Conselho Regional Estadual de Serviço Social de São Paulo (CRESS), realizará o Seminário Racismo Institucional e os desafios para o Serviço Social. O intuito do evento é debater a temática das questões racial, lavando em conta a vivência do assistente social.

O evento acontece das 9h às 17h, na FATEC Itaquera (Av. Eng. Ardevan Machado, s/n – em frente ao Metrô Corinthians-Itaquera – Vila Carmosina). A entrada é gratuita e o credenciamento é feito no próprio local. Os participantes receberão um certificado atestando a participação no seminário

Kelly Melatti, presidente do CRESS, comenta a importância do tema para a área. “Dialogar sobre o racismo institucional é uma tarefa muito cara ao Serviço Social – uma bandeira de luta – pois, atuando em diversos espaços socio-ocupacionais, o(a) assistente social possui o dever ético político de combater o racismo, seja dialogando com a população usuária, refletindo sobre sua atuação com outros colegas. Além do planejamento, formulação ou execução de políticas, programas e projetos sociais”, comenta Kelly.

Para abordar o assunto, a organização do evento convidou profissionais que são referencias na área. Daniela Cristina Augusto Campos , assistente social; Júlio César de Andrade, diretor estadual do CRESS – SP; Priscila Lira, assistente social; Patrícia Maria da Silva, assistente social e Marcio Farias, psicólogo, vão compor as duas mesas de debate.

Confira abaixo a programação completa do seminário.

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Cultura

Plataforma digital reúne produção de dramaturgos negros brasileiros

Foto: divulgação

Melanina Digital cataloga obras, entrevistas, biografias e informações sobre os dramaturgos negros contemporâneos no Brasil

Autores de teatro, roteiristas, performers, que constroem suas narrativas e representações sobre o negro e a sociedade brasileira, com diferentes apelos estéticos, mas em comum o fato de serem negros. É o que demonstra a Plataforma Melanina Digital  (http://www.melaninadigital.com), um catálogo de dramaturgos negros disponível on line, reunindo a pesquisa realizada ao longo das cinco edições do Festival Dramaturgias da Melanina Acentuada, idealizado e coordenado pelo Doutorando em Artes Cênicas, dramaturgo e ator Aldri Anunciação.

Até não muito tempo atrás se dizia que não tínhamos muito autores negros, seja no teatro, seja no audiovisual. Com a inquietação de mostrar que esta não é uma realidade é que Aldri Anunciação promoveu as edições do Festival Dramaturgias da Melanina Acentuada, promovendo além de apresentações de espetáculos cujos textos eram assinados por autores negros, além de realizar encontros, entrevistas públicas e compartilhamento de processo. Mais de 60 dramaturgos passaram pelo festival e todo material compilado gera a base de dados da plataforma digital, onde será possível ter acesso aos autores negros de teatro, performance e audiovisual, bem como cadastrar novos nomes e obras.

De acordo com Aldri Anunciação, curador do Melanina Acentuada, ao longo desses cinco anos de existência no formato de itinerante (com três edições em Salvador, uma em São Paulo e outra no Rio de Janeiro), o evento se consolidou como um espaço de compartilhamento e visibilidade da produção negra no campo da dramaturgia, sendo referência para pesquisadores de todo país. “Nossa intenção foi mapear e catalogar autores negros, que estejam inseridos no mercado e quanto aqueles que produziram obras inéditas. Conhecer sua poética, os temas e elaborações que estes estão realizando” acrescenta o coordenador do projeto, que teve a ideia de criar uma mostra centrada nas questões sobre autoria negra a partir da constante escuta, em espaços diversos, que não havia dramaturgos negros no Brasil.

Para Aldri, o Melanina Digital torna o festival permanente, para além dos períodos de sua realização presencial e acessível a um amplo espectro de público de todo país. Neste ambiente virtual, os próprios dramaturgos poderão cadastrar suas obras e se fazer conhecer e reconhecer.  Como o evento se tornou referência para criadores e pesquisadores negros, havendo sempre interesse em ter acesso aos dramaturgos, obras, entrevistas, surgiu a urgência de tornar todo esse manancial acumulado numa plataforma acessível a todos. “O Melanina Digital cataloga as discussões e produções que perpassaram no festival ao longo dos anos. Em nossa plataforma digital o festival seguirá permanente, disponibilizando as produções, minibiografias dos dramaturgos e seus pensamentos, as mesas de discussão”.

No site, o usuário encontrará todo conteúdo reunido ao longo das edições anteriores e atuais do Melanina Acentuada, a exemplo de entrevistas públicas, palestras, rodas de discussão, minibiografia dos dramaturgos, textos dramáticos disponibilizados, vídeos, artigos entre outros. A plataforma se configura numa inovação tanto por apresentar um raro espaço de mapeamento e catalogação tanto no campo das artes cênicas quanto das literaturas, bem como oferece um material privilegiado e que será permanentemente atualizado pelos próprios usuários que poderão enviar seus textos, contribuições e conteúdos.

Aldri Anunciação sinaliza que ao longo dos anos de realização do festival, sempre houve uma demanda de pesquisadores e ativistas que gostariam de ter acesso às obras e informações dos dramaturgos negros. A plataforma digital tornará acessível essas informações ao alcance de todos, além de permitir uma atualização e articulação constante entre autores, público e s pesquisadores. “Fica mais evidente o caráter do Melanina Acentuada como um espaço de pesquisa artística permanente, que inclusive vai alterando o entendimento sobre texto, autoria, dramaturgia a partir dos diálogos com os criadores” revela o idealizador do site.

Para o ator e autor Preto Amparo (MG) que participa da 5ª edição do Festival Dramaturgias da Melanina Acentuada com o espetáculo Violento, discutir sobre a dramaturgia negra é discutir também sobre estratégias de enfrentamento a modelos únicos de conhecimento, que excluem a experiencia do negro. O espaço da plataforma seria sobretudo um local de articulação e compartilhamento de estratégias criativas e de luta. “É importante pensar sobre a dramaturgia negra e a escrita preta. Entender como é que ela se dá e como os dramaturgos negros estão inseridos numa sociedade onde o modelo vigente é branco, eurocêntrico. Nós, dramaturgos negros, vivemos num contexto em que a negritude precisa pautar os espaços de conhecimento e do poder. Então interessa pensar em articulação entre artistas e criar modos de falar sobre esses novos processos e desses novos lugares, criar articulação entre os artistas da cena preta. Pensar e repensar as estruturas, de modo decolonial e compreender como essas novas práticas e novos processos podem contribuir na luta contra o processo colonial que ainda existe” explica o artista.

E a dramaturgia negra já não precisa seguir aquele antigo modelo, de escrita solitária, isolada. Mas ter modos dinâmicos de produção, como na experiencia de Tarina Quelho, diretora e dramaturga, que participa do Festival Dramaturgias da Melanina Acentuada e por consequência vai figurar entre os autores na Plataforma Melanina Digital. No espetáculo Isto É Um Negro?, a escrita não veio previamente à sala de ensaio, mas a partir dos diálogos dos criadores, com suas questões, dores e leituras de modo coletivo e colaborativo entre os diversos criadores da montagem. “A dramaturgia no Isto É um Negro? nasceu de um incômodo e na cena, foi o efeito do diálogo entre nós e também com as vozes daqueles autores com os quais nos encontramos. Nós dizemos entre nós, brincando, que o texto foi “pós-escrito” pois a primeira versão do texto só foi elaborada quase um ano após nossa estreia” compartilha.

Para a atriz e dramaturga Mônica Santana, um dos principais valores do Melanina Digital é de modo enfático contrapor ideias cristalizadas de que não há autores negros ativos no Brasil. “O lugar da autoria, enquanto lugar de pensamento, elaboração e subjetividade é historicamente negado ao negro, mais ainda às mulheres negras. Quando num espaço virtual, se cataloga e disponibiliza as obras, o pensamento, a experiência criativa e poética de escritores negros, rompe-se com os discursos que negam a nossa existência, bem como apresentamos nossas próprias narrativas e modos de ler o mundo” explica.

O Melanina Digital é uma realização da Melanina Acentuada Produções, com produção da Cardim Projetos Culturais e conta com patrocínio da OI e do Estado da Bahia, através do programa Fazcultura, Secretaria de Cultura e Secretaria da Fazenda.

 

Serviço

Lançamento da Plataforma Melanina Digital

site: http://www.melaninadigital.com

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Cultura

Tunico da Vila e Criolo celebram sons de preto, origens da música brasileira

Foto: Lucas Calazans

Por Lais Rocio, de Vitória/ES

Para exaltar os ritmos de raízes negras, projeto no ES homenageia o mestre Martinho da Vila. O encontro idealizado por seu filho, Tunico, uniu Criolo e o Congo Capixaba. O próximo será com a baiana Mariene de Castro e povos de terreiros.

A diversidade da música brasileira uniu um momento histórico, na última sexta-feira (14), em Vitória, Espírito Santo. As tradições do samba e as nossas raízes negras foram protagonistas da noite, que valorizou as importantes origens da nossa mistura cultural. E ninguém melhor que os representantes dessas histórias para dar voz a tudo isso. Assim foi o show dedicado a Martinho da Vila, mestre sambista. Para homenagear um dos maiores músicos do país, se ergueu um encontro de gigantes, com o músico Tunico da Vila, filho de Martinho; Criolo, rapper e cantor; o tradicional Congo Capixaba e instrumentistas locais.

Essa foi mais uma edição do Projeto Spirito Samba, idealizado por Tunico em homenagem aos 80 anos de seu pai. É feito para acontecer principalmente fora do eixo Rio-São Paulo, no Espírito Santo, onde os costumes de origem afro despertaram uma conexão ancestral para pai e filho, sambistas e ativistas da questão racial. Desde janeiro, a cada mês, a sequência de shows traz artistas convidados. Entre eles, já vieram Mart’nália, Dudu Nobre, Xande de Pilares e o próprio Martinho.

Assim, o palco deu lugar a uma explosão artística. Dessa vez, composta pela autenticidade de Tunico, a sabedoria de Criolo, a essência do Congo Capixaba e as potencialidades dos instrumentistas que sintonizavam essa união. Cada músico, sambista, cantor e congueiro teve seu tempo de chegar, seu brilho próprio e seu lugar. Disso, se fez um encontro de muitas trocas:

“Ser artista nada mais é do que uma troca.
A arte, em sua forma mais magistral, é o conceito de trocar
a maior e melhor energia com sua plateia”,
descreve Tunico.

 

Ao juntar uma infinidade de origens e ritmos tão distintos, aquele espetáculo revelava: a cena artística é feita pelas diferenças. Assim como declarou Tunico: “Não existe uma só verdade para a música”. Em um só espetáculo, o público vibrante experimentava samba, rap, salsa, afrobeat, ritmos angolanos e os tambores típicos do Espírito Santo.

Nessa mistura, até a canção francesa entrou na roda, quando Tunico interpretou a famosa Ne Me Quitte Pas, escrita nos anos 50 e regravada em diversas versões no mundo inteiro. Ali, melodias latinas e afro-brasileiras davam um novo tom para a composição, e transbordavam diversidade. De forma mágica a transcendental, toda a apresentação fazia surgir harmonia e conexão entre tantas culturas entrelaçadas, como narra Criolo:

“De algum jeito, a música e todas as expressões de arte fazem com que a gente fique juntos naquele momento.
Tudo isso traz uma energia, e a gente se conecta com as pessoas.
Com um abraço, um sorriso fraterno, ou mesmo chorando com o coração magoado.”

A banda de congo “Amores da Lua”, convidada do último show, é regida pelo Mestre Ricardo Sales, Mestre Rui Barbosa Sales e a Rainha do Congo Dona Celeusa Maria Alves Sales. Entre os músicos do projeto Spirito Samba, estão Sérgio Rotti no cavaquinho; Alexandre Barbatto no contrabaixo; Daniel Barreto no violão; Felipe Dias na bateria; Górgias Gomes na percussão; Marcos Oliveira no trombone; e Marcos Firmino no trompete.

O legado de Martinho: guardião da cultura negra e brasileira

Foto: Tunico da Vila | Arquivo

“Todo artista precisa reverenciar a sua ancestralidade”, assim Tunico da Vila explica a razão do seu projeto em homenagem a seu pai, de quem ele recebeu o seu anel de bamba. Como Martinho da Vila representa boa parte da história da música brasileira e da valorização das origens afro, um tributo de seu filho para ele significa não só valorizar um artista memorável. Mas também exaltar uma infinidade de tradições e riquezas eternizadas como patrimônio cultural. Tudo isso é o que esse sambista, considerado um dos maiores do planeta, carrega em si e perpetua mundo a fora.

Com um arsenal de premiações, inclusive mais de um Grammy Latino, o legado de Martinho é eternizado por seus mais de 50 discos e 15 livros escritos. Seu papel como pioneiro e vanguardista é tão expressivo que foi o criador do gênero “partido-alto”, ligado aos batuques angolanos. Além da vida que se mistura com a trajetória da Unidos da Vila Isabel, para o qual Martinho compôs diversos sambas-enredo.

De tantas experiências ao longo dos 80 anos de vida e 50 de carreira, Martinho se fez um sábio contador de histórias e participante ativo em momentos mundialmente importantes. Nos anos 1990, lutou pelo fim do apartheid e pela liberdade de Nelson Mandela. Voltando um pouco mais ao passado, nos anos 1970, foi responsável por sensibilizar o Brasil sobre as guerras por independência na África, em especial na Angola. Assim, ergueu diversos projetos inéditos de intercâmbio entre artistas brasileiros e angolanos, resgatando os laços entre as duas culturas. Tal como foi o projeto Kalunga, em que desembarcou no continente para fazer shows junto com grandes nomes como Clara Nunes, Chico Buarque, Dorival Caymmi e Dona Ivone Lara.

Como um guardião da cultura negra milenar no Brasil, tornando-se inclusive embaixador da Angola, Martinho sempre revelou e celebrou diversas influências africanas que construíram fortemente a identidade brasileira. Tal como o samba, que tem como origem o massemba, tradicional de Angola.

“O Brasil é, em larga medida, filho de Angola. O contrário também é verdade.
Os dois países construíram-se em parelho, ligados por uma terrível iniquidade,
o tráfico de escravos, mas também por séculos de trocas felizes”,
escreveu o jornalista angolano José Eduardo Agualusa,
em sua coluna no jornal O Globo,
citando Martinho entre um dos “artistas generosos e solidários” que visitaram o país. 

Tunico da Vila: a música que conta histórias ancestrais

Foto: Weverson Cost

Com o legado de seu pai, Tunico da Vila cresceu guiado pelo orgulho e identidade afro. Desde criança, para além dos tradicionais heróis brancos das histórias infantis, ele também foi criado com exemplos de protagonismo preto. Ainda na infância, começou a frequentar casas de Candomblé, onde há 30 anos é ogã de atabaque e canto, um cargo responsável pelos instrumentos de percussão (atabaques) e pelos cantos que celebram as entidades sagradas. Logo em seus primeiros contatos com os terreiros, as batidas dos tambores lhe soaram como familiares. Lembravam os ritmos entoados por seu pai, que também reúne elementos religiosos de matriz africana. A relação com a música negra religiosa e a criação na escola de samba levaram Tunico a ser percussionista de Martinho da Vila, por um bom tempo. Hoje ele faz parte da ala de compositores da Unidos de Vila, para a qual já conquistou o campeonato do carnaval carioca com suas composições.

Construindo seu legado próprio de luta por igualdade racial, Tunico representa a cultura orixá e valoriza as diversas expressões do povo preto nos palcos, especialmente no Projeto Spirito Samba. E com isso, dedica-se a combater o preconceito, o racismo e a intolerância religiosa.

“O tempo é de conquista.
A negritude brasileira
precisa conquistar.
O candomblé é saber pisar firme e forte no chão,
porque o mundo é nosso.

Vamos cantar os orixás e todos vão dançar,
porque a música é superior.”

E foram justamente essas raízes negras que guiaram pai e filho sambistas até o Espírito Santo, terra onde hoje reside Tunico, acreditando ter encontrado aqui a sua missão e seu território ancestral. Ele, que nasceu no Rio de Janeiro, se considera um “carioxaba”.Os ritmos e as danças tradicionais angolanas, que compõem o surgimento do samba, também são a origem do Congo Capixaba. Tudo isso aconteceu pela contribuição da etnia bantu, nação de Angola, de onde viam boa parte das pessoas escravizadas no Espírito Santo. O congo tornou-se tradição religiosa com importante papel no folclore do estado. E assim, também se esbarrou e se conectou fortemente com a música de Martinho da Vila, que fez o gênero musical ser revelado e apreciado nacionalmente. Apaixonado pela cultura ancestral que reencontrou no estado, o sambista criou laços com os artistas locais e gravou “Madalena do Jucu”, há quase 30 anos atrás, em que canta ao som das toadas das casacas e tambores.

Tunico da Vila com a banda “Amores da Lua” | Foto: Lucas Calazans

Assim, hoje Tunico celebra o legado de seu pai juntamente com a valorização das tradições afro que florescem desse estado. Por isso, a missão do sambista também se dá fortemente em valorizar a própria cena local, movimentando o meio artístico fora do eixo Rio-São Paulo.

“O estado é rico culturalmente.
O congo é um patrimônio daqui,e é angolano de raiz.
As pessoas daqui tem essa joia e potência na mão.  

Precisamos ter espaços para que todos possam conhecer o símbolo máximo da identidade capixaba”,
reconhece ele.

Além de reverenciar essas diversas tradições, Tunico da Vila usa suas inúmeras referências e repertórios para espalhar saberes entre os músicos. Para ele, a troca coletiva foi sempre presente e essencial. Cresceu em meio às rodas de seu pai com artistas lendários como Clara Nunes, Candeia, Beth Carvalho e Alcione. Por isso, o projeto Spirito Samba também prioriza o encontro em todos os sentidos: com as negras; entre artistas locais e de destaque nacional; entre diversos gêneros; entre o público e as várias histórias contadas com a música.

E esse intercâmbio cultural se potencializa mais ainda, para ele, ao reunir renomados sambistas nacionais com os artistas capixabas de sua banda, que também são fruto de uma união diversificada. Para começar o projeto, Tunico percorreu rodas de samba em busca de músicos locais. Seu principal critério de seleção era a sintonia e conexão que sentia ao vê-los tocando.Assim, a composição da banda vai desde aprendizes com carreiras recém iniciadas até músicos veteranos. Cada instrumentista já percorreu distintos estilos musicais. Desprendidos de um só gênero, eles se aventuram em pesquisas e experimentações que fazem dos shows essa autêntica mistura.

Foto: Lucas Calazans

Daniel Barreto, violinista, já passou pelo heavy metal em bandas autorais e independentes, mas também tem a herança sambista de sua mãe, a cantora Dorkas Nunes. Dois dos integrantes, Sérgio Rotti, do cavaquinho, e Górgias Gomes, da percussão, cresceram dentro de escolas de samba tradicionais do estado. No trombone e no trompete, respectivamente, os veteranos Marcos Oliveira e Marcos Firmino acrescentam ao projeto suas influências do jazz, que trazem da Banda da Polícia Militar. Alexandre Barbatto, do contrabaixo, considera o projeto um contato vivo com o legado da música brasileira. Ele fala sobre os aprendizados preciosos que toda a banda recebe dos artistas convidados, nos ensaios ou mesmo nas conversas de boteco. Tal como foi a vinda do sambista Monarco da Portela, por meio do projeto, que compartilhou suas memórias do berço do carnaval, no Rio de Janeiro, nos anos 1940.

O jovem baterista Felipe Dias, que estreou no projeto nesse último show com Criolo, foi escolhido pela semelhança que Tunico enxergou entre o trabalho dele e de um dos seus mestres, o baterista Paulinho Black. E ao comparar o aprendiz ao seu mestre, o sambista oportunizava para Felipe uma importante conquista: “Estou realizando o sonho de tocar com artistas nacionais. A cadência, a musicalidade e o samba bem orquestrado do Martinho da Vila sempre me encantaram. Sempre foi uma das minhas grandes inspirações”, explica o músico, que cresceu em um bairro periférico da capital capixaba e iniciou sua paixão pela arte tocando na igreja, desde os 7 anos de idade.

Criolo: a arte da alma

Foto: Caroline Bittencourt

Convidado da noite pela sinestesia sonora reconhecida por Tunico, Criolo multiplica no palco a energia, a serenidade e afeto, sensações normalmente provocadas em suas composições reflexivas e melodias profundas. Como ele mesmo disse há mais de dez anos, em sua famosa Ainda há tempo: “Que a minha música possa te levar amor”. Assim, ao longo de quase 30 anos de carreira, ele se dedica a um propósito maior:

“O rap e o samba que escrevo são tentativas do fundo do coração, da alma mesmo, é tudo muito forte.
Faço tudo isso para respirar e existir de modo real,
não só subexistir”.

E de fato, a sensibilidade e intensidade com que ele desagua seus versos deixam bem claro: sua arte faz da existência muito mais do que sobrevivência. Transforma a vida em resistência, em brilho e potência. Nos lembra que somos seres humanos, como diz Caetano: “gente é para brilhar, não para morrer de fome”, que poderia ser um belo diálogo com o verso do próprio Criolo: “cada coração é um universo”. Simplesmente ao lembrar o quando cada ser é especial e incrível, ele reivindica a igualdade, a plenitude e a justiça para todos. E assim, sua música de alma alcança cada vez mais multidões pelo mundo.

Tal como é o intercâmbio proporcionado pelo projeto Spirito Samba, as criações de Criolo também valoriza a união das diferenças. Assim como fez no palco com Tunico da Vila e os músicos capixabas, sua trajetória inteira sempre se fez pela mistura e pelas trocas, essenciais em sua arte. Além da diversidade de referências e ritmos, ele proporciona ricos encontros culturais. Um exemplo foi a criação da Rinha de MC’s, uma das festas mais autênticas do hip hop, dedicada às batalhas de improvisação que levam oportunidades para diversos jovens de periferia. O trabalho coletivo também sempre guiou boa parte de suas produções, tal como o disco Convoque Seu Buda, que teve 80% de coautorias entre todas as faixas lançadas. Isso também explica a troca de afeto que ele faz questão de transmitir para todos ao seu redor, como conta:

“Sinto que estou aprendendo muito com cada pessoa
que passa na minha vida.
Aprendo demais, tenho gratidão eterna com todas as pessoas
que passam por mim, cada um ao seu jeito.
Estou aqui para celebrar junto a vida de cada um.”

Foto:Lucas Calazans

Desde que despontou na cena nacional, sete anos atrás, Criolo espalhou sua mensagem por mais de onze países e conquistou mais de 15 prêmios. Toda essa trajetória o traz até o Espírito Santo, hoje, por meio de sua atual carreira no samba. Definida por ele como a realização de um sonho antigo. Seu primeiro disco do gênero foi lançado no ano passado e logo trouxe a conquista Prêmio da Música Brasileira 2018. Hoje, a ginga sambista é o que sintoniza sua energia nos palcos. Ao mesmo tempo em que reverencia as tradições ancestrais dos bambas, o que faz com que sua participação nesse projeto seja tão significativa:

“Para mim é muito importante receber o convite do Tunico para estar aqui, porque ele vem de uma família musical,
que tem história na cultura brasileira.
É uma honra, é muito especial mesmo.
Encontrei com músicos aqui que são felizes no palco,
amam a música.”

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Mulheres Negras

Coletivos convocam ato de apoio à advogada Valéria Santos neste domingo em SP

 

No próximo domingo, 23/9, os coletivos As Pretas e Four P. Engagement promovem o “Ato por Valéria Santos” na Avenida Paulista. O ponto de encontro da manifestação será em frente ao prédio do MASP, próximo à estação de metrô Trianon, a partir das 13h.

Durante uma audiência no 3º Juizado Especial Cível, em Duque de Caxias, Rio de Janeiro, a advogada Valéria Santos solicitou um recurso de defesa à sua cliente, que é garantido por lei, mas foi desatendida pela juíza Ethel Vasconcelos. Arbitrariamente, a advogada foi algemada a e retirada da sala à força por policiais.

A situação, não por coincidência vivida por uma mulher negra, gerou revolta na população que também pede uma reparação judicial rápida e assertiva à Valéria. Segundo Janaína Sampaio, integrante do coletivo As Pretas, fazer um ato, a favor ou contra algo, é mostrar sua opinião de forma pública e reivindicar respostas e mudanças. “O nosso Ato é por Valéria Santos, advogada negra que foi algemada exercendo sua função. É por Babiy Querino, dançarina presa por ter um fenótipo parecido com a envolvida no crime. É por Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro que foi assassinada em março de 2018”, comenta.

Assim como Valéria, infelizmente, a população negra padece da violência do racismo institucional e estrutural diariamente. “É sobre gritar aos quatro ventos e fazer valer a nossa voz. Pedir repostas sobre os casos citados e tantos outros encobertos. O nosso ato é para, acima de tudo, dizer que o povo preto está presente e não será calado”, complementa Janaína.

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Cultura

Cinema – Ku Klux Klan nas montanhas do colorado

John David Washington como o policial Ron Stallworth no filme Infiltrado na Klan

Por Edson Cadete, do Lado B NY

 

O novo filme do diretor Spike Lee, Infiltrando na Klan, coloca em foco (mais uma vez) a organização supremacista branca Ku klux Kan(KKK). Ele segue na trilha de pelo menos três antecessores: The Black Klansman(1966), Mississippi Burning(1988), e Django Unchained(2012). Todos com o desejo de eliminar a KKK ou quem fazia parte dela.

 

Desta vez, o diretor, reconhecido por debater o tema racial nos EUA há  pelo menos 30 anos, nos leva a Colorado Spring, a pequena cidade no estado do Colorado no final da década dos anos 1970.

 

Usando imagens de dois filmes clássicos do cinema norte-americano, O Nascimento de Uma Nação(1915) e o Vento Levou(1940) para complementar sua história. Spike Lee usa eficazmente essas imagens iconoclastas para mostrar a estrutura racial nos Estados Unidos. Com isso, é claro absorver a comunidade afroamericana de quaquer pecado, colocando-a simplesmente como vítima dentro de um país que forjou sua potência subjugando populações não brancas dentro do seu próprio país enquanto clamava na sua Constituição que todos os homens foram criados iguais com seus direitos inalienáveis.

 

Infiltrado na Klan é baseado no livro de memórias de Ron Stallworth, que em 1978, com apenas 25 anos de idade, tornou-se o primeiro detetive dentro do departamento de polícia na cidade de Colorado Spring. Como detetive, sua primeira missão foi infiltrar-se em uma reunião do movimento Poder Negro para obter informações sobre Stockley Carmichel, conhecido posteriormente como Kwame Turé.

 

Nesta mesma época, após ler um anúncio de recrutamento da KKK, ele decidiu por conta própria investigar as ações da organização. Aparentemente, o departamento de polícia local não sabia que havia na cidade uma filial da Ku Klux Klan.

 

Disfarçando a própria voz, ele liga para David Duke (Topher Grace), a maior figura dentro da organização com ideias de preservar ainda mais a cultura e influência branca no país. Com a ajuda de todo departamento de polícia, lidera uma investigação camuflada para obter as intenções da KKK na cidade.

 

No filme de Spike Lee, Ron Stallworth (John David Washington) é um jovem idealista que sempre sonhou em ser um policial. A cena na qual ele é entrevistado antes de entrar para a polícia pode ser considerada como um clássico da atuação cinematográfica.

Com a ajuda de um colega de trabalho judeu branco chamado Flip Zimmerman (Adam Driver) consegue se infiltrar na KKK e descobrir os planos maléficos contra negros e judeus. O ponto alto do filme mostra de um lado uma reunião da KKK onde seus membros aos assovios e aplausos assistem ao clássico filme Nascimento de Uma Nação, enquanto um grupo de jovens ativistas do movimento Poder Negro ouve atentamente a história contada pelo cidadão negro Turrentine(Harry Belafonte) sobre o linchamento de um amigo na mesma época que o filme era mostrado na Casa Branca para o delírio do presidente Woodrow Wilson e todos convidados presentes.

 

Para dar mais realismo ao filme e compara-lo com a América de hoje, Spike Lee ao final mostra cenas do que aconteceu em Agosto do ano passado em Charlotteville, na Virgínia, onde ativistas contra racismo e supremacistas brancos se enfrentaram. O diretor já havia usado esse recurso em filmes anteriores, como os logas Faça a Coisa Certa e Malcolm X.

 

Na sessão de cinema que assisti Infiltrado na Klan, a plateia era composta majoritariamente por pessoas brancas que aplaudiam a cada trapalhada da KKK. A cena onde Ron Stallworth brinca jocosamente pelo telefone com o líder David Duke foi a mais aplaudida.

 

Fiquei imaginando que essa mesma plateia, que acabara de aplaudir mais um filme do diretor, é a mesma que tem ajudado na gentrificação em vários bairros negros em Nova York. Ela com certeza não faz parte de nenhuma organização racista ou de supremacia branca, mas daí a ter amigos negros vai uma longa distância. Ao menos durante duas horas no escurinho do cinema, a plateia branca torceu pelo protagonista negro nocautear o inimigo branco.

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racismo

Defensoria Pública de São Paulo emite nota em apoio à advogada Valéria Santos

Na última segunda-feira, 10, a advogada Valéria Santos foi algemada e retirada à força de uma audiência em que defendia sua cliente por policiais. A ordem veio da da juíza que estava encabeçando a discussão. Segundo a Ordem dos Advogados do Rio de Janeiro (OAB-RJ), a situação lamentável não chegou a acontecer nem na época da ditadura. Nesta sexta-feira, 14, a Ouvidoria Geral e o Núcleo Especializado de Defesa da Diversidade e da Igualdade Racial da Defensoria Pública do Estado de São Paulo se pronunciou por meio da seguinte nota:

 

Nota oficial

A Ouvidoria Geral e o Núcleo Especializado de Defesa da Diversidade e da Igualdade Racial da Defensoria Pública do Estado de São Paulo vêm a público manifestar veemente repúdio ao tratamento ilegal, arbitrário e desumano deferido à advogada Dra. Valéria Santos por ordem da juíza atuante perante o 3º Juizado Especial Cível de Duque de Caixias, no último dia 10/09. A ordem se deu como represália à firme atitude da advogada na defesa dos direitos de sua cliente e das prerrogativas inerentes ao exercício da sua profissão. Consta que a juíza determinou que a advogada deixasse a sala de audiências, impedindo-a de exercer a defesa de sua cliente da maneira que julgava adequada. Com a recusa da advogada, que demandou a presença de representante da OAB no local com vistas ao equacionamento do impasse, a juíza que presidia a audiência, de modo totalmente desproporcional, convocou a presença policial a fim de tirar à força a advogada do recinto. Os policiais mantiveram-na algemada no chão enquanto ela clamava pacificamente pelo seu direito ao trabalho.

Este lamentável episódio atenta não apenas contra as prerrogativas da advogada, estabelecidas pela Lei 8.906/94, como envolve violação ao teor da Súmula vinculante 11 do Supremo Tribunal Federal, que limita o uso de algemas a situações excepcionalíssimas. No entendimento pacificado por aquela Corte, o emprego de algemas submete a pessoa acorrentada a situação degradante, estigmatizante e de submissão ímpar. Dessa forma, o uso absolutamente injustificado das algemas contra a advogada, quando do exercício regular da profissão, significa grave violação à dignidade da pessoa humana. Por todo o exposto, o tratamento a ela concedido também caracteriza a prática de racismo institucional, demonstrando que os agentes dos sistema de justiça são informados por estereótipos desumanizantes a respeito de homens e mulheres negras, os quais viabilizam a ocorrência de violações físicas e simbólicas contra os seus corpos, assim e como a sua banalização.

Diante disso, manifestamos nossa solidariedade a Dra. Valéria Santos e esperamos que os órgãos competentes apurem os fatos e promovam a devida responsabilização dos agentes de Estado envolvidos, no que estarão contribuindo para resguardar os princípios democráticos e para o combate à discriminação de gênero e racial.

São Paulo, 14 de setembro de 2018

Núcleo Especializado de Defesa da Diversidade e da Igualdade Racial da Defensoria Pública do Estado de São Paulo
Ouvidoria-Geral da Defensoria Pública do Estado de São Paulo

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Política

Sobre marchas e diálogos…

Por Gabrielle Conde

Há algum tempo, eu contei essa história nas dinâmicas e polêmicas redes sociais. Sou do e moro no Recife – capital do frevo e de outros contos – e aconteceu, também aqui, em maio passado, a Marcha da Maconha.

Como em todas as edições anteriores, este ano, fui. A diferença é que, desta vez, resolvi (a partir de um interesse delas) levar minhas filhas gêmeas, Dandara e Ayana, de 11 anos de idade.

A postagem de uma foto minha com elas no evento, de alguma maneira, causou incômodo e provocou questionamentos. Por isso, resolvi, na ocasião, problematizar, em busca de reflexão mesmo. Ou seja, fiz textão.

A urgência da legalização da maconha ultrapassa os limites das liberdades individuais – não menos importantes e necessárias – para seu uso recreativo. É para além disso. Não é, apenas e rasamente, sobre se fulano pode ou não fumar seu baseado sem ser tratado como bandido.

É sobre encarceramento em massa de gente preta. Sobre extermínio da juventude negra. Sobre um projeto, sistemático e histórico, de genocídio de negros e negras. É sobre o racismo estrutural que alicerça esse país!!!!

No dia da marcha, tive a oportunidade de conversar com minhas filhas sobre esse assunto que gera tanta polêmica e que é permeado por tantos preconceitos. Falamos sobre por que, para que e por quem marcharíamos.

Na marcha, ocupamos, especialmente, a ala da saúde, onde estavam presentes crianças, mães, pais, equipe médica, organizadoras/es de associações que fazem e defendem o uso terapêutico da maconha.

O uso medicinal desta planta e de seus componentes tem sido estudado há muitos anos em vários lugares do mundo. E já se comprovou, cientificamente, a grande potência desta erva em tratamentos de doenças como epilepsia, Alzheimer, câncer, depressão e uma série de outras.

No Brasil, por exemplo, após decisões judiciais, seu óleo vem sendo importado dos EUA, num alto custo, para tratar crianças com autismo.

Falamos sobre os efeitos da criminalização desta planta em uma sociedade, tragicamente, seletiva, classista e de altíssimo nível de perversidade com as populações negras e pobres.

Falamos sobre como as questões do encarceramento em massa estão vinculadas a esta seletividade. Embarcamos numa história distante sobre o uso da maconha e não me surpreendeu que várias informações elas já soubessem. Não conseguiam entender de forma ampla, em função da maneira hipócrita e caricaturada que o tema é tratado pela mídia, mas já sabiam do que eu falava.

Nunca as subestimei e sempre tentei estar próxima, ser franca, participar ativamente da vida delas e trazê-las também para as minhas lutas. Jamais colocaria em risco a integridade física, mental e emocional das minhas filhas. Estávamos juntas nesta luta pelo direito à cura natural (o que incomoda um bocado às indústrias farmacêuticas) e pelo direito de escolha das pessoas sobre suas vidas, sobre seus corpos!!

Ao Estado e à sociedade, cabe entender que o enfrentamento às drogas não se dá matando corpos negros!! O debate é muito maior! Os verdadeiros donos do tráfico não pisam nesse chão, não frequentam os picos e as quebradas! Não estão nas comunidades periféricas e, menos ainda, em alguma cela deste sistema prisional falido. Suas cargas estão em helicópteros, jatinhos e bagagens daqueles que são intocáveis e protegidos em seus lares de luxo!

Ayana e Dandara agora, mais do que nunca, sabem disso! A decisão de levá-las foi minha, mas a escolha de me acompanhar foi delas!

Elas sabem que tem uma mãe com quem podem contar e tirar dúvidas sobre os assuntos que precisarem porque estamos juntas aqui e nas marchas da vida!

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Escrita da história

E se negros e brancos partissem da mesma linha de largada?

Diretor escolar e advogado lutam por igualdade racial e mais oportunidades para o povo preto.

Por Lais Rocio, de Vitória/ES
Publicado originalmente no portal da empresa social
Atitude Inicial

Ao redor do país, o surgimento das favelas deu nome e endereço à desigualdade social e racial nas grandes cidades. Nesse movimento, a forte presença da população preta veio como uma herança da falsa abolição da escravidão, que não recompensou suas imensas perdas e dores com a negritude, e não lhes garantiu o mínimo de acesso a direitos humanos fundamentais. Somado a isso, o racismo permanecia por meio da ideia de higienização e embranquecimento da sociedade, que privilegiava pessoas não negras, de classes médias e altas, desvalorizando a identidade afro em vários espaços.

Com isso, diversos negros brasileiros tiveram que conquistar com as próprias mãos aquilo que parte privilegiada da população sempre teve de graça: condições básicas de vida. Sem inclusão no planejamento urbano, eles ocupavam os morros, matagais, as margens e áreas ainda não desenvolvidas das cidades.

E assim também foi para o professor Elizeu dos Santos, de origem pobre e afrodescendente. Ele, seus pais e os dez irmãos vinham do interior do Espírito Santo para ocupar uma das primeiras favelas da capital: a região de São Pedro. Nos manguezais que também eram depósitos de lixo da cidade, eles construíam seus barracos. Junto com outras 40 famílias que iniciaram o bairro nos anos 70, como consta nos registros históricos da Prefeitura de Vitória. “Nada nos veio de graça. A polícia derrubava os nossos barracos a mando do governo, e a gente reconstruía. Nossas lutas eram por água, energia, transporte, infraestrutura e aterramento do bairro”, descreve, relembrando memórias de uma infância em que mal teve tempo para ser criança.

Assim, ele sentiu na prática a segregação que afeta os negros e pobres. Sendo esses mais prejudicados com distâncias maiores, e obstáculos mais difíceis para alcançar desde recursos básicos até realizações de vida. Diante dessa realidade, Elizeu e o advogado André Moreira, personagens deste quarto episódio da série de reportagens Afropotências, lutam por igualdade para a negritude. À frente da educação e da justiça, respectivamente, é com as políticas públicas e direitos sociais que eles se dedicam a reduzir o longo caminho que separa pessoas negras de suas conquistas.

“O filho do pobre não é diferente do filho do rico. A diferença do pobre é que tem menos oportunidades que o rico. É preciso colocar os dois na mesma linha de largada.
A gente não quer que um chegue na frente do outro.
E sim que todos cheguem no mesmo ponto,
com as mesmas condições”, afirma Elizeu.

Para eles, toda essa revolução começa apenas sendo quem são. Principalmente em espaços restritos como universidades, cursos de pós graduação, cargos de liderança, poder e chefia. Ali, tornaram-se referência e inspiração para quem está iniciando sua trajetória: “O melhor jeito de dizer para uma criança negra que ela pode ser o que quiser é sendo o que a gente quer ser”, reconhece André.

Em seus passos diários, eles acreditam abrir espaços para a negritude na sociedade. Para que suas realizações, talentos e potencialidades não sejam perdidos ou diminuídos pelo racismo, pela violência, exclusão ou violação de seus direitos. Assim como mostra o recente caso da advogada negra, Valéria dos Santos, que foi algemada e arrastada por policiais militares, simplesmente por exercer sua profissão durante uma audiência, quando discordou de uma juíza que também a discriminava pela cor da pele.Como ela afirmou em entrevista coletiva para a imprensa, é difícil visualizar a mesma cena acontecendo contra uma advogada branca.

Assim, resistir significa transformar o dia a dia das escolas, faculdades, hospitais, tribunais de justiça e de tantos outros lugares comuns para que tenham o mesmo acesso, o mesmo respeito e dignidade oferecidos igualmente para negros e não negros. Tal como ilustra André:

“Um sistema que não tem cotas raciais, por exemplo, é como uma corrida em que os brancos competem com sapatos equipados, e os pretos estão competindo descalços. Quantos bons profissionais a gente teria se tivessem oportunidades para todos? O Brasil também paga a conta da segregação. Enquanto a gente não tiver igualdade, não seremos referência em nada. Estamos privando a nação dos melhores nomes. “

E é com a prática que Elizeu e André revelam: a inclusão social e racial são essenciais para as políticas de atendimento à população. Embora pareça óbvio, isso é reafirmado constantemente pelos dois defensores dos direitos humanos, diante de serviços que tornam-se cada vez mais precários e escassos especialmente quando atendem à população preta de periferia. Como diz o professor: “A sociedade tem essa noção de que tudo tem que ter uma péssima qualidade na saúde, educação e segurança, quando é para preto e pobre. O papel do poder público é dar o melhor para todos aqueles que recorrerem a esses serviços.”

 

Elizeu, educador de esperanças

Elizeu constrói uma educação com acolhimento aos problemas vivenciados pelos alunos, feita com empatia e humanização. Ao contrário de um ensino mecânico e operacional, que não permite um olhar sensível para a realidade. “As crianças e jovens não são purificadas ao entrar na escola. Elas carregam toda a tragédia social da comunidade em que vivem. O nosso papel é dar conta desses problemas, e resgatar o que foi perdido”, conta ele.

Envolvido desde criança com as lutas comunitárias por sobrevivência, ele teve o sonho e desejo pulsante de transformar essas histórias. A escola pública fundada por sua vizinhança com o nome de “grito do povo” foi onde ele estudou, e mais tarde, reconheceu o seu espaço de mudança. Assim, tornou-se professor dali mesmo, onde hoje atua como diretor escolar, na EMEF Francisco Lacerda de Aguiar, da rede municipal.

Com os méritos de seus 30 anos de carreira pela Prefeitura de Vitória, ele poderia selecionar qualquer escola da cidade para atuar, inclusive uma com estruturas melhores ou localizada em bairros nobres. Mas a escolha por permanecer trabalhando em São Pedro têm um importante propósito, que vai muito além da sua carreira profissional:

“Me vejo naqueles jovens, vivo com eles aquele momento. Têm alunos que ficam 30 dias sem comer durante as férias, porque é no colégio que eles comem, tá vendo a importância? Naquela comunidade, a escola tem a função de ser um fio de esperança para essas crianças. É o único lugar de oportunidades.”

Nesse cenário de poucas perspectivas de vida, Elizeu leva o aprendizado com conhecimento intelectual, esporte e cultura. Tudo isso para contrariar a ilusão de poder, riqueza e realização que o crime e o tráfico causam aos jovens negros de periferias, quando isso chega para eles como único caminho possível. Tal como mostra o professor: “Os jovens olham o vizinho que trafica drogas com um carrão, e vêem o professor ganhando mal. Podem até cortar meu salário, mas vou continuar lutando por um ensino de qualidade, para a criança acessar, permanecer e aprender. A educação é ferramenta de transformação, por isso acredito nela.”

E em contraponto à repressão e violência que afetam a negritude, Elizeu acredita em ensinar com afeto, amor e compreensão. Ele contradiz a ideia de autoritarismo atribuída ao diretor escolar, sendo conhecido e abraçado por todos os estudantes. Diariamente, toma para si compromissos de estar por perto, e acompanhar as turmas em diversos momentos junto com seus professores.

Um exemplo disso foi quando recebeu um novo aluno na escola, que havia sido expulso do colégio anterior e era visto como problemático pela equipe pedagógica. Logo no primeiro contato, o professor explicou que não importava o que ele havia feito antes, porque ali era um espaço de novas atitudes. Durante uma de suas primeiras atividades na nova escola, o garoto ficou surpreso com a proximidade e afeto que o diretor mantinha com os estudantes, e disse à Elizeu: “Como o senhor é querido. Na minha escola anterior, eu só vi o diretor quando ele veio me mandar embora.” Outra situação que para ele fez toda a diferença aconteceu ao receber o telefonema de uma mãe, pedindo que seu filho entrasse na segunda aula. O motivo era que ele precisava trabalhar mais cedo entregando marmitex, para ajudar no sustento de casa. O diretor, que entendeu e liberou o estudante, reconhece a importância desse tipo de compreensão nos detalhes da rotina escolar das favelas, contrariando as burocracias e regras tradicionais das escolas.

“A gente tem que ter muita sensibilidade para dar aula em um bairro pobre. A vida na periferia é diferente. Às vezes a criança tem dificuldade  de aprendizagem na escola, mas sabe pegar um ônibus,  ir fazer um bico na feira e chegar em casa com R$50 reais. A gente se defende, sobrevive e luta”, afirma ele.

O engajamento para melhorar a vida da comunidade o fez ocupar novos espaços de transformação social. Ao longo de sua trajetória, foi administrador regional do bairro São Pedro e secretário de Coordenação Política pela Prefeitura de Vitória. E em 2004, o professor e militante foi convidado para ser secretário municipal de educação pela Prefeitura de Vitória.

Entre suas diversas realizações à frente da secretaria, ele fundou a Comissão de Estudos Afro-brasileiros (Ceafro), que tornou-se referência nacional e já esteve em eventos internacionais. Dedicada ao combate à discriminação racial nas escolas públicas, a Ceafro foi criada para a implantação da Lei 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira. Como informa a Prefeitura de Vitória, em seu portal: “Somente a lei não seria capaz de alterar as práticas racistas do cotidiano das escolas. Era preciso um conjunto de ações e um setor responsável por gerenciá-las”. Assim, a Ceafro atua até hoje pela valorização da cultura afro, promovendo formações aos professores, oficinas, debates e assistência há mais de dez anos. Ao olhar para essas conquistas, Elizeu reflete: “Como secretário, era a minha obrigação e o meu momento de dar a minha contribuição. São essas coisas que fazem com que a gente não perca a esperança. Se tudo acabar hoje, já valeu o que conquistei.”

 

André, defensor da justiça social e racial

No mundo da advocacia e da justiça, André Moreira constrói seu espaço de luta pela vida da população preta e de periferia. A denúncia e a defesa das causas sociais são suas principais ferramentas de transformação da violência contra a negritude em seu estado.

Nos presídios capixabas, que possuem 78% de negros entre mais de 20 mil pessoas presas, de acordo com dados do Departamento Penitenciário Nacional (Depen), André realizou denúncias de tortura contra os detentos, no caso que ficou conhecido pelas “masmorras do Espírito Santo” e foi denunciado pela ONU, em 2011. Essas condições desumanas nas penitenciárias foram investigadas por ele quando estava na presidência do Conselho Estadual da Criança e do Adolescente (CRIAD), um dos órgãos públicos que já representou.

Ao longo de mais de 20 anos de carreira, sua atuação em cargos com tanta exclusão racial sempre trouxe desafios. Começando pelo curso de direito na universidade pública, em que André foi um dos sete negros entre os 700 alunos da faculdade. Depois, mais impasses vieram ao assumir a presidência da Comissão dos Direitos Humanos da OAB/ES, e a secretaria geral desse mesmo órgão. À medida em que conquistava destaque e visibilidade em sua área, passou a sentir o efeito do embranquecimento. Em diversos momentos, ouviu em tom de elogio a frase: “você não é tão preto”.

“Se você chegou lá [nos espaços de destaque profissional], a primeira tentativa do racismo é tentar fazer com que você seja branco, já que ela não conseguiu nos derrubar no meio do caminho”, reconhece o advogado.

E como mais um sintoma dessa discriminação, André foi chamado de ‘preto safado’, quando fiscalizava e denunciava um caso de corrupção dentro do seu local de trabalho, no mesmo espaço onde as pessoas tentavam negar a cor de sua pele constantemente. Em resistência a tudo isso, ele reafirma cada vez mais a própria negritude. Ao mesmo tempo, também reconhece os privilégios tidos por fazer parte de uma parcela da população negra que ascendeu para a classe média.

Foi gradativamente que André uniu a profissão, a atuação política e a questão racial em um só propósito. No entanto, um pouco dessa consciência chegou em sua vida logo cedo, por meio de sua mãe, que sempre foi ativa nessas causas. Ele descobriu a discriminação racial na infância, quando foi demandando pela família para ir num boteco comprar cervejas, e o dono do bar desconfiou dele por roubo, pedindo para revistá-lo mesmo sendo uma criança. Sua mãe logo resistiu e advertiu ao homem que ele discriminava seu filho simplesmente pela cor da pele. Assim, ele passou a defender ainda mais a justiça social, com a militância que começou  aos 14 anos, na liderança do movimento estudantil da escola pública em que estudava.

Em 2013, André filiou-se ao seu primeiro partido político, o PSOL. Desde, então, se candidatou à Prefeitura de Vitória e ao Senado do Espírito Santo. E neste ano, é candidato a governador do estado, disputando um cargo que não elegeu nenhum negro nas últimas eleições no país inteiro, em 2014, de acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Nesse período, entre todos os candidatos eleitos para os mesmos cargos em disputa atualmente, apenas 3% se declararam pretos, e 21% pardos. Mesmo sem nunca ter sido eleito até hoje, André permanece nas disputas eleitorais por acreditar em dar visibilidade ao debate dos direitos humanos e da representatividade negra na política.

 

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Cultura

Teatro da Neura comemora oito anos de pesquisa em Realismo Fantástico e esboça pela primeira vez uma visita ao ‘TERROR’ a partir de García Lorca

Rumo aos 15 anos de resistência e de atividades ininterruptas, o Teatro da Neura estreia o seu 20º espetáculo. Sediado na cidade de Suzano, extremo leste de São Paulo, o grupo ocupa o Espaço N de Arte e Cultura, casa mantida pelas próprias criações do grupo e gerida integralmente pelos seus membros, sem nenhum tipo de patrocínio ou subsidio.

Mantendo grande parte da sua produção de forma independente desde a sua fundação, o grupo se percebe pioneiro dentro da linguagem de ‘Realismo Fantástico’ para o teatro e hoje, a Escola Estética, que nasce a partir da dramaturgia autoral, transcende para obras clássicas, ressignificadas dentro de todo esse universo.


Recentemente, o grupo foi contemplado pela quinta vez dentro da pesquisa que gera material para suas montagens e formações desde 2010.

Dessa vez com o espetáculo autoral, ‘O Menino Gigante ou Os Dez Fevereiros’, da Teatrologia dos Sacros Dias, que circulará em 2019 pelo interior de São Paulo a partir do ProAc.

Durante o mês de setembro, abre as portas da sua sede para a experiência de ‘Yerma’, clássico Espanhol do poeta e dramaturgo Federíco García Lorca.

Sobre o espetáculo
Escrita em 1934, a tragédia de Federico Garcia Lorca ganha uma montagem com um olhar realista fantástico na tênue linha de um presságio. Yerma é o malogro dos desejos que não concretizamos. Fiel a rotina de uma tradição moralista, a protagonista, refletida também nas fadadas frustrações do próprio autor e de sua Espanha, leva em sua metáfora e ambição a luta contra o próprio tempo onde corpo e desígnio envelhecem: O desejo de um filho a cima de todas as felicidades. A poesia de Lorca e todo o simbólico do seu universo, projetado agora em mais uma montagem do teatro da neura, dentro da pesquisa que completa em 2018, oito anos, propõe ao público um deslocamento da realidade, espaço e tempo a partir da frustração de uma mulher. Yerma é um naufrágio das vontades que não conquistamos. A luta contra a natureza dos dias. A tristeza dos amores não declarados. A morte ainda em vida de
um destino fadado ao fracasso.

Quem visitar o Espaço N durante o mês de setembro, vivenciará um teatro de imagens, uma obra extremamente sensorial, embebida numa poesia metafórica, numa encenação que dialoga com o terror e o fantástico, o que é uma novidade para o grupo e para o público que nos referencia dentro da linguagem. A ideia com essa montagem é a coroação dos anos dentro de sala de ensaio e uma nova fase do grupo dentro do estudo que acreditamos ser uma nova escola estética.

Direção
Antônio Nicodemo
Lígia Berber

Elenco
André Antero
Camila Ribeiro
Conceni Paulina
Lígia Berber
Priscila Nicoliche
Tamíris Terra
Preparação Corporal e Direção de Movimento
Lígia Berber

SERVIÇO-SETEMBRO
15,16,22,23,29,30
Sábados : 21h
Domingos : 20h
Ingresso: $16
Realismo Fantástico – Terror
Classificação: 14 anos
125 minutos . Com intervalo
Lotação Máxima: 40 pessoas por sessão