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Política

Incansável batalha pela democracia: como resistimos até aqui

Por Lais Rocio, de Vitória/ES

Desde o início desse período eleitoral até hoje, muita gente lutou sem parar contra o avanço do ódio e fascismo espalhado por Jair Bolsonaro. Retratamos tudo isso pelos dias de resistência da atriz e escritora Elisa Lucinda; do rapper Gog e da militante Mônica Francisco, ex-assessora de Marielle Franco e eleita deputada estadual pelo Rio de Janeiro.

A batalha é diária, incansável e inteiramente dedicada a combater a violência com afeto, a intolerância com diálogo. Assim foi e têm sido a rotina de defensores da democracia de distintos setores da sociedade durante este período de eleições. Pessoas do meio político e cultural que vêm dedicando sua vida diária a uma mesma tarefa: impedir o avanço das ideias e práticas violentas do candidato à presidência pelo PSL e seus apoiadores, que exaltam a tortura, a ditadura, diversos tipos de preconceitos e violações de direitos humanos.

“Me transformei em uma ‘vira-voto’ incansável. Em tudo que escrevo e faço, me dedico a essa eleição. É um momento de total dedicação dos democratas”, conta a atriz, cantora, poeta e diretora Elisa Lucinda. Ela ecoou sua expressão política de várias formas durante essas eleições, nas ruas e nas redes sociais. Participou de atos públicos e manifestos de artistas, escreveu assiduamente sobre o tema em sua coluna no Jornal do Brasil, e até mesmo levantou esse debate ao redor do país nos espetáculos de seu monólogo “Parem de falar mal da rotina”.

O objetivo pontual e urgente tem sido a virada dos votos a favor da vitória de Fernando Haddad (PT) à presidência da república, que deu um tímido sinal de esperança nas pesquisas eleitorais divulgadas pelo Data Folha na quinta-feira, 25, indicando 56% do candidato do PSL e 44% para seu adversário. A diferença entre os dois teve queda de seis pontos, a rejeição ao militar subiu, e ao petista reduziu. Ainda que o cenário continue favorável e quase certo para a vitória de Bolsonaro, e com ela as crescentes ameaças de deterioração da democracia e das conquistas por igualdade, os diversos representantes dessa luta pela virada persistem acreditando e não declaram uma batalha perdida, mesmo dois dias antes do segundo turno.

Para eles, a conscientização de eleitores representa muito mais que uma disputa presidencial. O que está em jogo são os direitos e conquistas de todos, inclusive as vidas de milhares de brasileiros, especialmente mulheres, negrxs, indígenas e lgbt’s constantemente ameaçados pelas falas do ex-deputado. O que motivou pelo menos 50 ataques de seus eleitores, tal como foi a morte do mestre capoeirista Môa do Katendê, movida pelo fato dele ter declarado seu voto em Fernando Haddad. E como diz o rapper Gog, que ocupa o cenário de luta política e social há mais de 30 anos, é “a eleição das nossas vidas”.

“Não é uma eleição normal,
é de autorização da violência apontada pelo candidato
que é um fascista declarado”, pontua Elisa Lucinda.

Para além disso, esse trabalho cotidiano que fazem pelo combate aos preconceitos não é de hoje. É histórico e contínuo em suas vidas: “Isso não é nada que nós já não passamos historicamente. Para nós, povo preto e favelado, sempre vivemos dramas na nossa existência”, revela Mônica Francisco.

Com a experiência de 30 anos de militância, Mônica representa uma importante barreira contra o avanço do conservadorismo nessas eleições: a resistência histórica das mulheres negras de periferia, que tiveram mais visibilidade especialmente após o assassinato de Marielle Franco. Tendo feito parte do gabinete da vereadora, a futura deputada defende e propõe não só a representatividade preta, mas também políticas públicas de valorização das lutas históricas da negritude, que se tornam ainda mais desafiadoras nesse momento: “A presença de figuras como Jair Bolsonaro é também uma resposta social. É resultado de uma parcela da população que não esconde mais o seu racismo”, reconhece.

Dedicando boa parte de sua rotina à conscientização de eleitores para a virada dos votos, o rapper Gog também resgata a transformação social que sempre fez em três décadas de carreira artística, desde suas lutas ativistas nos anos 90. Assim, sendo um dos maiores representantes do movimento hip hop nacional, durante essas eleições ele ergueu uma luta de continuidade e coerência com a revolução que esse gênero sempre causou nas periferias, nas comunidades negras e também nos centros urbanos:

“A maioria das pessoas do hip hop trabalha para a democracia, mesmo magoado com o PT. É porque a gente acredita que a liberdade de expressão conquistada na redemocratização e que o hip hop conquistou com o trabalho não combina com Bolsonaro”, declara em uma live em sua página no Facebook.

Diante do momento que ameaça valores essenciais à democracia como o diálogo plural, o respeito mútuo e a livre troca de ideias, eles resistem de forma didática e ágil. Como antídoto para o fascismo, apostam em sensibilizar pessoas, aproximar histórias e gerar reflexão.

“É educativo e pedagógico, nada melhor que exemplos muito simples. Por que só tem negros e negras nas prisões, por que só pessoas pretas são revistadas? Assim mostramos que coisas corriqueiras do cotidiano são resultados do racismo. Não adianta fazer discursos que não alcançam exemplos”, conta Mônica, que também combate os preconceitos nas igrejas evangélicas, como pastora.

É em meio às atividades banais do cotidiano que Elisa Lucinda também se posiciona, provocando simples questionamentos que desconstroem o ódio do antipetismo. Angustiada e preocupada com amigos, artistas, pessoas negras e mulheres defendendo um político que ameaça suas próprias vidas, ela puxa o assunto a todo momento com todos que convive. Inclusive com garçons, vendedores, taxistas, que ela enxerga muitas vezes sendo obrigados por seus patrões a votarem contra Haddad.

Em uma conversa com o segurança de um banco, que é negro e declarou seu voto em Bolsonaro, Elisa o questionou com respeito: “Ué, mas você vai votar contra nós mesmos? Ele diz que seus filhos não casariam com negros porque foram bem educados. Eu sou uma mulher preta de respeito. O povo preto já está morrendo, tenho medo de assassinarem o meu filho negro, minha cumadre lésbica”. No fim, ele repensou seu voto com um: “é mesmo, não tinha pensado nisso”. Expressando seu posicionamento com afeto e informação, Elisa acredita na virada por ter despertado diálogos como esse, que já levaram muitos de seus conhecidos a mudarem de posicionamento.

“Minha resistência é pela palavra,
o meu ‘vira-voto’ é por reflexão”,
reconhece a poeta.

A palavra também é ferramenta de luta de Gog, que vem há meses reafirmando constantemente a denúncia da “guetofobia” expressada pelo militar do PSL em suas propostas e ideias. Pela quais o candidato já julgou lutas da comunidade negra, feminista e lgbt como “coitadismo”, as ações do MST como “terroristas”, e disse graves discriminações e ameaças contra quilombolas e indígenas.

Gog participa de atos públicos, apresentações e debates educativos, explicando os riscos dessa condutas fascistas e violentas. Assim, ele também vivenciou o processo eleitoral passando horas em vídeos ao vivo no Facebook. Ali, se colocava disposto a ler as crescentes opiniões bolsonaristas ou neutras, e as respondia respeitosamente com explicações didáticas sobre o momento. Sua luta se dedica especialmente a conscientizar e negritude das favelas: “A periferia não pode ser contra a periferia. Os periféricos não podem ser contra as lutas negras. Não podemos ser a favor de mais cadeias, quando a maioria dos encarcerados são do nosso povo”, disse ele, em entrevista ao Jornal Empoderado, durante um o Ato Lula Livre no Capão Redondo, em São Paulo.

 

Tudo isso ficou ainda mais expressivo em seu novo videoclipe, “O rap rompe a rima”, com a participação dos rappers Cristiane Sobral, Dree-K, Rebeca Realleza e Henrique QI. Na música, os artistas afrontam as declarações machistas, racistas, homofóbicas e pró-tortura de Bolsonaro. Assim, o rapper reflete a urgência de se posicionar na linha de frente dessa resistência, espalhando ideias de conscientização e respeito com a mesma rapidez que os discursos de ódio têm sido disseminados. E como mostra Elisa Lucinda, tudo isso é parte fundamental da arte: “Não faz sentido ser artista sem espairecer o nosso tempo. A gente traduz a realidade, as contradições dela e as nossas potências dentro dela. O espetáculo é o meu comício.”

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Cultura

FOTOPRETA – Exposição Fotográfica Coletiva terá lançamento nesta sexta (26/10)

Contrariando as narrativas de invisibilização e elitização da arte, propondo novos discursos imagéticos a partir de outros pretos olhares, FOTOPRETA, é a primeira exposição fotográfica coletiva formada integralmente por fotógrafos negros e fotógrafas negras, em São Paulo, com curadoria do coletivo AFROTOMETRIA. A mostra totalmente independente reúne trabalhos de diferentes gerações da fotografia paulista, celebrando os novos artistas e homenageando nomes como Wagner Celestino, um dos mais antigos fotógrafos negros, em atuação, que também compõe a exposição.

A abertura de FOTOPRETA acontecerá no próximo dia 26 de outubro de 2018, na Casa Elefante, e é um marco na história da arte da fotografia, em São Paulo. Participam os artistas: artistas: Bruno Nascimento, Bruno Pompeu, Daisy Serena, Douglas Kuman, Felipe C. Souza, Fernando Solidade, F, Georgia Niara, Glauber Rafael, Ina Hds, India, Isabela Alves, Jessýca Alves, João Maia, Julio Cesar, Kahmi, Mariana Ser, Monica Cardim, Nego Júnior, Osmar Moura, Ras Sidimar, Renata Santos, Richner Allan, Roger Cipó, Rogério Pixote, Silvio Martins, Sérgio Fernandes, Tiago Santana, Wagner Celestino

Em um país com maioria da população negra, coerente seria que a presença desse grupo fosse refletida em todos os campos sociais, artísticos, culturais e profissionais da sociedade, no entanto, o racismo estrutural marginaliza, invisibiliza e nega esse povo. Historicamente, homens negros e mulheres negras sofrem com tal desumanização e com a desvalorização de suas potências, e acreditem, na fotografia, essa realidade não é diferente.
Quantos fotógrafos negros você conhece? Quantas fotógrafas negras você conhece? Onde estão negros e negras na fotografia?

Corpos negros sempre foram apresentados em imagens, ao longo da história do Brasil. As primeiras imagens traziam homens e mulheres africanas na condição de produtos de venda para escravização, mulheres negras eram retratadas cuidando, amamentando e educando as crianças e seus algozes, homens negros estampavam notícias de jornais acusados de crimes,. De lá pra cá, imagens de marginalização, hiper-sexualização, demonização entre outras violências simbólicas ilustraram e criaram imaginários sobre negros e negras, no país. O Brasil se consolidou racista e a fotografia foi um importante instrumento para cristalizar tais narrativas. Quando se olhou para a humanidade negra? Quando se valorizou as criações negras, produzidas a partir de olhares negros? O quão poderoso é ver o povo negro recontar e reconstruir sua história a partir da fotografia? Essas e outras questões são base para impulsionar esse movimento. Esses são algumas das questões que baseiam a exposição e por esse caminho dialogaremos.

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Desmilitarização

Manifesto da Frente Estadual pelo Desencarceramento de São Paulo

Por Frente Estadual Pelo Desencarceramento de São Paulo

O Brasil, nos últimos 25 anos, aumentou mais de 700% sua população carcerária. Esse crescimento vem acompanhado de intensas violações de direitos humanos e torturas, passando por superlotação, falta de medicamento, ausência de comida, água, saneamento básico, falta de oportunidades de trabalho e acesso ao estudo. É fundamental ressaltar o caráter seletivo do sistema penal, tendo em vista que 64% das pessoas presas são negras, em comparação aos 53% que representam na população total do país, e que 80% da população carcerária está presa por crimes contra o patrimônio ou por tráfico de droga em pequenas quantidades.

O perfil da população carcerária brasileira evidencia o caráter racista e classista do sistema penal, estruturado e construído historicamente enquanto um mecanismo de controle e extermínio da população negra e pobre do Brasil. A criminalização e a perseguição ativa de determinados grupos sociais opera como estratégia de legitimação de um projeto político genocida, que tortura, mata e explora os indivíduos dentro das instituições totais e dos aparatos repressivos, tudo isso dentro dos limites do Estado de Direito. O cenário catastrófico do sistema prisional nos dias de hoje, portanto, não deve ser entendido como uma falha do Sistema de Justiça que negligenciou os presídios e a população carcerária, mas sim como um mecanismo que cumpre muito bem seu papel. Diante disso, encaramos ser fundamental a mobilização de diversos setores da sociedade – entidades, instituições e movimentos sociais – na luta por medidas imediatas, de médio e longo prazo, pelo desencarceramento.

Nós, do estado de São Paulo, encaramos uma realidade peculiar em relação ao restante do Brasil. Aqui, concentramos mais de 30% da população carcerária do país. Além disso, a população carcerária paulista vem enfrentando medidas como a intensa interiorização dos presídios – o que funciona como inviabilização concreta de visitas às pessoas presas-, a existência de RDD (Regime Disciplinar Diferenciado) não oficiais e a intensa e violenta atuação do GIR (Grupo de Intervenção Rápida), que age de maneira militarizada, muitas vezes, sem identificação, com armamento letal e máscaras, executando operações rotineiras nas penitenciárias do estado. Esses fatores, somados à precariedade de vida da população egressa do sistema prisional, bem como dos efeitos nocivos que o encarceramento gera na vida das pessoas que passaram pelo cárcere, constituem o caráter violador e torturante do encarceramento contra o qual lutamos.

Esse alarmante e histórico cenário vem nos impulsionando a lutar pelo desencarceramento há anos. No entanto, nossa trajetória é marcada por conclusões em torno da insuficiência da luta restrita às vias institucionais, como o Poder Judiciário. Por isso, consideramos que a característica fundamental de nossa atuação deve ser a mobilização da sociedade, dando-se por meio da promoção de debates, intervenções em espaços públicos e visibilidade para a luta pelo desencarceramento.

Para nós, é imprescindível realizar a discussão em torno das Fundações Casas, que podem ser encaradas como verdadeiros presídios para crianças e adolescentes, valendo ressaltar que as condições de precariedade e violência nessas instituições são tão graves quanto as das prisões.
Uma das medidas possíveis e um dos pilares de nossa atuação é a discussão sobre a legalização das drogas, que defendemos ter ligação direta com o super encarceramento no Brasil. A guerra às drogas é verdadeira guerra à pobreza , assim sendo a descriminalização e legalização das drogas é um passo fundamental na luta pelo desencarceramento, tendo em vista que mais de 60% da população penitenciária responde por crimes relacionados a drogas. Assim, defendemos e nos propomos a discutir, em conjunto com grupos que historicamente lutam em nome dessa reivindicação, um modelo de legalização que seja aliado à inserção de trabalhadoras e trabalhadores brasileiros no mercado legalizado, como uma das ferramentas contra a criminalização da pobreza.

Lado a lado à reivindicação de medidas de médio e longo prazo que tenham em vista minorar a gravíssima situação do sistema prisional brasileiro, temos como objetivo repensar o direito penal e a forma de lidar com os conflitos sociais. Para isso, é fundamental a construção de métodos antipunitivistas para lidar com conflitos, pois partimos da reflexão que os conflitos sempre existiram e continuarão a ocorrer em uma sociedade. A proposta é justamente encontrar formas menos danosas e que, de fato, solucionem os conflitos sociais, hoje, o direito penal apenas cria novos conflitos.

Consideramos que o punitivismo é fruto da estrutura social em que vivemos, de modo que a luta antipunivista, que possui o desencarceramento como um de seus pilares, é também uma luta anticapitalista e antipatriarcal, levando a uma mudança estrutural da sociedade.
Como passo inicial, acreditamos que é possível desenvolver e fortalecer práticas antipunitivistas para a resolução comunitária e não-violenta de conflitos em nossa sociedade.Dessa forma, consideramos que a Agenda Nacional pelo Desencarceramento é um instrumento para reduzir danos atuais em torno da barbárie do sistema prisional, colocando-se como um programa de medidas concretas para a redução massiva da população carcerária.
Pretendemos que nossa atuação desenvolva-se essencialmente por meio de trabalhos de base territorial nos bairros da cidade de São Paulo e demais cidades do estado, por meio da construção coletiva com pessoas que já passaram pelo cárcere, egressas e egressos do sistema prisional, familiares de pessoas presas, militantes, coletivos e entidades, tendo como objetivo a disseminação das propostas de desencarceramento e do debate em torno do abolicionismo penal. Nosso principal objetivo de luta e princípio é o fim do encarceramento e a abolição do sistema penal.

Diretrizes e reivindicações:
1- Desencarceramento em massa e suspensão de verbas para a construção de novos presídios;
2- Legalização das drogas;
3- Ampliação e efetivação das garantias da Lei de Execução Penal;
4- Proibição da privatização de presídios, das Fundações Casa e terceirização dos serviços internos;
5- Não criminalização de condutas e autonomia comunitária para resolução não punitiva de conflitos;
6- Instrumentos de combate e prevenção à tortura, com controle social exercido por familiares de pessoas presas e egressas/os;
7- Responsabilização do Estado pelos danos causados pelo encarceramento às pessoas presas, egressas e aos familiares;
8- Desmilitarização da polícia e da sociedade.

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Agenda Mulheres O quê que tá pegando?

Projeto social Plano de Menina realizará formatura para garotas que participaram da iniciativa neste ano 

Neste sábado, 20, das 14h30 às 19h45, o projeto Plano de Menina realizará a formatura das alunas que participaram da iniciativa durante este ano. A celebração irá acontecer na EBAC – Escola Britânica de Artes Criativas e terá influenciadoras digitais e artistas embaixadores do projeto como Eliane Dias – empresária do Racionais MC, Rayza Nicácio – Youtuber, Isabella Trad – Digital Influencer, entre outras meninas e mulheres poderosas.

Além disso, a organização do projeto apresentará ao público o mini documentário “#MeDáLicença”, que conta a história de meninas que por meio da autoestima resgatada se reconhecem como potência e se encorajam a realizar seus planos e ocupar espaços, e do Instituto Plano de Menina.

Com entrada gratuita, a formatura terá palestras, apresentações musicais, comidinhas, workshops e painéis.

 

Conheça o projeto Plano de Menina

Com o objetivo de lutar pelo direito das meninas e da equidade de gênero no Brasil, o projeto social vem atuando desde 2016 na construção de oportunidades para meninas, especialmente das comunidades de São Paulo. O Plano de Menina foi criado pela comunicóloga e jornalista Viviane Duarte, mulher brasileira, que cresceu nas periferias de São Paulo e depois de conquistar seus espaços na sociedade e realizar seus planos, entendeu que era hora de voltar sua atenção às meninas que ela fora um dia. “Nascer em periferias da cidade e sem privilégios para ocupar espaços importantes na sociedade é bastante cruel, especialmente para meninas. Eu nasci num lar de mulheres fortes e a educação e sorte me fizeram “hackear o sistema” que insiste em criar muros ao invés de pontes. O Plano de Menina nasceu com o objetivo de proporcionar às meninas oportunidades de serem protagonistas de suas histórias, independentemente de onde elas tenham nascido”, afirma a idealizadora do projeto.

O projeto também conecta meninas a oportunidades de emprego e cursos profissionalizantes, além de bolsas de estudo em universidades. “Vejo muitos projetos e instituições importantes com foco em advocacy, que também é um de nossos pilares de extrema importância, porém, é preciso se conectar e estar com as meninas no corpo a corpo, além de fazer lobby em Brasília para mudar leis, temos de mostrar às meninas que elas não estão sozinhas e é exatamente isso que fazemos com o Plano de Menina”, conclui Viviane Duarte.

https://youtu.be/k2xB5UpmISk

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Cultura

Arthur Michell, a inspiração para uma geração de bailarinos negros nos EUA

Por Edson Cadette, do Blog Lado B NY

 

Aos 84 anos, Arthur Michell, que durante 12 anos encantou plateias ao redor do mundo dançando na companhia de dança de NYC Ballet, faleceu, no dia 19 de setembro, em Nova York. Além de atuar à frente dos palcos, o artista também foi responsável por fundar da companhia de dança Dance Theater of Harlem 

Mitchell foi o primeiro dançarino negro a integrar o corpo de bailarinos da prestigiosa escola de dança mostrando destreza, agilidade, carisma e muita beleza. Seu carisma foi considerado como o fator principal para fundar e encabeçar a companhia Dance Theater of Harlem.

Quando o bailarino pisou no palco para dançar com a parceira de arte,  Diana Adams, muita gente não poderia acreditar na parceria entre um dançarino afroamericano ao lado de um símbolo caucasiano de beleza e pureza. Você pode imaginar o quão audacioso para a época um afroamericano e uma mulher branca dançando juntos?

Ele sabia que sua dança deveria ser apresentada impecavelmente sem qualquer cintila de falha.

Uma de suas últimas apresentações foi logo após o assassinato do reverendo Martin Luther King Jr, em 1968. George Balanchine, o diretor artístico e co-fundador da companhia de dança, criou a coreografia “Requiem Canticles” como uma homenagem ao reverendo assassinado. Arthur Mitchell ficou tão chocado e triste com o episódio que ele começou a trabalhar para a criação de  uma companhia de dança que poderia servir de inspiração e incentivo para as crianças do bairro do Harlem.

Arthur Mitchell é “filho” do Harlem. Ele nasceu em Março de 1934. Seu pai era superintendente num edifício em Manhattan e sua mãe dona de casa. Quando criança cantou na Liga Atlética da polícia e no coral da igreja batista “Convent Avenue”. Ele também realizou aulas de “tap dance”.

Arthur Mitchel e o corpo de dançarinos do Dance Theater of Harlem

Sua chance de dançar profissionalmente aconteceu quando estava numa festa, e o conselheiro escolar  o viu dançando e sugeriu que fosse fazer uma audição para a prestigiosa escola de dança “High School of Performing  Arts”, em Manhattan.

Após concluir o ensino médio, Arthur Mitchell recebeu uma proposta para integrar o corpo de dança do Ballet Americano de Nova York, apoiado por uma bolsa. Durante seus anos de estudos, participou de apresentações na Broadway, no espetáculo “House of Flowers”. Ele estava viajando na Europa com o grupo de dança John Butler Dance Theater, quando chegou o convite para fazer parte do City Ballet na temporada 1955-1956. Ele também criou seu primeiro núcleo de dançarinos profissionais quando ainda era assistente do coreógrafo Rod Alexander em 1957, no show da Broadway “Shinbone Alley”.

Arthur Mitchell ensinou também balé em academias de dança, incluindo a prestigiosa escola de dança Katherine Dunham, em Nova York, e na escola de balé Jones-Heywood, em Washington, ambas importante institutos de dança para profissionais negros.

Durante sua estadia na escola Jones-Heywood, a famosa crítica de dança, Jean Battey Lewis, do periódico The Washington Post, escreveu dizendo que Arthur Mitchell parecia um sargento de instrução quando ensinava seus alunos. Ele fundou a Companhia Nacional de Balé do Brasil nos anos 1960.

Sua maneira durona o ajudou no começo como diretor da Dance Theater of Harlem. A companhia de dança começou sua gloriosa trajetória em uma garagem remodelada e abrindo oficialmente para o público em 1971 com um programa de três balés apresentado no eclético museu Guggenheim de Nova York.

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Agenda O quê que tá pegando? Política

Aula Pública: No país da escravidão, de que fascismo falamos?

Em um país fruto de quase 400 anos de escravidão, as ideologias e valores da opressão social carregam necessariamente a carga do que o constitui historicamente. Vivemos a ascensão do fascismo, é verdade. Mas que fascismo é esse? O que o caracteriza? Como derrotar Bolsonaro nas urnas e dar continuidade ao projeto politico do povo negro? Vamos conversar e pensar ações diretas para fazer avançar direitos do povo negro e do povo trabalhador? Bora se ver e lutar juntes!

Para abordar coletivamente o assunto, nesta quinta-feira, 18, a partir das 19h, no Teatro Oficina em São Paulo, ocorrerá uma aula pública sobre a relação do fascismo com a escravidão. O evento terá a participação de importantes representantes do movimento negro.

Douglas Belchior explica a relevância desse tipo de iniciativa durante a atual situação política do Brasil. “O ato é um momento importante para reflexão sobre os aspectos do fascismo crescente no Brasil, mas é também um momento de agitação, animação da militância pra ir pra rua virar votos para Haddad, afinal, só tem uma forma de derrotar Bolsonaro: Levar Haddad à vitória!”, diz o historiador.

Confira abaixo os convidados confirmados. 

Maria José Menezes – Núcleo de Consciência Negra na USP
Xênia Eric Estrela França – Cantora
Andreia de Jesus – Deputada Estadual eleita – Muitas – Psol MG
Deputada Leci Brandão – Cantora e Deputada Estadual eleita – PCdoB – SP
Erica Malunguinho – Aparelha Luzia – Dep. Estadual eleita – Psol SP
Douglas Belchior – Professor da Uneafro Brasil

 

Serviço

Data: Quinta feira – 18 de Outubro

Horário: 19h00

Endereço: Teatro Oficina – Rua Jaceguai 520 – Bixiga – SP

Mais informações em: https://www.facebook.com/events/280815155975246/?ti=cl

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Educação Popular

 “Não se mostra o caminho apontando o dedo, mas seguindo à frente”

Por Douglas Belchior

Conhecimento, coragem e exemplo. Tive professores assim. Devo a eles o que eu sou como pessoa, como ser humano. E agradeço eternamente.

Outro provérbio: “É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”.

A tafefa de educar não é só do professor, mas de toda a comunidade. A vida educa, o convívio educa, o ambiente educa. Nossas ações, posturas, opiniões são fruto direto da educação e da forma como as informações são compreendidas por nós.

Se temos uma parcela da população brasileira adepta de ideias conservadoras, de propostas violentas e contraditórias com a vida, hoje representadas por Bolsonaro, é porque foram educadas para isso.

Ninguém nasce defendendo estupro, odiando negros e homossexuais, achando certo armar crianças ou concordando que patrões tem a vida muito difícil Brasil.

Ninguém nasce Bolsonaro.

Cada um de nós temos o dever professoral de conversar com cada pessoa nesse país, provocar empatia, criar vínculo, apresentar outras ideias, formar outra opinião e impedir a desgraça absoluta, que viria com a vitória do Bozo nessas eleições.

Parece difícil, mas saiba: difícil é dar aulas para 16 turmas de 40 alunos toda semana, fechar diários, corrigir provas, comer giz e chegar disposto e inspirado à ultima aula do dia, as 10h da noite.

Obrigada aos meus professores da vida, que tanto me ensinaram!

Vamos virar. Eu acredito!

#HaddadSim 13
#maislivrosmenosarmas

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Cultura

Mostra Excêntrica traz programação recheada de espetáculos teatrais com temática LGBT

A partir desta quarta-feira, 9/10, começa a 5ª Mostra Exêntrica em São Paulo. O evento é uma oportunidade única para quem curte teatro e com temáticas LGBT. Com programação até o dia 27 de outubro, a iniciativa vai ocorrer na Oficina Cultural Alfredo Volpi, que fica na Rua Américo Salvador Novelli, 416, em Itaquera.

Organizado pelo Coletivo Cultural Sankofa, o evento pretende descentralizar e difundir a produção cultural LGBT+ na região da Zona Leste de São Paulo. Com temáticas sobre: corpo, sexualidade, identidade e arte, a Mostra terá apresentações teatrais, performances, shows, exibição de filmes, exposição fotográfica, oficinas e debates.

Confira abaixo os dias e horários em que você pode acompanhar espetáculos que estiveram em cartaz e fizeram muito sucesso:

20hs – Espetáculo “Dama da Noite” com Luiz Fernando de Almeida
O ator Luiz Fernando Almeida vive Dama da Noite na adaptação do conto de Caio Fernando Abreu. Com direção de Andre Leahun, o monologo fala sobre um ser humano que vê o mundo e não sente-se inserido no que vê. Amor, Sexo, Solidão, AIDS, são alguns dos temas discutidos pela personagem.
Duração: 60 minutos
Classificação Indicativa: 18 anos

20hs – Espetáculo “Cartas a Madame Satã ou me desespero sem notícias suas” – Os Crespos
Fragmento do espetáculo “Cartas a Madame Satã, ou me desespero se notícias suas” da Cia Os Crespos. Em um quarto um homem negro se relaciona com a mítica figura de Madame Satã, interpretado por Sidney Santiago.
Duração: 35 minutos
Classificação Indicativa: 14 anos

19hs – Performance teatral “#2017-445” do Coletivo Bixa Pare
A performance expõe o revoltante fato de termos 445 mortes registradas por LGBTfobia no ano de 2017. 445 vidas registradas apenas no ano de 2017. 445 vidas que foram interrompidas apenas por expressarem suas condições neste mundo. São estouros que alertam a nossa existência no país que mais mata a população

Duração: 45 minutos
Classificação Indicativa: livre

20hs – Espetáculo: “Gotas de Codeína” com Luiz Fernando de Almeida
Gotas de Codeína conta a história de Cesar, um homem comum, que aparenta estar contente com a vida que leva, mas que no fundo está profundamente deprimido. A peça revela intimidades de um homem casado que vive atrás de máscaras, sem coragem de assumir seu verdadeiro “Eu”. Cesar, como tantos outros, já não suporta mais continuar e pensa em acabar com a própria vida.
A plateia é convidada a vivenciar juntos, alguns momentos cotidianos do personagem, enquanto refletem sobre questões como amor, família, sexualidade e felicidade.
Até que ponto podemos fugir do que realmente somos? Vale a pena viver uma vida pela metade?
Duração: 50 minutos
Classificação Indicativa: 18 anos

27/10
16h30 – “Pátria Amada” da CiA dXs TeRrOrIsTaS
Pátria Amada é um atentado poético inicialmente projetado para a 21º Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo em parceria com o coletivo Diretores de Cena Brasil. Na tentativa de lavar uma bandeira de sangue, os terroristas poéticos são marcados do mesmo vermelho que tinge o país que mais mata a população LGBT no mundo. Essa violência rodeada de um festejo que celebra, luta, mas também ignora as forças que estão em jogo nas periferias, onde o glamour é sentenciado, o glitternão brilha e as cores são desbotadas. Para aqueles em que o armário ainda é front de sobrevivência…
Duração: 40 minutos
Classificação Indicativa: livre

MOSTRA EXCÊNTRICA – até o dia 27 de outubro – Gratuito
PROGRAMAÇÃO SUJEITA À LOTAÇÃO
Oficina Cultural Alfredo Volpi
Rua Américo Salvador Novelli, 416 – Itaquera, São Paulo
(11) 2205-5180

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Política

Por um quilombo no Congresso

Por Gaby Conde
Bárbara foi presa porque seu cabelo “parecia” com o da moça que assaltou outra moça, no Rio de Janeiro. Renato foi baleado por agentes públicos porque, como candidato a deputado estadual nessas eleições, estava panfletando (!!!!) pelas ruas de Curitiba. O adolescente Mário foi morto por um policial militar reformado no Recife porque foi “confundido com um assaltante”…
Tem muitos outros casos como esses. Em todo país. Diariamente. O que essas pessoas e eu temos em comum é o fato de sermos negras. E isso muda, completamente, a maneira como somos socializadas.
Marielle foi, brutal e covardemente, assassinada por denunciar, dentre outras coisas, esse extermínio da juventude negra. Por apontar o dedo na cara da sociedade e afirmar que o genocídio do povo preto é um projeto institucionalizado.
A emissora de televisão de maior alcance do país “não conseguiu” atrizes e atores negros para protagonizarem uma novela ambientada na Bahia, estado com a maior população negra do país. Curioso que para representarem traficantes, ladrões e serviços de subalternidade, a tal emissora sempre os encontra.
Nós, negras e negros, permanecemos “inadequados” aos lugares de destaque na sociedade e seguimos sendo socialmente estereotipados em nossas características e habilidades. Esteticamente, continuamos fora de um padrão de beleza exportado lá “daseuropas”. Nesse quesito, conseguimos, no muito, que nos considerarem “exóticos”.
Por essa imposta inadequação, quando tentamos ocupar ou ocupamos um espaço decisório e de poder enfrentamos de maneira mais feroz a resistência de quem insiste em acreditar, ainda que inconscientemente ( ou não!), que este lugar não nos pertence.
Muitas vezes, inclusive, partindo de gente que luta por Direitos Humanos, por partidos que supostamente defendem bandeiras progressistas e se define antirracista, mas que mantém a perversa prática de invisibilizar, desvalorizar e criminalizar corpos negros.
A simples presença de pessoas negras em determinados ambientes e cargos é tão, tamanhamente, incomodativa nessa sociedade racista e desigual que, como disse a gigante, Conceição Evaristo, nenhuma porta nos é aberta por oferecimento. Todos os lugares em que estamos tem a ver com nossas demandas.
Foi muito a partir dessas reflexões que lançamos, ano passado, o coletivo nacional “Vamos de Preto”, uma construção pensada e feita a várias mãos com o intuito de formar lideranças negras para a disputa de espaços de poder também na política institucional.
Gente potente como nossa irmã Marielle, Áurea Carolina, Laina Crisóstomo, Douglas Belchior, Marivaldo, Edilson Silva, eu e muitas outras pessoas que já atuavam – em seus estados, cidades e comunidades – no enfrentamento ao racismo e que compreenderam que se não nós, não teremos nossas necessidades priorizadas; tampouco nossos gritos serão ouvidos…
Somos 54% da população brasileira, no entanto, dos atuais 513 deputados federais, apenas 24 são negros. Dos 81 senadores, três são negros. Nenhuma negra ou negro ocupa a cadeira de chefe do governo no Executivo dos estados. Assim também é no STF e na atual equipe ministerial.
Somos as pessoas que mais morrem violentamente; somos maioria da população carcerária; somos quem tem menos oportunidades de estudo e trabalho; somos as pessoas que são mantidas nas favelas-senzalas…
E é por isso que queremos fazer nosso quilombo no Congresso Nacional!! Pois, se ainda há senzala, que haja a força da nossa insistência em existir e resistir. Tal qual nossos ancestrais!!!
Colocamos nossos corpos, nossas vidas à disposição para levar e defender nossas pautas e demandas – nós por nós – pois, acreditamos que esse é, além do único, o caminho legítimo para construção de uma sociedade mais justa e igualitária para todas as pessoas.
Por um quilombo no Congresso!!!

Gaby Conde é militante e ativista na luta antirracista e em defesa dos Direitos Humanos há mais de duas décadas. Mulher negra, nordestina, periférica, feminista, mãe autônoma, arteeducadora, educadora popular e capoeirista. Está candidata a deputada federal pelo PSOL/PE traçando, pela primeira vez, o caminho da política institucional.

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Política

Iniciativas cidadãs incentivam o voto em candidatos negros

43% das candidaturas das eleições 2018 no Brasil são de mulheres negras e homens negros.
(Reprodução/Facebook)

Por Daniella Franco. (Matéria publicada originalmente no site RFI)

O primeiro parlamentar negro do Brasil foi o jornalista e militar Eduardo Gonçalves Ribeiro, eleito para o cargo de deputado federal em 1897. Mais de um século depois, a eleição de candidatos negros pouco evoluiu no país: em 2014, quase 80% da composição do Congresso era de brancos. Com o objetivo de lutar contra essa discrepância, grupos se organizam na sociedade civil e nas redes para eleger mais negras e negros.

Nas redes sociais, a campanha dos candidatos negros é acompanhada de uma hashtag: #VoteEmPreto. O movimento tem o objetivo de eleger mais candidatos negros e aumentar a participação desta parcela da população na política brasileira.

Nas eleições de 2014, dos 513 deputados eleitos para a Câmara, 410 eram brancos declarados, ou seja, 79,9% do Congresso que atua até hoje é branco, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Paradoxalmente, de acordo com os dados de 2016 do IBGE, 54,9% da população brasileira é negra (46,7% são pardos e 8,2% são negros). Mas apenas 20% dos parlamentares são negros.

Nas redes, representantes do movimento negro se mobilizam. Linda Marxs, blogueira do Efigenias, criou no Facebook o grupo “1 Milhão de Brancos Votando em Candidatos Pretos”. O objetivo é divulgar a candidatura de mulheres e homens negros com a meta de convencer um milhão de eleitores brancos a votar em candidatos negros.

Em entrevista à RFI, Linda Marxs explicou que a iniciativa se inspira no intelectual e militante negro Abdias do Nascimento, criador do Teatro Experimental do Negro. Quando se candidatou a vereador no Rio de Janeiro, em 1954, seu lema de campanha era: “Não vote em branco. Vote no Preto Abdias do Nascimento”.

“O 1 Milhão de Brancos é uma reverberação do movimento Vote em Preto, com o objetivo de brincar e provocar, usando a linguagem do meme, para fazer emergir ideias e incentivar que as pessoas abandonem os clichês, como quem diz que não considera o voto ‘por cor’ porque dá prioridade para a competência dos candidatos. Só que esse eleitor só vota em candidatos brancos e, ao mesmo tempo, diz que todas as pessoas são iguais. Então, essa provocação tem um tom de humor, mas também é uma forma real de angariar votos para os candidatos pretos”, diz.

A iniciativa de Linda Marxs deu certo. O grupo tem quase 3 mil participantes e divulga diariamente a candidatura de dezenas de mulheres e homens negros. “Obviamente, o ideal não seria que uma pessoa escolhesse um candidato apenas por ser preto. Mas não é apenas por ser preto, mas pelo que ele representa, é o incentivo da democracia, é a luta antifascimo, e é também uma forma de os brancos se posicionarem contra o racismo”, salienta.

A militante destaca que, apesar da grande polarização política no Brasil, o “1 Milhão de Brancos Votando em Candidatos Pretos” não faz distinção entre os partidos políticos, embora a maioria dos candidatos negros sejam de partidos de esquerda. Linda Marxs se inspira no lema “Nem Direita, Nem Esquerda. Preto”, do Frente Favela Brasil, movimento que reúne e apoia vários candidatos negros e das periferias. “Eu parto do princípio que eu sou uma mulher de esquerda. Porém, antes de tudo, eu sou preta. Isso significa que eu vou divulgar qualquer candidatura de pretos antes de priorizar minha orientação política”, diz.

Iniciativas fundamentais

Nilza Camillo, do Frente Favela Brasil, é candidata a um mandato coletivo no Senado pela Rede Sustentabilidade em São Paulo. Ela é um dos perfis divulgados no “1 Milhão de Brancos Votando em Candidatos Pretos”. Para a candidata, o apoio das redes sociais e do movimento negro tem sido fundamental, especialmente para as mulheres negras, “que não são representadas em nada”. Nilza é uma das organizadoras da campanha “Vote Nelas!”, em prol da candidatura de mulheres negras.

“O espaço para os homens negros e as mulheres negras na política é zero”, afirma. Segundo a candidata, a falta de inclusão social gera o desinteresse desta população pela política. “Não somos considerados nas tomadas de decisões. Por isso, é preciso intensificar nossa luta pelo protagonismo e pela igualdade de oportunidades. Afinal, nós somos a maioria dos brasileiros”, ressalta.


Nilza Camillo, do Frente Favela Brasil, é candidata a um mandato coletivo no Senado pela Rede em São Paulo
Divulgação

Candidato a deputado estadual pelo PSTU-SC, Daniel DeKilograma também elogia as iniciativas, mas ressalta o paradoxo da necessidade de movimentos em prol da maior representatividade dos negros no Brasil, “130 anos após o fim da escravidão e sem nenhuma reparação”. “O racismo é institucional e velado no Brasil”, diz.

Daniel DeKilograma denuncia a falta de representantes negros em Santa Catarina, um dos Estados do sul do país colonizado por imigrantes europeus no século XIX. O candidato conta que, ao visitar recentemente a Assembleia Legislativa catarinense, há algumas semanas, observou que no mural onde são exibidas as fotos dos legisladores, não há nenhum negro ou negra. “Como podemos ser representados desta forma?”, questiona.


Daniel DKG DeKilograma é candidato a deputado estadual pelo PSTU em Santa Catarina
Divulgação

Resquícios de séculos de escravidão

O que explica um número tão pequeno de representantes negros na esfera política brasileira? Para José Henrique Artigas de Godoy, doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP) e professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), a principal explicação são “os longos séculos de escravidão”.

“A escravidão acabou imputando à História Brasileira uma série de desigualdades que jamais foram superadas plenamente porque o processo de abolição não incorporou meios de criação de oportunidades de integração social dessa camada da população egressa das senzalas. Isso acabou refletindo em uma trajetória de segregação, de hierarquia, de preconceito, de estigma e discriminação para as pessoas que vêm desta trajetória. Então, até hoje, os negros são a parte da população que tem menos oportunidades econômicas, sociais e políticas”, diz.

Para Artigas de Godoy, a participação dos negros no ambiente parlamentar é “absolutamente incompatível” com a proporção de negros na população. Ao mesmo tempo, eles são os que têm os menores salários, menos acesso ao Ensino Médio e Superior. Além disso, a maioria dos negros indiciados no Brasil são condenados e compõem mais de 70% da população carcerária brasileira. “Isso acaba se reproduzindo como um padrão social discriminatório, que se reflete no aspecto político”, reitera.

Um exemplo é a falta de investimentos nas candidaturas de negros, que é quase uma regra para os partidos no Brasil. Nas eleições de 2014, apenas o PCdoB e o PCB destinaram uma verba maior às candidaduras de deputados negros. No mesmo ano, os candidatos brancos receberam um investimento três vezes maior, em média, nas outras legendas.

Para as eleições de 2018, segundo informações do TSE, o PT é a legenda com o maior percentual de candidaturas de negros: 50% do total. No entanto, em proporção, quem ganha é o PSTU, no qual 42% dos candidatos se autodeclararam pretos. Já o Novo é a legenda com o maior número de candidatos brancos: 85% e menor quantidade de candidatos pretos: 1,2%. Os outros partidos com menos candidatos pretos são PSL (4,7%), PSDB (6%) e PSD (6%).

Eleitorado brasileiro é preconceituoso

Neste ano, as candidaturas de negras e negros aumentaram. Do total de 28,1 mil pessoas inscritas para concorrer aos cargos de deputado estadual, deputado federal, senador, governador e presidente, 46% são negros. Os brancos representam 53%, os amarelos (com descendência asiática) são 0,6% e os indígenas são 0,5%.

Apesar do aumento de candidaturas negras, poucos passarão a integrar a esfera política brasileira. Para Artigas de Godoy, não há outra explicação para este fenômeno: o eleitorado brasileiro é tradicionalmente conservador e preconceituoso. “Essa é uma confirmação estatística. Uma coisa é a candidatura, outra é a ocupação de cadeiras parlamentares, onde as desigualdades ainda são brutais em relação ao que observamos sobre o perfil geral da população brasileira”, completa.

Nas eleições de 2014, menos de 4% de negros foram eleitos.