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Cinema

No calor da noite – Cinema

Por Edson Cadette, do Blog Lado B NY

O ótimo suspense No Calor da Noite (1967) estrelando Sidney Poitier no papel de Virgil Tibbs, agente do FBI, e Rod Steiger como chefe de polícia Gillespie, tem vários dos elementos que marcaram a conturbada relação entre cidadãos negros e brancos na América, especialmente no sul.

O filme começa com o assassinato de uma figura importante do mundo dos negócios na pequena cidade de Sparta, no estado do Mississippi. Virgil Tibbs, elegantemente vestido, está sentado numa estação ferroviária esperando seu trem para levá-lo para bem longe da cidade. Confundido com o assassino, Virgil é revistado, algemado e levado para a delegacia local sem ter a oportunidade de esclarecer sua presença na cidade (ele veio visitar a mãe).

Rod Steiger, Sidney Poitier e Jester Hairston

Depois de  resolvido o engano e o chefe de polícia Gillespie verificar que Virgil não é um simples policial, e sim um especialista altamente qualificado em homicídios, ele pede a Virgil que fique na cidade para ajudar a esclarecer o assassinato. Virgil recusa a oferta, mas é obrigado a ficar poque seu superior pede que fique e ajude a solucionar o caso.

Enfrentando a resistência dos policiais, Virgil começa a trabalhar para a polícia local muito a contra gosto.

O diretor Norman Jewison toca em pontos importantes da cultura do sul dos EUA. O primeiro deles é que o negro sempre é o suspeito padrão em qualquer ato ilícito, jamais passaria pela cabeça do policial ignorante que Virgil era um agente do FBI. Outro ponto mostrado pelo diretor é o tratamento dado aos cidadãos negros independentemente da classe social entre eles. Quando Virgil está buscando um local para ficar é levado até um mecânico, que imediatamente se solidariza com a situação do brother de status diferente.

Percebemos que não há diferença no tratamento dos afro-americanos. Ambos sabem que no sul dos EUA os negros são tratados com menosprezo, não importando a classe social que pertencem. A cena de cumplicidade entre os dois é clássica.

Sidney Poitier, Rod Steiger e Warren Oates

Com a luta pelos direitos civis dos negros, que teve seu auge nos anos 1960, uma outra cena de grande impacto para a época foi o tabefe revidado por Virgil e dado pelo poderoso fazendeiro da cidade. A cena mostra que a atitude servil, que até então era a esperada dos negros, não cabia mais nos anos 1960.

O diretor ainda aborda os símbolos importantes para os sulistas brancos, especialmente depois do final da sangrenta Guerra Civil (1861-1865). Antes de resolver o caso, Virgil é emboscado por supremacistas brancos. O agente é perseguido por um carro com com uma bandeira em forma de um X, que simboliza os estados Confederados do Sul.

Virgil é salvo pelo chefe de polícia, pois Gillespe sabe que ele está num patamar social e intelectual completamente diferente dos racistas locais.

Com uma equipe de atores altamente qualificados e liderados por Sidney Poitier e Rod Steiger, o filme No Calor da Noite ajudou a manter acesa a discussão sobre o legado da escravidão nos Estados Unidos e seus efeitos 100 anos após o fim do período de Reconstrução.

  • Elenco: Sidney Poitier, Rod Steiger, Warren Oates, Lee Grant, Anthony James e Quentin Dean
  • Direção: Norman Jewison
  • Duração: 109 minutos
  • Estúdio: United Artists
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Cultura

Teatro da Neura encerra curta temporada de ‘Yerma’

Foto: Michel Galiotto

Comemorando os quinze anos de existência, o Teatro Neura chega hoje (30) à capital paulista trazendo o espetáculo Yerma, que estreou em setembro do ano passado após oito anos de pesquisa sobre Realismo Fantástico, e promete grande celebrações para o grupo. A curta temporada de Yerma será nos dias 30 e 31 de janeiro, às 20h30, no Teatro De Contêiner, com valores de 10 a 20 reais.

A companhia Teatro da Neura, nascida em Suzano, também é criadora do Espaço N de Arte e Cultura, sua sede oficial, onde geralmente os próprios artistas são responsáveis fazem suas apresentações.  “Um grupo movimentado por tesão e paixão a partir das resistências individuais que formam esse coletivo. Essa identidade”, diz Antonio Nicodermo, diretor do espetáculo ao lado de Lígia Berber.

Diretores Antônio Nicodemo Lígia Berber / Foto de Michel Galiotto

Nicodermo explica que o grupo possui atualmente três vertentes: o “realismo fantástico”, que levou oito anos de pesquisa, as releituras de Nelson Rodrigues e “teatro, política e sociedade”. Foi com a primeira que começaram a utilizar aquilo que consideram ser pioneiros na área: criar espetáculos criteriosos no rigor estético e dramaturgo através de uma nova escola teatral.

“Nos debruçamos em toda obra de Garcia Lorca e estudamos o artista. Chegamos em um resultado de uma obra extremamente simbólica e muito ritualística que envolve muitos assuntos contemporâneos”, disse o diretor ao ser questionado sobre Yerma. Escrita em 1934, a tragédia ganha uma montagem na tênue linha de um presságio, o malogro dos desejos que não concretizamos. A peça propõe ao público um deslocamento da realidade, espaço e tempo a partir da frustração de uma mulher.

No próximo dia 03 começam o circuito de espetáculos do texto O Menino Gigante ou os Dez Fevereiros. Segundo Nicodermo o grupo tem uma agenda vasta para 2019 com muitas pesquisas, estudos, ensaios e apresentações.

Foto: Fabrício Augusto

Serviço

  • 30 e 31 de janeiro
  • Quarta e Quinta
  • 20h30
  • Ingressos: $20 inteira . $10 meia
  • Teatro De Contêiner
  • Rua dos Gusmões, 43 – Santa Ifigênia. São Paulo.
  • Ingressos a venda também pelo link
  • A Bilheteria abre 2h antes do espetáculo
  • Realismo Fantástico – Terror
  • Classificação: 14 anos
  • 125 minutos . Com intervalo

Direção

  • Antônio Nicodemo
  • Lígia Berber

Elenco 

  • André Antero
  • Camila Ribeiro
  • Conceni Paulina
  • Lígia Berber
  • Priscila Nicoliche
  • Tamíris Terra

 

 

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LGBT

A visibilidade TRANSformando o país

Diego Padgurschi/Folhapress

Por Marina Souza

Segundo dados do Antra (Associação Nacional de Travestis e Transsexuais), o Brasil é o país que mais mata transsexuais e travestis no mundo. No ano passado, 53% destes assassinatos foram cometidos com arma de fogo, 21% com arma branca e 19% por agressão física. Entre os casos, 96% foram arquivados e somente 4% resultaram em denúncias à Justiça. Quando trata-se da vida acadêmica os números continuam assustadores: 0,02% estão na universidade, 72% não possuem o ensino médio e 56% o ensino fundamental. “Se a gente não se posicionar, cada vez mais perderemos mais direitos e ficaremos mais vulneráveis. A gente precisa se unir”, diz Samara Sosthenes, uma das coordenadoras transsexuais do Núcleo Luz da Uneafro e professora de Ecologia e Biologia.

O Dia da Visibilidade Trans, 29 de janeiro, representa uma data de conscientização e lutas por direitos da população transgênera. Sosthenes acredita que o momento serve para reafirmar a existência e resistência do grupo, que constantemente é invisibilizado e negligenciado socialmente, “é para mostrar que a gente tá viva e quer viver” esboça ela.

O Google homenageou a data colocando um doodle com o rosto da militante Brenda Lee, importante transsexual na luta contra a HIV e conhecida como “anjo da guarda das travestis”. Dêmily Nóbrega também é coordenadora do Núcleo Luz e não considera positivas as críticas que empresas como Google são submetidas quando lançam campanhas em defesa de causas sociais. Para ela, lucrar é uma circunstância do sistema capitalista e sendo assim, é impossível conseguir alguns avanços sem o apoio destas empresas.

Boodle do Google ilustra Brenda Lee — Foto: Divulgação/Google

Com apenas 29 dias de governo, a professora Sosthenes revela ter percebido grandes mudanças para a população trans no país. Trabalhando no Centro de Cidadania LGBTI+ da zona sul paulistana, ela notou que os números de casos de agressão, estupros e outros tipos de violência aumentaram muito. A retirada dos direitos LGBTI+ das diretrizes dos Direitos Humanos, a extinção da cartilha sobre a saúde sexual dos homens trans, a ministra Damares Alves declarando uma “nova era” permeada de sexismo, a saída de Jean Wyllys (PSOL) e tantos outros acontecimentos marcam o início de um ano que promete ser difícil para as minorias sociais.

 

 

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Movimento Negro

Movimentos sociais pedem doações para mobilização da próxima audiência do caso Luana Barbosa

De Pedro Borges (Alma Preta)

Organizações do movimento negro e de mulheres têm se mobilizado para angariar fundos para a quinta audiência de instrução e julgamento de Luana Barbosa, no dia 7 de Fevereiro, no fórum de justiça de Ribeirão Preto, Rua Alice Aleem Saad, n° 1010.

Os manifestantes organizam duas campanhas de arrecadação de fundos para financiar o aluguel de um ônibus de São Paulo para Ribeirão Preto na data da próxima audiência. Uma delas é articulada pela coletiva Luana Barbosa, que disponibiliza uma conta para depósito.

A outra é pensada pela União dos Coletivos Pan-Africanistas (UCPA) e o grupo Nenhuma Luana a Menos, que construíram uma rifa de R$ 5,00 para o sorteio das obras “Lélia Gonzalez: Primavera para as Rosas Negras” e “Beatriz Nascimento: Possibilidades nos dias da destruição”.

O protesto em frente ao fórum serve como memória aos 3 anos do crime e como forma de pressionar a justiça para levar os policiais envolvidos no caso para júri popular.

“Acreditamos que um número expressivo de pessoas nesse dia é uma forma de mostrar apoio aos familiares de Luana e é, também, um meio necessário para tornar evidente que o assassinato de Luana não foi e nem será esquecido”, diz o texto de convocação do ato.

Luana Barbosa foi espancada pelos policiais Douglas Luiz de Paula, André Donizete Camilo e Fábio Donizeti Pultz, em Abril de 2016. Segundo o Instituto Médico Legal (IML), a jovem perdeu a vida por conta de isquemia cerebral e traumatismo crânio-encefálico, resultado do espancamento sofrido.

Depois de ouvidas as testemunhas dos policiais que ainda precisam dar depoimento, a juíza Martha Rodrigues Moreira tomará uma decisão sobre o caso. A expectativa da família é que os policiais sejam levados para júri popular, sob acusação de homicídio doloso, quando há intenção de matar.

Serviço:

Rifa

Para participar da Rifa, entre em contato o telefone: (11) 99281 2163
Livros: “Lélia Gonzalez: Primavera para as rosas negras” e “Beatriz Nascimento: Possibilidade nos dias da destruição”
Valor: R$ 5,00

Doação

Ag: 1449-4
Conta corrente: 0047113-5
Bradesco
CPF: 374.185.078-01
Nome: Fernanda Gomes de Almeida

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Cinema

Quando a rainha Nzinga trouxe o mar pra Minas

A Rainha Nzinga Chegou / Foto: Divulgação

Por Viviane Pistache*

Nos idos tempos em que a América do Sul e a África era um continente só, antes do abalo sísmico causado pela Europa, Minas tinha mar; tanto é que tem um bairro na cidade de Betim que se chama Angola.  Foi nesse pedacinho de África mineira que Dona Maria Casimiro fundou a Guarda 13 de Maio em 1944. No que deu quatro décadas, sua filha Dona Isabel Casimiro das Dores Gasparino foi coroada Rainha Conga de Minas devido ao passamento de Dona Maria, cumprindo a tradição matriarcal. Princesa da Guarda desde os cinco anos de idade, Dona Isabel foi coroada Rainha aos 45 anos e  por 31 anos presidiu a Guarda de Moçambique e Congo Treze de Maio de Nossa Senhora do Rosário. Como se não bastasse, por mais de duas décadas foi Rainha Conga do Estado de Minas Gerais. Antes tarde do que nunca, em 2014 Dona Isabel foi agraciada com o prêmio “Mestres da Cultura Popular de Belo Horizonte”, concedido pela Fundação Municipal de Cultura.

Esta e outras histórias sobre Dona Isabel podem ser conferidas no filme “A Rainha Nzinga Chegou”, dirigido e protagonizado  por sua filha Belinha que compartilha a direção com Júnia Torres. O documentário está competindo na Mostra Aurora, da 22ª Mostra de Tiradentes. Tenho pra mim que uma das cenas mais marcantes do longa é a que traz Dona Isabel chamando o nome de batismo e registro sua filha, carinhosamente apelidada de Belinha. Dá gosto de ver Dona Isabel pronunciando o nome completo de sua filha: Isabel Casimira Gasparino. Um nome que carrega a força de uma ancestralidade re-significada. Ao evocar o nome da família, Dona Isabel convoca Belinha a assumir seu legado. O que acontece com o repentino passamento de Dona Isabel no dia 02 de junho de 2015, aos 76 anos.

Com essa inesperada notícia, nosso congado chorou tanto que até ressuscitou o litoral de Minas, que por um instantinho, teve mar de novo. Mar de Angola que beijou as Lágrimas de Nossa Senhora, da coroa de Belinha do Sagrado Rosário dos Pretos Velhos de Aruanda. Foi feita a travessia reversa. O navio negreiro até estava lá todo enferrujado e encalhado, assombrando a paisagem, como um pesadelo que nunca vamos esquecer. Mas como Dona Belinha bem lembrou, ela navegou os céus, escoltada pela Guarda, pois ela tem ciência de que não anda só. Por isso ela nem temeu mais as turbulências do marear. E assim, nas asas de metal ela voou por cima do temporal pra nossa estrela natal.

Dona Belinha é aquela voz de tambor que re-traduz nossas tradições afro-futuristas com uma fabulosidade que nos arrepia todinha. Igual quando ela visitou Ngola e Matamba, pra pisar nas terras onde a guerreira Nzinga reinou e lutou contra a invasão portuguesa. As nossas pegadas ancestrais demonstram que nossos antepassados tinham “um senhor pé” tão grande que enquanto o direito tava aqui, o esquerdo estava a quilômetros de distância, numa passada tão veloz que chegavam a voar. Ou como nos versos de Sérgio Pererê que Dona Belinha lembrou bem: “pois meu velho abre caminho ou me leva pelo ar”.

Quando Belinha chegou no sítio arqueológico que preserva as pegadas de Nzinga ainda menina, ela não se conteve. Experimentou pra ver se o pé dela cabia na pegava. No que deu o encaixe perfeito, imediatamente Dona Belinha faz florescer a canção “eu pisei na pisada da Nzinga. Eu pisei na pisada da vovó. Eu pisei na pisada da Nzinga, eu pisei na pisada da vovó.” Sim, ela é encantadora. Como se não bastasse, Belinha descobre que do lado do hotel onde ela estava hospedada, havia um pé de Lágrimas de Nossa Senhora, aquela qualidade de semente que se usa nos rosários e na coroa no congado. Belinha ficou abismada com o tamanho das sementes: “cada bitelona!”. Ela até colheu um bocadinho de sementes que germinaram valentes no seu reinado no Concórdia, em Belo Horizonte.

É aquilo né, o que tem aqui tem lá do lado de lá do mar. Seja semente, seja gente. Foi em Angola que Belinha se deu conta que toda gente preta tem um clone em África, de tão parecidos que somos. Em Angola ela reviu um conhecido, Seu Dandico, já falecido há muito. Mas como ela mesma disse “ o cenário foi preparado pela ancestralidade”. Quem iria na viagem era a sua mãe, mas com seu passamento inesperado, Belinha, que tem o mesmo nome da mãe, consegue viajar com a mesma passagem, inclusive.

Foi uma viagem de luto e luta. O ritual do velório de Dona Isabel casou plenamente com o ritual de visita aos túmulos onde repousam nossos antepassados, guerreiros que resistiram à ocupação portuguesa, como a Nzinga. Motivo pra lamentar a gente aos monte, mas não podemos perder a chance de celebrar toda vez que podemos. Como bem disse Dona Belinha: “cada milímetro avançado, é um quilômetro conquistado”.

Interessante que o filme A Rainha Nzinga Chegou foi exibido um pouco antes do curta-metragem Negrum3 de Diogo Paulino. O jovem negro, de vinte e sete anos, trouxe para as telas uma ousada proposta do gênero afro-futurista. Ele disse que faz filmes de raiva, com raiva e a partir da raiva. Ele faz do ressentimento de ser cotidianamente violentado, a matéria-prima para a revolta. Fiquei pensando na diferença de temperatura entre a fala dele, afrontosa e urgente, com a da Dona Belinha, calma e encantada como quem entra na guerra sempre pra vencer. Me dei conta de que ambos fazem revolta e celebram. Ainda que em tom de contestação, Negrum3 celebra a vida da juventude negra trans-viada, feminista e sapatão que tá viva, ao passo que Dona Belinha celebra a tradição herdada e ambos se encontram lá, na esquina do passado com o futuro, onde o presente se faz possível.

Sam davi que guese gonê! Na cerimônia de abertura da 22ª Mostra tocou uma música bem interessante. Se chama Gonê, do rapper Filipe Rete. O jovem resgata uma língua inventada no bairro do Catete no Rio de Janeiro pela resistência para driblar a censura durante a ditadura. O idioma que ficou conhecido como Gualín do TTK usava a artimanha de dizer as palavras com as sílabas invertidas. Assim, o título da música Gonê traduzido significa Nêgo. E Sam davi que guese ganê, é vida que segue nêga! Assim, me ocorreu que o reverso da RAIVA de Diogo Paulino pode ser o AVIAR de Dona Belinha, essa griot que avia a vida tanto navegando os ares quanto no aviamento perfeito com o qual ela faz a costura da vida. Na linha do céu ela é estrela, na linha da terra é rainha.

Poderia terminar por aqui essas linhas, mas seria desonestidade intelectual deixar de mencionar que o documentário A Rainha Nzinga chegou, causou ruídos à boca miúda, enquanto o debate foi absolutamente afetuoso. As críticas que ouvi se referem ao olhar da câmera que peca por seu amadorismo e etnografia rota. Sem querer tomar partido da diretora Júnia Torres, me agrada o fato de ela ter revelado que a primeira câmera no terreiro está nas mãos de Cida Reis, mulher negra pioneira no áudio-visual mineiro e que também assina a produção do filme. É importante ainda ressaltar que Júnia foi convocada por Belinha para fazer os registros.

Guardada as devidas proporções, me fez lembrar de um fato relatado na Afrografias da Memória, de autoria da professora negra da UFMG, Leda Maria Martins. Tendo sido princesa da Guarda de Congado de Jatobá em Ibirité, Minas Gerais, ela foi escolhida pelo capitão-mor da guarda, João Lopes, que no leito de morte a elegeu a pesquisadora digna de ser guardiã privilegiada da memória deste reinado negro mineiro. Tem-se aqui um raro e belíssimo caso em que a intelectual é escolhida pelo sujeito, subvertendo hierarquias tão consentidas nas pesquisas tradicionais, nas quais a experiência do Outro fica à mercê do bel prazer dos investigadores. Houve ainda quem tencionasse o tom essencialista de uma África mítica e dos elementos católicos da tradição do congado.

Polêmicas à parte, o documentário é em grande medida fruto de uma bela amizade e um registro necessário de nossa ancestralidade. O acervo está garantido e as análises a gente vai disputando com o tempo. Felizmente, temos as interpretações sobre os fatos que podem variar no tempo e espaço. E como me disse Dona Belinha em entrevista exclusiva: “A gente gostaria de fazer o ideal, mas fazemos pelo menos o possível”.

*Viviane Pistache é psicóloga, roteirista e crítica de cinema. Preta das Gerais com mania de ter fé na vida.

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Cultura

Motown 60 anos de música

Por Edson Cadette, do Blog Lado B NY

O final dos anos 1950 nos Estados Unidos ficou marcado por dois importantes acontecimentos culturais. O primeiro deles foi o lançamento da boneca Barbie pela fábrica de brinquedos Matel. O segundo, e certamente com muito mais relevância, foi a inauguração da gravadora Motown criada por Berry Gordy, um jovem adulto de apenas 32 anos de idade e neto de escravos. A gravadora foi aberta na cidade de Detroit, famosa pelas montadoras de automóveis. Na época, a cidade produzia metade dos automóveis do planeta.

Detroit possuía a 4ª maior população de afro-americanos no país, a grande migração, iniciada nos anos de 1940 “fugindo” das amarras racistas dos estados Confederados do Sul, ainda estava em pleno curso. Detroit era uma das paradas obrigatórias além de Chicago, Nova York, Los Angeles e Nova Jersey.

Todos os artistas contratados por Berry Gordy eram afro-americanos filhos de meeiros, metalúrgicos, empregadas domésticas e diáconos religiosos. As chances de um afro-americano escapar do salário mínimo ou de trabalhar numa fábrica eram baixíssimas. Entre os artistas que primeiro colocaram o nome da gravadora no mundo musical estavam Smokey Robinson, Diana Ross, Steve Wonder, Marvin Gaye, the Miracles e Martha and the Vandelas.

The Jackson Five

Assim que os primeiros sucessos invadiram as rádios e as casas nos bairros negros, a gravadora foi “invadida” por jovens que buscavam uma oportunidade no mundo musical. A vontade de “estourar” era tanta que eles não se importavam em fazer qualquer tipo de trabalho.  O cantor mais importante do famoso grupo The Temptations, David Ruffin, ajudou o pai de Berry Gordy a construir o estúdio musical.

A secretária e musa da galera, a bela Martha Reeves, trabalhava no departamento dos artistas e de repertório. A Motown era uma máquina funcionando 24 horas. A grana não era muita, mas Berry Gordy fazia questão de alimentar seus artistas, além de sempre arrumar alguma atividade para fazerem juntos, como por exemplo jogar futebol norte americano. Com isso, ele mantinha na gravadora uma atmosfera mais íntima e sem cerimonias.

Na época o grande desafio da gravadora era furar a enorme barreira racial que mantinha os cantores afroamericanos confinados ao rítmo musical Rhythm and Blues.

Ao inaugurar sua gravadora, o objetivo de Berry Gordy era trazer um som mais agitado e dançante que pudesse ser consumido pela audiência branca com muito mais poder aquisitivo. Para que isto pudesse acontecer ele lançou três selos diferentes: Tamla, Gordye Motown. Com a ajuda do consumidores adolescentes que gastavam milhões comprando os compactos, Berry Gordy descobriu seu filão de consumidores.

Diana Ross

Com uma turnê no lado Leste e Sul dos Estados Unidos, Berry Gordy juntamente com sua entourage acertou em cheio um tiro na lua. A partir desta turnê de enorme sucesso, em apenas 1 ano a gravadora Motown teria como receita o total de $4.5 milhões. Com este dinheiro lançou uma galáxia de compactos que estouraram nas paradas das 100 mais músicas tocadas nas rádios de todo o país.

Entre os anos de 1962 e 1971 a gravadora com suas subsidiárias conseguiu a proeza de colocar 180 números nas paradas de sucessos. Um detalhe importante, setenta por cento dos consumidores eram brancos.

A popularidade de Motown chegou a níveis tão alto que o grupo The Supreme, liderado pela bela Diana Ross, aparecia em comercias por todo país. O mais famoso deles com a marca de refrigerantes Coca-Cola. A dominação da Motown foi tanta que durante seu aniversário de 25 anos, em 1983, um terço dos estadunidenses estavam com suas televisões ligadas vendo o showMotown 25: Yesterday, Today and Forever.

Berry Gordy não é mais o dono da gravadora. A Motown foi vendida em 1988 para a MCA. Hoje ela pertence a Universal Group. Berry transformou a Motown numa verdadeira linha de produção musical como se a gravadora fosse uma montadora. Muita gente credita essa maneira de gerenciar ao período que Gordy trabalhou na linha de produção da montadora Ford.

Berry Gordy e The Supremes

Ele trabalhou com grupos de alto calibre musical como, por exemplo, Gladys Nights & The Pips. Entretanto, o seu pãozinho com manteiga eram os artistas contratados que precisavam ser refinados e polidos. Uma equipe de letristas mantinha a máquina musical bastante azeitada. Muitos dos cantores eram treinados nas igrejas Batistas afro-americanas.

Em turnês pelo país os artistas da Motown descobriram aquilo que seus pais falavam há anos. O racismo nos EUA. Viajando especialmente pelo Sul do país era sempre um desafio encontrar hospedaria respeitável para eles dormirem. Para piorar ainda mais a situação constrangedora, no início dos anos 60, durante a luta pelos direitos civis dos negros, várias vezes a polícia local parava o ônibus dos artistas pensando em tratar-se das famosas caravanas de estudantes do Norte nos chamados Freedom Riders, ônibus com estudantes universitários do Norte que iam ao o Sul para registrar os votos dos negros estadunidenses.

Com a tensão racial envolvendo o país ficou impossível para os artistas ficarem de fora da discussão. Marvin Gaye com a música What’s Going On, Stevie Wonder com Living for the City e Edwin Starr com War entravam solando no debate racial.

Depois de muitas disputas relacionadas com os direitos autorais, Berry Gordy decidiu deixar a cidade de Detroit e mudou seu negócio para Hollywood. Seu sonho sempre foi ser dono de um estúdio de cinema.

Museu da gravadora Motown

Muitos artistas que estavam quando a gravadora foi lançada nos anos 1950 foram embora no início da década de 1970. Com a mudança dos gostos musicais para a música Disco e Funk, a Motown contratou Rick James, Lionel Richie e a banda The Commodores. Entretanto, a enxurrada de artistas deixando a gravadora continuou.

Diana Ross (amante de Berry Gordy), símbolo de glamour, “finesse” e classe, deixou a gravadora em 1981. Assim como qualquer outra dinastia em negócios, a Motown enfrentou tragédias e mortes. Paul Williams do grupoTemptations cometeu suicídio, Florence Ballard morreu de ataque do coração aos 32 anos, Marvin Gaye ficou sem gravar por 4 anos por causa da morte de sua parceira musical Tammi Terrel, que falecera com um tumor no cérebro, e depois foi assassinado pelo próprio pai em 1984. Michael Jackson e David Ruffin, do grupo Temptations, morreram por causa de uma overdose de remédios.

O que começou como uma simples gravadora para dar oportunidades a artistas afro-americanos acabou transformando-se numa legendária gravadora que não somente transformou a cena musical nos Estados Unidos, mas também ao redor do planeta. Durante seus 65 anos de existência a Motown apresentou uma galáxia fantástica de artistas, fazedores de moda, e atitudes sem parâmetro algum na indústria musical do país.

 

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Cinema

Sobre Necropoética e Cinema Negro com Sotaque Mineiro

Por Viviane Pistache*

A conciliação entre negro-tema e negro-vida num cinema de assunto e autoria negra concomitante, foi inaugurada por Zózimo Bulbul com o emblemático curta Alma no Olho (1973), realizado com as sobras do longa Compasso de Espera (1973), dirigido por Antunes Filho e protagonizado por Zózimo. Cinema sempre foi caro e o nosso começou na espreita, nas brechas, nos retalhos que caíram da moviola. Assim o cinema negro nasce  com gosto de reinvenção e reaproveitamento, como feijoada ou pastel de angu. Desde Zózimo o cinema negro conhece as dificuldades e desafios para parir longas metragens de ficção. Depois de Zózimo Bulbul veio o mineiro Joel Zito Araújo, Jeferson De, a mineira Glenda Nicácio, e os mineiros André Novais, Gabriel Martins. Sim, se conta nos dedos o número de diretores/as negros/as que já estrearam longas de ficção de assunto negro.

Mais do que nunca precisamos falar do manifesto Gênese do Cinema Negro Brasileiro ou Dogma Feijoada puxado por Jeferson De em 2000, que dentre as sete prerrogativas diz sobre a urgência de se fazer filmes dirigidos e protagonizados por gente preta e a abolição de histórias e personagens cunhadas em estereótipos. Mas para superar a tese da Negação do Brasil, sagazmente diagnosticada por Joel Zito Araújo em 2000, realizadores/as negros/as precisam ter acesso a financiamento.

Ainda que percentualmente ínfimas, essas narrativas tem incomodado e interpelado o status quo, conforme se viu no Festival de Brasília em 2017 diante da polêmica ensejada pelo filme Vazante da diretora Daniele Thomas, que amplificou as poucas vozes negras no evento. Conforme questionou a cineasta negra Viviane Ferreira na ocasião: Por que raios a presença de pessoas negras na 50ª edição do Festival de  Brasília  tem causado mais incomodo do que nossa ausência histórica do circuito de distribuição de recursos, prestígios e status do audiovisual?

Um saldo positivo do festival de Brasília foi a denúncia das ausências, das invisibilidades e da celebração dos/as pouquíssimos/as jovens negro/as que estouraram a bolha, como a mineira Glenda Nicácio que compartilha a direção dos seus longas com Ary Rosa. Ao fazer cinema no interior da Bahia, inventando assim um cinema “baianeiro”, Glenda traz o debate não apenas da direção negra feminista, como atualiza a discussão das desigualdades regionais. Cinema tem sotaque. E esse óbvio ululante vem à tona com o cinema negro mineiro.

Filhas do Vento (2005), primeiro longa de ficção dirigido por Joel Zito, mineiro de Nanuque, inaugura o cinema de assunto e autoria negra com sotaque mineiro. A trama se passa em Lavras Novas, cidade vizinha a Ouro Preto. É uma história de fuga e reconciliação com as raízes mineiras, de tentativa cura das dores da infância assombrada pelo passado escravocrata e patriarcal.

André Novais e Gabriel Martins têm elevado o cinema negro mineiro à sua potência máxima. Gabriel Martins faz em Rapsódia para um homem negro (2015) um encontro melódico entre a música negra mineira e o cinema negro mineiro. Em Belo Horizonte existe um festival de música chamado IMUNE, Instante da Música Mineira Negra. O cinema mineiro também vive esse instante IMUNE de um cinema que começa com M de movie e movimento que leva Minas pro mundo. Os filmes de André Novais  já foram selecionados em mais de 200 festivais no Brasil e no mundo como o Festival de Locarno (com Temporada), a Quinzena dos realizadores em Cannes (com Pouco mais de um mês em 2013 e Quintal em 2015), Festival de Rotterdam, FID Marseille, Indie Lisboa, BAFICI, Festival de Cartagena, Los Angeles Brazillian Film Festival, Festival de Cinema de Brasília e Mostra de Cinema de Tiradentes, ganhando mais de 60 prêmios, como a Menção Especial do Júri na Quinzena dos Realizadores em Cannes (Para Pouco mais de um mês, Prêmio Especial do Júri no BAFICI e os prêmios de Melhor Filme pelo Júri Oficial na XI Semana dos Realizadores do Rio de Janeiro, no XI Panorama Coisa de Cinema de Salvador e no III Olhar de Cinema de Curitiba (Para Ela volta na quinta) e os prêmios de Melhor Longa Metragem, Melhor Atriz, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte no 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (Para Temporada). Gabriel Martins está na edição de 2019 do Festival de Roterdã na Holanda para a estréia de seu longa No Coração do Mundo co-dirigido com Maurílio Martins.

Os longas Ilha e Temporada e o média-metragem Vaga Carne e o curta BlueNoir de Ana Pi são as produções com direção negra mais celebradas nos dois primeiros dias da 22a. Mostra de Cinema de Tiradentes, a primeira grande janela anual do cinema brasileiro. Cada um a seu modo, tematiza a necropolítica e a necropoética. Necropolítica é um conceito cunhado filósofo e teórico político camaronês Achile Mbembe para as políticas e instituições que ditam quem deve viver ou morrer. O poder de determinar a vida e a morte provendo o status político de alguns sujeitos e negando o status político de outros. Diz sobre a intencionalidade e racionalidade meticulosa no controle e extermínio de determinados corpos. Tal conceito tem sido fundamental no debate sobre todas formas de genocídio a que a população negra tem sido assujeitada. E isso inclui a negação da negritude  nas telas do cinema.

Daí a possibilidade de pensar em necropoética. O neologismo foi criado por Juliano Gomes no debate sobre o filme Vaga Carne na Mostra de Tiradentes. Juliano dizia sobre a relação entre samba, poesia e morte como formas de resistência; citando Nelson Cavaquinho e sua intimidade com a morte pra trazer lirismo à dura sobrevivência. E o média-metragem Vaga Carne traz a voz (des)encarnada, a voz entidade, corpo etéreo de um lugar no limbo, num estado intermediário entre a vida e a morte.

O curta BlueNoir traz a morte e ressurreição da expressão azul de tão preta, historicamente usada ofender ao nivel da dança que toca os céus. Ana Pi faz uma viagem interior e coletiva por dez países do continente africano. Se redescobre negra singular num ciranda. Um corpo feminino negro no mundo que é sua própria embarcação para contar a história do berço compartilhado por um povo em diáspora. Fotografia, dança, música e oralidade em cores bem montadas pra fazer as pazes com o azul.

Ilha por sua vez, tem um quê de é doce morrer no mar depois do torpor que toma corpo de um corpo negro e masculino cuja vida foi nadar contra corrente e contra a morte até abraçá-la. Ilha tem o azul de Moonlight.  E assim como a lua abraça a estrela, também derrama sua luz na pele dos meninos negros para que o azul de suas almas resplandeça. Ilha traz o argumento latente de que todo menino negro precisa do mar para que sua alma possa brilhar incontestavelmente azul. Assim, todo menino-homem negro merece um oceano de oportunidades para estar no meio do mundo e poder navegar pelo menos com confiança. Ilha traz diversas faces do homem negro que usa máscara musculosa mas que precisa apenas de um bom prato de afeto e cidadania. Nesse poético retrato sobre masculinidades negras, Ilha nos oferece a chance de sairmos do clichê homem preto, heteronormativo falocêntrico, criticando assim a hiperssexualidade negra. Merecidamente Ilha levou os prêmios de melhor roteiro e melhor ator para Aldri Anunciação no Festival de Brasília em 2018. Assim, Glenda Nicácio milita por um cinema regional que celebra a negritude a partir da fraternidade dos sotaques mineiro e baiano com os premiadíssimos Café com Canela (2017) e Ilha (2018).

Temporada  traz uma potente crônica da vida preta na periferia que se vê cercada da ameaça da morte em sua face moderna chamada de epidemias como dengue, zika, chikungunya, dentre outras. O diretor André Novais disse no debate sobre o filme na 22a. Mostra de Tiradentes que já foi agente de saúde e o filme é uma releitura das precariedades do mundo do trabalho a partir de sua própria experiência. O longa é protagonizado por Juliana magistralmente encarnada em Grace Passô que levou o prêmio de melhor atriz no último festival de Brasília e em Locarno na Itália.  É um sensível olhar sobre a solidão da mulher negra que busca caminhos para a liberdade e a solitude. Um melodrama que sabe ri do exagero e do inesperado, que traz o onírico e a ficção científica para fazer realismo fantástico, que pedi licença respeitosamente para entrar nas casas da periferia para falar de vida e de morte.

O cinema mineiro está tecendo a poética da morte para tensionar privilégios e debater acessos cada vez mais ameaçados. Ao passo que reverencia a ancestralidade mineira, satiriza a  (im)possível  aposta negra na ascensão liberal no audio-visual.  Neste sentido, vale arriscar lembrar o impacto do discurso da apresentadora Oprah Winfrey na cerimônia de entrega do Globo de Ouro, quando escancarou as lacunas e potências num discurso sobre representatividade negra para além da indústria do entretenimento. Sua fala soou tão necessária que rapidamente Oprah foi apontada como possível panaceia para sanar as enfermidades da combalida democracia norte-americana. Assim, uma mulher negra, que fez carreira na indústria do entretenimento, ao passo que denuncia as desigualdades de raça e gênero na representatividade no audiovisual, ocupou também um complexo papel de bússola para uma nação sem rumo. Apesar do desconforto de saber que o traje do sistema é uma camisa de força com estampa neoliberal; dentro das margens opressoras, talvez seja possível considerar que Oprah e um conjunto de artistas e diretoras/es negras/os estejam ajudando a esgarçar alguns limites, colorindo de gênero e raça correntes ideológicas do entretenimento que são hegemonicamente brancas e masculinas.

Se por um lado é sintomático destes tempos a noção de que devemos nos adaptar ao mundo em mudança, e não mudar o mundo em que vivemos; por outro, os poucos nomes negros e mineiros da atual cena do longa-metragem brasileiro  nos convocam a atentarmos para os papéis das estruturas políticas, econômicas e sociais para o enfrentamento da lógica da necropolítica. Ainda que temos orgulho desse cinema negro mineiro que tem asa na palavra; buscamos a terceira margem do rio.

O cinema negro mineiro está fazendo história.  Apesar da potência transformadora das narrativas negras no audiovisual, o tripé racismo, machismo e capitalismo continua sendo um grande obstáculo para a realização a efetiva escrita de outra história. De fato, ainda que a indústria cultural  exproprie o fazer artístico no sentido de reduzí-lo a meros produtos comerciais; mensagens potentes podem eventualmente infiltrar nas brechas da maquinaria capitalista e contrariar as  correntes que reificam valores racistas e sexistas. E já que o protagonismo não é dado, ele deverá ser tomado. Essa tem sido também a estratégia de realizadoras/es negras/es mineiros  que têm negritado o quão racista e machista é nossa produção que insiste na falácia da neutralidade de sotaques.

 

*Viviane Pistache é psicóloga, roteirista e crítica de cinema. Preta das Gerais com mania de ter fé na vida.

 

 

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Mulheres Negras

No Brasil, mulheres negras são a maioria dos casos de sífilis

Por Marina Souza

As mulheres negras jovens, entre 20 e 29 anos, são a maior parte da população com sífilis no Brasil e representam 14,4% das gestantes que são diagnosticadas com a infecção. O último Boletim Epidemiológico de Sífilis, divulgado pelo Ministério da Saúde, mostrou um aumento do número de pessoas infectadas, que passou de 44,1 casos a cada 100 mil habitantes, em 2016, para 58,1 em 2017.

A sífilis é uma Infecção Sexualmente Transmissível (IST),  causada pela bactéria Treponema pallidum, que atinge mais de 12 milhões de pessoas ao redor do mundo e possui diferentes estágios (primário, secundário, terciário, latente e congênito). Feridas, dores, danos cerebrais e muitos outros sintomas podem representar a sífilis, que se não for devidamente tratada, ocasiona a morte.

Seu tratamento depende do grau da infecção, variando entre penicilina, antibióticos e internação hospitalar. É o uso da camisinha, feminina ou masculina, que previne essa e outras ISTs, e em razão disso, Maria Menezes, mestra em Patologia Humana, acredita que programas socioeducativos em escolas e espaços de formação são necessários. “A única forma de lidar com um tabu é através da informação. A sociedade precisa se dar conta de que as políticas públicas são direitos e que a ausência delas têm consequências devastadoras para todos”, diz ela.

Quanto maior a vulnerabilidade social, maior é o risco de contrair ISTs. É por isso que as mulheres negras constituem grande parte desta população e representam algumas consequências do contexto social no quadro epidemiólogo do país. A realização de políticas específicas para dialogar com esse público é algo que Menezes considera necessário para alterar a situação e por isso, preocupa-se com o despreparo do novo governo que chega ao poder.

Lançamento da Campanha de Prevenção HIV/Aids do Carnaval 2018. Salvador (BA) / Foto: Rodrigo Nunes/MS
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Cinema

Em tempos de necropolítica reinventamos a necropoética

22ª Mostra Tiradentes – Abertura Oficial – Foto Leo Lara/Universo Produção

Por Viviane Pistache *

A 22ª Mostra de Cinema de Tiradentes começou no dia 17 de janeiro de 2019, ou seja, dois dias depois que o atual desgoverno assinou seu primeiro decreto que facilita a posse de arma. Mas qual seria a relação entre arma e cinema? A diretora negra Ava Duvernay no documentário A 13ª Emenda faz uma relação interessante: o capitalismo estadunidense se apoia nas indústrias armamentista e do entretenimento. A maior indústria nos Estados Unidos é a que mais mata a negritude à queima-roupa ou a que mais invisibiliza e estereotipa esta população nas telas?

A abertura da Mostra de Tiradentes destacou o argumento de que cada um real investido em cultura rende quatrocentos reais. Ou seja, cultura é negócio. Mas o desgoverno aposta em armamento e extingue o Ministério da Cultura. Nas mesas de debates da Mostra de Tiradentes uma pergunta tem sido recorrente: o que será da nossa indústria cinematográfica nestes tempos distópicos? Quais os impactos para a realizadores negros/as, historicamente tão alijados/as do acesso a recursos?

Trata-se de enfrentar questões mercadológicas fulcrais, de pensar estratégias para competir com a indústria da violência e do retrocesso, que mata física e simbolicamente a população negra. Melvin Van Peebles, o diretor expoente do Movimento Blaxplotation dos anos 70, estabeleceu os postulados: “Regra número um: não haverá meio termo. Eu farei um filme sobre o negro real. Quero um filme que faça os negros saírem do cinema orgulhosos ao invés de temerosos. Regra dois: esse filme tem que entreter como o Diabo. Regra três: cinema é negócio.”

Sim, cinema é negócio. Um estudo publicado em 2017 pela Creative Artists Agency (CAA) apontou que há o crescimento de uma plateia mais diversa que se interessa por filmes que apresentam diversidade de raça, gênero e orientação sexual, incidindo diretamente na arrecadação. Dentre os incontestes sucessos de bilheteria que ressaltam a diversidade racial dentro e fora das telas, figuram Moonlight, de Barry Jenkins, Corra!, de Jordan Peelan, e Estrelas Além do Tempo, de Theodore Melfi. O Despertar da Força, protagonizado por John Boyega, ator negro, bateu o record de bilheteria absoluta, que pertencia a Avatar e Pantera Negra, de Ryan Cooler, filme de melhor desempenho produzido pela Marvel em 18 anos de existência.

Apesar da primorosa formação de profissionais negros no audiovisual, bem como o acesso ao mercado,  o quadro é bem mais complexo, pois a indústria cinematográfica opera numa lógica bélica na construção de imaginários raciais que não se restringem às fronteiras norte-americanas.

Em tempos de necropolítica reinventamos a necropoética. É a proposta da atriz Grace Passô, a grande homenageada nessa edição do Festival de Cinema de Tiradentes. Na noite de abertura fomos agraciados com a exibição de Vaga Carne, que marca a estréia da Grace na direção do seu primeiro filme ao lado de Ricardo Alves Jr..  Adaptação da peça homônima, Vaga Carne traz para as telas a encarnação da voz que se descobre num corpo negro de mulher. A voz que provoca, a voz entidade que não admite ser interrompida. A voz que satiriza, que invade nossa carne, a voz (im)própria, a voz de Exú que matou um pássaro ontem, com uma pedra que atirou hoje. A voz suicida que rasga a carne para se libertar. A voz do chiste que ri de tanto chorar. A voz do gozo e do lamento. A voz do breu, do inconfessável. A voz que não respira, a voz (des)humanizada.

Em Vaga Carne, Grace Passô traz o teatro para o cinema para justamente sair do teatro. Nesta metalinguagem, a câmara está apontada para o racismo próprio dos palcos e dos bastidores da indústria do entretenimento. E assim conhecemos a alma da resistência de dentro e a partir de seus próprios arsenais. Desse modo a atriz, dramaturga, escritora e agora diretora de cinema Grace Passô torna-se uma testemunha vocal que transita entre mundos de diferentes telas. Lembrando que James Baldwin aponta que as fronteiras entre testemunhar e atuar são finas, porém reais; e que parte da responsabilidade das testemunhas é movimentar com a maior liberdade possível para escrever a história. E assim, uma câmara em mãos negras pode se mostrar um armamento poderoso no enfrentamento às violências e alienações raciais com o simples disparar de um flash.

Mas ao mesmo tempo em que Grace Passô mira, é também mirada. A platéia entra em cena para atuar. No elenco estão nomes fundamentais da cena cultural e negra de Belo Horizonte, pois além de Grace Passô, Vaga Carne atravessa os corpos de Zora Santos, Dona Jandira, André Novais, Sabrina Hauta, Hélio Ricardo, Aline Vila Real, Tásia d’Paula, Valéria Aissatu Sane, Ronaldo Coisa Nossa. E considerando a assunção do olhar na hierarquia dos sentidos, tem-se a miragem como posição de poder.

Assim, a busca por aniquilar uma história da colonização evidencia que a branquitude sempre teve o poder da mira, de apontar pra matar, caçar ou espoliar.  Na frente ou atrás das câmeras o corpo negro assume importante posição de conhecimento, de saberes localizados, a partir dos quais novos projetos de  representações simbólicas se tornam possíveis. Em Vaga Carne nossas vozes e corpos estão dentro do olho do furacão,  resistindo para não se deixar engolir. Vaga Carne é um filme sobre a negritude real, que nos faz sair da sala de cinema com orgulho, e não com temor.

Diante disso, a emergência de diretores/as negros/as é fundamental para a existência de um “cinema do real” onde não há manipulação das aparências para colocar o espectador em um estado passivo de identificação acrítica.”, como indica o negro cineasta, escritor, teórico cultural e historiador do Mali Manthia Diawara. Assim, Grace Passô nos traz uma saborosa vertigem de cinéfila, aquele torpor que experimentamos ao ler Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo, Ana Maria Gonçalves, Alice Walker, Maya Angelou, Toni Morrison, bell hooks e tantas outras. Como é bom citar nossa intelectualidade! E por falar nisso, necropoética foi um termo cunhado pelo crítico negro Juliano Gomes na mesa de debate sobre o filme Vaga Carne, que aconteceu no dia 19 de janeiro na programação da 22ª Mostra de Cinema de Tiradentes, que está reluzindo negritude e afrontamento. Por estas e outras, o festival, que é a primeira grande janela anual do nosso cinema está imperdível. Edição histórica!

 

*Viviane Pistache é psicóloga, roteirista e crítica de cinema. Preta das Gerais com mania de ter fé na vida.

 

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Indígena

Povos indígenas na resistência ao genocídio

Por Marina Souza

“Pode ter certeza que se eu chegar lá não vai ter dinheiro pra ONG. Se depender de mim, todo cidadão vai ter uma arma de fogo dentro de casa. Não vai ter um centímetro demarcado para reserva indígena ou para quilombola”. Com 62% dos votos válidos, o autor da frase chegou “lá” e no primeiro dia do mandato assinou um decreto que transfere a responsabilidade pela demarcação de terras indígenas da Funai para o Ministério da Agricultura. Eis aqui a primeira grande medida que permite o cumprimento da promessa.

A Constituição Federal de 1988 estabelece aos indígenas o direito à demarcação de terras. Isso, contudo, nunca impediu que ameaças, violências e perseguições colocassem em risco as vidas das muitas comunidades originárias. Potencializando essa sangria, um novo governo chega ao poder do país e preocupa diversos movimentos sociais. Diante do cenário tenso, a guarani mbya Jera Guarani, de 38 anos, revela acreditar que Bolsonaro é um enviado do diabo ou o próprio para destruir o Planeta Terra.

Toponoyê Júnior, indío xukuru, de 35 anos, acredita que a medida tomada pelo presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL), serve para beneficiar somente a fazendeiros, grileiros e madeireiros, o que classifica como um tremendo desrespeito à cultura e história do Brasil. Ele enfatiza que ao contrário do que Bolsonaro diz, os indígenas não precisam se integrar na sociedade, afinal sempre fizeram parte da população brasileira. “Podemos morrer, mas vamos deixar nossos legados assim como nossos antepassados”, diz.

Além de contribuir para a preservação étnica cultural, a demarcação é um importante processo de conservação e proteção ambiental, dados do PPCDAM (Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia) mostram que as áreas indígenas são as mais protegidas ambientalmente. Toponoyê, que é ativista na causa e frequentemente está em Brasília acompanhando os acontecimentos, acredita que embora a biodiversidade brasileira já esteja ameaçada há anos, poderá piorar com o novo governo. A rejeição, feita pelo presidente, de tornar o país sede da COP 25 é usada pelo xukuru para exemplificar o descaso no qual as questões ambientais estão submetidas.

Segundo uma pesquisa do instituto Datafolha, divulgada no último dia 13, cerca de 60% dos brasileiros são contra a redução de terras indígenas, que atualmente representam 12,2% do território nacional. Adriana Ramos, associada do Instituto Socioambiental (ISA), classifica como “absurdo” uma gestão governamental que subordine o cumprimento de um dispositivo constitucional em troca de interesses econômicos.

“Na tentativa de reduzir os territórios e massacrar as culturas, o governo Bolsonaro vai se surpreender com uma rede enorme de pessoas – indígenas e não indígenas – defendendo as culturas originárias. O plano sanguinário do extermínio não vai dar certo”, são as palavras de esperança de artista visual Dani Ezrk, de 29 anos, que está auxiliando uma aldeia, localizada em uma área da fazenda Arado Velho, em Porto Alegre, que sofreu um ataque com tiros no último dia 11.

A Ponta do Arado é Guarani – desenho de Dani Eizirik

No próximo dia 24, acontecerá em São Paulo um ato sobre a conscientização indígena para instigar o debate e a luta contra a perca de direitos desses povos.