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racismo

Se Crispim fosse branco, a situação seria diferente

Por Marina Souza

“Perseguição se esquece? Tanta agressão enlouquece”, o verso de Boa Esperança, letra composta pelo cantor Emicida, faz referência às contantes violências sofridas pelos povos negros ao longo dos séculos e à mescla de sentimentos ruins que invadem esses corpos. O trecho parece descrever uma série de casos que têm viralizado nas redes sociais nas últimas semanas, o mais recentes é o do empresário Crispim Terral, vítima de um abuso policial ocorrido na última segunda-feira (25), em Salvador.

Terral, de 34 anos, estava em uma agência bancária da Caixa Econômica Federal e ao reclamar da demora, de quase cinco horas, do atendimento foi surpreendido com agressões físicas que poderiam ter o matado. Assim que ouviu a reclamação, um dos gerentes acionou a Polícia Militar, que deu um “mata-leão” no empresário.

https://www.youtube.com/watch?v=mSEVL0-wO8I

O vídeo repercutiu nas redes sociais e rapidamente diversas pessoas se posicionaram contra o episódio que, segundo a vítima, foi motivado por racismo. Na tarde de ontem (26), cerca de 100 pessoas se reuniram ao local do crime e protestaram em defesa de Crispim.

Em entrevista ao jornal G1, ele disse “eu não desejo isso a ninguém. Nem ao meu pior inimigo, que eu não tenho. É muito triste, é muito doloroso. Eu agradeço todas as mensagens de apoio. Estamos juntos. E vamos dizer não, mais uma vez, ao racismo.”.

O Ministério Público do Estado da Bahia disse que analisará a denúncia. Já a CAIXA afastou o gerente e informou, por meio de uma nota, que “está apurando e tomará todas as providências cabíveis […] e ressalta que repudia atitudes de discriminação cometidas contra qualquer pessoa”.

Ativistas realizam protesto no local do crime (Foto: Betto Jr./CORREIO)

Para Renata Lira, advogada penal e integrante do Mecanismo Estadual de Prevenção e Combate à Tortura do Rio de Janeiro, o banco precisa tomar uma atitude séria em relação ao ocorrido. E afirmou ainda que se a reclamação ao gerente partisse de um homem branco, ele dificilmente teria sido submetido à este tipo de violência e humilhação. “Os homens negros têm uma chance muito maior de serem presos, constantemente são reconhecidos como culpados por crimes que nem estavam presentes no local”, relembrou ela.

 

 

 

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Movimento Negro

Bloco Basta de Genocídio fará ato contra ações preconceituosas do Shopping Higienópolis

Por Marina Souza

Na próxima quarta-feira (27), o Bloco Basta de Genocídio, que é composto por diferentes ativistas da sociedade civil organizada, denunciará o genocídio da juventude preta e periférica do país com a intenção de ampliar as articulações e mobilizações sociais, sobretudo a de movimentos antirracistas. Com o ritmo de protesto, o evento terá início às 18 horas, no Largo Santa Cecília, e marchará até o Shopping Pátio Higienópolis, que há poucas semanas envolveu-se numa polêmica ao tentar barrar a entrada de crianças e adolescentes no local.

O estabelecimento, localizado na região central paulistana, fez recentemente um pedido à Justiça para que sua equipe de segurança apreendesse os adolescentes e as crianças em situação de rua que estivessem desacompanhados de responsáveis e, assim, os encaminhassem à Polícia Militar. Contudo, no último dia 21, a juíza Mônica Gonzaga Arnoni, da 1ª Vara da Infância e da Juventude da cidade, negou a solicitação.

O Shopping havia dito que estava “enfrentado verdadeiro êxodo de crianças e adolescentes em situação de rua, desacompanhados de responsáveis legais, praticando atos em suas dependências que demandam a intervenção do corpo de segurança local.”. Arnoni, que acredita que a real motivação do pedido fora uma tentativa de higienização social, afirmou que o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) já prevê punição a menores de idade que cometem infrações. E enfatizou ainda que “caminhar em sentido contrário em escadas rolantes ou até mesmo pedir dinheiro aos frequentadores” são situações de quebras de decoros, e não crimes.

Grupos como o Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua (MNMMR), Sindicato dos Psicólogos, Fórum de Criança e Adolescente, a Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio, o Movimento Negro Unificado e a Uneafro Brasil são algumas das entidades organizadoras do ato.

O Bloco Eureca (Eu Reconheço o Estatuto da Criança e do Adolescente) também estará presente (Foto: Adonis Guerra)

Para a militante Marisa Feffermann, é inacreditável que em um país democrático crianças negras e pobres sejam impedidas de frequentar esse tipo de espaço. Ela classificou a situação como um “genocídio simbólico” alegando que implica diretamente no direito de ir e vir. “Chega não dá mais. É uma obrigação nossa dizer um basta”, teceu a ativista.

Em nota divulgada ao jornal G1 na sexta-feira (22), o shopping disse que “lamenta o ocorrido e pede sinceras desculpas por gerar qualquer tipo de interpretação contrária à intenção de proteger os menores desacompanhados”.

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Genocídio Negro

Movimentos denunciam pacote anticrime, de Sérgio Moro, na Corte Interamericana de Direitos Humanos

Por Marina Souza

Na última quarta-feira (20), diversos grupos ativistas dos Direitos Humanos protocolaram um documento de denúncia ao projeto do pacote anticrime, apresentado pelo ministro da Justiça Sérgio Moro, e encaminharam à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), órgão autônomo da Organização dos Estados Americanos (OEA), que já está analisando o registro.

Basicamente, o documento pede um posicionamento do órgão sobre as medidas e a disponibilização de um observador internacional para acompanhar o caso no Brasil.

As redes Uneafro Brasil, Alma Preta, Aparelha Luzia, CEERT, Cooperifa, Casa no Meio do Mundo, Desenrola e Não me Enrola, Movimento Negro Unificado, Marcha das Mulheres Negras, Núcleo de Consciência Negra na USP e Fórum Permanente de Igualdade Racial são apenas alguns dos 41 nomes que assinaram o escrito.

Para Regina Santos, militante há mais de duas décadas no Movimento Negro Unificado (MNU), o pacote propõe a institucionalização dos genocídios que já estão em curso no país. Ela acredita que ações como essa são fundamentais, pois possibilitam que haja repercussão do assunto em nível internacional, fazendo com que organismos de diferentes poderes sociais possam se posicionar contra as ameaças aos Direitos Humanos.

Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

“Esse pacote deveria ter outro nome. Pacote do crime, pacote antinegro, pacote do genocídio. É um ministro criminoso que propõe a barbárie para a sociedade brasileira”, falou Douglas Belchior, coordenador e professor da Uneafro.

De acordo com as organizações, as políticas do atual governo aprofundam as desigualdades sociais e os números de assassinatos da população negra. Entre os pontos do projeto que mais colocam em risco a comunidade negra, as entidades destacam a proposta de prisão em segunda instância, que aumentará o número de presos no país, e o menor rigor na apuração e punição dos casos de homicídio cometidos por agentes de segurança do Estado.

 

 

 

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Consciência Negra

Há 54 anos o ativista Malcom X era assassinado

Por Marina Souza

Há exatamente 54 anos, em 1965, um dos mais conhecidos e importantes líderes do Movimento Negro de todos os tempos era assassinado com 14 tiros enquanto discursava em um comício de Nova York. Cinco décadas depois, o ativista que ganhou grande destaque nas décadas de 50 e 60 nos Estados Unidos, continua sendo tema de debates, estudos, pesquisas e inspirações de ativismo dentro e fora de movimentos negros.

Primeira cena do filme Malcom X, dirigido por Spike Lee o longa mostra a história de vida do militante

Infância sob chamas

Nascido em maio de 1925 em Omaha, Malcolm Little teve uma infância recheada de episódios marcantes, que posteriormente o ajudariam a enfrentar os discursos e as práticas racistas tão presentes no território estadunidense. Em 1926 membros da KKK (Ku Klux Klan) atearam fogo na casa onde vivia com sua família, que foi então obrigada a exilar-se para Wisconsin. E como se não bastasse o episódio, três anos depois, quando haviam se mudado para Michigan, a vizinhança branca do bairro articulou uma ação judicial que exigia a saída da família, que não atendeu ao pedido e teve – mais uma vez – a casa incendiada.

Aos seis anos de idade, o pequeno Malcom precisou lidar com o luto da morte do pai, que fora encontrado mutilado em uma ferroviária, e aos treze, presenciou a mãe sendo internada num hospital psiquiátrico. Foi nessa época que passou a morar em uma residência de detenção juvenil sob a custódia de brancos.

Negros, uni-vos

Quando chegou à juventude Little passou a morar no bairro majoritariamente negro de Harlem e tetando sobreviver, entrou para o mundo do crime, que o tornou presidiário durante seis anos e meio. Foi na cadeia que Malcom começou a ler sobre o Islã e envolver-se com a religião.

O líder da Nação do Islã na época, Elijah Muhammad, pregava que Alá era negro e que os afro-americanos deveriam viver em países diferentes dos brancos, como uma espécie de proteção e respeito a identidade da cultura negra. Tomando contato com sua crença, Malcom identificou-se e quis fazer parte do crescente movimento.

Cena do Filme Malcom X em que o personagem, interpretado por Denzel Washington, questiona a cor de Deus

A luta

Logo após conquistar a liberdade, em 1952, ele ingressa oficialmente para a Nação do Islã e retira o sobrenome “Little”, apresentando-se agora como Malcom X. O novo sobrenome foi escolhido porque o ativista não achava justo ressaltar nomes de escravocratas.

O sistema de apartheid, que segregava os negros nos EUA, estava sendo o grande alvo de crítica dos movimentos negros da época. A aproximação de X com discursos e ações antirracistas tornava-se cada vez mais evidente e ele começara a defender que a população negra, que a essa altura era o grupo de maior vulnerabilidade social no país, pegassem em armas e lutassem contra os opressores.

Malcom viajou o mundo conhecendo ativistas de diversas causas e países. Sempre muito polêmico, tornou-se motivo de discordância entre movimentos e militantes dos direitos civis. Havia quem o considerasse extremista e quem o reconhecesse como o grande líder da luta negra do momento.

Três homens que eram de uma corrente islâmica divergente da de Malcom organizaram seu assassinato, que ocorreu no dia 21 de fevereiro de 1965. O emblemático militante negro deixou quatro filhas, a esposa gestante e continua sendo até os dias de hoje lembrado pela sua incansável luta.

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Arte

King Kong: o outro rei na Broadway

Por Por Edson Cadette / Blog Lado B NY

O reino animal definitivamente tomou conta dos palcos da Broadway. O primeiro exemplo deste reinado fica por conta do musical O Rei Leão, que estreou no teatro há mais de vinte anos e continua atraindo milhões de novaiorquinos e turistas.

King Kong, baseado no famoso filme de 1933, fez sua estréia no final de 2018 no coração do mundo teatral de Nova York: a Broadway. O musical chegou marcando presença e, certamente, está querendo destronar o rei da selva. Duas outras versões foram feitas por Hollywood, uma de 1976. estrelando Jessica Lange, e a outra de 2005 com Naomi Watts.

A história é bastante conhecida: um ambicioso aventureiro – e talvez lunático – diretor de cinema convence a sua tripulação, uma jovem e desempregada atriz e o capitão de uma pequena embarcação à participarem das aventuras das selvas da ilha de Skull Island. A intenção dele é encontrar algo tão grandioso e magnífico que possa transformar o mundo dos espetáculos do chamado “mundo civilizado”. King Kong torna-se então a resposta para incerta aventura.

Ao entramos no belíssimo teatro Broadway, a primeira imagem que notamos é o de duas silhuetas. Uma de um enorme gorila e a outra de uma diminuta mulher.

Christiani Pattis (Ann Darrow) e Eric Williams Morris (Carl Denham) | Foto: Reprodução

A direção do musical fica por conta de Drew McOnie, a trilha sonora por Marius de Vrie e a música por Eddie Perfect. O elenco é protagonizado por Christiani Pitts, Eric Williams Morris e Lori Lotchtefeld, que representam, sem dúvida alguma, algo raro dentro nos palcos da Broadway: diversidade.

King Kong é uma marionete com mais de 6 metros de altura que pesa mais de 2 toneladas. O enorme gorila é manipulado por 14 profissionais de primeiro gabarito, que são ajudados por 16 microprocessadores espalhados por todo o corpo do boneco. A maneira como é manipulado de um lado para o outro é um trabalho feito meticulosamente e que não altera os movimentos do gorila. Ficamos tão envolvidos e conectados com a história e a relação entre a bela e a fera que nem percebemos que ele é uma enorme marionete.

King Kong e Ann Darrow | Foto: Reprodução

“Ele é um personagem com um carácter expressivo e com um grande alcance de emoções, tive que realmente melhorar bastante minha representação para poder competir”, disse a atriz Chrstiani Pattis, cuja relação com o enorme gorila é o foco central da história. “Quando trocamos olhares pela primeira vez, ele dá um enorme rugido e eu começo a soluçar. Não parece que ele pertence a este espaço”, completa ela.

Com uma produção que ultrapassou a casa dos US$35 milhões e que durante mais de uma década passou por diferentes roteiros, músicas e equipe de criação, King Kong chegou na Broadway com todos os atributos para tornar-se, junto a Rei Leão, um dos grandes musicais da casa.

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Consciência Negra

Inimigos de Marighella sabiam que ele não era branco

Por Marina Souza

Mesmo antes de sua chegada ao Brasil, o filme Marighella, dirigido por Wagner Moura, tem gerado algumas polêmicas entre os brasileiros. Além dos gritos de protesto do público e da placa de Marielle Franco presentes no Festival de Berlim, na última sexta-feira (15), alguns internautas decidiram discutir a cor do guerrilheiro retratado no longa metragem. O fato de Seu Jorge ter sido o ator escolhido para interpretar o papel está sendo criticado por algumas pessoas que insistem em afirmar que Marighella não era negro.

Discursos como esse, que negam o guerrilheiro enquanto uma pessoa negra, legitima – mais uma vez – as contantes tentativas de embranquecimento sofridas pela população preta no país. Dizer que Carlos Marighella, líder da luta armada contra a Ditadura Militar brasileira, era negro não trata-se de um achismo ou opinião, mas sim de uma verdade histórica. O fato de Seu Jorge possuir uma pele de cor retinta não significa que outros tons não façam parte dos fenótipos negros.

Ao  mesmo tempo, chega a ser interessante e curioso analisar o silêncio que se faz quando personagens negros são embranquecidos no cinema. A escolha de Wagner Moura leva em consideração critérios como representatividade, ter colocado alguém retinto para interpretar um personagem de tonalidade negra mais clara é, talvez, uma maneira de reafirmar o grupo racial e as discussões que o cercam diariamente. Durante o Festival, o diretor disse:

“O Estado brasileiro é racista. Marighella foi assassinado em 1969. Um homem negro, revolucionário e de esquerda foi assassinado pelo Estado dentro de um carro há 50 anos. E 50 anos depois, uma vereadora do Rio de Janeiro, também negra, de esquerda e defensora dos direitos humanos foi assassinada dentro de um carro, provavelmente por agentes do Estado.”

O autor do livro “Marighella: O guerrilheiro que incendiou o mundo”, Mário Magalhães, também comentou a polêmica e postou hoje (18) em seu twitter que não há dúvidas de que o guerrilheiro era negro e sofrera racismo durante a vida.

É preciso que a sociedade brasileira, composta majoritariamente por pessoas negras, reconheça a necessidade e, sobretudo, a importância de um ator negro interpretar negros. A invisibilidade, seja no mundo das artes, do corporativo ou acadêmico, é um tipo de violência que precisa ser quebrada. Negar a negritude do guerrilheiro não mudará a história, como disse Magalhães: “Inimigos do Marighella sabiam que ele não era branco”.

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Genocídio Negro

EXTRA, Estado, sociedade e a orientação para matar negros

 

O assassinato do jovem negro Pedro Gonzaga, 19 anos, pelo agente de segurança privada Davi Ricardo Moreira Amancio, a serviço do supermercado Extra, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, é amostra da orientação e autorização para se matar negros, característica fundante da sociedade brasileira.

Por Douglas Belchior

 

A orientação/autorização para matar negros continua em vigor e mais efetiva que nunca no Brasil. Esta orientação/autorização está presente nas telas de TV, nos programas policiais e na indústria do entretenimento. Está presente na oração do religioso conservador, nas decisões dos juízes, na promessa de campanha, nos projetos de leis de parlamentares e ministros, nas palavras do presidente e na prática dos governos. Esta orientação/autorização se realiza de maneira implícita no desemprego, nas desigualdades sociais, na falta de moradia digna, no sistema de saúde e educação falidos, na precária aposentaria e, de maneira mais explícita, na prática habitual das polícias, dos seus primos pobres da segurança privada e nos seus primos ricos das milícias. Mas, o mais triste é que esta orientação/autorização está em nós também, na sociedade como um todo, capaz de chorar mais a morte de um cachorro do que se revoltar com o assassinato brutal de um garoto negro como Pedro Gonzaga. Vídeos mostram que, ao contrário do que foi alegado pelo assassino, o garoto Pedro não tentou retirar a arma do segurança. É impossível imaginar que o agente teria a mesma conduta se o “suspeito” fosse um garoto branco de olhos azuis. Pessoas presentes no momento da agressão pediram que o soltasse. Pedro estava imobilizado, não representava risco algum. Mas porque Davi – o segurança, não o soltou? Ora, porque se sentia ali autorizado/orientado, em última instância, a matar. Não havia nada em sua cabeça ou naquele ambiente que pudesse impor algum constrangimento ou impedimento, afinal, ele estava abordando um jovem negro, previamente suspeito e perigoso.

À esta orientação/autorização para matar negros, chamamos genocídio.

Os assassinos de Pedro Gonzaga são o agente de segurança e a empresa EXTRA. Ambos devem ser punidos. E a indenização à família, gorda, embora a vida não retorne.

E ao Estado? Qual a sua responsabilidade? E à nós, povo e sociedade? Qual a nossa responsabilidade? Aceitaremos até quando? Até quando vai a nossa paciência?

Não há outro caminho se não o da organização política do povo negro, pobre, periférico, favelado, ribeirinho, campesino, indígena e quilombola. Só a partir do protagonismo destes setores e sua radicalidade intrínseca, apoiado por brancos e setores médios que reivindicam o anti racismo, seremos capazes de enfrentar e superar o genocídio negro.

Em SP, o movimento negro e periférico sempre se dispôs à este exercício. Parte importante destes seguimentos realizam, na próxima semana, um seminário com a presença de lideranças e ativistas para refletir e pensar formas de organização, mobilização e ação.

Lutar pela memória dos nossos mortos, por justiça, por reparação histórica e pelo fim do genocídio que nos mata todos os dias é tarefa de todas e todos que lutam por um futuro em que nossos filhos não sejam EXTRAngulados num mercado qualquer.

 

#BoicoteAoEXTRA
#VidasNegrasImporta
#ParemDeNosMatar
#BlackLivesMatter
#ACarneMaisBarataDoMercado
#UneafroResiste

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Direitos da Criança e do Adolescente

Trabalho infantil no esporte, entre sonhos e chamas

Por Elisiane Santos

É uma tragédia inaceitável. A morte de adolescentes em incêndio ocorrido no “alojamento” de um dos maiores clubes de futebol do país.

Segundo informações veiculadas na imprensa, adolescentes com idade entre 14 e 16 anos, dormiam em conteiners, sem condições mínimas de segurança e ausente indispensável autorização de funcionamento destas “instalações” como alojamento.

Ocorre que antes mesmo de se perquirir as condições de segurança do local ou mais precisamente a completa ausência destas, uma pergunta que não quer calar e não pode ser relativizada é por que estas crianças – sim, crianças – estavam dormindo em caixas de metal quando deveriam estar descansando em suas residências ou local confortável e seguro, protegidos de toda a forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, conforme lhes assegura o artigo 227 da Constituição Federal?

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

O fato que se encobre por trás dessa situação perversa, que levou à morte dez meninos adolescentes, afeta 2,6 milhões de crianças e adolescentes no Brasil. Chama-se trabalho infantil, invisível aos olhos da sociedade, especialmente quando se trata de formação desportiva, que deveria observar regras específicas para a aprendizagem profissional, mas lamentavelmente ocorre de forma desvirtuada, atingindo principalmente meninos negros em situação de vulnerabilidade social.

Pois bem. A legislação brasileira não permite o trabalho de adolescentes antes dos 16 anos de idade, salvo como aprendiz, a partir de 14 anos. Nesse sentido, a Lei Pelé (Lei 9615/1998), que disciplina a relação de trabalho entre atletas e clubes, prevê a possibilidade de formação desportiva de adolescentes. Em consonância com o artigo 7º, XXXIII da Constituição Federal, esta formação deveria ocorrer com a formalização do contrato de trabalho de aprendizagem, assegurados aos atletas-aprendizes todos os direitos dele decorrentes.

Além dos direitos trabalhistas, os atletas adolescentes devem estar protegidos de qualquer situação de risco, conforme disposições especiais a eles aplicáveis, por força dos princípios da proteção integral e prioridade absoluta, previstos no artigo 227 da Constituição Federal e Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8069/90).

Nessa senda, a permanência de adolescentes em alojamentos deve ser medida excepcional, somente quando impossibilitada a residência com a família na mesma localidade, e desde que atendidas exigências legais em matéria de alimentação, higiene, segurança, salubridade, educação, convivência social, familiar, entre outras.

Ainda, deve estar o programa de formação profissional desportiva inscrito no Conselho Municipal de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente, a teor do que dispõem os artigos 73 c/c 86 e 91 do Estatuto da Criança e do Adolescente.

Caso contrário, estamos diante de situação de trabalho infantil em suas piores formas, entendidas como tal, aquelas que trazem risco à saúde e segurança das crianças e adolescentes (Convenção 182 da Organização Internacional do Trabalho).

O caso nos leva a questionar por que a sociedade naturaliza, romantiza e incentiva o trabalho inseguro e perigoso destas pessoas em peculiar condição de desenvolvimento, seja no futebol ou em qualquer outra atividade.  Em pesquisa de dissertação de mestrado, apontamos o racismo como um dos fatores que naturaliza o trabalho nas ruas, atribuindo às crianças negras o lugar da exploração no trabalho, sob a justificativa de não se tornarem infratores, sem questionar a ausência de políticas sociais de educação, moradia, cultura, saúde, entre outras, que deveriam ser asseguradas a toda a população infantil.

Tais práticas reforçam estigmas, retirando destes simbólica e materialmente a possibilidade de formação, educação, profissionalização, acesso à universidade e trabalho digno. A ideologia do trabalho infantil, assim, opera na sociedade, fortalecendo preconceitos e exclusão, contribuindo, em última análise, para a morte ou adoecimento de crianças, adolescentes e jovens negros.

No caso do esporte, a possibilidade de glamour e fama, especialmente no futebol, faz também com que situações de violações de direitos nesses espaços sejam consentidas socialmente, assim como o desporto de rendimento – e não meramente recreativo – não seja visto como modalidade de trabalho para os adolescentes que tentam ingressar na carreira de atleta.

Tragédia deixou 10 adolescentes mortos e três feridos no Ninho do Urubu (Foto: André Durão/Globo Esporte)

É passada a hora da sociedade despertar para a gravidade do trabalho infantil e para a urgência da pauta dos direitos da criança e do adolescente. É primordial para a efetiva consolidação de uma sociedade democrática. O direito ao esporte e profissionalização deve proporcionar o desenvolvimento saudável, físico, intelectual e social de adolescentes e jovens, não ocultar situações de exploração e violência.

O desporto de rendimento, em que se objetiva resultados econômicos da atividade, é uma modalidade de trabalho. Os atletas adolescentes devem ter todos os seus direitos assegurados, admitindo-se a formação desportiva, antes dos 16 e a partir dos 14 anos de idade, apenas na forma de aprendizagem profissional.

Se é bonito e faz bem aos olhos torcer nos períodos de Copa e outras competições, é importante desvelar as perversidades que assolam o mundo do futebol. Por trás da fetichização dos atletas “estrelas”, nos grandes clubes, proliferam cenários de violações de direitos trabalhistas, racismo e exploração de crianças e adolescentes.

As mortes trágicas desses meninos não podem ser esquecidas, não podem ser reduzidas a lamentações dos responsáveis e devem nos fazer despertar para a necessidade de lutar em prol dos direitos da criança e do adolescente, em defesa do trabalho digno, da legislação trabalhista, das instituições que atuam na defesa de direitos, da punição dos responsáveis e reparação dos danos às vítimas. O combate ao racismo e ao trabalho infantil em todas as suas formas, entre estas o trabalho inseguro e perigoso de adolescentes no futebol, deve ser compromisso de todos.

Os meninos do ninho do Urubu eram atletas aprendizes com sonhos. Eram meninos negros, buscando um lugar de reconhecimento, no país do futebol. Um país onde empresários lucram às custas do trabalho inseguro, da infância perdida, do racismo estrutural. Um país de luto, entre sonhos e chamas.

Que o luto seja luta cotidiana. Por Athila, Arthur, Vinícius, Bernardo, Christian, Gedson, Jorge, Pablo, Rykelmo, Samuel e Vitor. Pelos direitos humanos de todas as crianças e adolescentes deste país.

Elisiane Santos é Procuradora do Trabalho, integrante do Coletivo MP Transforma, vice Coordenadora de Combate à Discriminação no MPT em São Paulo, coordenadora do Fórum Paulista de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil, especialista em Direito do Trabalho pela Fundação Faculdade de Direito da UFBA e mestra em Filosofia pelo Instituto de Estudos Brasileiros da USP.

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Direitos da Criança e do Adolescente

Após dois meses na prisão, os quatro jovens presos injustamente poderão ter liberdade

Por Marina Souza

Hoje (14) Marco Cogan e Roberto Grassi, desembargadores da 8ª Câmara do Tribunal de Justiça (TJ) de São Paulo, pediram a vista do pedido de Habeas Corpus dos quatro jovens presos sem provas no final do ano passado, caso que tem sido analisado pela Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio. Agora, os ativistas do grupo e a família dos suspeitos aguardam ansiosamente pelas próximas etapas judiciais que podem trazer Fabrício do Santos, Pedro dos Santos, Washington Silva e Leandro Silva de volta as suas casas.

O caso

Em 10 de dezembro de 2018 os adolescentes foram apreendidos pela Polícia Militar na região do Jardim São Jorge, Zona Oeste paulistana, sob a suspeita do roubo de um carro. A vítima, motorista de Uber, havia sido abordada na mesma noite por quatro homens que levaram seu veículo.

Quando aparecerem ao local do crime os PMs decidiram procurar por suspeitos nas redondezas. Encontraram o carro em um lugar próximo da região, observaram que havia quatro garotos observando a cena e optaram por abordá-los. Após olharem os documentos, ordenaram que eles entrassem na viatura e os levaram para a cena do crime, onde o motorista disse reconhecer os suspeitos como culpados.

Na delegacia, segundo a advogada Paloma de Lima, não foi colhido nenhum depoimento, apenas a assinatura de cada um deles, sem qualquer leitura prévia dos documentos. No dia seguinte, a audiência de custódia confirmou o cárcere dos jovens, que foram transferidos para o Centro de Detenção Provisória 2 de Osasco, onde estão atualmente.

A prova da inocência e o preconceito enraizado

Inconformados com a situação, os familiares dos presos decidiram ir atrás de provas que mostrassem a inocência dos garotos. Com câmeras de segurança instaladas na rua onde o carro roubado havia sido deixado foi possível captar imagens que apresentam o exato momento no qual os bandidos deixam o veículo e saem do local. Veja a seguir:

As famílias contam que no dia os rapazes estavam ensaiando uma homenagem de louvores a um amigo que faleceu, e na hora de irem embora passaram no local onde a polícia se encontrava. Três dos quatro acusados são negros.

No Brasil, os jovens negros têm 2,71 vezes mais chances de morrer por homicídio do que os brancos. Mesmo após 21 anos da letra “Capítulo 4 Versículo 3”, dos Racionais MCs, o indicie estatístico presente no verso “a cada quatro pessoas mortas pela polícia, três são negras” continua válido. Segundo o Fórum de Segurança Pública, 76,2% dos mortos pela polícia no país são negros.

 

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Cultura

Yannis Davy e o contraste de cores

Por Marina Souza

Aos 23 anos de idade Yannis Davy, nascido em Gabon, é um fotógrafo e artista visual que registra diferentes locais, identidades, pessoas e culturas do continente africano. Contrariando os esteriótipos que são constantemente atribuídos e disseminados sobre a África, ele opta por mostrar outras narrativas e perspectivas.

“Eu comecei a dar um foco para a minha fotografia quando me mudei para o Canadá e percebi que a percepção do mundo sobre a África não é precisa”, explica.

Davy revela que em suas obras gosta de brincar com o contraste das cores na pele negra e que apesar de acreditar que todos podem apreciá-las, enfatiza ter como principal objetivo conseguir atingir as pessoas da diáspora africana.