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Cultura

Maciel Salú faz show de estreia do novo disco

Ao apresentar “Liberdade”, seu mais recente disco, mestre rabequeiro faz um mergulho profundo na cultura popular, sem deixar de lado uma musicalidade cada vez mais comtemporânea

Pernambucano Maciel Salú faz, pela primeira vez em São Paulo, show baseado em seu mais recente disco, Liberdade, no Sesc 24 de Maio. A apresentação marcada para sexta-feira, dia 03/05, acontecerá no Teatro da unidade, às 21h. Siba participa do espetáculo.

Composto por 10 músicas autorais, repertório destaca-se por “Maracatu Sem Lei”, com influências do rock ‘n roll, “Jurema”, em reverência a entidade indígena que impulsiona uma das maiores tradições religiosas do nordeste, e Liberdade”, faixa que dá título ao disco e segue por um caminho mais pop. Nas letras, um evidente discurso político e social reflete temas como preconceito, racismo, religiosidade, democracia e violência. Tudo isso é acompanhado pela rabeca do artista que traz uma sonoridade única ao ser experimentada com cordas e pedais de guitarra.

Fotos: Alcione Ferreira

Herdeiro direto da família Salustiano, com passagem pelas bandas Orquestra Santa Massa, Chão & Chinelo e Orquestra Contemporânea de Olinda, Maciel Salú cresceu em meio a maracatus rurais, cavalos marinhos, cocos e cirandas. É mestre e brincante de diversos folguedos.

Ao longo dos seus 20 anos de carreira, lançou A Pisada é Assim (2003), Na Luz do Carbureto (2007), Mundo (2010) e Baile de Rabeca (2016).

Serviço:

Maciel Salú estreia LIBERDADE no SESC 24 de Maio

| Participação especial de SIBA |

Data: 03 de maio, sexta-feira, às 21h, no Teatro da Unidade

Ingressos: R$9 (credencial plena/trabalhador no comércio e serviços matriculado no Sesc e dependentes), R$15 (pessoas com +60 anos, estudantes e professores da rede pública de ensino) e R$30 (inteira)

SESC 24 de Maio: Rua 24 de Maio, 109 – República

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Cultura

Companhia de Teatro Heliópolis traz peça sobre a justiça brasileira

A Companhia de Teatro Heliópolis apresenta a montagem (IN)JUSTIÇA até o dia 19 de maio, na Casa de Teatro Maria José de Carvalho (sede do grupo), no bairro Ipiranga. A encenação é dirigida por Miguel Rocha, fundador e diretor do grupo; e Evill Rebouças assina o texto que foi criado em processo colaborativo com a Companhia.

(IN)JUSTIÇA é um ensaio cênico, guiado pela indagação ‘o que os veredictos não revelam?’, que reflete sobre aspectos do sistema jurídico brasileiro. Para tanto, conta a história do jovem Cerol que, involuntariamente, pratica um crime. A partir daí, surgem diversas concepções sobre o que é justiça, seja a praticada pelo judiciário ou aquela sentenciada pela sociedade.

Permeado por imagens-sínteses (característica da Companhia de Teatro Heliópolis) e explorando a performance corporal, o espetáculo coloca em cena a complexidade da justiça no país, deixando a plateia na posição de júri em um tribunal. O embate entre os dois lados da justiça – da vítima e do criminoso – se estabelece em um jogo contundente que expõe com originalidade a crua realidade dos jovens pobres e negros. A música ao vivo confere ainda mais densidade poética ao ‘relato’, que foge de qualquer abordagem clichê.

Fotos: Caroline Ferreira

A história de Cerol é contada de forma não linear. Exímio empinador de pipas, ele vive com sua avó, pois a mãe morreu no parto e o pai, assassinado. Depois de uma briga por conta do alto volume da música na vizinhança, Cerol foge e acaba disparando involuntariamente um tiro em uma mulher, que morre em seguida. Ele acaba preso e é submetido ao julgamento da lei e da sociedade.

Com base nesse argumento, a Companhia de Teatro Heliópolis discute direitos humanos à luz da Constituição Nacional. A encenação recupera também a ancestralidade brasileira em passagens ritualísticas. “Queremos pensar o homem negro e a justiça, desde a nossa origem até os dias de hoje”, afirma o diretor Miguel Rocha.

Cenas impactantes e desconcertantes surpreendem todo o tempo. A encenação de Miguel Rocha, alinhavada pela dramaturgia de Evill Rebouças, mostra como a democracia pode ser manipulada. O crime versus a vítima ou o criminoso versus a justiça aparecem de forma não superficial nem previsível. A abordagem de (IN)JUSTIÇA parte do ponto de vista mais íntimo para aquele mais coletivo: da comunidade para a sociedade, da moral pessoal às convenções sociais. Isso permite, igualmente, as leituras de um mesmo caso jurídico, como no julgamento – defesa e promotoria -, onde ambos os discursos são tão contundentes quanto convincentes. “Para falar de justiça, temos que falar das relações humanas contraditórias, pois a justiça se apresenta pelas contradições”, reflete o diretor.

Permeado por emoções e sensações que fogem da obviedade, o espetáculo tem quadros coreografados que trazem o respiro necessário à dinâmica da encenação: cidadãos urbanos, policiais, advogados com suas togas desfilam pela área cênica e hipnotizam o espectador. Os depoimentos inseridos nas cenas humanizam e tornam crível a proposta da montagem, sejam eles densos, desconcertantes, ou mesmo lúdicos. Segundo o diretor, os três pontos de vista sobre justiça – “o pessoal, o divina e o do homem” – são considerados na concepção de (IN)JUSTIÇA, bem como a máxima que diz “só quem passou por uma injustiça sabe o que é justiça”.

O cenário (Marcelo Denny) situa a força da ancestralidade, presente na terra e no terreiro, na força fria do zinco, na estética religiosa que foge dos estereótipos. Traz também o símbolo da lentidão da justiça com toda sua burocracia em pilhas e pilhas de papéis e processos. Elementos como areia, terra, projéteis de bala e pipas compõem a área de encenação, onde predomina a cor cinza. A trilha (de Meno Del Picchia) e os efeitos sonoros são executados em sincronismo com as cenas. Os atores interpretam cantos de tradição que reforçam a busca pela humanização e pela ancestralidade propostas pelo espetáculo.

(IN)JUSTIÇA nasceu de um longo processo criativo, iniciado em fevereiro de 2018, disparado por encontros dos integrantes da Companhia de Teatro Heliópolis com pensadores ativistas que falaram sobre os vários aspectos da Justiça. Os convidados foram Viviane Mosé (filósofa), Gustavo Roberto Costa (promotor de justiça), Ana Lúcia Pastore (antropóloga) e Cristiano Burlan (cineasta), tendo Maria Fernanda Vomero (provocadora cênica, jornalista e pesquisadora teatral) como mediadora.

O espetáculo integra o projeto Justiça – O que os Vereditos Não Revelam, contemplado pela 31ª edição do Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo.

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Cultura

Ladeira das Crianças: a peça sobre periferia, funk e infância

Por Marina Souza

“As pessoas precisam começar a cruzar a ponte pra cá”, exclama Michele Araújo, produtora e atriz do espetáculo Ladeira das Crianças – Teatro Funk, do Grupo Rosas Periféricas, que fica em cartaz até 18 de maio na Casa de Cultura Municipal São Rafael. Inspirada nos livros “O Pote Mágico” e “Amanhecer Esmeralda”, do consagrado Ferréz, a peça retrata o cotidiano de crianças periféricas e traz elementos do funk como a dança, mais especificamente o passinho, a música, o ritmo e as rimas para compor o enredo.

Fotos: Daniela Cordeiro

Araújo conta que o primeiro contato com estes livros foi há muitos anos em um sarau. Após a leitura, percebeu que assim como ela, os amigos que também leram a obra, sentiam a crescente necessidade de fazer alguma peça baseada nas histórias. No livro “Amanhecer Esmeralda”, Manhã é uma criança negra e moradora de uma comunidade pobre, cujo cotidiano vai sendo modificado por gestos de amor que melhoram a autoestima, empoderando não somente a menina, como também sua família. Já em “O Pote Mágico”, um menino na periferia imagina poder encontrar um pote mágico, como acontece também na peça com o garoto negro Rogério MC (Rogério Nascimento), que ganha dinheiro lavando carros para ir ao baile funk, e sonha com um pote mágico que mudaria sua vida.

A produtora explica ainda que durante o processo de montagem da peça o grupo de atores entrevistou crianças de bairros periféricos paulistanos. Assim, foi possível mesclar as próprias memórias da infância com a realidade atual desta faixa etária. “Fomos improvisando a partir de nossas memórias, entrevistas e os livros”, fala.

O Grupo Rosas Periféricas comemora 10 anos de atividades em maio. O coletivo já fez várias peças com elementos musicais, como rap e samba, em destaque, e o grande gênero da vez é o funk. Para os atores, ressignificar a linguagem e, sobretudo, a imagem que o funk possui atualmente é uma missão importante, pois ele faz com que a periferia sinta-se representada de alguma maneira, a própria Araújo diz que “a linguagem só é marginalizada porque vem das bordas da cidade”.

A dramaturgia é assinada por Marcelo Romagnoli, a partir da adaptação dos dois livros acima citados. O Pote Mágico e Amanhecer Esmeralda. Encenada ao ar livre, a peça reflete sobre a identidade das crianças da periferia e sobre os bens culturais do território, acessados na fase infantojuvenil. Todas as sessões são grátis e acontecem no período de 20 de abril e 18 de maio, com sessões na Praça Osvaldo Luiz da Silveira (Parque São Rafael), na Casa de Cultura Municipal São Rafael e no bairro Capão Redondo.

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Cultura

Amor preto e representatividade marcam obras de Caio Nunez

Com produção de Pedro Guinu e composição do próprio artista, “Lovesong” une elementos do hip hop, jazz e neo-soul, revelando um pouco do próximo álbum do cantor, previsto para o segundo semestre do ano.

Para o filme do projeto, gravado no Rio de Janeiro, o diretor João Pessanha roteirizou o dia a dia de um casal, interpretado por Caio e Jeniffer Dias. É ela a estrela que na novela ‘Malhação’ faz Dandara, homônima à guerreira dos Palmares. “Para mim, uma das maiores virtudes da concepção desse clipe foi contar com uma equipe inteira de profissionais negros. Diante da realidade do mercado audiovisual, considero esse um passo importante”.

Sobre Caio Nunez 

Dono de uma voz doce, levemente rouca e cheia de verdade nas suas emoções, Caio Nunez surge como um dos cantores e compositores mais criativos de sua geração. Misturando MPB, R&B e elementos urbanos, o artista prepara para 2019 seu segundo álbum de estúdio.

Nascido e criado em Irajá, no subúrbio carioca, e influenciado pelo pai músico, Caio lança seu primeiro disco “Akinauê” em 2015. Com seu single “Turquesa” alcança a marca de 250 mil views, além de matérias em diversos veículos pelo Brasil, Portugal, Moçambique e Angola. Foi considerado pelo portal “Armazém de Cultura” um dos melhores discos do ano, ao lado de nomes como Lenine, Elza Soares e Maria Gadú.

O álbum também gerou uma turnê com mais de 50 shows realizados.

No início de 2018, divulgou o clipe ‘Madureira à Bagdá”, distríbuido pela plataforma VEVO e transmitido em canais de TV como MTV, Multishow e BIS.

Foto: Vitor Hugo Silvano

O conteúdo audiovisual, gravado na favela do Pereirão, no Rio de Janeiro, teve como cenário o projeto social ‘Morrinho’. A música entrou em mais de 350 playlists no Spotify .

No mesmo ano, Caio apresentou, em parceria com o  projeto Sofar Sounds, a inédita “Valongo”. Fechando esse ciclo, ‘Afropunk’ chegou com um lyric video inspirado na estética afrofuturista. A track será trilha sonora do  longa “Labirinto”, previsto para 2019.

Atualmente, cantor dedica-se ao lançamento de “Lovesong”, esquentando os próximos passos da carreira.

 
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Cultura

Homenagem a Biu Roque reúne artistas e promete espetáculo emocionante

Nos próximos dias 20 e 21 de abril, o SESC Vila Mariana apresenta espetáculo que celebra a vida e memória do mestre Biu Roque. Falecido em abril de 2010, aos 76 anos, o cantor e percussionista foi um dos músicos mais admirados na Zona da Mata Norte de Pernambuco, notável pelo domínio sobre gêneros tradicionais da região: cavalo marinho, ciranda, coco de roda e maracatu de baque solto.

O show marca, ainda, a estreia de “A Noite Hoje é a Maior”, primeiro álbum solo do artista. Embora o material tenha sido lançado somente em 2018, pela Garganta Records, as gravações aconteceram em 2009 e Biu teve tempo de ouvir e aprovar o resultado final. Canções como “Pé de Lírio”, “Maria Pequena” e “Ô Rio, Cadê Riacho?” integram o projeto.

Biu Roque/Reprodução

Durante as execuções ao vivo, banda base será formada por Fuloresta (sopros/percussão), Caçapa (viola/ guitarra/ direção artística e musical) e Juliano Holanda (guitarra), com participação de Luiz Paixão (rabeca) e Hélder Vasconcelos (fole de 8 baixos). É ele quem também atuará como dançarino. Revezando os vocais, Alessandra Leão (co-direção artística), Siba, Renata Rosa, Mestre Anderson Miguel e dois filhos de Biu Roque: Mané Roque e Maíca Soares.

Serviço

Dias 20 e 21 de abril, no Teatro da Unidade

Sábado às 21h | Domingo às 18h

Ingressos: R$9 (credencial plena/trabalhador no comércio e serviços matriculado no Sesc e dependentes), R$15 (pessoas com +60 anos, estudantes e professores da rede pública de ensino) e R$30 (inteira)

Sesc Vila Mariana – Rua Pelotas, 141

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Mobilização

Rede contra genocídio em São Paulo enfrenta violência do Estado

Por Marina Souza

O que gerou interesse em Fernando Ferreira, estudante de Pedagogia, a ingressar na Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio foi a “proposta de criar formas de enfrentamento nos territórios onde familiares e amigos sentem na pele o resultado da atual política de segurança”. Após pouco mais de um ano da decisão, ele comparece às reuniões e constrói vínculos com as diferentes frentes envolvidas no grupo, que tem como missão analisar em São Paulo casos de injustiças cometidos por agentes do Estado, sobretudo contra pessoas periféricas e/ou pretas.

Prisões de inocentes, torturas e assassinatos cometidos por policiais viram alvo de discussões e – principalmente – investigações na Rede. Marisa Feffermann, pesquisadora sobre juvenicídio na América Latina, explica que os integrantes do movimento se dividem em diferentes grupos de articulação, alguns lidam com o Ministério Público, outros com a Polícia, Defensoria Pública, militantes políticos ou os familiares das vítimas. Participando de Fóruns em São Paulo, Osasco e ABC Paulista eles realizam cursos, com três meses de duração, em regiões periféricas para mostrar um mapeamento coletivo a respeito das principais zonas de violência.

“É como se a gente fosse uma escuta das quebradas para o poder público”, defende Feffermann.

Fotos: Divulgação

Os quatro jovens presos injustamente no final do ano passado após serem acusados de roubar um carro foram soltos meses após um insistente pressionamento público organizado pela Rede, que conseguiu reunir provas e inocentar os garotos. Atualmente a organização também mobiliza atos de protesto contra casos de racismo como o que aconteceu com Vitor Vinicius, jovem negro de 20 anos que foi agredido e humilhado na estação de metrô Tucuruvi, no início deste mês.

O diretor executivo do IREC – Instituto Resgata Cidadão, Maurício Monteiro, de 49 anos, é ex-detento e confessa que mesmo não devendo mais nada a Justiça e tendo curso superior, sente que sofre com preconceito. Atualmente ele faz parte da equipe da Rede porque acredita que “quanto maior uma rede, maior seu alcance e maior a pesca”.

A organização da Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio foi resultado do I Seminário Internacional Juventudes e Vulnerabilidades: Homicídios, Encarceramento e Preconceitos, ocorrido em 2017 na Faculdade de Direito da USP e na escola de samba Combinados de Sapopemba. O próximo evento deste estilo acontecerá em 11 de maio, o Seminário: O Direito no Enfrentamento à Violência De Estado discutirá estratégias jurídicas de instituições e pessoas diante das práticas violentas do Estado.

Apoio vs. oportunismo

Na madrugada em que Marielle Franco foi assassinada no Rio de Janeiro, dois adolescentes, de 13 e 17 anos, tinham sido mortos em Osasco, conta Marisa Feffermann.”Um dos integrantes da Rede ligou pra gente e disse que tinha acabado de acontecer uma chacina. Chegamos lá e não tinha ninguém do Conselho Tutelar ou Serviço Social. Nós chamamos várias pessoas para ir ajudar, mas tava todo mundo no ato da Marielle. Isso é muito simbólico.”, relembra e critica a enorme repercussão da frase “ninguém solta a mão de ninguém”, que surgiu nas redes sociais após a vitória do então candidato á presidência Jair Bolsonaro (PSL). Segundo a pesquisadora, a grande maioria que reproduz esse discurso é apenas da boca para fora

A pesquisadora confessa que ao ir nas “quebradas” percebe que a palavra “medo” é constantemente mencionada pela população local. E por isso, sente que é necessário informar sobre a Rede, ressaltando que há, de fato, articulações de resistência nas quais depositar confiança e apoio.

Assim como ela, Fernando Ferreira pensa que grupos como a Rede são cada vez mais fundamentais, devido a existência daquilo que chama de “política da morte”. Para ele, enfrentar as injustiças através de estratégias coletivas, organizadas e com pouca exposição das vítimas é essencial para defender tais causas. “A rede está se fazendo. Só o dia a dia nos trará essa resposta, mas posso afirmar de maneira muito tranquila que temos muito a contribuir nessa discussão em qualquer lugar do país”, defende na esperança de que mais pessoas apoiem o movimento.

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Genocídio Negro

Vidas negras em tardes de domingo

Luciana Nogueira, esposa do músico Evaldo dos Santos Rosa, morto no domingo, 7 de abril, durante uma ação do Exército na região da Vila Militar, na zona norte do Rio de Janeiro, em desespero diante do corpo do marido e do carro cravejado com 80 tiros

 

Eu me lembro com saudade
O tempo que passou
O tempo passa tão depressa
Mas em mim deixou
Jovens tardes de domingo
Tantas alegrias
Velhos tempos
Belos dias

– Roberto Carlos

 

Tô cansado dessa porra
de toda essa bobagem
Alcolismo,vingança treta malandragem
Mãe angustiada filho problemático
Famílias destruídas
fins de semana trágicos

– Racionais Mc’s

 

Por Douglas Belchior

Fotos: Rosa Caldeira; Jorge Ferreira; Mídia Ninja; Alma Preta; Ponte Jornalismo; Bianca Santana

 

Quando criança ouvi muito Roberto Carlos. Meus pais gostavam. Memórias de criança que, vez ou outra, voltam. Depois cresci, estudei. Percebi e entendi por que as tardes de domingo felizes das canções da jovem guarda, as tardes em que “Canções usavam formas simples / Pra falar de amor / Carrões e gente numa festa / De sorriso e cor…” não eram em nada parecidas com as tardes de domingo lá de perto de casa, na zona leste de SP. Racionais MC’s, melhor que ninguém, nos explicou como funciona o nosso fim de semana: “Olha só aquele clube que da hora / Olha o pretinho vendo tudo do lado de fora…”

Tenho 40 anos e desde os 17 participo de protestos contra a violência da polícia e pelo fim do assassinato sistemático de pessoas negras no Brasil. As vezes me pego pensando quanto tempo da vida dediquei à isso, ocupando ruas não só em dias de protestos, mas no dia a dia em salas de aula no trabalho em escolas públicas ou nos finais de semana em cursinhos populares. Vejo os militantes mais velhos que teimam em continuar a luta. Eles já fazem isso há 30, 40, 50 anos, ocupando suas horas de descanso entre um dia e outro de trabalho ou em feriados ou em finais de semana, sábados e tardes de domingo. Que destino é esse que não nos permite apenas viver nossas vidas, desfrutar de domingos com a família, com namoro, com amigos ou simplesmente tomar uma cerveja diante da TV em dia de final de um campeonato de futebol. Que triste necessidade esta, ter que dividir um tempo tão raro que poderia ser de felicidade e gozo, com a melancolia e a tristeza de velórios, ajuda humanitária e protestos. E pior, agradecer por estar vivo e se cuidar para não ser o próximo alvo de uns 80 tiros em alguma estrada qualquer.

Mas qual seria a opção a isso? Viver como se não soubéssemos? Olhar para os incontáveis corpos e não reparar a semelhança? Salvar a “própria pele” e ignorar o cheiro forte de carne queimada que invade nossas narinas todos os dias?

Não é possível!

Neste dia 14 de abril de 2019, mais de mil pessoas dedicaram sua tarde de domingo à memória de Evaldo, homem negro fuzilado em praça pública com 80 tiros, pelo exército brasileiro. Mais um dia dedicado a denunciar ao mundo os governantes genocidas que lideram nosso país. Um país que vive em guerra.

Obviamente, uma situação em que o exército fuzila com 80 tiros, um carro com uma família dentro, em plena via pública numa tarde de domingo, só não chama a tenção e não provoca revolta em pessoas com algum tipo perverso de psicopatia. Mas é preciso dizer que situações absurdas acontecem com mais frequência que se imagina. Como não lembrar dos 111 tiros da Policia Militar em um carro com 5 garotos negros, no Rio de janeiro, em 2015; Ou da chacina da Cabula, também em 2015, em Salvador na Bahia, quando a polícia enfileirou 12 jovens em um campo de futebol para o fuzilamento; Ou Amarildo, preso torturado e morto pela PM do Rio em 2013; Ou de Cláudia Silva Ferreira, mulher negra, baleada pela PM e depois arrastada por mais de 250 metros, em via pública, por uma viatura policial; E as diversas crianças mortas nas ações das polícias no Rio e em outros estados; E Marielle Franco, assassinada por ex-policiais milicianos. Isso para citar só alguns.

Para além de casos que ganham repercussão nos meios de comunicação, é necessário dizer que assassinatos de pessoas negras em si são absolutamente corriqueiras neste país.

No último período, a polícia brasileira matou em 5 anos mais do que todas as polícias norte americanas em 30 anos de trabalho. A cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil.  O Estado brasileiro, direta ou indiretamente, promove o genocídio da população negra. Estudos diversos, como por exemplo, a do Atlas da Violência, produzido pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), relatam que em 2016, o Brasil alcançou a marca histórica de 62.517 homicídios. Isso equivale a uma taxa de 30,3 mortes para cada 100 mil habitantes, que corresponde a 30 vezes a taxa da Europa. Quando recortados por raça/cor comprova-se o genocídio: 71,5% das pessoas que são assassinadas a cada ano no país são pretas ou pardas.

No texto, números são apenas números. Conviver com isso, diariamente, é outra coisa.

Por isso sou profundamente grato pela companhia de militantes, homens e mulheres que nos momentos mais difíceis, pegam uns nas mãos dos outros para lembrar e reafirmar nossa missão e de que não estamos sozinhos nela. Obrigada.

Barrar o genocídio negro é tarefa histórica no Brasil e no mundo. Nossa geração fará sua parte!

Justiça à Evaldo Rosa e à todas e todos os assassinatos de pessoas negras, desde o primeiro navio repleto de escravizados até o carro e o corpo cravejados por 80 tiros!

Sobre o protesto

Grupos ligados a movimentos negros se encontraram neste domingo (14) na Avenida Paulista, para celebrar a memória no 7 dia da morte do músico Evaldo dos Santos Rosa, de 51 anos, no último domingo (7) no Rio de Janeiro. Rosa foi morto quando o carro que dirigia foi alvo de pelo menos 80 tiros de fuzil disparados por soldados do Exército.

Com o nome “80 tiros em uma família negra, 80 tiros em nós!”, o ato se reuniu em frente ao Museu de Arte Assis Chateaubriand (Masp).

Uma imensa faixa com a frase “Parem de atirar em nós” marcou o protesto. Manifestantes se alternaram no microfone para falar sobre a perseguição de negros na periferia.

 

#80Tiros

#EvaldoVive

#ContraOGenicidiodoPovoNegroBrasileiro

#UneafroResiste

#BlackLivesMatter

#VidasNegrasImportam

#ParemDeNosMatar

#ParemDeAtirarEmNós

 

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Genocídio Negro Movimento Negro

Palavras de ordem e orações pedem justiça em caso de Evaldo Rosa dos Santos

Por Rozangela Silva

No fim da tarde de ontem (14) mais um ato em solidariedade à Evaldo Rosa dos Santos aconteceu: na Estrada do Camboatá, em  Guadalupe, que transcorreu em clima de paz e foi permeado por orações e preces.

Nem a fina chuva que caiu no bairro desanimou um grupo de amigos que convidaram músicos, compositores e artistas. O Ato, orquestrado pela Cultura Popular Carioca, com integrantes de samba e rap, reuniu cerca de 80 agentes culturais, número alusivo aos 80 tiros disparados no carro do músico brutalmente assassinado há cerca de uma semana.

Fotos: Rozangela Silva

“A dignidade humana precisa ser resguardada em todos os sentidos. Sou solidário a família, parentes e amigos e estarei junto buscando respostas para a elucidaram esse crime e punirem os envolvidos”, contextualiza Ivanir dos Santos, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e babalaô.

De cunho simbólico e pacífico orações preces e falas exigindo providências foram realizadas. Outra grata homenagem ficou por conta do grafite feito pelo MC Grafiteiro Airá – O Crespo, que estampou frases e o nome Manduca, apelido de Evaldo. O desenho foi feito exatamente em frente ao local cujo o carro da vítima fora alvejado, onde é possível perceber furos dos tiros.

Um amigo, estampou no carro o nome do grupo de samba que Evaldo participava: o Remelexo da Cor. Uma roda humana se formou no meio da rua para preces e orações, além de falas cobrando justiça. Distribuíram ainda bandeiras do Brasil manchada de sangue e com furos.

“O Ato foi importante para que familiares e amigos mais próximos não se sintam sozinhos na cobrança por justiça. Foi importante para a mobilização dos artistas e agentes culturais que vivem na região e sofrem constantes violações de seus direitos em abordagens de patrulhamento policial, no ir e vir cotidiano”, alegou Marcelo Santo, do movimento Cultura Popular Carioca.

Outro ponto alto, ficou por conta da palavra de ordem “Manduca… Presente!”, seguida de uma salva de palmas, que deixou todos emocionados.

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Cultura

Inacy estreia EP sobre negritude, força e afeto

A cantora Inacy acaba de divulgar, em todas as plataformas digitais, seu primeiro registro de estúdio. Esse trabalho, que surge a partir de experiências pessoais, mergulha intensamente em todas as emoções da artista, desenhando seu modo de ver e sentir a vida.

Lançado pela Indigo Music Production, o novo e homônimo EP tem produção musical assinada pelo nigeriano GMike, em parceria com o brasileiro Tico Pro. Sem seguir a tendência atual americanizada, projeto – totalmente inspirado no R&B – remete aos clássicos, tanto em sonoridade como texturas e efeitos, fundindo ritmos jamaicanos, influências de música eletrônica, samba, rap e soul music. Dentro dessa linha melódica, válvulas, gravadores de fita, compressores analógicos e equalizadores antigos dão um ar Lo-Fi para o disco.

Abrindo os caminhos, “Despedida” chega simples, com quatro acordes, alguns riffs e uma mistura de reggae, trap e jungle. “Fiz esta canção após perceber e entender que muitas relações foram feitas pra durar o tempo que tem que ser, pequeno ou não. Dias, meses ou só uma noite. O momento é mais importante e especial do que o que virá amanhã”.

“Replay” relembra as tracks românticas – groovadas e pesadas – dos anos 90. “Na letra, falo de paixão à primeira vista e dos sentimentos sintonizados no momento em que a entrega – e todas as suas trocas de carinho – acontecem”. Em seguida, “Preto é Luz” exalta a alegria, beleza e ancestralidade de um povo que se une, celebra suas raízes e cultura.

Já o funk music de “Me Deixa Viver”, marcado pelos tambores de maracatu, reflete sobre o quanto é bom estar só, cuidando de si mesmo, principalmente quando se viveu ou vive experiências tóxicas. Logo depois, “Teu Espaço” lembra, com saudades, de uma história passada. Single une trap, indie rock e ambient music. Fechando a obra, “Dança Comigo” é embalada pela leveza de quem sabe, sempre e cada vez mais, que “amar é bom”.

Foto: Joyce Prado
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Educação Popular

Rede Ubuntu debate acesso ao ensino superior

Por Rafael Cícero

A USP ficou mais preta

No último dia 6, centenas de estudantes da periferia paulistana ocuparam a Universidade de São Paulo (USP) para debater a democratização do ensino superior público. Os jovens fazem parte da rede de cursinhos populares Ubuntu, localizada na região do Jardim Ângela, Zona Sul, e Itapecerica da Serra.

Os alunos visitaram diferentes institutos e espaços da Universidade. No período da tarde promoveram um debate na FFLCH – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, sobre os desafios do acesso e da permanência da periferia nos espaços universitários. A atividade contou com a participação de Eduardo Girotto, do Departamento de Geografia da USP, ex-alunos da Ubuntu, atuais estudantes da USP, professores e coordenadores.

O evento não foi somente um marco para a rede Ubuntu, mas também uma aula pública para a USP. Foi uma oportunidade para centenas de jovens periféricos, que nunca tinham ouvido falar da instituição, saírem dali determinados a voltarem como estudantes universitários.

Reprodução

Ubuntu

Carregando o nome de uma filosofia africana sobre solidariedade, Ubuntu surgiu em 2016 com apenas três núcleos e já possui seis. Apesar de enfrentar dificuldades relacionados a estrutura do local, equipamento, materiais pedagógicos e permanência estudantil, a rede conta com doações, apoio em campanhas e professores voluntários. A partir do dia 14 de abril, o grupo abrirá uma “vaquinha online” para recolher recursos.