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Genocídio Negro

Ele comemorou, não a vida das vítimas, mas a morte do sequestrador. Brasil e a era do necroamor

Witzel comemora morte de sequestrador na ponte Rio-Niterói

 

 

Publicação original no FaceBook

 

Em uma cena de sequestro, todo mundo torce para a vítima, ninguém para o sequestrador.

A mãe dele, talvez. Talvez!

É natural então que quando o sequestro termina com a vítima ilesa, todo mundo comemore. O que é algo muito diferente de comemorar a morte do sequestrador. Uma coisa é a comemoração da vida, outra coisa a comemoração da morte. É grotesco então ver o governador do Rio de Janeiro, um estado cheio de problemas urgentes, pegar um helicóptero no meio do seu turno de trabalho, voar até o local do acontecido não para confortar as vítimas, mas para pateticamente comemorar a morte, como quem comemora um gol. É isso que se tornou o Brasil recentemente. O maior país católico do mundo se transformou em um país de adoradores da morte. Amém!!!

É claro, está todo mundo cansado da violência, nossa empatia está com a vítima. O problema é que essas cenas continuam se repetindo. Como se produz um sniper? Como se produz um sequestrador? “Tropa de Elite” e “Ônibus 174” respondem. Filmes contraditórios, como é contraditório o seu diretor bolsonarista arrependido. Se o interesse é na segurança civil, porquê o governador não começou seu mandato incentivando o treinamento e a ação de negociadores? O interesse é na segurança da vítima ou na morte do sequestrador? São perguntas. Perguntas cansadas. Por que o governador bate-cartão no BOPE? Alguém já viu ele entrando em uma escola de favela, tentando pensar um orçamento melhor para a comunidade?

A verdade é que está todo mundo cansado da violência, mas também cansado de perguntar, de questionar, de desnaturalizar a pobreza. Isso é muito perigoso. É assim que chegamos em cenas patéticas, ao mesmo tempo tristes e ridículas, como a de hoje.

Como é produzido um sequestrador? Por quem, nós sabemos: pelo estado, por gente como o governador, um bárbaro desengonçado que administra a miséria, mantém a fábrica de produzir sequestradores em pleno funcionamento, bárbaros que naturalizam sua triste visão do mundo e arrastam a sociedade inteira para a barbárie. Sua solução para o estado das coisas? Mais barbárie! É cansativo. Parece que temos muito para dizer e ao mesmo tempo nada. Repetimos nos últimos 20 anos: desigualdade social produz violência. Os administradores do estado, cãezinhos dos ricos, não podem mexer na desigualdade então investem em violência contra violência. O resultado? Um país triste em que todos os dias se comemora o assassinato de pretos e pobres na televisão.

Como se produz um sniper? Com um governador desengonçado comemorando um gol numa cena de crime.

Como se produz um sequestrador? Com um governador desengonçado comemorando um gol numa cena de crime.

Isso é o melhor que nós podemos ser como sociedade, ou já desistimos de tentar?

Como impedir que um menino de periferia se transforme em um sequestrador? Como se produz um sequestrador? Como assassiná-lo, nós já sabemos.

 

 

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Cinema

Mostra Itinerante de Cinema Negro em Salvador tem mais de 70 filmes

Começou em 14 de agosto a segunda edição da Mostra Itinerante de Cinemas Negros – Mahomed Bamba (II MIMB), que acontece em Salvador, até o dia 18 de agosto deste ano. Nas 18 sessões previstas, mais de 70 filmes de várias partes do mundo serão exibidos gratuitamente em bairros da cidade.

A Mostra tem o objetivo de ampliar as janelas de reprodução dos conteúdos nacionais e
internacionais produzidos por realizadores negros. Em sua segunda edição, a MIMB traz
apresentações culturais, oficinas, palestras, exposição e circulação de novos conteúdos dos
cinemas negros nacionais e internacionais. Serão exibidos longas e curtas-metragens de
ficção, documentários, animações e obras experimentais, a fim de dialogar com adultos e
crianças de bairros populares e periféricos da cidade de Salvador. A Curadoria de filmes
nacionais desse ano foi composta por Dayane Sena, Heraldo De Deus e Rayanne Layssa,
coordenados por Julia Morais e Taís Amordivino. Já a Curadoria de filmes internacionais, coordenada por Kinda Rodrigues, foi composta por Janaína Oliveira e Alex França. O júri é composto por Beatriz Vieirah, Luciana Oliveira e Thales Novaes.

O evento vai circular por sete bairros da cidade, com sessões simultâneas em oito espaços
culturais: Ilha de Maré (Comunidade Quilombola de Bananeiras), Quadra Esportiva do Calabar (Calabar), Praça da Revolução (Periperi), no Goethe-Institut (Corredor Vitória), Sesc Pelourinho, Centro Cultural da Barroquinha, Sala Walter da Silveira – Dimas (Barris) e Casa de Angola (Barroquinha).

Serão oferecidas oficinas de produção audiovisual com aparelhos móveis com a participação das oficineiras Ana do Carmo, Fabíola Silva e Ariel Dibernaci; oficina de crítica de cinema Afrocentrada com Alex França; oficina voltada para o olhar sobre os corpos LGBT nos cinemas com Heitor Augusto; e Master Class: O Cinema e o Espelho: experiências, olhares e registros com Everlane Moraes. Todas terão 30 vagas no valor de R$60,00. Entendendo que o processo inclusivo parte da disposição ao acesso, serão disponibilizados 7 bolsas integrais e 8 com 50% de desconto.

A primeira edição, realizada em abril de 2018, passou por seis bairros de Salvador com a
exibição de 44 filmes em 14 sessões, para além de atividades simultâneas como oficinas e
rodas de conversa sobre questões correlatas a gênero, raça, sexualidade e a produção
audiovisual. A mostra leva o nome do professor Mahomed Bamba, pesquisador fundamental
sobre cinema negro e diaspórico, nascido na Costa do Marfim e radicado no Brasil.

Mulheres negras à frente

A MIMB é uma iniciativa de mulheres negras cineastas, realizadoras, produtoras e ativistas,
que vislumbraram a necessidade de fomentar o intercâmbio cultural entre produções
cinematográficas negras do Brasil com o mundo, para além de repensar o processo de
distribuição destes produtos, atentando para a importância do acesso ao cinema nas periferias,
e a relação entre o cinema e a cidade, de modo geral.

Trata-se de um projeto que reúne ao mesmo tempo a luta pela afirmação política da população negra e a discussão sobre a
produção, distribuição e acesso do audiovisual.
“Entendemos o quão é importante celebrar Os Cinema (s) Negro(s), e que esta pluralidade faz
parte da navegação diaspórica que nos conecta em todas pontas do mundo. Em reverência aos
estudos do saudoso professor Mahomed Bamba, a MIMB 2019 integra “S” como multiplicidade de construção, soma e pertencimento. Trazer as óticas construídas mundialmente para a Bahia.

Deste modo, ampliamos as inscrições para produções negras de cada canto do mundo. Nossas conexões são de navegação, identidade e caminhos” aponta Daiane Rosário, idealizadora da Mostra.

O cinema, assim como quase todas as áreas de conhecimento, atuação profissional e artística,
é um ambiente marcado por profundas desigualdades raciais e de gênero. As mulheres ainda são minoria absoluta na direção de filmes, por exemplo. Uma pesquisa
divulgada em 2018 pela Agência Nacional de Cinema (Ancine), com base em dados do
IBGE, revelou que os negros não chegam nem a pontuar em funções executivas das grandes
produções (como Direção e Roteiro) e as mulheres ficam entre 1% e 3%, considerando as
produções mistas. Os homens brancos seguem sendo 75,4% entre diretores e 59,9% entre
produtores, seguidos por mulheres brancas. É no sentido de combater essa desigualdade
histórica que a MIMB vêm se consolidando no circuito de Festivais e Mostras para circulação
da produção negra e feminina no cinema.

 

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Cultura

Novo clipe de Thiago Elniño fala sobre a resistência ao genocídio da juventude negra

Seguindo com as ações que antecedem a estreia de seu próximo disco, o MC e educador popular Thiago Elniño apresenta mais uma inédita do aguardado “Pedras, Flechas, Lanças, Espadas e Espelhos”. Dessa vez, em um rap que fica entre um trap com texturas orgânicas e o boombap, “Pretos Novos” vem, agressiva e direta ao ponto, inspirando-se em nomes como Dead Prez, N.W.A., EarthGang, Marcus Garvey e Malcolm X.

“Em algum momento, o rap brasileiro da década de 90, que trazia um discurso cru e forte contra o racismo, passou a ser apontado por uma nova geração como algo superado, liricamente empobrecido, repetitivo, careta e até inocente em sua fé de que alguma coisa pudesse realmente mudar. Só que foi justamente esse rap que não só nos inspirou como também deu esperança e motivou a começar e continuar produzindo. Por isso, respeitosamente tentamos manter viva aquela energia. Nesse som, estou dizendo que por mais que esteja difícil, a gente vai morrer lutando, cantando e acreditando que o dia dos pretos vai chegar. Aliás, morrer lutando é um traço de dignidade e respeito ancestral para nós”, ressalta.

Na letra, as rimas debochadas do artista o colocam no papel de um personagem mais velho, além de zombeteiro, tal qual um Exú, encontrando eco com o papo reto de Vibox, Nayê Uhuru, D’Ogum e DenVin, todos integrantes do grupo Projeto Preto, da nova escola no rap paulista. Essa participação especial faz, dessa track, um encontro de gerações.

No videoclipe produzido para esse trabalho, sob a direção de Lincoln Pires, um plano sequência impacta quando, logo nas primeiras imagens, mostra um jovem preto sendo velado dentro de casa, dando a impressão de que aquela é uma realidade comum. E, de fato, é. Isso porque, de acordo com o Atlas da Violência 2019, 75,5% das pessoas assassinadas no Brasil são negras. A mensagem que fica, nas entrelinhas e fora delas, é um grito de basta.

Assista aqui: https://youtu.be/3xQS300lwqg