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O assassinato do trabalhador Carlos Braga: uma polícia sem autoridade

Por Tomaz Amorim Izabel

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Isaías de Carvalho Brito, trabalhador, foi preso por policiais militares sob a acusação de desacato à autoridade. Momentos antes de sua prisão, um colega de trabalho, Carlos Augusto Muniz Braga tentou impedir que Isaías fosse humilhado e agredido por três policiais, durante uma abordagem abusiva e despreparada, e foi executado com um tiro na cabeça diante de dezenas de pessoas no meio da rua, à luz do dia, na cidade de São Paulo.

Dois dias antes, trabalhadores que ocupavam um prédio abandonado há dez anos no centro da cidade resistiram à remoção forçada determinada pela justiça e efetuada pela Polícia Militar. As imagens violentas de crianças, mulheres grávidas e idosos sendo jogados na rua pelas autoridades assombraram a cidade pelo resto do dia. O confronto teve de um lado caminhões, helicópteros, bombas e balas; do outro, cocos e pedras.

Estes dois últimos acontecimentos são exemplos da regra sobre as relações de poder em nosso país, mas talvez mostrem também a possibilidade de que uma exceção está em gestação.

A palavra central neste movimento parece ser “autoridade”. Trata-se em português de uma palavra ambígua: faz referência à importância da experiência de alguém sobre certo assunto, mas ao mesmo tempo é também o radical de “autoritário” e “autoritarismo”. A etimologia nos ensina que “autoridade” vem do latim “auctoritas”, termo que se referia a uma capacidade de influência específica, derivada de idade, de saberes, e baseada em uma legitimação social sobre a importância da opinião de uma pessoa ou um grupo. Não é um poder em si, mas uma influência tornada socialmente legítima sobre o poder. O filósofo Cícero distinguiu da seguinte forma: o poder reside no povo, a autoridade no senado.

Em 2014 anos oficiais da história deste país, a autoridade do estado falou muito mais alto do que o poder do povo. Ou, para dizer de outra maneira, uma pequena elite teve muito mais autoridade nas tomadas de decisão do estado, do que a maior parte da população teve poder. Essa discrepância parece cada vez mais evidente para todos os brasileiros. As manifestações de Junho de 2013 talvez tenham apontado um pouco neste sentido, com sua recusa (ainda que quase infantil) de sindicatos, partidos, bandeiras. Há uma crise de autoridade instalada, porque a autoridade não é mais vista como legítima – ou seja, reconhecida como de interesse comum. Não seria, então, o caso de recusar a autoridade e, com ela, as autoridades?

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Quando familiares decidem resistir à remoção imoral e desumana que a autoridade jurídica repassa à autoridade policial é o poder popular que olha e diz ao estado: não é legítimo porque não representa o meu poder, o do povo. Isso mostra uma mudança? É difícil não lembrar – na verdade, é difícil esquecer – de Pinheirinho e de sua trágica resistência, chamada ridiculamente pela Folha de S. Paulo de Armada Brancaleone. Certamente não foi a primeira vez na história recente do Brasil que pessoas resistiram coletivamente, até consequências extremas, a uma ação autoritária das autoridades. É possível, no entanto, que esses momentos de resistência estejam se multiplicando e, quem sabe, se intensificando.

Pois foi o mesmo tipo de impulso ético e humano – uma reação à ilegitimidade da autoridade da Polícia Militar – que levou um grupo de pessoas a interromper suas atividades e hostilizar a abordagem autoritária dos policias ao jovem Isaías Brito. Foi o mesmo exercício de poder popular – a tentativa de destruição da autoridade autoritária e de instauração de uma autoridade legítima – que levou o jovem Carlos Augusto a reagir diante do perigo encarnado no policial alucinado, armado de spray de pimenta e de uma pistola de munição letal.

O filósofo contemporâneo Alain Badiou chama de ética a ação que é fiel ao chamado de uma verdade. Talvez a verdade para Carlos naquela tarde tenha sido a destruição da autoridade daquela força policial e a necessidade de insurreição contra ela. Se for possível entender desta perspectiva a tragédia acontecida, então precisamos dar o triste título de mártir a Carlos, em reconhecimento à sua ação heroica, e ter a coragem de nos deixarmos atingir pela grandeza e significado de sua morte. Certamente ela, em seu mudo conselho, tem muito mais autoridade sobre a população de São Paulo do que sua Polícia Militar.

5 respostas em “O assassinato do trabalhador Carlos Braga: uma polícia sem autoridade”

Por Filipe Bezerra
Há poucas dias um vídeo correu as redes sociais. Nele um policial militar disparava sua pistola, à queima roupa, em um indivíduo desarmado. Imediatamente muitos gritaram os chavões da moda como “fim da PM”, “desmilitarização já”, “bandidos fardados” e por aí vai…

Historicamente o debate segurança pública é “futebolizado” pelos brasileiros: todos acham que podem opinar abalisadamente sobre o tema mesmo sem conhecer absolutamente nada na prática. Mas existem alguns temas que não podem ser completamente compreendidos sem o conhecimento prático. A falta desta perspectiva vicia profundamente qualquer juízo de valor. Joguem um grande estudioso teórico sobre natação que nunca entrou na água à 500 metros da praia e ele morrerá afogado. Coloquem um grande jogador de simuladores de aviação para pilotar um avião de verdade e provavelmente ele se espatifará no chão. Faria algum sentido, por exemplo, existir um professor virgem de teoria geral do sexo? Não! Definitivamente determinados assuntos necessitam indispensavelmente a perspectiva prática para serem compreendidos em toda sua complexidade.

Mas isso não é o que observamos no Brasil. A esmagadora maioria dos chamados “especialistas em segurança pública” só conhece a criminalidade pelos livros e pela TV. Nunca participaram diretamente de uma abordagem policial e por isso não podem conceber realmente o perigo da atividade. Nunca tiveram que algemar ninguém e tampouco sabem quão complexo e visceral pode ser, por exemplo, uma troca de tiros ou uma multidão fora de controle. No alto de seus gabinetes refrigerados, longe de qualquer risco, emitem suas “súmulas papais” onde se apressam em condenar ações que não compreendem e fomentar perante a população ignorante e desavisada o ódio e o descrédito às forças de segurança pública, que são essenciais para qualquer democracia.

No presente caso o discurso da imprensa congelou o frame do tiro e em seguida mostrou indivíduo morto no chão. Nenhuma análise da grande mídia discutiu o caminho até se onde chegou a esse resultado, nem tampouco os recursos disponíveis pelos PMs naquele momento.

A cena completa mostra três policiais tentando algemar um indivíduo. Este resiste à prisão( e esta para ser legal, deve ter sua motivação sob pena de se converter em abuso de autoridade). O que se segue é que imediatamente esses três policiais são cercados por um multidão hostil que provoca e tenta desestabilizar a guarnição( no final do vídeo é possível ver a grande quantidade de pessoas). É possível identificar pelo menos 6 homens se aproximando para tentar “resgatar” o indivíduo que já estava sob custodia do estado( é possível ouvir eles provocando: “vamos tirar ele daí”, “atirem!”). É possível também observar que enquanto dois PMs tentavam imobilizar o indivíduo no chão um terceiro, em pé, se ocupa em manter perímetro em segurança e preservar a integridade física de seus parceiros que, naquele momento, não estavam em condições de se defender de agressões de terceiros. Ele, seguindo a técnica do uso progressivo da força, utiliza voz de comando ordenando que as pessoas se afastem do local. Isso não acontece. Em seguida ele faz uso do armamento não letal disponível(spray de pimenta) para afastar a turba o que também não ocorre. Então ele saca a pistola e passa a utilizá-la como meio de intimidação para evitar a aproximação. É importante ressaltar que eles aparentemente não dispunham do TASER nem de armamento com munição menos que letal. Cercados, em ampla desvantagem numérica e sem condições sequer de pedir reforços, a situação vai ficando cada vez mais agravada e os indivíduos mais exaltados começam se aproximar perigosamente da guarnição.

Esse é o ponto crucial da ocorrência, de onde saiu o resultado final, e que fiz questão de capturar o print para este post: um dos seis indivíduos hostis avança sobre o policial que estava com a pistola na mão fazendo a segurança dos outros dois qu
e estavam imobilizados no chão. E aí ele, em milésimos de segundo teve que decidir: ou repelia a agressão com o único recurso disponível e tentava preservar a integridade física da guarnição ou deixava a turba entrar em luta corporal contra os três, tomar as armas e isso gerar um cenário imprevisível.

O senso comum mostra policiais como seres robotizados, sem coração, sem vida e sem família. Corpos descartáveis que são pouco ou nada lamentados quando morrem no ofício de defender a sociedade de indivíduos antissociais. No caso em tela, é possível perceber que não havia margem de ação que não fosse a do sentido de autopreservação e qualquer polícia do mundo, em situações extremas de perigo real ou presumido, agiria neste sentido:

Mulher é morta polícia ao atropelar policial e invadir espaço da casa branca:
http://www.nbcnews.com/news/other/woman-shot-killed-capitol-police-after-chaotic-chase-white-house-f8C11331203

Brasileiro é morto pela polícia britânica ao ser confundido com terrorista:
http://news.bbc.co.uk/2/hi/uk_news/4713753.stm

Vale lembrar que multidões hostis não respeitam inferioridade numérica e podem agir de forma covarde, e até letal, se não foram contidas:

Indivíduos agridem policiais em UPP:
https://www.youtube.com/watch?v=p8NPBUBOWsk

Coronel espancado é resgatado por colegas:
https://www.youtube.com/watch?v=GX_sUnmhXAQ

Policiais são agredidos por multidão:
https://www.youtube.com/watch?v=hE11sPgOc8E

O camelô não foi assassinado pelo PM. Ele pediu pra ser suicidado. Em qualquer país do mundo aquele que, mesmo após várias advertências, avança de forma hostil pra cima de um policial com pistola na mão pede pra levar um tiro( e geralmente consegue).Ao agir desta forma a guarnição optou por seguir o mandamento número 1 da atividade policial: é melhor ser julgado por sete do que carregado por seis! Agiram corretamente pois aqueles que hesitam em situações de perigo infelizmente não costumam ficar vivos para contar a estória:

Policial é morto ao tentar dar voz de prisão a assaltante:
https://www.
youtube.com/watch?v=w8EhY7gRUnQ

Dois policiais são executados em abordagem:
https://www.youtube.com/watch?v=5IRs5biK7f8

Policiais são mortos por marginal com faca:
https://www.youtube.com/watch?v=jKCgu5AYQ2k

Aff… patético comparar esse idiota à um mártir.
Porque ele tinha que se meter em uma situação já controlada pela polícia? segundo o texto ele “tentou impedir que Isaías fosse humilhado e agredido por três policiais, durante uma abordagem abusiva e despreparada”. Mas para mim, e grande parte das pessoas, foi puro desrespeito pela Polícia.
Onde já se viu uma pessoa ter a audácia de querer tirar o material de trabalho de um policial? Em qualquer lugar do mundo, por muito menos, a polícia atira para matar, e nesse caso o policial atirou para afastar do agressor e não para matar. Morrer foi fatalidade. E ainda que assim não fosse, muito justificada a ação do policial diante da agressão do imbecil.
Com relação ao despreparo da policia, isso já não nos é novidade, mas nós como sociedade, já sabendo disso vamos brincar com uma situação dessas? pessoas com o mínimo de raciocínio não se arriscam. Ele fez besteira e pagou por isso. Que sirva de exemplo a outros que tentarem desrespeitar a polícia.

O policial também é um trabalhador. Esse senhor que optou em perder a vida desta maneira enfrentou o estado e as leis brasileiras. Se tivesse sido o policial no lugar deste todos estariam achando tudo normal.

As pessoas são livres para ter suas opiniões,convicções e tudo que o valha.Agora,analise por outro angulo:Lamento profundamente a morte do trabalhador.Só tem um problema:Ele estava cometendo um crime federal,concorda?Devia morrer por isso?Não.Lógico que não.Mas queiramos ou não admitir,a PM é autoridade constituída,seja ela despreparada(não acho) ou não.Ele ATACOU um Policial armado.Essa falta de respeito com nossa policia,que a mídia vem alimentando e e incentivando me faz perguntar aos nobres repórteres :Se no quintal da casa de vcs,às 2 horas da madrugada,ouvirem alguém forçando a porta,para quem irão telefonar?Será para o 190?Pensem nisso.Lutar por uma policia melhor é uma coisa,denegrir sua imagem,é outra.E vcs tem esse poder.

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