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Copa do mundo

A morte do trabalhador é o preço da Copa? Deus lhe pague.

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De Douglas Belchior

Muita tristeza e revolta. Esses foram os sentimentos dos setores organizados que questionam os gastos com a Copa do Mundo do Brasil, com relação ao acidente que vitimou trabalhadores no novo estádio do Corinthians.

A frieza e a pouca importância com que fora tratada as mortes e o sofrimento das famílias expõe uma vez mais o perverso valor que norteia as ações de empresários das megas construtoras, dos grandes clubes, da Fifa e do governo brasileiro: antes de tudo, negócios; negócios acima de tudo!

Militantes do Cursinho Comunitário da Uneafro-Brasil, Núcleo de José Bonifácio/Itaquera, sintetizaram em poucas palavras a revolta diante de tanta injustiça: 

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“Sentou pra descansar como se fosse um príncipe”

 

Por Uneafro-Brasil – Núcleo de José Bonifácio – Itaquera

Nós que passamos todo dia ao lado das obras do estádio Itaquerão, indo pro trabalho, pra escola, procurar emprego, pra cidade, seja de metrô, trem, buzão, não tem como ficarmos calados. 

A tragédia ocorrida dia 27/11 que resultou em mortos e feridos nos provoca a questionar muitas coisas. Outros trabalhadores já morreram em obras da Copa do Mundo em Brasília e Manaus.

Indignação! Nós não podemos olhar pra tudo isso e pensar que está tudo bem. Por isso, deixamos umas perguntas breves que FIFA, CBF, Comitê organizador, Odebrecht, Corinthians, toda essa máfia e seus patrocinadores NÃO querem responder:

1 – E se as mortes fossem de um engenheiro-chefe, representante da FIFA ou um turista?

2 – Qual indenização será paga para as famílias desses trabalhadores? Deveria ser no patamar do salário do engenheiro-chefe? Do Arquiteto? Diretores disso e daquilo? Já estão providenciando a pensão vitalícia ou vão ignorar?

3 – O mínimo que se exige é que as mortes nos estádios Mané Garrincha, Amazonas e Itaquerão não sejam esquecidas: Esse é o preço da Copa? Deus lhe pague. 

4 – Os nomes, sobrenomes, fotos, história dos trabalhadores mortos constarão nas placas de inauguração do estádio?

5 – Faz sentido continuar a obra Sem sequer apurar a responsabilidade criminal pelas mortes?

6 – Faz sentido dizer que “poderia ter sido pior”? O que seria pior do que as mortes dos operários? Cair a arquibancada e São Paulo não ter jogo da Copa?

7 – Onde estão as respostas às reivindicações dos movimentos sociais organizados que vêm denunciando inúmeras violações, remoções e crimes cometidos em nome da Copa do Mundo?

8 – As mulheres, os negros, os moradores das periferias e a juventude são os mais agredidos pela truculência dos governos, da FIFA e aliados. O descaso com estas mortes será o mesmo descaso que vemos na violência institucional contra esses grupos?

9 – E as famílias das diversas comunidades ameaçadas de remoção? Onde está o direito à moradia?

10 – Depois da Copa, como fica? Não é de hoje que a gente pergunta! Não é de hoje que a gente pergunta!

E Chico, como que se soubesse:

“Subiu a construção como se fosse sólido

Ergueu no patamar quatro paredes mágicas

Tijolo com tijolo num desenho lógico

Seus olhos embotados de cimento e tráfego

Sentou pra descansar como se fosse um príncipe

Pelo prazer de chorar e pelo ‘estamos aí’

Pela piada no bar e o futebol pra aplaudir

Um crime pra comentar e um samba pra distrair

Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir

Pela fumaça, desgraça, que a gente tem que tossir

Pelos andaimes, pingentes, que a gente tem que cair…

Deus lhe pague”

4 respostas em “A morte do trabalhador é o preço da Copa? Deus lhe pague.”

Já dizia um velho sábio que o futebol é o ópio do povo, e estas mortes sintetiza bem esta máxima.
A utilização de espaço e bens públicos para lucros privados é uma constante em nosso país, vejam este triste exemplo da “arena” Corinthians, onde o terreno foi doado, a grana é grana pública, os pobres, os comerciantes e os favelados estão sendo expulsos da região, e a especulação imobiliária esta campeando, fazendo com que os preços do m2 exploda e que os preços dos alugueis estejam nas alturas.
Enquanto isso, a universidade da zona leste não sai do papel, as mães continuam a não ter vaga em creche, o transporte continua caótico e lotado, e a violência contra os pobres alcança níveis inaceitáveis.
Era esse o tal “legado” que o povo da leste esperava???
Empulhação vendida como necessidade dos miseráveis da zona leste de SP, e que este acidente põe a nu.
Já tínhamos tido a queda da arapuca do Palmeiras, e agora, temos a queda da tal “arena ” do Corinthians.
E só para lembra-los, arena, era o espaço onde os cristãos era lançados para enfrentar os leões, sob gritos estéreis dos reis e da população reacionária
Resumo da ópera bufa: Obras a toque de caixa, terminam em amontoado de sucata.

Casuísta demais. Morre trabalhador em todas as áreas, industrias, tempos e eventos…

Esse é o preço da Copa?
Quando um avião cai, pergunta-se “esse é o preço do homem voar?” Quando um trabalhador fica incapacitado ou morre em alguma obra, pergunta-se “esse é o preço do edifício x?”. Quanto o Titanic afundou, perguntou-se “esse é o preço da navegação?”. Quando um paciente morre, pergunta-se “esse é o preço da medicina?”. Etc… Provavelmente não.

Quando um homem morrer de alguma causa “não natural”, pergunta-se “esse é o preço do desenvolvimento?”. Essa eu já acho que mais gente se pergunta, esquecendo-se que sempre morreu gente de causas não naturais.
Por fim, a reposta para essa última e a primeira pergunta “Esse é o preço da Copa?” deveria ser: Não, esse é o preço que se paga pela negligência (grande maioria no setor de construção civil, do qual faço parte) OU do acidente (SIM, do acidente, isso ocorre, e sempre ocorreu e ocorrerá).

Mas quem pode responder se deriva da negligência ou dum acidente a culpa é a perícia e o laudo técnico.

Culpar um evento é bobagem, culpemos pessoas, legislações, falta de fiscalização, erro técnico e, também, assumamos que, como no caso de acidentes, não temos o controle total sobre nossas vidas. Culpar a copa não nos ajudará nada. Você pode não gostar do evento, você pode não gostar de prédios, você pode não gostar da energia elétrica que a Itaipu nos trouxe “as custas” de muitas vidas. Mas, no fim, a culpa será sempre do erro humano ou da fatalidade natural.

Uma empresa não fecha porque um funcionário morreu (ela paga o salário de muitos outros que tem uma vida e uma família para continuar e sustentar). Uma sociedade não morre por causa da morte de um dos seus membros, muito menos um país. A vida continua. Obviamente, deve-se respeitar a dor dos familiares, deve-se indenizá-los, deve-se investigar e esclarecer os fatos, deve-se punir, se houver (e provavelmente há), os responsáveis, e principalmente tomar medidas, havendo, para que não se repita. Mas não se deve parar, a vida não para.

O pior disso é ver que eles vão retomar a obra sem que as investigações tenham sido concluidas. è um total desrespeito às famílias dos trabalhadores mortos. Sabemos que não se pode mecher na cena do ocorrido até que se apure se houve crime. O que esperar de instituições que ignoram as leis do próprio país pelo beneficio do lucro pelo lucro. E pior é saber que seus comandantes não estão nem aí pra segurança do trabalho. Uma coisa é certa eu não vou assistir os jogos da copa do Mundo de 2014 e convido a todos os brasileiros de bom senso a não assistirem os jogos da copa como forma de demosntrar que não vamos nos compactuar com esse absurdo que estamos presenciando nos ultimos anos. Vamos mudar o Brasil chega falta de caráter dos políticos e empresários que não valorizam seus trabalhadores de forma digna.

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