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A arte popular e nossos mortos

por Lucas Gomes

 

Existe um estilo de música na Argentina que é em muitas coisas análoga ao funk carioca: a cumbia villera. O preto pobre periférico no Brasil não sabe o que o pobre periférico indígena escuta na Argentina, e vice-versa. Bem, na Argentina se escuta desde o fim dos anos 90′ a cumbia villera [cumbia favelera]. A cumbia é um estilo de música popular escutada em toda a América Latina, contando com algumas tradições próprias de países variados, como na Colômbia (mais tradicionalista) ou no Peru (que nos anos 80′ viu nascer a cumbia psicodélica). A cumbia popular argentina tem como um de seus principais ícones Gilda, cantora que morre no auge de sua carreira em um acidente de carro.

Mas a novidade surge a partir de uma banda que hoje é mítica, Damas Gratis, e seu cantor, Pablito Lescano. Se trata de uma cumbia de “baixo orçamento” que fala sobre mulheres (de forma misógina), sobre drogas (principalmente consumo) e sobre a polícia. Qualquer semelhança com o funk, temática ou cronológica, não é mera coincidência. Se alguém tiver interesse em conferir como soa esse estilo hoje em dia, também visualmente, pode conferir o clip da música “Yo uso Visera”eu uso boné.

 

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Claudio Hugo Lepratti, também conhecido como “Pocho” [pronunciado como potcho] foi um militante social argentino assassinado aos 35 anos pela polícia da província de Santa Fe no dia 19 de dezembro de 2001. Foi uma das 36 pessoas mortas no Argentinazo, nos dias 19 e 20 de dezembro de 2001 que marcaram o auge da crise social e política que o país vinha vivendo. Suas principais causas foram o altíssimo desemprego e a crise da dívida soberana na qual culminou os anos do neoliberalismo argentino da década de 90′.

“Pocho” era um militante vinculado à teologia da libertação, atuou em organizações de bairro e também como ativista sindical enquanto trabalhador do estado. No ano de seu assassinato trabalhava como auxiliar de cozinha de uma escola situada em um bairro periférico da cidade de Rosario. Nos fatídicos dias do Argentinazo, como já se havia tornado comum pelo país nos anos anteriores, diversas porções da população empobrecida se dirigiam às principais cadeias de hipermercados para exigir comida. Ao ser-lhes negada, esta mesma população tomava a iniciativa de praticar saques a fim de remediar sua situação de miséria (busquem por fotos na internet e verão senhoras com bolsas e carrinhos de feira olhando para a polícia).

Entretanto, como a polícia existe para proteger o bom funcionamento do capital, estes atos eram reprimidos fervorosamente. Com esta desculpa, a polícia se aproximou da escola em que trabalhava Pocho dando tiros à esmo contra os moradores, o que incitou o militante a subir no telhado da escola e gritar a frase que seria sua lembrança póstuma: ¡Bajen las armas que acá sólo hay pibes comiendo! –  Abaixem as armas que aqui só tem crianças comendo! Foi assassinado com um tiro de escopeta. O policial que efetuou o disparo foi condenado a 14 anos de prisão, cumpriu 9 anos e hoje é militante do PRO, partido de Maurício Macri.

A música “El angel de la bicicleta” é uma homenagem do cantor León Gieco à Pocho, sendo a letra de sua autoria e a composição do pianista Luis Gurevich. O título faz referência ao apelido do militante, ganhado por usar muito a bicicleta como meio de transporte (e, obviamente, circular em um ambiente católico). León Gieco é um “cantaautor” famoso por engajar-se com causas sociais, é um dos herdeiros da “música de protesto” latinoamericana dos anos 60-70, Mercedes Sosa chegou a gravar algumas de suas composições. Para esta homenagem, no entanto, preferiu recorrer a um estilo que não costumava transitar, a cumbia.

A música de León Gieco, entretanto, é uma cumbia mais refinada e se sente isso principalmente na harmonia, com acordes inimagináveis em composições da cumbia villera original, e também um arranjo que não pertence ao estilo. Está lá sim o ritmo e os famosos solos de teclado com o timbre tão característico. Uma apropriação do artista para aproximar-se dos territórios que marcaram a trilha do militante Claudio Hugo Lepratti, brutalmente assassinado ao defender jovens estudantes. A letra é uma poesia dolorida, pois fala de um nós-lírico trágico, cindido: “nós deixamos isso acontecer. Por falta de poder para fazer que tudo seja diferente”.

Uma outra manifestação artística em homenagem à Pocho são os estênceis onde se vê uma bicicleta montada por uma pessoa com asas, imagem também presente em um monumento em sua memória na sua cidade natal, a pequena Concepción del Uruguay. Essa e uma figura de formiga, representando outro apelido seu, “Pochormiga” (Pocho-formiga) foram as formas que os artistas e ativistas encontraram de prolongar a memória deste militante assassinado pelas ruas dos bairros, como canta León Gieco em sua letra.

Abaixo compartilho uma tradução.

 

Trocamos olhos por céu

Suas palavras tão doces, tão claras

trocamos por trovões

 

Tiramos corpo, colocamos asas

e agora vemos uma bicicleta alada que viaja

Pelas esquinas do bairro, por ruas

Pelas paredes de banheiros e cárceres

Abaixem as armas

que aqui só tem crianças comendo!

 

Trocamos fé por lágrimas

Com qual livro se educou esta besta

com sanha e sem alma?

Deixamos ir um anjo

e fica esta merda

que mata sem se importar

De onde viemos, o que fazemos, o que pensamos?

Se somos trabalhadores, padres ou médicos?

Abaixem as armas

que aqui só tem crianças comendo!

 

Trocamos boas por más

e o anjo da bicicleta o fizemos de lata

Felicidade por pranto

Nem a vida nem a morte se rendem

com seus berços e suas cruzes

 

Vou cobrir tua luta mais que com flores

Vou cuidar de tua bondade mais que com plegárias

 

 

 

 

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