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Política racismo

Briga na festa progressista: A culpa é da neguinha atrevida?

Por Douglas Belchior

“Cumé que a gente fica?”

 

“Foi então que uns brancos muito legais convidaram a gente pra uma festa deles, dizendo que era pra gente também. Negócio de livro sobre a gente. A gente foi muito bem recebido e tratado com toda consideração. Chamaram até pra sentar na mesa onde eles estavam sentados, fazendo discurso bonito, dizendo que a gente era oprimido, discriminado, explorado.

Eram todos gente fina, educada, viajada por esse mundo de Deus. Sabiam das coisas. E a gente foi se sentar lá na mesa. Só que tava cheia de gente que não deu pra gente sentar junto com eles. Mas a gente se arrumou muito bem, procurando umas cadeiras e sentando bem atrás deles.

Eles tavam tão ocupados, ensinando um monte de coisa pro crioléu da plateia, que nem repararam que se apertasse um pouco até que dava pra abrir um espaçozinho e todo mundo sentar junto na mesa. Mas a festa foi eles que fizeram, e a gente não podia bagunçar com essa de chega pra cá, chega pra lá. A gente tinha que ser educado. E era discurso e mais discurso, tudo com muito aplauso.

Foi aí que a neguinha que tava sentada com a gente, deu uma de atrevida. Tinham chamado ela pra responder uma pergunta. Ela se levantou, foi lá na mesa pra falar no microfone e começou a reclamar por causa de certas coisas que tavam acontecendo na festa. Tava armada a quizumba.

A negrada parecia que tava esperando por isso pra bagunçar tudo. E era um tal de falar alto, gritar, vaiar, que nem dava mais pra ouvir discurso nenhum. Tá na cara que os brancos ficaram brancos de raiva e com razão. Tinham chamado a gente pra festa de um livro que falava da gente, e a gente se comportava daquele jeito, catimbando a discurseira deles.

Onde já se viu? Se eles sabiam da gente mais do que a gente mesmo? Teve uma hora que não deu pra aguentar aquela zoada toda da negrada ignorante e mal-educada. Era demais. Foi aí que um branco enfezado partiu pra cima de um crioulo que tinha pegado no microfone pra falar contra os brancos. E a festa acabou em briga…

Agora, aqui pra nós, quem teve a culpa? Aquela neguinha atrevida, ora. Se não tivesse dado com a língua nos dentes… Agora tá queimada entre os brancos. Malham ela até hoje. Também quem mandou não saber se comportar? Não é à toa que eles vivem dizendo que ‘preto quando não caga na entrada caga na saída…”

(Lelia Gonzales)

 

A cultura colonial, escravocrata e cristã que inunda o imaginário e, de alguma maneira, nos educa a todas e todos no Brasil, cumpre fundamental papel na maneira como nos organizamos ou não, em todas as dimensões da vida. Inclusive no que diz respeito a política.

Sou candidato a deputado federal nestas eleições de 2018. A opção que fiz pela militância política no movimento negro e, fundamentalmente, por ser um homem negro e da classe trabalhadora, sempre impôs drásticos limites para minha atuação. A maneira como pessoas de origem como a minha são tratados quando se atrevem a enfrentar o status quo de herança colonial provoca reações sinceras: “Preto vagabundo!”. Esse é o termo que sintetiza o que muitos pensam e poucos tem coragem de dizer publicamente. Afinal, Política não é lugar de pessoas como você!

No último período resolvi tornar pública divergências e contradições internas de meu partido, o Psol de SP, no que diz respeito ao racismo institucional que reproduz. As respostas não podiam ser diferentes: Ataques covardes, calúnias, desqualificação, isolamento e nenhuma capacidade de diálogo e autocritica, em que pese a legitimidade de nossa candidatura e as centenas de manifestações de apoio à denúncia e crítica ao partido. O texto de Lélia Gonzales descrito acima, à mim apresentado pela amiga querida Luh Souza e pelo amigo Francisco Antero, autores de “Teste do Pescoço”, é mais que pedagógico no sentido de ilustrar a situação corriqueira a que militantes negras e negros são colocados nos ambientes da luta política, independentes do lugar ideológico. Nada de novo. Apenas a repetição da lógica colonial, praticada por quem diz negá-la. E pior, com o aval, o endosso de membros de nossa comunidade.

Os desafios para a construção de uma movimentação política que contagie e de fato represente o povo brasileiro passa pelo protagonismo deste povo. E o povo brasileiro é negro. Não por acaso é, o racismo, pano de fundo e fundamental elemento mediador das relações, das desigualdades e dos conflitos sociais brasileiros. Quando este povo enuncia politicamente sobre suas mazelas e propostas de solução, não fala para o povo ou sobre o povo ou mesmo junto com o povo. Está falando de si. Esta é a questão. É certo que a direção, a condução do chamado campo popular, seja do lado das forças hegemônicas dos últimos 40 anos, seja do chamado novo ciclo da esquerda brasileira, continua a ser objeto de desejo dos descendentes de colonizadores que não se constrangem em se colocar como representação e voz dos desgraçados. Pois sou grato à Oxalá por viver o tempo histórico desta transição. Se não esta manhã, amanhã à noite. Já não precisamos nem toleramos intermediários. Antes da próxima colheita, falaremos em nosso nome, por nosso povo.

Fica a pergunta de Lelia: a culpa é mesmo da neguinha atrevida?

 

 

Texto da imortal Lélia Gonzalez (1935–1994), intelectual, professora, antropóloga e militante brasileira. Publicado como epígrafe de “Racismo e sexismo na cultura brasileira”, este texto dela foi apresentado pela primeira vez na Reunião do Grupo de Trabalho “Temas e Problemas da População Negra no Brasil”, durante o IV Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais, realizado no Rio de Janeiro, entre os dias 29 a 31 de outubro de 1980.
Publicado aqui.

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