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Candidato negro aponta descaso com ações afirmativas em concurso na UFRJ

Matheus Gato, de 34 anos, é doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), pesquisador visitante no Departamento de História e no Hutchins Center for African and African American Research e atualmente faz pós-doutorado na Universidade de Harvard. O sociólogo passou por um episódio de injustiça racial ao prestar um concurso para o cargo de Professor da Carreira de Magistério Superior no Departamento de Sociologia da UFRJ. Com três vagas disponíveis, número que garante a aplicação da lei de cotas, Matheus foi um dos 60 candidatos que se inscreveram para pleitear uma oportunidade.

Na fase final do concurso, em que eram exigidas atividades como arguição de memorial e exposição de uma aula, Matheus era o único candidato negro, registrado como cotista, que conseguiu chegar a esta etapa. “O processo foi muito cansativo porque o concurso era de altíssimo nível. Não dormi a noite preparando minha aula e passei mal, com ânsias, várias vezes, na madrugada que antecedeu minha prova”, relata o candidato.

No dia 11/5, Matheus teve a informação de que não havia conseguido a vaga como cotista, já que sua pontuação foi de 6,65 pontos. De acordo com o edital, os candidatos que se inscrevem por cotas não estão aptos a preencherem a vaga caso sejam “eliminados” e/ou “reprovados”. Entretanto, segundo Matheus, a etapa que tinha caráter de reprovação ou eliminação era a escrita, que ele passou. O candidato reforça: “Nas outras etapas, você apenas se classifica ou não para ocupar uma vaga”.

Com isso, as três vagas foram preenchidas por candidatos brancos. Matheus comenta que dois deles ainda tinham relações acadêmicas de mestrado e doutorado com membros da banca. “Ter orientadores de mestrado e/ou doutorado na banca é algo proibido em quase todos os processos seletivos dessa natureza nas universidades federais brasileiras” declara o candidato.

Em resposta à carta escrita pelos professores e pesquisadores em apoio ao candidato, a UFRJ compartilhou a seguinte nota de esclarecimento: ”O Edital nº 860 em seu item 5 e a Resolução nº12/2014 em sua Seção IV preveem a reserva de vagas para candidatos negros. A condição de preenchimento das vagas reservadas a candidatos negros é sua aprovação no Concurso Público seguindo os critérios supracitados. Na ocorrência de reprovação de candidato optante por essa modalidade de concorrência no Concurso Público, conforme o artigo nº 28 da Resolução 12/2014, há realocação da vaga reservada a candidatos negros para os demais candidatos que tenham sido classificados com nota final igual ou superior a 7 (sete) como citado anteriormente: ‘Art. 28. As vagas reservadas aos candidatos negros que não forem providas por falta de inscritos, por reprovação no Concurso Público ou por outro motivo serão preenchidas pelos demais candidatos aprovados, observada a ordem geral de classificação.’ Tendo em vista os esclarecimentos acima, o Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro atesta a lisura e legalidade do processo seletivo conduzido pela Comissão Julgadora”.

Matheus afirmou que entrará com um processo judicial por conta do ocorrido. “O meu caso é desses que expressam o descaso com as ações afirmativas e o descaso com os direitos da população nesses poucos 130 anos da Abolição. Tenho um filho de 7 anos, preciso lutar pela cidadania dele no futuro”.

 

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