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Mostra Itinerante de Cinema Negro em Salvador tem mais de 70 filmes

Começou em 14 de agosto a segunda edição da Mostra Itinerante de Cinemas Negros – Mahomed Bamba (II MIMB), que acontece em Salvador, até o dia 18 de agosto deste ano. Nas 18 sessões previstas, mais de 70 filmes de várias partes do mundo serão exibidos gratuitamente em bairros da cidade.

A Mostra tem o objetivo de ampliar as janelas de reprodução dos conteúdos nacionais e
internacionais produzidos por realizadores negros. Em sua segunda edição, a MIMB traz
apresentações culturais, oficinas, palestras, exposição e circulação de novos conteúdos dos
cinemas negros nacionais e internacionais. Serão exibidos longas e curtas-metragens de
ficção, documentários, animações e obras experimentais, a fim de dialogar com adultos e
crianças de bairros populares e periféricos da cidade de Salvador. A Curadoria de filmes
nacionais desse ano foi composta por Dayane Sena, Heraldo De Deus e Rayanne Layssa,
coordenados por Julia Morais e Taís Amordivino. Já a Curadoria de filmes internacionais, coordenada por Kinda Rodrigues, foi composta por Janaína Oliveira e Alex França. O júri é composto por Beatriz Vieirah, Luciana Oliveira e Thales Novaes.

O evento vai circular por sete bairros da cidade, com sessões simultâneas em oito espaços
culturais: Ilha de Maré (Comunidade Quilombola de Bananeiras), Quadra Esportiva do Calabar (Calabar), Praça da Revolução (Periperi), no Goethe-Institut (Corredor Vitória), Sesc Pelourinho, Centro Cultural da Barroquinha, Sala Walter da Silveira – Dimas (Barris) e Casa de Angola (Barroquinha).

Serão oferecidas oficinas de produção audiovisual com aparelhos móveis com a participação das oficineiras Ana do Carmo, Fabíola Silva e Ariel Dibernaci; oficina de crítica de cinema Afrocentrada com Alex França; oficina voltada para o olhar sobre os corpos LGBT nos cinemas com Heitor Augusto; e Master Class: O Cinema e o Espelho: experiências, olhares e registros com Everlane Moraes. Todas terão 30 vagas no valor de R$60,00. Entendendo que o processo inclusivo parte da disposição ao acesso, serão disponibilizados 7 bolsas integrais e 8 com 50% de desconto.

A primeira edição, realizada em abril de 2018, passou por seis bairros de Salvador com a
exibição de 44 filmes em 14 sessões, para além de atividades simultâneas como oficinas e
rodas de conversa sobre questões correlatas a gênero, raça, sexualidade e a produção
audiovisual. A mostra leva o nome do professor Mahomed Bamba, pesquisador fundamental
sobre cinema negro e diaspórico, nascido na Costa do Marfim e radicado no Brasil.

Mulheres negras à frente

A MIMB é uma iniciativa de mulheres negras cineastas, realizadoras, produtoras e ativistas,
que vislumbraram a necessidade de fomentar o intercâmbio cultural entre produções
cinematográficas negras do Brasil com o mundo, para além de repensar o processo de
distribuição destes produtos, atentando para a importância do acesso ao cinema nas periferias,
e a relação entre o cinema e a cidade, de modo geral.

Trata-se de um projeto que reúne ao mesmo tempo a luta pela afirmação política da população negra e a discussão sobre a
produção, distribuição e acesso do audiovisual.
“Entendemos o quão é importante celebrar Os Cinema (s) Negro(s), e que esta pluralidade faz
parte da navegação diaspórica que nos conecta em todas pontas do mundo. Em reverência aos
estudos do saudoso professor Mahomed Bamba, a MIMB 2019 integra “S” como multiplicidade de construção, soma e pertencimento. Trazer as óticas construídas mundialmente para a Bahia.

Deste modo, ampliamos as inscrições para produções negras de cada canto do mundo. Nossas conexões são de navegação, identidade e caminhos” aponta Daiane Rosário, idealizadora da Mostra.

O cinema, assim como quase todas as áreas de conhecimento, atuação profissional e artística,
é um ambiente marcado por profundas desigualdades raciais e de gênero. As mulheres ainda são minoria absoluta na direção de filmes, por exemplo. Uma pesquisa
divulgada em 2018 pela Agência Nacional de Cinema (Ancine), com base em dados do
IBGE, revelou que os negros não chegam nem a pontuar em funções executivas das grandes
produções (como Direção e Roteiro) e as mulheres ficam entre 1% e 3%, considerando as
produções mistas. Os homens brancos seguem sendo 75,4% entre diretores e 59,9% entre
produtores, seguidos por mulheres brancas. É no sentido de combater essa desigualdade
histórica que a MIMB vêm se consolidando no circuito de Festivais e Mostras para circulação
da produção negra e feminina no cinema.

 

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As Cores da Serpente: um filme sobre sobre sonhos, negros e cultura angolana

Por Marina Souza

As Cores da Serpente, primeiro longa-metragem produzido pelo diretor brasileiro Juca Badaró, será lançado dia 21 de março em São Paulo, Porto Alegre e Curitiba. O filme registra jovens grafiteiros pintando os Murais da Leba, uma estrada histórica com cerca de 20 quilômetros, na Angola. Veja o trailer a seguir.

O Coletivo Mural da Leba envolveu mais de 30 artistas angolanos e estrangeiros para promover a arte urbana. O projeto durou dois anos e, assim como o o documentário, não teve nenhum apoio financeiro do governo ou de empresas. “Como as obras ficam a céu aberto, a chuva e o sol podem degradá-las, e por isso eles [artistas] fizeram intervenções periódicas. A que está retratada no filme foi a primeira e durou cerca de 1 mês”, explica Badaró.

O diretor conta que estava morando há dois anos em Luanda, capital angolana, quando em 2015 recebeu um convite de uma produtora audiovisual brasileira para registrar tais intervenções. Seus trabalhos anteriores dentro do país tinham sido como diretor de mini documentários da TV pública local.

A estrada-cenário de As Cores da Serpente começou a ser construída pelos portugueses no final do século XIX e só foi concluída às vésperas da independência de Angola, em 1974. Tornou-se um dos mais conhecidos pontos turísticos do país, na Serra da Leba, uma formação montanhosa que separa as províncias da Huíla e do Namibe. A via era necessária para facilitar o transporte de mercadorias e pessoas entre as duas províncias.

Com o passar do tempo, as paredes ficaram sujas, má-cuidadas e abandonadas. E é justamente para levar mudança à essa situação que o Coletivo Mural da Leba surgiu trazendo cores ao extenso concreto.

Divulgação

Badaró conta que duas das câmeras que captaram as imagens foram usadas pelos próprios artistas, ele ficava responsável popr registrar as artes e entrevistar pessoas.

É o primeiro filme brasileiro a ser inteiramente gravado no território angolano e, segundo o diretor, o longa tem um significado muito além da exibição das pinturas. Ele confessa estar feliz por saber que o Brasil poderá conhecer outro pedaço seu, que muitas vezes é esquecido.

“É um filme sobre sonho. Um filme sobre negros, cultura africana e sua relação com o Brasil”, diz.

Dois dos 30 artistas estarão presentes na estreia brasileira, um deles é diretor do Coletivo e o outro um grafiteiro que fará muitas coisas pela primeira vez: andar de avião, viajar para outro país e participar do lançamento de um filme que protagoniza. Além disso, as cidades de São Paulo e Salvador terão muros pintados pelo angolano.

Juca Badaró, por sua vez, relata que ao ver a reação dos artistas, que são em sua maioria moradores de gueto, assistindo ao documentário sentiu-se profundamente emocionado, pois muitos choraram e lhe parabenizaram.

 

 

 

 

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Mostra de Cinema Afrobrasileiro estreia hoje na Colômbia

Ary Rosa e Glenda Nicácio, diretores de Café com canela (Foto: Divulgação)

Por Marina Souza

Estreia hoje (01) a primeira Mussambê Mostra de Cinema Afrobrasileiro, uma parceria entre o coletivo Flor de Milho Quilombo de Artes e o Festival Internacional de Cine Comunitário Afro Kunta Kinte. O cinema da Câmara de Comércio em Medellin, na Colômbia, exibirá 15 obras audiovisuais negras brasileiras durante a primeira quinzena de março.

Serão transmitidos documentários e filmes de curta, média e longa metragem. O público colombiano terá a oportunidade de enxergar o Brasil sob uma perspectiva negra e nacional, retirando falsos esteriótipos e difundindo a cultura do país.

Inajara Santos, aos 32 anos, e  Moreira, também conhecida como Mamba Negra, aos 33, são as articuladoras do evento, ambas negras, formadas em Ciências Sociais e apaixonadas por arte. Não é possível afirmar se foi pelo acaso ou destino, mas uma coisa é certa: após se conhecerem, suas vidas ganharam novos sentidos.

Elas conversaram pela primeira vez em 2017, quando eram vizinhas numa comunidade de São Lázaro, em Salvador, foi ali que percebam muitos gostos, desgostos, ideias, inquietudes e vontades em comum. Criaram então o coletivo Flor de Milho Quilombo de Artes, que atualmente, além delas, contém mais dois integrantes: Tito Mariano, de 5 anos, que propõe ideias criativas e a Larica, cadela, que, segundo Inajara e Stéphanie, acompanha as reuniões e traz momentos de pausa e divertimento para o grupo.

O coletivo quilombista tem como marca a realização de intercâmbios, que visam estudos socioculturais, seja nos processos de produção ou de desenvolvimento. Outra coisa que destaca o Flor de Milho é o estudo e a aplicação de teorias afrocentradas.

Em parceria com o grupo colombiano do Festival Internacional de Cine Comunitário Afro Kunta Kinte, as duas artistas definem a realização do evento como um “projeto de pesquisa sobre documentário contemporâneo brasileiro com recortes para o cinema negro subalterno”.

A Mostra buscou também protagonizar produções de mulheres negras e valorizar seus trabalhos, que constantemente são invisibilizados dentro e fora do ambiente artístico.

“Nós somos mulheres negras, se não pensarmos sobre acolhimento e afeto fica muito complicado”, explicou Stéphanie.

Veja a seguir alguns dos filmes que serão exibidos:

Café com Canela

Direção: Ary Rosa e Glenda Nicácio

Filhas do Vento

Direção: Joelzito Araújo

Rainha

Direção: Sabrina Fidalgo

 

 

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No calor da noite – Cinema

Por Edson Cadette, do Blog Lado B NY

O ótimo suspense No Calor da Noite (1967) estrelando Sidney Poitier no papel de Virgil Tibbs, agente do FBI, e Rod Steiger como chefe de polícia Gillespie, tem vários dos elementos que marcaram a conturbada relação entre cidadãos negros e brancos na América, especialmente no sul.

O filme começa com o assassinato de uma figura importante do mundo dos negócios na pequena cidade de Sparta, no estado do Mississippi. Virgil Tibbs, elegantemente vestido, está sentado numa estação ferroviária esperando seu trem para levá-lo para bem longe da cidade. Confundido com o assassino, Virgil é revistado, algemado e levado para a delegacia local sem ter a oportunidade de esclarecer sua presença na cidade (ele veio visitar a mãe).

Rod Steiger, Sidney Poitier e Jester Hairston

Depois de  resolvido o engano e o chefe de polícia Gillespie verificar que Virgil não é um simples policial, e sim um especialista altamente qualificado em homicídios, ele pede a Virgil que fique na cidade para ajudar a esclarecer o assassinato. Virgil recusa a oferta, mas é obrigado a ficar poque seu superior pede que fique e ajude a solucionar o caso.

Enfrentando a resistência dos policiais, Virgil começa a trabalhar para a polícia local muito a contra gosto.

O diretor Norman Jewison toca em pontos importantes da cultura do sul dos EUA. O primeiro deles é que o negro sempre é o suspeito padrão em qualquer ato ilícito, jamais passaria pela cabeça do policial ignorante que Virgil era um agente do FBI. Outro ponto mostrado pelo diretor é o tratamento dado aos cidadãos negros independentemente da classe social entre eles. Quando Virgil está buscando um local para ficar é levado até um mecânico, que imediatamente se solidariza com a situação do brother de status diferente.

Percebemos que não há diferença no tratamento dos afro-americanos. Ambos sabem que no sul dos EUA os negros são tratados com menosprezo, não importando a classe social que pertencem. A cena de cumplicidade entre os dois é clássica.

Sidney Poitier, Rod Steiger e Warren Oates

Com a luta pelos direitos civis dos negros, que teve seu auge nos anos 1960, uma outra cena de grande impacto para a época foi o tabefe revidado por Virgil e dado pelo poderoso fazendeiro da cidade. A cena mostra que a atitude servil, que até então era a esperada dos negros, não cabia mais nos anos 1960.

O diretor ainda aborda os símbolos importantes para os sulistas brancos, especialmente depois do final da sangrenta Guerra Civil (1861-1865). Antes de resolver o caso, Virgil é emboscado por supremacistas brancos. O agente é perseguido por um carro com com uma bandeira em forma de um X, que simboliza os estados Confederados do Sul.

Virgil é salvo pelo chefe de polícia, pois Gillespe sabe que ele está num patamar social e intelectual completamente diferente dos racistas locais.

Com uma equipe de atores altamente qualificados e liderados por Sidney Poitier e Rod Steiger, o filme No Calor da Noite ajudou a manter acesa a discussão sobre o legado da escravidão nos Estados Unidos e seus efeitos 100 anos após o fim do período de Reconstrução.

  • Elenco: Sidney Poitier, Rod Steiger, Warren Oates, Lee Grant, Anthony James e Quentin Dean
  • Direção: Norman Jewison
  • Duração: 109 minutos
  • Estúdio: United Artists
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Cinema

Quando a rainha Nzinga trouxe o mar pra Minas

A Rainha Nzinga Chegou / Foto: Divulgação

Por Viviane Pistache*

Nos idos tempos em que a América do Sul e a África era um continente só, antes do abalo sísmico causado pela Europa, Minas tinha mar; tanto é que tem um bairro na cidade de Betim que se chama Angola.  Foi nesse pedacinho de África mineira que Dona Maria Casimiro fundou a Guarda 13 de Maio em 1944. No que deu quatro décadas, sua filha Dona Isabel Casimiro das Dores Gasparino foi coroada Rainha Conga de Minas devido ao passamento de Dona Maria, cumprindo a tradição matriarcal. Princesa da Guarda desde os cinco anos de idade, Dona Isabel foi coroada Rainha aos 45 anos e  por 31 anos presidiu a Guarda de Moçambique e Congo Treze de Maio de Nossa Senhora do Rosário. Como se não bastasse, por mais de duas décadas foi Rainha Conga do Estado de Minas Gerais. Antes tarde do que nunca, em 2014 Dona Isabel foi agraciada com o prêmio “Mestres da Cultura Popular de Belo Horizonte”, concedido pela Fundação Municipal de Cultura.

Esta e outras histórias sobre Dona Isabel podem ser conferidas no filme “A Rainha Nzinga Chegou”, dirigido e protagonizado  por sua filha Belinha que compartilha a direção com Júnia Torres. O documentário está competindo na Mostra Aurora, da 22ª Mostra de Tiradentes. Tenho pra mim que uma das cenas mais marcantes do longa é a que traz Dona Isabel chamando o nome de batismo e registro sua filha, carinhosamente apelidada de Belinha. Dá gosto de ver Dona Isabel pronunciando o nome completo de sua filha: Isabel Casimira Gasparino. Um nome que carrega a força de uma ancestralidade re-significada. Ao evocar o nome da família, Dona Isabel convoca Belinha a assumir seu legado. O que acontece com o repentino passamento de Dona Isabel no dia 02 de junho de 2015, aos 76 anos.

Com essa inesperada notícia, nosso congado chorou tanto que até ressuscitou o litoral de Minas, que por um instantinho, teve mar de novo. Mar de Angola que beijou as Lágrimas de Nossa Senhora, da coroa de Belinha do Sagrado Rosário dos Pretos Velhos de Aruanda. Foi feita a travessia reversa. O navio negreiro até estava lá todo enferrujado e encalhado, assombrando a paisagem, como um pesadelo que nunca vamos esquecer. Mas como Dona Belinha bem lembrou, ela navegou os céus, escoltada pela Guarda, pois ela tem ciência de que não anda só. Por isso ela nem temeu mais as turbulências do marear. E assim, nas asas de metal ela voou por cima do temporal pra nossa estrela natal.

Dona Belinha é aquela voz de tambor que re-traduz nossas tradições afro-futuristas com uma fabulosidade que nos arrepia todinha. Igual quando ela visitou Ngola e Matamba, pra pisar nas terras onde a guerreira Nzinga reinou e lutou contra a invasão portuguesa. As nossas pegadas ancestrais demonstram que nossos antepassados tinham “um senhor pé” tão grande que enquanto o direito tava aqui, o esquerdo estava a quilômetros de distância, numa passada tão veloz que chegavam a voar. Ou como nos versos de Sérgio Pererê que Dona Belinha lembrou bem: “pois meu velho abre caminho ou me leva pelo ar”.

Quando Belinha chegou no sítio arqueológico que preserva as pegadas de Nzinga ainda menina, ela não se conteve. Experimentou pra ver se o pé dela cabia na pegava. No que deu o encaixe perfeito, imediatamente Dona Belinha faz florescer a canção “eu pisei na pisada da Nzinga. Eu pisei na pisada da vovó. Eu pisei na pisada da Nzinga, eu pisei na pisada da vovó.” Sim, ela é encantadora. Como se não bastasse, Belinha descobre que do lado do hotel onde ela estava hospedada, havia um pé de Lágrimas de Nossa Senhora, aquela qualidade de semente que se usa nos rosários e na coroa no congado. Belinha ficou abismada com o tamanho das sementes: “cada bitelona!”. Ela até colheu um bocadinho de sementes que germinaram valentes no seu reinado no Concórdia, em Belo Horizonte.

É aquilo né, o que tem aqui tem lá do lado de lá do mar. Seja semente, seja gente. Foi em Angola que Belinha se deu conta que toda gente preta tem um clone em África, de tão parecidos que somos. Em Angola ela reviu um conhecido, Seu Dandico, já falecido há muito. Mas como ela mesma disse “ o cenário foi preparado pela ancestralidade”. Quem iria na viagem era a sua mãe, mas com seu passamento inesperado, Belinha, que tem o mesmo nome da mãe, consegue viajar com a mesma passagem, inclusive.

Foi uma viagem de luto e luta. O ritual do velório de Dona Isabel casou plenamente com o ritual de visita aos túmulos onde repousam nossos antepassados, guerreiros que resistiram à ocupação portuguesa, como a Nzinga. Motivo pra lamentar a gente aos monte, mas não podemos perder a chance de celebrar toda vez que podemos. Como bem disse Dona Belinha: “cada milímetro avançado, é um quilômetro conquistado”.

Interessante que o filme A Rainha Nzinga Chegou foi exibido um pouco antes do curta-metragem Negrum3 de Diogo Paulino. O jovem negro, de vinte e sete anos, trouxe para as telas uma ousada proposta do gênero afro-futurista. Ele disse que faz filmes de raiva, com raiva e a partir da raiva. Ele faz do ressentimento de ser cotidianamente violentado, a matéria-prima para a revolta. Fiquei pensando na diferença de temperatura entre a fala dele, afrontosa e urgente, com a da Dona Belinha, calma e encantada como quem entra na guerra sempre pra vencer. Me dei conta de que ambos fazem revolta e celebram. Ainda que em tom de contestação, Negrum3 celebra a vida da juventude negra trans-viada, feminista e sapatão que tá viva, ao passo que Dona Belinha celebra a tradição herdada e ambos se encontram lá, na esquina do passado com o futuro, onde o presente se faz possível.

Sam davi que guese gonê! Na cerimônia de abertura da 22ª Mostra tocou uma música bem interessante. Se chama Gonê, do rapper Filipe Rete. O jovem resgata uma língua inventada no bairro do Catete no Rio de Janeiro pela resistência para driblar a censura durante a ditadura. O idioma que ficou conhecido como Gualín do TTK usava a artimanha de dizer as palavras com as sílabas invertidas. Assim, o título da música Gonê traduzido significa Nêgo. E Sam davi que guese ganê, é vida que segue nêga! Assim, me ocorreu que o reverso da RAIVA de Diogo Paulino pode ser o AVIAR de Dona Belinha, essa griot que avia a vida tanto navegando os ares quanto no aviamento perfeito com o qual ela faz a costura da vida. Na linha do céu ela é estrela, na linha da terra é rainha.

Poderia terminar por aqui essas linhas, mas seria desonestidade intelectual deixar de mencionar que o documentário A Rainha Nzinga chegou, causou ruídos à boca miúda, enquanto o debate foi absolutamente afetuoso. As críticas que ouvi se referem ao olhar da câmera que peca por seu amadorismo e etnografia rota. Sem querer tomar partido da diretora Júnia Torres, me agrada o fato de ela ter revelado que a primeira câmera no terreiro está nas mãos de Cida Reis, mulher negra pioneira no áudio-visual mineiro e que também assina a produção do filme. É importante ainda ressaltar que Júnia foi convocada por Belinha para fazer os registros.

Guardada as devidas proporções, me fez lembrar de um fato relatado na Afrografias da Memória, de autoria da professora negra da UFMG, Leda Maria Martins. Tendo sido princesa da Guarda de Congado de Jatobá em Ibirité, Minas Gerais, ela foi escolhida pelo capitão-mor da guarda, João Lopes, que no leito de morte a elegeu a pesquisadora digna de ser guardiã privilegiada da memória deste reinado negro mineiro. Tem-se aqui um raro e belíssimo caso em que a intelectual é escolhida pelo sujeito, subvertendo hierarquias tão consentidas nas pesquisas tradicionais, nas quais a experiência do Outro fica à mercê do bel prazer dos investigadores. Houve ainda quem tencionasse o tom essencialista de uma África mítica e dos elementos católicos da tradição do congado.

Polêmicas à parte, o documentário é em grande medida fruto de uma bela amizade e um registro necessário de nossa ancestralidade. O acervo está garantido e as análises a gente vai disputando com o tempo. Felizmente, temos as interpretações sobre os fatos que podem variar no tempo e espaço. E como me disse Dona Belinha em entrevista exclusiva: “A gente gostaria de fazer o ideal, mas fazemos pelo menos o possível”.

*Viviane Pistache é psicóloga, roteirista e crítica de cinema. Preta das Gerais com mania de ter fé na vida.

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Sobre Necropoética e Cinema Negro com Sotaque Mineiro

Por Viviane Pistache*

A conciliação entre negro-tema e negro-vida num cinema de assunto e autoria negra concomitante, foi inaugurada por Zózimo Bulbul com o emblemático curta Alma no Olho (1973), realizado com as sobras do longa Compasso de Espera (1973), dirigido por Antunes Filho e protagonizado por Zózimo. Cinema sempre foi caro e o nosso começou na espreita, nas brechas, nos retalhos que caíram da moviola. Assim o cinema negro nasce  com gosto de reinvenção e reaproveitamento, como feijoada ou pastel de angu. Desde Zózimo o cinema negro conhece as dificuldades e desafios para parir longas metragens de ficção. Depois de Zózimo Bulbul veio o mineiro Joel Zito Araújo, Jeferson De, a mineira Glenda Nicácio, e os mineiros André Novais, Gabriel Martins. Sim, se conta nos dedos o número de diretores/as negros/as que já estrearam longas de ficção de assunto negro.

Mais do que nunca precisamos falar do manifesto Gênese do Cinema Negro Brasileiro ou Dogma Feijoada puxado por Jeferson De em 2000, que dentre as sete prerrogativas diz sobre a urgência de se fazer filmes dirigidos e protagonizados por gente preta e a abolição de histórias e personagens cunhadas em estereótipos. Mas para superar a tese da Negação do Brasil, sagazmente diagnosticada por Joel Zito Araújo em 2000, realizadores/as negros/as precisam ter acesso a financiamento.

Ainda que percentualmente ínfimas, essas narrativas tem incomodado e interpelado o status quo, conforme se viu no Festival de Brasília em 2017 diante da polêmica ensejada pelo filme Vazante da diretora Daniele Thomas, que amplificou as poucas vozes negras no evento. Conforme questionou a cineasta negra Viviane Ferreira na ocasião: Por que raios a presença de pessoas negras na 50ª edição do Festival de  Brasília  tem causado mais incomodo do que nossa ausência histórica do circuito de distribuição de recursos, prestígios e status do audiovisual?

Um saldo positivo do festival de Brasília foi a denúncia das ausências, das invisibilidades e da celebração dos/as pouquíssimos/as jovens negro/as que estouraram a bolha, como a mineira Glenda Nicácio que compartilha a direção dos seus longas com Ary Rosa. Ao fazer cinema no interior da Bahia, inventando assim um cinema “baianeiro”, Glenda traz o debate não apenas da direção negra feminista, como atualiza a discussão das desigualdades regionais. Cinema tem sotaque. E esse óbvio ululante vem à tona com o cinema negro mineiro.

Filhas do Vento (2005), primeiro longa de ficção dirigido por Joel Zito, mineiro de Nanuque, inaugura o cinema de assunto e autoria negra com sotaque mineiro. A trama se passa em Lavras Novas, cidade vizinha a Ouro Preto. É uma história de fuga e reconciliação com as raízes mineiras, de tentativa cura das dores da infância assombrada pelo passado escravocrata e patriarcal.

André Novais e Gabriel Martins têm elevado o cinema negro mineiro à sua potência máxima. Gabriel Martins faz em Rapsódia para um homem negro (2015) um encontro melódico entre a música negra mineira e o cinema negro mineiro. Em Belo Horizonte existe um festival de música chamado IMUNE, Instante da Música Mineira Negra. O cinema mineiro também vive esse instante IMUNE de um cinema que começa com M de movie e movimento que leva Minas pro mundo. Os filmes de André Novais  já foram selecionados em mais de 200 festivais no Brasil e no mundo como o Festival de Locarno (com Temporada), a Quinzena dos realizadores em Cannes (com Pouco mais de um mês em 2013 e Quintal em 2015), Festival de Rotterdam, FID Marseille, Indie Lisboa, BAFICI, Festival de Cartagena, Los Angeles Brazillian Film Festival, Festival de Cinema de Brasília e Mostra de Cinema de Tiradentes, ganhando mais de 60 prêmios, como a Menção Especial do Júri na Quinzena dos Realizadores em Cannes (Para Pouco mais de um mês, Prêmio Especial do Júri no BAFICI e os prêmios de Melhor Filme pelo Júri Oficial na XI Semana dos Realizadores do Rio de Janeiro, no XI Panorama Coisa de Cinema de Salvador e no III Olhar de Cinema de Curitiba (Para Ela volta na quinta) e os prêmios de Melhor Longa Metragem, Melhor Atriz, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte no 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (Para Temporada). Gabriel Martins está na edição de 2019 do Festival de Roterdã na Holanda para a estréia de seu longa No Coração do Mundo co-dirigido com Maurílio Martins.

Os longas Ilha e Temporada e o média-metragem Vaga Carne e o curta BlueNoir de Ana Pi são as produções com direção negra mais celebradas nos dois primeiros dias da 22a. Mostra de Cinema de Tiradentes, a primeira grande janela anual do cinema brasileiro. Cada um a seu modo, tematiza a necropolítica e a necropoética. Necropolítica é um conceito cunhado filósofo e teórico político camaronês Achile Mbembe para as políticas e instituições que ditam quem deve viver ou morrer. O poder de determinar a vida e a morte provendo o status político de alguns sujeitos e negando o status político de outros. Diz sobre a intencionalidade e racionalidade meticulosa no controle e extermínio de determinados corpos. Tal conceito tem sido fundamental no debate sobre todas formas de genocídio a que a população negra tem sido assujeitada. E isso inclui a negação da negritude  nas telas do cinema.

Daí a possibilidade de pensar em necropoética. O neologismo foi criado por Juliano Gomes no debate sobre o filme Vaga Carne na Mostra de Tiradentes. Juliano dizia sobre a relação entre samba, poesia e morte como formas de resistência; citando Nelson Cavaquinho e sua intimidade com a morte pra trazer lirismo à dura sobrevivência. E o média-metragem Vaga Carne traz a voz (des)encarnada, a voz entidade, corpo etéreo de um lugar no limbo, num estado intermediário entre a vida e a morte.

O curta BlueNoir traz a morte e ressurreição da expressão azul de tão preta, historicamente usada ofender ao nivel da dança que toca os céus. Ana Pi faz uma viagem interior e coletiva por dez países do continente africano. Se redescobre negra singular num ciranda. Um corpo feminino negro no mundo que é sua própria embarcação para contar a história do berço compartilhado por um povo em diáspora. Fotografia, dança, música e oralidade em cores bem montadas pra fazer as pazes com o azul.

Ilha por sua vez, tem um quê de é doce morrer no mar depois do torpor que toma corpo de um corpo negro e masculino cuja vida foi nadar contra corrente e contra a morte até abraçá-la. Ilha tem o azul de Moonlight.  E assim como a lua abraça a estrela, também derrama sua luz na pele dos meninos negros para que o azul de suas almas resplandeça. Ilha traz o argumento latente de que todo menino negro precisa do mar para que sua alma possa brilhar incontestavelmente azul. Assim, todo menino-homem negro merece um oceano de oportunidades para estar no meio do mundo e poder navegar pelo menos com confiança. Ilha traz diversas faces do homem negro que usa máscara musculosa mas que precisa apenas de um bom prato de afeto e cidadania. Nesse poético retrato sobre masculinidades negras, Ilha nos oferece a chance de sairmos do clichê homem preto, heteronormativo falocêntrico, criticando assim a hiperssexualidade negra. Merecidamente Ilha levou os prêmios de melhor roteiro e melhor ator para Aldri Anunciação no Festival de Brasília em 2018. Assim, Glenda Nicácio milita por um cinema regional que celebra a negritude a partir da fraternidade dos sotaques mineiro e baiano com os premiadíssimos Café com Canela (2017) e Ilha (2018).

Temporada  traz uma potente crônica da vida preta na periferia que se vê cercada da ameaça da morte em sua face moderna chamada de epidemias como dengue, zika, chikungunya, dentre outras. O diretor André Novais disse no debate sobre o filme na 22a. Mostra de Tiradentes que já foi agente de saúde e o filme é uma releitura das precariedades do mundo do trabalho a partir de sua própria experiência. O longa é protagonizado por Juliana magistralmente encarnada em Grace Passô que levou o prêmio de melhor atriz no último festival de Brasília e em Locarno na Itália.  É um sensível olhar sobre a solidão da mulher negra que busca caminhos para a liberdade e a solitude. Um melodrama que sabe ri do exagero e do inesperado, que traz o onírico e a ficção científica para fazer realismo fantástico, que pedi licença respeitosamente para entrar nas casas da periferia para falar de vida e de morte.

O cinema mineiro está tecendo a poética da morte para tensionar privilégios e debater acessos cada vez mais ameaçados. Ao passo que reverencia a ancestralidade mineira, satiriza a  (im)possível  aposta negra na ascensão liberal no audio-visual.  Neste sentido, vale arriscar lembrar o impacto do discurso da apresentadora Oprah Winfrey na cerimônia de entrega do Globo de Ouro, quando escancarou as lacunas e potências num discurso sobre representatividade negra para além da indústria do entretenimento. Sua fala soou tão necessária que rapidamente Oprah foi apontada como possível panaceia para sanar as enfermidades da combalida democracia norte-americana. Assim, uma mulher negra, que fez carreira na indústria do entretenimento, ao passo que denuncia as desigualdades de raça e gênero na representatividade no audiovisual, ocupou também um complexo papel de bússola para uma nação sem rumo. Apesar do desconforto de saber que o traje do sistema é uma camisa de força com estampa neoliberal; dentro das margens opressoras, talvez seja possível considerar que Oprah e um conjunto de artistas e diretoras/es negras/os estejam ajudando a esgarçar alguns limites, colorindo de gênero e raça correntes ideológicas do entretenimento que são hegemonicamente brancas e masculinas.

Se por um lado é sintomático destes tempos a noção de que devemos nos adaptar ao mundo em mudança, e não mudar o mundo em que vivemos; por outro, os poucos nomes negros e mineiros da atual cena do longa-metragem brasileiro  nos convocam a atentarmos para os papéis das estruturas políticas, econômicas e sociais para o enfrentamento da lógica da necropolítica. Ainda que temos orgulho desse cinema negro mineiro que tem asa na palavra; buscamos a terceira margem do rio.

O cinema negro mineiro está fazendo história.  Apesar da potência transformadora das narrativas negras no audiovisual, o tripé racismo, machismo e capitalismo continua sendo um grande obstáculo para a realização a efetiva escrita de outra história. De fato, ainda que a indústria cultural  exproprie o fazer artístico no sentido de reduzí-lo a meros produtos comerciais; mensagens potentes podem eventualmente infiltrar nas brechas da maquinaria capitalista e contrariar as  correntes que reificam valores racistas e sexistas. E já que o protagonismo não é dado, ele deverá ser tomado. Essa tem sido também a estratégia de realizadoras/es negras/es mineiros  que têm negritado o quão racista e machista é nossa produção que insiste na falácia da neutralidade de sotaques.

 

*Viviane Pistache é psicóloga, roteirista e crítica de cinema. Preta das Gerais com mania de ter fé na vida.

 

 

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Em tempos de necropolítica reinventamos a necropoética

22ª Mostra Tiradentes – Abertura Oficial – Foto Leo Lara/Universo Produção

Por Viviane Pistache *

A 22ª Mostra de Cinema de Tiradentes começou no dia 17 de janeiro de 2019, ou seja, dois dias depois que o atual desgoverno assinou seu primeiro decreto que facilita a posse de arma. Mas qual seria a relação entre arma e cinema? A diretora negra Ava Duvernay no documentário A 13ª Emenda faz uma relação interessante: o capitalismo estadunidense se apoia nas indústrias armamentista e do entretenimento. A maior indústria nos Estados Unidos é a que mais mata a negritude à queima-roupa ou a que mais invisibiliza e estereotipa esta população nas telas?

A abertura da Mostra de Tiradentes destacou o argumento de que cada um real investido em cultura rende quatrocentos reais. Ou seja, cultura é negócio. Mas o desgoverno aposta em armamento e extingue o Ministério da Cultura. Nas mesas de debates da Mostra de Tiradentes uma pergunta tem sido recorrente: o que será da nossa indústria cinematográfica nestes tempos distópicos? Quais os impactos para a realizadores negros/as, historicamente tão alijados/as do acesso a recursos?

Trata-se de enfrentar questões mercadológicas fulcrais, de pensar estratégias para competir com a indústria da violência e do retrocesso, que mata física e simbolicamente a população negra. Melvin Van Peebles, o diretor expoente do Movimento Blaxplotation dos anos 70, estabeleceu os postulados: “Regra número um: não haverá meio termo. Eu farei um filme sobre o negro real. Quero um filme que faça os negros saírem do cinema orgulhosos ao invés de temerosos. Regra dois: esse filme tem que entreter como o Diabo. Regra três: cinema é negócio.”

Sim, cinema é negócio. Um estudo publicado em 2017 pela Creative Artists Agency (CAA) apontou que há o crescimento de uma plateia mais diversa que se interessa por filmes que apresentam diversidade de raça, gênero e orientação sexual, incidindo diretamente na arrecadação. Dentre os incontestes sucessos de bilheteria que ressaltam a diversidade racial dentro e fora das telas, figuram Moonlight, de Barry Jenkins, Corra!, de Jordan Peelan, e Estrelas Além do Tempo, de Theodore Melfi. O Despertar da Força, protagonizado por John Boyega, ator negro, bateu o record de bilheteria absoluta, que pertencia a Avatar e Pantera Negra, de Ryan Cooler, filme de melhor desempenho produzido pela Marvel em 18 anos de existência.

Apesar da primorosa formação de profissionais negros no audiovisual, bem como o acesso ao mercado,  o quadro é bem mais complexo, pois a indústria cinematográfica opera numa lógica bélica na construção de imaginários raciais que não se restringem às fronteiras norte-americanas.

Em tempos de necropolítica reinventamos a necropoética. É a proposta da atriz Grace Passô, a grande homenageada nessa edição do Festival de Cinema de Tiradentes. Na noite de abertura fomos agraciados com a exibição de Vaga Carne, que marca a estréia da Grace na direção do seu primeiro filme ao lado de Ricardo Alves Jr..  Adaptação da peça homônima, Vaga Carne traz para as telas a encarnação da voz que se descobre num corpo negro de mulher. A voz que provoca, a voz entidade que não admite ser interrompida. A voz que satiriza, que invade nossa carne, a voz (im)própria, a voz de Exú que matou um pássaro ontem, com uma pedra que atirou hoje. A voz suicida que rasga a carne para se libertar. A voz do chiste que ri de tanto chorar. A voz do gozo e do lamento. A voz do breu, do inconfessável. A voz que não respira, a voz (des)humanizada.

Em Vaga Carne, Grace Passô traz o teatro para o cinema para justamente sair do teatro. Nesta metalinguagem, a câmara está apontada para o racismo próprio dos palcos e dos bastidores da indústria do entretenimento. E assim conhecemos a alma da resistência de dentro e a partir de seus próprios arsenais. Desse modo a atriz, dramaturga, escritora e agora diretora de cinema Grace Passô torna-se uma testemunha vocal que transita entre mundos de diferentes telas. Lembrando que James Baldwin aponta que as fronteiras entre testemunhar e atuar são finas, porém reais; e que parte da responsabilidade das testemunhas é movimentar com a maior liberdade possível para escrever a história. E assim, uma câmara em mãos negras pode se mostrar um armamento poderoso no enfrentamento às violências e alienações raciais com o simples disparar de um flash.

Mas ao mesmo tempo em que Grace Passô mira, é também mirada. A platéia entra em cena para atuar. No elenco estão nomes fundamentais da cena cultural e negra de Belo Horizonte, pois além de Grace Passô, Vaga Carne atravessa os corpos de Zora Santos, Dona Jandira, André Novais, Sabrina Hauta, Hélio Ricardo, Aline Vila Real, Tásia d’Paula, Valéria Aissatu Sane, Ronaldo Coisa Nossa. E considerando a assunção do olhar na hierarquia dos sentidos, tem-se a miragem como posição de poder.

Assim, a busca por aniquilar uma história da colonização evidencia que a branquitude sempre teve o poder da mira, de apontar pra matar, caçar ou espoliar.  Na frente ou atrás das câmeras o corpo negro assume importante posição de conhecimento, de saberes localizados, a partir dos quais novos projetos de  representações simbólicas se tornam possíveis. Em Vaga Carne nossas vozes e corpos estão dentro do olho do furacão,  resistindo para não se deixar engolir. Vaga Carne é um filme sobre a negritude real, que nos faz sair da sala de cinema com orgulho, e não com temor.

Diante disso, a emergência de diretores/as negros/as é fundamental para a existência de um “cinema do real” onde não há manipulação das aparências para colocar o espectador em um estado passivo de identificação acrítica.”, como indica o negro cineasta, escritor, teórico cultural e historiador do Mali Manthia Diawara. Assim, Grace Passô nos traz uma saborosa vertigem de cinéfila, aquele torpor que experimentamos ao ler Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo, Ana Maria Gonçalves, Alice Walker, Maya Angelou, Toni Morrison, bell hooks e tantas outras. Como é bom citar nossa intelectualidade! E por falar nisso, necropoética foi um termo cunhado pelo crítico negro Juliano Gomes na mesa de debate sobre o filme Vaga Carne, que aconteceu no dia 19 de janeiro na programação da 22ª Mostra de Cinema de Tiradentes, que está reluzindo negritude e afrontamento. Por estas e outras, o festival, que é a primeira grande janela anual do nosso cinema está imperdível. Edição histórica!

 

*Viviane Pistache é psicóloga, roteirista e crítica de cinema. Preta das Gerais com mania de ter fé na vida.

 

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Cinema O quê que tá pegando?

A força de uma iconoclasta

Por Edson Cadette

A jamaicana Grace Beverly Jones começou sua fabulosa carreira primeiro como modelo no final dos anos 1960. Nesses 50 anos de atuação artística, a talentosa septuagenária gravou músicas que estouraram nas paradas de sucesso ao redor do planeta e também trabalhou como atriz.

Na longínqua década dos anos 1970, mais precisamente no auge da Disco Music, Grace Jones assinou um contrato com a gravadora Island Records e estourou nas paradas de sucesso com o album “Fame” gravado em 1978. Nesta mesma época, tornou-se também uma habitue regular na famosa casa Studio 54, a discoteca mais badalada nas noites novaiorquinas.

Grace Jones agraciou as capas das famosas revistas Elle e Vogue numa época em que oportunidades para modelos negras era uma raridade. Ela atuou em filmes que marcaram uma época ao lado dos ícones cinematográficos de Hollywood. Entre eles estão: Roger Moore, Eddie Murphy, e Arnold Shwazzenegger.

No excelente documentário “Grace Jones Bloodlight and Bami”, dirigido por Sophie Fiennes, também conhecemos a iconoclasta e artista como avó, filha e irmã. Em outras palavras, o filme revela um outro lado da “exótica” mulher negra que hipnotizou o planeta como modelo, cantora ou simplesmente atriz.

O documentário não pode ser considerado simplesmente uma retrospectiva da vida artística de Grace Jones, nem tão pouco um filme sobre sua importância cultural nos últimos 50 anos. A diretora fez questão de acompanhar Grace Jones por mais de 15 anos observando-a dentro e fora dos palcos.  Sophie Fiennes mostra o ícone junto a seus familiares na Jamaica, dançando em clubes e gravando o álbum “hurricane” em 2008.

Qualquer questão cronológica foi deixada de lado pela diretora. Por causa disso, fica a critério do expectador tentar adivinhar a época ou o local onde o shows estão acontecendo.

Com esplêndidas tomadas, Sophie Fiennes mostra o que Grace Jones sempre foi um símbolo de muita força, que esteve a espreita para defender-se ou dar o seu bote se for preciso.

Grace Jones: Bloodlight and Bami

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Cinema Filosofia

O Jovem Marx, de Raoul Peck

 

por Lucas Gomes

 

Os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; agora é preciso transformá-lo.

 

No filme “O Jovem Marx”, o filósofo alemão diz ao seu então novo amigo Engels, que acabara de ter o aparentemente simples insight que abre esta resenha, ambos bêbados depois de uma noitada regada a xadrez e álcool. Talvez uma frase dita com hálito de vômito. Será que foi realmente assim? Não saberia dizê-lo.

Esta resenha não é escrita por um especialista em Marx, em sua biografia. Não disputo bolsas ou cargos acadêmicos na base de estudos meticulosos sobre tal ou qual autor. Marx também não era esse tipo de pensador. O que vemos na tela é um Marx jovem jornalista semi-clandestino que foge da polícia. Não é genial poder recuperar este Marx e não aquilo que foi canonizado nas universidades?

Mas se o homem Marx pôde chegar a ser tão reconhecido em tais meios, foi porque o seu fugir da polícia tinha um ímpeto forte: tratar de entender o mundo com profundidade e demolir as versões falsas e errôneas oferecidas tanto por colegas como por inimigos (gente grande na política). A narrativa começa com uma cena de violência que bem poderia ser a abertura de um episódio de Game of Thrones: é a acumulação primitiva, cercamento dos bosques, transformação da propriedade comunal em privada. “Mas o que é a propriedade privada?”, indaga nosso protagonista, buscando a melhor pergunta antes de arriscar respostas.

Não estamos frente a uma obra que prime por uma direção “de autor”. Apenas segue o ritmo que se poderia dizer “comercial”. Ideal para transmitir uma história simples. Ponto para o diretor que não usou de recursos realistas/naturalistas para mostrar a miséria da classe trabalhadora. Isto é reservado apenas para a cena da acumulação primitiva.

Interessante, pois se o capitalismo reproduz a violência sistêmica contra os homens e mulheres (e crianças) do proletariado, boa parte de seu desenvolvimento enquanto sistema econômico se baseia na inovação da exploração do trabalho, por meios menos violentos e mais “sofisticados”: a mais-valia relativa.

Mais de uma vez o ator nos convence da ilusão cinematográfica e cremos ver ali o olhar atento e cheio de julgamento sobre os líderes socialistas de então, questionando as frases pomposas e grandiloquentes, abstratas. Já não se trata de corrigir a descrição do mundo, o filósofo deve incidir em sua transformação. Mas para fazê-lo ele deve sustentar-se em pilares firmes, em um bom entendimento do mundo. Não pode basear-se em ideias bonitas e boa vontade.

Mais do que carisma, se necessita formação e debate franco. Só assim foi possível superar o espírito progressista de sua época, filhos da Revolução Francesa, e afirmar: os homens não são todos irmãos. Existem os que exploram e os que são explorados. A nossa vida não é paz e tranquilidade. É luta. Luta cotidiana. Isso nos caracteriza, proletários do mundo. Definitivamente, o filme do diretor haitiano Raoul Peck é uma contribuição no esforço importante de tirar Marx do envoltório acadêmico e “marxista-leninista” no qual tem sido preservado com zelo pela ortodoxia.

 

Filósofos

Sócrates pegou em armas

e não abandonou a guarda – talvez por isso

suas picadas doessem mais

do que a de cães preguiçosos.

depois foi Nietzche quem se apercebeu

que o corpo produz substância espiritual,

ainda que seja da mais funesta, o abismo.

quando os filósofos se tornam leitores

deixam de ser poetas.

E ao retornarem à caverna,

já não sabem mobilizar ao sol.

e se lá fora encontram a mais gélida e fera noite,

devem tomar em suas mãos a fogueira

e assaltar os céus.

(Lucas Gomes)

 

 


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Cinema racismo

De Moonlight a Negro Drama

São impressões. O texto não dá conta de quase nada do filme, só de um pouco do que senti e pensei depois dele e como relaciono isso com o que já carrego. Se pá, de outro ângulo a ideia seja outra, mas tá aí.

Por Igor Gomes*, de seu blog pessoal

“Sou um homem, afirmo.
Acima de tudo.
Apesar de tudo
E por causa de tudo: um homem.”

Roberta Estrela D’alva

Daria um filme!

A história de cada garoto negro no mundo — e existem negros no mundo todo — daria um filme. E deu. Um filme que se desenrola debaixo da luz da lua, aqui nessa terra onde garotos negros não choram, no mesmo lugar onde o choro dos nossos ancestrais temperou o mar.

“E a gente rimando remando contra a maré, a sós.

Cavoucando vulcões, por debaixo de nossas lagrimas

Há rebelde erupções, guerrilhando ardentes em nossa voz.”

Akins Kintê

 

 Moonlight é um filme sobre muita coisa e por isso é um filme sobre meninos negros, sobre homens negros. Muita fita. A identificação e o estranhamento perseguem a gente durante cada cena. Um elenco todo negro faz com que o racismo nem apareça enquanto dilema, mas ele está ali: limitando a trajetória dos homens e mulheres do filme. A presença do tráfico e do abuso de drogas; o abandono paterno; a imposição de uma masculinidade agressiva; a solidão de uma mãe negra; a pobreza; a homofobia; a prisão e mais uma pá de fita estão ali como dramas da comunidade negra mas não reduzem os personagens a estereótipos. Tudo está debaixo das lágrimas, eclode em um ou outro grito, em um ou outro diálogo mas permanece guardado. Profundo. No fundo do mar que é o peito.

“Diz que homem não chora, tá bom, falou…”

Racionais MC’s

 

“Despencados de voos cansativos.

Complicados e pensativos.

Machucados após tantos crivos,

Blindados com nossos motivos…”

Emicida

 

O filme se passa na gringa mas nos toca como se fosse aqui. Somos também esses garotos negros em nossas próprias quebradas. Tão diferentes mas tão parecidos. O Chiron, que na mesma vida também é Little, também é Black. Também pode ser Kaique Augusto; João Victor; Ithalo; Jonathan; Douglas Rodrigues; Igor; Matheus e tantos outros. Furo em algumas estatísticas, vítima de outras.

Sob a luz da lua convivem a fragilidade e a violência. “Eai, suave”; “se xingar minha mãe ta fudido”; “fuma desse aqui”; “bicha, bicha!”; “te pego na saída”; “é nois, parça”. É dialeto básico nas ruas daqui e de lá. Da ficção e da realidade. Por isso Moonlight é tanta fita. É estranho ver tanto de nós mesmos numa tela, exposto, ali para quem quiser ver, pra gente mesmo ver. A colonização pode até nos convencer de que somos animais mas não pode nos impedir de ver que a nossa pele brilha quando bate a luz da lua.

“Brilhar é resistir nesse campo de fardas.”

Rico Dalasam

 

A rapidez e a intensidade das cenas. Os olhares dos personagens. A força das poucas palavras ditas. Tudo vai deixando o olho marejado. A nossa fragilidade fica exposta e é como se existisse uma tristeza ali, até mesmo no tom da luz, na brisa suave que faz a gente ouvir só o barulho do coração. Mas a gente não chora. É como se a gente ficasse à espera de uma surra que arranque toda lágrima represada. O soco nos acerta em cheio com a pergunta “você chora? ” Mas ainda assim não choramos. Chiron diz que chora, que chora muito como se quase fosse se transformar em lágrimas. Temos medo de morrer afogados. Temos medo do mar. Temos medo do Atlântico. Temos medo do oceano que somos nós mesmos.

“A gente nem segue os próprios conselhos, né?

A gente nem se olha direito no espelho, né?”

Nego E

O zika do Deivison Nkosi, em seu texto “O pênis sem o falo: algumas reflexões sobre homens negros, masculinidades e racismo”, nos diz que “quando não é invisibilizado o negro é representado como contraponto antitetico do humano, a sua aparição, quando autorizada, é reduzida a uma dimensão corpórea, emotiva ou ameaçadora, tal como um King Kong descontrolado: tão grande, tão rústico, tão negro. ”

A colonização nos impõe um modelo de sociedade e também de existência. Limita as possibilidades do corpo e da alma. Essa masculinidade (ou hiper masculinidade) imposta aos negros tá ligada a tentativa de nos animalizar, de tornar nosso corpo matavel. Tipo o King Kong (rei do Congo, se traduzirmos); tipo o maluco violento das gangues que não tem nada a perder logo pode (e deve) ser morto num enquadro; tipo as diversas propagandas racistas que colocam o “negro do pau grande” como o maior risco pra sociedade.

Nadar contra a corrente é lutar contra o de fora, mas é também lutar contra nós. Contra aquilo que fizeram de nós, contra a forma que nos representam. É ressignificar e destruir o tempo todo. Quase tudo que sabemos sobre nós foi dito por eles. Não sabemos o que somos e o que achamos que somos. Tomar de volta a parcela de humanidade que nos foi roubada também é lutar contra o tal do sistema.

Acima de tudo, por causa de tudo e apesar de tudo: somos humanos.

“Black Boys Don’t Cry.” by: IGGYLDN

“Eu sei o quanto dói, mas viva pra ver se passa.” Amiri

 

É o mano Deivison que nos diz ainda que “urge chamar a atenção para o caráter colonial das masculinidades hegemônicas, tanto para compreender as outras masculinidades invisíveis em sua generalização abstrata, quanto as próprias masculinidades hegemônicas em suas intersecções de poder sobre as mulheres e outros homens.”

A masculinidade dominante, amarrada com os tantos dilemas de raça, classe, sexualidade, território e etc, é essa em que os homens são dominadores e as mulheres são colocadas como dominadas. Em que o pai acredita não ter o dever de assumir o filho ou cuidar da casa. Essa que não só permite mas também incentiva os homens a violentar e até a matar as mulheres. Que, para se manter dominante, precisa marginalizar a diversidade de gênero e de sexualidade. É a mesma que vigia e controla os corpos negros.

A violência policial; o encarceramento em massa; o assassinato de crianças e adolescentes; o alto índice de mulheres negras assassinadas durante o parto e tantas outras brutalidades (as vezes sutis) do genocídio negro vão se articulando com a destruição do nosso poder sobre nós. Vai se criando essa casca que nos afasta de nós mesmos. Quando se leva socos e pontapés todos os dias parece que a única opção é sair na rua com o rosto sangrando.

“Lave o rosto nas águas sagradas da pia.”

Racionais MCs

Pra quem não leu o negro drama, pra quem não assistiu o negro drama, pra quem vive o negro drama é urgente lavar o rosto nas águas sagradas da pia. Perceber o brilho da lua quando bate na nossa pele. Entender de onde vem o brilho, entender de onde vem nossa pele. É urgente decidir o que fazer com isso. Cada um vê cada coisa de onde está. Foi também isso que me disse Moonlight nessa primeira vez que assisti. Não é só sobre uma tal de representatividade nos cinemas. É sobre se manter vivo e lutar pra manter vivos uns aos outros. Vidas negras importam. Que o tamo junto seja tamo junto memo.

Sente o negro drama, vai, tenta ser feliz!

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*  Igor é um jovem negro de 21 anos, estudante de História, que faz um corre no Observatório da Juventude – Zona Norte de SP