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Consciência Negra

Há 54 anos o ativista Malcom X era assassinado

Por Marina Souza

Há exatamente 54 anos, em 1965, um dos mais conhecidos e importantes líderes do Movimento Negro de todos os tempos era assassinado com 14 tiros enquanto discursava em um comício de Nova York. Cinco décadas depois, o ativista que ganhou grande destaque nas décadas de 50 e 60 nos Estados Unidos, continua sendo tema de debates, estudos, pesquisas e inspirações de ativismo dentro e fora de movimentos negros.

Primeira cena do filme Malcom X, dirigido por Spike Lee o longa mostra a história de vida do militante

Infância sob chamas

Nascido em maio de 1925 em Omaha, Malcolm Little teve uma infância recheada de episódios marcantes, que posteriormente o ajudariam a enfrentar os discursos e as práticas racistas tão presentes no território estadunidense. Em 1926 membros da KKK (Ku Klux Klan) atearam fogo na casa onde vivia com sua família, que foi então obrigada a exilar-se para Wisconsin. E como se não bastasse o episódio, três anos depois, quando haviam se mudado para Michigan, a vizinhança branca do bairro articulou uma ação judicial que exigia a saída da família, que não atendeu ao pedido e teve – mais uma vez – a casa incendiada.

Aos seis anos de idade, o pequeno Malcom precisou lidar com o luto da morte do pai, que fora encontrado mutilado em uma ferroviária, e aos treze, presenciou a mãe sendo internada num hospital psiquiátrico. Foi nessa época que passou a morar em uma residência de detenção juvenil sob a custódia de brancos.

Negros, uni-vos

Quando chegou à juventude Little passou a morar no bairro majoritariamente negro de Harlem e tetando sobreviver, entrou para o mundo do crime, que o tornou presidiário durante seis anos e meio. Foi na cadeia que Malcom começou a ler sobre o Islã e envolver-se com a religião.

O líder da Nação do Islã na época, Elijah Muhammad, pregava que Alá era negro e que os afro-americanos deveriam viver em países diferentes dos brancos, como uma espécie de proteção e respeito a identidade da cultura negra. Tomando contato com sua crença, Malcom identificou-se e quis fazer parte do crescente movimento.

Cena do Filme Malcom X em que o personagem, interpretado por Denzel Washington, questiona a cor de Deus

A luta

Logo após conquistar a liberdade, em 1952, ele ingressa oficialmente para a Nação do Islã e retira o sobrenome “Little”, apresentando-se agora como Malcom X. O novo sobrenome foi escolhido porque o ativista não achava justo ressaltar nomes de escravocratas.

O sistema de apartheid, que segregava os negros nos EUA, estava sendo o grande alvo de crítica dos movimentos negros da época. A aproximação de X com discursos e ações antirracistas tornava-se cada vez mais evidente e ele começara a defender que a população negra, que a essa altura era o grupo de maior vulnerabilidade social no país, pegassem em armas e lutassem contra os opressores.

Malcom viajou o mundo conhecendo ativistas de diversas causas e países. Sempre muito polêmico, tornou-se motivo de discordância entre movimentos e militantes dos direitos civis. Havia quem o considerasse extremista e quem o reconhecesse como o grande líder da luta negra do momento.

Três homens que eram de uma corrente islâmica divergente da de Malcom organizaram seu assassinato, que ocorreu no dia 21 de fevereiro de 1965. O emblemático militante negro deixou quatro filhas, a esposa gestante e continua sendo até os dias de hoje lembrado pela sua incansável luta.

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Consciência Negra

Inimigos de Marighella sabiam que ele não era branco

Por Marina Souza

Mesmo antes de sua chegada ao Brasil, o filme Marighella, dirigido por Wagner Moura, tem gerado algumas polêmicas entre os brasileiros. Além dos gritos de protesto do público e da placa de Marielle Franco presentes no Festival de Berlim, na última sexta-feira (15), alguns internautas decidiram discutir a cor do guerrilheiro retratado no longa metragem. O fato de Seu Jorge ter sido o ator escolhido para interpretar o papel está sendo criticado por algumas pessoas que insistem em afirmar que Marighella não era negro.

Discursos como esse, que negam o guerrilheiro enquanto uma pessoa negra, legitima – mais uma vez – as contantes tentativas de embranquecimento sofridas pela população preta no país. Dizer que Carlos Marighella, líder da luta armada contra a Ditadura Militar brasileira, era negro não trata-se de um achismo ou opinião, mas sim de uma verdade histórica. O fato de Seu Jorge possuir uma pele de cor retinta não significa que outros tons não façam parte dos fenótipos negros.

Ao  mesmo tempo, chega a ser interessante e curioso analisar o silêncio que se faz quando personagens negros são embranquecidos no cinema. A escolha de Wagner Moura leva em consideração critérios como representatividade, ter colocado alguém retinto para interpretar um personagem de tonalidade negra mais clara é, talvez, uma maneira de reafirmar o grupo racial e as discussões que o cercam diariamente. Durante o Festival, o diretor disse:

“O Estado brasileiro é racista. Marighella foi assassinado em 1969. Um homem negro, revolucionário e de esquerda foi assassinado pelo Estado dentro de um carro há 50 anos. E 50 anos depois, uma vereadora do Rio de Janeiro, também negra, de esquerda e defensora dos direitos humanos foi assassinada dentro de um carro, provavelmente por agentes do Estado.”

O autor do livro “Marighella: O guerrilheiro que incendiou o mundo”, Mário Magalhães, também comentou a polêmica e postou hoje (18) em seu twitter que não há dúvidas de que o guerrilheiro era negro e sofrera racismo durante a vida.

É preciso que a sociedade brasileira, composta majoritariamente por pessoas negras, reconheça a necessidade e, sobretudo, a importância de um ator negro interpretar negros. A invisibilidade, seja no mundo das artes, do corporativo ou acadêmico, é um tipo de violência que precisa ser quebrada. Negar a negritude do guerrilheiro não mudará a história, como disse Magalhães: “Inimigos do Marighella sabiam que ele não era branco”.

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Consciência Negra

Hélio Santos: A ascensão dos negros no Brasil X O genocídio de jovens 

Texto de Hélio Santos divulgado no site Brasil de Carne e Osso

“Quase 500 mil pessoas que se declaram pretas e pardas ascenderam às classes A e B em 2017”. Essa frase de efeito, publicada pelo jornal Folha de S.Paulo do dia 13/8, abriu matéria de capa em que se estranhava tal crescimento em pleno momento de retração econômica. De fato, à primeira vista, chama a atenção, pois naquele ano cerca de 800 mil pessoas foram rebaixadas de seus estratos em função de uma das piores crises econômicas sofridas pelo Brasil. Mais: o fenômeno foi o único positivo entre todas as classes de renda. Ou seja, esse empoderamento econômico de negros e negras corre na contramão do Brasil de carne e osso, como chamo o país real aqui em nossa página.

Por outro lado, noutra direção, 17 dias antes (28/7) o mesmo jornal trazia outra notícia de capa tão impactante quanto a da ascensão de negras e negros. A Polícia Civil de São Paulo descobriu um plano do PCC – o Primeiro Comando da Capital – para recrutar cerca de 1.000 novos integrantes por mês. A campanha do grupo criminoso atende pelo nome de “adote um irmão”. Considerando a realidade das periferias brasileiras, apinhadas de jovens “Nem – Nem” – aqueles que nem estudam e nem trabalham -, o plano do PCC de recrutar 12 mil novos integrantes por ano pode ser considerado modesto. Segundo o Banco Mundial são cerca de 11 milhões de jovens na faixa etária de 15 a 29 anos e que raramente rompem o gargalo do ensino médio. A meta do PCC – 12 mil recrutas por ano – é cerca de 0,1% do número de “Nem – Nem” estimado pelo Banco.  Desnecessário dizer quem é a maioria desses recrutas, candidatos a morrerem antes de completar 30 anos. São jovens oriundos do que denomino “família de risco” – pobre, negra, periférica e geralmente liderada por uma mulher.

Não se reconhece, mas a ascensão às classes A e B, em larga medida, se deve às políticas afirmativas (Cotas Raciais) tão criticadas num passado recente. Em 1997, o grupo que eu coordenei no Ministério da Justiça, fez o primeiro encontro governamental para discutirmos essas políticas. O encontro ocorreu na cidade de Vitória (ES) e contou com especialistas do IPEA, Itamaraty, Ministério da Justiça e Educação, dentre outros. Diversos cenários foram desenhados: eu sempre defendi que as ações afirmativas trariam essa ascensão e que ocorreria  ao mesmo tempo uma onda de racismo mais visível, menos envergonhado. Precisamente o que se dá hoje na cena brasileira, mais de 20 anos depois. Nesse texto breve não cabe avaliar as variáveis que me fizeram projetar esse cenário antagônico. Aqui, o que me parece mais importante destacar é a ausência de políticas públicas para um grupo vulnerável superior às populações do Paraguai e do Uruguai juntas.

Novas Políticas Afirmativas

Hoje, a manutenção mensal de um presidiário está em torno de 2.400 reais. Já a manutenção anual de um jovem estudante do ensino médio é de 2.200 reais. Explicando: o custo de um encarcerado por ano equivale ao valor investido em 13 estudantes do ensino médio onde a tragédia dos “Nem – Nem” ganha corpo. Não se investe na juventude, pois prefere-se encarcerá-la depois. O tráfico oferece “oportunidade” real de trabalho com consequências catastróficas para as famílias de risco.

As políticas para esse colapso das esperanças desses jovens devem focar na criação de uma nova escola que propicie competências contemporâneas, período integral e bolsa em dinheiro para a retenção da juventude empobrecida no ambiente escolar. Simultaneamente, são necessárias políticas de apoio integral às famílias de risco, o que não se confunde com o Programa Bolsa Família.

#NãoVoteNoInimigo

Acabei de ver agora (dia 17/8) o debate dos candidatos à presidência pela Rede TV. Ninguém tem uma proposta efetiva para a sangria que ceifa as vidas de 63 jovens negros por dia. Qual partido – qual candidato – tem uma pista segura para reverter esse quadro? No passado recente, muitos foram silenciosos em relação ao furioso ataque sofrido pelas cotas raciais na universidade pública – a mais eficaz política pública para reduzir desigualdades no país. Hoje, enquanto as cotas raciais aproveitam os talentos outrora relegados, na outra ponta os homicídios matam 23 mil por ano.

Quem projeta os programas dos presidenciáveis são economistas. Estes seres sinistros jamais tentaram calcular o custo de oportunidade que o país paga por ceifar talentos; o que deveria ser a sua obrigação. A reversão desse genocídio exige estadistas; não tecnocratas que não pensam o país real. Ao que tudo indica, estamos diante de um deserto cuja aridez teremos que enfrentar.

O voto negro precisa funcionar. Eu chamo de “desvoto” o ato de boicotar os candidatos a postos majoritários que não tenham uma pauta específica para a maioria da população. O momento é de organização desse voto – o mais barato do mercado eleitoral, como reconheceu Jânio Quadros há mais de 50 anos. Não faz sentido empoderar aqueles que uma vez eleitos operam com especial zelo contra os seus direitos.

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100 anos de Mandela pela visão de Barack Obama

Por Douglas Belchior

Há cem anos, o mundo ganhava um dos principais líderes de toda história. Nelson Mandela abraçou uma luta necessária para nós, negros, em prol dos direitos humanos e pelo fim da segregação racial na África do Sul. Mesmo com os princípios da resistência não-violenta, a missão libertária de Madiba rendeu um período de 27 anos na prisão. Mas, com a união da comunidade local e internacional, ele conseguiu sua liberdade e ainda foi eleito o primeiro presidente da África do Sul livre. O seu legado serve como prova de que é possível promover mudanças e lutar pelos nossos direitos mesmo em períodos difíceis e conservadores. Viva, Mandela!

Confira abaixo o discurso do ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama sobre o centenário de Mandela

“Quando minha equipe me disse que eu deveria fazer uma palestra, pensei nos antigos professores abafados de gravata-borboleta e tweed, e me perguntei se esse era mais um sinal do estágio da vida em que estou entrando, junto com o cinza cabelo e visão levemente falhando. Pensei no fato de que minhas filhas acham que qualquer coisa que eu diga é uma palestra.

Pensei na imprensa americana e em como eles frequentemente ficavam frustrados com as minhas longas respostas em coletivas de imprensa, quando minhas respostas não correspondiam a sons de dois minutos. Mas dados os tempos estranhos e incertos em que estamos – e eles são estranhos, e eles são incertos – com os ciclos de notícias de cada dia trazendo mais manchetes e manchetes perturbadoras, eu pensei que talvez fosse útil dar um passo atrás por um momento e tente obter alguma perspectiva.

Então, eu espero que você me permita, apesar do frio leve, enquanto eu gasto muito desta palestra refletindo sobre onde estivemos, e como chegamos ao presente momento, na esperança de que isso nos oferecerá um roteiro para onde precisamos ir em seguida.

Cem anos atrás, Madiba nasceu na aldeia de Mvezo – em sua autobiografia ele descreve uma infância feliz; ele está cuidando do gado, ele está brincando com os outros garotos, eventualmente frequenta uma escola onde seu professor lhe deu o nome em inglês Nelson. E como muitos de vocês sabem, ele disse: “Por que ela me deu esse nome em particular, eu não tenho ideia”.

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Não havia razão para acreditar que um jovem negro neste momento, neste lugar, pudesse de alguma forma alterar a história. Afinal de contas, a África do Sul estava então com menos de uma década de total controle britânico. As leis já estavam sendo codificadas para implementar a segregação e subjugação racial, a rede de leis que seria conhecida como apartheid. A maior parte da África, incluindo a terra natal de meu pai, estava sob o domínio colonial.

As potências européias dominantes, tendo terminado uma terrível guerra mundial poucos meses após o nascimento de Madiba, viam este continente e seu povo principalmente como espoliação em uma disputa por território e abundantes recursos naturais e mão-de-obra barata. E a inferioridade da raça negra, uma indiferença em relação à cultura negra e aos interesses e aspirações, era um dado adquirido.

E tal visão do mundo – que certas raças, certas nações, certos grupos eram inerentemente superiores, e que a violência e a coerção eram a base primária da governança, que os fortes necessariamente exploram os fracos, que a riqueza é determinada principalmente pela conquista – que a visão do mundo dificilmente se limitava às relações entre a Europa e a África, ou as relações entre brancos e negros. Os brancos estavam felizes em explorar outros brancos quando podiam. E, a propósito, os negros muitas vezes estavam dispostos a explorar outros negros.

E em todo o mundo, a maioria das pessoas vivia em níveis de subsistência, sem falar nas políticas ou forças econômicas que determinavam suas vidas. Muitas vezes eles estavam sujeitos aos caprichos e crueldades de líderes distantes. A pessoa comum não via nenhuma possibilidade de avançar das circunstâncias de seu nascimento. As mulheres eram quase uniformemente subordinadas aos homens. Privilégio e status estavam rigidamente vinculados por casta e cor e etnia e religião. E mesmo em meu próprio país, mesmo em democracias como os Estados Unidos, fundado em uma declaração de que todos os homens são criados iguais, a segregação racial e a discriminação sistêmica eram a lei em quase metade do país e a norma em todo o resto do país.

 

Esse foi o mundo apenas 100 anos atrás. Há pessoas vivas hoje que estavam vivas naquele mundo. É difícil, então, exagerar as notáveis ​​transformações que ocorreram desde aquela época. Uma segunda guerra mundial, ainda mais terrível do que a primeira, juntamente com uma cascata de movimentos de libertação da África para a Ásia, América Latina, Oriente Médio, finalmente acabaria com o domínio colonial. Mais e mais povos, tendo testemunhado os horrores do totalitarismo, os repetidos massacres em massa do século XX, começaram a abraçar uma nova visão para a humanidade, uma nova ideia, baseada não apenas no princípio da autodeterminação nacional, mas também os princípios da democracia e do Estado de direito e dos direitos civis e a dignidade inerente de cada indivíduo.

Nos países com economias baseadas no mercado, de repente, movimentos sindicais se desenvolveram; e saúde e segurança e regulamentações comerciais foram instituídas; e o acesso à educação pública foi ampliado; e os sistemas de bem-estar social surgiram, todos com o objetivo de restringir os excessos do capitalismo e aumentar sua capacidade de oferecer oportunidades não apenas para alguns, mas para todas as pessoas. E o resultado foi um crescimento econômico inigualável e um crescimento da classe média. E no meu próprio país, a força moral do movimento dos direitos civis não apenas derrubou as leis de Jim Crow, mas abriu as comportas para mulheres e grupos historicamente marginalizados para se reimaginarem, encontrar suas próprias vozes, fazer suas próprias reivindicações de cidadania plena. .

Foi a serviço dessa longa caminhada em direção à liberdade e à justiça e oportunidades iguais que Nelson Mandela dedicou sua vida. No início, sua luta era particular para este lugar, para sua terra natal – uma luta para acabar com o apartheid, uma luta para assegurar a duradoura igualdade política, social e econômica para seus cidadãos não brancos marginalizados. Mas através do seu sacrifício e liderança inabalável e, talvez acima de tudo, através do seu exemplo moral, Mandela e o movimento que ele liderou viriam a significar algo maior. Ele passou a incorporar as aspirações universais de pessoas despossuídas em todo o mundo, suas esperanças de uma vida melhor, a possibilidade de uma transformação moral na condução dos assuntos humanos.

A luz de Madiba brilhava tão intensamente, mesmo naquela estreita cela de Robben Island, que no final dos anos 70 ele podia inspirar um jovem universitário do outro lado do mundo a reexaminar suas próprias prioridades, poderia me fazer pensar no pequeno papel que poderia desempenhar em dobrar o arco do mundo para a justiça. E quando, mais tarde, como estudante de direito, presenciei Madiba sair da prisão, apenas alguns meses, você se lembra, depois da queda do Muro de Berlim, senti a mesma onda de esperança que inundou corações em todo o mundo. Você se lembra desse sentimento? Parecia que as forças do progresso estavam em marcha, que elas eram inexoráveis. Cada passo que ele deu,

E então, como Madiba guiou esta nação através da negociação meticulosamente, reconciliação, suas primeiras eleições justas e livres; Como todos nós testemunhamos a graça e a generosidade com que ele abraçou os antigos inimigos, a sabedoria para ele se afastar do poder uma vez que ele sentiu que seu trabalho estava completo, nós entendemos que entendemos que não eram apenas os subjugados, os oprimidos que eram sendo libertado dos grilhões do passado. O subjugador estava recebendo um presente, tendo a oportunidade de ver de uma nova maneira, tendo a chance de participar do trabalho de construir um mundo melhor.

E durante as últimas décadas do século XX, a visão progressista e democrática que Nelson Mandela representou de muitas maneiras definiu os termos do debate político internacional. Isso não significa que a visão sempre foi vitoriosa, mas estabeleceu os termos, os parâmetros; guiou como pensamos sobre o significado do progresso e continuou a impulsionar o mundo para frente. Sim, ainda havia tragédias – sangrentas guerras civis dos Bálcãs ao Congo. Apesar do fato de que o conflito étnico e sectário ainda incendiou com regularidade devastadora, apesar de tudo isso como consequência da continuação da détente nuclear, e de um Japão pacífico e próspero, e uma Europa unificada ancorada na OTAN, e a entrada da China na sistema mundial de comércio – tudo isso reduziu enormemente a perspectiva de guerra entre as grandes potências mundiais.

A marcha estava ligada. Um respeito pelos direitos humanos e pelo estado de direito, enumerados em uma declaração das Nações Unidas, tornou-se a norma orientadora para a maioria das nações, mesmo em lugares onde a realidade ficou muito aquém do ideal. Mesmo quando esses direitos humanos foram violados, aqueles que violaram os direitos humanos estavam na defensiva.

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E com essas mudanças geopolíticas vieram mudanças econômicas devastadoras. A introdução de princípios baseados no mercado, nos quais economias anteriormente fechadas, juntamente com as forças da integração global impulsionadas por novas tecnologias, de repente liberaram talentos empresariais àqueles que já haviam sido relegados à periferia da economia mundial, que não haviam contado. De repente, eles contaram. Eles tinham algum poder; eles tinham as possibilidades de fazer negócios. E então vieram avanços científicos e novas infraestruturas e a redução de conflitos armados.

E, de repente, um bilhão de pessoas foram retiradas da pobreza, e uma vez as nações famintas conseguiram se alimentar, e as taxas de mortalidade infantil despencaram. E enquanto isso, a disseminação da internet possibilitou que as pessoas se conectassem através dos oceanos, e culturas e continentes instantaneamente foram reunidos e, potencialmente, todo o conhecimento do mundo poderia estar nas mãos de uma criança pequena, mesmo na aldeia mais remota.

Foi o que aconteceu no decorrer de algumas décadas. E todo esse progresso é real. Tem sido amplo e profundo, e tudo aconteceu em que – pelos padrões da história humana – nada mais era do que um piscar de olhos. E agora toda uma geração cresceu em um mundo que, pela maioria das medidas, se tornou cada vez mais livre e mais saudável e mais rico e menos violento e mais tolerante durante suas vidas.

Isso deveria nos deixar esperançosos. Mas se não podemos negar os avanços reais que o nosso mundo fez desde o momento em que Madiba deu os primeiros passos no confinamento, também temos que reconhecer todas as maneiras pelas quais a ordem internacional ficou aquém de sua promessa. De fato, é em parte por causa dos fracassos dos governos e das poderosas elites em responder diretamente às deficiências e contradições dessa ordem internacional que vemos agora grande parte do mundo ameaçando retornar a um modo mais antigo, mais perigoso, mais brutal. de fazer negócios.

Portanto, temos de começar admitindo que quaisquer leis que possam ter existido nos livros, quaisquer que sejam os pronunciamentos maravilhosos existentes nas constituições, quaisquer palavras bonitas que tenham sido pronunciadas durante estas últimas décadas em conferências internacionais ou nos halls das Nações Unidas, as estruturas anteriores de privilégio e poder e injustiça e exploração nunca desapareceram completamente. Eles nunca foram totalmente desalojados.

Diferenças de castas ainda afetam as chances de vida das pessoas no subcontinente indiano. Diferenças étnicas e religiosas ainda determinam quem recebe oportunidades da Europa Central para o Golfo. É um fato claro que a discriminação racial ainda existe nos Estados Unidos e na África do Sul. E também é um fato que as desvantagens acumuladas de anos de opressão institucionalizada criaram enormes disparidades em renda, riqueza e educação, saúde, segurança pessoal e acesso ao crédito. Mulheres e meninas em todo o mundo continuam bloqueadas de posições de poder e autoridade. Eles continuam sendo impedidos de obter uma educação básica. Eles são desproporcionalmente vitimizados pela violência e abuso. Eles ainda recebem menos que os homens por fazer o mesmo trabalho. Isso ainda está acontecendo.

Oportunidade econômica, por toda a magnificência da economia global, todos os arranha-céus brilhantes que transformaram a paisagem ao redor do mundo, bairros inteiros, cidades inteiras, regiões inteiras, nações inteiras foram contornadas. Em outras palavras, para muitas pessoas, quanto mais as coisas mudam, mais as coisas permanecem as mesmas.

E enquanto a globalização e a tecnologia abriram novas oportunidades, têm impulsionado um crescimento econômico notável em partes do mundo anteriormente em dificuldades, a globalização também derrubou os setores agrícola e manufatureiro em muitos países. Também reduziu bastante a demanda por certos trabalhadores, ajudou a enfraquecer os sindicatos e o poder de barganha do trabalho. Tornou mais fácil para o capital evitar as leis tributárias e os regulamentos dos estados-nação – pode apenas movimentar bilhões, trilhões de dólares com um toque de chave de computador.

E o resultado de todas essas tendências foi uma explosão da desigualdade econômica. Significa que algumas dezenas de indivíduos controlam a mesma quantidade de riqueza que a metade mais pobre da humanidade. Isso não é um exagero, é uma estatística. Pense sobre isso. Em muitos países de rendimento médio e em desenvolvimento, a nova riqueza acaba de acompanhar o antigo mau negócio que as pessoas obtiveram porque reforçou ou até agravou os padrões existentes de desigualdade, a única diferença é que criou oportunidades ainda maiores de corrupção numa escala épica. E por uma vez solidamente famílias de classe média em economias avançadas como os Estados Unidos, essas tendências significam maior insegurança econômica, especialmente para aqueles que não têm habilidades especializadas, pessoas que estavam na indústria, pessoas trabalhando em fábricas, pessoas trabalhando em fazendas. .

Em todos os países, a influência econômica desproporcional dos que ocupam o topo tem proporcionado a esses indivíduos uma influência desproporcional sobre a vida política de seus países e sobre sua mídia; em que políticas são perseguidas e cujos interesses acabam sendo ignorados. Agora, deve-se notar que esta nova elite internacional, a classe profissional que os sustenta, difere em aspectos importantes das aristocracias dominantes de antigamente. Inclui muitos que são feitos por si mesmos. Inclui campeões de meritocracia. E embora ainda predominantemente brancos e masculinos, eles refletem uma diversidade de nacionalidades e etnias que não existiriam há cem anos. Uma porcentagem decente considera-se liberal em sua política, moderna e cosmopolita em sua perspectiva.

Desabitada pelo paroquialismo, ou nacionalismo, ou preconceito racial manifesto ou forte sentimento religioso, eles estão igualmente à vontade em Nova York, Londres, Xangai, Nairóbi, Buenos Aires ou Joanesburgo. Muitos são sinceros e eficazes em sua filantropia. Alguns deles contam Nelson Mandela entre seus heróis. Alguns até apoiaram Barack Obama para a presidência dos Estados Unidos, e em virtude do meu status como ex-chefe de Estado, alguns deles me consideram um membro honorário do clube. E eu fui convidada para essas coisas extravagantes, sabe? Eles vão me expulsar.

Mas o que é verdade, no entanto, é que em seus negócios, muitos titãs da indústria e das finanças estão cada vez mais separados de qualquer local ou estado-nação, e vivem vidas cada vez mais isoladas das lutas das pessoas comuns em seus países de origem.

E suas decisões – suas decisões de fechar uma fábrica ou tentar minimizar sua conta fiscal transferindo lucros para um paraíso fiscal com a ajuda de contadores ou advogados caros, ou sua decisão de tirar proveito de imigrantes de baixo custo. trabalho, ou a sua decisão de pagar um suborno – são muitas vezes feitas sem malícia; é apenas uma resposta racional, eles consideram, às demandas de seus balanços e seus acionistas e pressões competitivas.

Mas, com demasiada frequência, essas decisões também são tomadas sem referência a noções de solidariedade humana – ou um entendimento no nível do solo das conseqüências que serão sentidas por determinadas pessoas em determinadas comunidades pelas decisões tomadas. E de suas salas de diretoria ou retiros, tomadores de decisão globais não têm a chance de ver, às vezes, a dor nos rostos dos trabalhadores demitidos.

Seus filhos não sofrem quando os cortes na educação pública e nos cuidados de saúde resultam de uma base fiscal reduzida devido à evasão fiscal. Eles não podem ouvir o ressentimento de um comerciante mais velho quando ele reclama que um recém-chegado não fala sua língua em um local de trabalho onde ele trabalhou uma vez. Eles estão menos sujeitos ao desconforto e ao deslocamento que alguns de seus conterrâneos podem sentir como a globalização embaralha não apenas os arranjos econômicos existentes, mas os costumes sociais e religiosos tradicionais.

É por isso que, no final do século 20, enquanto alguns comentaristas ocidentais estavam declarando o fim da história e o inevitável triunfo da democracia liberal e as virtudes da cadeia global de suprimentos, tantos sinais errados de uma reação adversa – uma reação que chegou em muitas formas. Anunciou-se de forma mais violenta com o 11/9 e o surgimento de redes terroristas transnacionais, alimentadas por uma ideologia que perverteu uma das grandes religiões do mundo e afirmou uma luta não apenas entre o Islã e o Ocidente, mas entre o Islã e a modernidade e uma doença. aconselhou a invasão do Iraque pelos EUA não ajudou, acelerando um conflito sectário. A Rússia, já humilhada pela sua reduzida influência desde o colapso da União Soviética, sentindo-se ameaçada pelos movimentos democráticos ao longo de suas fronteiras,

A China, encorajada por seu sucesso econômico, começou a protestar contra as críticas ao seu histórico de direitos humanos; enquadrava a promoção de valores universais como nada mais que interferência estrangeira, imperialismo sob um novo nome.

Dentro dos Estados Unidos, dentro da União Européia, os desafios à globalização vieram primeiro da esquerda, mas vieram mais fortemente da direita, quando começaram a ver movimentos populistas – que, aliás, são cinicamente financiados por bilionários de direita. na redução das restrições do governo em seus interesses comerciais – esses movimentos aproveitaram o mal-estar que foi sentido por muitas pessoas que viviam fora dos núcleos urbanos; temia que a segurança econômica estivesse se esvaindo, que seu status social e privilégios estivessem se deteriorando, que suas identidades culturais estavam sendo ameaçadas por estranhos, alguém que não se parecia com eles ou soava como eles ou orava como eles faziam.

E talvez mais do que qualquer outra coisa, o impacto devastador da crise financeira de 2008, em que o comportamento imprudente das elites financeiras resultou em anos de dificuldades para pessoas comuns em todo o mundo, fez todas as garantias anteriores de especialistas parecerem vazias – todas essas garantias que de alguma forma os reguladores financeiros sabiam o que estavam fazendo, que alguém estava cuidando da loja, que a integração econômica global era um bem não adulterado.

Por causa das ações tomadas pelos governos durante e após a crise, incluindo, devo acrescentar, por medidas agressivas da minha administração, a economia global voltou agora a um crescimento saudável. Mas a credibilidade do sistema internacional, a fé em especialistas em lugares como Washington ou Bruxelas, tudo isso levou um golpe.

E uma política de medo e ressentimento e retração começaram a aparecer, e esse tipo de política está agora em movimento. Está em movimento a um ritmo que teria parecido inimaginável há alguns anos. Eu não estou sendo alarmista, estou simplesmente declarando os fatos. Olhar em volta. As políticas do homem forte estão ascendendo repentinamente, por meio das quais as eleições e alguma pretensão democrática são mantidas – a forma dela – mas os que estão no poder procuram minar todas as instituições ou normas que dão significado à democracia. No Ocidente, você tem partidos de extrema-direita que muitas vezes se baseiam não apenas em plataformas de protecionismo e fronteiras fechadas, mas também em nacionalismo racial pouco oculto.

Muitos países em desenvolvimento agora estão considerando o modelo de controle autoritário da China combinado com o capitalismo mercantilista como preferível à confusão da democracia. Quem precisa de liberdade de expressão enquanto a economia estiver indo bem? A imprensa livre está sob ataque. A censura e o controle estatal da mídia estão em ascensão. A mídia social – antes vista como um mecanismo para promover o conhecimento, a compreensão e a solidariedade – provou ser igualmente eficaz na promoção do ódio e da paranoia e das teorias de propaganda e conspiração.

Assim, no aniversário de 100 anos de Madiba, estamos agora em uma encruzilhada – um momento no tempo em que duas visões muito diferentes do futuro da humanidade competem pelos corações e mentes dos cidadãos ao redor do mundo. Duas histórias diferentes, duas narrativas diferentes sobre quem somos e quem devemos ser. Como devemos responder?

Deveríamos ver aquela onda de esperança que sentimos com a libertação de Madiba da prisão, do Muro de Berlim descendo – devemos ver essa esperança que tínhamos ingênuo e mal orientado? Deveríamos entender os últimos 25 anos de integração global como nada mais do que um desvio do ciclo inevitável da história anterior – onde a causa pode acertar, e a política é uma competição hostil entre tribos e raças e religiões, e as nações competem em uma soma zero? jogo, constantemente à beira do conflito até que a guerra completa irrompe? É isso que pensamos?

Deixe-me dizer o que eu acredito. Eu acredito na visão de Nelson Mandela. Eu acredito em uma visão compartilhada por Gandhi e King e Abraham Lincoln. Acredito em uma visão de igualdade, justiça, liberdade e democracia multirracial, construída com base na premissa de que todas as pessoas são criadas iguais e dotadas pelo nosso criador de certos direitos inalienáveis. E acredito que um mundo governado por tais princípios é possível e que pode alcançar mais paz e mais cooperação na busca de um bem comum. Isso é o que eu acredito.

E acredito que não temos escolha a não ser seguir em frente; que aqueles de nós que acreditam na democracia e nos direitos civis e uma humanidade comum têm uma história melhor para contar. E eu acredito que isso não se baseia apenas no sentimento, acredito que seja baseado em evidências concretas.

O fato de que as sociedades mais prósperas e bem-sucedidas do mundo, aquelas com os mais altos padrões de vida e os mais altos níveis de satisfação entre seus povos, são aquelas que mais se aproximam do ideal progressista liberal de que falamos e alimentaram o mundo. talentos e contribuições de todos os seus cidadãos.

O fato de que governos autoritários têm sido mostrados repetidamente para criar corrupção, porque eles não são responsáveis; reprimir seu povo; perder o contato eventualmente com a realidade; envolver-se em mentiras maiores e maiores que acabam por resultar em estagnação econômica e política e cultural e científica. Olhe para a história. Olhe para os fatos.

O fato de que países que se baseiam em nacionalismo e xenofobia raivosos e doutrinas de superioridade tribal, racial ou religiosa são seus principais princípios organizadores, o que mantém as pessoas unidas – eventualmente esses países se vêem consumidos pela guerra civil ou guerra externa. Confira os livros de história.

O fato de que a tecnologia não pode ser colocada de volta em uma garrafa, então estamos presos ao fato de que agora vivemos juntos e as populações vão se mexer, e os desafios ambientais não vão desaparecer sozinhos, A única maneira de abordar efetivamente problemas como mudança climática ou migração em massa ou doenças pandêmicas será desenvolver sistemas para mais cooperação internacional, não menos.

Nós temos uma história melhor para contar. Mas dizer que nossa visão para o futuro é melhor não é dizer que ela irá inevitavelmente vencer. Porque a história também mostra o poder do medo. A história mostra o domínio duradouro da ganância e o desejo de dominar os outros nas mentes dos homens. Especialmente homens. (Laughter and History mostra com que facilidade as pessoas podem ser convencidas a ligar os que parecem diferentes ou a adorar a Deus de uma maneira diferente.

Então, se formos verdadeiramente continuar a longa caminhada de Madiba em direção à liberdade, teremos que trabalhar mais e teremos que ser mais inteligentes. Nós vamos ter que aprender com os erros do passado recente. E assim, no breve tempo restante, deixe-me sugerir apenas algumas diretrizes para o caminho a seguir, diretrizes que tiram do trabalho de Madiba, suas palavras, as lições de sua vida.

Primeiro, Madiba mostra aqueles de nós que acreditam na liberdade e na democracia que teremos que lutar mais para reduzir a desigualdade e promover oportunidades econômicas duradouras para todas as pessoas.

Agora, não acredito no determinismo econômico. Os seres humanos não vivem só de pão. Mas eles precisam de pão. E a história mostra que as sociedades que toleram grandes diferenças de riqueza alimentam ressentimentos e reduzem a solidariedade e, na verdade, crescem mais lentamente; e que, uma vez que as pessoas alcancem mais do que mera subsistência, elas estão medindo seu bem-estar comparando-se com seus vizinhos e se seus filhos podem esperar viver uma vida melhor.

E quando o poder econômico está concentrado nas mãos de poucos, a história também mostra que o poder político certamente se seguirá – e essa dinâmica corrói a democracia. Às vezes pode ser uma corrupção direta, mas às vezes pode não envolver a troca de dinheiro; é só gente que é tão rica que consegue o que quer, e isso prejudica a liberdade humana.

E Madiba entendeu isso. Isso não é novidade. Ele nos alertou sobre isso. Ele disse: “Onde a globalização significa, como tantas vezes acontece, que os ricos e os poderosos agora têm novos meios para enriquecer e fortalecer a si mesmos à custa dos mais pobres e mais fracos, [então] temos a responsabilidade de protestar em o nome da liberdade universal ”. Foi o que ele disse.

Então, se estamos falando sério sobre a liberdade universal hoje, se nos preocupamos com a justiça social hoje, então temos a responsabilidade de fazer algo a respeito. E eu respeitosamente emendaria o que Madiba disse. Eu não faço isso com frequência, mas eu diria que não é o suficiente para protestarmos; vamos ter que construir, vamos ter que inovar, vamos ter que descobrir como podemos fechar esse abismo crescente de riqueza e oportunidade, tanto dentro dos países como entre eles.

E como conseguimos isso vai variar de país para país, e sei que seu novo presidente está empenhado em arregaçar as mangas e tentar fazê-lo. Mas podemos aprender com os últimos 70 anos que isso não envolverá capitalismo desregulado, desenfreado e antiético. Também não envolverá o socialismo de comando e controle de estilo antigo no topo. Isso foi tentado; Não funcionou muito bem. Para quase todos os países, o progresso dependerá de um sistema de mercado inclusivo – que ofereça educação para todas as crianças; que protege a negociação coletiva e assegure os direitos de todos os trabalhadores – que destrói monopólios para encorajar a concorrência em pequenas e médias empresas; e possui leis que erradicam a corrupção e garantem negociações justas nos negócios;

Eu devo acrescentar, a propósito, agora estou realmente surpreso com quanto dinheiro eu tenho, e deixe-me dizer uma coisa: eu não tenho metade da maioria dessas pessoas ou de um décimo ou centésimo. . Há tanta coisa que você pode comer. Há apenas uma casa tão grande que você pode ter. Há apenas tantas viagens agradáveis ​​que você pode fazer. Quero dizer, é o suficiente. Você não tem que fazer um voto de pobreza apenas para dizer: “Bem, deixe-me ajudar e deixar algumas das outras pessoas – deixe-me olhar para aquela criança lá fora que não tem o suficiente para comer ou precisa de algum taxas escolares, deixe-me ajudá-lo. Eu vou pagar um pouco mais em impostos. Está bem. Eu posso pagar isso.”

Quero dizer, isso mostra uma pobreza de ambição de apenas querer tomar mais e mais e mais, em vez de dizer: “Uau, eu tenho muito. Quem posso ajudar? Como posso dar mais e mais e mais? ”Isso é ambição. Isso é impacto. Isso é influência. Que presente incrível para ajudar as pessoas, não apenas você. Onde eu estava? Eu improvisei. Você entendeu.

Envolve promover um capitalismo inclusivo tanto dentro das nações como entre as nações. E, como perseguimos, por exemplo, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, temos que superar a mentalidade de caridade. Temos que trazer mais recursos para os bolsos esquecidos do mundo através do investimento e do empreendedorismo, porque há talento em todo o mundo se for dada uma oportunidade.

Quando se trata do sistema internacional de comércio e comércio, é legítimo que os países mais pobres continuem a buscar acesso aos mercados mais ricos. E, a propósito, mercados mais ricos, esse não é o grande problema que você está tendo – que um pequeno país africano está enviando chá e flores para você. Esse não é o seu maior desafio econômico. Também é apropriado para as economias avançadas, como os Estados Unidos, insistir na reciprocidade de países como a China, que não são mais apenas países pobres, para garantir o acesso aos seus mercados e deixar de tomar propriedade intelectual e hackear nossos servidores.

Mas mesmo que haja discussões em torno do comércio e do comércio, é importante reconhecer essa realidade: enquanto a terceirização de empregos de norte a sul, de leste a oeste, enquanto muito disso era uma tendência dominante no final do século XX. , o maior desafio para os trabalhadores em países como o meu hoje é a tecnologia.

E o maior desafio para o seu novo presidente quando pensarmos em empregar mais pessoas aqui também será a tecnologia, porque a inteligência artificial está aqui e está acelerando, e você terá carros sem motorista, e você terá mais e mais serviços automatizados, e isso dará ao trabalho de dar a todos um trabalho mais significativo, e teremos que ser mais imaginativos, e o pacto de mudança vai nos exigir fazer uma re-imaginação mais fundamental de nossos arranjos sociais e políticos, para proteger a segurança econômica e a dignidade que vem com um trabalho. Não é apenas dinheiro que um emprego oferece; fornece dignidade e estrutura, senso de lugar e senso de propósito.

Assim, teremos que considerar novas maneiras de pensar sobre esses problemas, como uma renda universal, uma revisão de nossa jornada de trabalho, como treinamos nossos jovens, como fazemos de todos um empreendedor em algum nível. Mas vamos ter que nos preocupar com economia se quisermos colocar a democracia de volta nos trilhos.

Segundo, Madiba nos ensina que alguns princípios são realmente universais – e o mais importante é o princípio de que estamos unidos por uma humanidade comum e que cada indivíduo tem dignidade e valor inerentes.

Agora, é surpreendente que tenhamos que afirmar esta verdade hoje. Mais de um quarto de século depois que Madiba saiu da prisão, eu ainda tenho que ficar aqui em uma palestra e dedicar algum tempo para dizer que negros e brancos e asiáticos e latino-americanos e mulheres e homens e gays e heterossexuais, isso somos todos humanos, que nossas diferenças são superficiais e que devemos tratar uns aos outros com cuidado e respeito. Eu teria pensado que teríamos descoberto isso agora. Eu achava que essa noção básica estava bem estabelecida. Mas acontece que, como vemos nessa recente tendência à política reacionária, a luta pela justiça básica nunca está realmente terminada. Então temos que estar constantemente atentos e lutar por pessoas que buscam se elevar colocando alguém abaixo.

E, a propósito, também temos que resistir ativamente – isso é importante, particularmente em alguns países da África, como a pátria de meu pai; Já fiz isso antes – temos que resistir à noção de que os direitos humanos básicos, como a liberdade de discordância, ou o direito das mulheres de participar plenamente da sociedade, ou o direito das minorias à igualdade de tratamento, ou os direitos das pessoas não para sermos espancados e presos por causa de sua orientação sexual – temos que ter cuidado para não dizer que de alguma forma, bem, isso não se aplica a nós, que essas são idéias ocidentais, e não imperativos universais.

Mais uma vez, Madiba, ele antecipou as coisas. Ele sabia do que estava falando. Em 1964, antes de receber a sentença que o condenou a morrer na prisão, ele explicou do banco dos réus que, “A Carta Magna, a Petição de Direitos, a Declaração de Direitos são documentos que são mantidos em veneração por democratas em todo o mundo. Em outras palavras, ele não disse bem, esses livros não foram escritos por sul-africanos, então eu simplesmente não posso reivindicá-los. Não, ele disse que é parte da minha herança.

Isso é parte da herança humana. Isso se aplica aqui neste país, para mim e para você. E isso é parte do que lhe deu a autoridade moral que o regime do apartheid nunca poderia reivindicar, porque estava mais familiarizado com seus melhores valores do que eles. Ele lera seus documentos com mais cuidado do que eles. E ele prosseguiu dizendo: “A divisão política baseada na cor é inteiramente artificial e, quando desaparece, a dominação de um grupo de cores por outro também.” Isso é Nelson Mandela falando em 1964, quando eu tinha três anos de idade.

O que era verdade, então, permanece verdadeiro hoje. Verdades básicas não mudam. É uma verdade que pode ser adotada pelos ingleses e pelos indianos e pelos mexicanos e bantos e pelos luo e pelos americanos. É uma verdade que está no coração de toda religião mundial – que devemos fazer aos outros como gostaríamos que fizessem a nós. Que nos vemos em outras pessoas. Que podemos reconhecer esperanças comuns e sonhos comuns. E é uma verdade que é incompatível com qualquer forma de discriminação baseada em raça ou religião ou gênero ou orientação sexual. E é uma verdade que, a propósito, quando abraçada, realmente proporciona benefícios práticos, uma vez que garante que uma sociedade possa aproveitar os talentos, a energia e a habilidade de todas as pessoas. E se você duvida, basta perguntar ao time de futebol francês que acabou de ganhar a Copa do Mundo. Porque nem todas essas pessoas – nem todas essas pessoas se parecem com gauleses para mim. Mas eles são franceses. Eles são franceses.

Abraçando nossa humanidade comum não significa que tenhamos que abandonar nossas identidades étnicas, nacionais e religiosas. Madiba nunca deixou de se orgulhar de sua herança tribal. Ele não deixou de se orgulhar de ser negro e de ser sul-africano.

Mas ele acreditava, como eu acredito, que você pode se orgulhar de sua herança sem denegrir os de uma herança diferente. Na verdade, você desonra sua herança. Isso me faria pensar que você é um pouco inseguro sobre sua herança se tiver que colocar a herança de outra pessoa para baixo. Sim, está certo. Você não sente que às vezes – mais uma vez, eu estou improvisando aqui – que essas pessoas que estão tão concentradas em colocar as pessoas para baixo e se embotando que elas são de coração pequeno, que há algo que elas estão com medo do.

Madiba sabia que não podemos reivindicar justiça para nós mesmos quando isso é reservado apenas para alguns. Madiba entendeu que não podemos dizer que temos uma sociedade justa simplesmente porque substituímos a cor da pessoa em cima de um sistema injusto, então a pessoa se parece conosco mesmo que esteja fazendo a mesma coisa, e de alguma forma agora nós temos justiça. Isso não funciona. Não é justiça se agora você estiver no topo, então vou fazer a mesma coisa que aquelas pessoas estavam fazendo comigo e agora vou fazer isso com você. Isso não é justiça. “Eu detesto o racismo”, disse ele, “se vem de um homem negro ou de um homem branco”.

Agora, temos que reconhecer que há desorientação que vem da rápida mudança e modernização, e o fato de que o mundo encolheu, e vamos ter que encontrar maneiras de diminuir os medos daqueles que se sentem ameaçados. No debate atual do Ocidente em torno da imigração, por exemplo, não é errado insistir que as fronteiras nacionais importam; se você é um cidadão ou não vai importar para um governo, que as leis precisam ser seguidas; que, no âmbito público, os recém-chegados devem se esforçar para adaptar-se à linguagem e aos costumes de seu novo lar. Essas são coisas legítimas e temos que ser capazes de envolver as pessoas que se sentem como se as coisas não estivessem em ordem. Mas isso não pode ser uma desculpa para políticas de imigração baseadas em raça, etnia ou religião. Tem que haver alguma consistência. E podemos impor a lei respeitando a humanidade essencial daqueles que estão lutando por uma vida melhor. Para uma mãe com um filho nos braços, podemos reconhecer que poderia ser alguém da nossa família, que poderia ser meu filho.

Em terceiro lugar, Madiba nos lembra que a democracia é mais do que apenas eleições.

Quando ele foi libertado da prisão, a popularidade de Madiba – bem, você não podia nem medir isso. Ele poderia ter sido presidente vitalício. Estou errado? Quem iria correr contra ele? Quero dizer, Ramaphosa era popular, mas vamos lá. Além disso, ele era jovem – ele era jovem demais. Se ele tivesse escolhido, Madiba poderia ter governado por decreto executivo, sem restrição de contrapesos. Mas, em vez disso, ajudou a guiar a África do Sul através da elaboração de uma nova Constituição, baseada em todas as práticas institucionais e ideais democráticos que se mostraram mais robustos, atentos ao fato de que nenhum indivíduo possui o monopólio da sabedoria.

Nenhum indivíduo – nem Mandela, nem Obama – é totalmente imune às influências corruptoras do poder absoluto, se você puder fazer o que quiser e todo mundo tem medo de dizer quando você cometer um erro. Ninguém está imune aos perigos disso.

Mandela entendeu isso. Ele disse: “A democracia é baseada no princípio da maioria. Isso é especialmente verdadeiro em um país como o nosso, onde a grande maioria tem sistematicamente negado seus direitos. Ao mesmo tempo, a democracia também exige que os direitos das minorias políticas e outras sejam salvaguardados ”. Ele entendeu que não é apenas sobre quem tem mais votos. É também sobre a cultura cívica que construímos que faz a democracia funcionar.

Então temos que parar de fingir que os países que apenas realizam uma eleição onde às vezes o vencedor magicamente obtém 90% dos votos porque toda a oposição está trancada – ou não podem entrar na TV, é uma democracia. A democracia depende de instituições fortes e é sobre os direitos das minorias e freios e contrapesos, e liberdade de expressão e liberdade de expressão e imprensa livre, e o direito de protestar e peticionar o governo, e um judiciário independente, e todos têm que seguir a lei .

E sim, a democracia pode ser confusa, e pode ser lenta, e pode ser frustrante. Eu sei, eu prometo. Mas a eficiência oferecida por um autocrata é uma promessa falsa. Não o leve, porque leva, invariavelmente, a uma maior consolidação da riqueza no topo e ao poder no topo, e torna mais fácil esconder a corrupção e o abuso. Apesar de todas as suas imperfeições, a democracia real sustenta melhor a ideia de que o governo existe para servir o indivíduo e não o contrário. E é a única forma de governo que tem a possibilidade de tornar essa ideia real.

Então, para aqueles de nós que estão interessados ​​em fortalecer a democracia, paremos também – é hora de pararmos de prestar atenção às capitais mundiais e aos centros de poder e começar a nos concentrar mais nas bases, porque é aí que a legitimidade democrática vem de. Não de cima para baixo, não de teorias abstratas, não apenas de especialistas, mas de baixo para cima. Conhecer as vidas daqueles que estão lutando.

Como organizadora da comunidade, aprendi muito com um trabalhador de aço desempregado em Chicago ou com uma mãe solteira em um bairro pobre que visitei, como aprendi com os melhores economistas do Salão Oval. Democracia significa estar em contato e em sintonia com a vida como é vivida em nossas comunidades, e isso é o que devemos esperar de nossos líderes, e depende do cultivo de líderes na base que podem ajudar a trazer mudanças e implementá-las no terreno e podem diga aos líderes em edifícios extravagantes, isso não está funcionando aqui.

E para fazer a democracia funcionar, Madiba nos mostra que também temos que continuar ensinando nossos filhos, e a nós mesmos – e isso é realmente difícil – a nos engajar com pessoas que não apenas têm uma aparência diferente, mas possuem visões diferentes. Isto é difícil.

A maioria de nós prefere nos cercar de opiniões que validem o que já acreditamos. Você percebe que as pessoas que você acha inteligentes são as pessoas que concordam com você. Engraçado como isso funciona. Mas a democracia exige que também possamos entrar na realidade das pessoas que são diferentes de nós para que possamos entender seu ponto de vista. Talvez possamos mudar de idéia, mas talvez eles mudem os nossos. E você não pode fazer isso se você simplesmente ignorar o que seus oponentes têm a dizer desde o início. E você não pode fazer isso se você insiste que aqueles que não são como você – porque são brancos, ou porque são do sexo masculino – que de alguma forma não há como eles entenderem o que eu sinto, que de alguma forma eles não têm de pé para falar sobre certos assuntos.

Madiba, ele viveu essa complexidade. Na prisão, ele estudou afrikaans para poder entender melhor as pessoas que o estavam encarcerando. E quando ele saiu da prisão, ele estendeu a mão para aqueles que o haviam prendido, porque ele sabia que eles tinham que ser parte da África do Sul democrática que ele queria construir. “Para fazer as pazes com um inimigo”, escreveu ele, “é preciso trabalhar com esse inimigo e esse inimigo torna-se parceiro de alguém”.

Assim, aqueles que traficam em absolutos quando se trata de política, seja à esquerda ou à direita, tornam a democracia inviável. Você não pode esperar obter 100% do que você quer o tempo todo; às vezes, você tem que comprometer. Isso não significa abandonar seus princípios, mas significa manter esses princípios e ter a confiança de que eles resistirão a um debate democrático sério. Foi assim que os Fundadores da América planejaram que nosso sistema funcionasse – que, através do teste de idéias e da aplicação da razão e da prova, seria possível chegar a uma base para um terreno comum.

E devo acrescentar que isso funcione, temos que realmente acreditar em uma realidade objetiva. Essa é outra dessas coisas que eu não tive que fazer palestras. Você tem que acreditar em fatos. Sem fatos, não há base para cooperação. Se eu disser que este é um pódio e você diz que isso é um elefante, vai ser difícil para nós cooperarmos. Eu posso encontrar um terreno comum para aqueles que se opõem aos Acordos de Paris porque, por exemplo, eles podem dizer, bem, não vai funcionar, você não pode fazer com que todos cooperem, ou eles podem dizer que é mais importante para nós fornecermos produtos baratos. energia para os pobres, mesmo que isso signifique, a curto prazo, que haja mais poluição.

Pelo menos eu posso ter um debate com eles sobre isso e posso mostrar a eles porque eu acho que a energia limpa é o melhor caminho, especialmente para os países pobres, que você pode ultrapassar tecnologias antigas. Não consigo encontrar um terreno comum se alguém diz que a mudança climática não está acontecendo, quando quase todos os cientistas do mundo nos dizem que é. Eu não sei por onde começar a falar sobre isso. Se você começar a dizer que é uma farsa elaborada, eu não sei o que fazer – onde começamos?

Infelizmente, muita da política hoje parece rejeitar o próprio conceito de verdade objetiva. As pessoas inventam coisas. Eles apenas inventam coisas. Nós vemos isso na propaganda patrocinada pelo estado; vemos isso em fabricações conduzidas pela Internet, vemos isso na confusão de linhas entre notícias e entretenimento, vemos a total perda de vergonha entre os líderes políticos, onde eles são pegos em uma mentira e eles simplesmente dobram e mentem um pouco mais. Políticos sempre mentiram, mas costumava ser, se você os pegasse mentindo, seria tipo “Oh, cara”. Agora eles continuam mentindo.

Aliás, isso é o que eu acho que Mama Graça estava falando em termos de algum senso de humildade que Madiba sentia, como às vezes coisas básicas, eu não mentir para as pessoas parece básico, eu não penso em mim como um grande líder só porque eu não invisto completamente. Você acha que foi uma linha de base. De qualquer forma, vemos isso na promoção do anti-intelectualismo e na rejeição da ciência por parte de líderes que acham o pensamento crítico e os dados de alguma forma politicamente inconvenientes.

E, como na negação de direitos, a negação de fatos vai contra a democracia, pode ser a sua ruína, e é por isso que devemos proteger zelosamente a mídia independente; e temos que nos proteger contra a tendência das mídias sociais se tornarem puramente uma plataforma para espetáculo, indignação ou desinformação; e temos que insistir que nossas escolas ensinem o pensamento crítico aos nossos jovens, não apenas a obediência cega.

O que, tenho certeza de que você é grato, leva ao meu último ponto: temos que seguir o exemplo de persistência e esperança de Madiba.

É tentador ceder ao cinismo: acreditar que as mudanças recentes na política global são muito poderosas para retroceder; que o pêndulo oscilou permanentemente. Assim como as pessoas falaram sobre o triunfo da democracia nos anos 90, agora vocês estão ouvindo as pessoas falarem sobre o fim da democracia e o triunfo do tribalismo e do homem forte. Temos que resistir a esse cinismo.

Porque, nós passamos por tempos mais escuros, nós estivemos em vales mais baixos e vales mais profundos. Sim, até o final de sua vida, Madiba incorporou a luta bem-sucedida pelos direitos humanos, mas a jornada não foi fácil, não foi pré-ordenada. O homem foi preso por quase três décadas. Ele dividiu o calcário no calor, dormiu em uma pequena cela e foi repetidamente colocado em confinamento solitário. E eu lembro de ter conversado com alguns de seus ex-colegas dizendo como eles não tinham percebido quando foram libertados, apenas a visão de uma criança, a ideia de segurar uma criança, eles haviam perdido – não era algo disponível para eles, por décadas.

E, no entanto, seu poder realmente cresceu durante aqueles anos – e o poder de seus carcereiros diminuiu, porque ele sabia que se você mantivesse o que é verdade, se você sabe o que está em seu coração, e você está disposto a se sacrificar por isso, mesmo no face de chances esmagadoras, de que isso pode não acontecer amanhã, pode não acontecer na próxima semana, pode nem acontecer em sua vida.

As coisas podem retroceder por um tempo, mas no final das contas, certo faz poder, e não o contrário, a história melhor pode vencer e tão forte quanto o espírito de Madiba pode ter sido, ele não teria sustentado essa esperança se estivesse sozinho na luta, parte da motivação era que ele soubesse que a cada ano, as fileiras de combatentes da liberdade estavam se reabastecendo, homens e mulheres jovens, aqui na África do Sul, no ANC e além; negros, indianos e brancos, do outro lado do campo, por todo o continente, em todo o mundo, que naqueles dias mais difíceis continuariam trabalhando em prol de sua visão.

E é disso que precisamos agora, não precisamos apenas de um líder, não precisamos apenas de uma inspiração, o que precisamos agora é desse espírito coletivo. E eu sei que aqueles jovens, aqueles portadores de esperança estão se reunindo ao redor do mundo. Porque a história mostra que sempre que o progresso é ameaçado, e as coisas que mais nos interessam estão em questão, devemos ouvir as palavras de Robert Kennedy – falado aqui na África do Sul, ele disse: “Nossa resposta é a esperança do mundo: é confiar na juventude. É confiar no espírito dos jovens ”.

Então, os jovens, que estão na platéia, que estão ouvindo, minha mensagem para você é simples, continue acreditando, continue marchando, continue construindo, continue levantando sua voz. Toda geração tem a oportunidade de refazer o mundo. Mandela disse: “Os jovens são capazes, quando despertados, de derrubar as torres da opressão e levantar as bandeiras da liberdade”. Agora é um bom momento para ser despertado. Agora é um bom momento para se animar.

E, para aqueles de nós que se preocupam com o legado que nós honramos aqui hoje – sobre igualdade e dignidade e democracia e solidariedade e bondade, aqueles de nós que permanecem jovens no coração, se não no corpo – temos a obrigação de ajudar nossos jovens ter sucesso. Alguns de vocês sabem, aqui na África do Sul, minha Fundação está convocando nos últimos dias, duzentos jovens de todo o continente que estão fazendo o trabalho duro de fazer mudanças em suas comunidades; que refletem os valores de Madiba, que estão preparados para liderar o caminho.

Pessoas como Abaas Mpindi, um jornalista de Uganda, que fundou a Media Challenge Initiative, para ajudar outros jovens a obter o treinamento necessário para contar as histórias que o mundo precisa saber.

Pessoas como Caren Wakoli, uma empreendedora do Quênia, que fundou a Emerging Leaders Foundation para envolver os jovens no trabalho de combater a pobreza e promover a dignidade humana.

Pessoas como Enock Nkulanga, que dirige a missão African Children, que ajuda crianças em Uganda e no Quênia a obterem a educação de que precisam e, em seu tempo livre, defende os direitos das crianças em todo o mundo e fundou uma organização chamada LeadMinds Africa. , que faz exatamente o que diz.

Você conhece essas pessoas, fala com elas, elas lhe dão esperança. Eles estão tomando o bastão, eles sabem que não podem simplesmente descansar sobre as realizações do passado, até mesmo as realizações daqueles tão importantes quanto os de Nelson Mandela. Eles ficam sobre os ombros daqueles que vieram antes, incluindo aquele jovem negro nascido há 100 anos, mas eles sabem que agora é a vez deles fazerem o trabalho.

Madiba nos lembra que: “Ninguém nasce odiando outra pessoa por causa da cor de sua pele, de sua origem ou de sua religião. As pessoas devem aprender a odiar, e se elas podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar, pois o amor vem mais naturalmente ao coração humano. ”O amor vem mais naturalmente ao coração humano, vamos nos lembrar dessa verdade. Vamos ver isso como nossa Estrela do Norte, vamos nos alegrar em nossa luta para fazer essa verdade se manifestar aqui na terra para que daqui a 100 anos, futuras gerações olhem para trás e digam, “eles mantiveram a marcha, é por isso que vivemos sob novos banners de liberdade ”.

Muito obrigado, África do Sul, obrigado”. (Barack Obama)

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Consciência Negra

Ser empresário é coisa de preto

Para afropotências do empreendedorismo social, ser criativo e inovador não é nada novo. É o que sempre foram na favela.

Por Lais Rocio (Vitória/ES)
Publicado originalmente pela empresa social
Atitude Inicial

Ser negro e empresário é diariamente revolucionário. É jogar o jogo do mercado, para dar poder às ideias de quem nunca foi incentivado a apostar o próprio sonho na competição do empresariado. E ao mesmo tempo, empreender com a estratégia que a negritude sempre teve para reinventar a vida. Na favela, no quilombo e nos vários espaços que ousaram dizer que um preto não podia ser dono da própria história, ou do próprio negócio. Esse é o cenário das afropotências do empreendedorismo social Jota Júnior, da  Atitude Inicial, e Priscila Gama, do Instituto das Pretas. Retratados no segundo episódio da série de reportagens Afropotências, do Projeto Entalado

“Somos empreendedores desde que pegamos a nossa carta de alforria e não tínhamos para onde ir”, reconhece a empresária paulista Michelle Fernandes, durante o Encontro Das Pretas (Vitória/ES).

É um saber e fazer que não costuma ser ensinado nas escolas, nos cursinhos profissionalizantes ou em outros serviços públicos que atendem à população negra. Mas é o que faz as comunidades inventarem os seus próprios negócios, artesanatos, gambiarras, feiras e vendinhas. Que vão para além do próprio sustento, e despertam união de talentos e propósitos de vida.

Tudo isso fortalece um mercado que, diante das crises, cada vez mais se alia à economia criativa. Envolve inovação, sustentabilidade, diversidade cultural e inclusão social. Valores indispensáveis aos ditos novos negócios, mas que os afroempeendedores sempre viram acontecer ao seu redor. Ao longo de sua vida, Jota Júnior presencia sua mãe, costureira e artesã, abrindo pequenos empreendimentos no bairro e cursinhos para ensinar seu ofício a outras mulheres como ela. Diversas vezes, ele entendeu o significado da economia criativa quando via a vizinhança montar feirinhas no bairro para vender seus produtos caseiros.

“Inovação empresarial não é só tecnologias de máquinas, é inovar nas ideias. E isso é o que as favelas fazem há anos”, afirma Priscila Gama.

Por isso, alguns empresários negros lutam também para que essa criatividade periférica não seja reapropriada por pessoas não negras que dão novos nomes a essas práticas, e as afastam de suas origens, como observa Priscila. E com isso, afroempreendedores ocupam o mundo dos negócios, para que essas criações e habilidades sejam reconhecidas como as potencialidades que são. Ao abrirem caminhos inéditos de igualdade racial e protagonismo, tornam-se por conta própria autores dessa transformação:

 

“Se não tem espaço para mulheres negras, então nós vamos criar! Criamos nosso próprio lugar, com nossos direitos de viver, curtir, ser livre e bonita”, conta Priscila Gama, sobre os projetos que desenvolve.

 

Assim, abrem novas possibilidades para que negros tenham múltiplas chances, inclusive financeiras, de serem o que quiserem profissionalmente. Para que não tenham como únicos caminhos possíveis o envolvimento com a violência, ou as profissões e cargos mais desvalorizadas pela sociedade. Como explica o advogado e defensor dos direitos humanos André Moreira: “Ás vezes os nossos melhores nomes estão lá no crime, com pessoas tão boas em organização que organizam o tráfico. Cada um emprega sua capacidade naquilo que dá sobrevivência”. Foi acreditando em tudo isso que os personagens dessas histórias, Priscila e Jota, ergueram empresas com propósitos que transcendem suas profissões individuais.

 

“Negócios sociais existem para resolver problemas que a gente enxerga todos os dias. São negócios feitos para mudar o mundo”, explica Jota Júnior.



O fantástico mundo de Jota

O gosto por desafiar a realidade e sonhar a partir da escassez foi despertado em Jota desde cedo. Quando nem imaginava idealizar e ser diretor executivo da empresa social Atitude Inicial, que hoje chega a seis anos de existência, mais de 150 projetos desenvolvidos, e 600 mil reais de faturamento ao ano.

Ao longo da infância, Jota se via como no Fantástico Mundo de Bob, um desenho animado dos anos 90. Era sobre uma criança que imaginava mundos coloridos, espaços siderais e outros cenários incríveis no lugar da sua simples casa suburbana. E também era assim que Jota reinventada sua vida de um menino de família pobre, morador de uma região marginalizada do bairro Santo Antônio (comunidade em Vitória/ES, que mistura moradias tradicionais e outras mais precárias, originárias de ocupações em morros e mangues).  Criava as próprias brincadeiras, como rifas na escola para dividir o lanche que nem todas as crianças tinham. Idealizava seus brinquedos no lugar daqueles que não tinha acesso, e até mesmo novas memórias para substituir traumas familiares mais sérios, como relembra:

“Eu inventava um mundo em que eu podia ser o que quisesse. Que não fosse tão precário quanto o que tinha ao meu redor.”

Da mesma forma, sempre rejeitou as imposições, e questionava os porquês da realidade ser como era. Tudo isso guiou Jota a descobrir, mais tarde, que podia não só desvendar essas razões, mas também mudar tudo de fato. E depois, percebeu que esse desejo não precisava ser apenas um hobbie, mas a sua missão principal de vida e profissão. Com isso, se identificava cada vez mais com o verso de um rap do Emicida que serviu como mantra: “só água na geladeira e eu querendo salvar o mundo”.

Com quase nada além da própria imaginação, foi ultrapassando as fronteiras impostas em seu bairro periférico. Começou a trabalhar com 15 anos de idade, e com o salário pagava um de seus primeiros cursos técnicos. Passou pelo teatro, design, comunicação e administração. E percorria esses caminhos na contramão da educação e do trabalho tradicionais, em que muitos jovens como ele se sentem realizados apenas quando recebem o salário ao final do mês, como ele mesmo sempre comenta.

Entendeu isso mais ainda ao iniciar sua vida profissional coordenando projetos culturais em um programa social de conscientização no trânsito, financiado pelo governo. Quando esse Programa oportunizou a sua primeira viagem para o exterior, ele percebeu que era possível: “Foi um marco na vida, quando percebi que eu conseguia pegar aquele fantástico mundo que eu imaginava e transformar em realidade”.

Mesmo com o rompimento desse trabalho, o sentimento de mudança de mundo foi mantido por ele, ao lado de pessoas e realidades que compartilhavam desse desejo. Esse foi o papel do fotógrafo, historiador e militante dos movimentos sociais, Serginho Neglia, que tornou-se um mentor desde aquele momento até os dias de hoje. Com isso, empreender foi para Jota o único caminho possível. Assim como criar um mundo e universo nas suas brincadeiras de infância era a única forma de conquistar seus sonhos, mesmo que fosse apenas no campo das ideias:

“Sou preto e empresário porque essa foi a única opção que me restou: Inventar uma empresa era fazer, mais uma vez, com que os dias fossem menos difíceis”.

A partir daí, Jota criou a Atitude junto com muita gente que acreditava nessa mesma loucura, tal como Valéria Nogueira, hoje sócia e coordenadora de produção. Multiplicaram e expandiram o velho hábito de Jota em sonhar a partir da escassez, de ressignificar a dor e mudar tudo o que incomoda. Antes mesmo de ter um CNPJ ou uma sede estruturada, ele teve a ousadia de propor um projeto de conscientização ambiental à uma grande empresa da cidade. Essa primeira intervenção realizada consolidou uma parceria que se mantém até hoje. E foi o ponto de partida para percorrer criando revoluções e soluções diárias para as injustiças sociais e ambienteis. Como diz a própria equipe, são sempre ideias reais para problemas, pessoas e mundos reais.

Ao mesmo tempo em que conectam pessoas e ideias, a Atitude Inicial serve para despertar e potencializar inclusive negros de periferia para aquilo que fazem de melhor. E assim reúnem pessoas que amam ser artistas, comunicadores, atores, jornalistas, designers, entre muitos outros, para que sejam bons inclusive em mudar o mundo. Dessa foram, a arte, a cultura, a comunicação e outras diversas ferramentas desenvolvidas na empresa se tornam, sobretudo, tecnologias sociais feitas para transformar realidades. Como acredita Jota:

“Esse lugar é para todo mundo saber o tamanho que tem. Enxergo as pessoas para despertar o melhor delas. Sempre me pergunto: onde essa pessoa vai servir dentro da revolução do mundo?”

 

Priscila: uma vida por muitas histórias de pretas protagonistas

Foto: Priscila Gama -Arquivo pessoal

Ao viver realidades de educação e profissão em que se incomodavam até com suas conquistas simplesmente por ser negra, Priscila Gama descobriu o seu papel no mundo: promover a demarcação e o protagonismo do povo preto, em qualquer que seja o lugar. Tudo isso por mais espaços afrocentrados, em que, por exemplo, ela não fosse mais a única negra nas salas de aula, como foi muitas vezes.

Desde criança, Priscila sempre se sentiu bonita, inteligente e inspirada pela beleza dos poucos artistas negros que via na TV. No entanto, junto com as oportunidades de frequentar escolas e faculdades particulares renomadas de sua cidade, veio a dor do racismo que violenta pessoas só por existirem, e mais ainda quando mostram algum destaque na sociedade.

“Era como se de um dia pro outro eu tivesse ficado mais preta. Aquela não era o meu lugar. Era agressivo para aqueles meninos e meninas conviverem comigo”, relembra, sobre a sensação que teve ao frequentar os cursinhos privados de pré-vestibular.

Sua resistência a isso fez com que, anos depois de ter sido uma das poucas pretas no curso de Direito, Priscila hoje seja convidada para voltar à essa mesma faculdade. Mas dessa vez, é para compor a banca das apresentações de TCC, formaturas e grêmios estudantis de alunos negros, em que vê mulheres como ela conquistando seus diplomas. E também é assim que essas pessoas agradecem a ela, simplesmente por um dia ter lhes dito: “Vai, e não para. Porque eles querem que você pare”. Refletindo sobre isso, emocionada, ela sente que está conseguindo plantar algo que nunca teve quando precisou. Mas reconhece que é só o começo, e ainda há muito a ser feito.

São sentimentos como esse que marcam sua história como empreendedora social de projetos de protagonismo negro. Também atua como afroencer digital, e gestora de promoção da igualdade racial na Prefeitura Municipal de Vitória, Espírito Santo. Nesses vários espaços, dedica-se a valorizar a pretitude periférica desde quando educa seu filho para lidar com o racismo até quando faz questão de contratar médicos, advogados ou arquitetos pretos. Ela também se responsabiliza a reconhecer e lutar contra diversas formas de violência racial, seja ao apontar a falta de representatividade nos eventos que frequenta, ou em constranger situações de racismo que presencia.

Foi o que fez, por exemplo, quando soube que uma amiga sofria racismo no trabalho. Diante dessa atitude, ela enviou para os responsáveis dessa ofensa uma boneca negra, da marca de brinquedos afrocentrados Era uma vez o mundo, que representava e homenageava a própria Priscila, junto com uma carta. Ali, falou sobre a importância do respeito à estética e identidade negra da menina que foi vítima, avisando que ela não está sozinha.

É nessas revoluções diárias, de pouco a pouco e muitas vezes em silêncio, que Priscila constrói um mundo para incentivar que pretos e pretas periféricas possam voar para onde quiserem, sem limitações. E à medida em que alcança essas conquistas, sente também o impulso de multiplicá-las: “Eu queria que outras mulheres como eu se sentissem como eu me sentia: cheia de direitos”, conta ela, sobre o que move seus empreendimentos.

Foto: Bekoo das Pretas.

Conectar e reunir o público feminino em torno da questão racial e de gênero foi o ponto de partida para a trajetória do Instituto das Pretas, que há cinco anos ergue realidades até então inimagináveis. Do pequeno grupo de mulheres negras que se reunia em 2013, surgiram milhares de outras necessidades que só podiam ser preenchidas por elas mesmas. Uma delas foi o Encontro das Pretas, que a cada ano unifica em um evento as discussões e realizações afrocentradas da cidade. Da falta de autoestima com seus traços e cabelos crespos, surgiram também atividades de valorização da beleza afro. O que as fez organizar, na própria cidade, o movimento nacional Marcha do Orgulho Crespo. E daí vieram novas iniciativas, ao perceberem que ainda havia muito mais a ser debatido e conquistado:

“Empoderamento preto não é só se sentir bonito, mas também fortalecer a autonomia e independência. De que adianta eu dar poder sem ensinar para a pessoa o que ela vai fazer com isso?”, explica Priscila, sobre o que a levou a produzir diversos espaços para inspiração e orientação.

Nesse sentido, o Instituto movimenta várias outras ações, como o Quilombinho, uma colônia de férias para acolher crianças negras da periferia, com a construção de suas identidades afro-brasileiras. Oferecem aprendizados lúdicos com tradições como capoeira, dança afro e tambores. E assim também criaram o Bekoo das Pretas: um festival em que pretos, e principalmente mulheres pretas, protagonizam e representam em todos os sentidos. A negritude é maioria em toda a produção e organização. E a programação, sempre focada na cultura afrocentrada, faz explodir no palco rappers, dançarinxs, dj’s e atrações com a diversidade dessas expressões artísticas.

Lançado há cerca de dois anos, o Bekoo também conquista territórios nacionais. A festa já realizou uma edição em São Paulo com a rapper Karol Conka, e frequentemente traz para o Espírito Santo artistas de fora, como o dj KL Jay, que integra o grupo Racionais MC’s, e a rapper paulistana Drik Barbosa.

 

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E após o fim da escravidão?  

 

Por Douglas Belchior

Imagine um amigo seu ou um parente que fosse tratado como um animal. Imagine as pessoas que você ama vivendo sem ter nenhum direito, podendo ser vendidos, trocados, castigados, mutilados ou mesmo mortos sem que ninguém ou nenhuma instituição pudesse intervir em seu favor. Imagine você, seu pai, sua mãe ou seu filho sendo tratados como coisa qualquer, como um porco, um cavalo, ou um cachorro. Imagine sua filha sendo levada ou mesmo ao seu lado, estuprada, todos os dias e depois, grávida à serventia do negócio de seu dono.

Clóvis Moura (Moura, 1989, p.15-16) faz o relato sem personagens. Eu os incluí para pedir que imagine.

Você que já chorou diante das cenas que remetem o sofrimento de Jesus Cristo, na sexta feira da paixão; Você que fechou os olhos frente às fortes imagens de Django Livre; Você que se emocionou com 12 anos de escravidão, imagine.

Imagine – e saiba – que teu país e as riquezas que o conformam existem em função de quatro séculos de escravidão. E de tudo que deste período e deste sistema decorreu a partir de então.

Mas, enfim, a escravidão acabou: 13 de maio, princesa Isabel e muita festa! Festa e promessa de abonança, tal qual desrespeitosamente a golpista Rede Globo nos educa, quase sempre com muita graça, como nos episódios clássicos do “Baú do Fantástico” e do “Tá no ar!“.

E nos dias seguintes, tudo seria diferente?

Desde que acompanho o movimento negro, aprendi que dia 14 de maio, o dia seguinte ao fim da escravidão, foi o dia mais longo da história. Aliás, alguns dizem que é o dia que não terminou.

Depois de séculos de sequestros, escravidão e assassinatos, o que se viu nos anos pós-abolição foi a formação e o desenvolvimento de um país que negou e ainda nega à população negra condições mínimas de integração e participação na riqueza.

Sem terra, sem empregos, sem educação, sem saúde, sem teto, sem representação. Sequer a mais liberal das reformas, a agrária, fora possível no país das capitanias hereditárias. Vamos olhar para o campo e observar as fileiras ou os acampamentos de Sem Terra, maioria negras e negros. Vamos buscar na memória os rostos de quem conforma o pelotão que estremece as metrópoles na justa luta por moradia capitaneada pelos movimentos de Sem-Teto nos dias de hoje: negras e negros! Bora olhar para as filas dos hospitais, para os que esperam exames e tratamentos, para os analfabetos ou para as crianças em idade escolar que estão fora da escola. Vamos olhar para a população carcerária e suas condições de existência. Vamos olhar para as vítimas de violência policial, para os números de desaparecimentos e homicídios. Vamos olhar para os dependentes do bolsa-família ou da previdência social. Vamos olhar para a pobreza. De fato, ela atinge a todos. Mas a presença de negras e negros nas condições narradas aqui tem sido desproporcional e pouco se alterou desde 1888.

O dia seguinte, a década seguinte, os 130 anos seguintes ao fim da escravidão não foram suficientes para nos livrar de uma herança racista, reafirmada cotidianamente pelos descendentes dos colonizadores que sempre dominaram o Brasil. Estes mantém a posse do latifúndio, hoje rebatizado de agronegócio. Mantém o domínio dos grandes meios de comunicação, são donos das grandes empresas, bancos, conglomerados educacionais-empresariais, além de dirigir politicamente as maiores Igrejas. São os mesmos que, por meio de um golpe parlamentar-jurídico-midiático, instalaram um governo ilegítimo dirigido por Temer e uma maioria de parlamentares brancos e corruptos, que mais uma vez assaltam os direitos duramente conquistados pelo povo negro brasileiro. Com isso, garantem o poderio econômico, a supremacia política e a representação eleitoral de maneira a manter intocáveis seus interesses.

Nada diferente do que tem sido os últimos 130 anos. Ou os últimos 518…

Nestes dias depois do “fim da escravidão”, resistimos! Em saraus, cursinhos comunitários, coletivos negros, nas rodas de samba e candomblé, nos bondes funkeiros, no hip-hop, na poesia, na literatura, nas artes, na internet, no movimento negro, e aos pouquinhos, nas universidades, existimos.  Sendo assim, dotados de tamanha resiliência, imaginem a revolta!

 


Conheça, participe e ajude fortalecer o movimento negro brasileiro Acesse: Uneafro Brasil

 

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No 13 de Maio, Negrume debate “Poderes Negros”, em Guaianases

Militantes negros, professores, articuladores e artistas discutem sobre a necessidade da constituição de poderes negros que atuem conjuntamente no combate ao racismo. O encontro acontece sábado, 13/05, às 14h00 no CEU Lajeado – Guaianases

 

Por Negrume

Seguindo uma tendência internacional, em todo o território nacional o acirramento do capitalismo e da supremacia branca, estruturou e estrutura o racismo. Aqui o que vemos há séculos é o racismo “cordial à brasileira”, que travestido de democracia, opera de diversas formas o genocídio dos povos originários e da população negra, pobre e periférica.

Embora seja constantemente denunciado por vários segmentos do movimento negro, o racista e retrógrado “mito da democracia racial” é defendido ainda hoje pela mídia, por governos ilegítimos e pelo cinismo de um racismo “cordial” da burguesia branca da dita nação:“Brasil”. A grande maioria da população branca, ou não-negra, que é minoria no território nacional, ignora fatos, dados, estudos, militantes históricxs, livros e especialistas negros nas relações étnico-raciais mundo afora.

Na atual conjuntura do pós-golpe institucional “brasileiro” estão acontecendo diversos retrocessos. Alguns desses retrocessos são gerais, porém notadamente mais maléficos sobre determinados corpos, em especial corpos de negras e negros. Retrocessos como a reforma da previdência, reforma das leis trabalhistas, a reforma do ensino médio e o desrespeito à constituição nacional, geram na população negra maiores e mais duradouros prejuízos.

Outros retrocessos atingem especificamente a população negra, como por exemplo a ameaça a Lei 10.639, importante mecanismo para a promoção da consciência negra em crianças e adolescentes. Essa lei propôs novas diretrizes curriculares para o estudo da história e cultura afro-brasileira e africana e é constantemente ameaçada por ondas conservadoras, neo-pentecostais e outras vertentes de pensamento extremamente racistas.

Tendo como princípio a consciência negra e a crescente necessidade de lutar por nossa emancipação, convidamos a todxs para bater um papo sobre a constituição de diferentes poderes negros, que agindo articulados podem combater o racismo, capitalismo e a supremacia branca.

Convidadas e convidados:

ELAINE MINEIRO, militante do Fórum de Cultura da Zona Leste e do Movimento Cultural das Periferias.

ALARU, professor de História e co-fundador da UCPA (União dos Coletivos Pan-Africanistas)

JESUS DOS SANTOS, articulador da Casa do Meio do Mundo e membro do Movimento Cultural das Periferias.

HEBE VALE, membra da FRENER (Frente Negra de Erradicação do Racismo)

YAYA THAINA, membra da UCPA (União dos Coletivos Pan-Africanistas)

Local : Ceu Lajeado – 14h às 18h

Rua Manuel da Mota Coutinho, 08451420 São Paulo


Sobre o Negrume, cultura e consciência negra

Na luta negra por liberdade e afirmação da cultura e resistências negras, historicamente negros da diáspora e negros da África caminham, marcham ou cortejam as ruas e seus ancestrais. Hoje, após a globalização do racismo contra pessoas negras, se faz necessário manter essa tradição de ocupar as ruas em prol da consciência negra.

No Brasil os afoxés na Bahia e Pernambuco, os maracatus em Alagoas, Ceará e Pernambuco e as congadas no Sudeste do país, cortejam as ruas saudando seus orixás e os reinados negros do Congo.

O projeto NEGRUME surgiu em Novembro de 2014 no bairro de Guaianases como um cortejo que homenageia as caminhadas e marchas da comunidade negra. É uma mescla das tradições negras populares com a luta dos movimentos sociais negros. Firmamos batuques para a afirmação cultural e política da resistência negra contra o genocídio da população negra, contra o racismo estrutural, contra o mito da democracia racial e contra todas as mazelas originadas no preconceito de cor.

Em 2016 o projeto se estabelece também como um blog periférico e articula em Guaianases, periferia da zona leste, rodas de conversa sobre temas da cultura e consciência negra. NEGRUME promoverá periodicamente bate-papo com especialistas, militantes negrxs e artistas, sempre com participação atuante da nossa comunidade.

Nosso estandarte contra o racismo: Negrume!

 

Acessem o blog:

https://negrume.wordpress.com/

Email: [email protected]

 

 

 


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A UNEafro-Brasil, reinaugura sua loja de camisetas e artigos de reverência à luta do povo negro brasileiro!

Além de se vestir com as imagens e cores de nossa resistência, você estará contribuindo para manter financeiramente um movimento de luta, autônomo e independente!

Todos os produtos são confeccionados pelas mulheres que fazem parte do Núcleo de Economia Solidária Das Pretas da UNEafro.

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