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Brasil: o país da Copa e do racismo

Pais Racismo

 

 

Por Douglas Belchior

 

Mais da metade dos homicídios no Brasil (53%) atinge pessoas jovens, sendo que, deste grupo, mais de 75% são jovens negros, de baixa escolaridade, em sua grande maioria homens (91%) e com maior incidência na faixa etária entre 20 e 25 anos.

De cada 10 mortos pela polícia, 7 são negros; 73% dos mais pobres do são negros; 69,4% dos analfabetos são negros; 62% das crianças fora da escola são negras; Em média, a renda de negros é 40% menor que a de brancos…

Se hoje o Brasil é uma das maiores economias mundiais a ponto de se dar o direito de sediar uma copa do mundo de futebol, é preciso dizer também que é um dos países com uma das maiores concentrações de riqueza nas mãos de poucos e com uma das maiores desigualdades sociais do mundo.

E precisa dizer que povo é mais vitimado por essas mazelas?

O Vídeo do coletivo BRADO, publicado pelo site do Geledés, diz tudo.

 

 

 

 

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Copa do Mundo: O que ficará na memória?

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A COPA e a construção da memória coletiva

 

 

Final da Copa de 50, quando o negro Barbosa levou a culpa, onde você estava?

Onde você estava no dia 1 de abril de 1964, noite do golpe militar?

Onde você estava no dia do tri mundial em 1970?

Onde você estava nos famosos comícios da Diretas Já!? E no dia do cortejo e sepultamento de Tancredo Neves?

E nas eliminações das Copas de 82 e 86? E no segundo turno da eleição Collor x Lula de 1989?

Onde você estava no Fora Collor em 1992? E no dia do massacre do Carandiru?

Onde você estava em 98, no dia da convulsão do Fenômeno, quando Zidane reinou?

E na morte do Ayrton Senna? E no Tetra?

Onde você estava no dia da queda das torres gêmeas em 2001? E no “mergulho” de Bin Laden? E no enforcamento de Sadan?

Onde você estava no dia da posse do operário que venceu o medo? Venceu?

Onde você estava em maio de 2006, nos dias dos crimes de maio, quando a PM sangrou o peito de mais de 400 mães, fato que a mídia chamou “Ataques do PCC”.

E em 2002, quando Ronaldo tocou o piano que Rivaldo carregou, onde você estava?

Junho de 2013, milhares e depois, milhões nas ruas. Onde você estava?

E na estréia do Brasil na Copa do Mundo no Brasil? E no mês da Copa no Brasil? E no dia da final, onde você estará?

Este será um dia, um mês, um ano a ser lembrado. E para sempre!

Sempre acreditei que nós trabalhadores, o povo oprimido, o povo negro devemos tomar as rédeas de nossa vida e construir nossa própria história. Para isso é necessário também construir nossa memória ou mais: decidir nossa memória!

Sei bem o que quero lembrar, que memória quero construir. Sei que história quero contar para meus filhos.

Eu, que como meu povo, amo o futebol, estarei entre os que protestam e lutam pelo óbvio: comer, dormir, vestir e morar com dignidade. Estarei entre os irresponsáveis que exigem ver tratadas essas demandas com a mesma importância e emergência com que está sendo realizada a Copa do Mundo no Brasil.

Por fim, estarei em luta porque, como cantou Raul, “Eu é que não me sento no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar…”

 

*Texto coletivo de mesa de bar na madrugada de 12 de Junho de 2014.

 

Douglas Belchior
Jorge Américo
Tomaz Amorim
Jessica Cerqueira
Clayton Belchior
Alif Belchior
Carlos Manauara
Vanessa Nascimento
Wellington Fernandes
Aline Guarizo
Markinho Ginga
Jaqueline Ramos

 

 

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PM prende mais de 50 em Ato Contra a Copa em São Paulo

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Foto: Mídia Ninja

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Por Tomaz Amorim

 

O quinto Ato Contra a Copa do Mundo em São Paulo terminou com a prisão de mais de 50 pessoas, entre eles menores de idade. Os manifestantes foram levados ao DEIC, órgão da Polícia Civil dedicado principalmente ao combate do crime organizado. Até o inicio da madrugada, a maior parte dos manifestantes havia sido liberada. A prisão coletiva e a tentativa de criminalização do movimento explicita uma vez mais a tática da Polícia Militar de fichar e intimidar indiscriminadamente manifestantes.

As prisões aconteceram por conta da ação de um pequeno grupo que, após o término do Ato, teria quebrado vidraças de duas agências bancárias na avenida Vital Brasil. A reação da Polícia Militar foi, então, desproporcional: eles se lançaram sobre todos os manifestantes, inclusive aqueles que já se aproximavam da estação Butantã do Metrô, rumo às suas casas. O pânico foi generalizado, tanto dos manifestantes que não entendiam o que aconteceu, quanto dos usuários do Metrô e do ônibus. Policiais invadiram a estação em busca de manifestantes e prenderam indiscriminadamente diversas pessoas que acabaram encurraladas entre as catracas e os seguranças. Foram presos e amarrados com braçadeiras de plástico jornalistas e manifestantes, dentro e fora da estação. Uma adolescente grávida desmaiou e não pôde ser atendida. Vídeos e fotos mostram jovens adolescentes sendo mantidas amarradas no chão e cercadas por policiais.

 

Sobre o Ato

O quinto Ato Contra a Copa do mundo aconteceu nesta terça (15) simultaneamente em São Paulo e no Rio de Janeiro. Assim como nos atos anteriores, a ação focou em um direito social fundamental: “Sem saúde pública de qualidade, não vai ter Copa”. O ato contou com mais de 5000 confirmados no Facebook e aproximadamente 1500 manifestantes presentes. Em São Paulo, a concentração foi no vão do MASP, sob frio e chuva que não assustou os manifestantes.

Não houve nenhum incidente entre a polícia e manifestantes durante o percurso do trajeto, já que desde o terceiro ato – quando a polícia prendeu coletivamente mais de 200 pessoas – os manifestantes se isolam, através de um cordão humano, do corpo de policiais.

Leia também: “O que significa gritar: Não vai ter copa?” 

 

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O que significa gritar: Não vai ter Copa?

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Por Tomaz Amorim Izabel | Twitter: @tommyamorim

 

Melhora social, Manifestações e Democracia

“Bem agora que o Brasil começa a melhorar um pouco, vem estes grupos com idéias estranhas criar confusão na rua. A gente não quer que as coisas vão por água abaixo”. Esta linha de pensamento, compreensível e legítima, está na boca de muitas mães, pais e jovens trabalhadores deste país. As imagens de protestos, editadas pelas grandes emissoras de televisão para confundir e assustar, cumprem bem sua tarefa e deixam a população confusa e assustada. A apreensão neste momento não é apenas sobre ser contra ou a favor da Copa, gritar que vai ou não vai ter, mas é sobre a estabilidade política do Brasil. Neste momento em que o Brasil parece se aproximar do sonho da classe média própria, estes protestos não colocariam tudo a perder?

Talvez seja possível responder a esta questão com uma pequena mudança de palavra. Não: “existem manifestações apesar da melhora social”, e sim: “existem manifestações porque há melhora social”. O protesto é efeito da melhora social. O miserável, aquele que se preocupa cotidianamente com alimentação e moradia, raramente tem tempo para compreender as agentes responsáveis por sua situação e disposição para se colocar contra eles. Quando há, no entanto, um pequeno respiro nesta situação dramática – como a recente microascenção social das classes miseráveis no Brasil, devido aos programas sociais do governo petista na última década -, surge a possibilidade de tomada de consciência e insurreição. O trabalhador que lutava pela subsistência passou a ter tempo para pensar.

A história do Brasil não traz muitos exemplos de vida democrática. Depois de quase quatro séculos de escravidão, passamos por ditaduras militares e regimes democráticos com pouca ou nenhuma representatividade popular. Não tivemos muitas oportunidades de aprender que manifestações, passeatas, protestos e gritos de ordem não são sinais de crise democrática, mas sintomas de maturidade democrática. O que é típico de regimes totalitários é a falta de manifestações, não o “excesso”. As manifestações revolucionárias são a exceção que busca justamente restabelecer a regra: a normalidade das manifestações em regimes legítimos. A manifestação é o diálogo da população com seus representantes. A manifestação é diálogo e disputa entre diferentes grupos e posições políticas dentro de uma sociedade. Estanho à vida democrática é não protestar, não demonstrar, não disputar publicamente opiniões em relação à vida coletiva da sociedade.

 

Do “Vai, Corinthians!” ao “Não vai ter Copa!”

Em uma das repetidas falhas na linha vermelha do Metro de São Paulo, usuários espontaneamente tomaram os trilhos e gritaram, entre outras palavras de protesto, “Não vai ter Copa!”. Em entrevista, uma das moradoras violentamente removidas da Favela da Telerj pela PM-RJ disse: “Eles preferem investir em estádios do que em moradia. Mas não vai ter Copa”. No Segundo Ato Contra a Copa do Mundo em São Paulo, após prisão coletiva, violenta e ilegal, da PM-SP, um jovem preso por braçadeira de plástico olhou firme para o policial que o prendeu e disse: “A partir de hoje, pode ter certeza, vou fazer de tudo para essa Copa não acontecer”. Como explicar que os gritos e mantras sociais afirmativos, usados a esmo em quase qualquer situação como “Vai, Corinthians!” ou “Salve a seleção!”, sejam trocados pelo grito negativo, usado nas mais diversas situações, de “Não vai ter Copa”? Como explicar que o grito radical, vindo das manifestações que se iniciaram em Junho do ano passado, ecoe agora na voz heterogênea daqueles que se sentem oprimidos pela ação do estado? E o que significa este grito, além da oposição óbvia ao financiamento público do megaevento privado? Além da Copa, ao que dizem “Não!” aqueles que gritam?

Para tentar entender estas questões, é importante considerar as manifestações contra a Copa como herdeiras diretas das manifestações de Junho. Apesar do caráter plural daqueles protestos, além de uma pequena direita golpista que via equivocadamente nas ruas a única oportunidade de derrotar a hegemonia partidária do PT, a quase totalidade das exigências se baseava na péssima qualidade ou simplesmente ausência de serviços públicos. O estopim paulisto-fluminense incendiou todos os lugares do país que reconheciam a discrepância entre preço pago e serviço público recebido. Dentro de alguns meses, a revolta indiscriminada geral se depurou em crítica ao que se julgou causa do problema: privatizações, concessões e parcerias público-privadas, em conjunto com a corrupção. Após governo e empresas cederem provisoriamente (ou apenas aparentemente), após a presidenta da República prometer soluções através de pactos, após a presidenta prometer em rede nacional que nenhum dinheiro público seria utilizado na construção de estádios e que o dinheiro emprestado seria completamente devolvido, as manifestações se acalmaram na maior parte do país, com inspiradora exceção do Rio de Janeiro.

Talvez a história do Brasil dê exemplos de sobra nos quais a população se esqueceu das pautas e das promessas. Dois mil e quatorze, ao que tudo indica, apresenta uma mudança ou pelo menos uma exceção neste histórico. Quando ficou claro que as ações governamentais (federais, estaduais e municipais) seriam apenas paliativas e não transformações estruturais e positivas nos serviços públicos do país, quando os preços das passagens voltaram a subir, quando a repressão policial voltou a ser a principal causadora de violência nas manifestações, as condições de Junho, e seu chamado às ruas, ressurgiram.

 

Posições políticas acerca da Copa

A oposição de direita ao governo federal fica indecisa em relação à Copa. Todos querem enriquecer, aparecer sob os holofotes, quem sabe, arranjar um parceiro gringo e finalmente escapar do país. Alguns já fizeram investimentos grandes e acreditam que farão o lucro de suas vidas: trinta dias de comércio para trinta anos de bonança. Não tem como dar errado. A menos, claro, que as manifestações tornem a situação insustentável a ponto de o evento ser cancelado ou de os turistas resolverem não vir. Diante desta possibilidade, o empresário direitista fica em dúvida: o lucro da Copa ou o efeito negativo sobre o governo do PT?

O governo, por sua vez, usa argumento semelhante àquele inicial: o país tem se desenvolvido e a desigualdade social diminuído. A Copa, agora, pode não ser a melhor das idéias (ou, pode ser uma “roubada, como disse o governador petista Tarso Genro), mas ela é apenas um mal necessário para a continuação do desenvolvimento nacional. Seu lucro não irá para a maior parte da população, em geral irá apenas para as grandes empreiteiras e empresas de turismo, mas é dinheiro que entra no país. Os protestos, neste sentido, sabotariam o momento positivo pelo qual o país passa, gerando instabilidade política e favorecendo setores conservadores da política.

A oposição de esquerda gostaria, portanto, de responder ao governo lembrando que este argumento já foi utilizado em campanhas eleitorais no Brasil especificamente contra o PT: no histórico debate entre Collor e Lula de 89, por exemplo, a tônica inteira de Collor era a de que Lula e o PT traziam idéias estranhas, comunistas, avessas ao povo brasileiro, que buscava ordem depois da redemocratização e da recém-conquistada Constituição de 88. Doze anos depois, José Serra utilizava a mesma retórica contra Lula: depois de superada a inflação, o Brasil entrava em uma fase de estabilidade e as estranhas idéias (que neste momento já se resumiam à resquício histórico, como deixou clara a Carta aos Brasileiros) de Lula e do Partido dos Trabalhadores poderiam colocar tudo a perder. O risco-Brasil que subia com medo da popularidade de Lula ganhou o nome de risco-Lula: o risco de que se o novo surgisse, tudo iria por água abaixo.

A parte progressista do petismo, hoje minoritária, deveria entender que eles também são responsáveis por esta tomada coletiva de consciência que parece se iniciar, que estas lutas são reflexo direto do que o petismo foi; e não satanizar as manifestações com a chantagem de que gritar “Não vai ter Copa” é o jogo da direita. O jogo da direita, não há dúvida, é o jogo da Copa, sua realização como lucros gigantescos e concentrados em alguns poucos, e a conta dividida para todos como sempre se fez no Brasil. Para parafrasear um ex-petista, o grito “Não vai ter Copa” é mais petista, no sentido histórico, do que o próprio governo do PT. Com isto não se diz que o petismo é solução, nem o velho, como ficou claro, e menos ainda o novo, apenas fica clara sua contradição em relação à Copa e às últimas manifestações.

 

Por que gritar “Não vai ter Copa”?

Ir para as ruas contra a Copa é denunciar a ausência de um instrumento de fiscalização e expressão popular e, ao mesmo tempo, criá-lo. Somos acostumados a ver as decisões da vida política através das telas. A participação política da população tem se resumido ao ritual bianual de eleição. Todas as decisões, a partir daí, são tomadas em salas fechadas entre vendedores e compradores. Ao tomar minimamente consciência da situação a população se vê diante de uma crise de representatividade: Cairo, Madri, Nova York, Atenas, Kiev, São Paulo, Rio de Janeiro e diversas outras cidades do mundo vêem-se confrontadas, de diferentes maneiras e com diferentes soluções, pela mesma questão: a minoria para a qual emprestamos nosso poder (“O poder emana do povo”, diz o primeiro artigo de nossa Constituição) não representa os interesses do coletivo, mas os seus próprios. Isto tem sido dito com diversos slogans e em diversas línguas. No Brasil, neste momento, isto é dito sob a reivindicação: Não vai ter Copa. Reivindicação, e não apenas “ameaça”, como querem entender alguns. Não se trata de uma minoria alucinada, descolada da realidade do povo, que se utilizará de todos os meios para impedir o torneio. A tarefa não é esta. Trata-se da continuação de um processo histórico amplo que envolve todos aqueles que não se sentem representados por este sistema político-econômico. Os símbolos mais evidentes desta luta são, neste momento, os operários mortos pela pressa irresponsável na construção dos estádios, os duzentos mil que serão removidos por obras da Copa e Olimpíadas, o ataque à soberania jurídica do país, os violentados pela polícia e pelo exército que higienizam à bala a imagem das cidades-sede. O grito de “Se não tiver direitos, não vai ter Copa” é na verdade uma resposta ao que tem sido a prática do estado: só vai ter Copa Padrão FIFA se não tiver direitos. Estes símbolos despojados, todos nós, remetem à si mesmos e à exploração do povo pelas elites políticas e econômicas, aqui e no resto do mundo. Deste ponto de vista, considerando a amplitude internacional do evento, o grau de corrupção e poder da empresa privada envolvida, a FIFA, e a conjuntura mundial de levante: a luta contra a Copa do Mundo é uma das mais importantes disputas políticas de  nosso momento histórico.

Os argumentos chantagistas de que os investimentos já foram feitos e que cancelar a Copa agora traria ainda mais prejuízo querem esconder com termos econômicos o que na verdade é questão política. Os lucros da Copa sempre foram planejados para todos: aqueles que tem uma empreiteira, uma rede de hotéis ou a própria FIFA. O estado brasileiro não lucra com a Copa. Os investimentos públicos que o governo diz voltar em empregos e através do já mítico turista da Copa poderiam ter sido investidos em diversas outra áreas, criando outros empregos que não desaparecerão depois de Junho ou trazendo turistas que não estão historicamente interessados em turismo sexual. O lucro eleitoral é o que interessa aos governos e o lucro econômico é o que interessa às empreiteiras, hotéis e FIFA. Ao povo brasileiro resta a conta para pagar. Mas mesmo se houvesse algum lucro para o estado, a questão neste momento não é de ganho econômico, mas político. Um jornal alemão, recentemente, escreveu um artigo agradecendo aos manifestantes brasileiros por serem pioneiros em se colocar contra a FIFA. O não acontecimento de uma Copa da FIFA por determinação da população organizada seria um ganho político (para evitar o termo “lucro”) incalculável, histórico e de impacto internacional, neste momento em que diversos povos questionam seus representantes. O único aspecto negativo deste acontecimento seria para as megacorporações como a FIFA, que chegam a países subdesenvolvidos e dobram as leis e interesses locais às suas normas de lucro. O “Não vai ter Copa” inclui, não apenas do ponto de vista dos patrocinadores, mas de um ponto de vista sistêmico, o “Não vai ter Coca”, “Não vai ter Itaú”, “Não vai ter Monsanto”, “Não vai ter Black Water”, “Não vai ter imperialismo”, “Não vai ter neocolonialismo”, no limite, “Não vai ter o que não for de interesse do povo”.

A festa legítima do povo brasileiro não é a Copa. Nossa paixão pelo futebol não é aquela dos estádios cada vez mais elitizados. Nossa paixão não é a da festa dos gringos, aquela para a qual somos aceitos apenas como garçons que circulam distribuindo taças de champanhe e que se retiram ao fim da festa para devorar os restos num canto da cozinha. A festa legítima do povo é aquela celebrada, por exemplo, com gritos de que a vontade popular foi mais forte e que não houve Copa (como com a Colômbia em 1986 ou a Suécia com os Jogos de Inverno de 2022), que a Democracia voltou (como em 1985), que a guerra terminou (antes e depois de John Lennon). Gritos que celebram o retorno do poder popular, principal palavra de ordem desde Junho, ao povo e a sujeição dos representantes a ele, e não aos interesses do 1% da Bovespa e de Wall Street. Diante da grandeza e importância desta tarefa, é quase irrelevante o fato de acontecer ou não uma Copa precária como essa que se desenha: o que importa neste raro momento de tomada coletiva de consciência é a tomada de posição e a construção, para aquelas lutas ainda maiores.

 

* Tomaz Amorim Izabel é professor e mestre em Teoria Literária pela Unicamp. Doutorando em Literatura pela USP.

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Uma história sobre Paulo César, o Tinga

De Douglas Belchior

Ainda sobre as manifestações racistas sofridas pelo jogador TINGA:

Paulo César, preto, filho de mãe trabalhadora empregada doméstica, moradores da Restinga, bairro pobre e mais populoso de Porto Alegre – RS. Ele poderia ter sido só mais uma vítima da violência policial ou  – se desse sorte, mais um trabalhador de serviços insalubres e mal remunerado, regra para os que se parecem com ele.

Mas o enorme talento nos pés o salvou. Mudou sua vida, até um determinado limite. Sua história é mais uma daquelas que parecem encomenda: fama e dinheiro não são capazes de resolver o problema do racismo no Brasil ou em qualquer outro lugar do mundo.

O relato emocionante dessa história foi feito pelo colega Daniel Cassol, do Blog Impedimento, direto de Porto Alegre.

Vale a pena conferir!

 

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Por Daniel Cassol, do BLOG Impedimento

A Restinga é um dos bairros mais populosos de Porto Alegre. O censo de 2010 indicava que sua população era de 51.560 moradores. Sua formação, a partir dos anos 60, tem a ver com a urbanização da cidade – e tem a ver também com exclusão social. Para abrir avenidas e solucionar os problemas de habitações insalubres, moradores das Vilas Theodora, Marítimos, Ilhota e Santa Luzia foram removidos para um novo bairro do extremo sul porto-alegrense, a 22 quilômetros da região central.

Foi na Restinga que dona Nadir criou seus quatro filhos com o salário de faxineira. Quando pegava o ônibus de manhã cedo, pensava: “Quando será que vou parar de trabalhar?” Numa tarde de 1997, seu filho Paulo César foi encontrá-la no serviço. Tinha 19 anos, estava acompanhado de uma equipe de televisão e vinha contar de seu primeiro salário como profissional: 2,5 mil reais.

Tinga já era uma revelação do time do Grêmio, aparecendo ao grande público com um golaço contra o Sport Recife. Diante do repórter Régis Rösing, chorou ao ver a mãe limpando chão.

– Já prometi pra ela que isso aí vai mudar, e vai mesmo, disse, deixando bem claro: “trabalhar não é vergonha pra ninguém”.

A vida da família mudou rapidamente, porque Tinga logo se tornaria um jogador importante para o Grêmio, ao ponto de sua torcida reproduzir, na arquibancada do Olímpico, o grito de guerra daEstado Maior da Restinga, uma das mais populares escolas de samba de Porto Alegre:

– Tinga, teu povo te ama!

Tinga mudou a condição de vida da família rapidamente, mas há outras coisas que demoram a mudar. Num jogo de 2001, Ronaldinho fez um gol pelo Grêmio e correu para abraçar Tinga no banco de reservas: “Esse gol é pra nós, que somos da vila”, disse, num episódio não registrado mas muito conhecido em Porto Alegre. Ser da vila e, principalmente, ter a pele bem escura, ainda representam um problema.

Carregando no nome o bairro onde nasceu e seu criou, Tinga é respeitado em todos os clubes por onde passou e é ídolo de vários deles. No Internacional, afirmar que foi bicampeão da Libertadores e autor do gol do título em 2006 é, na verdade, diminuir sua importância histórica na reconstrução do clube. Jogador de fibra, presente em todos os cantos do campo, pegador e goleador, Tinga foi um dos jogadores mais importantes do Inter no período entre 2005 e 2006. No Borussia, da Alemanha, a reverência e o respeito com que dirigentes, torcedores e companheiros se despediram em 2010 é a melhor prova da trajetória que construiu.

Tinga sempre foi um jogador sério, dentro e fora de campo. Um treinador do Internacional disse certa vez que Tinga puxava os companheiros pelo exemplo, dedicando-se nos treinos e nas partidas como se estivesse em início de carreira. No Cruzeiro, o técnico Marcelo de Oliveira afirmou que o jogador era referência para os mais jovens do grupo. Foi assim em todos os clubes.

Nada disso, porém, foi suficiente para mudar o preconceito, que nos estádios de futebol emerge na vazão dos sentimentos levianos que expomos quando em multidão. Tinga, que em 2005 já havia ouvido imitações de macaco quando pegava na bola no estádio Alfredo Jaconi, teve de ouvir a ofensa mais uma vez na noite desta quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014, no Estadio de Huancayo, no Peru.

Ao final do jogo entre Cruzeiro e Real Garcilaso, uma equipe de TV pediu que Tinga comentasse o episódio. Ele tomou ar, respirou o ar da Restinga, o cheiro do colo da mãe Nadir, os golaços que fez, os títulos que conquistou, o respeito que adquiriu no futebol, todas as entrevistas ponderadas e inteligentes que deu ao longo da carreira, e disse com a serenidade e a altivez dos grandes:

– Se pudesse não ganhar nada e ganhar esse título contra o preconceito, eu trocaria todos meus títulos por igualdade em todos os lugares, todas as áreas, todas as classes.

Não precisa nos dar mais nada em troca, Tinga. Teu exemplo é o suficiente.

Daniel Cassol

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A morte do trabalhador é o preço da Copa? Deus lhe pague.

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De Douglas Belchior

Muita tristeza e revolta. Esses foram os sentimentos dos setores organizados que questionam os gastos com a Copa do Mundo do Brasil, com relação ao acidente que vitimou trabalhadores no novo estádio do Corinthians.

A frieza e a pouca importância com que fora tratada as mortes e o sofrimento das famílias expõe uma vez mais o perverso valor que norteia as ações de empresários das megas construtoras, dos grandes clubes, da Fifa e do governo brasileiro: antes de tudo, negócios; negócios acima de tudo!

Militantes do Cursinho Comunitário da Uneafro-Brasil, Núcleo de José Bonifácio/Itaquera, sintetizaram em poucas palavras a revolta diante de tanta injustiça: 

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“Sentou pra descansar como se fosse um príncipe”

 

Por Uneafro-Brasil – Núcleo de José Bonifácio – Itaquera

Nós que passamos todo dia ao lado das obras do estádio Itaquerão, indo pro trabalho, pra escola, procurar emprego, pra cidade, seja de metrô, trem, buzão, não tem como ficarmos calados. 

A tragédia ocorrida dia 27/11 que resultou em mortos e feridos nos provoca a questionar muitas coisas. Outros trabalhadores já morreram em obras da Copa do Mundo em Brasília e Manaus.

Indignação! Nós não podemos olhar pra tudo isso e pensar que está tudo bem. Por isso, deixamos umas perguntas breves que FIFA, CBF, Comitê organizador, Odebrecht, Corinthians, toda essa máfia e seus patrocinadores NÃO querem responder:

1 – E se as mortes fossem de um engenheiro-chefe, representante da FIFA ou um turista?

2 – Qual indenização será paga para as famílias desses trabalhadores? Deveria ser no patamar do salário do engenheiro-chefe? Do Arquiteto? Diretores disso e daquilo? Já estão providenciando a pensão vitalícia ou vão ignorar?

3 – O mínimo que se exige é que as mortes nos estádios Mané Garrincha, Amazonas e Itaquerão não sejam esquecidas: Esse é o preço da Copa? Deus lhe pague. 

4 – Os nomes, sobrenomes, fotos, história dos trabalhadores mortos constarão nas placas de inauguração do estádio?

5 – Faz sentido continuar a obra Sem sequer apurar a responsabilidade criminal pelas mortes?

6 – Faz sentido dizer que “poderia ter sido pior”? O que seria pior do que as mortes dos operários? Cair a arquibancada e São Paulo não ter jogo da Copa?

7 – Onde estão as respostas às reivindicações dos movimentos sociais organizados que vêm denunciando inúmeras violações, remoções e crimes cometidos em nome da Copa do Mundo?

8 – As mulheres, os negros, os moradores das periferias e a juventude são os mais agredidos pela truculência dos governos, da FIFA e aliados. O descaso com estas mortes será o mesmo descaso que vemos na violência institucional contra esses grupos?

9 – E as famílias das diversas comunidades ameaçadas de remoção? Onde está o direito à moradia?

10 – Depois da Copa, como fica? Não é de hoje que a gente pergunta! Não é de hoje que a gente pergunta!

E Chico, como que se soubesse:

“Subiu a construção como se fosse sólido

Ergueu no patamar quatro paredes mágicas

Tijolo com tijolo num desenho lógico

Seus olhos embotados de cimento e tráfego

Sentou pra descansar como se fosse um príncipe

Pelo prazer de chorar e pelo ‘estamos aí’

Pela piada no bar e o futebol pra aplaudir

Um crime pra comentar e um samba pra distrair

Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir

Pela fumaça, desgraça, que a gente tem que tossir

Pelos andaimes, pingentes, que a gente tem que cair…

Deus lhe pague”