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Crônicas Mexistas

Memórias de minha velha mãe

Por Douglas Rodrigues Barros

II

Era hora da novela; sentadas e quietas. Um tapete ocupava grande parte do subchão da imensa sala, entre o vigamento do contrapiso e a terra cimentada. Era casa de coronel. A impressão viva de surpresa corava o rosto da meninada vestida em roupas de saco. Em frente, um tubo impunha imagem preta e branca de moça bonita. Atriz. Alva mais que a neve. 1964, ano simbólico para o país, mas no interior do Ceará nada se sabia de democracia, que dirá ditadura.

O coronel dizia-se ser bondoso; deixava a meninada assistir televisão. Naquela brandura patriarcal, porém, descascava-se o inesperado se alguma criança fosse vista querendo comida. “Damos a mão, esse povo quer logo o braço!”.

A meninada sentava uma do lado da outra e em fileira. Nos olhos da menina magrela e “cor de bosta” – como diziam – o brilho frente a grande novidade. No estômago, entretanto, o vazio frente a falta do almoço.

De pé vexadíssima, sentia brumar-se a vista, numa fumaça de vertigem. Mas, Lurdinha, a de olhos verdes, era bondosa e mais temente a Deus que o pai. O resto, uma cambadinha indistinta, sentadinha com os cabelos volumosos sendo puxados pelos cabrinhas. Adormentados nos últimos espaços, confundidos na sombra preguiçosa do fundo da sala.

Zumbia aos ouvidos da menina a palavra bonita e jocosa da tevê. A composição deste cenário era, contudo, alegre, inocente, vivo… Sim, devia ser isto; um movimento de formas infantis, roupas desgastadas, risos soltos, um turbilhão de imaginação, deslocados ao capricho de todas as fantasias, tocando-se, saltando a sarabanda da alegria. Essa coisa que é monopólio da irresponsabilidade séria da criança. Tudo isso a despeito da pobreza e da situação de miséria daquela meninada.

A fome, contudo ainda estava lá, no estomago da menina magrela – a que seria minha futura mãe – Lurdinha comia e enchia o copo de seu pai de cachaça para que dormisse logo. Quando esse começava a cochilar, por debaixo da mesa dava a menina magrela a comida que vinha de seu prato. Esta disfarçadamente enfiava a mão com arroz, farinha e feijão verde na boca. Saciava-se na bondade da amiga e depois lavava a mão “peguenta” de gordura.

A beleza, se há, é que a constância da bússola é uma, mas a criança a ignora. Assistir televisão na casa de Coronel Seu Antônio Jeremias era assim; matava-se a fome e a imaginação frente a tevê.

 

 

Imagem

Cleiton Custódio (Mexista)

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O valor democrático da morte

Por Douglas Rodrigues Barros

Sentado frente ao mar, abandono-me a reflexões que o ócio permite. Quantas mulheres de biquíni carregando suas filhas pela mão passaram antes nessa orla? Quantos vieram antes de mim e se sentaram, tal como estou, admirando as espumas provocadas pela onda? Todos passaram, também vou passar. O navio da humanidade tem, ao que se julga, um silêncio sempre vivo. Talvez, quem nos desvendasse a essência da vida nos entregaria a mais desagradável desilusão. Não é a vida como algo que nos é palpável que é bela, mas a vida como uma noção errônea que é sempre tão rica de sentido, tão profunda, tão maravilhosa e… tão rápida.

Numa sociedade que se move com a imposição do gozo, dificilmente a reflexão sobre a morte terá lugar. Numa sociabilidade na qual as lágrimas são sinônimo de fracassos, dificilmente a reflexão sobre as dores da alma, aquilo que nos distingue dos animais, terá lugar. E mesmo assim, quem dentre nós não perdeu algum ente querido? E quem dentre nós não vai morrer em breve? O escritor Camus denunciou-nos o sentimento do absurdo, aquele instante em que, ao perder o chão, observamos que nada tem sentido. Acrescentaria que, de fato, a perda do sentido é o fundamento de uma transformação do próprio eu. Sabemos, sempre é perigoso acreditar demais.

Entre as várias coisas que podem levar uma pessoa ao desespero figura o reconhecimento de que a morte é fim óbvio para todos. A superação disso, no entanto, está em reconhecer que a despeito de tudo o que importa é o caminho, nunca a chegada… o desencanto é primeiro sinal de maturidade. Porém, numa sociedade em que se valoriza a imaturidade pregada como zona de consumo, dificilmente esse olhar elevado poderá ser alcançado. Desencantar-se é necessário, isto não significa evadir-se, ser nostálgico ou melancólico. Por isso, gosto de Walter Benjamin, porque entendeu que a única forma de ultrapassar o estado de coisas do mundo mercadológico é compreendendo o vazio de seus limites. O vazio que o constitui ao nos constituir.

O valor democrático da morte coloca-nos a todos como um rebanho, indiferente e a despeito de critérios, cedo ou tarde, chegará nossa vez. O valor democrático de se ter isso em vista é a possibilidade de subverter nosso destino na busca de realização daquilo que realmente nos importa e naquilo que compreendemos ser digno de nós. Reconhecer os limites de nossa vida, de nossa carcaça que cedo ou tarde ficará exposta a terra ou ao fogo, é um passo imprescindível na superação daquilo que somos e dos limites a nós impostos. Refletir sobre a morte é perigoso porque além de demonstrar a falta de sentido da vida, demonstra também que podemos construir um outro sentido para essa mesma vida.

Desencantar-se ao refletir sobre a morte é reconhecer, por fim, que fora desse sentido que criamos o resto é silêncio…
E isso… é muito subversivo, é explosivo…

 

Imagem: Óleo sobre tela do Mexista João Pedro Dias

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Memórias de minha velha mãe

Por Douglas Rodrigues Barros

I[1]

Eram os seus dias de luta. Queria-os melhores! Começavam longos, barulhentos, mal servidos; sem dinheiro ou vaga em creche, entregava-me a vizinha, beijava-me. Com dois anos de idade não recordo esse drama, mas sei que as pessoas iam tão amontoadas no trem que se tinha dificuldades para mexer os cotovelos. O suor escorria por todas as frontes; primeiro dia de um trabalho. Sonhava com as possibilidades da parca diária.

Como uma cintilante estrela solitária cruzou o chão quente da cidade e se deparou com uma dessas casas funcionais de classe média. Então viu-se avançar sobre o quintal convidada por uma velha senhora, que parecia empantufar-se em roupas de gosto duvidoso. Seu rosto era mais plissado de rugas do que maracujá maduro, e das mangas da camisa ultrapassavam duas longas mãos cujas veias verdes sob a pele clara tornavam-se repulsivas.

Um pouco com timidez iniciou o trabalho sob olhares inquiridores da velha senhora. Com a vassoura varreu toda a casa e com um pano acabou com a poeira. A força de ter servido, dolorosamente como seus antepassados, apresentava por si só os humildes testemunhos de tantos sofrimentos suportados. Indiferente a isso, a velha senhora ia atrás passando o dedo nos móveis para conferir. Um ultraje e num relance lancinante exclamou: “Escuta aqui dona, vá para lá que eu não gosto de ninguém me enchendo o saco não!

Algo de uma rigidez inesperada realçou o rosto da velha. Se, nenhum sentimento amolecia aquele olhar pálido, a afronta de uma trabalhadora que não se calava causou espanto. Desabou no sofá como se fosse desfalecer e ficou sem graça. Mais tarde, porém, não engolindo o torrão da ofensa, a velha senhora foi certificar-se da lavagem do quintal e vendo que nada podia dizer, imperiosamente ordenou: “você precisa lavar a rua!”.

“Quer saber!”, retrucou de imediato, “pegue a mangueira e lave a senhora, porque não sou paga para lavar a rua!”.

“Eu não acredito que você está falando isso para mim!”

“Pois estou, vamos pegue a mangueira e lave a senhora!”

“Fora da minha casa!”

“Nem precisa pedir!”, – fez retirando imediatamente o avental.

“O que?”

“É isso mesmo, tome!” – lançou o avental na respeitável senhora que com ódio bradou:

“Só que você não sai daqui sem eu revistar a sua bolsa!”

“O que você está dizendo mulher? Olha só eu vou contar até três se você não sair da minha frente eu enfio a minha mão na sua cara!”. E como uma pantera avançou portão afora. A impotência da sensação penetrada por uma injustiça secular doía-lhe no peito (nada mudou) e, como grãos de areia numa ventania, turbilhonavam seus batimentos que espalhava o constrangimento sobre a sua alma. Ela abriu as narinas repetidas vezes, nervosamente, quando se lembrou que não tinha recebido a diária e nem tinha o dinheiro da passagem para voltar para casa. Revirou a bolsa, enxugou as mãos; depois, observou ao seu redor e constatou que teria que pedir dinheiro para o retorno…

 

[1] Doravante quinzenalmente.

Imagens do artista mexista Piruá

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Eu queria beber com Simone de Beauvoir

Por Douglas Rodrigues Barros

 

Também o céu às vezes é tomado de assalto. É bom lembrar para não desanimar. A frieza das pessoas nas ruas sujas e o calor fumegante das calçadas geralmente nos faz esquecer a vergonha de se tiranizar… e tiranizar. Todo mundo é gentil e educado até pegar o metrô das dezoito horas na Sé.

Antes disso, porém, estava numa biblioteca famosa longe de casa. Com direito a cafezinhos e ar condicionado, com gente educada até as tampas, terminava a leitura de A cerimônia do Adeus. Com desajeito saiu para fumar observando no visor do celular o horário de pico se aproximando como barco a vapor.

Sob o impacto da leitura refletia que por detrás de uma suposta moralidade à esquerda há sempre um sentimento católico recalcado principalmente no Brasil. Suspirou com o primeiro trago a sarça ardente das fumaças próximas ao Anhangabaú. Olhou para as novas meninas que passavam com cabelos esvoaçantes e lembrou-se de Beauvoir.

Que diria Beauvoir de sua acusação de binarismo? Que diria de suas leitoras tropicais? Ela que agora era acusada de rica e de não entender nada sobre as mulheres pretas e periféricas.

Justo ela que lutou na resistência contra os nazifascistas e escondeu revolucionários no seu sótão. Justo ela que não titubeou no enfrentamento contra De Gaulle e exortou Sartre a se posicionar radicalmente. Justo ele que apoiou a luta de independência dos Argelinos, viajou para conhecer a Revolução Cubana, escreveu sobre a Revolução Chinesa e tomou a benção da mãe de Santo com Jorge Amado na deliciosa Bahia. Justo ela que a despeito de todas essas coisas ainda encontrou tempo para escrever O segundo sexo. Justo ela…

Deu um segundo trago e pensou: traça-se à vida hoje limites muito estreitos ao se exigir que dela só se possa obter o trivial. Simone pensou muito além do trivial e muito além de supostas características herdadas por um modo de sociabilidade que inferioriza grupos para manter a ordem social. Sua leveza e “leviandade” imaginativa foram necessárias para mitigar sua índole desmesuradamente apaixonada pelo Outro. O Outro negativo que me forma e me traduz a impossibilidade de saber quem sou, porque nunca sou, estou sempre sendo.

Nessa conclusão tudo entregou ao assombro. Riu consigo mesmo, desejou beber com Simone de Beauvoir e repetiu: ainda não se nasce mulher, torna-se… ainda o ser humano é ser social. Ainda bem!

*Imagem: Óleo em tela de Cleiton Custódio Ferreira (Mexista)

 


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Pelo direito de não ser informado

 

Por Douglas Rodrigues Barros[1]

 

Fora da zona magnética em que somos cativados pelo mágico azul facebookiano, a vista descansa refletindo na calmaria de uma segunda-feira a tarde[2]. Vejo, na ponta do cigarro, a fumaça se perder no ar e dar voltas sobre si. Enquanto isso, a aranha silenciosa do tédio fia sua casa calmamente. Uma semana atrás, numa conversa, cheguei à seguinte conclusão: a própria política tornou-se facebookiana.

No Feed de notícias convergem os instintos sopitados de revolta e indignação. Uma cachoeira de espetáculos midiáticos numa praça virtual feita zona de guerra que colocaria Guy Debord em aflição. Cada um sabe mais que o outro. De repente, é como se todos soubessem de tudo. Sacrifica-se de golpe retórico o amigo, o vizinho e até o parente: um rasgo de falsa heroicidade.

Um general ameaça tomar o país com seu Zeppelin gigante. Tédio absoluto seguido de palmas entusiasmadas de uns tantos seguidores. Desço a barrinha. Lula não é mais Lula é agora uma ideia. Palmas e xingamentos. Reflito jocoso: confunde, no seu desejo, as sensualidades do poder. Ao primeiro encontro com o link, se vê que, afinal, a situação de crise é normal, tornou-se forma de governo. Tédio. Segue-se a rolagem da barrinha: um vídeo com um gatinho miando desperta a sensação de falsa ternura, centenas de curtidas.

Ao mesmo tempo, como os filósofos atribulados, busco consolação em outro canto da tela. Uma militante anuncia a necessidade do empoderamento coletivo, ao se empoderar um, empoderam-se todos. Entediado, chego à conclusão de que prefiro o existencialismo, pois apesar de ver na escolha de um, uma escolha que implica a humanidade, o existencialismo nunca teve ilusões com as formas de poder instituídas. Ai! Deus! Desperto meu lado anarquista – graças a Deus. Por pouco tempo.

Sinto-me amesquinhado com tanta notícia e tanta gente sabendo de tudo. Sinto-me amesquinhado sob o peso de tantas revelações sobre a humanidade, os países, os planetas, as últimas descobertas científicas, o perigo da guerra nuclear, as últimas doenças descobertas pelo hábito de tomar café, o homem nu e a criança. Outro trago. Saio do Facebook. O alivio alivia. Gozo criminosamente o sobressalto da descoberta: não preciso de tanta informação. Se tanta gente sabe de tudo e a coisa anda desse jeito, reservo-me o direito inabalável de permanecer na minha ignorância sobre o mundo virtual.

Nietzsche vivia falando algo como transvalorização de valores. Vai ver que hoje subverter valores, seja algo bem mais tranquilo do que foi na época do filósofo ermitão, talvez, consista simplesmente na prática contínua de não querer abrir o feed de notícias. Como disse uma personagem perdida em meus livros: É melhor viver cercados de grandiosas questões, que viver no meio de verdades medíocres. Realmente, é melhor as dúvidas do que as respostas de nosso Feed de Notícias.

 

[1] É escritor e doutorando em filosofia.

[2] Crônicas Mexistas.

 


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