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A arte popular e nossos mortos

por Lucas Gomes

 

Existe um estilo de música na Argentina que é em muitas coisas análoga ao funk carioca: a cumbia villera. O preto pobre periférico no Brasil não sabe o que o pobre periférico indígena escuta na Argentina, e vice-versa. Bem, na Argentina se escuta desde o fim dos anos 90′ a cumbia villera [cumbia favelera]. A cumbia é um estilo de música popular escutada em toda a América Latina, contando com algumas tradições próprias de países variados, como na Colômbia (mais tradicionalista) ou no Peru (que nos anos 80′ viu nascer a cumbia psicodélica). A cumbia popular argentina tem como um de seus principais ícones Gilda, cantora que morre no auge de sua carreira em um acidente de carro.

Mas a novidade surge a partir de uma banda que hoje é mítica, Damas Gratis, e seu cantor, Pablito Lescano. Se trata de uma cumbia de “baixo orçamento” que fala sobre mulheres (de forma misógina), sobre drogas (principalmente consumo) e sobre a polícia. Qualquer semelhança com o funk, temática ou cronológica, não é mera coincidência. Se alguém tiver interesse em conferir como soa esse estilo hoje em dia, também visualmente, pode conferir o clip da música “Yo uso Visera”eu uso boné.

 

*

 

Claudio Hugo Lepratti, também conhecido como “Pocho” [pronunciado como potcho] foi um militante social argentino assassinado aos 35 anos pela polícia da província de Santa Fe no dia 19 de dezembro de 2001. Foi uma das 36 pessoas mortas no Argentinazo, nos dias 19 e 20 de dezembro de 2001 que marcaram o auge da crise social e política que o país vinha vivendo. Suas principais causas foram o altíssimo desemprego e a crise da dívida soberana na qual culminou os anos do neoliberalismo argentino da década de 90′.

“Pocho” era um militante vinculado à teologia da libertação, atuou em organizações de bairro e também como ativista sindical enquanto trabalhador do estado. No ano de seu assassinato trabalhava como auxiliar de cozinha de uma escola situada em um bairro periférico da cidade de Rosario. Nos fatídicos dias do Argentinazo, como já se havia tornado comum pelo país nos anos anteriores, diversas porções da população empobrecida se dirigiam às principais cadeias de hipermercados para exigir comida. Ao ser-lhes negada, esta mesma população tomava a iniciativa de praticar saques a fim de remediar sua situação de miséria (busquem por fotos na internet e verão senhoras com bolsas e carrinhos de feira olhando para a polícia).

Entretanto, como a polícia existe para proteger o bom funcionamento do capital, estes atos eram reprimidos fervorosamente. Com esta desculpa, a polícia se aproximou da escola em que trabalhava Pocho dando tiros à esmo contra os moradores, o que incitou o militante a subir no telhado da escola e gritar a frase que seria sua lembrança póstuma: ¡Bajen las armas que acá sólo hay pibes comiendo! –  Abaixem as armas que aqui só tem crianças comendo! Foi assassinado com um tiro de escopeta. O policial que efetuou o disparo foi condenado a 14 anos de prisão, cumpriu 9 anos e hoje é militante do PRO, partido de Maurício Macri.

A música “El angel de la bicicleta” é uma homenagem do cantor León Gieco à Pocho, sendo a letra de sua autoria e a composição do pianista Luis Gurevich. O título faz referência ao apelido do militante, ganhado por usar muito a bicicleta como meio de transporte (e, obviamente, circular em um ambiente católico). León Gieco é um “cantaautor” famoso por engajar-se com causas sociais, é um dos herdeiros da “música de protesto” latinoamericana dos anos 60-70, Mercedes Sosa chegou a gravar algumas de suas composições. Para esta homenagem, no entanto, preferiu recorrer a um estilo que não costumava transitar, a cumbia.

A música de León Gieco, entretanto, é uma cumbia mais refinada e se sente isso principalmente na harmonia, com acordes inimagináveis em composições da cumbia villera original, e também um arranjo que não pertence ao estilo. Está lá sim o ritmo e os famosos solos de teclado com o timbre tão característico. Uma apropriação do artista para aproximar-se dos territórios que marcaram a trilha do militante Claudio Hugo Lepratti, brutalmente assassinado ao defender jovens estudantes. A letra é uma poesia dolorida, pois fala de um nós-lírico trágico, cindido: “nós deixamos isso acontecer. Por falta de poder para fazer que tudo seja diferente”.

Uma outra manifestação artística em homenagem à Pocho são os estênceis onde se vê uma bicicleta montada por uma pessoa com asas, imagem também presente em um monumento em sua memória na sua cidade natal, a pequena Concepción del Uruguay. Essa e uma figura de formiga, representando outro apelido seu, “Pochormiga” (Pocho-formiga) foram as formas que os artistas e ativistas encontraram de prolongar a memória deste militante assassinado pelas ruas dos bairros, como canta León Gieco em sua letra.

Abaixo compartilho uma tradução.

 

Trocamos olhos por céu

Suas palavras tão doces, tão claras

trocamos por trovões

 

Tiramos corpo, colocamos asas

e agora vemos uma bicicleta alada que viaja

Pelas esquinas do bairro, por ruas

Pelas paredes de banheiros e cárceres

Abaixem as armas

que aqui só tem crianças comendo!

 

Trocamos fé por lágrimas

Com qual livro se educou esta besta

com sanha e sem alma?

Deixamos ir um anjo

e fica esta merda

que mata sem se importar

De onde viemos, o que fazemos, o que pensamos?

Se somos trabalhadores, padres ou médicos?

Abaixem as armas

que aqui só tem crianças comendo!

 

Trocamos boas por más

e o anjo da bicicleta o fizemos de lata

Felicidade por pranto

Nem a vida nem a morte se rendem

com seus berços e suas cruzes

 

Vou cobrir tua luta mais que com flores

Vou cuidar de tua bondade mais que com plegárias

 

 

 

 

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Direitos Humanos Ditadura Militar

Desconfiai do mais trivial.

** POR LUARA COLPA
Pensávamos ter vencido a ditadura, ao menos os livros de história mencionam um período que tem início, hífen e fim. Mas ela está viva.

Ontem, dia 29 de novembro de 2016, o Brasil participou de mais um episódio do Golpe. Apenas mais um. Neste momento, abro um parênteses. Está difícil conversar entre nós, já não conseguimos ouvir e nos fazer ouvir, vou aproveitar que isso é um texto, para ver se conseguimos fazer com que eu chegue até o final sem ser interrompida. Tomara que sim!

Os últimos anos no Brasil não foram fáceis, há um esgotamento do dito governismo, um sectarismo da esquerda e sobretudo uma falta de alternativa contundente. Todo esse cenário, seguido do oportunismo de diversos grupos à direita, de interesses escusos na entrega do pré-sal, nióbio, minério de ferro, da facilidade de agendamento de informação feita pela mídia concessionária e a Justiça abruptamente parcial, nos leva a seguir com a lógica de um povo que não se reconhece pertencido às lutas que nos forjaram e, o pior, sendo feito de massa de manobra, afoitos por um “justiçamento” assustador.

Fonte/Reprodução: http://tudo-em-cima.blogspot.com.br/2015/08/a-historia-se-repete-como-farsa.html
Fonte/Reprodução: http://tudo-em-cima.blogspot.com.br/2015/08/a-historia-se-repete-como-farsa.html

Nós desconhecemos as muitas histórias de resistência do próprio povo brasileiro, e seguimos desconectados. Para além disso, a concessionária do Golpe conseguiu agendar em nossas mentes o ódio e a surdez. Não conseguimos nos fazer ouvir, mas conseguimos espalhar a hashtag do ódio (Quem aí assistiu Blackmirror?)

Todo santo dia a polícia está com a razão para avançar mais um pouco. Todo dia há uma brecha que nos faz tirarmos o foco desse avanço ilegal, a cada dia esticamos mais a violação de direitos humanos e nos perdermos olhando somente para nós e nossos “erros”. Não percebemos ali à frente o Golpe avançando a passos largos. Eu sinto muito por nós, mas não vou me debruçar a fazer autocritica dessa vez, não há o que apontar quando mais de 30 mil estudantes têm a sua integridade física colocada em cheque porque meia dúzia – sabe-se lá de onde vieram e quem os enviou para aquilo – viraram um carro ou atearam fogo em outro, em Brasília na data de ontem.

Ora, não acho que precisamos nos esforçar muito para pensarmos se uma situação dessas não era tudo o que a polícia precisava para dispersar os 29.994 outros manifestantes da forma mais absurda que vimos desde a Ditadura Militar (a “oficial”), com direito a mirar em secundaristas menores de idade pacíficos e desarmados e dispararem 8 tiros de bala de borracha e um gás lacrimogênio a cada 29 segundos, numa repressão que durou mais de 3 horas.


Agora precisamos falar da pior parte dessa estória: A gente desconhece o teor da manifestação. Alguém me aponte qual canal de TV aberta nos explicou o que é a PEC 55 (antiga 241).

 

Não foi explicado né? A gente não leu o inteiro teor disponibilizado no site do Senado, porque se tivéssemos entendido, seríamos mais pessoas na tarde de ontem, estaríamos conversando sobre o absurdo daquele texto, e nenhum de nós estaria falando sobre um carro virado sabe-se lá por quem, melhor: Não estaríamos nos culpando, culpando os manifestantes e os colocando como inimigos.

Não temos capacidade de eleger um inimigo, pois dormimos em berço esplêndido e quem nos nina tem nome: Rede Globo de televisão. Há mais de 50 anos servindo à seus escusos superiores. A mesma que apoiou a ditadura militar ontem, a mesma do caso “Proconsult” que tentou inviabilizar Leonel Brizola porque este queria a Legalidade. A mesma emissora que com sua narrativa nos embala novamente quando criminaliza o povo preto de periferia, quando antecipa o Processo Penal e os julga meliantes, traficantes… Justifica-se o Estado de Sítio no Complexo do Alemão e com essa informação agendada, tomamos nosso café da manhã. Globo.

A mesma que coloca em votação quem um enfermeiro deveria socorrer: “Bandido” ou policial.

A mesma que hoje pela manhã chamou manifestantes (estudantes e professores) de vândalos.

É na narrativa da TV que a nossa Ditadura está estruturada. Novamente a Mídia nos coloca entre “Democracia e Comunismo” – a Pedagogia do Medo. Como se de fato, estivéssemos próximos de algo muito aterrorizante (sequer conseguimos nos segurar enquanto democracia e direitos básicos).

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Reprodução Arquivo https://alemdarena.blogspot.com.br

 

A base dessa narrativa é a intolerância às manifestações, o atravessamento aos conceitos de justiça, de processo penal, e a habilidade de nos colocar uns contra os outros de forma “trivial”, habitual. Esterrecedor. Parecendo impossível de mudar.

Sem Presidente eleito, sem obediência à Tratados Internacionais aos quais somos signatários, com repressão policial exacerbada, Tribunal de Exceção e política de corte de gastos à educação, a dúvida é se o calendário aponta 64 ou 2016.

A manchete é a mesma:

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“Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.

E examinai, sobretudo, o que parece habitual.

Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,

pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada,

de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada,

nada deve parecer natural

nada deve parecer impossível de mudar.”

Bertolt Brecht

 

*Luara Colpa é brasileira, tem 29 anos. Colunista no BHAZ. É mulher em um país patriarcal e oligárquico. Feminista e militante por conseguinte. Estuda Direito do Trabalhador e o que sente, escreve.

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Ditadura Militar

Nota Pública: Pela punição dos torturadores da Ditadura Militar

Punição Ditadura

As organizações políticas se manifestam para expressar a importância do dia 10 de dezembro de 2014 que marca um esforço concentrado de 2 anos na luta por memória e verdade.

Autoridades, movimentos sociais e entidades de diretos humanos colaboraram nas investigações das violações cometidas pelo Estado brasileiro durante o período da ditadura militar.

Depois de observarmos o atraso ideológico de uma gente que sai às ruas pedindo intervenção militar, constatamos que vivemos em um período de polarização da luta social, e nos colocamos diametralmente opostos a estes sujeitos. Somos favoráveis ao aprofundamento radical da democracia em nosso país.

O relatório produzido pela Comissão Nacional da Verdade, assim como as recomendações ao Estado brasileiro, devem deflagrar um novo período de lutas aos movimentos sociais que atuam contra a impunidade com centralidade na luta pela Justiça.

Esse processo coloca em evidência a necessidade do Estado brasileiro, através da Presidência da República, executar a sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos que prevê a punição dos agentes de Estado responsáveis por crimes de tortura. Dessa forma, daria vazão à principal bandeira dos movimentos em luta pela justiça que é a superação da lei de anistia, possibilitando o fim da impunidade.

A dívida histórica do Estado brasileiro com a justiça ameaça a democracia sempre que o aparato repressivo atua com sua estrutura atrasada de uma polícia militarizada e com um método defasado que aterroriza a sociedade.

Existe uma relação intrínseca entre a impunidade dos torturadores, a violência policial e o sistema político vigente com o processo inacabado de democratização do país. A violência do Estado que perseguiu, torturou e matou centenas de militantes políticos é a mesma que hoje possui em sua estrutura os autos de resistência que é um dos instrumentos que tem justificado o extermínio da juventude pobre, em especial negra, nas periferias das grandes cidades.

O sistema político que sustentou a ditadura militar de 64 a 85 deu lugar a um modelo que bloqueia a participação social e não tem condições de operar as reformas necessárias para o país. Daí vem a necessidade de se fazer uma profunda reforma do sistema político que só acontecerá com pressão social por meio de uma Constituinte Exclusiva e Soberana.

A execução da sentença da CIDH é o próximo passo na luta pela justiça, que viabilizará a punição dos torturadores e o fim da impunidade que assombra nosso presente de lutas pela emancipação nacional.

 

Assinam esta nota:

 

– Artur Machado Scavone

– Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais – ABGLT

– Campanha “Por que o Senhor Atirou em mim?” – SP

– Celio Turino – historiador

– Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil – CTB

– Central Unica dos Trabalhadores – CUT

– Coletivo Arrua

– Coletivo Mudança

– Coletivo Nacional de Juventude Negra – ENEGRECER

– Coletivo O Estopim

– Coletivo Quilombo

– Conceição de Oliveira – Blogueira

– Consulta Popular

– Douglas Belchior – Liderança do Movimento Negro

– Esquerda Popular Socialista – EPS

– Federação Única dos Petroleiros – FUP

– Fora do Eixo

– Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação

– Heloisa Fernandes – Socióloga

– Intersindical – Central da Classe Trabalhadora

– Jean Tible – Professor USP

– Juliana Cardoso – vereadora SP

– Juventude do PT – JPT

– Laymert Garcia dos Santos – Professor Titular (aposentado) UNICAMP

– Levante Popular da Juventude

– Lincoln Secco – Professor do Departamento de História da USP

– Luiz Carlos Azenha – Jornalista e Blogueiro

– Marcha Mundial de Mulheres – MMM

– Midia Ninja

– Movimento dos Atingidos por Barragens – MAB

– Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST

– Nabil Bonduki – vereador SP

– Rede Ecumênica da Juventude – REJU

– Rodrigo Vianna – Jornalista e Blogueiro

– Sindicato Unificado dos Petroleiros de São Paulo

– Stella Senra – Professora Aposentada

– Uneafro-Brasil

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Ditadura Militar

O exército na Maré ou a vida de 130 mil seres humanos: o que deveria ser estratégico?

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De Douglas Belchior

O discurso amplamente divulgado para justificar a tomada do complexo da Maré pelas forças do Exército é o mesmo de sempre: combater o tráfico de drogas. Reforçado cotidianamente pela Rede Globo e por todas as demais grandes redes de comunicação, o ideário se transforma em mantra: acabar com tráfico de drogas e colocar na cadeia os malvados traficantes.

No entanto, qualquer cidadão minimamente informado sabe que não é bem isso. Ele pode até concordar que é preciso dar um fim na “biqueira” da esquina, mas sabe também que não é esse o motivo do esforço do governo. No fundo a população percebe que os fuzis e os blindados que hoje enfeitam a paisagem da Maré lá estão por conta da Copa do Mundo, para a garantia da tranquilidade dos turistas e do lucro dos investidores.

E a cada dia veremos reações. Fortes e belas reações, como nas palavras e no olhar de João Lima, direto da vida real.

 

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Maré Vive

De: João Lima/OcupaALEMÃO  (Fotos e Texto)

 

Na Maré, vivem cerca de 130 mil seres humanos. Ignorados até agora. Às vésperas da Copa da Fifa, o poder público do estado do Rio de Janeiro, com apoio federal, encontrou o pretexto que queria para “reaver” aquela área “estratégica”. É um momento decisivo. Não para os moradores, mas para o governo estadual.
O teatro do hasteamento da bandeira brasileira em favelas “pacificadas”, mais do que simbólico, é sintomático dos tempos atuais. Desde quando aquelas regiões deixaram de fazer parte do território nacional? Desde quando as pessoas que ali vivem não têm cidadania brasileira? Numa guerra, tal gesto representa a conquista do território inimigo.

“A ocupação da Maré é ‘estratégica’”. Fincada entre a Avenida Brasil e a Linha Vermelha, a região é o corredor de passagem dos turistas da Copa da Fifa. Por lá passará a Transcarioca. Lá, vivem cerca de 130 mil seres humanos. A vida deles deveria ser “estratégica”.

O que mudou desde a implementação das UPPs foi o fuzil ter trocado de mão. UPP não é política de segurança pública, é mera ocupação territorial. Pior, é a militarização da vida na favela. Pior, é a criminalização do morador de favela. No Leblon, nenhum policial entra numa casa sem mandado judicial.

A maré foi invadida. Não houve granada nem tiro de metralhadora. Mas a pior das violências é a simbólica. Não mata gente, mas mina as esperanças de uma geração inteira. O riso pode até enganar, mas a criança que vê um soldado armado até os dentes no mesmo beco em que costuma brincar, carregará essa imagem pelo resto da vida. Não está na tela, não é o galã da novela. É real. Cruelmente real.

 

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Ditadura Militar

Dilma e Cabral impõem ditadura militar na Maré

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Por Douglas Belchior

“Senti uma respiração forte e ofegante com um hálito quente em meu rosto.
Meio sonolenta, abro os olhos e me deparo com um cão e homens de preto a minha volta.
Susto, medo e revolta.
Meu quarto tomado por desconhecidos da lei e perguntas que não sei responder.
Todos os dias eles vem na minha casa.
Já não durmo de camisola, porque essa visita pela manhã
virou rotina e tenho que estar preparada para recebê-los.
Hoje já entraram duas vezes. Minha casa virou o Batalhão da Polícia Militar”

Relato de moradora da Maré – RJ, via MARÉ VIVE

 

Os valores e a defesa dos Direitos Humanos foram extensivamente lembrados nas últimas semanas em todo país, em função do aniversário de 50 anos do último golpe civil-militar. Aliás, a opção pela democracia – por mais incompleta que seja – quando na comparação a uma ditadura, parece ter alcançado o difícil status de consenso entre as mais diversas forças políticas do país. No entanto, cá entre nós, as cenas de soldados do exército empunhando armamento pesado ou montados em blindados – tão comemoradas pela grande mídia, não são de 1964!

Com a tomada do Complexo da Maré pelo exército brasileiro nesse sábado (05/04), o Governo Federal demonstrou mais uma vez o seu apoio às elites racistas na sua volúpia assassina. O exército nas ruas reforça a prática já criminosa das polícias militares e civis, que criminalizam a pobreza e apontam suas armas de guerra para territórios periféricos, morada de uma população pobre e negra, exatamente aquela que o Governo e o PT diz historicamente representar.

A atuação dos Ministros Celso Amorim, Zé Eduardo Cardoso e da Presidenta Dilma com relação a questão da segurança pública no Rio de Janeiro, é uma vergonha para todos aqueles que guardam um mínimo de coerência entre a postura necessária diante da realidade e a defesa real dos Direitos Humanos.

Cabral, Paes, Aécio, Alckmin, Tarso, Jaques, Campos, Sarney, todos eles chefes de grandes contingentes militares cujas práticas genocidas contra pobres e negros são conhecidas, agora alcançam o endosso do governo federal não apenas no discurso ou no apoio político, mas também na prática do exército.

Há diferenças entre eles para além da cor do broche ou da foto no “santinho”? Se há, com certeza as diferenças não estão na esfera da política de segurança pública.

E o que dizer de um governo que não só coloca o exército nas ruas, mas o faz para explicitamente oprimir pretos e pobres sob a ultrapassada justificativa do combate ao tráfico de drogas?

Com a palavra, moradores e movimentos sociais que vivem na pele a imposição de uma ditadura que teima se reinventar, sob todas as cores, credos, governos e partidos.

 

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Nota pública acerca da resistência popular contra a ditadura militar na Maré 

 

As grandes mídias executaram nos últimos dias suas rotinas promocionais e divulgaram o suposto grande sucesso da invasão militar para “pacificar” a Maré. O governador Cabral veio a público constar: “Hoje foi, sem dúvida, um dia histórico.” e o secretário de segurança pública Beltrame afirmou: “Mais uma vez, fomos muito bem. Vamos entregar o terreno a quem merece e é dono, que é a população. Tudo correu tranquilamente. Para nós não foi surpresa, por que todas as ocupações têm sido assim.”

Contrariam radicalmente este espetáculo midiático recorrentes relatos sobre violações e abusos pelo lado dos policiais durante a invasão. Policiais entrando nas casas sem mandado; com “toca ninja” ameaçando moradores de morte; depredando bens e roubando eletrodomésticos sem nota fiscal; tratando moradores com violência verbal e apontando armas de fuzil para os seus rostos; constrangendo e agredindo crianças como no caso de policiais mandarem-nas deitar e em seguida pisarem em suas cabeças; prisão coletiva de menores que protestaram por causa de morte de um adolescente, que foram levadas à delegacia em caminhão da Polícia Militar; constrangimento e prisão de idosos; invasão de casa com moradora que estava sozinha e diante da presença ameaçadora da polícia se viu forçada de correr para a rua vestida apenas com roupa íntima.

A grande imprensa divulgou imagens de moradores presos acusando-os de serem traficantes que em seguida foram liberados por não terem nenhum envolvimento e serem inocentes (sem que houvesse uma retratação). Nos casos de mortos e feridos, tem sido difícil apurar ao certo, pois há dificuldade de checar informações, mas temos a confirmação de um jovem de 15 anos morto sem divulgação da causa de sua morte, um jovem de 18 anos baleado e que veio a falecer, e de mais dois adolescentes baleados.

Nós, moradores que estamos envolvidos com a luta pelos direitos humanos fundamentais dos cidadãos que vivem em favelas, estamos colocando esforços para denunciar estes muitos casos de abuso que estão acontecendo com nossos familiares e vizinhos. A presença de diversos grupos de defensores de direitos humanos no domingo, coletivos de advogados, a Comissão de Direitos Humanos da OAB, o NIAC (UFRJ), o Coletivo Tempo de Resistência, a Comissão de Direitos Humanos da ALERJ, foi uma contribuição importante para a luta e resistência dos moradores. Não apenas por atuar em campo fiscalizando o trabalho da polícia e registrando ocorrência de abusos, mas também para testemunhar as dificuldades que a organização popular sofre diante da opressão militar, que não se inibiu em manifestar intimidação contra nós nem diante da presença dos advogados.

Nós, que estamos articulados em organizações populares e empenhados a lutar contra o Estado opressor, estamos sofrendo perseguição e intimidação. Entre outros, uma blazer branca com dois policiais seguiu e filmou de forma intimidadora a Comissão de Direitos Humanos da OAB que estava fiscalizando a atuação ilegal da polícia, e um helicóptero ficou dando várias voltas onde estavam os membros da Comissão. Entendemos que essa opressão é para coibir nossa atuação de resistência e impedir que façamos mobilizações e denúncia dos casos de abuso e violência praticados pela polícia.

Esta invasão foi tão pouco tranquila como as outras invasões em favelas do Rio de Janeiro. Sabemos que este é só o começo de toda uma onda de opressão através da política de extermínio e militarização nas favelas. É imperativo o fortalecimento da resistência. Moradores de favelas, movimentos sociais, defensores de direitos humanos e todas e todos que lutam por uma sociedade justa e igualitária, juntem-se a luta de resistência na Maré e em todas as favelas! Os opressores não calarão as nossas vozes.

Favela resiste. Viva favela!

 

Assinam esta nota:

Advogados Ativistas (SP)

Coletivo de Educação Popular

Central de Movimentos Populares

Centro de Assessoria Jurídica Popular Mariana Criola

Centro de Etnoconhecimento Socioambiental Cayuré – CESAC (Nova Maraká, Complexo do Alemão)

Cidadela – Arte, Cultura e Cidadania

Cineclube Beco do Rato

Cineclube Glauber Rocha

Cineclube Mate Com Angu

Círculo Palmarino

Coletivo Tempo de Resistência

Coletivo Laboratório de Direitos Humanos de Manguinhos

Comissão de Direitos Humanos da OAB

Fórum Popular de Apoio Mútuo

Federação Anarquista do Rio de Janeiro

Instituto de Defensores de Direitos Humanos – DDH

Justiça Global

Marcha Mundial das Mulheres

Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas – MLB

Movimento de Mulheres Olga Benário

Movimento de Organização de Base

Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra

Movimento Nacional de Luta pela Moradia – MNLM/Brasil

Núcleo de Assessoria Jurídica Popular Luiza Nahin

Núcleo Interdisciplinar de Ações para a Cidadania – Niac/UFRJ

Ocupa Alemão

Ocupa Lapa

Organização Anarquista Terra e Liberdade

Organização Popular

Quilombo Xis Ação Cultural Comunitária

Reaja ou Sera Morto, Reaja ou Sera Morta

Rede de Comunidades e Movimentos contra Violência

Rede Nacional de Advogados Populares – Renap-RJ

Resistência da Aldeia Maracanã

Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro

Sindicato dos Servidores do Colégio Pedro II – Sindiscop

 

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