Categorias
Cultura Escrita da história

Taís Araújo e Lázaro Ramos estreiam “O topo da montanha” no Rio de Janeiro

Foto Juliana Hilal

Diferente, revelador e profético

Peça estréia neste dia 20/01, sexta-feira, às 20h e ficará em cartaz até 19/02, às sextas e sábados às 19h e domingos às 18h, no Teatro Sesc Ginástico – Av. Graça Aranha, 187, Centro do Rio

Por Douglas Belchior

O espetáculo O Topo da Montanha, adaptação do texto de Katori Hall, dirigida por Lázaro Ramos, produzida e protagonizada por ele e Taís Araújo, faz sua estréia na cidade do Rio de Janeiro neste próximo dia 20 de Janeiro, feriado de aniversario da cidade, no Teatro do Sesc.

Como águas turbulentas ante a calmaria de um riacho; como um debate entre a sagaz sede de justiça e a paciência histórica, própria dos grandes sábios, assim é o encontro entre o imponente líder Martin Luther King e a humilde camareira Camae, num texto incrível e surpreendente, brilhantemente interpretado pelo casal mais emblemático do empoderamento negro atual.

Você é negra? Você é negro? Então deve assistir!

Sim, brancos de boa de vontade devem assistir também. Mas é certo que para negras e negros que lotaram as apresentações em São Paulo, Paraná, Minas Gerais e Bahia, o significado de estar ali em comunidade e experimentar este texto e esta interpretação é algo diferente, revelador e profético. Uma experiência magistralmente descrita pela jornalista e militante do movimento negro Ana Flávia Magalhães Pinto, em suas Notas a partir do lugar de público negro, já publicado por este Blog e que recupero abaixo. Vale a pena ler. Vale a pena assistir.

Depois nos diga se aceita o bastão.

 

Foto Juliana Hilal

Notas a partir do lugar de público negro

Por Ana Flávia Magalhães Pinto*

 

Longe de ser uma crítica de arte, escrevo a partir tão somente do lugar de público. Mas não apenas público, substantivo carente de materialidade. Falo como integrante do público negro, um conjunto de espectadores/as comumente subestimado ou até muito sonhado, porém tido como distanciado das salas de teatro, cinema, galerias, etc., por razões que dialogam com as violentas e sofisticadas práticas de exclusão sociorracial.

Faço isso porque acredito sinceramente que, afora autoras/es, obras e críticos/as especializados/as, o público é também fundamental para que a arte exista. E nós, público negro, não só existimos, mas também, tal como aconteceu na noite do último sábado (10), podemos nos fazer presentes em quantidade e qualidade!

Estou me referindo à experiência de assistir à peça O Topo da Montanha, uma adaptação do texto de Katori Hall, dirigida por Lázaro Ramos, produzida e protagonizada por ele e Taís Araújo, que estreou no Teatro Faap, São Paulo.

Eu e um casal de amigos nos dirigimos a essa casa localizada no elegante bairro de Higienópolis bem achando que seríamos a famigerada limitada cota negra entre uma maioria de espectadores brancos. Diferentemente do previsto e como chegamos cedo, pudemos nos deliciar ao ver a entrada de seguidos pequenos grupos de amigos, famílias, casais e homens e mulheres solitárias de pele escura, cabelo crespo e com umas caras de contentamento indisfarçável! As pessoas estavam gostando de se ver ocupando aquele lugar!

De todo modo, é preciso dizer que essa não foi a primeira vez que vi isso acontecer. Na verdade, observo esse fenômeno se repetir cada vez com mais frequência e intensidade nos últimos anos. Considero que eu mesma sou prova disso. Ouso até especular se a incorporação das cotas raciais ao debate público já não está servindo para catalisar a expansão dos limites da participação negra em outros espaços… É, pode ser, mas isso é assunto para outro texto.

Por ora, é melhor continuar no Topo da Montanha. Aliás, a escolha desse texto é, por si, um grande presente, sobretudo para nós, público negro. Em tempos de marchas em defesa da vida da população negra no Brasil , o que inclui aproximações e conflitos de natureza variada , recuperar a trajetória de Martin Luther King a partir do registro de múltiplas dimensões da vida humana serve como uma boa oportunidade para se refletir como temos encaminhado nossas práticas de resistência ao que nos oprime. O reconhecimento da confluência entre medo e esperança, egoísmo e altruísmo, vaidade e humildade num sujeito emblemático como King é, de fato, uma das várias qualidades da escrita de Katori Hall.

Natural de Memphis, Tennessee, ela é uma jovem escritora negra, de 34 anos, formada em instituições de renome como Columbia e Harvard, tendo sido a primeira mulher negra a receber o prêmio Laurence Olivier de melhor peça estreante, em março de 2010, por The Mountaintop, título original em inglês. Para além dos títulos acadêmicos e prêmios, vale mesmo a pena acompanhar a trajetória de Katori por sua capacidade criativa. Atualmente, ela está trabalhando em seu primeiro filme de curta metragem, Arkabutla, que fala sobre relações familiares e racismo.

Outras escolhas feitas para o espetáculo também nos convidam a reconhecer e destacar mais um punhado de talentos negros do teatro. A consultoria dramática e cênica é assinada por Ângelo Flávio. Ator, dramaturgo e diretor, ele é um dos expoentes do teatro negro brasileiro, fundador da Cia Teatral Abdias Nascimento (CAN) na UFBA, em 2002, e responsável, entre outras, pela montagem da peça A casa dos espectros (2006), a partir da obra Funnyhouse of a Negro (1964), de Adrienne Kennedy, outra escritora afro-estadunidense.

O figurino é de Tereza Nabuco, artista que há anos atua em produções da Rede Globo. O desenho de luz, recurso fundamental para a garantia da dramaticidade do espetáculo, está sob os cuidados do experiente iluminador cênico Valmyr Ferreira. Afora diversos trabalhos no teatro, Ferreira assinou a iluminação da exposição “Abdias Nascimentos 90 anos Memória Viva”, no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, 2004.Por sua vez, o cantor, ator, pianista, compositor e arranjador Wladimir Pinheiro assina a Trilha Original. Até bem recentemente, Wladimir esteve em cartaz com a peça Ataulfo Alves – O Bom Crioulo, dirigida por Luiz Antonio Pilar, no Teatro Dulcina do Rio. Bem que essa também poderia circular por outras cidades.

Somado a tudo isso, a interpretação da dupla Taís Araújo e Lázaro Ramos é capaz de emocionar ainda mais. Além de sustentarem muito bem o dinamismo das falas e do encaminhamento dado ao toque de inusitado fantástico da narrativa (tem que ir para entender!), os atores são capazes de garantir muito sentido até para os momentos de silêncio.

A performance de Taís, em especial, está digna de todos os aplausos de pé ao final. Vendo a maturidade de sua interpretação, foi impossível não lembrar do discurso de Viola Davis ao receber o Emmy 2015 de Melhor Atriz: “A única coisa que separa mulheres de cor de qualquer outra pessoa é oportunidade. Você não pode vencer o Emmy por papeis que não existem”. E mais uma vez livre de sabotagens, Taís Araújo se mostra uma gigante no palco. A atuação de Lázaro Ramos não deixa por menos. O brinde extra é perceber que o homem está jogando tão bem em tantas áreas!

Apagam-se as luzes, vem aquela sensação de quero mais! E, assim, ir ao teatro firma-se como algo que faz muito sentido para a vida, mesmo que isso implique reorganizar as finanças da semana ou do mês! É isso, o teatro também é nosso lugar, público negro!

 

* Ana Flávia é Doutora e mestre em História, jornalista, ativista do Movimento Negro, autora do livro “Imprensa negra no Brasil do século XIX” (Selo Negro, 2010)

 

SERVIÇO

O TOPO DA MONTANHA

Estreia: 20/01/2017 (sexta-feira), às 20h
Temporada: 21/1/2017 a 19/02/2017, sextas e sábados às 19h e domingos às 18h
Teatro Sesc Ginástico (513 lugares): Av. Graça Aranha, 187, Centro. Tel.: (21) 2279-4027
Ingressos: R$6 (Associados Sesc), R$ 12 (para jovens até 21 anos, estudantes e maiores de 60 anos) e R$ 25 (inteira)
Bilheteria: de terça-feira a domingo, das 13h às 20h
Aceita cartões de débito e crédito
Os ingressos serão gratuitos para o público inscrito no PCG – Programa de Comprometimento e Gratuidade
Classificação: 12 anos
Gênero: Comédia Dramática
Duração: 90 minutos

Promoções:
– AVIANCA: 30% de desconto sobre a inteira para clientes e funcionários devidamente identificados + um acompanhante.
Descontos não cumulativos

FICHA TÉCNICA

Texto de Katori Hall
Direção de Lázaro Ramos
Codireção de Fernando Philbert
Tradução de Silvio Albuquerque
Consultoria Dramatúrgica de Angelo Flávio
Assistência de direção Thiago Gomes.
Com Lázaro Ramos e Taís Araújo
Voz Inicial da Mãe de Martin Luther king de Léa Garcia
Preparação vocal de Edi Montecchi
Cenografia de André Cortez
Assistência de Cenografia de Carmem Guerra
Construção Cenário de Ono Zone Estúdio/ Fernando Bretas e Waldir Rosseti
Iluminação de Walmyr Ferreira
Assistência de Iluminação de Marcos Freire
Figurinos de Teresa Nabuco
Trilha sonora de Wladimir Pinheiro
Desenho de Som de Laércio Salles
Projeções de Rico Vilarouca e Renato Vilarouca
Fotos de estúdio de Jorge Bispo
Fotos de cena de Valmyr Ferreira e Juliana Hilal
Projeto gráfico da Dorotéia Design, Adriana Campos e Tamy Ponczyk
Revisão de Regina Stocklen
Serviços de camareira de Solange Carneiro
Contraregragem de Fabiano Motomoto
Operação de luz de Kadu Moratori
Operação de som e projeção de Fernando Castro
Serviços técnicos de projeção de Bruno Mattos
Supervisão técnica de projeção de Alexandre Bastos – Novamídia
Assistência técnica e de produção de Igor Dib
Assistência de administração de Jandy Vieira
Administração Lei Rouanet de Thiago Oliveira
Produção executiva e administração de Viviane Procópio
Administração geral de André Mello
Direção de produção de Radamés Bruno
Produção da BR Produtora
Produtores associados André Mello, Lázaro Ramos e Taís Araújo
Transportadora Oficial: Avianca

Categorias
Destaque Escrita da história

Jesus nasceu na África e era negro

timthumb

De Douglas Belchior

O texto que replico aqui foi compartilhado ainda em 2012, pelo amigo Jonathan Marcelino, e é de autoria de Hernani Francisco da Silva, originalmente publicado pelo Afrokut.

Quando li, me lembrei imediatamente de uma passagem do filme “Ali”, sobre a vida de Mohammad Ali, em discussão com o pai, disse que não ganharia a vida pintando por aí um “Jesus louro de olhos azuis”.

Jesus menino e sua são de origem africana, se esconderam entre os negros por se confundir com eles… e para quem acredita, aí estão as fontes bíblicas.

jesus_negro

 

Por Hernani Francisco da Silva – Afrokut, via Jonathan Marcelino

 

Jesus nasceu na África. Os Evangelhos dizem de maneira explícita que Jesus nasceu em “Belém de Judá, no tempo do rei Herodes” (Mt 2,1 cfr. 2, 5.6.8.16), (Lc 2, 4.15), (Jo 7, 40-43).

Nos tempos antigos, incluindo o tempo de Jesus, Belém de Judá era considerado parte de África. Até a construção do Canal de Suez, Israel fazia parte da África. Esta visão haveria de perdurar até 1859, quando o engenheiro francês Ferdinand de Lesseps pôs-se a construir o Canal de Suez. A partir daí, foi a África separada não somente geográfica, mas sobretudo histórica, cultural e antropologicamente do que hoje chamamos Oriente Médio. Aquela milenar extensão da África passa a figurar nos mapas como se fora Ásia.

Jesus, homem com pés da cor de bronze queimado, com pele da cor de jaspe e sardônio e com cabelos feito lã de cordeiro

Jesus tinha presença negra na linhagem familiar. A genealogia de Jesus foi misturada com a linha de Cam desde os tempos cuanto cuesta el viagra passados em cativeiro no Egito e na Babilônia. Nos antepassados de Jesus através de Cam, lado feminino desta mistura, há cinco mulheres mencionadas na genealogia de Jesus Cristo ( Tamar, Raabe, Rute, Bateseba e Maria) (Mateus 1:1-16). As primeiras senhoras mencionadas eram de descendência de Cam. Assim, Jesus pode ser aclamado etnicamente pelos povos semitas e descendentes de Cam.

Jesus era da tribo de Judá, uma das tribos Africanas de Israel. Ancestrais masculinos de Jesus vêm da linha de Sem (miscigenados). No entanto, a genealogia de Jesus foi misturada com a linha de Cam desde os tempos passados em cativeiro no Egito e na Babilônia. O antepassado de Jesus através de Cam é narrado em Gênesis 38: então Tamar, a mulher Cananéia (Negra) fica grávida de Judá, e dá à luz aos gêmeos Zerá e Perez, formando a Tribo de Judá, antepassados do rei Davi e de José e Maria, os pais terreno de Jesus.

Se Jesus fosse branco, loiro de olhos azuis, teria sido difícil para ele e sua família se esconder entre os egípcios negros sem ser notado.

Jesus se escondeu entre os Negros. Não foi por acaso que Deus enviou a Maria e José para o Egito com o propósito de esconder o menino Jesus do rei Herodes (Mateus 2:13). Ele não poderia ter sido escondidos no norte da África se fosse um menino branco. Não por proteção militar já que nessa época o Egito era uma província romana sob o controle romano, mas porque o Egito ainda era um país habitado por pessoas negras. Assim, José, Maria e Jesus teriam sido apenas mais uma família negra entre os negros, que tinham fugido para o Egito com a finalidade de esconder Jesus de Herodes, que estava tentando matar o menino. Se Jesus fosse branco, loiro de olhos azuis, teria sido difícil para ele e sua família se esconder entre os egípcios negros sem ser notado. O povo hebreu era muito parecido com o povo egípcio, caso contrário teria sido difícil reconhecer uma família hebraica entre os egípcios Negros.

Foi no Egito que o povo de Israel teve seu auge da negritude. Setenta israelitas entraram no Egito e lá ficaram durante 430 anos, trinta anos os israelitas foram hóspedes, e 400 anos cativos no Egito, eles e seus descendentes se casaram com não-israelitas, chegando a mais de 600.000 homens, mulheres e crianças. Saíram do Egito uma multidão misturada. Etnicamente, os seus antepassados eram uma combinação de afro-asiáticos.

Jesus era semelhante pedra de jaspe e de sardônio. Em apocalipse a Bíblia continua mostrando a negritude de Jesus. Ele é chamado o Cordeiro de Deus segundo as Escritura Sagrada, com seu cabelo lanoso, sendo comparado a lã de cordeiro, e os pés com a cor de bronze queimado (Apocalipse 1:15), com uma aparência semelhante pedra de jaspe e de sardônio (Apocalipse 4:3), que são geralmente pedras amarronzadas. As cores de jaspe e sardônio não são únicas e absolutas, são diversas cores.

 

 

 

Categorias
Escrita da história

Por que os estadunidenses negros amam Fidel Castro?

154029031
Fidel Castro realiza uma conferência de imprensa no Hotel Theresa, no Harlem, em 1960, nos EUA

 

Quando veio a Nova York em 1960 para a reunião das Nações Unidas, Castro se irritou com a gerência do hotel em que ele estava se hospedando, o Shelburne, arrumou suas malas e levou sua comitiva para o Hotel Theresa no Harlem, onde ele celebremente apareceu na janela e acenou para os moradores negros da comunidade. Milhares de moradores do Harlem gritaram seu nome em uma conexão com o poder com o qual eles estavam totalmente desacostumados.

 

Por Ronald Howell, em Dezembro em 2014

Tradução: Tomaz Amorim Izabel, para este Blog.

 

Quando se trata de comparar palavras com feitos no tema da igualdade racial, o líder mais fiel do hemisfério ocidental, durante o século XX, foi Fidel Castro.

Eu digo isso como um estadunidense negro que se conectou com muita proximidade à América Latina quando adulto, vivendo no México por quase dois anos, trabalhando e ficando com famílias na República Dominicana e fazendo mais do que meia dúzia de visitas a Cuba, onde eu vaguei por suas cidades encantadoras e dirigi até os limites mais distantes do interior, forjando relações com seu povo, especialmente aqueles de matiz mais escura.

Nós estamos sentindo agora o calor deste assunto incandescente, o homem que abrigou estadunidenses negros em sua ilha no Caribe. Sim, é Fidel Castro quem – mesmo sem poder e agora já há anos – está irritando tanto os estadunidenses, especialmente policiais, por causa de uma ação de governo sua de três décadas atrás.

Foi Fidel quem garantiu anistia a Joanne Chesimard, conhecida agora como Assata Shakur, ainda procurada em 1973 pelo assassinato de um policial estadual de Nova Jersey, Werner Foerster, em um tiroteio na estrada. Shakur foi condenada, mas conseguiu escapar da prisão em 1979 com a ajuda de camaradas. Como uma das lideranças da Black Liberation Army (Exército da Libertação Negra), que tomou ações mais duras até que o Partido dos Panteras Negras (Black Panther Party), não apenas entrando em tiroteios com policiais, mas também assaltando banco, Shakur se tornou uma lenda no seu tempo, uma Robin Hood das massas negras.

Em um momento histórico, o presidente Barack Obama anunciou que procuraria normalizar as relações com Cuba. No mesmo dia, policiais federais e de Nova Jersey repetiram sua oferta de 2 milhões de dólares por informações que levassem à captura de Shakur. No último ano, os federais colocaram Shakur como única mulher na lista do FBI de pessoas mais procuradas.

 

Foi Fidel quem garantiu anistia a Joanne Chesimard, conhecida agora como Assata Shakur, ainda procurada em 1973 pelo assassinato de um policial estadual de Nova Jersey

 

Vocês podem ter certeza que em sites e jornais negros será dada atenção aos chamados cada vez mais intensos pela captura ou retorno negociado de Shakur. Aquela atenção virá com uma história.

assata-shakur-montage

Castro não apenas forneceu um refúgio para revolucionários fugitivos, com o argumento, aceito talvez pela maioria dos cubanos sob o governo de Fidel Castro, que os negros eram um povo oprimido lutando por tratamento justo e pelo fim de abusos policiais em suas comunidades.

Não, ele foi um tipo de Martin Luther King com poder. Por exemplo, antes que os revolucionários cubanos liderados por Castro tomassem o poder em Cuba em 1959, havia uma segregação racial extremamente rígida no país, incluindo, por exemplo, Santa Clara, no interior de Cuba.

Quando eu estive em Santa Clara no começo de 2001, uma mulher lá me contou como negros e brancos cubanos na década de 1950 e antes andavam por caminhos separados no belo Parque Vidal no centro da cidade. (Tudo o que se precisava em Cuba para ser branco era ter cabelo liso, ter uma tez clara e não querer ser chamado de “negro”).

Esta divisão racial em sua maior parte terminou no governo de Fidel Castro. Mais do que isto, Castro fez um esforço para alcançar os negros nos EUA.

Quando veio a Nova York em 1960 para a reunião das Nações Unidas, Castro se irritou com a gerência do hotel em que ele estava se hospedando, o Shelburne, arrumou suas malas e levou sua comitiva para o Hotel Theresa no Harlem, onde ele celebremente apareceu na janela e acenou para os moradores negros da comunidade. Milhares de moradores do Harlem gritaram seu nome em uma conexão com o poder com o qual eles estavam totalmente desacostumados.

E não parou aí.

Nos anos oitenta, antes do fim da Guerra Fria, Fidel enviou aproximadamente 25 mil tropas para lutar em Angola ao lado dos opositores do então governo do apartheid na África do Sul. Este aspecto do tempo de Castro no poder foi pouco noticiado pela mídia dos EUA. Fidel se opôs de forma militante à África do Sul racista em um momento em que os Estados Unidos a estavam apoiando diplomaticamente.

Eu fui o primeiro a reportar em 1987 que Shakur tinha escapado para Cuba e estava morando lá, sob proteção de Castro. Eu passei vários dias com Shakur em seu apartamento e caminhando pelo Malecón. Meu colega do Newsday, o fotógrafo Ozier Muhammad, a fotografou quando ela posava provocativamente do lado de fora do escritório para interesses dos EUA, com as mãos para o alto, vitoriosa.

Como vocês sabem, as coisas mudaram desde então.

Os soviéticos pararam de apoiar Cuba e, então, a própria União Soviética entrou em colapso total. Por duas décadas, tem havido especulações de que um dia um presidente estadunidense liberal poderia acabar com o embargo de meio século que proíbe trocas com Cuba e permitir aos estadunidenses viajar livremente para lá.

Republicanos e muitos democratas ficaram muito ofendidos com o que chamaram de uma concessão de Obama ao comunismo que Cuba – através de Raul, irmão do Fidel aposentado – ainda representa.

Abafados na discussão em canais de televisão pagos, estão os sentimentos de pertencimento e apreciação que os estadunidenses negros mantêm por Fidel Castro.

Muitos daqueles que mantêm sentimentos de afeição em relação ao barbudo não gritam isto aos quatro ventos porque eles não querem ser acusados de antiamericanismo. Mas simpatia a Fidel pode ser vista em décadas de voto negro no Congresso. O congressista Charles Rangel, do Harlem, por exemplo, tem estado entre os mais progressistas de todos os representantes quando se trata de políticas em relação a Cuba, tendo proposto na virada do ano (2013-2014) um afrouxamento do embargo. E poucos na cena nacional têm sido mais militantes em se opor ao embargo do que a congressista negra da Califórnia Maxine Waters.

Nos próximos dias, Assata Shakur será mencionada mais frequentemente nas notícias sobre Cuba, especialmente no Nordeste. Há reivindicações crescentes de que os Estados Unidos encontrem uma maneira de trazê-la de volta e colocá-la na cadeia. E nestas histórias, jornais de Nova Jersey estão percebendo o quanto Assata Shakur está sendo tratada como uma heroína em muitas comunidades negras nos Estados Unidos.

Policiais federais e outros estão cientes do quanto Shakur tem se tornado um tipo de heroína popular entre negros estadunidenses e mesmo negros no Caribe, inclusive com um número crescente de pais nos últimos 25 anos que estão nomeando suas filhas de Assata.

Somado ao apelo com os negros, está a ligação de Assata Shakur com o rapper Tupac Shakur, que é ligado a Assata através de seus ancestrais masculinos (não por sangue) e é considerado um sobrinho.

Quando eu escrevi sobre Tupac Shakur para um jornal semanal negro agora defunto (o City Sun), eu falei com um chefe da polícia federal em Nova York, Ken Walton, que disse que Assata Shakur tinha que ficar esperta com cada movimento dela – então, em 1996, e enquanto o coração dela continuasse batendo.

Eu escrevi então sobre Walton: “Ele me disse em palavras medidas e irritadas que ele ‘ou alguém como ele’ iria capturar Assata um dia e trazê-la aos EUA”.

Isto eu sei que é verdade: toda vez que um punho foi levantado por Assata Shakur, simpatia também foi dirigida ao agora antigo líder de Cuba Fidel Castro.

Aliás, Assata não é a única revolucionária recebida por Fidel de braços abertos. Ele também garantiu asilo a Nehanda Obiodun (antes Cheri Laverne Dalton), a única pessoa ainda procurada pelo assalto de 1,5 milhão de dólares a um carro forte no começo de 1981 em Nanuet, Nova York, em que dois policiais foram mortos.

Nos dias de hoje não é difícil localizar onde Assata Shakur e Nehanda Obiodun estão ou mesmo o que eles estão pensando. Eu encontrei Obiodun e escrevi sobre ela em Cuba em 1990, mas fui proibido quando tentei marcar um encontro com ela, Shakur e um grupo de estudantes da Universidade de Stony Brook que levei a Cuba em Janeiro de 2012.

Obiodun tem estado cada vez mais fora do radar nos últimos anos, mas Assata Shakur não. “Nova Jersey espera que o descongelamento das relações entre Cuba e os EUA ajudem a extraditar a ex-Pantera Negra”, gritava uma manchete do Atlantic City News em 18 de Dezembro.

Então, dado todo este pano de fundo, negros estadunidenses não estão apenas refletindo nostalgicamente sobre Fidel Castro, eles estão preocupados com a situação difícil de Assata Shakur.

Alguns, talvez muitos, policiais negros declararam publicamente seu desejo de que Shakur seja capturada e devolvida à cadeia nos EUA. Mas outros negros têm respeito pela coragem que ela mostrou ao viver no exílio por 30 anos, carregando em seu peito os restos de uma bala que ela tomou durante um tiroteio em 1973.

Mais do que tudo, podem apostar, há um acordo amplo com Barack Obama: de que o tempo de hostilidade entre o governo cubano, não mais liderado por Fidel Castro, mas por seu irmão Raul, deve terminar.

Categorias
Escrita da história

Fidel fez muito pela luta antirracista e anticolonialista em todo o mundo!

 

angeladavis
Fidel com Angela Davis, membro dos Panteras Negras

 

Por Douglas Belchior

 

Com a morte de Fidel Castro e a comoção da maior parte daqueles que se dedicam à luta social pelo mundo afora, alguns grupos e personalidades negras questionam o porquê de negros “idolatrarem” Fidel e seu regime “racista”.

Respeito os que criticam, mas preciso discordar e o faço com muita força.

Reconheço que esse debate é complexo. Mas preciso dizer que não se trata apenas de “muita gente do movimento negro idolatrar Fidel”, e sim de movimentos, organizações e personalidades negras de todo planeta reconhecerem o importante papel histórico de Fidel enquanto liderança que se contrapôs ao status quo mundial. Há controvérsias em sua atuação? Sem dúvida! Cuba pós revolução se curou do racismo? Evidente que não. Mas a essa experiência devemos, inclusive, parte da formulação da ideia de que a revolução necessária vai muito além do viés econômico e político, mas se ampliam também para os aspectos de raça, gênero, questões religiosas e sexuais.

Roberto Trindade, negro brasileiro que viveu na Ilha por 7 anos e lá se formou médico, nos relata:

“Em Cuba o racismo existe sim, mas não é um racismo institucional, como estamos ‘acostumados’. É fruto de uma herança cultural de países escravocratas. Posso exemplificar com a ideia de que os santiagueros (Santiago de Cuba tem a maioria de sua população negra) são burros!!! Realmente a revolução não conseguiu desconstruir essa ideia vinda desde os tempos da colônia e essa persiste e se propaga nas ‘piadas’, ‘ditados populares’ e etc. Portando, o enfrentamento ao racismo continua a ser um desafio. Mas é preciso reconhecer que Cuba é o país onde os negros vivem melhor que em qualquer outro lugar previamente escravocrata. Existem as mesmas oportunidades e possibilidades, algo que pode parecer difícil de entender após eu confirmar que há racismo na Ilha, mas que é real. A revolução, plurirracial e de caráter nacional por si só já não permitiria que o racismo persistisse entre as esferas do governo”.

amilcarcabral
Com Amilcar Cabral, líder na luta por independência da Guiné Bissau

 

Vivi uma experiência que por si, seria suficiente para admirar Fidel e sua obra. Atuo no movimento de Cursinhos Populares há quase 20 anos. Entre 2006 e 2010 trabalhei em processos de seleção de jovens negros para estudarem medicina em Cuba. Esse programa, que garantia vagas na ELAM – Escuela Latino Americana de Medicinas, em Havana, durou alguns anos. Centenas de brasileiros, latino americanos e africanos negros e pobres foram beneficiados. Arrisco dizer que enquanto durou o programa, entre seu início e os primeiros resultados das políticas de acesso à universidade do governo Lula, Cuba formou mais negros brasileiros como médicos do que todas as universidades públicas do Brasil no mesmo período. Cleber Da Costa FirminoJosé Cícero Da Silva e próprio Roberto Trindade – que nos fez o relato acima, viveram lá e se formaram médicos. Negros, pobres, moradores de periferias e alvo prioritário da violência policial, eles são, entre outras centenas de pessoas, a prova real do quanto a revolução cubana incidiu diretamente na vida de milhões de pessoas em todo o mundo.

 

samora-machel_mocambique
Com Samora Machel, líder da Guerra da Independência de Moçambique. Se tornou o seu primeiro presidente de 1975 a 1986.

 

É justo também lembrar o papel sildenafil prix belgique usa de Cuba e Fidel, no apoio à luta por libertação e independência de diversos países africanos frente a opressão colonial européia. Che Guevara, outro líder da revolução cubana, antes de ser morto enquanto guerreava na Bolívia, esteve a frente de seu batalhão cubano na guerrilha de luta pela libertação do Congo. A Argélia foi apoiada em 1961. Enquanto lutava contra o colonialismo francês, Fidel Castro, a pedido da Frente de Libertação Nacional fez chegar armas aos independentistas. Cuba apoiou a luta contra o Apartheid e enviou cerca de 300.000 soldados a Angola entre 1975 e 1988 para fazer frente à agressão do exército supremacista da África do Sul. Fidel apoiou e sempre esteve ao lado de importantíssimas lideranças responsáveis pelas lutas de independência dos países africanos. Entre eles Mengistu, presidente da Etiópia, Thomas Sankara, presidente de Burkina Faso e conhecido como “Che Guevara” da África, Amilcar Cabral, líder na luta por independência da Guiné Bissau, Agostinho Neto, Presidente do Movimento Popular de Libertação de Angola e primeiro Presidente de Angola entre 1975 e 1979, e Samora Machel, líder da Guerra da Independência de Moçambique, que se tornou o seu primeiro presidente de 1975 a 1986.

 

thomas_sankara_burkina-faso
Com Thomas Sankara, presidente de Burkina Faso e conhecido como “Che Guevara” das África

 

Em 1991, o maior expoente da luta contra o racismo em África, Nelson Mandela, rendeu um tributo a Fidel Castro:

“Desde os seus dias iniciais, a Revolução Cubana tem sido uma fonte de inspiração para todos os povos amantes da liberdade. O povo cubano ocupa um lugar especial no coração dos povos da África.”

 

fidel_mandela
Com Nelson Mandela

 

Cuba foi, por décadas, refúgio de revolucionários de todo o mundo. Muitos aproveitaram sua estada para estudar e aprimorar suas capacidades de enfrentamento às ditaduras e ao colonialismo. Outros beberam da fonte da experiência prática cubana ante o desafio de enfrentar a maior potência bélica do planeta. Entre estes, podemos lembrar Malcon X, Angela Davis e Assata Shakur, esta última procurada pela CIA e FBI, exilada política recebida pelo regime de Fidel em 1984 e lá mantida, apesar das diversas tentativas de repatriamento tentada pelos EUA. Estes e outros acolhidos pelo Comandante em sua luta contra o racismo ianque.

fidelmalcolm
Com Malcon X

Sempre que provocado a falar de Cuba e de Fidel, deixo a seguinte pergunta, já respondida acima, por Trindade: Seria exagero dizer que Cuba é o país em que os cialis generique negros da diáspora vivem melhor, em todo o mundo? Depois de uma rápida pesquisa nos índices de Desenvolvimento Humano e Desigualdades Sociais na Ilha, desde a revolução, eu arriscaria dizer não seria exagero dizer que sim.

 

mengistu_etiopia
Com Mengistu, presidente da Etiópia

 

Há teóricos que condenam a experiência Cubana? Sim. Mas eu prefiro ficar com a posição de Malcon, Mandela, Angela, Machel, Shakur, Panteras Negras e tantas outras que sempre se identificaram com Fidel e que sempre puderam contar com El Comandante em suas lutas.

Fidel viverá para sempre!

 

fidel_angostinho_neto_angola
Agostinho Neto, Presidente do Movimento Popular de Libertação de Angola e primeiro Presidente de Angola até entre 1975 e 1979

 

 

 

Categorias
Escrita da história

Fidel Castro e seu compromisso histórico com a África

16557

 

De Al Mayadeen – [Salim Lamrani, Tradução do Diário Liberdade]

O pai da Revolução Cubana estendeu uma mão generosa aos povos necessitados e colocou a solidariedade e a integração no centro da política exterior de Cuba.

Baseando-se na máxima de José Martí, “Pátria é humanidade”, Fidel Castro fez da solidariedade internacionalista um pilar essencial da política exterior de Cuba. Assim, Havana ofereceu apoio a muitos movimentos revolucionários e independentistas na América Latina, África e Ásia. A Argélia foi a primeira que se beneficiou da ajuda cubana em dezembro de 1961. Enquanto lutava contra o colonialismo francês, Fidel Castro respondeu ao chamado da Frente de Libertação Nacional e fez chegar armas aos independentistas [1].

Do mesmo modo, Cuba desempenhou um papel chave na luta contra o Apartheid e enviou cerca de 300.000 soldados a Angola entre 1975 e 1988 para fazer frente à agressão do exército supremacista da África do Sul. O elemento decisivo que pôs fim ao regime racista apoiado pelas potências ocidentais foi a estrepitosa derrota do exército sul-africano em Cuito Cuanavale, no sudeste de Angola, contra as tropas cubanas em janeiro de 1988. No discurso que pronunciou em Matanzas, Cuba, em 1991, Nelson Mandela rendeu tributo a Fidel Castro:

“Desde os seus dias iniciais, a Revolução Cubana tem sido uma fonte de inspiração para todos os povos amantes da liberdade. O povo cubano ocupa um lugar especial no coração dos povos da África. Os internacionalistas cubanos fizeram uma contribuição à independência, à liberdade e à justiça na África que não tem paralelo pelos princípios e o desinteresse que a caracterizam. É muito o que podemos aprender de sua experiência. De modo particular nos comove a afirmação do vínculo histórico com o continente africano e seus povos. Seu invariável compromisso com a erradicação sistemática do racismo não tem paralelo. Somos conscientes da grande dívida que há com o povo de Cuba. Que outro país pode mostrar uma história de maior desinteresse do que a que Cuba demonstrou em suas relações com a África […]? Sem a derrota infligida em Cuito Cuanavale nossas organizações não teriam sido legalizadas! A derrota do exército racista em Cuito Cuanavale me deu a oportunidade de estar hoje aqui com vocês! Cuito Cuanavale é um marco na história da luta pela libertação da África austral! [2]“.

 

Thenjiwe Mtintso, embaixadora da África do Sul em Cuba, lembrou da verdade histórica a propósito do compromisso de Cuba na África: “Hoje a África do Sul tem muitos amigos novos. Ontem estes amigos se referiam a nossos líderes e a nossos combatentes como terroristas e nos perseguiam desde os seus países ao mesmo tempo em que apoiavam a África do Sul do Apartheid. Esses mesmos amigos hoje querem que nós denunciemos e isolemos Cuba. Nossa resposta é muito simples, é o sangue dos mártires cubanos e não desses amigos o que corre profundamente pela terra africana e nutre a árvore da liberdade em nossa Pátria” [3].

Henry Kissinger, secretário de Estado dos Estados Unidos de 1973 a 1977, planejou bombardear Cuba após sua intervenção na África. “Se decidirmos usar a força militar devemos conseguir a vitória. Não podemos fazer as coisas pela metade”, declarou ao general George Brow do Estado Maior em 24 de março de 1976. Durante seu encontro com o presidente Gerald Ford, Kissinger se mostrou mais preciso: “Creio que vamos ter de esmagar Castro. Mas provavelmente não poderemos atuar antes das eleições [presidenciais de 1976].”. “Estou de acordo”, replicou o presidente Ford [4]. Kissinger desejava a qualquer custo proteger o regime do Apartheid: “Se os cubanos destroem a Rodésia, a Namíbia será a próxima na lista e depois a África do Sul. Se realizam um movimento para a Namíbia ou a Rodésia, teremos que pulverizá-los”. Secretamente elaborado pelo Grupo de Ações Especiais de Washington, o plano previa bombardeios estratégicos, minar os portos e uma quarentena de Cuba. Não obstante, apesar dessa hostilidade, Kissinger não pôde conter sua admiração ao líder histórico da Revolução Cubana. Segundo ele, “era provavelmente o mais genuíno líder revolucionário então no poder” [5].

 

De fato, durante décadas Cuba foi o santuário dos revolucionários do mundo inteiro, os quais se formaram e se aprimoraram na ilha. Fidel Castro também acolheu os exilados políticos de todos os horizontes perseguidos pelas ditaduras militares apoiadas por Washington. A Ilha do Caribe também se converteu em refúgio dos militantes políticos perseguidos nos Estados Unidos, como alguns membros dos Panteras Negras [6].

Fidel Castro sempre fez da solidariedade humanitária internacional um pilar fundamental da política exterior de Cuba. Assim, em 1960, inclusive antes do desenvolvimento do seu serviço médico e mesmo após ter perdido 3.000 médicos (que decidiram emigrar para os Estados Unidos após o triunfo da Revolução de 1959) dos 6.000 presentes na ilha, Cuba ofereceu sua ajuda ao Chile após o terremoto que destruiu o país. Em 1963 o Governo de Havana enviou sua primeira brigada médica composta por 55 profissionais à Argélia para ajudar à jovem nação independente a enfrentar uma grave crise sanitária. Desde então, Cuba tem estendido sua solidariedade ao resto do mundo, particularmente à América Latina, África e Ásia [7].

Hoje, cerca de 51.000 profissionais da saúde cubanos, entre eles 25.500 médicos dos quais 65% são mulheres, trabalham em 66 países do mundo. Desde o triunfo da Revolução, Cuba realizou cerca de 600.000 missões em 158 países, com a participação de 326.000 profissionais da saúde. Desde 1959 os médicos realizaram mais de 1,2 milhão de consultas médicas, operaram 2,3 milhões de partos, efetuaram oito milhões de operações cirúrgicas e vacinaram mais de 12 milhões de mulheres gestantes e crianças [8].

Por outro lado, Cuba formou várias gerações de médicos de todo o mundo. No total, a Ilha formou 38.920 profissionais da saúde de 121 países da América Latina, África e Ásia, particularmente por meio da Escola Latino-americana de Medicina (ELAM) fundada em 1999. Além dos médicos que estudaram na ELAM em Cuba (cerca de 10.000 graduados a cada ano), Havana contribui para a formação de 29.580 estudantes de medicina em 10 países do mundo [9].

A “Operación Milagro” é emblemática da política solidária de Havana. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), há atualmente cerca de 285 milhões de pessoas vítimas de deficiência visual no mundo, entre elas 39 milhões de cegos e 246 milhões que apresentam uma diminuição da acuidade visual. Quase 90% vivem em países do Terceiro Mundo. Cerca de 80% das deficiências visuais são curáveis, aponta a organização, e agrega que “a catarata segue sendo a principal causa da cegueira”. Essas doenças oculares afetam em primeiro lugar (65%) a pessoas com mais de 50 anos (20% da população mundial), uma porcentagem que crescerá com o envelhecimento da população, mas também a 19 milhões de crianças [10].

Diante dessa constatação, Fidel Castro decidiu lançar em julho de 2004 uma ampla campanha humanitária continental sob o nome de Operación Milagro com a ajuda da Venezuela. Consiste em operar gratuitamente os latino-americanos pobres que sofrem cataratas e outras doenças oculares, mas que se encontram na impossibilidade de financiar uma operação que custa em 5.000 e 10.000 dólares conforme o país. Esta missão humanitária se estendeu a outras latitudes (África e Ásia). A Operación Milagro inclui a participação de 165 instituições cubanas. Dispõe de 49 centros oftalmológicos em 15 países da América Latina e do Caribe (Cuba, Venezuela, Equador, Haiti, Honduras, Panamá, Guatemala, São Vicente e Granadinas, Guiana, Paraguai, Granada, Nicarágua e Uruguai) [11]. Desde 2004, cerca de três milhões de pessoas de 35 países recuperaram a vista [12].

A respeito da educação, Cuba elaborou o programa de alfabetização “Yo, sí puedo” em 2003 proposto pelo próprio Fidel Castro, com a finalidade de erradicar o analfabetismo no mundo. Segundo a Unesco, viagra women há no mundo 796 milhões de adultos analfabetos, ou seja, 17% da população mundial. Mais de 98% se encontra nos países do Terceiro Mundo. Dois terços são mulheres. A Unesco lançou então um chamado para reduzir em 50% o número de analfabetos para 2015. O organismo da ONU aponta que os progressos realizados neste campo “foram no melhor dos casos decepcionantes e no pior esporádicos”. Segundo a Unesco, “para reverter esta tendência é necessário que os governos do mundo atuem com determinação”. Não obstante, a Unesco revela uma exceção: a América Latina e o Caribe. Esta exceção se deve em parte ao programa “Yo, sí puedo”:

“O programa ‘Yo, sí puedo’, que o Governo cubano criou em 2003, teve amplos resultados […]. Aplicado em 12 dos 19 países da América Latina em 2008, faz parte de estratégias mais amplas a favor da alfabetização universal no Estado Plurinacional da Bolívia, no Equador, na Nicarágua, no Panamá e na República Bolivariana da Venezuela” [13].

Baseado na filosofia de José Martí, resumida na seguinte frase: “Todo homem tem direito a se educar e em troca contribuir para a educação dos demais”, o Instituto Pedagógico Latino-americano e Caribenho de Cuba lançou o programa “Yo, sí puedo” em 2003, destinado a alfabetizar os adultos iletrados. A aquisição das capacidades de leitura, escrita e cálculos matemáticos é indispensável para desfrutar de uma cidadania plena. Constitui no primeiro baluarte contra a exclusão e a pobreza e leva à realização do que Martí chamou de “a plena dignidade do homem”. A Unesco ressalta que “a educação salva vidas: a taxa de mortalidade infantil diminui quanto mais se eleva o nível escolar da mãe”. Assim, se todas as mulheres concluíssem o ensino secundário 1,8 milhões de crianças seriam salvas a cada ano. Do mesmo modo a saúde das crianças estaria mais protegida: “É menos provável que as crianças cuja mãe tem escolaridade manifestem um atraso de crescimento ou tenham um peso abaixo do normal” [14].

O programa “Yo, sí puedo” foi aplicado com êxito na Venezuela, onde mais de 1,5 milhões de pessoas foram alfabetizadas, na Bolívia, no Equador e na Nicarágua, que são as únicas nações latino-americanas que se livraram do analfabetismo na última década, segundo a Unesco. Também é utilizado em outros países do continente e do mundo, como a Nova Zelândia, e aplicada em vários idiomas, entre eles o francês e os idiomas indígenas (guaraní, maori).

O programa “Yo, sí puedo” é utilizado também na Espanha. A cidade de Sevilha solicitou os serviços dos professores cubanos, sob a coordenação do Professor Carlos M. Molina Soto, para ensinar seus cidadãos a ler e a escrever [15]. Após um estudo realizado pela prefeitura se descobriu que 34.000 dos 700.000 habitantes da capital andaluza eram totalmente analfabetos. Em dois anos 1.100 adultos se alfabetizaram nos 30 centros de alfabetização que foram abertos na cidade. Outros municípios da Espanha, que conta com 2 milhões de analfabetos, estudam a possibilidade de aplicar o método cubano em seu território [16].

Na Austrália o método de alfabetização é utilizado para as populações aborígenes – 60% são analfabetos funcionais – que aprendem a ler e a escrever em três meses. Além da leitura, da escrita e da álgebra básica, Cuba lhes oferece a possibilidade de aprender a usar as novas tecnologias [17]. No entanto, a Austrália ocupa o segundo lugar mundial em termos de desenvolvimento humano, atrás apenas da Noruega [18].

O programa “Yo, sí puedo” recebeu o Prêmio de Alfabetização Rei Sejonh da Unesco em 2006 por sua contribuição à educação da humanidade. Irina Bokova, diretora-geral da organização da ONU, elogiou o método, ressaltando seu caráter exemplar de cooperação Sul-Sul [19]. De fato, desde 2003, o programa permitiu que nove milhões de pessoas de cinco continentes diferentes aprendessem a ler e a escrever [20].

Em termos de solidariedade, Fidel Castro fez de Cuba o modelo a ser seguido, demonstrando que é possível contribuir para melhorar o destino dos mais desfavorecidos do planeta. Ao colocar a generosidade para com os mais humildes no centro de sua ação internacional, o líder da Revolução Cubana se converteu no símbolo do internacionalismo desinteressado.

 

Salim Lamrani é doutor em Estudos Ibéricos e Latino-americanos da Universidade Paris Sorbonne-Paris IV, professor-titular da Universidade de la Reunión e jornalista, especialista nas relações entre Cuba e Estados Unidos.

 

Notas:

[1] Cuba Defensa, «Misiones militares internacionalistas cumplidas por las Fuerzas Armadas Revolucionarias de la República de Cuba», 2014. http://www.cubadefensa.cu/?q=misiones-militares (site consultado em 23 de fevereiro de 2015)

[2] Salim Lamrani, Cuba. Ce que les médias ne vous diront jamais, Paris, Editions Estrella, 2009, prólogo.

[3] Piero Gleijeses, «Cuito Cuanavale: batalla que terminó con el Apartheid», Cubadebate, 23 de março de 2013.

[4] The National Security Archive, « Kissinger Considered Attack on Cuba Following Angola Incursion”, 1 de outubro de 2014, George Washington University. http://www2.gwu.edu/~nsarchiv/NSAEBB/NSAEBB487/(site consultado em 21 de fevereiro de  2015).

[5] Henry Kissinger, Years of Renewal, New York, 1999, p.785 in Piero Gleijeses, “Carta a Obama”,Cubadebate, 3 de fevereiro de 2014.

[6] The Guardian, “New Jersey hopes Cuba-US relations thaw will help extradite former Black Panther”, 18 de dezembro de 2014.

[7] Roberto Morales, «África está urgida de la solidaridad internacional»,  Cuba Debate, 12 de setembro de 2014. http://www.cubadebate.cu/especiales/2014/09/13/africa-esta-urgida-de-la-solidaridad-internacional/ (site consultado em 14 de septiembre de 2014).

[8] Ibid.

[9] Ibid.

[10] Organisation mondiale de la santé, «Cécité et déficience visuelle», Aide-Mémoire n°282, outubro de 2011. http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs282/fr/index.html (site consultado em 15 de fevereiro de 2013).

[11] Ministerio de Relaciones Exteriores, «Celebra Operación Milagro cubana en Guatemala», República de Cuba, 15 de novembro de 2010. http://www.cubaminrex.cu/Cooperacion/2010/celebra1.html (site consultado em 15 de fevereiro de 2013); Operación Milagro, « ¿Qué es la Operación Milagro? ». http://www.operacionmilagro.org.ar/ (site consultado em 15 de fevereiro de 2013).

[12] Cubadebate, «Más de 3 millones de beneficiados con Operación Milagro en diez años», 1 de julho de 2014. http://www.cubadebate.cu/noticias/2014/07/01/mas-de-tres-millones-de-beneficiados-con-operacion-milagro-en-diez-anos/#.VOsmsWP7uu4 (site consultado em 23 de fevereiro de 2015).

[13] Ibid., p. 37, 76.

[14] Ibid., p. 39.

[15] Correspondência con o Profesor Carlos M. Molina Soto, 17 de novembro de 2011.

[16] Antonio Rodrigo Torrijos, “Torrijos pregunta en el pleno del Ayuntamiento sobre el futuro de Yo, sí puedo”. Al pleno del Ayuntamiento de Sevilla”, 15 de setembro de 2011. Veja também Cubainformación, « Alfabetización cubana en Sevilla », 7 de fevereiro de 2008. http://www.cubainformacion.tv/index.php?option=com_content&task=view&id=3286&Itemid=86 (site consultado em 12 de abril de 2008).

[17] EFE, « Un método desarrollado en Cuba enseña a leer y a escribir a aborígenes australianos », 1 de julho de 2012.

[18] Programme des Nations-unies pour le développement, « Indice de développement humain IDH, classement 2011 », 2011. http://hdr.undp.org/fr/statistiques/ (site consultado em 15 de fevereiro de 2013).

[19] Granma, «Reconoce la UNESCO el método cubano de alfabetización», 25 de maio de 2011. http://www.granma.cubaweb.cu/2011/05/25/cubamundo/artic02.html (site consultado em 15 de dezembro de 2011).

[20] Granma, «Nueve millones de alfabetizados con el programa cubano Yo, sí puedo», 21 de janeiro de 2015. http://www.granma.cu/cuba/2015-01-21/nueve-millones-de-alfabetizados-con-el-programa-cubano-yo-si-puedo (site consultado em 6 de março de 2015).

Categorias
Escrita da história

Hoje é dia de Mandela, acolhido no Brasil em 1991 por Erundina e Brizola

Nelson-Mandela-wallpapers

 

Por Douglas Belchior

 

Dia 18 de Julho é aniversário de Nelson Mandela. O grande ícone da luta antirracista na África do Sul faria hoje 98 anos. Sua morte em 5 de dezembro de 2013 comoveu e mundo e seu exemplo em vida é uma verdadeira lição de resistência e humanidade.

Como reconhecimento de sua luta, a ONU instituiu ainda em 2009, a data de 18 de Julho como o Dia Internacional Nelson Mandela – Pela liberdade, justiça e democracia, uma homenagem à sua dedicação e seus serviços à humanidade, pela mediação de conflitos, pelo combate ao racismo e

pela promoção de direitos humanos.

 

Blog Negro Belchior
Luiza Erundina, prefeita de São Paulo, recebe o líder Nelson Mandela em 1991

 

No Brasil, Mandela foi abraçado pelo povo negro brasileiro, recebido por chefes de Estado e acolhido em especial pela então prefeita de São Paulo, Luiza Erundina (foto) e pelo inesquicivel governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola, que levou Madiba a ser recebido por mais de 40 mil pessoas em plena Praça da Apoteose, como bem registra o vídeo do acervo Cultne, abaixo.

Também sobre sua passagem pelo

Brasil, recupero o texto dos geniais Oswaldo Faustino e Celso Fontana, publicada pela revista Raça em sua edição de número 181.

Em tempos de continuidade barbárie racial mundo afora, seja nos conflitos super noticiados a partir dos EUA e da xenofobia europeia, seja nos invisibilizados massacres de negros em países africanos ou no Brasil, o fato é que a mensagem de Madiba continua urgente e necessária.

Feliz dia Internacional Nelson Mandela pra você também!

 

 

A passagem de Nelson Mandela pelo Brasil

Por Oswaldo Faustino e Celson Fontana

Após sua libertação, em 1990, Mandela foi eleito presidente do Congresso Nacional Africano (CNA), o partido das maiorias negras da África do Sul. Em posse desse cargo e já em campanha para a presidência do país, nas eleições que aconteceriam em 1994, ele desembarcou no Rio de Janeiro, em 1º de agosto de 1991, numa visita que durou seis dias e incluiu passagens por São Paulo e Brasília. Uma das histórias mais marcantes da visita ao Brasil ocorreu durante sua estadia na capital paulista, quando participou de uma sessão ordinária no plenário maior do Palácio 9 de Julho (que tem o nome Juscelino Kubitscheck), no dia 2 de agosto. A assembleia atraiu grande público nas galerias: eram representantes de dezenas de entidades negras, populares e sindicais de todas as regiões do Brasil.

Entre os parlamentares presentes naquela sessão presidida por Carlos Apolinário, estavam Teodosina Ribeiro – primeira mulher negra a exercer o mandato de deputada estadual –, Luiza Erundina, a prefeita de São Paulo na época, e destacaram-se o então deputado Jamil Murad, autor do projeto que criou o SOS Racismo da Assembleia, e o vereador paulistano Vital Nolasco, autor do projeto que concedeu o título de Cidadão Paulista a Nelson Mandela, ambos do Partido Comunista do Brasil (PCdoB). “Enquanto Mandela esteve encarcerado, fizemos um ato em São Paulo para apoiar sua libertação. Personalidades como João do Vale, Beth Carvalho e Martinho da Vila participaram daquela manifestação, que foi a nossa maneira de prestar solidariedade ao povo africano. Tempos depois, quando soube que ele viria para o Brasil, resolvi lhe prestar a singela homenagem. O grande estadista Mandela demonstrou-se extremamente simples, mas com grande convicção de suas ideias. Além disso, o homem esbanjava felicidade”, recorda Nolasco, hoje secretário de finanças do PCdoB. A deputada Célia Leão, do PSDB, também fez discurso notório. Diversos parlamentares quiseram fazer uso da palavra, mas Mandelaestava muito cansado, pois, na véspera, havia participado de diversos eventos e homenagens no Rio de Janeiro, acompanhado pelo governador Leonel Brizola.

Conforme relata o autor Celso Fontana, em seu e-book “… E Mandela presidiu a Assembleia Paulista…”, obra que descreve as homenagens ao grande líder sul-africano, “os funcionários dos vários setores da Assembleia, em especial os envolvidos na recepção e nos trabalhos de plenário, estavam visivelmente emocionados”. A associação e o sindicato dos funcionários da Assembleia, Afalesp e Sinfalesp (atual Sindalesp), apoiaram a homenagem. A Coordenadora do Quilombhoje Literatura, Esmeralda Ribeiro, recebeu os cumprimentos em nome dos artistas que se apresentaram durante o evento. Por fim, Mandela presidiu, simbolicamente, a Assembleia Paulista.

 

 

Categorias
Direitos Humanos Escrita da história

“Não temos o que comemorar no dia das mães”, diz Debora, das Mães de Maio

12472705_958484010936099_4661447712260547399_n

 

“… era finados.

Eu parei em frente ao São Luís do outro lado

E durante uma meia hora olhei um por um

e o que todas as Senhoras

Tinham em comum:

a roupa humilde, a pele escura,

o rosto abatido pela vida dura.

Colocando flores sobre a sepultura.

Podia ser a minha mãe, que loucura…”

Racionais Mc’s

 

Por Douglas Belchior, com fotos do facebook das Mães de Maio

 

Este Maio de 2016 marca os 10 anos dos Crimes de Maio, a maior chacina praticada por agentes estatais na história contemporânea do Brasil. Os poucos inquéritos policiais instaurados foram arquivados. A letalidade policial em São Paulo continua uma das mais altas do mundo. Só neste ano, em janeiro e fevereiro a polícia matou 137 pessoas, uma média de duas execuções por dia. E esses são dados oficiais. Imagine você o que deve ser os números reais. Há ainda, os conhecidos casos que envolvem grupos de extermínio, possivelmente compostos por policiais militares, que a cada período promovem matanças, tais como as ocorridas em Osasco e Carapicuíba, há alguns meses. Para marcar o retorno deste Blog à ativa, fomos ao encontro de Debora Maria da Silva, fundadora e coordenadora nacional do Movimento das Mães de Maio: 10 anos depois, o que mudou na segurança pública, no governo e na polícia, em relação à violência do Estado? Ela responde a esta e outras perguntas, num exclusivo e emocionante bate papo. Assista e leia abaixo os detalhes sobre as ações que marcarão os 10 anos de luta das Mães de Maio.

 

 

Me lembro bem daquela sexta feira, 12 de maio de 2006. Era véspera do dia 13, data que marca o aniversário da “abolição da escravidão” no Brasil. Em São Paulo, o movimento negro de cursinhos comunitários promovia uma ação direta para denunciar o que chamamos “Falsa Abolição” e para exigir a aprovação das Cotas Raciais em Universidades Públicas, à época ainda longe de se tornar lei federal. Com mais de 2 mil manifestantes (embora a Folha de São Paulo tenha registrado apenas 300), fechamos a Av. 23 de Maio e causamos o maior congestionamento daquele ano na cidade. Dali, seguimos para a faculdade de Direito da USP, onde ocupamos salas de aula e tomamos microfones dos professores para discutir com os estudantes daquele espaço de privilégio branco, a importância das cotas. Teríamos alcançado o objetivo central da ação, que era dar visibilidade às reivindicações, talvez até com fotos em capas dos principais jornais no dia seguinte. Mas o que ocorreria a partir daquela noite tomaria as atenções do país e marcaria de sangue, mais uma vez, a história contemporânea do estado de São Paulo.

Entre os dias 12 e 26 daquele mês, a partir da ação combinada da Polícia Militar e sob a justificativa de combate ao crime organizado, 564 pessoas foram brutalmente assassinadas. Desde antão, familiares de vítimas do massacre que a grande imprensa batizou como “Ataques do PCC”, mas que os movimentos chamam de “Crimes de Maio de 2006”, denunciam a inoperância das investigações, a não apuração dos crimes e falta de responsabilização do Estado e de seus agentes.

 

13138813_1190189804338083_1020233848713241702_n

Os Crimes de Maio 10 anos depois

505 civis e 59 agentes oficiais assassinados em uma guerra promovida pelo Estado

 

O que grande mídia chamou de “ataques do PCC” foi, como a história demonstrou, uma reação à decisão da Secretaria de Administração Penitenciária, em transferir mais de 700 presos para Presidente Venceslau, penitenciária de segurança máxima no interior de São Paulo. A ação teria sido motivada pela interceptação de telefonemas que davam conta de um suposto planejamento de rebeliões programadas para o Dia das Mães, 14 de maio de 2006.

Entre os presos transferidos, estava o grupo considerado cúpula do PCC, entre eles estava Marcos Willians Herba Camacho, o Marcola, que segundo a polícia, era o “cabeça” da organização. O “partido”, em reação ao procedimento, provocou rebeliões em dezenas de penitenciárias e nas ruas promoveram ataques contra as forças de segurança tendo como alvo Delegacias, bases da PM, veículos oficiais, CGM’s e até o Corpo de Bombeiros. A reação inconsequente e desproporcional do Estado, através de suas forças armadas, foi o deliberado assassinato de mais de 500 pessoas, que de maneira não aleatória, foram mortas nas periferias da capital, interior e na baixada santista.

“Todo mundo voltando, correndo, com medo. O telefone ficou mudo”, lembra Débora em nossa entrevista: “Na minha sala comecei a sentir aquele cheiro forte de carne com sangue que me sufocava”, lembra emocionada a tarde do dia em que seu filho, Edson Rogério Silva dos Santos, foi assassinado com 5 tiros.

A correria e o medo não se deram apenas na baixada santista. A cidade de São Paulo parou. As principais avenidas e rodovias ficaram desertas. Todo comercio baixou as portas. Escolas e universidades cancelaram as aulas. Repartições públicas fecharam e hospitais atenderam apenas as emergências. Empresas de ônibus recolheram sua frota enquanto viam dezenas de seus carros incendiados. Milhões de pessoas ficaram sem transporte. A imprensa hegemônica, grande responsável pela massificação do clima de terror e do sentimento de medo, mais uma vez alcançou o objetivo: conquistou o apoio da população para a ação violenta que se daria a partir daí pelos dias que se seguiram, o que resultaria nas centenas de mortes de pobres e negros em diversos territórios periféricos de São Paulo, pelas próprias mãos dos agentes do Estado.

Débora, que faz aniversário no dia 10 de maio, afirma: “Não temos o que comemorar no dia das mães. Não tenho porque cantar parabéns pra você. O Estado tirou meu filho e continua matando esses meninos”. A fundadora do Movimento das Mães de Maio dedica sua vida para organizar familiares de vítimas de violência e denunciar ao mundo o genocídio promovido pelo Estado brasileiro.  Ela diz que a força para superar a dor e se dedicar à luta contra a violência vem de seu filho: “Senti a presença do meu filho da cama do hospital. No começo achei que era alucinação por conta dos remédios. Mas depois eu entendi sua mensagem: ‘A senhora tem que lutar por justiça, lutar pelos que estão vivos’. Ele deixou essa missão pra mim.”

 

Celebração dos 10 anos de luta e de lembrança dos Crimes de Maio

 

Para marcar os 10 anos de luta do Movimento das Mães de Maio, uma série de ações de mobilização e formação será promovida, com o intuito de fortalecer as lutas comuns contra o genocídio do povo negro, indígena, pobre e periférico no Brasil e no Mundo. Com o tema “Justiça, Reparações e Revolução”, a proposta é fortalecer a organização autônoma e pensar coletivamente os próximos passos das lutas.

Em São Paulo os encontros ocorrerão entre os dias 11 e 13 de Maio, em diversos espaços da cidade. Na quarta-feira (11/5) ocorrerá o credenciamento dos participantes, a apresentação do Encontro e as primeiras trocas; no segundo dia (12/5) haverá discussões temáticas em GTs compartilhados e o pré-lançamento simbólico do Memorial dos Crimes de Maio e das Vítimas do Genocídio Democrático, no Centro Cultural do Jabaquara. Haverá ainda na noite do dia 12, na Quadra dos Gaviões da Fiel Torcida, um ato cultural em homenagem a todas as Mães e Vítimas da “Era das Chacinas”, com a presença do rapper Eduardo e outros guerreiros e guerreiras do Hip-Hop Organizado; no terceiro dia (13/5), haverá uma plenária final na parte da manhã no Salão Nobre da Faculdade de Direito do Largo São Francisco e no fim da tarde concentração para o “Cordão da Mentira”, que sairá pelas ruas do centro da cidade, com o tema “Pelos 10 anos dos Crimes de Maio e todas as Vítimas do Genocídio Democrático” e “Contra a Falsa Abolição”.

A programação continua no Rio de Janeiro, nos dias 14 e 15 de maio, em atividades promovidas pela Rede Contra Violência e Fórum de Juventudes do RJ.

 

Programação completa:

 

QUARTA-FEIRA (11/5)

MANHÃ – A partir das 8hs: Chegada, Acomodação e Credenciamento dos Participantes no Hotel San Raphael (Largo do Arouche – São Paulo-SP)

TARDE – A partir das 14hs: Abertura Oficial do Encontro com as Apresentações Iniciais, Intervenções das Mães de Maio, Rede Contra Violência, Fórum de Juventudes do RJ, Mães Mogianas, Mães de Osasco e de outros Estados e Convidadas Internacionais

NOITE – A partir das 19hs: Programação Cultural – Sarau com Coletivos Periféricos de São Paulo e as Mães do Brasil e Internacionais

 

QUINTA-FEIRA (12/5)

MANHÃ – A partir das 8hs: Grupos de Trabalho Temáticos – por Pautas/Lutas, no próprio auditório do Hotel San Raphael

TARDE – A partir das 14hs: Pré-Lançamento Simbólico do Memorial das Mães de Maio no Centro Cultural do Jabaquara – Participação das Madres e Convidados Internacionais + Intervenção Cultural do Bloco Afro Ilú Obá de Min de Mulheres Negras, e Exposição Corpa Negra, da guerreira Carolina Teixeira (ÚteroUrbe) do Coletivo Fala Guerreira

NOITE – A partir das 19hs: Programação Cultural – Atividade Político-Cultural na Quadra dos Gaviões da Fiel, junto com as torcidas organizadas de luta, as Mães e os Secundaristas de Luta, com o rapper EDUARDO e diversos grupos de Hip-Hop de São Paulo.

 

SEXTA-FEIRA (13/5)

MANHÃ E TARDE – a partir das 9:00hs, no Salão Nobre da Faculdade de Direito do Largo São Francisco: Intervenções de Convidados / Plenária Final socializando os Trabalhos e Propostas.

APROVAÇÃO E APRESENTAÇÃO À SOCIEDADE DA “CARTA DAS MÃES EM LUTA: PELO NASCIMENTO DE UMA NOVA SOCIEDADE IGUALITÁRIA, JUSTA, LIVRE E PACÍFICA”

FINAL DA TARDE – a partir das 17hs: Concentração para a saída do CORDÃO DA MENTIRA pelas ruas do Centro de SP, com o tema “Pelos 10 anos dos Crimes de Maio e todas as Vítimas do Genocídio Democrático” e “Contra a Falsa Abolição”

NOITE: Lavagem da Rua 13 de Maio – evento Tradicional de Denúncia da Falsa Abolição realizado pelo Bloco Afro Ilú Obá de Min no bairro do Bixiga.

 

Cordão_Flyer-2-768x432

 

 

 

Categorias
Destaque Escrita da história

No Brasil até o Réveillon é racista

teleferico_escuna-Praia-de-Laranjeiras

Por Douglas Rodrigues Barros

Quais fantasias não se pode ter ao se desejar que no próximo ano tudo seja diferente? Se os romances contam as histórias dos desejos humanos, tais desejos se fundam sempre na tentativa de mudanças porque o desejo é sempre carência. E mudanças é o que nosso país mais necessita, estamos num país carente de mudanças. Não somente uma mudança de gestão, mas, uma mudança espiritual profunda que acabe de vez com esse jogo absurdo manifestado por nossas próprias ações cotidianas. Por que começo escrevendo isso?

Mais um ano se foi e durante uma curta viagem para Parati me deparei com o mesmo, aquilo que não se vai, o que se tornou permanente e naturalizado. Há algo de ritual no nosso cotidiano, um fantasma que fingimos não ver para não ficarmos constrangidos pela sua constante presença. Denunciar esse fantasma deve ser nossa tarefa, pois, sabemos que mesmo nos momentos mais corruptos da história, a baixeza tem restrições. Mas que restrições pode existir para algo tão naturalizado por nós? Por uma baixeza tão vil como a prática do racismo e da segregação social?

Como explicar que num dia de felicitações e alegrias – de tentativa de mudanças em nós mesmos, de algo dado como uma alegria universal – se tenha que passar por duas guaritas repletas de guardas para se chegar numa praia? Qual nome dessa praia, agora, privatizada e “higienizada” de gente diferenciada? Laranjeiras. De fato, a loucura dos outros jamais nos tornara sensatos e sensatez é o que falta numa sociedade dividida por muros e totalmente desigual como a nossa. A loucura de aceitar a segregação como saída só pode cobrar seu quinhão: a revolta é sempre resultado da reflexão.

Laranjeiras com suas águas transparentes e límpidas, com seu céu azulado e belezas incomensuráveis é a nossa Israel em terras tupiniquins, todo o seu entorno uma nova Palestina. Sob o seu muro está a inscrição de nossa faixa de Gaza. Eis aí o resultado de séculos de exploração, de fundamentação econômica racista, de segregação social e cultural.

A pior aristocracia, sem dúvida, é a aristocracia do dinheiro; aquela que transforma a política num balcão de negócios e banca seus escolhidos para administrarem a coisa pública. Entretanto, o tom aqui não é moralista; não torça o nariz daí achando que estou colocando a culpa nos magnatas do condomínio fechado de Laranjeiras. Eles só são a personificação de nosso modo de vida sob a tutela do sistema econômico que se formou em nossas costas. São um resultado da naturalização da opressão em suas diversas formas e, que por isso, é um verdadeiro celeiro laboratorial visto por todo mundo. Como disse em algum momento Paulo Arantes; o Brasil se tornou sem dúvida um exportador de medidas radicais de segurança e conformação contra o livre direito de ir e vir.

É um acinte humilhante e que denigre qualquer cidadania não poder chegar a praia, ou ser interpelado no seu “direito sagrado de liberdade” por seguranças privados. Duas guaritas, documento de identificação e sorriso dos guardas me fizeram crer que eu fosse um estrangeiro em minha própria casa.

Mas, como dizem por aí e como muitos aceitam: É para sua segurança! Para minha segurança? Em nome da segurança estão tolhendo a liberdade de ir e vir, além porno do acesso a coisa pública, estão nos privando do espaço natal, do jardim que percorremos nossa infância, estão nos privando do trato humano e de qualquer noção de cidadania. Privatizar a praia é sinal da aristocracia do dinheiro, e esta é insuportável e predatória.

Até no réveillon sou obrigado a refletir sobre o racismo e a segregação social.

Para minha segurança? Sem essa por favor!

Categorias
Destaque Escrita da história

Malaak Shabazz, filha de Malcolm X, se assusta com tranquilidade negra ante o genocídio

IMG_0963
Na companhia dos Rappers Sharilaine, Dexter e Rappin Hood, MalaaK fala para ativistas negros em SP

Ativista Malaak Shabazz participou de conversa com a juventude negra em São Paulo, depois de conhecer bairro periférico

 

Texto e fotos: Frente de Mídias Negras SP

Em passagem pelo Brasil, a ativista dos direitos humanos e filha do líder negro norte americano Malcolm X, Malaak Shabazz, convidou a população negra a promover ações mais contundentes. Na entrevista que concedeu à imprensa negra após encontro com jovens na cidade de São Paulo, na tarde desta quinta-feira (19), a ativista diz ter se surpreendido pelo fato de as pessoas estarem tão tranqüilas diante da violência racista existente no Brasil.

 

IMG_0988
Auditório da Galeria Olido, tomado por ativistas negros/as

“[minha mãe] criou seis filhas ao mesmo tempo em que se dedicava à construção de uma sociedade livre do racismo”.

Pelo menos 400 pessoas se aglomeraram no auditório da Galeria Olido, no centro de São Paulo, para ouvir Malaak e, também, dar notícias sobre as condições de vida da população negra. O público era maior, mas muitos ficaram de fora por ordem dos bombeiros. Entre os diversos temas abordados, a ativista norte-americana falou sobre feminismo negro, desigualdade de gênero, representatividade negra na política, governo Obama e também suas impressões sobre o racismo no Brasil e o genocídio afeta sobretudo moradores da periferia.

 

IMG_1020
Malaak com o rapper Dexter e o Secretário de Promoção da Igualdade Racial da cidade de SP

Na partilha de experiências, Malaak fez análise da conjuntura política e abordou temas que estão presentes tanto na sociedade norte-americana quanto na brasileira, como a repressão policial e a necessidade de articulação entre os movimentos negros.

IMG_0999
Imigrante e cineasta nigeriano faz tradução simultanêa e é ovacionado pelo público.

A ativista compartilhou momentos importantes da biografia de seu pai, mas fez questão de enfatizar o papel da mãe na luta antirracista. A também ativista Dra. Betty Shabbaz, “criou seis filhas ao mesmo tempo em que se dedicava à construção de uma sociedade livre do racismo”. Atuou, sobretudo, na criação de condições para que os jovens negros pudessem ter acesso à educação de forma subsidiada.

 

DSC08560
Entrevista coletiva à Frente de Mídias Negras SP

Horas antes da palestra, promovida pela Secretaria Municipal de Promoção da Igualdade Racial (SMPIR), Malaak conheceu o bairro de Cidade Tiradentes, na zona leste paulistana e pode conversar com moradores. Ao final a ativista demonstrou disposição em colaborar com a construção de um seminário internacional sobre o genocídio da população negra nas Américas, proposta pela Uneafro-Brasil.

A TV Drone fez a transmissão ao vivo e a disponibilizou em seu Canal no Youtube (Início a partir do 16.o minuto).

 

 


 

Publicidade colaborativa

Presenteie camisetas da Uneafro-Brasil

A Uneafro-Brasil está com novos modelos de camisetas engajadas e temáticas de valorização da cultura negra brasileira. Conheça e faça seu pedido. Com isso, além de adquirir um produto de qualidade, beleza e com uma mensagem de consciência negra, de quebra contribui para o auto-financiamento do trabalho sócio-educacional promovido pela Uneafro nas periferias de São Paulo e do Brasil.

Valor único para todas as peças, R$ 30,00 + frete.
Tamanhos (P, M, G ou GG), medidas e quantidades devem ser informadas no campo de descrição do produto.

Conheça esses e outros modelos e faça seu pedido AQUI

 

1185010_161445260720070_1710572108_n943354_161445417386721_1327929719_n 541394_161445327386730_92739506_n  150696_161445367386726_1458581424_n1230010_161445250720071_94091394_n8312_161445217386741_536225636_n1229958_161445210720075_2009434214_n      994828_161445347386728_151713548_n

Categorias
Destaque Escrita da história

Consciência negra e racismo: Educação é a saída

o-negro

 

Por Douglas Belchior 

 

A história do Brasil é uma história de Genocídios:O Genocídio das populações originárias, renomeada indígena. Estima-se que os portugueses encontraram nestas terras mais de 1.000 povos que perfaziam de dois a seis milhões de pessoas.

O Genocídio negro, através de um regime de escravidão que durou 388 anos e que custou o sequestro e o assassinato de cerca de 7 milhões de seres humanos africanos e outros tantos milhões de seus descendentes.

O Genocídio negro e o  indígena continuam, caracterizados hoje pela ação do Estado e de seus governos através da violência dirigida às poucas comunidades indígenas e quilombolas e ao povo negro das cidades, ambos barbaramente vitimados pela ação policial, bem como pela negação de direitos sociais e de oportunidades, cristalizadas a partir da abolição da escravidão.

É preciso admitir: Temos no currículo, infelizmente, um dos maiores crimes de lesa-humanidade já vistos.

20 de Novembro é o Dia Nacional da Consciência Negra. É o momento de celebrar a memória Zumbi dos Palmares e Dandara, herói e heroína do povo brasileiro. Mas acima de tudo é um dia de reflexão e busca de novas formas para enfrentar a triste herança de tanta violência e opressão: o racismo.

Neste mês de Novembro, é preciso destacar e reafirmar a atuação que escolhemos e acreditamos ser a mais eficiente maneira de combater o racismo e tudo que cerca e alimenta na mentalidade coletiva a naturalização da violência e as injustiças dirigidas ao povo negro brasileiro: a Educação Popular.

Os Cursinhos Comunitários da UNEafro-Brasil, organizados em 42 Núcleos de Base em bairros de periferias de São Paulo (a maioria), mas também em Duque de Caxias (RJ), em Salvador (BA) e no Pará (Altamira), se propõe ao mesmo tempo, oferecer um serviço de reforço escolar e preparação para vestibulares e para o ENEM e trabalhar também conteúdos que visam o aguçamento da capacidade crítica dos estudantes e seu possível engajamento nas causas populares de enfrentamento ao racismo, ao machismo, à homofobia e a todos as formas de opressão e injustiças.

 

 

Conheça a história de Cinthia, jovem negra moradora do Capão Redondo que se formou em Medicina.

 

 

Assista o Documentário sobre o trabalho da Uneafro-Brasil

 

 

Nesse 20 de Novembro, dia Nacional da Consciência Negra, nossa celebração é reafirmar o que fazemos todos os dias do ano e há muitos: A busca por uma nova mentalidade, através da educação. E feliz dia da Consciência Negra para todos nós!

Hoje vejo 500 anos passando na frente dos meus olhos

Sinto arrepios pelo corpo, suor e sangue a escorrer

Arde as costas, cicatrizes que nunca vi mas sempre senti

O corpo balança… involuntário, como em dança ao som de um batuque…

O sorriso ainda está, apesar da dor

E há vida, há esperança e amor

Hoje, acompanhado por milhões

Sou fruto da história da minha cor.

E Zumbi vive em mim.

Em nós!

Zumbi