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Filosofia

O Homem Negro Viril: apontamentos sobre a ideia de virilidade

Por Henrique Restier

“Não se nasce viril, torna-se viril” (Arnaud Bauberot)

Os estudos sobre masculinidades tem ganhado maior destaque tanto no debate público quanto no acadêmico. Além disso, o campo das relações raciais também tem percebido o tema como um lugar singular para o aprofundamento das discussões sobre raça e gênero. Este texto é um convite para que entremos por alguns momentos no “mundo masculino negro” pelo viés da virilidade.

A Força Física

Vamos começar esse diálogo através de uma expressão que grande parte dos homens já escutou: “Se tu voltar pra casa chorando vai apanhar aqui também”. A despeito de não ser a opinião corrente sobre ela, penso nessa expressão como uma forma sincera e séria de forjar um homem para enfrentar um mundo implacável. Não desprezo seu teor duro e ameaçador, mas há amor nela, às vezes um amor tão grande que é preciso dizê-la, volta e meia com o coração despedaçado, em outros casos com raiva (da expressão e dos meninos; do que apanhou e do que bateu).

Notem que, o fazer-se homem é uma atividade de provação constante, uma prática diária, com seus próprios ritos de passagem e códigos viris. Os desafios para tais provações podem acontecer em qualquer momento, em qualquer lugar e de várias formas diferentes. Isso é um fato, qualquer homem sabe disso. E a briga, principalmente, entre os meninos é um desses rituais. Um aprendizado. Gostemos ou não.

Essa expressão é uma metáfora para o que vamos enfrentar ao longo de nossas vidas em diversos âmbitos. Excluindo os atos covardes e hediondos, na luta física os homens aprendem sobre respeito, autoridade, determinação, autocontrole e frustração, princípios fundamentais para o desenvolvimento masculino, além de provar uma das mais importantes características da virilidade: a força física. Esta inclui a capacidade de defender (a si e também aos outros, principalmente sua família e pares) atacar e vencer.

Muitos se perguntam o porquê dos lutadores de MMA se abraçam e falam amistosamente entre si após se esmurrarem. Lutam com o outro, não contra o outro. Temos combates dos mais formais aos mais vis. De qualquer maneira, o homem deve estar preparado, pois a violência sempre está à espreita, principalmente para nós, Homens Negros.

Isso sem mencionar as fantasias eróticas que circulam no imaginário de mulheres e homens a respeito de profissões que têm na força física e no espírito combativo seu núcleo, como: policiais, operários, bombeiros, dentre outros (vide os músicos da banda Village People que satirizavam os tipos masculinos). O desenvolvimento da capacidade física para lutas, esportes e proezas sexuais é inerente ao processo de socialização masculina.

Capa do disco Macho Man do Village People de 1978

Entretanto o homem viril não se esgota aí. Para o historiador da filosofia Jean Jacques Courtine (2012) além da capacidade física, a firmeza moral e a potência sexual seriam outros dois elementos centrais da “construção viril”. Assim, podemos nuançar os entendimentos que temos sobre a virilidade, geralmente publicizadas em termos negativos o que, no meu entendimento, são leituras reducionistas e caricatas. Podemos a partir de tal compreensão lançar um novo olhar sobre a virilidade, propondo construções que possibilitem um melhor aproveitamento dos sentidos positivos que ela pode representar, sobretudo, para os Homens Negros.

A Potência Sexual

Para nós, o pênis ereto simboliza afirmação viril. A ereção nos confere dignidade. O pênis expõe nossas fortalezas e fraquezas. Promete prazeres, prova desejos, e está sempre a um passo do fracasso. Suas dimensões e sentidos produziram obras de arte e arquitetônicas magníficas através do mundo.

A penetração é um ato de poder e domínio, mas também de comunhão e aconchego. A alegoria da fecundidade masculina, na qual os espermatozoides devem estar não só em grande quantidade como também possuírem força e velocidade para competirem uns com os outros e adentrarem o óvulo, representa um aspecto fundamental da luta pela vida. Podemos considerá-la como o impulso arquetípico masculino de projeção e foco.

Destruição e criação são faces do mundo natural. A natureza não é boa nem má, ela é. O corpo é o suporte e a manifestação da experiência humana no mundo. Hormônios, feromônios e toda a fisiologia sexual humana dialogam, mais do que talvez gostaríamos, com as dinâmicas sociais entre os sexos. “O hormônio modifica o comportamento e o comportamento modifica o hormônio. É uma relação bidirecional”, explica a neuroendocrinologista Maria Bernardete Cordeiro de Sousa. O sexo seria então, uma síntese extraordinária de forças orgânicas e culturais, e a virilidade faz parte delas.

Templo de Luxor, no Egito

O Caráter Viril

Já a firmeza moral da qual Courtine nos fala, envolve uma série de atributos simbólicos e assim, a virilidade, mais do que potência física, vem carregada de valores e responsabilidades. Para exercê-la o homem precisa provar seu caráter. Justiça e inteligência são admiradas. A capacidade viril de autodomínio, comando e segurança também. Virilidade é virtude. Georges Vigarello traz uma interessante definição do termo:

“A virilidade é marcada por uma tradição imemorável: não simplesmente o masculino, mas sua natureza mesma, e sua parte mais ‘nobre’, senão a mais perfeita. A virilidade seria virtude, cumprimento. A virilitas romana, da qual o termo é oriundo, permanece um modelo, com suas qualidades claramente enunciadas: sexuais, aquelas do marido ‘ativo’, poderosamente constituído, procriador, mas também ponderado, vigoroso e contido, corajoso e comedido. vir não é simplesmente homo; viril não é simplesmente o homem: ele é um ideal de força de virtude, segurança e maturidade, certeza e dominação. Daí esta situação tradicional de desafio: buscar o ‘perfeito’, a excelência, bem como o ‘autocontrole’. Qualidades numerosas enfim, entrecruzadas: ascendência sexual misturada à ascendência psicológica, força física à força moral, coragem e ‘grandeza’ acompanhando força e vigor.”.

Ou seja, a virilidade prescreve uma série de exigências (entendidas como virtuosas) que devem ser continuamente praticadas na busca pela excelência. E, portanto, é um fardo. Podemos chorar, sermos mais sensíveis e afetuosos, não importa. Sempre haverá modelos viris a serem seguidos e desafiados.

A normatividade e a prática

Certas discussões partem da ideia de que somos um bloco homogêneo reproduzindo, inteiramente e a todo o momento, os estereótipos e ideologias hegemônicas, o que acaba por criminalizar as múltiplas masculinidades. Devemos ter cuidado com as interpretações dualistas sobre os Homens Negros seja como opressores ou como vítimas. Ou somos machistas inveterados, mulherengos, violentos e irresponsáveis, ou os assassinados, miseráveis e incapazes. Um festival de imagens que lidam com extremos. Falta dinamismo nessa leitura.

As primeiras legitimam que sejamos o grupo mais lesado em um direito elementar do ser humano: o direito à vida. As segundas nos infantilizam. Perdemos agência e poder de decisão. Evidentemente não ignoro o poder daquilo que o sociólogo jamaicano Stuart Hall (2016) chama de “estrutura binária do estereótipo”onde um conjunto de lugares-comuns racionalizados nos são imputados e que ao negar um, corremos o risco de reafirmar outro, permanecendo em um círculo vicioso. Contudo significados podem ser subvertidos e utilizados em nosso favor. A luta nunca está ganha nem perdida.

Luiz Gama, exemplo de caráter viril

Assim, eu celebro as masculinidades negras em todas as suas contradições. A norma não é capaz de conter a nossa vitalidade. Não somos espelhos de convenções normativas. Nossa prática é plural. Suspeitamos dos discursos rancorosos e culpabilizadores embalados em ideologias “bem intencionadas”. Dispensamos também recomendações presunçosas do que deveríamos ler, ver ou ouvir para que hipoteticamente nos tornemos “homens melhores”. Aceitamos sim, as contribuições autênticas daqueles (as) que querem realmente colaborar com um diálogo franco, generoso e inteligente conosco.

Se por um lado alguns de nós, pela força dos discursos depreciativos se sentem acuados e acabam por adotar uma postura insegura e culpada no debate, se explicando como garotos arteiros, ou mesmo, na defensiva assumindo uma postura ressentida, por outro, a experiência masculina negra veiculada pelos próprios Homens Negros vem se legitimando no espaço público e na efervescência do cotidiano.

Homens destemidos têm se lançado na reflexão e produção de conhecimento sobre si mesmos e seu grupo sócio-racial, debatendo paternidade, trabalho, relacionamentos, auto-cuidado, auto-defesa, dentre outros temas absolutamente pertinentes. Alguns deles tenho tido a honra de conhecer e conversar. Homens que encaram as questões polêmicas e complexas de nosso tempo, de frente e com assertividade. Homens que questionam o tempo todo aquilo que se espera deles, explorando as ambivalências e os significados de serem homens e viris. Então, à nossa maneira, sejamos viris!

Eu quero ver
Quando Zumbi chegar
O que vai acontecer
Zumbi é senhor das guerras
É senhor das demandas
Quando Zumbi chega e Zumbi
É quem manda

(“Zumbi”, de Joge Ben Jor)

 

Referências Bibliográficas

BAUBÉROT, Arnaud. (2013). Não se nasce viril, torna-se viril. In: Jean-Jacques Courtine (ed.) História da Virilidade 3: A virilidade em crise? Séculos XX e XXI, pp.190–220.

COURTINE, Jean-Jacques. (2013). Introdução Impossível virilidade. In: Jean-Jacques Courtine (ed.) História da Virilidade 3: A virilidade em crise? Séculos XX e XXI, pp.7–12.

HALL, Stuart. (2016). Cultura e representação. Rio de Janeiro: Editora Apicuri.

VIGARELLO, Georges. (2013). Prefácio. In: Georges Vigarello (ed.) História da Virilidade 1: A invenção da virilidade Da Antiguidade às Luzes, pp.7–9.

 

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Cinema Filosofia

O Jovem Marx, de Raoul Peck

 

por Lucas Gomes

 

Os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; agora é preciso transformá-lo.

 

No filme “O Jovem Marx”, o filósofo alemão diz ao seu então novo amigo Engels, que acabara de ter o aparentemente simples insight que abre esta resenha, ambos bêbados depois de uma noitada regada a xadrez e álcool. Talvez uma frase dita com hálito de vômito. Será que foi realmente assim? Não saberia dizê-lo.

Esta resenha não é escrita por um especialista em Marx, em sua biografia. Não disputo bolsas ou cargos acadêmicos na base de estudos meticulosos sobre tal ou qual autor. Marx também não era esse tipo de pensador. O que vemos na tela é um Marx jovem jornalista semi-clandestino que foge da polícia. Não é genial poder recuperar este Marx e não aquilo que foi canonizado nas universidades?

Mas se o homem Marx pôde chegar a ser tão reconhecido em tais meios, foi porque o seu fugir da polícia tinha um ímpeto forte: tratar de entender o mundo com profundidade e demolir as versões falsas e errôneas oferecidas tanto por colegas como por inimigos (gente grande na política). A narrativa começa com uma cena de violência que bem poderia ser a abertura de um episódio de Game of Thrones: é a acumulação primitiva, cercamento dos bosques, transformação da propriedade comunal em privada. “Mas o que é a propriedade privada?”, indaga nosso protagonista, buscando a melhor pergunta antes de arriscar respostas.

Não estamos frente a uma obra que prime por uma direção “de autor”. Apenas segue o ritmo que se poderia dizer “comercial”. Ideal para transmitir uma história simples. Ponto para o diretor que não usou de recursos realistas/naturalistas para mostrar a miséria da classe trabalhadora. Isto é reservado apenas para a cena da acumulação primitiva.

Interessante, pois se o capitalismo reproduz a violência sistêmica contra os homens e mulheres (e crianças) do proletariado, boa parte de seu desenvolvimento enquanto sistema econômico se baseia na inovação da exploração do trabalho, por meios menos violentos e mais “sofisticados”: a mais-valia relativa.

Mais de uma vez o ator nos convence da ilusão cinematográfica e cremos ver ali o olhar atento e cheio de julgamento sobre os líderes socialistas de então, questionando as frases pomposas e grandiloquentes, abstratas. Já não se trata de corrigir a descrição do mundo, o filósofo deve incidir em sua transformação. Mas para fazê-lo ele deve sustentar-se em pilares firmes, em um bom entendimento do mundo. Não pode basear-se em ideias bonitas e boa vontade.

Mais do que carisma, se necessita formação e debate franco. Só assim foi possível superar o espírito progressista de sua época, filhos da Revolução Francesa, e afirmar: os homens não são todos irmãos. Existem os que exploram e os que são explorados. A nossa vida não é paz e tranquilidade. É luta. Luta cotidiana. Isso nos caracteriza, proletários do mundo. Definitivamente, o filme do diretor haitiano Raoul Peck é uma contribuição no esforço importante de tirar Marx do envoltório acadêmico e “marxista-leninista” no qual tem sido preservado com zelo pela ortodoxia.

 

Filósofos

Sócrates pegou em armas

e não abandonou a guarda – talvez por isso

suas picadas doessem mais

do que a de cães preguiçosos.

depois foi Nietzche quem se apercebeu

que o corpo produz substância espiritual,

ainda que seja da mais funesta, o abismo.

quando os filósofos se tornam leitores

deixam de ser poetas.

E ao retornarem à caverna,

já não sabem mobilizar ao sol.

e se lá fora encontram a mais gélida e fera noite,

devem tomar em suas mãos a fogueira

e assaltar os céus.

(Lucas Gomes)

 

 


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Debate Filosofia Nazi-fascismo

A Escola Sem Partido mineira?

 

Por Douglas Rodrigues Barros[1]

 

Supostamente um colégio, conhecido por formar filhos da elite econômica em Minas Gerais, adotou sem titubear ao programa Escola sem Partido. Na descrição da vaga, que fora alterada mais de uma vez, se lê o seguinte:

“Procura-se professor de Sociologia e Filosofia que não seja orientado pela ideologia comunista ou socialista, procura-se um professor ou professora que consiga dar aulas dessa disciplina sem fazer doutrinação ideológica para Esquerda” – em maiúscula – “ou para direita, precisa-se de um profissional capaz de demonstrar tanto o pensamento de Marx como a biografia de Marx”.

Uma breve reflexão antes de continuar: esta foi a primeira formulação do anúncio que mudou depois para: “Procura-se um professor ou professora que consiga dar aulas dessas disciplinas sem fazer doutrinação ideológica para a esquerda ou para a direita. Precisa-se de um profissional capaz trabalhar de acordo com o projeto de lei nº 867, de 2015”. Projeto este, conhecida popularmente como Escola Sem Partido.

De acordo com a primeira formulação recomenda-se ao professor demonstrar o pensamento de Marx juntamente com sua biografia. Considerados os limites propedêuticos impostos pelo ato de contratação, deve-se demonstrar que Marx fora um canalha com sua esposa ao traí-la, gerar um filho bastardo e pedir que seu amigo Engels o assumisse para não despertar a ira de Jenny – a (in)felizarda.

Devemos acrescentar às aulas, no sagrado colégio, o fato de que Marx vivia enganando seu tio Philips para conseguir empréstimos e que teve uma juventude dissoluta gastando o dinheiro do seu pai em bebedeiras memoráveis chegando até mesmo a participar de um duelo, que teve como resultado um tiro de raspão na têmpora esquerda. Sem esquecer é claro de sua alegria ao tomar um Château Margaux cujo preço dependendo da safra é três vezes superior ao valor cobrado na mensalidade do colégio.

É claro que tudo isso deve ser dito com o tom de voz e os gestos certos, nada que desperte o riso ou curiosidade do aluno sobre Marx, é preciso que tenham pais na sala de aula que concordem com o projeto, para verificar o tom da fala e a seriedade do professor. É natural que seja assim – diz a querida hipocrisia. Deve-se apresentar Marx como um demônio que precisa ser exorcizado da história da filosofia.

Recomenda-se ainda que se fale bem pouco da trajetória teórica de Marx, do contexto de barbárie imposto por um capitalismo recém-nascido que explorava crianças e mulheres com longas jornadas de trabalho de até 15 horas cuja taxa de mortalidade era de até 80%. Não se deve dizer, porque vai que os alunos observem que na Índia as cargas horárias são bem parecidas e, se levarmos em consideração o tempo de deslocamento dos trabalhadores no Brasil que chegam a ficar três horas em conduções superlotadas, a coisa não muda de figura. Claro, não se deve em absoluto referir-se ao capitalismo como estrutura socioeconômica historicamente determinada. Porque ele sempre existiu e ponto!

Obedecido o imposto pelo contratante, o mesmo beijando o terço ainda exige:

“Queremos um professor ou professora, jovem ou experiente, pode ser acadêmico de Ciências Sociais ou Sociologia, mas é imprescindível que seja conhecedor profundo dos pensadores britânicos e dos discursos de Margaret Thatcher sobre a coisa pública e o dinheiro público e com isso contrabalancear a doutrinação recebida nas faculdades”.

O professor deve aqui fazer o contrário do que fez com Marx. Jamais dizer que Margaret Thatcher foi conivente com a implantação do neoliberalismo pelo general ditador Pinochet. Responsável pelo golpe militar no Chile que depôs o governo democraticamente eleito de Salvador Allende cujo saldo foi de mais de 40 mil mortos. Destas, 3.225 desaparecidas dadas como mortas[2].

Deve-se fazer menção somente aos discursos da “dama de ferro” glorificando o individualismo e a livre iniciativa, sem falar da destruição do Estado de bem-estar social promovido por sua política que aumentou exponencialmente a desigualdade social nas terras da rainha. Não se pode dizer, é óbvio, que tal política foi a responsável pela nova crise em 2008 cujos resultados se aprofundam até agora levando o mundo à beira de um conflito de proporções inimagináveis.

O professor deve simplesmente adotar os lindos e bem ornados discursos, cuja forma culta se assemelha ao discurso de Temer. E não, os pensadores britânicos não são Hume, Locke ou Hobbes. É Hayek – um austríaco naturalizado britânico – e toda a patota teológica que acreditava que o mercado era um deus.

Por fim, o contratante determina:

“Procuramos um professor que valorize o quanto precisou investir na sua própria educação e entenda que mérito e dedicação sempre são mais funcionais que benesses”.

Baseado na meritocracia, independente é claro de estarmos num dos países mais desiguais do mundo. Recomenda-se ao professor dizer que o colégio caro de seus alunos, cujo conteúdo é voltado desde tenra idade para o vestibular, produz o mesmo conteúdo de uma escola pública sucateada e em extinção.  E que eles disputarão uma vaga na universidade em iguais condições e por mérito próprio, com aqueles que, por falta de dedicação dos pais, não conseguiram se matricular no sagrado colégio.

Tal postura pareceu-me as recomendações prussianas do século XIX, quando queriam extirpar um pensamento “maldito” das faculdades ou as censuras czaristas à livre expressão. O anúncio parece ter saído de uma peça ainda não escrita, difícil de acreditar. Até agora tenho minhas dúvidas se o anúncio fora de fato feito pelo colégio ou pelos cordeirinhos do projeto escola sem partido – por isso oculto o nome do colégio, apesar de que uma pesquisa rápida irá revelá-lo[3]. De fato, trata-se de uma época obscurantistas e sombria cujos cadáveres se fazem visíveis e o cheiro de mofo intoxica o ar.

 

[1] Escritor e doutorando em filosofia pela Unifesp.

[2]http://g1.globo.com/mundo/noticia/2011/08/novo-relatorio-sobe-para-mais-de-40000-as-vitimas-da-ditadura-de-pinochet.html

[3] Em épocas de produção de mentiras via internet seria prudente que, em caso de falsidade, o colégio, se não for também falso, cancelasse o anúncio feito em seu nome. Se o anúncio, todavia, não for falso e o colégio de fato existir só resta a lamentação envergonhada.

 

 


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Filosofia Formação Nazi-fascismo

O que explica o crescimento da direita?

Por Douglas Rodrigues Barros[1]

 

Semana passada um instigante e detalhado artigo publicado no The intercept Brazil[2] trouxe à tona aquilo que intuíamos, mas que, não obstante, carecia de um estudo mínimo que desse nome aos bois. O bom trabalho jornalístico de Lee Fang cumpre uma lacuna existente entre a forma aparente da atuação da direita – os meios de divulgação, a violência implicitamente contida nas suas mensagens, o trabalho de distorcer conceitos e fatos históricos, etc. – e sua estruturação material fornecida por grandes grupos empresariais, por meio dos think tanks financiados pelo Departamento de Estado e o National Endowment for Democracy (Fundação Nacional para a Democracia – NED), braço crucial do soft power norte-americano.

Todos aqueles que se preocupam com o caráter de desagregação social levado adiante por essas organizações, que atuam na tentativa de pulverização das forças políticas instituídas para engendrar uma abertura ao capital financeiro, deveriam ler este artigo que desnuda a atuação e financiamento de várias forças da direita – de conservadores à extrema direita – além do próprio MBL, Instituto Millenium et. caterva.

Com essa matéria, portanto, fica evidente que as formas de atuação da burguesia para deter avanços contrários aos seus interesses permanecem seguindo a fórmula de financiar sabujos que rezam seu credo, como as palavras de Schüler[3] deixam transluzir:  “O sistema previdenciário é absurdo, e eu privatizaria toda a educação”. Vale ressaltar ainda que a matéria surgiu coincidentemente na mesma semana em que a extrema direita estadunidense fez uma vítima fatal e, numa demonstração horrenda, acenderam tochas aquecendo todos os velhos fantasmas que o multiculturalismo identitário não conseguiu exorcizar.

Apesar dos elogios que faço ao artigo, entretanto, há duas coisas que se distinguem nele que gostaria de trazer para discussão com os leitores. A meu ver, duas ocorrências incômodas, que fazem parte do modo como se configurou a disputa política e o debate no interior dos pressupostos da sociabilidade “neoliberal”.

Em primeiro lugar, o uso da palavra “política socialista” – socialismo como algo correspondente às políticas aplicadas pelo governo do PT e pelos governos dito de esquerda na América Latina – juntamente com a alcunha de “libertários” dada aqueles que creem na utopia de mercado. Em segundo lugar, a redução conceitual perpetrada pela direita por meio das excepcionais alterações semânticas que limitam a prática política. Falarei desses limites não necessariamente na ordem acima exposta.

A respeito do termo “libertário” é preciso salientar que a disputa por esse conceito – originário da esquerda radical – visa incutir a ideia de que liberdade só é possível no interior das relações de mercado. Essa prática de redobrar os conceitos e distorcê-los à sombra de políticas pintadas de escolhas subjetivas – tão denunciado pelo socialista George Orwell – é historicamente conhecida. Da mesma forma, tomar para si formas de ação que eram da esquerda – como sair as ruas, fazer ocupações de espaços, etc. – é uma prática que remete aos anos 1920-30. O leitor atento já deve reconhecer os protagonistas dessas ações, oculto o adjetivo para não gastar. A crença no mercado também não é coisa nova.

Desde que o capitalismo grassou no mundo, a utopia de mercado acompanhou seu desenvolvimento. A mão invisível de Adam Smith não seria aquela força utópica capaz de regular sob condições ideais uma alocação eficiente de recursos escassos? Já em 1848 quando as ruas de Paris ardiam pela revolução que entronou a burguesia bancária surgiriam os primeiros embates entre socialistas e liberais. Estes últimos, que tinha no Journal des Économistes sua expressão, condenavam os socialistas como aqueles que “que empurram os poderes públicos a adotarem medidas artificiais incoerentes, prejudiciais e ruinosas” (Journal des Économistes, 1848, p. 2). Nada tão diferente de hoje.

Nesse sentido, deve-se ter claro que aqueles que adotam o mercado como um deus a ser seguido, a despeito da tragédia diária que esta forma de sociabilidade proporciona, não devem ser entendidos como sujeitos egoístas, senão como indivíduos que acreditam que o mercado é o melhor para a sociedade. Parece, assim, ser mais interessante buscar os fundamentos dessa fé para depois no interior de suas “teses” desmontá-las.

Mesmo com o reforço dessa crença algo, não obstante, fugiu do controle da cúpula burguesa. Vimos que a crise iniciada em 2008 implodiu por dentro a teologia, mas quanto mais se desnuda o deus, mais desesperador para seus fiéis é a falta de sentido que daí advém e mais se agarram ao cadáver. Como um jogo de cartas assistiu-se no outono de 2008 a queda sequencial dos grandes bancos de investimento em Wall Street. Quando o Lehman Brothers ruiu sob a ficção solenemente produzida e vivida por seus investidores, apresentou-se, finalmente, uma nova esquina da história. Toda essa implosão tem, todavia, precedentes anteriores:

Na lengalenga do mercado como o melhor para a sociedade ninguém pôde garantir que os reinvestimentos feitos pelos capitalistas retornassem à expansão da produção. Como isso não era mais interessante dado o baixo retorno imediato que os investimentos teriam sobretudo depois dos anos 1970, o capital deixou de “gerar e internalizar a sua própria demanda efetiva”. O resultado dessa lógica foi o crescimento do famoso exército de reserva, horda de desempregados que no início do século XXI impôs a muitos trabalhadores as áreas precarizadas, o constante crescimento e expansão do processo de terceirização no Brasil.

O fenômeno da globalização trouxe um limite geográfico a expansão e manutenção da taxa de crescimento de capitais, a tecnologia por sua vez, colocou um limite social ao trabalho como fonte de manutenção do consumo e processo de circulação de mercadorias. Com todas as suas contradições, a centralização de capital e seu progresso se autonomizaram “do incremento positivo de capital social”.

A teologia do mercado, porém, financiada pela alta burguesia, sobrevivente a despeito de seu cataclismo, passou a fornecer ainda mais cultos, palestras e dinheiro para convencer das benesses e perenidade do capital. Destacado da produção real, porém, a acumulação de capital tornou-se fictícia e o seu caráter abstrato se sobressaiu sobre seu caráter concreto de geração e produção de riquezas.

Além dos aspectos materialmente traumáticos da crise – como a expulsão de famílias inteiras de seus lares que não podiam pagar suas hipotecas – ela poderia ser vista também como a quebra da ideologia dominante. Nos EUA o processo de favelização e a ruína de grandes cidades levaram os trabalhadores, diante do vazio de uma esquerda radical, para os braços neofascista. Não havia qualquer organização revolucionária a altura do processo revolucionário, o que abriu caminho para a extrema-direita e sua retórica belicosa.

Isso desnuda a utopia de mercado propagada como ferramenta da burguesia no tabuleiro da luta de classes. Nós, não obstante, assistimos indefesos os Estados salvarem os grandes capitalistas, isso a despeito da crença de seus fiéis que o Estado não deve intervir na Economia. Desse modo, um novo processo cujo impacto social é ainda mais grave começou a ser produzido ao redor do globo: o inchaço nas dívidas públicas.

Tal processo, já conhecido e visto até mesmo pelo bom burguês Thomas Piketty levou a resultados desastrosos: a taxa de rendimento do capital passou a ser por um longo período muito mais alta que o crescimento da economia, levando ao forte crescimento da desigualdade[4] e a oligarquização da economia. A crise tornou-se afinal um bom negócio tanto como forma de governo quanto para os investimentos.

Ademais, ainda sob influxo do vácuo gerado pela aniquilação do “socialismo realmente existente”, o imaginário político se prendeu cada vez mais as formas de gestão imposta pela “vitória” do capital.

No Brasil, como mostra Christian Gilioti, estávamos numa encruzilhada entre “a construção de uma Nova República, de tipo burguês, no entanto, comprometida com os direitos sociais e impulsionada democraticamente pelas massas operárias e pelos movimentos populares do campo e da cidade que se reorganizavam durante a “transição”, ou a absoluta sujeição ao regime neoliberal, inteiramente alinhado ao imperialismo dos EUA, cujas diretrizes gerais foram implementadas na Inglaterra por Margareth Tatcher, na década de 70, renovadas e consagradas em 1989, pelo Consenso de Washington[5]. Não se pode dizer que a nova república já nasceu com esses dispositivos latentes? Os anos 90 não foram marca distintiva de um processo cuja ausência de alternativa trouxe, em especial para América Latina, formas neoliberais de organização e estruturação produtiva algumas trajadas de políticas progressistas?

Vale ressaltar que as formulações do Consenso foram aquelas que impulsionaram as think tanks financiadas pela grande burguesia ao redor do globo. As organizações de direita passaram a atuar como braços propedêuticos da tentativa de um consenso social pró-mercado. Enquanto isso, a luta entre Capital/ trabalho encontrava aqui sua resolução na redemocratização que culminaria nos anos FHC e posteriormente no lulopetismo.

Como disse noutro lugar[6]: fora erguido um projeto determinante para a ofensiva do capital, qual seja: em primeiro lugar, a imposição de austeridade monetária com intuito de integrá-las às políticas de ajustes macroeconômicos. Em segundo, políticas que envolviam o sucateamento de serviços públicos para a construção de consenso sobre a eficiência da privatização. E acima de tudo um projeto nacional de conciliação de classes que imprimiria um retrocesso nas agendas das esquerdas institucionais.

Em suma, para essa esquerda não havia mais horizontes para além do Capital, ao mesmo tempo que, sua gerência dos recursos públicos esbarraria nos limites da crise facilitando os ataques da direita organizada. Anestesiados pelas formas de gestão política a distância das bases marcou o apogeu do maior partido de esquerda do mundo, abrindo caminho para as reacionárias igrejas neopentecostais, a ilusão com o consumo e a raiva contra qualquer posicionamento de esquerda.

Para esquerda que fora hegemonizada pelo PT – contrariamente a afirmação de Lee Fang não desenvolveu politicas socialistas senão algumas benesses que melhoravam a circulação e os investimento no capital nacional – perdia-se de vista qualquer possibilidade de uma transformação realmente emancipatória e efetiva, ou era cinicamente deixada para “a melhor hora”. Ao mesmo tempo distante da realidade efetiva, o pós-modernismo entrava em cena contra a totalidade “homogeneizadora e totalitária” do processo revolucionário e do conceito de classes.

Já estávamos jogando na casa do inimigo, agora, jogávamos com as regras do inimigo. Nossa própria gramática tornou-se a gramática do império e nossos limites estavam determinados pelo mercado. O apego a esses limites foi determinante para aquilo que Paulo Arantes sabiamente chamou de contrarrevolução sem revolução.

Nesse sentido, é preciso ter algo claro: 1) O PT e os governos de esquerda da América Latina não eram socialistas apesar de algumas medidas que realmente contribuíam para diminuição da desigualdade cujo caráter era francamente voltado para dinamizar a economia; 2) os libertários de mercado acreditam num deus que deixou claro que o laissez-faire leva a desagregação social. Ambos se tocam em sua crendice de se respeitar os limites do jogo. É preciso, pois, implodir esses limites baseado no formato imposto pelo inimigo histórico da classe, tarefa de uma organização revolucionária.

A falta de alternativas e adoções de uma postura realmente emancipatória por parte da esquerda, que amedrontada se refugia na negação de seus próprios fantasmas, está levando o mundo inteiro ao abismo.

Há ainda outro instigante texto intitulado Sobre a necessidade de se rebelar: apologia ao motim, crítica à revolução[7] de meu camarada Ramon Brandão que teço doravante algumas críticas por entender que nas entrelinhas desse artigo se oculta outro elemento de nossa fraqueza. O artigo em questão traduz uma postura sintomática que grassou e foi o paradoxo de grande parte da esquerda: a afirmação de microestruturas que pelo seu caráter “guerrilheiro” não são absorvidas.

Em todo texto, por mais original que soe ser, fantasmas circundam suas entrelinhas, vozes orquestram sua composição e teses de gente morta dão acabamento a sua forma. Nada diferente com o texto de Ramon, implicitamente a voz do conceito de história nietzsche-deleuziano se distende em suas linhas. Voz mais ou menos bronzeada pelo cientista político brasileiro que compreende a história no círculo mítico de um eterno retorno, “cada vez mais aprimorado, cada vez mais preciso, cada vez mais invisível e, por isso mesmo, cada vez mais presente”. Não obstante a teleologia que se encontra nessa percepção para não cairmos na crítica materialista vulgar tentemos ver aí o que tais pressupostos figuram.

Aos dezessetes anos influenciado pela filosofia “quase-hegeliana”[8], Nietzsche escrevia: “na medida que o homem é arrastado nos círculos da história universal, surge essa luta da vontade individual com a vontade geral; aqui se insinua este problema infinitamente importante, a questão do direito do indivíduo ao povo, do povo à humanidade, da humanidade ao mundo; aqui se acha também a relação fundamental entre fado e história”[9]. Tal relação permeia cem anos depois as linhas de Ramon; as agruras entre indivíduo e sociedade, entre sociedade e Estado, entre possibilidade de revolta e absorção se colocam entre o fado e a história.

É então que a suspensão, aquilo que chama de motim, é o único momento ambicionado por uma individualidade que necessita interromper a “maquinaria violenta” que congela qualquer potência de transformação. Nesse caso, anêmico, o motim seria a bebedeira e a revolução a ressaca.  Ao abordar a história e o Estado, porém, abstratamente, o argumento perde-se numa ótima retórica, de fato, bem construída e sensual. Mas, poderíamos igualmente cometer uma diabrura: e se invertêssemos a temática e apostássemos que o motim é aquilo que realmente é absorvido? Sabemos que o motim realizado numa prisão não constitui nenhuma emancipação senão melhores condições para continuar prisioneiro.

E, se talvez essa concepção fosse só um lampejo anêmico de alguma mudança que ao invés de barrar as estruturas do poder, dinamizam-na? Tal conclusão não corrobora com a ideia do próprio autor ao dizer que: “Ademais, em seus relâmpagos, tais experiências proporcionam vitalidade, intensidade e potência de maneira a transformar toda uma vida individualmente […] É aí, então, que aquela maquinaria com suas botas bem lustradas retorna – afinal, o eterno retorno é implacável – e percebem que algo mudou, que trocas e interações ocorreram nas experiências cotidianas e que isso, efetivamente, constituiu alguma diferença”. Alguma diferença em qual sentido? O eterno retorno é realmente um retorno?

Tais pressupostos não lembram o escarnio de Hegel ao avaliar as figuras do ativismo romântico chamado de lei do coração[10]? De um lado, a efetividade do Estado forja suas leis e costumes pela qual a individualidade é oprimida: uma ordem violenta no mundo. Por outro lado, existe uma humanidade que padece sob essa lei que não consegue seguir a lei do coração e está submetida a uma ordem estranha. Para a individualidade que busca no motim sua realização, essa efetividade aparece como uma lacuna entre sua individualidade e a verdade “de microcosmo ativo dos antigos sonhos de liberdade”.

Essa individualidade quer superar a necessidade que vai contra sua lei do coração. É a seriedade de um alto desígnio que procura seu prazer na produção do bem da humanidade e acredita que seu prazer é universal e está em todos os corações. A lei do Estado se opõe aos altos desígnios e, claramente, a humanidade não vive na unidade bem-aventurada, mas no sofrimento. Ora como o Estado está separado dessa individualidade é para ela somente uma aparência que deve perder o poder e a efetividade. O indivíduo amotinado busca então criar novos espaços e dispositivos para que “as transformações ganhem vida nos momentos de motim”.

Nessa efetivação, porém, aquilo que o motim buscou se realiza, ou seja, a lei do coração torna-se a própria relação que deveria ser superada, tal como presos que queriam colchões novos e o obtém para bom andamento do presídio. Por isso, deixa de ser lei do coração, pois, é absorvido em seus pressupostos pela universalidade do Estado, a qual esse coração é indiferente. Conclui Hegel: e o indivíduo ao estabelecer sua própria ordem não a enxerga como sua, a lei que o motim acabou de conquistar, o direito que acabou de legitimar aparece ao indivíduo amotinado como algo estranho.

E aqui a argumentação do Ramon Brandão exibe seu calcanhar de Aquiles: “nosso grande trunfo estará em nossa invisibilidade. Ocultação que não se fará ver pelo Estado exatamente por não se permitir definir pela História”. A invisibilidade é conquistada no mesmo instante em que o motim se concretiza, o indivíduo é absorvido pela maquinaria que se dinamizou pelo resultado de seu agir e a história continua agindo por trás das costas dos indivíduos. Por meio do motim sabemos como se volta contra o indivíduo a universalidade efetiva. Sua ação pertence ao universal, porém seu conteúdo é a própria singularidade que quer se manter enquanto tal, mas já perdeu-se.

Não podemos apontar diversos exemplos concretos em que essa definição hegeliana se tornou força material: 1968, ou mais recentemente, junho de 2013, ou ainda o Occupy? Não podemos devolver a pergunta ao autor? O motim tão propalado ao redor do mundo, da Grécia à Istambul, passando pelo Rio de Janeiro e Brasília, tem nos levado a algum lugar?

As mesmas provocações de Ramon, no entanto, aparecem nos belos livretos do Comitê Invisível[11] que não tenho como abordar em suas especificidades senão tirar das sombras essa característica singular ao texto. Sei que tal pressuposto se baseia numa tática e aqui exprime-se a verdade de sua posição: uma tentativa de resposta que se afaste das carcomidas formas de organização imperante na esquerda.

“Assumamos que a equação homem deu errado”, diz Ramon “ou transformemos de uma vez por todas, o mundo”. Aqui podemos cometer outra diabrura, tais posições não são excludentes, pelo contrário, é exatamente porque a equação do homem deu errado que se necessita transformar o mundo. O homem como um sujeito fantasmático e incompleto, um não-idêntico perpétuo que movimenta-se, é um desvio da natureza que nega a própria natureza.

E aqui o elemento do trágico nietzschiano tem sua razão de ser, o aspecto contingencial da história é o que fundamenta a liberdade humana na construção do seu destino e não a essencialização que o autor comete quando declara que “as revoluções, por mais – ou menos – virtuosas que sejam suas ideias, não passam de uma armadilha do destino, de um pesadelo no qual, não importa o quanto lutemos, sempre seremos capturados e submetidos ao infinito ciclo da roda cármica de um eterno retorno que incuba Estados e governos”.

Tudo bem, mas a roda cármica de um eterno retorno é bem melhor que a roda da tortura da idade média. Esse olhar retroativo que reconfigura o passado não implica numa teleologia, mas, é a compreensão, óbvia em todo caso, de que de fato avanços foram obtidos com a instauração da Revolução Francesa, do Estado Burguês e com a moderna divisão do trabalho por meio da Revolução Industrial. A negação abstrata do Estado sem sua complementaridade no capital leva a indícios de obscurantismo romântico na própria crítica e, por sua vez, o motim como fim em si mesmo permanece no registro do capital e é muito bem-vindo.

Disso chegamos à conclusão que a crítica da economia política continua sendo o pressuposto de toda crítica.  O Estado, ao contrário do que implicitamente diz Ramon, nem sempre existiu e pode desaparecer. Aliás no atual estágio ele cumpre a função mínima de desviar a riqueza produzida socialmente para os bolsos da elite e socializar os prejuízos, o que indica que a morfologia de seu funcionamento está se esgotando e isso desnuda um problema interessante: se, capital e estado se complementam, o esgotamento de um, ao mesmo tempo, pode ser o de outro, implicando uma emergência revolucionária. Muito embora, no atual cenário se o Estado ruir – coisa que os neoliberais definitivamente não desejam – restariam feudos e corporações.

Nesse ponto é preciso que a esquerda esquerdize-se e assuma seus fantasmas. É preciso que novamente a tradição de todas as gerações mortas oprimam como um pesadelo nossos cérebros, que conjuremos ansiosamente em nosso auxilio os espíritos do passado. Sem a atávica abstração nem romantismo que inevitavelmente jogam lenha na fogueira da direita, mas partindo do reconhecimento das necessidades político-econômicas e de organização revolucionária, algo que sabemos não estar alicerçada em formas individualistas de ação ou na utopia de inclusão pelo mercado. Algo sem o qual a direita continuará a crescer… Talvez, tudo isso ou nada disso explique o crescimento da direita.

NOTAS

*** Texto originalmente publicado no LavraPalavra

[1] Acabou de publicar o livro Cartas Estudantis, é doutorando em filosofia política pela Unifesp e membro do CEII.

[2] Esse artigo é imprescindível para aqueles que desejam compreender o fenômeno da direita atual, seus grupos de financiamento, sua estrutura e forma de militância https://theintercept.com/2017/08/11/esfera-de-influencia-como-os-libertarios-americanos-estao-reinventando-a-politica-latino-americana/?comments=1#comments

[3] Fernando Schüler, acadêmico e colunista associado ao Instituto Millenium.

[4] Conferir em: PIKETTY, T. O capital no século XXI. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014 p. 368.

[5] Conferir em http://www.revistacampoaberto.com.br/2017/08/16/guerra-declarada-ii/

[6] http://passapalavra.info/2017/08/114769

[7] https://www.pragmatismopolitico.com.br/2017/05/necessidade-rebelar-apologia-revolucao.html

[8] Entendemos que depois da morte de Hegel houve uma pacificação de sua filosofia que fora desvirtuada de seu princípio francamente subversivo a partir de Schelling, por isso o quase-hegeliana. Tal modo de concepção da filosofia de Hegel, no entanto, como sabemos influenciou uma gama enorme de pensadores e só muito recentemente, o núcleo subversivo fora recuperado.

[9] NIETZSCHE, F. Fado e história p. 165 (in: ______________. Genealogia da moral; uma polêmica. São Paulo: Companhia das Letras, 1998

[10] Noutra parte, no tom bem humorado e suábio Hegel despenca: “esses rapazes, brigam, lutam e se amotinam para logo depois se casarem!”­­

[11] http://dazibao.cc/wp-content/uploads/2015/11/A-insurreic%CC%A7a%CC%83o-que-vem-CI.pdf

https://we.riseup.net/assets/262783/AosNossosAmigos2014.pdf

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Filosofia Formação

Por que a verdade é monstruosa?

Por Douglas Rodrigues Barros[1]

 

Nos idos de 2010, quando o senhor ex-presidente Lula dizia a plenos pulmões que enquanto nos países centrais a crise econômica do subprime tinha sido um tsunami, no Brasil tinha sido apenas uma marolinha. Estava eu nas fileiras de um debate com a presença de um grego que acompanhava as fortes revoltas em Atenas. Naquela época escutei da boca dele algo que tomei como premonitório e que se revelaria previdente mais tarde: “O Brasil não passa por nenhuma crise”, dizia, “E já é essa barbárie… imagina quando a crise chegar por aqui!”.

Como sabemos, a crise chegou e trouxe à luz o que só se sentia no inconsciente coletivo da chamada esquerda. Toda podridão reacionária subiu dos bueiros e ratos de todo tamanho ocultados pelas valas perderam o medo e saíram das sombras. Como num relógio com ponteiros atrasados, experimentamos só muito depois – em descompasso com o mundo desenvolvido – o fracasso da experiência trabalhista. A degeneração imposta pela legalidade e rotinização da pauta dos trabalhadores, o fracasso modernista, a noção de progresso teleológico rumo ao futuro desenvolvimentista encontraram limites incontornáveis. Atingíamos o fim do ciclo de uma experiência que se iniciou com a Carta de 1988 e, com ele, todos os restos podres da velha oligarquia que tinha sido ocultado pelo pacto de paz social vieram à luz.

Os sonhos de aplicar um modelo mais humanista ao capital com um governo capaz de levar as pautas sociais adiante por uma via parlamentar e democrática, verteu-se em pesadelo. Ainda que promovamos imensos debates com os pensadores da moda do Facebook. Ainda que suprimamos e abafemos qualquer voz crítica e destoante do reformismo-conservador e dos bons modos democraticistas no balcão de negócios chamado Estado. Ainda que queiramos convencer a imensa maioria que a política se faz desse modo. A verdade de uma democracia representativa feita para evitar uma democracia efetiva revela sua face mais cruel, qual seja: o assassinato diário de jovens pobres e negros promovido pelo Estado. Como diz o panfleto anarquista: “até no seu silêncio, a população parece infinitamente mais adulta do que todos os fantoches que se atropelam para a governar”.

O atual modelo de gestão da barbárie parece ter se esgotado e nada há no horizonte que aponte algo propositivo, pegos de calça curtas, enquanto a ingenuidade clama por uma suposta unidade da esquerda conquistada pela submissão de toda divergência a pauta governista e eleitoreira, a direita avança disputando o imaginário daqueles que ela explora. A barbárie do governismo de esquerda que era inconsciente, isto é, se aplicava só nas periferias pelo extermínio da juventude pela polícia, nas áreas rurais tomadas pelo agronegócio, pelo roubo das terras indígenas, se tornou doravante consciente e já em Copacabana é possível ver tanques de guerra desfilando. Temer é sua mais concreta verdade.

Do lirismo democrático-representativo e bem-comportado a população, entretanto, parece estar farta! Mas, o grosso da esquerda – em sentido literal – espera calmamente a eleição de 2018 para emplacar sua reconquista da desgraça. Enquanto a palavra revolta sumiu do dicionário da esquerda, a palavra revolução se tornou coisa de herege. As marchas cívicas que imitam o modus operandi da extrema direita – passeata bem-comportada aos domingos – sugerem sua verdade. Atores globais engrossam as fileiras, o simbólico vazio de conteúdo só deixa evidente a emergência e a posição de recuo.  O horizonte decrescente caminha como um colosso desperto a largos passos.

Parece que a derrota da esquerda se tornou inevitável porque o próprio modelo de que é partidária se esgotou, não apenas politicamente, mas, principalmente economicamente. Aliás, o modelo político só se esgotou porque o modelo econômico não encontra mais possibilidade de crescimento senão pela imposição da repressão clara, direta e massacrante. Enquanto a esquerda romanceia nostalgicamente uma volta quase sebastianista de Lula, a direita sabe muito bem cumprir a agenda de que é perita. A direita toca fogo em Roma, seremos nós os bombeiros?

É passado o momento de uma crítica que não tenha medo dos excessos. O exagero é condição necessária de tornar o impossível, possível. Não resta outra coisa. A pena para a covardia ou a reticência perante o óbvio é a morte de centenas na fila dos hospitais que já passam pelo desmonte do governo que usurpou o poder; é o analfabetismo funcional beligerantemente fascista que grassa nas periferias como única forma de superar a crise; é a instituição da monstruosidade feudal ligada as oligarquias financeiras que tomarão conta de áreas populares essenciais, enquanto a nova religião sob a insígnia de neopentecostalismo capitalista fomenta um país fundamentalista, surdo e violento. É preciso que a imaginação estruture uma nova forma de sociabilidade.

Ao mesmo tempo é necessário puxar o tapete de esperança dessa esquerda que hoje já se apresenta como uma peça envelhecida no xadrez do capital. Essa esperança é o conformismo de se aguardar até que as coisas voltem para seu devido lugar. É preciso dizer de novo: não há mais lugar, os limites foram implodidos pelo desenvolvimento histórico do capitalismo. Como dizia o sábio Abujamra: “a esperança fodeu a América Latina!”. A pergunta que deve ser feita é: será mesmo que o parlamento não se tornou o fim fetichista dessa esquerda? Será mesmo que o único intuito que ela tem não é senão retomar a governabilidade do barco que lentamente naufraga e os delírios de acreditar ter nas mãos o poder?

A falência dessa esquerda que se forjou nos idos finais da década de 1970 demonstra que aquela paixão pela pratica, imediata e irrefletida, legitimou não apenas um falso ativismo, como também, uma falsa alternativa emancipatória. A ação desesperada mediante a crise deve ser o monopólio dessa esquerda, que atávica, acredita que sua forma de vida permanece intacta enquanto dá seus últimos suspiros. Não estava certa as palavras do esquecido revolucionário que cem anos atrás deixava um importante ensinamento quando dizia que: “as divergências de opinião entre partidos políticos […] são em geral resolvidas pelo próprio correr da vida política e pelos debates teóricos. Em especial, sob a pressão dos acontecimentos, que desmentem os raciocínios errados e os privam da sua razão de ser”?

Para seguir esse ensinamento, entretanto, é preciso nos despojar das velhas figuras cujo cadáver já cheira mal, pois a pressão dos acontecimentos indica que erramos, o que é comum e esperado, se agarrar ao cadáver e apodrecer com ele é, no entanto, patológico. Isso nos ensina algo elementar, nós nos refugiamos em cenários catastróficos para evitar a contradição concreta da vida, as imagens da catástrofe, tão amplamente divulgada pela torpe TV brasileira, a polarização virtual e o xingamento satisfatório, em vez de fornecer o acesso ao concreto da vida, a vida real, funcionam como escudo protetor contra a concretude. Isso se revela na confortável sensação de que a tragédia só acontece com o outro. É como uma medida de defesa desesperada que erguemos os fantasmas virtuais e as soluções que giram no interior abstrato da rede social. Eis porque a verdade é monstruosa, porque nos revela nessa patologia que no fundo todo esse apego e polarização é baseado num narcisismo das pequenas diferenças. Esquerda/Direita se tornaram o mesmo bater de botas. Só iremos nos distanciar disso se formos insubmissos ao que reza a cartilha do mercado[2].

 

 

 

NOTAS

[1] Acabou de publicar o livro Cartas Estudantis, é doutorando em filosofia política pela Unifesp e membro do CEII.

[2] Tanto o título quanto essa reflexão foram obtidas através da obra de Žižek, O absoluto frágil, sobretudo no capítulo homônimo ao meu artigo

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Filosofia Intolerância Religião

Não fale em nome de Deus

Por Douglas Rodrigues Barros **

Semana passada circulou em vários grupos de Whatsapp um texto supostamente escrito por um deputado que tem em seu currículo não apenas a liderança religiosa, como também, a acusação de abuso contra uma mulher e a contratação de cinco pastores que não cumpriram as funções determinadas pelo cargo: o famoso empregado fantasma. Haja vista, contudo, que tais textos não são criteriosos e dificilmente se comprovaria a autenticidade da autoria, o seu conteúdo, não obstante, é no mínimo estarrecedor e antirrepublicano no sentido mais baixo do termo. O pequeno artigo em questão buscava justificar o voto do deputado contra a investigação sobre Michel Temer, baseando-se numa suposta ordem divina ipso facto.

É mais que evidente que, nos últimos anos, a influência de algumas igrejas evangélicas na política se tornou assombrosa. O famoso parlamentar Eduardo Cunha, por exemplo, que faz parte da Assembleia de Deus – ministério Madureira – foi acusado pelo procurador-geral da República Rodrigo Janot de utilizar essa igreja para receber 5 milhões em propina[1]. Além disso, os casos de corrupção, abuso de poder e desrespeito as diferenças cometidos por parlamentares ligados ao neopentecostalismo são muitos e bem conhecidos.

Não se pode tomar, porém, a parte pelo todo. Sabe-se do trabalho efetivo que muitas igrejas evangélicas fazem nas periferias e, mais importante que isso, do sentimento sincero de muitos dos adeptos dessas igrejas que majoritariamente são mulheres e homens pobres. De fato, a religião continua sendo o coração de um mundo sem coração (Marx). E qualquer apreciação supostamente ateia-iluminista soaria estéril frente a falta de expectativas reais de melhoria social ou de locais de recreação, entretenimento e aprendizado que, na sua total ausência, transfere para as igrejas evangélicas o tributo da socialização.

Eu poderia ainda tecer críticas utilizando-me do materialismo vulgar ou do ateísmo religioso que no fundo reafirmam a fé em uma ciência que fora igualmente mistificada pela sociabilidade mercadológica. Sabemos, contudo, que o ateísmo voltairiano é conquista de poucos rincões “iluminados” e endinheirados. Contra todos os prognósticos políticos e filosóficos, a religião continua sendo elemento social cuja importância, não poucas vezes, fora subestimada. Ela “a despeito dos seus múltiplos significados se manteve, mesmo que a fé saia de um deus todo-poderoso e passe para as últimas pesquisas da nanotecnologia”[2], o véu de maia permanece intacto. Tal verdade deveria ser matéria de discussão, mas pouco ou nada se fala a respeito, mesmo sabendo que o legado cristão é precioso demais para ser deixado aos fanáticos fundamentalistas, assistimos boquiabertos a nova espiritualidade proclamar seus ritos e morais em tempo real na televisão.

Do Oriente ao Ocidente, do Oiapoque ao Chui, a crença continua produzindo a sombra de um sentido para milhares de almas que enxergam, na atual sociabilidade capitalista, a podridão e a falta de razões para a existência. E isso desde a fé de Nova Era – espiritismo, budismo, umbandismo classe-média, esoterismo –, passando pelo neopentecostalismo, até a desvirtuação do Islã. A religião permanece, portanto, como fonte de respostas aos anseios da alma que esvaziada pelo consumo, se volta para a felicidade eterna por meio de um mundo extra-humano.

O problema, entretanto, surge quando, num processo regressivo, a “religião” – utilizo as aspas para indicar que estamos falando de algo específico – se utiliza da fé e em nome de Deus passa a fazer política. Os exemplos dessa maldição são muitos: desde os massacres envolvendo protestantes e católicos até a justificação na perseguição de etnias e grupos de outras crenças.

Ora, o que fundamentou os direitos universais do homem foi a conquista da liberdade religiosa. Conquista que só pôde ser efetivada a partir do momento em que a Religião deixou de estar atrelada ao Estado. Como consequência é possível compreender que uma das conquistas mais profundas da Revolução Francesa fora a separação entre o Estado e a Igreja. Essa conquista torna-se assim um bastião inabalável da própria liberalidade democrática fazendo com que sua defesa seja intransigente e independente do posicionamento no espectro político. O Estado é laico, e sua laicidade é o pressuposto da própria liberdade religiosa.

Assistimos hoje impassíveis,  cada vez mais o perigo do crescimento de líderes religiosos vinculados à política partidária. Tais lideres justificam seu conservadorismo e no nome de Deus cospem preconceito e ódio insuflando a crença em um inimigo imaginário para se elevar politicamente. Ora, qualquer consciência minimante informada sabe como esse obscurantismo é catastrófico para a vida social numa simples pesquisa na internet se chega à conclusão de como os desastres da aproximação Estado/Religião influíram em massacres, censuras de pesquisas, destruição de livros, etc. O sonho por um Estado religioso, portanto, sempre esteve permeado pela negação radical – ou seja, pelo massacre – daqueles que não creem no mesmo. E o ódio pelas diferenças, propugnados por esses mesmos líderes, deveria ser nosso sinal de alerta.

 

** Acabou de publicar o romance Cartas Estudantis, é doutorando em filosofia política pela Universidade Federal de São Paulo.

[1] http://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/janot-acusa-cunha-de-usar-assembleia-de-deus-para-receber-propina/

[2] https://lavrapalavra.com/2017/03/17/deus-no-diva-reflexoes-sobre-a-monstruosidade-de-cristo/

Imagem de Cleiton Custódio Ferreira

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Direitos Humanos Filosofia

O mundo já acabou

 

 

Por Douglas Rodrigues Barros (1)

Com desemprego na casa de 13,7% e sua leve redução dada a contratação no setor de trabalhos informais, a estatística já demonstra a nova tendência na reformulação proposta pela (PLC) 38/2017, a lei da reforma trabalhista. Com a continuada queda do consumo das famílias (-0,1% em relação ao trimestre anterior), o endividamento e a crescente desigualdade entre os próprios trabalhadores, o quadro de suspensão e tensão econômicas por meses subsequentes se mantém inalterado(2). A esquerda, desmontada por anos à fio de lulismo, se debate em torno de sua reorganização e construção alternativa; a direita mantém sua ortodoxia neoliberal por meio de ajustes infrutíferos e, para uma realidade tão desigual como a nossa, desumanos. O que ambas têm em comum, infelizmente, é a crença na possibilidade de retorno a um estágio de crescimento e desenvolvimento econômico.

Fica cada vez mais claro, no entanto, que com o processo global de crise – cuja crise é nesse caso a própria forma de governo – se tornou socialmente impossível governar a economia capitalista sem se proceder a uma subsunção fundamental do político ao econômico. Em outras palavras, a noção, outrora ideologicamente sustentada, de uma cisão entre a economia e a política deixou de existir e para a população no geral resta evidente que todos os que se acotovelam por um cargo político tornam-se fantoches do espectro econômico no dia seguinte à posse.

Sendo assim, o impasse imanente da situação de crise, que vinga hoje nos quatro cantos do Brasil, deveria ser um sintoma claro da impossibilidade de um retorno ao Estado de bem-estar social que nunca tivemos: ficam evidentes a impossibilidade de exploração da força de trabalho de grandes contingentes da população, o total abandono de qualquer ordenamento jurídico ou de intervenção política nas áreas periféricas, a interminável guerra contra um inimigo interno escolhido pela cor da pele, o fim do direito positivo num Estado de Exceção que se tornou normatizado, bem como o encarceramento e assassinato daqueles que não podem ser absorvidos pela dinâmica interna ao sistema.

Por enquanto, parte da esquerda ainda consegue vislumbrar a inter-relação desses problemas. Para esta parte se tornou visível que o domínio do Estado de exceção – a bem dizer, nunca completamente exorcizado da vida diária de milhares de brasileiros – sustentado pela exclusão social impossibilitou os “grandes projetos” neodesenvolvimentistas do PT durante mais de uma década, bem como: a consolidação democrática. Como, no entanto, tais posições raramente refletem sobre a dinâmica global, a sua intervenção e tentativa de reorganização se limita a esfera política como lugar de alguma potencialidade construtiva e minimamente republicana.

Nesse passo, a melancolia, que domina a reflexão chorosa, debate-se contra o monstro neoliberal, antidemocrático e maléfico cujo processo de regressão é visível em todos os níveis. O choro desemboca na invocação política de um governo representativo e “legitimamente eleito”. Não se faz menção ao componente recíproco do Estado enquanto centro dinâmico e subalterno ao capital em sua relação direta com uma democracia representativa nascida para ser o empecilho de uma democracia real. Ainda estamos nos comovendo no interior de um universalismo formal no qual o direito se relaciona com a capacidade de produção do valor, isto é, com a competição por um lugar ao sol no mercado de trabalho. De resto sobram os párias. E, assim, o impossível que é salvaguardar ad infinitum a estrutura de exploração do capital torna-se “possível”, uma vez que o fim do capitalismo é vendável como utopia mesmo por aqueles que dizem detestá-lo.

Mesmo nas mais avançadas teses, no interior do que sobrou do movimento obreiro hegemonizado pelo PT durante anos, resta todos os vícios e crenças ilimitadas na possibilidade de manutenção das relações capital/trabalho. Sob a sombra de um silêncio retumbante das massas ante reformas que destroem o que sobrava de direitos, não se leva em consideração que em 2014 já eram 12,5 milhões de trabalhadores vivendo de empregos terceirizados [3]. Um velho sábio disse lá atrás que a verdade é sempre revolucionária, entretanto, a esquerda mesmo nos mais adiantados simpósios faz do etapismo sua válvula de escape. Primeiro uma coisa, depois outra… a mesma cantinela que a fez sucumbir permanece como sabedoria de quinta, ignorando o fato de que não é mais possível gerir o capital sem superexplorar os trabalhadores.

Em vias disso, é preciso levar em consideração que o mundo tal como o conhecíamos, de horizontes progressistas e de futuros iluminados, não é mais possível. Nem mesmo a mais ardorosa esperança num novo crescimento econômico que leve o desenvolvimento para rincões do país pode superar a contradição que atende pelo nome de crise estrutural.

Não quero dizer, com isso, que o capitalismo esteja no fim, ele sempre foi hábil em se reestruturar por meio – como disse David Harvey [4]– da socialização dos prejuízos e da privatização do lucro, tornando a crise fonte para um impulso renovado. O que quero dizer, porém, é que as esperanças de um período áureo do capitalismo – que vai do final da Segunda Guerra até 1970 – não é mais possível. Nesse sentido, o mundo já acabou e é necessário que recriemos o novo a partir das ruínas e não tentemos salvar aquilo que já apodrece.

A manutenção de uma fé que possa salvar-nos da fase perigosa e destrutiva do capital, quiçá, nasça da incompreensão desse fato, pois mesmo os fenômenos óbvios demonstrados nas massas de supérfluos, no encarceramento crescente, na militarização da vida e na horda de refugiados que naufragam em algum lugar do mediterrâneo não conseguem por fim na esperança de um governo que nos leve de volta ao eixo.

De um lado, um amplo setor da esquerda acredita que a representatividade formal e os direitos humanos possam ser nossa tábua de salvação. Ora, como bem demonstra Rancière, a vitória das liberdades individuais simbolizada pelos direitos humanos traduziu o seu negativo; onde há atuação dos direitos humanos, há homens cujo direito não existe, da horda de refugiados que sangram com suas famílias em fronteiras fechadas na Europa, ao menino assassinado pela polícia no Brasil, o que os direitos humanos revelam é que o Estado de Exceção se tornou o conteúdo real de nossa democracia [5] . Da mesma forma, os marcos da democracia representativa revelam em seu conteúdo a impossibilidade de mudanças para uma democracia efetiva.

De outro lado, o reforço de movimentos neofascistas – em caráter mundial – que buscam reconstituir uma soberania nacional, salvaguardar características culturais e fazer elogio aos supostos valores perdidos na tentativa de reconstituir uma soberania que se desintegra demonstra o desdobramento que a crise 2007/09 efetivou [6]. Uma tentativa de resposta tresloucada a crise na valorização do capitalismo global que não consegue mais ser controlada pelos instrumentos neoliberais e nos quais esses grupos veem mais e mais atrelado a figura do Estado como uma política flácida e em colapso.

Em ambos, a complementaridade: a esperança na possibilidade de manutenção das coordenadas sempre existentes no interior de um sistema que apodrece lucrando a taxas astronômicas. Quer dizer; em ambos a cegueira ante o fato de que qualquer que seja o resultado desse jogo de cartas marcadas, em primeiro lugar, o mundo de paz e prosperidade social no capitalismo definitivamente é uma ilusão; em segundo lugar, qualquer esperança de distribuição equitativa nas suas relações sociais, culturais e político-econômicas é uma mera quimera. Isso demonstra, portanto, que aquele mundo do American Way of Life definitivamente acabou.

 

NOTAS

[1] Acabou de publicar o romance Cartas Estudantis, é doutorando e Membro do CEII

[2] Fonte IBGE.

[3]Ver em https://www.dieese.org.br/notatecnica/2017/notaTec172Terceirizacao.pdf

[4] É mais ou menos isso que diz o geografo marxista.

[5] In: Rancière, J. Ódio à democracia. São Paulo: Boitempo, 2014, p. 26-7

[6] Refiro-me a nova podridão que nasceu no final do século XX (ver: http://es.metapedia.org/wiki/Identitarismo

 

 


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“Com certeza sou mais um marginalizado”: uma conversa com o autor de Cartas estudantis

 

“As Cartas Estudantis só têm essa proximidade com a política porque suas personagens estão implicadas no mundo social, trata-se de uma estudante e um “ex-estudante”. Agora, é inegável minha aproximação com a política, sou militante da Uneafro e comunista“.

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Mbira – o instrumento-símbolo de um povo

Por Luiza Gannibal

Entre junho e agosto de 2016, estivemos no ventre do mundo: Zimbábue – África profunda.

DZIMBA DZEMABWE. Casa de Pedras. Fortaleza espiritual.

Nosso propósito era investigar as especificidades deste solo semi-árido donde brotou a riquíssima cultura do povo shona que, agora, podemos definir numa só palavra: Mbira.

Na bagagem, trouxemos um material vasto, projetos mil, e a vontade de partilhar essa história.

Mas… o que é Mbira?

Mbira é o nome em língua shona para o instrumento tradicional do POVO SHONA (comunidade pertencente à família etnolinguística BANTU, difusa por grande parte da África subsaariana), que vive, em sua maioria, na região do ZIMBÁBUE, país que faz fronteira com a Zâmbia, África do Sul, Moçambique e Botswana.

A mbira pertence à família dos lamelofones. Lamelofones são populares por toda África, e, via de regra, eles variam em número de teclas, disposição das notas, e se possuem (ou não) um ressonador (uma cabaça ou caixa de madeira que repercute o som). Kalimba, sanza, likembe, kisanji e gongoma são alguns dos nomes dados a lamelofones africanos de acordo com suas características particulares e região/povo a que pertencem.

Além de ser o mais sofisticado dos lamelofones africanos, a MBIRA foi o primeiro lamelofone a surgir na África – mais especificamente no Vale do Rio Zambeze ao norte do Zimbábue –, sendo uma espécie de protótipo para todos os outros.  

Não é possível se referir à mbira, portanto, apenas como um instrumento. Pelo menos não da maneira que se faz no Ocidente. A mbira designa, obrigatoriamente, a cultura shona e, nesse viés, a espiritualidade desse povo da África Bantu.

A mbira faz parte do povo, e o povo, igualmente, faz parte da mbira.

Como relata o professor Perminus Matiure, servindo de meio de comunicação entre os vivos e os mortos, “a mbira age como um repositório da espiritualidade shona”.  Em rituais chamados de “bira”, ela é tocada para os ancestrais, que, por falarem a língua da “música de mbira” – cuja gramática é composta por temas tradicionais -, são atraídos para a dimensão dos vivos, onde o tempo sagrado é assim instaurado.  Daí o nome “mbira dzaVadzimu”, que significa mbira dos (dza) ancestrais (Vadzimu).

Em “The Soul of Mbira”, Paul Berliner explica: “Um mandamento tradicional da religião shona postula que, após a morte, os espíritos das pessoas continuam afetando a vida de seus descendentes. Em outras palavras, o mundo dos vivos está em função dos acontecimentos do mundo dos espíritos. ” Daí a importância do diálogo permanente com essa arena mítica.

Outro nome dado à Mbira dzaVadzimu é “Nhare” que, em shona, significa telefone. E aqui a dimensão sagrada fica ainda mais evidente: ou seja, trata-se de um instrumento que, ao ser executado (ao tocar) conecta dois universos.

“A mbira é o instrumento musical tradicional primário do povo falante da língua shona. Ele tem sido tocado desde tempos imemoriais. A mbira é a voz dos espíritos (mbira i zwi re midzimu). Quando tocamos a mbira, nós estamos chamando os espíritos, e essa voz é forte o bastante para ser ouvida na morada dos ancestrais (nyikadzimu).” – diz, direto de Chinamassa, aldeia shona de Nyazura, no Zimbábue, nosso querido mestre Barnabas Ngalande.

Berliner complementa: “No contexto da Bira, as pessoas acreditam que a mbira tem o poder de projetar seu som pelos ares e alcançar os céus, estabelecendo uma ponte entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos, e atraindo, assim, a atenção dos ancestrais.”

A despeito de haver inúmeras “Áfricas”, há, segundo o tradicionalista Hampâté Bâ, algumas constantes em todas as tradições africanas: a presença do sagrado em todas as coisas, as relações entre os mundos visível e invisível e entre os vivos e os mortos. Não é à toa que nossa passagem pelo Zimbábue esteve sempre cercada de reiterada espiritualidade.

A Mbira Nyunga Nyunga

Outra mbira bastante popular no Zimbábue é a Nyunga Nyunga. Ela foi trazida para o Zimbábue pelos VaNyungwe, povo da província de Tete, em Moçambique.

Por ser de mais simples entendimento, ela é largamente utilizada nas escolas e como primeiro aprendizado daqueles que se interessam pelo instrumento. Tivemos (e temos) alguns mestres no Zimbábue que tocam e fabricam a Nyunga Nyunga, como o Barnabas, já mencionado, e Ticha Muzavazi, que faz um belíssimo trabalho com crianças especiais.

Fabricar e tocar, aliás, são atividades que caminham juntas em toda África, revelando o caráter orgânico (e não industrial, como o é no Ocidente) da relação das pessoas com os elementos que compõem sua existência essencial.

Ambas as mbiras, cabe frisar, são instrumentos-símbolo de resistência de uma cultura que teima em seguir adiante, aferrada a suas raízes, apesar dos pesares e dos “desgovernos” que acometem o povo shona – íntegro o bastante para perceber que a tradição é imprescindível como forma de blindagem contra as influências perniciosas: sejam elas mundanas ou espirituais.

Cultura é identidade. E a música, o modo mais natural de expressá-la. Ao dedilhar sua mbira, portanto, o homem shona expressa o que é – e, dessa maneira, pode “ser” no mundo.

Mbiracles

Por mais de 300 anos, africanos de origem bantu chegaram aos portos brasileiros, constituindo-se no maior contingente de negros a entrar no país. Apesar da invisibilidade que desejou se dar a essa influência grandiosa, as marcas do legado bantu estão em nossa música, língua, instrumentos, estratégias de resistência (quilombos), danças, técnicas de trabalho, e, claro, no fenótipo de nossa gente.

Sendo um elemento autêntico e paradigmático de uma cultura riquíssima, portanto, a mbira, segundo o músico e fabricante de instrumentos africanos Fabio Simões, é “um cordão umbilical do tempo”. Uma maneira pela qual podemos reaver de forma íntegra esse legado ancestral que nos foi, outrora, drasticamente subtraído, e que nos conecta à “mãe” – palavra que pode também ser entendida como “terra”. Afinal de contas, o menino africano se torna homem quando parte do regaço da mãe biológica para os braços da mãe-natureza. E a música, rebento desse ambiente natural, é sua maior forma de expressão.  

A proposta do projeto Mbiracles, assim, é a vivência da música tradicional africana sob o prisma dessa mãe-natureza, dessa terra ancestral. É a reflexão prática de “quem somos nós” a partir de artefatos que enredam uma cultura milenar, telúrica, e que, como as pirâmides do Egito, ou, mais apropriadamente, as ruínas do Grande Zimbábue (a maior estrutura pré-colonial da África Subsaariana), nos indicam os caminhos que traçaram os homens que nos antecederam, as músicas que cantaram, as melodias que dedilharam. Sendeiros sonoros que perfazem, com efeito, a linguagem-raiz desse homem. Uma linguagem que nos falta – e que, por isso, nos cabe.

Como sugere o símbolo da Sankofa, o retorno às origens é necessário para que possamos seguir adiante. São nossas raízes, nossos pés, fundamentos, pilares. “Para destruir um povo, basta destruir sua cultura”, afirmou Franz Fanon. Daí que, para sermos um povo, e tudo que isso comporta, precisamos reconstruir nossos laços com a África. Ativamente.

Mbiracles é um projeto que pretende trazer à tona, através de uma série de atividades cujo núcleo é a mbira (oficinas, palestras, exposições, instalações), a África mãe. Essa África que diz tanto a respeito de quem somos e de onde viemos.  

Eis a música: meio capaz de traduzir com maior expressividade e ludicidade a cosmovisão de um povo. Eis a mbira: instrumento que está no cerne da tradição shona.

Venha conosco conhecer e praticar a mbira.

Estamos na rede:
www.mbiracles.com
https://www.facebook.com/mbiracles/

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Filosofia Política

Letícia Sabatella em The Walking Dead

Leticia

 

Por Douglas Rodrigues Barros, do Blog O Estranhamento

 

Para Žižek: “O conceito de ideologia deve ser desvinculado da problemática “representativista”: a ideologia nada tem a ver com a “ilusão”, com uma representação equivocada e distorcida de seu conteúdo social”. Ao fazer essa afirmação, o filósofo esloveno subverte a noção, até aqui comum, de que a ideologia é um olhar turvado sobre o mundo. Não. A ideologia é a nossa própria forma de se envolver com as verdades do “inalcançável real”, de desenvolver nossas interações sociais em suas formas simbólicas.

Com essa “subversão” teórica, Žižek abriu as cortinas para um olhar renovado sobre as produções artísticas e culturais e, desse modo, nos possibilita analisar a maneira pela qual a ideologia se expressa no cinema hollywoodiano. Ora, sabemos como a ideologia cataclísmica que se apresenta no neoliberalismo nos faz interagir com nosso cotidiano. O individualismo premente pregado pela doutrina taylorista nos coloca como únicos e inteiros responsáveis pelo “sucesso” não apenas nosso, como da “companhia”. É por meio dela que nos vigiamos uns aos outros e disputamos vagas no interior do deus-mercado. Deixamos então de ser o eu-mercadoria e passamos a ser o eu-empresa.

Não há dúvidas, porém, que a sétima arte apresenta o lugar privilegiado no qual essa verdade se expressa. Em um dos últimos filmes catastróficos – 2012 – a presença da ideologia se apresenta na responsabilidade que o personagem principal do filme tem para salvar sua família. Ao descobrir a catástrofe iminente, o empregado precarizado, motorista particular de um grande magnata e mafioso russo, tenta maquinalmente encontrar uma solução.

Para quem não assistiu ao filme é preciso dizer que os grandes acionistas e milionários mundiais – ou como gostam de dizer por aí os 1% da população – já se salvaram, pois, compraram seu passaporte para a arca de Noé. Como resultado temos que o herói do filme ao tentar salvar a si mesmo e a sua família, nos demonstra como todos os lastros sociais estão perdidos e o individualismo é imperante. A ideia central se desenvolve na esfera de que é tarde demais para uma resistência popular.

A arca de salvação, dos acionistas milionários e banqueiros, sairá da China, o último lugar em que a catástrofe tocará. Ou o lugar responsável por forçar, com o excedente de capital poupado, os Estados Unidos a financiarem, por meio de um déficit crescente, sua tentativa de sair da enorme crise financeira existente desde 2008. Enquanto o herói corre em disparada para encontrar uma vaga na Arca, vemos continentes inteiros serem dissolvidos.

“hei, a minha mensagem é para você consumidor/trabalhador/capitalista; o zumbi aqui é você”.    

Nesse filme, a ideologia se revela em sua verdadeira faceta que pode ser sintetizada na famosa frase: après moi le deluge (depois de mim, o dilúvio!). Ao final se revela com clareza aterradora – os pontos fortes do cinema hollywoodiano – o que se oculta na máxima de que: sob o neoliberalismo estamos no melhor dos mundos possíveis. O mundo acaba, mas o liberalismo continua, pois todos os acionistas, banqueiros e industriais se salvaram. O mundo se torna maravilhoso, uma espécie de paraíso perdido: não há mais pobres porque estão todos mortos!

Desse modo, os filmes, principalmente apocalípticos e pós-apocalípticos atuais que tiveram grande impulso, sobretudo, depois da crise de 2008, tornaram-se para nós, o que os romances do século XIX eram para os críticos de outrora, a saber: um periscópio pelo qual é possível enxergar as reais contradições no oceano do social.

É preciso dizer, entretanto, que uma forma de expressão, como é a cinematográfica, mantém autonomia em razão de sua independência artística. A forma revela uma busca independente por uma totalidade cujo fundo advém da criação. Uma obra grandiosa revela-se principalmente pela falta de intenção de seu autor, um abandono de suas posições, inclusive políticas, para que dê espaço ao personagem ou as personagens. E aqui o conceito de ideologia de Žižek se aplica de novo: não é a realidade que nos faz entender o cinema, é o cinema que nos faz entender a realidade.

Entendido isso chegamos enfim a tópica do presente artigo, qual seja: a temática dos mortos vivos. A temática dos mortos vivos não é nova, não por acaso, um dos primeiros impulsos atuais para esse tipo de filme surgiu pouco antes da década de 1970 se aprofundando nos anos 80. Mas, conta-se que há filmes desse tipo desde os anos 1930. Há quem diga que a abordagem clássica feita por George Romero é puramente política: A Noite dos Mortos Vivos (1968), Despertar dos Mortos (1978), Dia dos Mortos (1985), etc.

O contexto era o de guerra-fria, então, os zumbis seriam os comunistas que clamavam por cérebro. Naturalmente essa abordagem, intencional por parte desse diretor, vai se revolver no seu contrário. No Despertar dos Mortos, os sobreviventes vão se esconder num shopping e para lá correm centenas de zumbis

como se estivessem numa dessas promoções do Black Friday. Pablo Polese lembra que “Há um momento no filme em que toda a confusão cessa e a ordem típica de qualquer shopping (pessoas na escada rolante ao lado direito, etc) e de qualquer linha de montagem e qualquer rotina de trabalho assume. É o Romero dizendo “hei, a minha mensagem é para você consumidor/trabalhador/capitalista; o zumbi aqui é você”.

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Uma das características evidentes aí é a contradição não diluída da morte/vida. Os mortos vivem e os vivos precisam morrer. Uma dialética irônica que indica uma posição, nesses filmes, sempre minoritária daqueles que tem espírito; vida. Os mortos-vivos, pelo contrário, são sempre numerosos e os vivos uma minoria ínfima que ainda refletem, julgam criticamente e coletivamente às saídas para manter a espécie humana viva.

A explosão de sucesso, há pouco tempo atrás, do Walking Dead não é, por isso, um mero fenômeno de consumo. Poderíamos tomar suas metáforas como algo sintomático de uma realidade fantasmagórica que invade todos os poros da vida cotidiana. Seus autores indicam: há mortos por todos os lados, a única saída é coletiva e horizontal – não podemos esquecer da tirania do tal governador.

Semana passada um vídeo de Leticia Sabatella sendo acossada por centenas de militantes de extrema-direita lembrou uma cena brilhante da primeira temporada da famosa série:

Aquela em que depois de algumas semanas em coma, o herói se levanta e vendo que não há mais ninguém no hospital sai, arruma um cavalo e ruma para a cidade. Lá chegando, ao dobrar a esquina se depara com milhares de mortos errantes que avançam babando ao seu encontro, grunhindo e gesticulando.

Movimento similar aquele que houve com a atriz. O que os adeptos da extrema-direita atual deixam claro, com isso, é que quem não se parece com eles, ou que não optam por suas escolhas devem ser aniquilados. Esses são os mortos-vivos que saem do cinema e invadem as ruas. Quem for pego de vermelho deve ser devorado. O que lembra outra famosa cena da série, cena na qual alguns amigos tiveram que passar:

Há uma cena em que um rapaz asiático – salvo engano – remexe nas tripas dilaceradas de um morto-vivo para conseguir passar imune pela turba de mortos-vivos. A metáfora é clara nesse caso: seja igual a eles, vista o verde amarelo da camisa corrupta da CBF e serás visto com indiferença.

Aqui, precisamos encontrar, como diria Žižek, a realidade do virtual. Eu poderia concluir: a realidade do virtual se encontra na paulista em alguns dias de domingo.