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A arte popular e nossos mortos

por Lucas Gomes

 

Existe um estilo de música na Argentina que é em muitas coisas análoga ao funk carioca: a cumbia villera. O preto pobre periférico no Brasil não sabe o que o pobre periférico indígena escuta na Argentina, e vice-versa. Bem, na Argentina se escuta desde o fim dos anos 90′ a cumbia villera [cumbia favelera]. A cumbia é um estilo de música popular escutada em toda a América Latina, contando com algumas tradições próprias de países variados, como na Colômbia (mais tradicionalista) ou no Peru (que nos anos 80′ viu nascer a cumbia psicodélica). A cumbia popular argentina tem como um de seus principais ícones Gilda, cantora que morre no auge de sua carreira em um acidente de carro.

Mas a novidade surge a partir de uma banda que hoje é mítica, Damas Gratis, e seu cantor, Pablito Lescano. Se trata de uma cumbia de “baixo orçamento” que fala sobre mulheres (de forma misógina), sobre drogas (principalmente consumo) e sobre a polícia. Qualquer semelhança com o funk, temática ou cronológica, não é mera coincidência. Se alguém tiver interesse em conferir como soa esse estilo hoje em dia, também visualmente, pode conferir o clip da música “Yo uso Visera”eu uso boné.

 

*

 

Claudio Hugo Lepratti, também conhecido como “Pocho” [pronunciado como potcho] foi um militante social argentino assassinado aos 35 anos pela polícia da província de Santa Fe no dia 19 de dezembro de 2001. Foi uma das 36 pessoas mortas no Argentinazo, nos dias 19 e 20 de dezembro de 2001 que marcaram o auge da crise social e política que o país vinha vivendo. Suas principais causas foram o altíssimo desemprego e a crise da dívida soberana na qual culminou os anos do neoliberalismo argentino da década de 90′.

“Pocho” era um militante vinculado à teologia da libertação, atuou em organizações de bairro e também como ativista sindical enquanto trabalhador do estado. No ano de seu assassinato trabalhava como auxiliar de cozinha de uma escola situada em um bairro periférico da cidade de Rosario. Nos fatídicos dias do Argentinazo, como já se havia tornado comum pelo país nos anos anteriores, diversas porções da população empobrecida se dirigiam às principais cadeias de hipermercados para exigir comida. Ao ser-lhes negada, esta mesma população tomava a iniciativa de praticar saques a fim de remediar sua situação de miséria (busquem por fotos na internet e verão senhoras com bolsas e carrinhos de feira olhando para a polícia).

Entretanto, como a polícia existe para proteger o bom funcionamento do capital, estes atos eram reprimidos fervorosamente. Com esta desculpa, a polícia se aproximou da escola em que trabalhava Pocho dando tiros à esmo contra os moradores, o que incitou o militante a subir no telhado da escola e gritar a frase que seria sua lembrança póstuma: ¡Bajen las armas que acá sólo hay pibes comiendo! –  Abaixem as armas que aqui só tem crianças comendo! Foi assassinado com um tiro de escopeta. O policial que efetuou o disparo foi condenado a 14 anos de prisão, cumpriu 9 anos e hoje é militante do PRO, partido de Maurício Macri.

A música “El angel de la bicicleta” é uma homenagem do cantor León Gieco à Pocho, sendo a letra de sua autoria e a composição do pianista Luis Gurevich. O título faz referência ao apelido do militante, ganhado por usar muito a bicicleta como meio de transporte (e, obviamente, circular em um ambiente católico). León Gieco é um “cantaautor” famoso por engajar-se com causas sociais, é um dos herdeiros da “música de protesto” latinoamericana dos anos 60-70, Mercedes Sosa chegou a gravar algumas de suas composições. Para esta homenagem, no entanto, preferiu recorrer a um estilo que não costumava transitar, a cumbia.

A música de León Gieco, entretanto, é uma cumbia mais refinada e se sente isso principalmente na harmonia, com acordes inimagináveis em composições da cumbia villera original, e também um arranjo que não pertence ao estilo. Está lá sim o ritmo e os famosos solos de teclado com o timbre tão característico. Uma apropriação do artista para aproximar-se dos territórios que marcaram a trilha do militante Claudio Hugo Lepratti, brutalmente assassinado ao defender jovens estudantes. A letra é uma poesia dolorida, pois fala de um nós-lírico trágico, cindido: “nós deixamos isso acontecer. Por falta de poder para fazer que tudo seja diferente”.

Uma outra manifestação artística em homenagem à Pocho são os estênceis onde se vê uma bicicleta montada por uma pessoa com asas, imagem também presente em um monumento em sua memória na sua cidade natal, a pequena Concepción del Uruguay. Essa e uma figura de formiga, representando outro apelido seu, “Pochormiga” (Pocho-formiga) foram as formas que os artistas e ativistas encontraram de prolongar a memória deste militante assassinado pelas ruas dos bairros, como canta León Gieco em sua letra.

Abaixo compartilho uma tradução.

 

Trocamos olhos por céu

Suas palavras tão doces, tão claras

trocamos por trovões

 

Tiramos corpo, colocamos asas

e agora vemos uma bicicleta alada que viaja

Pelas esquinas do bairro, por ruas

Pelas paredes de banheiros e cárceres

Abaixem as armas

que aqui só tem crianças comendo!

 

Trocamos fé por lágrimas

Com qual livro se educou esta besta

com sanha e sem alma?

Deixamos ir um anjo

e fica esta merda

que mata sem se importar

De onde viemos, o que fazemos, o que pensamos?

Se somos trabalhadores, padres ou médicos?

Abaixem as armas

que aqui só tem crianças comendo!

 

Trocamos boas por más

e o anjo da bicicleta o fizemos de lata

Felicidade por pranto

Nem a vida nem a morte se rendem

com seus berços e suas cruzes

 

Vou cobrir tua luta mais que com flores

Vou cuidar de tua bondade mais que com plegárias

 

 

 

 

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Filosofia Formação Nazi-fascismo

O que explica o crescimento da direita?

Por Douglas Rodrigues Barros[1]

 

Semana passada um instigante e detalhado artigo publicado no The intercept Brazil[2] trouxe à tona aquilo que intuíamos, mas que, não obstante, carecia de um estudo mínimo que desse nome aos bois. O bom trabalho jornalístico de Lee Fang cumpre uma lacuna existente entre a forma aparente da atuação da direita – os meios de divulgação, a violência implicitamente contida nas suas mensagens, o trabalho de distorcer conceitos e fatos históricos, etc. – e sua estruturação material fornecida por grandes grupos empresariais, por meio dos think tanks financiados pelo Departamento de Estado e o National Endowment for Democracy (Fundação Nacional para a Democracia – NED), braço crucial do soft power norte-americano.

Todos aqueles que se preocupam com o caráter de desagregação social levado adiante por essas organizações, que atuam na tentativa de pulverização das forças políticas instituídas para engendrar uma abertura ao capital financeiro, deveriam ler este artigo que desnuda a atuação e financiamento de várias forças da direita – de conservadores à extrema direita – além do próprio MBL, Instituto Millenium et. caterva.

Com essa matéria, portanto, fica evidente que as formas de atuação da burguesia para deter avanços contrários aos seus interesses permanecem seguindo a fórmula de financiar sabujos que rezam seu credo, como as palavras de Schüler[3] deixam transluzir:  “O sistema previdenciário é absurdo, e eu privatizaria toda a educação”. Vale ressaltar ainda que a matéria surgiu coincidentemente na mesma semana em que a extrema direita estadunidense fez uma vítima fatal e, numa demonstração horrenda, acenderam tochas aquecendo todos os velhos fantasmas que o multiculturalismo identitário não conseguiu exorcizar.

Apesar dos elogios que faço ao artigo, entretanto, há duas coisas que se distinguem nele que gostaria de trazer para discussão com os leitores. A meu ver, duas ocorrências incômodas, que fazem parte do modo como se configurou a disputa política e o debate no interior dos pressupostos da sociabilidade “neoliberal”.

Em primeiro lugar, o uso da palavra “política socialista” – socialismo como algo correspondente às políticas aplicadas pelo governo do PT e pelos governos dito de esquerda na América Latina – juntamente com a alcunha de “libertários” dada aqueles que creem na utopia de mercado. Em segundo lugar, a redução conceitual perpetrada pela direita por meio das excepcionais alterações semânticas que limitam a prática política. Falarei desses limites não necessariamente na ordem acima exposta.

A respeito do termo “libertário” é preciso salientar que a disputa por esse conceito – originário da esquerda radical – visa incutir a ideia de que liberdade só é possível no interior das relações de mercado. Essa prática de redobrar os conceitos e distorcê-los à sombra de políticas pintadas de escolhas subjetivas – tão denunciado pelo socialista George Orwell – é historicamente conhecida. Da mesma forma, tomar para si formas de ação que eram da esquerda – como sair as ruas, fazer ocupações de espaços, etc. – é uma prática que remete aos anos 1920-30. O leitor atento já deve reconhecer os protagonistas dessas ações, oculto o adjetivo para não gastar. A crença no mercado também não é coisa nova.

Desde que o capitalismo grassou no mundo, a utopia de mercado acompanhou seu desenvolvimento. A mão invisível de Adam Smith não seria aquela força utópica capaz de regular sob condições ideais uma alocação eficiente de recursos escassos? Já em 1848 quando as ruas de Paris ardiam pela revolução que entronou a burguesia bancária surgiriam os primeiros embates entre socialistas e liberais. Estes últimos, que tinha no Journal des Économistes sua expressão, condenavam os socialistas como aqueles que “que empurram os poderes públicos a adotarem medidas artificiais incoerentes, prejudiciais e ruinosas” (Journal des Économistes, 1848, p. 2). Nada tão diferente de hoje.

Nesse sentido, deve-se ter claro que aqueles que adotam o mercado como um deus a ser seguido, a despeito da tragédia diária que esta forma de sociabilidade proporciona, não devem ser entendidos como sujeitos egoístas, senão como indivíduos que acreditam que o mercado é o melhor para a sociedade. Parece, assim, ser mais interessante buscar os fundamentos dessa fé para depois no interior de suas “teses” desmontá-las.

Mesmo com o reforço dessa crença algo, não obstante, fugiu do controle da cúpula burguesa. Vimos que a crise iniciada em 2008 implodiu por dentro a teologia, mas quanto mais se desnuda o deus, mais desesperador para seus fiéis é a falta de sentido que daí advém e mais se agarram ao cadáver. Como um jogo de cartas assistiu-se no outono de 2008 a queda sequencial dos grandes bancos de investimento em Wall Street. Quando o Lehman Brothers ruiu sob a ficção solenemente produzida e vivida por seus investidores, apresentou-se, finalmente, uma nova esquina da história. Toda essa implosão tem, todavia, precedentes anteriores:

Na lengalenga do mercado como o melhor para a sociedade ninguém pôde garantir que os reinvestimentos feitos pelos capitalistas retornassem à expansão da produção. Como isso não era mais interessante dado o baixo retorno imediato que os investimentos teriam sobretudo depois dos anos 1970, o capital deixou de “gerar e internalizar a sua própria demanda efetiva”. O resultado dessa lógica foi o crescimento do famoso exército de reserva, horda de desempregados que no início do século XXI impôs a muitos trabalhadores as áreas precarizadas, o constante crescimento e expansão do processo de terceirização no Brasil.

O fenômeno da globalização trouxe um limite geográfico a expansão e manutenção da taxa de crescimento de capitais, a tecnologia por sua vez, colocou um limite social ao trabalho como fonte de manutenção do consumo e processo de circulação de mercadorias. Com todas as suas contradições, a centralização de capital e seu progresso se autonomizaram “do incremento positivo de capital social”.

A teologia do mercado, porém, financiada pela alta burguesia, sobrevivente a despeito de seu cataclismo, passou a fornecer ainda mais cultos, palestras e dinheiro para convencer das benesses e perenidade do capital. Destacado da produção real, porém, a acumulação de capital tornou-se fictícia e o seu caráter abstrato se sobressaiu sobre seu caráter concreto de geração e produção de riquezas.

Além dos aspectos materialmente traumáticos da crise – como a expulsão de famílias inteiras de seus lares que não podiam pagar suas hipotecas – ela poderia ser vista também como a quebra da ideologia dominante. Nos EUA o processo de favelização e a ruína de grandes cidades levaram os trabalhadores, diante do vazio de uma esquerda radical, para os braços neofascista. Não havia qualquer organização revolucionária a altura do processo revolucionário, o que abriu caminho para a extrema-direita e sua retórica belicosa.

Isso desnuda a utopia de mercado propagada como ferramenta da burguesia no tabuleiro da luta de classes. Nós, não obstante, assistimos indefesos os Estados salvarem os grandes capitalistas, isso a despeito da crença de seus fiéis que o Estado não deve intervir na Economia. Desse modo, um novo processo cujo impacto social é ainda mais grave começou a ser produzido ao redor do globo: o inchaço nas dívidas públicas.

Tal processo, já conhecido e visto até mesmo pelo bom burguês Thomas Piketty levou a resultados desastrosos: a taxa de rendimento do capital passou a ser por um longo período muito mais alta que o crescimento da economia, levando ao forte crescimento da desigualdade[4] e a oligarquização da economia. A crise tornou-se afinal um bom negócio tanto como forma de governo quanto para os investimentos.

Ademais, ainda sob influxo do vácuo gerado pela aniquilação do “socialismo realmente existente”, o imaginário político se prendeu cada vez mais as formas de gestão imposta pela “vitória” do capital.

No Brasil, como mostra Christian Gilioti, estávamos numa encruzilhada entre “a construção de uma Nova República, de tipo burguês, no entanto, comprometida com os direitos sociais e impulsionada democraticamente pelas massas operárias e pelos movimentos populares do campo e da cidade que se reorganizavam durante a “transição”, ou a absoluta sujeição ao regime neoliberal, inteiramente alinhado ao imperialismo dos EUA, cujas diretrizes gerais foram implementadas na Inglaterra por Margareth Tatcher, na década de 70, renovadas e consagradas em 1989, pelo Consenso de Washington[5]. Não se pode dizer que a nova república já nasceu com esses dispositivos latentes? Os anos 90 não foram marca distintiva de um processo cuja ausência de alternativa trouxe, em especial para América Latina, formas neoliberais de organização e estruturação produtiva algumas trajadas de políticas progressistas?

Vale ressaltar que as formulações do Consenso foram aquelas que impulsionaram as think tanks financiadas pela grande burguesia ao redor do globo. As organizações de direita passaram a atuar como braços propedêuticos da tentativa de um consenso social pró-mercado. Enquanto isso, a luta entre Capital/ trabalho encontrava aqui sua resolução na redemocratização que culminaria nos anos FHC e posteriormente no lulopetismo.

Como disse noutro lugar[6]: fora erguido um projeto determinante para a ofensiva do capital, qual seja: em primeiro lugar, a imposição de austeridade monetária com intuito de integrá-las às políticas de ajustes macroeconômicos. Em segundo, políticas que envolviam o sucateamento de serviços públicos para a construção de consenso sobre a eficiência da privatização. E acima de tudo um projeto nacional de conciliação de classes que imprimiria um retrocesso nas agendas das esquerdas institucionais.

Em suma, para essa esquerda não havia mais horizontes para além do Capital, ao mesmo tempo que, sua gerência dos recursos públicos esbarraria nos limites da crise facilitando os ataques da direita organizada. Anestesiados pelas formas de gestão política a distância das bases marcou o apogeu do maior partido de esquerda do mundo, abrindo caminho para as reacionárias igrejas neopentecostais, a ilusão com o consumo e a raiva contra qualquer posicionamento de esquerda.

Para esquerda que fora hegemonizada pelo PT – contrariamente a afirmação de Lee Fang não desenvolveu politicas socialistas senão algumas benesses que melhoravam a circulação e os investimento no capital nacional – perdia-se de vista qualquer possibilidade de uma transformação realmente emancipatória e efetiva, ou era cinicamente deixada para “a melhor hora”. Ao mesmo tempo distante da realidade efetiva, o pós-modernismo entrava em cena contra a totalidade “homogeneizadora e totalitária” do processo revolucionário e do conceito de classes.

Já estávamos jogando na casa do inimigo, agora, jogávamos com as regras do inimigo. Nossa própria gramática tornou-se a gramática do império e nossos limites estavam determinados pelo mercado. O apego a esses limites foi determinante para aquilo que Paulo Arantes sabiamente chamou de contrarrevolução sem revolução.

Nesse sentido, é preciso ter algo claro: 1) O PT e os governos de esquerda da América Latina não eram socialistas apesar de algumas medidas que realmente contribuíam para diminuição da desigualdade cujo caráter era francamente voltado para dinamizar a economia; 2) os libertários de mercado acreditam num deus que deixou claro que o laissez-faire leva a desagregação social. Ambos se tocam em sua crendice de se respeitar os limites do jogo. É preciso, pois, implodir esses limites baseado no formato imposto pelo inimigo histórico da classe, tarefa de uma organização revolucionária.

A falta de alternativas e adoções de uma postura realmente emancipatória por parte da esquerda, que amedrontada se refugia na negação de seus próprios fantasmas, está levando o mundo inteiro ao abismo.

Há ainda outro instigante texto intitulado Sobre a necessidade de se rebelar: apologia ao motim, crítica à revolução[7] de meu camarada Ramon Brandão que teço doravante algumas críticas por entender que nas entrelinhas desse artigo se oculta outro elemento de nossa fraqueza. O artigo em questão traduz uma postura sintomática que grassou e foi o paradoxo de grande parte da esquerda: a afirmação de microestruturas que pelo seu caráter “guerrilheiro” não são absorvidas.

Em todo texto, por mais original que soe ser, fantasmas circundam suas entrelinhas, vozes orquestram sua composição e teses de gente morta dão acabamento a sua forma. Nada diferente com o texto de Ramon, implicitamente a voz do conceito de história nietzsche-deleuziano se distende em suas linhas. Voz mais ou menos bronzeada pelo cientista político brasileiro que compreende a história no círculo mítico de um eterno retorno, “cada vez mais aprimorado, cada vez mais preciso, cada vez mais invisível e, por isso mesmo, cada vez mais presente”. Não obstante a teleologia que se encontra nessa percepção para não cairmos na crítica materialista vulgar tentemos ver aí o que tais pressupostos figuram.

Aos dezessetes anos influenciado pela filosofia “quase-hegeliana”[8], Nietzsche escrevia: “na medida que o homem é arrastado nos círculos da história universal, surge essa luta da vontade individual com a vontade geral; aqui se insinua este problema infinitamente importante, a questão do direito do indivíduo ao povo, do povo à humanidade, da humanidade ao mundo; aqui se acha também a relação fundamental entre fado e história”[9]. Tal relação permeia cem anos depois as linhas de Ramon; as agruras entre indivíduo e sociedade, entre sociedade e Estado, entre possibilidade de revolta e absorção se colocam entre o fado e a história.

É então que a suspensão, aquilo que chama de motim, é o único momento ambicionado por uma individualidade que necessita interromper a “maquinaria violenta” que congela qualquer potência de transformação. Nesse caso, anêmico, o motim seria a bebedeira e a revolução a ressaca.  Ao abordar a história e o Estado, porém, abstratamente, o argumento perde-se numa ótima retórica, de fato, bem construída e sensual. Mas, poderíamos igualmente cometer uma diabrura: e se invertêssemos a temática e apostássemos que o motim é aquilo que realmente é absorvido? Sabemos que o motim realizado numa prisão não constitui nenhuma emancipação senão melhores condições para continuar prisioneiro.

E, se talvez essa concepção fosse só um lampejo anêmico de alguma mudança que ao invés de barrar as estruturas do poder, dinamizam-na? Tal conclusão não corrobora com a ideia do próprio autor ao dizer que: “Ademais, em seus relâmpagos, tais experiências proporcionam vitalidade, intensidade e potência de maneira a transformar toda uma vida individualmente […] É aí, então, que aquela maquinaria com suas botas bem lustradas retorna – afinal, o eterno retorno é implacável – e percebem que algo mudou, que trocas e interações ocorreram nas experiências cotidianas e que isso, efetivamente, constituiu alguma diferença”. Alguma diferença em qual sentido? O eterno retorno é realmente um retorno?

Tais pressupostos não lembram o escarnio de Hegel ao avaliar as figuras do ativismo romântico chamado de lei do coração[10]? De um lado, a efetividade do Estado forja suas leis e costumes pela qual a individualidade é oprimida: uma ordem violenta no mundo. Por outro lado, existe uma humanidade que padece sob essa lei que não consegue seguir a lei do coração e está submetida a uma ordem estranha. Para a individualidade que busca no motim sua realização, essa efetividade aparece como uma lacuna entre sua individualidade e a verdade “de microcosmo ativo dos antigos sonhos de liberdade”.

Essa individualidade quer superar a necessidade que vai contra sua lei do coração. É a seriedade de um alto desígnio que procura seu prazer na produção do bem da humanidade e acredita que seu prazer é universal e está em todos os corações. A lei do Estado se opõe aos altos desígnios e, claramente, a humanidade não vive na unidade bem-aventurada, mas no sofrimento. Ora como o Estado está separado dessa individualidade é para ela somente uma aparência que deve perder o poder e a efetividade. O indivíduo amotinado busca então criar novos espaços e dispositivos para que “as transformações ganhem vida nos momentos de motim”.

Nessa efetivação, porém, aquilo que o motim buscou se realiza, ou seja, a lei do coração torna-se a própria relação que deveria ser superada, tal como presos que queriam colchões novos e o obtém para bom andamento do presídio. Por isso, deixa de ser lei do coração, pois, é absorvido em seus pressupostos pela universalidade do Estado, a qual esse coração é indiferente. Conclui Hegel: e o indivíduo ao estabelecer sua própria ordem não a enxerga como sua, a lei que o motim acabou de conquistar, o direito que acabou de legitimar aparece ao indivíduo amotinado como algo estranho.

E aqui a argumentação do Ramon Brandão exibe seu calcanhar de Aquiles: “nosso grande trunfo estará em nossa invisibilidade. Ocultação que não se fará ver pelo Estado exatamente por não se permitir definir pela História”. A invisibilidade é conquistada no mesmo instante em que o motim se concretiza, o indivíduo é absorvido pela maquinaria que se dinamizou pelo resultado de seu agir e a história continua agindo por trás das costas dos indivíduos. Por meio do motim sabemos como se volta contra o indivíduo a universalidade efetiva. Sua ação pertence ao universal, porém seu conteúdo é a própria singularidade que quer se manter enquanto tal, mas já perdeu-se.

Não podemos apontar diversos exemplos concretos em que essa definição hegeliana se tornou força material: 1968, ou mais recentemente, junho de 2013, ou ainda o Occupy? Não podemos devolver a pergunta ao autor? O motim tão propalado ao redor do mundo, da Grécia à Istambul, passando pelo Rio de Janeiro e Brasília, tem nos levado a algum lugar?

As mesmas provocações de Ramon, no entanto, aparecem nos belos livretos do Comitê Invisível[11] que não tenho como abordar em suas especificidades senão tirar das sombras essa característica singular ao texto. Sei que tal pressuposto se baseia numa tática e aqui exprime-se a verdade de sua posição: uma tentativa de resposta que se afaste das carcomidas formas de organização imperante na esquerda.

“Assumamos que a equação homem deu errado”, diz Ramon “ou transformemos de uma vez por todas, o mundo”. Aqui podemos cometer outra diabrura, tais posições não são excludentes, pelo contrário, é exatamente porque a equação do homem deu errado que se necessita transformar o mundo. O homem como um sujeito fantasmático e incompleto, um não-idêntico perpétuo que movimenta-se, é um desvio da natureza que nega a própria natureza.

E aqui o elemento do trágico nietzschiano tem sua razão de ser, o aspecto contingencial da história é o que fundamenta a liberdade humana na construção do seu destino e não a essencialização que o autor comete quando declara que “as revoluções, por mais – ou menos – virtuosas que sejam suas ideias, não passam de uma armadilha do destino, de um pesadelo no qual, não importa o quanto lutemos, sempre seremos capturados e submetidos ao infinito ciclo da roda cármica de um eterno retorno que incuba Estados e governos”.

Tudo bem, mas a roda cármica de um eterno retorno é bem melhor que a roda da tortura da idade média. Esse olhar retroativo que reconfigura o passado não implica numa teleologia, mas, é a compreensão, óbvia em todo caso, de que de fato avanços foram obtidos com a instauração da Revolução Francesa, do Estado Burguês e com a moderna divisão do trabalho por meio da Revolução Industrial. A negação abstrata do Estado sem sua complementaridade no capital leva a indícios de obscurantismo romântico na própria crítica e, por sua vez, o motim como fim em si mesmo permanece no registro do capital e é muito bem-vindo.

Disso chegamos à conclusão que a crítica da economia política continua sendo o pressuposto de toda crítica.  O Estado, ao contrário do que implicitamente diz Ramon, nem sempre existiu e pode desaparecer. Aliás no atual estágio ele cumpre a função mínima de desviar a riqueza produzida socialmente para os bolsos da elite e socializar os prejuízos, o que indica que a morfologia de seu funcionamento está se esgotando e isso desnuda um problema interessante: se, capital e estado se complementam, o esgotamento de um, ao mesmo tempo, pode ser o de outro, implicando uma emergência revolucionária. Muito embora, no atual cenário se o Estado ruir – coisa que os neoliberais definitivamente não desejam – restariam feudos e corporações.

Nesse ponto é preciso que a esquerda esquerdize-se e assuma seus fantasmas. É preciso que novamente a tradição de todas as gerações mortas oprimam como um pesadelo nossos cérebros, que conjuremos ansiosamente em nosso auxilio os espíritos do passado. Sem a atávica abstração nem romantismo que inevitavelmente jogam lenha na fogueira da direita, mas partindo do reconhecimento das necessidades político-econômicas e de organização revolucionária, algo que sabemos não estar alicerçada em formas individualistas de ação ou na utopia de inclusão pelo mercado. Algo sem o qual a direita continuará a crescer… Talvez, tudo isso ou nada disso explique o crescimento da direita.

NOTAS

*** Texto originalmente publicado no LavraPalavra

[1] Acabou de publicar o livro Cartas Estudantis, é doutorando em filosofia política pela Unifesp e membro do CEII.

[2] Esse artigo é imprescindível para aqueles que desejam compreender o fenômeno da direita atual, seus grupos de financiamento, sua estrutura e forma de militância https://theintercept.com/2017/08/11/esfera-de-influencia-como-os-libertarios-americanos-estao-reinventando-a-politica-latino-americana/?comments=1#comments

[3] Fernando Schüler, acadêmico e colunista associado ao Instituto Millenium.

[4] Conferir em: PIKETTY, T. O capital no século XXI. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014 p. 368.

[5] Conferir em http://www.revistacampoaberto.com.br/2017/08/16/guerra-declarada-ii/

[6] http://passapalavra.info/2017/08/114769

[7] https://www.pragmatismopolitico.com.br/2017/05/necessidade-rebelar-apologia-revolucao.html

[8] Entendemos que depois da morte de Hegel houve uma pacificação de sua filosofia que fora desvirtuada de seu princípio francamente subversivo a partir de Schelling, por isso o quase-hegeliana. Tal modo de concepção da filosofia de Hegel, no entanto, como sabemos influenciou uma gama enorme de pensadores e só muito recentemente, o núcleo subversivo fora recuperado.

[9] NIETZSCHE, F. Fado e história p. 165 (in: ______________. Genealogia da moral; uma polêmica. São Paulo: Companhia das Letras, 1998

[10] Noutra parte, no tom bem humorado e suábio Hegel despenca: “esses rapazes, brigam, lutam e se amotinam para logo depois se casarem!”­­

[11] http://dazibao.cc/wp-content/uploads/2015/11/A-insurreic%CC%A7a%CC%83o-que-vem-CI.pdf

https://we.riseup.net/assets/262783/AosNossosAmigos2014.pdf

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Filosofia Formação

Por que a verdade é monstruosa?

Por Douglas Rodrigues Barros[1]

 

Nos idos de 2010, quando o senhor ex-presidente Lula dizia a plenos pulmões que enquanto nos países centrais a crise econômica do subprime tinha sido um tsunami, no Brasil tinha sido apenas uma marolinha. Estava eu nas fileiras de um debate com a presença de um grego que acompanhava as fortes revoltas em Atenas. Naquela época escutei da boca dele algo que tomei como premonitório e que se revelaria previdente mais tarde: “O Brasil não passa por nenhuma crise”, dizia, “E já é essa barbárie… imagina quando a crise chegar por aqui!”.

Como sabemos, a crise chegou e trouxe à luz o que só se sentia no inconsciente coletivo da chamada esquerda. Toda podridão reacionária subiu dos bueiros e ratos de todo tamanho ocultados pelas valas perderam o medo e saíram das sombras. Como num relógio com ponteiros atrasados, experimentamos só muito depois – em descompasso com o mundo desenvolvido – o fracasso da experiência trabalhista. A degeneração imposta pela legalidade e rotinização da pauta dos trabalhadores, o fracasso modernista, a noção de progresso teleológico rumo ao futuro desenvolvimentista encontraram limites incontornáveis. Atingíamos o fim do ciclo de uma experiência que se iniciou com a Carta de 1988 e, com ele, todos os restos podres da velha oligarquia que tinha sido ocultado pelo pacto de paz social vieram à luz.

Os sonhos de aplicar um modelo mais humanista ao capital com um governo capaz de levar as pautas sociais adiante por uma via parlamentar e democrática, verteu-se em pesadelo. Ainda que promovamos imensos debates com os pensadores da moda do Facebook. Ainda que suprimamos e abafemos qualquer voz crítica e destoante do reformismo-conservador e dos bons modos democraticistas no balcão de negócios chamado Estado. Ainda que queiramos convencer a imensa maioria que a política se faz desse modo. A verdade de uma democracia representativa feita para evitar uma democracia efetiva revela sua face mais cruel, qual seja: o assassinato diário de jovens pobres e negros promovido pelo Estado. Como diz o panfleto anarquista: “até no seu silêncio, a população parece infinitamente mais adulta do que todos os fantoches que se atropelam para a governar”.

O atual modelo de gestão da barbárie parece ter se esgotado e nada há no horizonte que aponte algo propositivo, pegos de calça curtas, enquanto a ingenuidade clama por uma suposta unidade da esquerda conquistada pela submissão de toda divergência a pauta governista e eleitoreira, a direita avança disputando o imaginário daqueles que ela explora. A barbárie do governismo de esquerda que era inconsciente, isto é, se aplicava só nas periferias pelo extermínio da juventude pela polícia, nas áreas rurais tomadas pelo agronegócio, pelo roubo das terras indígenas, se tornou doravante consciente e já em Copacabana é possível ver tanques de guerra desfilando. Temer é sua mais concreta verdade.

Do lirismo democrático-representativo e bem-comportado a população, entretanto, parece estar farta! Mas, o grosso da esquerda – em sentido literal – espera calmamente a eleição de 2018 para emplacar sua reconquista da desgraça. Enquanto a palavra revolta sumiu do dicionário da esquerda, a palavra revolução se tornou coisa de herege. As marchas cívicas que imitam o modus operandi da extrema direita – passeata bem-comportada aos domingos – sugerem sua verdade. Atores globais engrossam as fileiras, o simbólico vazio de conteúdo só deixa evidente a emergência e a posição de recuo.  O horizonte decrescente caminha como um colosso desperto a largos passos.

Parece que a derrota da esquerda se tornou inevitável porque o próprio modelo de que é partidária se esgotou, não apenas politicamente, mas, principalmente economicamente. Aliás, o modelo político só se esgotou porque o modelo econômico não encontra mais possibilidade de crescimento senão pela imposição da repressão clara, direta e massacrante. Enquanto a esquerda romanceia nostalgicamente uma volta quase sebastianista de Lula, a direita sabe muito bem cumprir a agenda de que é perita. A direita toca fogo em Roma, seremos nós os bombeiros?

É passado o momento de uma crítica que não tenha medo dos excessos. O exagero é condição necessária de tornar o impossível, possível. Não resta outra coisa. A pena para a covardia ou a reticência perante o óbvio é a morte de centenas na fila dos hospitais que já passam pelo desmonte do governo que usurpou o poder; é o analfabetismo funcional beligerantemente fascista que grassa nas periferias como única forma de superar a crise; é a instituição da monstruosidade feudal ligada as oligarquias financeiras que tomarão conta de áreas populares essenciais, enquanto a nova religião sob a insígnia de neopentecostalismo capitalista fomenta um país fundamentalista, surdo e violento. É preciso que a imaginação estruture uma nova forma de sociabilidade.

Ao mesmo tempo é necessário puxar o tapete de esperança dessa esquerda que hoje já se apresenta como uma peça envelhecida no xadrez do capital. Essa esperança é o conformismo de se aguardar até que as coisas voltem para seu devido lugar. É preciso dizer de novo: não há mais lugar, os limites foram implodidos pelo desenvolvimento histórico do capitalismo. Como dizia o sábio Abujamra: “a esperança fodeu a América Latina!”. A pergunta que deve ser feita é: será mesmo que o parlamento não se tornou o fim fetichista dessa esquerda? Será mesmo que o único intuito que ela tem não é senão retomar a governabilidade do barco que lentamente naufraga e os delírios de acreditar ter nas mãos o poder?

A falência dessa esquerda que se forjou nos idos finais da década de 1970 demonstra que aquela paixão pela pratica, imediata e irrefletida, legitimou não apenas um falso ativismo, como também, uma falsa alternativa emancipatória. A ação desesperada mediante a crise deve ser o monopólio dessa esquerda, que atávica, acredita que sua forma de vida permanece intacta enquanto dá seus últimos suspiros. Não estava certa as palavras do esquecido revolucionário que cem anos atrás deixava um importante ensinamento quando dizia que: “as divergências de opinião entre partidos políticos […] são em geral resolvidas pelo próprio correr da vida política e pelos debates teóricos. Em especial, sob a pressão dos acontecimentos, que desmentem os raciocínios errados e os privam da sua razão de ser”?

Para seguir esse ensinamento, entretanto, é preciso nos despojar das velhas figuras cujo cadáver já cheira mal, pois a pressão dos acontecimentos indica que erramos, o que é comum e esperado, se agarrar ao cadáver e apodrecer com ele é, no entanto, patológico. Isso nos ensina algo elementar, nós nos refugiamos em cenários catastróficos para evitar a contradição concreta da vida, as imagens da catástrofe, tão amplamente divulgada pela torpe TV brasileira, a polarização virtual e o xingamento satisfatório, em vez de fornecer o acesso ao concreto da vida, a vida real, funcionam como escudo protetor contra a concretude. Isso se revela na confortável sensação de que a tragédia só acontece com o outro. É como uma medida de defesa desesperada que erguemos os fantasmas virtuais e as soluções que giram no interior abstrato da rede social. Eis porque a verdade é monstruosa, porque nos revela nessa patologia que no fundo todo esse apego e polarização é baseado num narcisismo das pequenas diferenças. Esquerda/Direita se tornaram o mesmo bater de botas. Só iremos nos distanciar disso se formos insubmissos ao que reza a cartilha do mercado[2].

 

 

 

NOTAS

[1] Acabou de publicar o livro Cartas Estudantis, é doutorando em filosofia política pela Unifesp e membro do CEII.

[2] Tanto o título quanto essa reflexão foram obtidas através da obra de Žižek, O absoluto frágil, sobretudo no capítulo homônimo ao meu artigo

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“Com certeza sou mais um marginalizado”: uma conversa com o autor de Cartas estudantis

 

“As Cartas Estudantis só têm essa proximidade com a política porque suas personagens estão implicadas no mundo social, trata-se de uma estudante e um “ex-estudante”. Agora, é inegável minha aproximação com a política, sou militante da Uneafro e comunista“.

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Mbira – o instrumento-símbolo de um povo

Por Luiza Gannibal

Entre junho e agosto de 2016, estivemos no ventre do mundo: Zimbábue – África profunda.

DZIMBA DZEMABWE. Casa de Pedras. Fortaleza espiritual.

Nosso propósito era investigar as especificidades deste solo semi-árido donde brotou a riquíssima cultura do povo shona que, agora, podemos definir numa só palavra: Mbira.

Na bagagem, trouxemos um material vasto, projetos mil, e a vontade de partilhar essa história.

Mas… o que é Mbira?

Mbira é o nome em língua shona para o instrumento tradicional do POVO SHONA (comunidade pertencente à família etnolinguística BANTU, difusa por grande parte da África subsaariana), que vive, em sua maioria, na região do ZIMBÁBUE, país que faz fronteira com a Zâmbia, África do Sul, Moçambique e Botswana.

A mbira pertence à família dos lamelofones. Lamelofones são populares por toda África, e, via de regra, eles variam em número de teclas, disposição das notas, e se possuem (ou não) um ressonador (uma cabaça ou caixa de madeira que repercute o som). Kalimba, sanza, likembe, kisanji e gongoma são alguns dos nomes dados a lamelofones africanos de acordo com suas características particulares e região/povo a que pertencem.

Além de ser o mais sofisticado dos lamelofones africanos, a MBIRA foi o primeiro lamelofone a surgir na África – mais especificamente no Vale do Rio Zambeze ao norte do Zimbábue –, sendo uma espécie de protótipo para todos os outros.  

Não é possível se referir à mbira, portanto, apenas como um instrumento. Pelo menos não da maneira que se faz no Ocidente. A mbira designa, obrigatoriamente, a cultura shona e, nesse viés, a espiritualidade desse povo da África Bantu.

A mbira faz parte do povo, e o povo, igualmente, faz parte da mbira.

Como relata o professor Perminus Matiure, servindo de meio de comunicação entre os vivos e os mortos, “a mbira age como um repositório da espiritualidade shona”.  Em rituais chamados de “bira”, ela é tocada para os ancestrais, que, por falarem a língua da “música de mbira” – cuja gramática é composta por temas tradicionais -, são atraídos para a dimensão dos vivos, onde o tempo sagrado é assim instaurado.  Daí o nome “mbira dzaVadzimu”, que significa mbira dos (dza) ancestrais (Vadzimu).

Em “The Soul of Mbira”, Paul Berliner explica: “Um mandamento tradicional da religião shona postula que, após a morte, os espíritos das pessoas continuam afetando a vida de seus descendentes. Em outras palavras, o mundo dos vivos está em função dos acontecimentos do mundo dos espíritos. ” Daí a importância do diálogo permanente com essa arena mítica.

Outro nome dado à Mbira dzaVadzimu é “Nhare” que, em shona, significa telefone. E aqui a dimensão sagrada fica ainda mais evidente: ou seja, trata-se de um instrumento que, ao ser executado (ao tocar) conecta dois universos.

“A mbira é o instrumento musical tradicional primário do povo falante da língua shona. Ele tem sido tocado desde tempos imemoriais. A mbira é a voz dos espíritos (mbira i zwi re midzimu). Quando tocamos a mbira, nós estamos chamando os espíritos, e essa voz é forte o bastante para ser ouvida na morada dos ancestrais (nyikadzimu).” – diz, direto de Chinamassa, aldeia shona de Nyazura, no Zimbábue, nosso querido mestre Barnabas Ngalande.

Berliner complementa: “No contexto da Bira, as pessoas acreditam que a mbira tem o poder de projetar seu som pelos ares e alcançar os céus, estabelecendo uma ponte entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos, e atraindo, assim, a atenção dos ancestrais.”

A despeito de haver inúmeras “Áfricas”, há, segundo o tradicionalista Hampâté Bâ, algumas constantes em todas as tradições africanas: a presença do sagrado em todas as coisas, as relações entre os mundos visível e invisível e entre os vivos e os mortos. Não é à toa que nossa passagem pelo Zimbábue esteve sempre cercada de reiterada espiritualidade.

A Mbira Nyunga Nyunga

Outra mbira bastante popular no Zimbábue é a Nyunga Nyunga. Ela foi trazida para o Zimbábue pelos VaNyungwe, povo da província de Tete, em Moçambique.

Por ser de mais simples entendimento, ela é largamente utilizada nas escolas e como primeiro aprendizado daqueles que se interessam pelo instrumento. Tivemos (e temos) alguns mestres no Zimbábue que tocam e fabricam a Nyunga Nyunga, como o Barnabas, já mencionado, e Ticha Muzavazi, que faz um belíssimo trabalho com crianças especiais.

Fabricar e tocar, aliás, são atividades que caminham juntas em toda África, revelando o caráter orgânico (e não industrial, como o é no Ocidente) da relação das pessoas com os elementos que compõem sua existência essencial.

Ambas as mbiras, cabe frisar, são instrumentos-símbolo de resistência de uma cultura que teima em seguir adiante, aferrada a suas raízes, apesar dos pesares e dos “desgovernos” que acometem o povo shona – íntegro o bastante para perceber que a tradição é imprescindível como forma de blindagem contra as influências perniciosas: sejam elas mundanas ou espirituais.

Cultura é identidade. E a música, o modo mais natural de expressá-la. Ao dedilhar sua mbira, portanto, o homem shona expressa o que é – e, dessa maneira, pode “ser” no mundo.

Mbiracles

Por mais de 300 anos, africanos de origem bantu chegaram aos portos brasileiros, constituindo-se no maior contingente de negros a entrar no país. Apesar da invisibilidade que desejou se dar a essa influência grandiosa, as marcas do legado bantu estão em nossa música, língua, instrumentos, estratégias de resistência (quilombos), danças, técnicas de trabalho, e, claro, no fenótipo de nossa gente.

Sendo um elemento autêntico e paradigmático de uma cultura riquíssima, portanto, a mbira, segundo o músico e fabricante de instrumentos africanos Fabio Simões, é “um cordão umbilical do tempo”. Uma maneira pela qual podemos reaver de forma íntegra esse legado ancestral que nos foi, outrora, drasticamente subtraído, e que nos conecta à “mãe” – palavra que pode também ser entendida como “terra”. Afinal de contas, o menino africano se torna homem quando parte do regaço da mãe biológica para os braços da mãe-natureza. E a música, rebento desse ambiente natural, é sua maior forma de expressão.  

A proposta do projeto Mbiracles, assim, é a vivência da música tradicional africana sob o prisma dessa mãe-natureza, dessa terra ancestral. É a reflexão prática de “quem somos nós” a partir de artefatos que enredam uma cultura milenar, telúrica, e que, como as pirâmides do Egito, ou, mais apropriadamente, as ruínas do Grande Zimbábue (a maior estrutura pré-colonial da África Subsaariana), nos indicam os caminhos que traçaram os homens que nos antecederam, as músicas que cantaram, as melodias que dedilharam. Sendeiros sonoros que perfazem, com efeito, a linguagem-raiz desse homem. Uma linguagem que nos falta – e que, por isso, nos cabe.

Como sugere o símbolo da Sankofa, o retorno às origens é necessário para que possamos seguir adiante. São nossas raízes, nossos pés, fundamentos, pilares. “Para destruir um povo, basta destruir sua cultura”, afirmou Franz Fanon. Daí que, para sermos um povo, e tudo que isso comporta, precisamos reconstruir nossos laços com a África. Ativamente.

Mbiracles é um projeto que pretende trazer à tona, através de uma série de atividades cujo núcleo é a mbira (oficinas, palestras, exposições, instalações), a África mãe. Essa África que diz tanto a respeito de quem somos e de onde viemos.  

Eis a música: meio capaz de traduzir com maior expressividade e ludicidade a cosmovisão de um povo. Eis a mbira: instrumento que está no cerne da tradição shona.

Venha conosco conhecer e praticar a mbira.

Estamos na rede:
www.mbiracles.com
https://www.facebook.com/mbiracles/

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Formação

Frei Betto: “Hoje, somos vítimas de nossos próprios erros”

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Frei Fernando, Frei Betto, Frei Ivo e Frei Tito (da esquerda para a direita), durante julgamento dos dominicanos em 1971

Do Site da SMetal

Frei Betto fará palestra na sede do Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba, no próximo dia 4 de Setembro. A atividade faz parte do ciclo de formação e reflexão política, dirigida aos trabalhadores e à comunidade em geral. Para quem é da região ou mesmo para quem está longe de Sorocaba mas nunca teve a oportunidade de ouvi-lo, vale muito a pena! Saiba mais detalhes.

O Dominicano tem mais de 60 livros publicados. Entre eles, os clássicos “Batismo de Sangue” e “Nos subterrâneos da história”.

O frade concedeu entrevista exclusiva para o setor de imprensa da SMetal:

 

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Imprensa SMetal: O comportamento de selfies, que se espalha pela internet, aponta para uma sociedade egocêntrica que não consegue visualizar o entorno?

Frei Betto: Antes, muitos protestavam contra a invasão de privacidade. Hoje, milhares promovem a evasão de privacidade… Havia um muro que separava os territórios da vida pública e da vida doméstica. Agora, o muro ruiu, graças às novas tecnologias eletrônicas. E muitas pessoas se mostram em redes sociais como são de fato na vida privada: egocêntricas, agressivas, vaidosas, preconceituosas… Em suma, frutos do capitalismo neoliberal, cujo valor supremo é a competitividade. Ou seja, suba pisando no próximo, reduzindo-o a seus degraus de ascensão.

IS: Vivemos um processo de intolerância na sociedade. O ser humano está perdendo a capacidade de se relacionar?

FB: Não. É que, antes, os territórios estavam bem delimitados: o plebeu não invade o terreno do nobre; o escravo, do senhor; o negro, do branco; a mulher, do homem; o pobre, do rico. Agora, com o avanço da consciência de direitos humanos (friso: consciência, e não vivência) e dos direitos civis, as barreiras se romperam, e isso provoca intolerância. Os do andar de cima se sentem sumamente incomodados de terem que dividir o espaço com os do andar de baixo… Ou seja, séculos de castas, estamentos, desigualdades sociais estão impregnados em cada um de nós, o que nos faz reagir atavicamente, como um animal diante de seu predador.

IS: Gostaria que o senhor comentasse sobre o repúdio dos manifestantes às instituições e entidades, ignorando a trajetória e contribuições delas, como é o caso da própria CNBB, que assina o projeto pela reforma política.

FB: Essa gente “pensa” com o fígado, e não com a razão. E sem memória histórica. Mas a culpa não é só deles. É do governo, que promoveu inclusão econômica e deixou de lado a inclusão política. E da educação, que não forma os educandos com consciência histórica.

IS: Na visão do senhor há algum movimento que esteja pensando em um novo projeto de sociedade para o país?

FB: Muitos movimentos sociais, como o MST e o MTST, estão na linha de pensar um novo projeto para o Brasil. Mas, infelizmente, órfãos de um partido que transforme isso em projeto político viável a curto prazo. Há tentativas louváveis de formação de frente de esquerdas. Costura que não é fácil, pois não há um alvo inimigo concreto, como na ditadura e, apesar de tudo, ruim com Dilma, pior sem ela…

IS: Nessas manifestações da direita diversos cartazes são exibidos pedindo retorno dos militares no poder. Falta arte e utopia aos jovens?

FB: Convém na confundir as viúvas da ditadura com os jovens, embora haja jovens entre elas. Mas faltam arte e utopia a muitos jovens. Infelizmente o PT no governo criou uma nação de consumistas, e não de cidadãos.Porque não se dedicou à sua proposta mais original: organizar a classe trabalhadora.

IS: Não é difícil encontrar depoimentos de trabalhadores fazendo discurso contra trabalhadores (pessoas pobres). A identidade do Brasil sempre foi tema estudado pelos intelectuais como Darcy Ribeiro e Sérgio Buarque de Holanda. O consumismo atrapalha o sentimento de pertencimento de classe?

FB: Sim, o consumismo é a ideologia do neoliberalismo. Forma de acelerar a apropriação privada do capital. Por isso, todos os produtos têm prazo de validade muito curto. Tudo é reciclável ou descartável. Até as relações humanas… A consciência de classe é algo muito difícil de se formar. Exige um trabalho político muito intenso, que raros movimentos sociais e sindicatos fazem. Penso nos camponeses alemães incorporados ao Exército Nazista. Sentiam-se orgulhosos de lutar por uma Alemanha hitlerista…

IS: Em 1998, o senhor escreveu o artigo “Para que votar?”, no qual afirmou que a ‘apatia coletiva é grave sintoma para a saúde da democracia. A indiferença do eleitor inviabiliza a diferença na política’. Hoje, o que se percebe é uma hostilização a qualquer movimento/mobilização que defenda os desvalidos e assalariados. O contexto dos dias atuais é de uma ‘partidarização’ elitista?

FB: Enfim, a direita “saiu do armário”. Eu mesmo fui agredido por ela nos lançamentos, no Rio e em Belo Horizonte, de meus livros PARAÍSO PERDIDO – VIAGENS AOS PAÍSES SOCIALISTAS e UM DEUS MUITO HUMANO – UM NOVO OLHAR SOBRE JESUS.
Todos os que, historicamente, defenderam os direitos dos pobres sofrem todo tipo de violência da parte dos que não abrem mão de serem os unidos de posse da riqueza social.

IS: O senhor foi preso na ditadura civil militar. Pode-se fazer alguma comparação com 1964, em relação à caça aos militantes da época – com a ajuda da imprensa?

FB: O velho Marx já dizia que a ideologia de uma sociedade é a ideologia da classe que domina esta sociedade. O que lamento é o PT, em mais de uma década de governo, não ter feito a regularização da mídia. Hoje, somos vítimas de nossos próprios erros.

IS: Ainda está longe um Brasil soberano? Quais são as expectativas do senhor?

FB: Minha expectativa é que o que resta de esquerda – e resta muito pouco – se reorganize melhor em função da defesa dos direitos dos pobres e das mudanças estruturais de que o Brasil tanto necessita.

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Formação

CRP promove Seminário de Psicologia e Políticas Públicas

 

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PROGRAMAÇÃO       INSCRIÇÕES       FALE COM O CRP

Do Site do CRP-SP

A psicologia não esteve apartada do processo de elaboração e implantação de políticas públicas que se intensificou no Brasil nas últimas décadas.

Posicionou-se ativa e criticamente, na luta intransigente pela justiça social e pelo combate às violações aos direitos humanos. Na construção cotidiana dessas políticas, revisitou referências e produziu transformações importantes para responder de forma qualificada ética e tecnicamente às necessidades da população brasileira.

Na conjuntura atual, vivemos a necessidade de seguir avançando em relação à efetiva e completa implementação de políticas publicas, ao mesmo tempo em que resistimos diariamente aos retrocessos e ameaças que se apresentam como projeto em disputa nesse momento histórico.

Em São Paulo esse cenário é especialmente preocupante e complexo e exige de nós diálogo, aprofundamento de debates e militância na construção conjunta de diretrizes para a luta e o combate às resistências e retrocessos hoje anunciados.

Visando contribuir com esse processo, a Psicologia, por meio do CRP SP, dando continuidade ao seu compromisso histórico com a defesa das políticas públicas, convida as/os psicólogas/os, os demais profissionais que conosco dividem espaços de atuação profissional em políticas públicas, movimentos sociais, gestores e usuários dos serviços, a população em geral, para o Seminário de Psicologia e Políticas Públicas.

Acompanhe a Programação do Seminário

Faça sua Inscrição

Informações:

Departamento de Eventos do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo – CRP 06
Tel.: 11 – 3061.9494, ramais 334, 336, 337, 355, 356 e 357
E-mail: [email protected]

 

 

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Escrita da história Formação

Auto Crítica

 

Black-Africa-hand_large

Por Douglas Belchior

 

Vamos debater opressões?
Uma mesa de reflexão, três opções:
Opressão de gênero, fundamental
Racismo, da desigualdade é estrutural
Homofobia e afins, violência tida como natural

Convidadas:
Mulher branca, militante feminista
Homem negro do movimento africanista
E outro homem, homossexual ativista

Onde?
No Centro Acadêmico
No Sindicato
No Partido
Nos movimentos do campo ou da cidade

Importância:
Um setorial
Um coletivo
Uma atividade

No máximo uma secretaria
Tratamento de câncer na perfumaria
Debate paralelo, sempre submetido
À lógica do economicismo

Que merda!
A desigualdade de agora é o resultado do escravismo
que meu povo herda.

Cegueira:
A cultura machista e patriarcal de uma vida inteira,
desde a história primeira

À minha direita, enxergam bem:
O tiro é certeiro, fita métrica
Bala perdida na cabeça do jovem negro
E porrada na mulher empregada doméstica.

À minha esquerda a miopia, apatia,
Prepotência travestida de ideário:
“Luta de classes é burguesia versus proletariado”

Na ponta da língua, revolução russa,
Cubana
Mas à míngua, dezenas de gays assassinados
No final de semana

É preciso inverter o pensamento,
Mudar a órbita
A luta antirracista, antimachista
E anti-homofóbica
Deve nortear a ação anticapitalista,
Esta é a lógica

Racismo, machismo e a homofobia
São ideologias de dominação
Sem as quais as elites capitalistas
Não controlariam a população

Maioria mulher e povo preto,
Destemido
Em Oxalá espero que esse recado
Seja entendido