Categorias
Juventude

Periferias pedem urgência na votação de lei de fomento cultural

PL 624/15 quer garantir financiamento para coletivos de fora do centro; recursos congelados totalizam R$ 14 milhões

por Gisele Brito no Brasil de Fato

O Movimento Cultural das Periferias de São Paulo se reuniu nesta terça (3) com líderes da Câmara de Vereadores para pressionar que o Projeto de Lei 624/15, que cria o Fomento Cultural às Periferias, seja votado em caráter de urgência.

O projeto, elaborado por artistas e militantes das periferias da cidade, destina “recursos carimbados” (que já estão previamente vinculado a despesas específicas) para financiar coletivos culturais que tenham mais de três anos de atuação em territórios vulneráveis, mesmo que estejam localizados no centro. O valor dos recursos para cada projeto aprovado variaria entre R$ 100 mil e R$ 300 mil.

No ano passado, o movimento conseguiu a reserva de R$ 14 milhões no orçamento municipal, mas, sem a aprovação da lei que regulamenta sua aplicação, o recurso permanece congelado. Se a lei não for aprovada até a definição do orçamento de 2017, que deve ocorrer entre junho e julho deste ano, esse valor poderá ser destinado a outros fins.

Depois da pressão realizada na tarde de terça, os movimentos conseguiram que o PL fosse a plenário, sendo apreciado em todas as comissões de uma só vez. Os coletivos culturais também querem que seja aprovado um substitutivo elaborado em conjunto com a Secretaria Municipal de Cultural, já que o texto original sofreu alterações desde que foi apresentado à Câmara.

Reparação histórica

“Estamos pedindo o óbvio. Quando você tem que pedir para que o Estado invista mais onde precisa mais, é dizer o óbvio. Mas a gente continua dizendo”, afirma Cleyton Ferreira, do Quilombaque.

“A lei de fomento às periferias tem um valor simbólico muito grande de reparação história. Porque os coletivos de cultura das margens fazem cultura há muito tempo, e muitos deles nunca acessaram recurso público nenhum”, explica Fernando Ferrari, membro do movimento.

Mas a lei não beneficia apenas quem mora em bairro afastados do centro. “Usamos estudos da própria prefeitura para identificar os locais onde a população ganha até meio salário mínimo. Notamos que 7% desses grupos estão no centro, nos chamados bolsões de pobreza; no centro expandido, identificamos 23% e, nas margens da cidade, identificamos 70%. O critério não é localização, mas renda”, argumenta Ferrari.

O PL já foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça, mas precisa passar também pela Comissão de Administração, Educação e Finanças antes de ir à votação no plenário. Pelo trâmite normal, seria impossível que ele fosse votado antes de junho, quando os trabalhos na casa serão paralisados por conta da eleição municipal.

O movimento considera que o fato de o projeto ter entrado na pauta é uma vitória, mas tem consciência que isso não garante a agilidade necessária na tramitação. “A gente percebe que tem um jogo de interesses entre as pautas prioritárias do governo e as da oposição”, pondera Jesus dos Santos, do Casa no Meio do Mundo, oradora na Reunião de Líderes.

“A receptividade ao projeto foi boa. Todas aceitaram e acharam que a lei é favorável à cidade. Mas a gente entende que o parlamento somos nós que estamos na rua. Nossa principal tarefa agora, independentemente do que dizem os vereadores, é continuar a pressionar. Porque todos se dizem favoráveis, mas ninguém prioriza. Então é pressão, pressão, pressão”, afirma Jesus.

Histórico

O PL começou elaborado em 2013 por coletivos da zona leste e, atualmente, reúne coletivos de todas as regiões da cidade. O texto da lei prioriza pessoas físicas, para evitar “atravessadores”, e exige que os proponentes tenham atuação comprovada de dois anos no mesmo território.

“A gente percebe que ficava com muito pouco dos recursos públicos. Queremos quebrar a lógica do balcão que favorece o fulano que conhece alguém, que é bem relacionado. Estamos tentando mexer na lógica da cidade”, aponta Pirata, do Fórum de Hip Hop.

Edição: Camila Rodrigues da Silva

Categorias
Genocídio Negro Juventude

Senado e Câmara terão CPI para investigar assassinatos de jovens

Por Douglas Belchior

Colônia, império, escravidão, república – a velha e a nova -, ditadura, democracia, constituição cidadã, eleições diretas, direitos sociais… o Brasil mudou. Avançou. Melhorou.

É o que dizem. E talvez possa ser visto assim. Mas não de todos os lugares.

“Cada um vê o sol a partir da janela de sua casa”, ensina um velho provérbio africano.

Daqui “de casa”, não é isso que vejo. E você, da sua, o que vê?

E na poesia dos Racionais MC’s, a síntese mais perfeita desses 515 anos de Brasil: “Desde o início, por ouro e prata, olha quem morre, então veja você quem mata”…

 

Manaus-Amazonas-Amazonia-Taxa-homicidios-negros-cresce_ACRIMA20130713_0020_15

 

Dos Sites do Senado e Câmara Federal

Foi lido no início da sessão do Senado desta quarta-feira (4) o requerimento de criação de uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) para investigar o assassinato de jovens no Brasil. Pelo requerimento, que recebeu o apoio de 28 senadores, a comissão vai funcionar por até 180 dias. Serão 11 membros titulares e 7 suplentes.

— Essa investigação é uma reivindicação de todo o movimento de juventude do Brasil — afirmou a senadora Lídice da Mata (PSB-BA), autora do pedido.

Na justificativa do requerimento, Lídice cita uma pesquisa do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) que mostra que mais de 42 mil adolescentes, de 12 a 18 anos, poderão ser vítimas de homicídio nos municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes entre os anos de 2013 e 2019. Isso significa que, para cada grupo de mil pessoas com 12 anos completos em 2012, 3,32 correm o risco de serem assassinadas antes de atingirem 19 anos de idade. A taxa representa um aumento de 17% em relação a 2011.

Já na Câmara Federal, o deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), também emplacou uma CPI similar, esta especificamente voltada para a investigação de jovens negros. No ato de confirmação, o deputado ressaltou que, de 60 mil homicídios anuais no Brasil, 80% têm como vítimas jovens negros. “Precisamos dar visibilidade a esse problema no País. O que está acontecendo no Brasil é um genocídio em relação aos jovens negros”, afirmou Lopes.

Segundo dados da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, o homicídio é a principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos, em sua maioria negros e moradores de periferias.

 

Negros

A questão racial é um elemento importante quando o assunto é violência contra jovens. Em relação ao perfil dos adolescentes com maior vulnerabilidade, aponta Lídice, o estudo da Unicef revela que a possibilidade de jovens negros serem assassinados é quase três vezes maior do que a dos brancos.

Além disso, adolescentes do sexo masculino apresentam um risco quase 12 vezes maior que o das meninas. A senadora também registra, com base em uma pesquisa do IBGE, que os negros são mais agredidos do que os brancos também por policiais. Entre os pesquisados que declararam ter sofrido agressão, 6,5% dos negros informaram que os agressores eram policiais ou seguranças privados. Entre os brancos, apenas 3,7% dos agredidos deram a mesma resposta.

Institucional

Para Lídice, o Senado precisa urgentemente “averiguar as condições em que esses assassinatos acontecem e quais as razões para isso”. A senadora acrescenta ainda que é preciso compreender “o comportamento do Estado brasileiro, mais especificamente dos órgãos responsáveis pelas políticas de segurança pública, no tocante à apuração desses fatos e os mecanismos de apuração e responsabilização dos agentes públicos”, quando o assunto é violência contra jovens.

A senadora disse que a intenção inicial era propor a investigação dos assassinatos que vitimam a juventude negra. No entanto, afirmou Lídice, houve o pedido de outros partidos para que o alcance da comissão se desse sobre a população jovem em geral. Para a senadora, na verdade, há um racismo institucional no Brasil, que faz com os jovens negros sejam mais vítimas de assassinatos e tenham menos oportunidades sociais, terminando por compor a maior população carcerária do país.

— Eu tenho certeza de que o relatório vai indicar o que as pesquisas já mostram: a maior parte dos assassinatos se dá na população de jovens negros — declarou Lídice.

Categorias
Juventude

Juventude negra pauta governo e sociedade

B

 

Visite as Galerias VÍDEOS | FOTOS | AGENDA | BLOG

 

Dilma incorpora algumas demandas juvenis em seu discurso, mas precisa concretizar investimentos e mudar prioridades nas políticas públicas. Isso não é tudo: acabar com a violência policial e o genocídio da juventude negra é lutar contra o autoritarismo que coloniza toda a sociedade.

 

por Áurea Carolina de Freitas

 

“A violência do Estado é maior, mais forte, concentrada e desigual”. Ao afirmar isso, a presidenta Dilma tentava sopesar sua posição contrária ao uso da violência por manifestantes nas ruas. Afinal, são formas distintas de violência, com pesos muito diferentes. Logo emendou que o governo não apresentaria nenhum projeto para coibir protestos, especialmente na Copa do Mundo. Ela argumentava em resposta a críticas de movimentos sociais ao processo de criminalização das manifestações e às tentativas de enquadrá-las e reprimi-las como práticas terroristas.

 

Escuto essa fala da presidenta na sala do Palácio do Planalto, durante um encontro com pessoas que atuam em diversos movimentos e organizações juvenis – continuidade de uma conversa iniciada no ano passado (um relato sobre o encontro anterior, realizado em junho de 2013, está disponível aqui). Com o olhar baixo, rabiscando uma folha de papel, Dilma diz que a violência não é um bom método, pois causa danos que permanecem com o passar do tempo. Ela sabe o que é a tortura. Reconhece que parte de sua geração considerou a violência um recurso legítimo para lutar contra a ditadura, mas não acha que estratégia semelhante seja válida em um contexto democrático. O raciocínio não pode ser mais coerente porque a outra ponta fica solta: obviamente, Dilma não está a defender o fim do uso da força pelo Estado. A humanidade ainda não chegou lá. Estado sem violência, alguém já viu?

 

Dias antes, eu cruzava corredores da Câmara dos Deputados, ao lado de ativistas da sociedade civil e gestores do governo, em busca de apoio ao Projeto de Lei 4471/2012, que entrava novamente na pauta de votação do plenário. O PL altera o Código de Processo Penal e determina a investigação de mortes e lesões corporais cometidas por policiais, estabelecendo critérios para coleta de provas, perícia e instauração de inquérito. Na prática, extingue a figura do “auto de resistência”, herança macabra da ditadura militar que segue encobrindo crimes praticados por policiais ao dispensar a apuração de mortes resultantes dos chamados “confrontos com a população”, sob a alegação de que o policial assassino agiu em legítima defesa, no cumprimento do seu dever.

 

O fim dos autos de resistência é uma pauta antiga do movimento negro e, nos últimos anos, foi assumido como uma das principais bandeiras de organizações e grupos que lutam contra o genocídio da juventude negra e periférica. A razão é conhecida: frequentemente, auto de resistência é carimbo para execução sumária e engrossa as altíssimas estatísticas de homicídios de um país que perde, todos os anos, cerca de 18 mil jovens de 15 a 24 anos assassinados, dos quais mais de 70% são negros, como atesta o Mapa da Violência 2013. Tamanha matança não se compara nem mesmo com países oficialmente em guerra: de 2008 a 2011, o Brasil registrou mais vítimas de homicídios do que os 12 maiores conflitos armados que aconteceram no mundo entre 2004 e 2007, em lugares como Iraque, Sudão, Afeganistão e Colômbia.

 

Pelos corredores da Câmara, íamos Débora Silva (Mães de Maio – São Paulo), DJ Branco (Conselho de Desenvolvimento da Comunidade Negra – Bahia), Tiago Azeviche (Liga dos Invasores – Bahia) e eu (Fórum das Juventudes da Grande BH – Minas Gerais). Ao longo dos dias 7 e 8 de abril, abordamos parlamentares, entregamos moções pela aprovação integral e imediata do PL, identificamos inimigos e encontramos gente aliada. Contamos com o suporte de gestores da Secretaria Nacional de Juventude (SNJ), da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), da Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM) e do Ministério da Justiça (MJ), além de integrantes do Conselho Nacional de Juventude (Conjuve). Estivemos também na sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) para participar de uma reunião da Comissão Nacional de Promoção da Igualdade do Conselho Federal da OAB, em uma articulação mediada pela Ouvidoria da Seppir, que tem assento na Comissão.

 

Na noite do dia 9 de abril, o plenário da Câmara começou a apreciar um requerimento de urgência para a votação do PL, mas a sessão foi derrubada por falta de quórum. Ainda bem. A maioria dos partidos ia contra o requerimento. Passado o baque, será preciso um amplo trabalho de mobilização e convencimento para ganhar o páreo quando o PL voltar à pauta. O jogo é bruto. Sorrateiras, facções antidemocráticas operam para manter prerrogativas fascistas, como a tortura e a pena de morte. Essa é a lógica fundamental dos autos de resistência: trata-se da negação absoluta do mínimo que se pode exigir de um pretenso Estado Democrático de Direito.

 

Na manhã seguinte, já na audiência com Dilma, tive a chance de falar sobre a importância da aprovação do PL 4471, primeiro passo para um horizonte de desmilitarização das polícias, além de outros pontos definidos em conjunto com aliados presentes da juventude negra: Danilo Morais, da Coordenação Nacional de Entidades Negras; Elder Costa, do Fórum Nacional da Juventude Negra; e Wellington Neto, da Pastoral da Juventude do Meio Popular. Reivindicamos o fortalecimento do programa Juventude Viva, atualmente a principal política do Governo Federal voltada para a redução da mortalidade de jovens, mediante aumento de recursos, maior inserção nos territórios e incidência sobre o sistema judiciário e as políticas estaduais de segurança pública. Ressaltamos a necessidade de mudança no paradigma da política sobre drogas, que tem sido determinante para o genocídio e o encarceramento em massa da juventude negra e pobre. Defendemos a abordagem de redução de danos e o fim do proibicionismo na legislação, compreendendo que será preciso disputar essa perspectiva dentro do governo e na sociedade como um todo. Mencionei, ainda, a situação das jovens negras nesse contexto de violações e lembrei que a morte de Claudia da Silva Ferreira, mulher negra assassinada por policiais no Rio de Janeiro, é emblemática por evidenciar a ordem de exceção e anulação de direitos imposta às periferias de todo o país.

 

Entre as mais de trinta pessoas da sociedade civil que participaram do encontro, destacou-se o jovem MC Chaveirinho, cantor de funk e organizador de rolezinhos em São Paulo. Ele falou sobre o histórico dos rolezinhos, que existem desde 2007, o crescimento da adesão de rolezeiros com a multiplicação das redes sociais, os ataques e agressões que sofreram por parte da mídia convencional e a falta de políticas culturais e de lazer na periferia. Explicou que a opção pelos shoppings foi, sobretudo, por uma questão de segurança e que os jovens têm medo de ficar nas suas quebradas. Sem alternativas seguras nos lugares onde moram, preferem se encontrar nos shoppings para tirar fotos, comer e beber, curtir um funk, namorar e se divertir. Enfatizou que as políticas para a juventude não chegam dentro da favela e que ações para jovens devem ser feitas com os próprios jovens, respeitando as suas linguagens: sem essa de “caros companheiros, caras companheiras”, porque o jovem desconfia desse papo de político. A presidenta riu. MC Chaveirinho fechou sua intervenção defendendo a valorização do funk e relembrando a morte do MC Daleste, assassinado em julho do ano passado.

 

Dilma conduz os momentos finais da audiência com uma reflexão sobre o racismo. Também trata de reforma política, educação, mobilidade urbana, democratização da comunicação… Diz que entende o problema colocado por MC Chaveirinho e que os shoppings são seguros exatamente porque não foram criados para receber os jovens dos rolezinhos. Admite a necessidade de políticas culturais para a juventude e se compromete a destinar mais investimentos ao programa Juventude Viva, em articulação com os Pontos de Cultura nos territórios. Repudia os autos de resistência e afirma que a violência policial, no Brasil, carrega a marca da tortura. Também se coloca contra a redução da maioridade penal. Pede apoio a uma campanha contra o racismo que será mote da Copa do Mundo. Nesse momento, recebemos uma apostila com informações sobre investimentos e impactos sociais da Copa, material que será distribuído em uma série de encontros que o governo fará com a sociedade no próximo período.

 

Tarde demais para consultar a população sobre a Copa, é certo, e poucos sinais concretos sobre as demandas apresentadas. Mas Dilma conseguiu elaborar razoavelmente, pelo menos na dimensão racial, alguns dos entendimentos construídos pelos movimentos sociais. Talvez isso seja reflexo das audiências deflagradas com a sociedade civil após as jornadas de junho de 2013. O governo demorou a se mover e reagiu no aperto das circunstâncias. Entretanto, mesmo com limitações, contradições e riscos de acomodação das lutas sociais, as audiências se mostraram espaços de interação direta em que os movimentos puderam condensar pautas críticas e endereçá-las à presidência. Em todo caso, esses encontros não substituem mecanismos de participação estruturados no sistema político.

 

Para a juventude negra, é significativo que a presidenta repudie a violência do Estado, mas isso pode virar qualquer conversa sem futuro se não houver disposição do governo para mexer nas dinâmicas e correlações de forças que afetam as políticas de segurança pública. É evidente que não se muda cultura autoritária com canetada – nem se promove reforma política dessa forma, como disse a própria Dilma –, mas decisões sobre prioridades e investimentos dependem, sim, de chancelas e iniciativas que estão ao alcance das mãos da autoridade máxima do país.

Categorias
Juventude

Fórum das Juventudes da Grande BH: uma trajetória em favor dos direitos [email protected] jovens

De Douglas Belchior

Satisfação imensa em destacar no Blog NegroBelchior a trajetória desta turma de jovens lutadoras e lutadores populares que constroem uma linda história de mobilização e formação de juventude nas periferias de Belo Horizonte. Me refiro aos integrantes do Fórum das Juventudes da Grande BH. Tive o prazer de vivenciar um momento de formação e troca de experiências neste mês de fevereiro de 2014. Em nome de Vanessa Beco cumprimento todas e todos pelo importante trabalho, afinal, “é nós por nós mesmos, sempre!”

Vale a pena conhecer e apoiar!

 

encontro ampliado_campanha colaborativa_mar 2013 [3]

 

 

Por Bruno Vieira, jornalista, coordenador do coletivo Conexão Periférica e integrante do Fórum das Juventudes da Grande BH

 

De onde viemos? E para onde vamos?

Surgimos lá em 2004, por meio de uma articulação de pessoas, grupos e entidades dispostas a discutir os direitos das juventudes. Naquela época, alguns dos temas mais candentes que temos hoje, como o Estatuto da Juventude e o genocídio da juventude negra, ainda não estavam tão amadurecidos. Tudo isso estava bem no comecinho, e ainda não se falava com propriedade de Políticas Públicas de Juventude (as chamadas PPJ). Aquela articulação começou, então, a propor ideias, a incidir em discussões sobre políticas e a tocar atividades “na tora” sobre assuntos bastante polêmicos – como Redução de Danos, assunto que até hoje arrepia os cabelos da galera que defende outros tipos de tratamento para a drogadição.

Sofremos uma baixa entre os anos de 2008 e 2011. Tivemos que dar uma parada – sabe quando você está correndo, correndo, em determinado momento se cansa e, obrigatoriamente, tem que parar? Pois foi o que rolou. Em outras palavras, demos um “hiato”. Não por tempo indeterminado – tanto que voltamos à ativa em 2011, em um contexto para lá de controverso.

Demanda antiga dos movimentos juvenis de Belo Horizonte, o Centro de Referência da Juventude (CRJ) começava a retornar à cena de discussões das PPJ – só que de uma forma controversa. Em vez de promover um diálogo aberto com toda a cidade, a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), responsável pela obra, optou por conversar com poucas pessoas. Naquele agosto de 2011, o prefeito Márcio Lacerda convocou algumas representações juvenis da cidade para em um singelo, porém sofisticado, almoço no número 1212 da Avenida Afonso Pena (sede da PBH), apresentar uma planta arquitetônica do CRJ.

 

3º juventude okupa a cidade [1] Isso nos deixou [email protected] Achamos que a escolha foi arbitrária, pois não seguia nenhum critério de representatividade numérica, muito menos de diversidade juvenil da cidade e da região metropolitana. Como uma reação a essa forma tosca de fazer política pública, solicitamos a um vereador da cidade que convocasse uma audiência pública para pautar o CRJ: a ideia era que a Prefeitura apresentasse o projeto físico e conceitual do Centro e que a sociedade civil pudesse incidir de forma propositiva nesse processo. Era necessário um mínimo de diálogo para que o CRJ pudesse ser, de fato, um espaço construído de forma colaborativa, e não somente uma obra da Prefeitura em parceria com a Subsecretaria Estadual de Juventude – que, inclusive, ausentou-se da audiência.

Como resultado da audiência, formou-se uma comissão paritária, composta por membros da sociedade civil e do poder público. Esse grupo se reuniu duas vezes – ambos os encontros aconteceram na sede da PBH. Tudo isso foi muito desgastante. Percebemos que a Prefeitura, por meio de sua Coordenadoria de Juventude, não estava disposta ao diálogo; tampouco a Subsecretaria de Juventude, que se mostrou ainda mais avessa ao papo reto. Saiba mais sobre esses episódios.

Depois desse processo todo, nos perguntamos: como propor e incidir politicamente na cidade se as vias institucionais – Prefeitura e Coordenadoria de Juventude, Governo de Minas e Subsecretaria de Estado de Juventude – encontravam-se avessas a um debate amplo, fora dos gabinetes e do ar condicionado?

Em abril de 2011, o professor Paulo Carrano, da UFF (Universidade Federal Fluminense), esteve em BH para um evento promovido pelo Observatório da Juventude da UFMG. Durante o debate, ele foi claro: “a agenda é feita na rua, e não nos gabinetes refrigerados!”. E, como já estávamos cansados de embates apenas reativos, resolvemos propor uma discussão. Depois de vários encontros internos, fóruns públicos e reuniões ampliadas, percebemos que a questão da violência contra as juventudes era o que mais “pegava” e, portanto, tínhamos que estar [email protected] a essa pauta. Durante o ano de 2012, preparamos um documento que pudesse balizar nossas intervenções sobre o tema – a sistematização dos dados levantados e das informações recolhidas gerou a Agenda de Enfrentamento à Violência Contra as Juventudes.

formação_Escola Municipal Levindo Coelho_out 2013 [4]

OK, Agenda lançada. Mas como alcançaríamos os jovens com os assuntos que a agenda se propunha a discutir? Daí nasceu a campanha colaborativa Juventudes Contra Violência – um conjunto articulado de ações vinculadas ao enfrentamento às violações de direitos [email protected] jovens, incluindo divulgação de peças gráficas, encontros formativos e eventos temáticos. A campanha foi lançada em maio de 2013, na quarta edição do evento A Juventude oKupa a Cidade, e sua primeira ação de peso foi a jornada Maio pelo Fim da Violência Contra as Juventudes, que contou com o envolvimento de vários grupos e coletivos parceiros. E aí não paramos mais: no segundo semestre do ano passado, desenvolvemos uma série de encontros formativos com outros grupos de jovens de BH e Região Metropolitana e também com [email protected], com o objetivo de provocar a reflexão sobre o tema e formar novos [email protected]

Hoje, alcançamos um patamar interessante: com o apoio do Instituto C&A (por meio do edital Redes e Alianças), desenvolvemos o kit educativo okupa: juventude, cidadania e ocupação da cidade, que propõe discutir o espaço urbano e as PPJ de uma forma lúdica e formativa. O material foi distribuído a grupos, coletivos e movimentos juvenis da cidade; a escolas; a programas públicos de atendimento à juventude e a [email protected] [email protected] Também realizamos, nos dias 21 e 22 de fevereiro deste ano, o seminário “Juventudes contra Violência”. Foi um evento de grande repercussão, que possibilitou ricas e aprofundadas discussões sobre o tema! Além disso, grupos igualmente antenados com a questão das violações dos direitos das juventudes puderam compartilhar suas experiências.

Não paramos por aí. 2014 chegou com a promessa de muitos trabalhos e muitas lutas no enfrentamento às diversas formas de violências contra as juventudes! Seja no rolezinho, no protesto de rua ou na mesa redonda, esperamos aumentar ainda mais o nosso coro: basta de violência contra as juventudes!

 

Acompanhe nossas atividades! Curta nossa página no Facebook: Fórum das Juventudes da Grande BH

 

jogo okupa [7]