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Literatura

O bilionário Reginald F. Lewis – Estante Literária

Reginal F Lewis

Por Por Edson Cadette / Blog Lado B NY

Quando o menino magricela de apenas 6 anos de idade Reginald F. Lewis foi questionado pelo avô sobre o desemprego entre os afro-americanos, ele disparou: “por que as pessoas brancas têm que ter toda diversão?”.

Lewis transformou-se no bilionário negro mais conhecido dos Estados Unidos e um dos empreendedores com o maior tino comercial de todos os tempos, liderando um grupo de empresas altamente lucrativas, localizadas nos quatro continentes. Quando faleceu, prematuramente aos 50 anos, no início da década de noventa, sua fortuna pessoal estava avaliada em aproximadamente U$400 milhões.

O livro Why should white guys have all the fun? traça sua ascensão social e financeira, saindo de uma família de classe trabalhadora do lado leste da segregada cidade de Baltimore, no estado de Maryland, passando pelos corredores da prestigiosa Universidade de Harvard no curso de Direito e terminando no fechado círculo dos gurus financeiros de Wall Street.

Reginald F. Lewis ao lado do pastor e ativista Jesse Jackson

Expandindo a autobiografia não terminada de Lewis, o jornalista Blair S. Walker completa a história com um retrato vívido da trajetória de um homem orgulhoso, altamente competitivo e com um língua e intelecto afiados.

Walker mostra com muita clareza como a busca incessante pelo sucesso e riqueza preencheu a curta vida de Lewis tanto no âmbito acadêmico, quanto na direção de sua companhia. O autor ainda nos fornece uma rara visão do que passava dentro da cabeça do bilionário, que era um negociador ferrenho e brilhante estrategista.

Em 1987 Reginald Lewis doou a famosa instituição Howard University a bagatela de US$1 milhão para ajudar os estudantes, m ano depois o governo Federal equiparou a doação oferecendo mais US$1 milhão.

O clube social da Universidade Harvard, localizado na ilha de Manhattan em Nova York, tem em sua entrada um enorme quadro pintado a óleo homenageando o ex estudante.

 

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Literatura

Livro analisa legado de Tebas, negro escravizado que se tornou arquiteto no Brasil Colonial

Escravizado até os 58 anos de idade, Tebas executou emblemáticas obras do Brasil Colonial e se consolidou como um dos maiores arquitetos brasileiros do século 18. Porém, sua história ainda é pouco conhecida do público e até mesmo de muitos pesquisadores. Mas isso está prestes a mudar. Pela primeira vez uma publicação se propõe a analisar, em profundidade, o legado e a trajetória de Joaquim Pinto de Oliveira (1721-1811), mais conhecido como Tebas.

 Tebas: um negro arquiteto na São Paulo escravocrata (abordagens), organizado pelo escritor e jornalista Abilio Ferreira, é a primeira publicação de não ficção dedicada ao construtor, reunindo artigos de cinco especialistas. Tebas foi o responsável pela construção do Chafariz da Misericórdia (1792), sua obra mais conhecida, além dos ornamentos de pedra da fachada das principais igrejas paulistanas da época, como a da Ordem Terceira do Carmo (1775-1776), a do Mosteiro de São Bento (1766 e 1798), a da velha Catedral da Sé (1778), a da Ordem Terceira do Seráfico São Francisco (1783) e, também, do enorme Cruzeiro Franciscano da cidade de Itu (1795).

O evento de lançamento do livro será no dia 14 de março, às 19h, na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo. No dia 21 de março, às 20h, também haverá uma segunda atividade de lançamento durante a “Caminha Noturna pelo Centro”, na escadaria do Teatro Municipal de São Paulo.

Sobre Tebas

As origens africanas de Joaquim Pinto de Oliveira ainda não são conhecidas. Sabe-se, no entanto, que ele nasceu em Santos e foi transferido para São Paulo, em meados do século 18, pelo seu então proprietário, o português Bento de Oliveira Lima, célebre mestre de obras da região.

A capital vivia, na época, um boom na construção civil, baseada no método construtivo da taipa. Tebas se destacava por ser um especialista na arte e na técnica de talhar e aparelhar pedras, um profissional raro na São Paulo colonial. Seu trabalho era muito requisitado, sobretudo pelas poderosas ordens religiosas presentes na cidade desde a fundação.

Alforriado entre 1777 e 1778, aos 57 ou 58 anos de idade, Tebas morreu no dia 11 de janeiro de 1811, vítima de gangrena, aos 90 anos. O velório e o sepultamento foram realizados na Igreja de São Gonçalo, ainda hoje existente na Praça João Mendes.

Benedito Lima de Toledo, professor emérito da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, em entrevista concedida à revista Leituras da História (2012), destacou que Joaquim Pinto de Oliveira soube captar a religiosidade da época e expressá-la de maneira muito pessoal. “Essa expressão da religiosidade”, disse Toledo, na ocasião, “é que o transformou em arquiteto e as suas obras em arte”.

Lançamentos

Dia 14 de março, das 19h às 21h30

Biblioteca Mario de Andrade

Rua da Consolação, 94 – República, São Paulo

Dia 21 de março, das 20h às 22h 

Caminhada Noturna pelo Centro – Escadaria do Teatro Municipal de São Paulo,

Praça Ramos de Azevedo (as primeiras 50 pessoas receberão um exemplar do livro)

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Cultura Literatura

Teatro Apollo aos 85 anos – Estante Literária

Por Edson Cadette, adaptado, do Blog Lado B NY

Numa noite fria de inverno, em janeiro de 1934, o legendário Teatro Apollo, encubador de talentos como James Brown, The Jackson Five, Dionne Warick e incontáveis cantores, dançarinos e comediantes, abriu suas portas no coração do bairro do Harlem, em Nova York. O show de abertura se chamava “Jazz à la Carte”.

Ted Fox adaptou o belo livro “Showtime at the Apollo: The Epic Tale of Harlem’s Legendary Theater” como uma história gráfica, com ilustrações de James Otis Smth. A obra é uma bonita homenagem ao Teatro que está comemorando 85 anos de existência neste ano e tem muitas histórias dentro e fora do seu famoso palco. O Teatro Apollo foi testemunha de vários eventos envolvendo não somente os famosos artistas, mas também o próprio bairro.

O primeiro episódio fora do palco aconteceu exatamente um anos após a inauguração do Apollo. O bairro do Harlem foi palco de um enorme distúrbio urbano envolvendo mais de 3.000 pessoas, devido ao espancamento de um jovem negro por vendedores dentro da loja de departamentos S.H. Kress & Co. De acordo com reportagem da época, do periódico The New York Times, o local foi poupado de qualquer estrago físico.

“Showtime” começa bem antes da inauguração. Na época, um outro clube famoso era o destaque cultural do bairro: o Cotton Club. Com sua lista de grande músicos de Jazz, entre eles Cab Calloway e Duke Ellington, era frequentado pela clientela endinheirada branca, clientes negros eram barrados no porta.

Teatro Apollo no coração do bairro do Harlem/NY

O livro se equilibra entre a dura realidade da população negra do bairro e a magia dos excepcionais artistas no palco. Há de tudo um pouco nesta magnífica história. Há roubos, drogas, brigas, mortes e distúrbios raciais. Porém, o Teatro de uma maneira ou outra sempre saiu ileso.

Outro episódio importante envolvendo a casa aconteceu aos tiros, em 1973, durante a apresentação do cantor Smokey Robinson. Entre os distúrbios, tiros e muitas drogas, os artistas continuavam fazendo apresentações e mostrando não apenas seus talentos, mas também a resiliência da comunidade afro-americana.

Um importante e histórico destaque fica por conta da gravação ao vivo de um álbum do cantor James Brown, que ficou nas paradas de sucesso da época por mais de um ano. Outro destalhe bacana no livro é o concerto do icônico cantor George Clinton, que ao invés de ir ao ginásio de esportes Madison Square Garden, optou em apresentar-se no Teatro Apollo.

Durante seus 85 anos, o teatro enfrentou diversas dificuldades financeiras, por várias vezes esteve até mesmo a ponto de ser demolido. Em 1979 foi fechado por causa de evasão fiscal.

Em 1981 começou sua gloriosa renovação. Dois anos depois, ele foi considerado pela cidade de Nova York como um marco histórico cultural. E durante mais de 20 anos foi palco de inúmeras disputas para saber qual modelo gestor seria melhor utilizado para mantê-lo em funcionamento.

No início dos anos 2000, milhares de fãs se aglomeraram dentro e fora do Apollo para prestarem suas últimas homenagens a dois ídolos. O primeiro deles, James Brown, faleceu em 2006, três anos depois o teatro ficou de luto mais uma vez, devido a morte do rei do pop, Michael Jackson.

“Showtime” termina com o reconhecimento a Francis Thomas, também conhecido como Doll (Boneca) ou Mr. Apollo (Senhor Apollo), que foi um veterano no “show business”, gerente do teatro e um “faz de tudo um pouco” no local. É ele quem puxa a cortina da famosa “Quarta-feira Noite Amadora”, que começou  na inauguração e segue sendo sendo uma das principais atrações do bairro até os dias atuais.

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Literatura

Na minha pele – Estante literária

Por Edson Cadette, do Blog Lado B NY

Na Minha Pele, do multitalentoso Lázaro Ramos, não pode ser considerado um livro de memórias porque não está ligado a uma época específica da vida do ator como por exemplo, o período em que ele trabalhou dentro do Bando de Teatro Olodum, na cidade de Salvador, local onde aprendeu todas as técnicas de atuação que utiliza até os dias de hoje. Ao contrário, o livro que começa na pequena Ilha de Paty, no interior da Bahia, na década de oitenta, termina com passagens na zona sul do Rio de Janeiro, onde Lázaro testemunha ao lado dos filhos a ação policial contra jovens negros num espaço que certamente não os pertence. A obra pode ser usada como fonte de inspiração para jovens em geral, principalmente negros que enxergam no ator uma pessoa sem medo de falar o que realmente pensa sobre a disparidade racial no Brasil.

É um livro pequeno e bastante fácil de ser lido, poderíamos chamar de uma leitura tranquila, que poderia ser feita num voo entre o Rio de Janeiro e Nova York. Você não terminará a leitura dizendo que o Brasil é um país altamente racista – algo que não é mencionado em nenhum momento -, ou irá dizer a uma pessoa branca que ela faz parte do racismo institucional. Tão pouco falará com seu amigo branco sobre o que ele realmente acha da condição socioeconômica do negro no país e questionar se está diretamente ligada com a duradoura escravidão brasileira.

Apesar das micro agressões diárias que sofria, principalmente antes de ser catapultado para o estrelato no final dos anos noventa, Lázaro Ramos jamais usou delas ou do racismo latente como impedimento para suas realizações pessoais de ator.

Lázaro fala de atores importantes da dramaturgia brasileira como Ruth de Souza, Milton Gonçalves, e Lea Garcia, que de certa maneira abriram um caminho para o seu sucesso. Ele cita também livros, ativistas e músicos importantes do início dos anos 2000 que estavam mudando o discurso no debate racial brasileiro.

Para escapar do racismo diário ele acredita que o núcleo familiar é essencial e ressalta a importância que sua enorme família teve na sua formação como pessoa. Acreditando nesta socialização, o ator se casou e mantém uma parceria que já dura mais de dez anos com a também atriz Taís Araujo.

Lázaro Ramos no papel de Madame Satã (2002)

Na Minha Pele é um livro importante para debater questões raciais no Brasil e o autor usa sua voz para chamar atenção ao fato de que o negro já nasce com uma enorme barreira devido a própria história do país. A grande mensagem desta pequena, mas importante obra, é que Lázaro Ramos deseja estar na normalidade, e não na exceção dos negros brasileiros.

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Cultura Literatura

Sérgio Vaz: 30 anos de poesia, luta e resistência

Por Marina Souza

Em razão das suas trajetórias de vida e literária, o poeta Sérgio Vaz será premiado no 22º Prêmio Santo Dias de Direitos Humanos, promovido pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (ALESP), hoje (10) às 20 horas. Amanhã, no mesmo horário, o Sarau Cooperiferia, coletivo fundado pelo escritor em 2001 para promover atividades culturais periféricas, o homenageará pelos 30 anos de carreira artística completados hoje.

O artista, que hoje é reconhecido por suas obras emblemáticas dentro e fora das periferias, acredita que a visibilidade e o destaque da poesia como um todo mudaram ao longo de seus anos de trabalho, quando publicou seu primeiro livro sentia que ela era menosprezada se comparada a outras artes. Por isso, desde sua entrada neste cenário Vaz tem como meta a democratização da poesia, sobretudo nas periferias.

Ele explica que o grande responsável por lhe fazer “olhar além do próprio umbigo” foi o universo artístico e que suas poesias sempre foram materiais de denúncia ao racismo, violência, fome e todas as mazelas sociais que atingem povos pretos e pobres. Enquanto artista, ele diz se sentir em um dever social de transmitir a importância dos Direitos Humanos e pretende continuar nesta luta.

“A arte é resistência por si só. Ser artista é resistir.”, diz ele

Sérgio é autor de oito livros: “Subindo a ladeira mora a noite” (1992), escrito com Adrianne Muciolo, “A margem do vento” (1995), “Pensamentos vadios” (1999, “A poesia dos deuses inferiores” (2004), “Colecionador de pedras” (2006), “Cooperifa – Antropofagia Periférica” (2008), “Literatura Pão e Poesia” (2011) e “Flores de alvenaria” (2016).

“A sensação de saber que há exatamente trinta anos atrás, dia 10 de dezembro de 1988, eu lançava meu primeiro livro, e hoje, 10 de dezembro de 2018, estou ganhando um prêmio de Direitos Humanos é uma honra muito grande. Acho que não teria presente maior do que isso, fiquei e estou muito agradecido a todas as pessoas que cruzaram meu caminho nesses trinta anos de história.”, diz.

 

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Cultura Literatura

Notas de Escurecimento: a escrita negra em discussão

                                 Foto: Arquivo Pessoal

Por Marina Souza

Hoje (30), às 19 horas, acontecerá a 23º edição do evento “Notas de Escurecimento”, organizado pelo escritor e educador Plínio Camilo, no Centro Cultural Palace, em Ribeirão Preto. A ideia do evento surgiu em Camilo através da necessidade que ele sentia em discutir a escrita negra e criar um espaço para divulgar seus livros.

Inspirado por escritores como Cruz e Souza, o autor acredita que a literatura negra deva ser incluída dentro da atual arte canônica, fazendo com que a diversidade do povo brasileiro seja apresentada e valorizada.

A atividade, que teve início em Setembro desse ano, funciona por meio de uma discussão dinâmica e participativa sobre os conceitos de literatura negra brasileira, suas origens, função atual e perspectivas futuras, tendo como objetivos maiores auxiliar no combate a racismo e na quebra de silenciamentos historicamente impostos aos negros.

Plínio também diz que em 2019 pretende dar continuidade à série de eventos em diversos lugares do estado de São Paulo.

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Cultura Literatura

Mulheres negras na biblioteca e a visibilidade na literatura


Por Marina Souza

O Mulheres Negras na Biblioteca é uma ação que visa proporcionar maior visibilidade às autoras negras, através de eventos gratuitos e divulgação de obras literárias.

Em 2016 quatro amigas, do curso técnico de Biblioteconomia da ETEC, perceberam que não existiam escritoras negras no acervo bibliotecário da instituição. A fim de mudar aquela realidade pediram doações no Facebook, distribuíram cartazes, realizaram bate-papos e eventos com autoras contemporâneas. Durante o TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) elas estudaram sobre a importância de obras negras numa biblioteca e descobriram que essa invisibilidade ainda é algo muito presente na maioria destes locais. “Não há demanda” é a justificativa mais utilizada pelos responsáveis dos estabelecimentos quando são questionados a respeito.

“Se não lemos todos os passos criativos da nação, estamos lendo uma nação em pedaços, estamos lendo uma nação incompleta.” – Conceição Evaristo

Em setembro daquele ano as estudantes Carine Souza e Iara Moraes decidiram se aprofundar na luta e criaram o Coletivo Mulheres na Biblioteca, ao lado das amigas Ketty Valencio e Juliane Sousa. A ideia era aumentar o público leitor de autoras negras, incentivar à leitura e realizar oficinas de poesia, saraus culturais e clubes de análise literária. O plano futuro, segundo Carine, é apostar no cenário audiovisual, fazendo entrevistas com diversas escritoras.

Da esquerda para a direita: Juliane Sousa (jornalista, ambientalista, apresentadora de rádio e televisão, coordenadora de produção, roteirista e poeta), Carine Souza (graduanda em Letras, técnica em Biblioteconomia, ela trabalha com produção e revisão de textos), Iara Moraes (formada como Artista-educadora e técnica em Biblioteconomia, ela ministra oficinas de encadernação). A quarta integrante, que não aparece na foto, é Ketty Valencio (bibliotecária, livreira e proprietária da Livraria Africanidades) | Foto: Fridas Comunica e Fotografa

Atualmente o programa Valorização de Iniciativas Culturais (VAI) é responsável pelo financiamento dos eventos do grupo, que acontecem em diferentes pontos da capital paulista, às vezes na rua, outras em bibliotecas. Nesta semana, o grupo está organizando uma série de eventos na Biblioteca Menotti Del Picchia, localizada em um bairro periférico da Zona Norte.

“O projeto visa contribuir no combate ao racismo e sexismo, que estão ainda mais evidentes nesses tempos sombrios. Acreditamos que o Coletivo já causou uma grande revolução, considerando que falamos a partir de três lugares áridos na nossa sociedade: a literatura, pois sabemos que estamos em um país que pouco lê; a biblioteca, que é um lugar de poder ainda pouco frequentado; e a literatura de mulheres negras.”, diz Juliane quando questionada sobre a importância do projeto.

Clube de leitura realizado pelo Mulheres na Bibliotecas. Os textos são lidos em voz alta e depois discutidos entre as participantes | Foto: Marina Souza

Na página do Facebook é possível encontrar sugestões e links para downloads de diversas obras escritas por mulheres negras brasileiras e estrangeiras, além disso você acompanha a divulgação dos próximos eventos do coletivo.

 

 

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Literatura racismo

Afrontamento: um combate aos racismos

 

Sobres vivencias do racismo cotidiano, no relato de Kwame Yonatan, autor do livro “Nasce um desejo”

         

Por Kwame Yonatan, in memorian de Jonathas Salathiel

 

 

Eu na praia. Uma desconhecida se aproxima.

-Com licença moço, desculpa te incomodar.

-Oi?

– Minha filhinha pequena estava de longe admirando seu cabelo. Ela nunca tinha visto alguém assim, está admirada e ela queria ver você de perto.

Nesse momento, aproxima-se uma garotinha negra de cinco anos linda e tímida, em cima de uma boia.

Eu sorrio para ela e digo que o cabelo dela é lindo também. Ela fica mais tímida e se esconde atrás da mãe. A moça agradece e as duas vão embora.

Quando tinha a idade dela sempre tive cabelo raspado, lembro de uma vez na oitava série de fazer um corte de cabelo diferente (igual ao do Will Smith) e ser motivo de risos na escola. História recorrente para quem é negra/o.

O cabelo é a parte mais sensível da população negra e é pela raiz que se começa o racismo: vai raspar ou alisar?

Anos depois, uma microrrevolução crespa começou em mim, deixei crescer, descobri depois mais de uma década que tinha cabelo cacheado, trancei, subi o “black power” e desde então nunca mais deixei cair. Comecei a assumir o meu cabelo, com orgulho e do jeito que ele se apresentava. Era o início do AFROntamento.

Sem que fosse possível prever, senti um efeito multiplicador nessa microrrevolução. Pessoas ao meu redor, algumas conhecidas outras não, abordavam-me para me perguntar como eu fazia para deixar meu cabelo daquele jeito e eu respondia:

-É só se permitir, deixa encrespar geral.

Não havia alegria maior do que anos depois encontrar aquela pessoa em transição capilar, assumindo seu cabelo como ele era.

Devido a esse efeito estético multiplicador do encrespamento, eu resolvi abordar uma outra forma de enfrentamento ao racismo, nem tão bela, mas tão potente quanto. Resolvi escrever um relato “extra-pessoal” sobre o dia em que gritei e denunciei o racismo que passei no trabalho em 2015.

Foi no dia 13 de agosto de 2015, infelizmente, no mesmo dia que uma pessoa maravilhosa se “encantou”, Jonathas Salathiel, amigo que me convidou para o antigo subnúcleo de relações raciais do CRP-SP. E, nessas ironias tristes que só o destino sabe realizar, foi no mesmo dia 13 que sofri racismo no trabalho e resolvi denunciar. Jonathas era alguém muito especial, de uma militância tranquila e cuidadosa e dedico a ele esse texto,também.

Eu era bolsita de um projeto de pesquisa ligado a Usp. Meu contrato já estava no fim e ia ser renovado. Entretanto, quase perto do fim do contrato, em uma reunião de trabalho, a minha supervisora perguntou ao secretário executivo sobre o que fazer com as horas restantes do meu contrato que já estava finalizando. Ele respondeu:

– Chicote! Vai limpar, passar, servir cafezinho!

Nesse momento, eu interrompo o relato, abro parênteses e reflito: até onde podemos ir?

Por que denunciar as práticas de racismo quando 70 por cento das denúncias são vencidas pelo réu? (http://observatorio3setor.com.br/noticias/racismo-no-brasil-quase-70-dos-processos-foram-vencidos-pelos-reus/)

Até onde vai a palavra que quando retorna volta oca, emudecida?

Como escrever com uma letra morta de algo invisível tão vivo que pulsa na flor-da-pele? Como superar mais essa barreira?

Eis um texto a procura da palavra que rompa os silêncios voltando a ter sentido (direção, significado e toque). Visibilizar a lei 14.187/10 do Estado de São Paulo de combate ao racismo, falarei mais dela adiante.

Eu já havia incentivado tanta gente a lutar contra o racismo, mas nunca imaginei que um dia teria que ir à delegacia denunciar. Pois é, existem tantas histórias mal contadas, malditas…

A reunião contava com oito pessoas (todas brancas) na sala, ninguém disse nada e, nesse momento, pude mais que sentir o que é a branquitude. Restava um ar ácido, um mal-estar difícil de engolir, como se um véu tivesse sido rasgado.  Acabou-se a reunião saímos para almoçar, porém o estômago ainda voltava para a boca.

Até que em uma conversa casual sobre o ocorrido, ouvi:

-Kwame, você tem que denunciar!

Vomitei a cena por semanas para várias pessoas e qual não foi a minha surpresa ao descobrir que várias amigas, amigos e familiares negrxs haviam passado por situações semelhantes de racismo no trabalho.

Conversei com uma amiga advogada, ela passou as possibilidades que tinha frente ao ocorrido. Inicialmente, escolhi o processo educativo, pois acreditava (e ainda creio) que a educação é a arma mais eficiente contra os racismos. No mais, já havia acertado a renovação do contrato, logo, deveríamos falar sobre relações de trabalho.

Contei para a coordenadora do projeto o que aconteceu na reunião, o episódio de racismo e a importância de realizamos uma conversa sobre relações raciais, a 1ª pergunta dela foi:

-Mas você entendeu assim mesmo, que foi racismo?

Nesse momento percebi que haveriam resistências ao processo de discussão das relações raciais no ambiente de trabalho.

Então, dia 23 de outubro de 2015 foi decidido que não se renovaria mais meu contrato.

Resistência é uma palavra interessante, pois, ao mesmo tempo, significa “opor-se” a algo, ou seja, oferecer resistência, defender-se e, também, suportar.

Resisti a entrar em um processo jurídico, por vários motivos, mas não podia suportar a ideia de no mesmo episódio sofrer dois tipos de racismo diferentes: interpessoal e institucional.

Abri o processo criminal por crime de racismo, porém a delegada tipificou como injúria racial, e também abri outro processo administrativo, pois no estado de São Paulo existe uma lei que pune atos de discriminação racial no âmbito administrativo (lei estadual nº14. 187/2010).

E a sentença? O resultado?

É o que menos importa.

Escrevo para combater as narrativas que dizem que denunciar o racismo não tem resultado.

Dois anos depois, ainda não terminou o processo, contudo é preciso quebrar o silêncio sobre o racismo, de modo que a luta seja cotidiana. Do corte na pele fazer um rasgo na paisagem do mito da democracia racial.

Ao romper o silêncio sobre o racismo, foi possível perceber que não se trata de um processo individual. Foram incontáveis histórias de pessoas que chegaram até mim para contar suas feridas provocadas pelas práticas do racismo. Histórias que foram invisibilizadas pela vergonha, medo ou por acharem que era um exagero chamarem o crime de a violência do racismo.

Ao mesmo tempo, várias pessoas se associaram no percurso, quase como a criação de um quilombo enquanto espaço virtual de re-existência; e também pude entender outros amigos que ficaram pelo caminho.

Quando se trata de afrontamento interseccional (enfrentamento ao racismo, machismo, transfobia, homofobia, bifobia e lesbofobia) não se trata de uma vitória pessoal apenas, porém lembrar o pássaro africano “Sankofa”: olhar sobre o passado para ressignificar o presente e possibilitar a emergência de outros futuros. Entender que a pedra lançada hoje pode atingir o alvo amanhã.

Deste modo, do que vale apenas minha vitória nesses processos jurídicos e saber que quando meu sobrinho e minha sobrinha pequenos crescerem e entrarem na escola ainda pode ser que riam do cabelo crespo deles?

O nosso real triunfo nesse processo de afrontamento será quando entendermos a discussão das relações raciais no Brasil, a partir do seguinte princípio: o racismo é um dado estruturante das relações.

O afrontamento é um apelo ao diálogo, quando possível, ou ao Front de guerra, quando necessário. Temos que afirmar o nosso direito de sermos como quisermos ser, se existir é uma conquista, afirmamos nossa existência, há que re-existirmos!

 


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Cultura Literatura

Na Flip, um Casarão para Ruth Guimarães

Ruth Guimarães

 

Ponto alto da homenagem do Instituto Silo Cultural é uma roda de conversa sobre a literatura da escritora, com presença de Lázaro Ramos

 

Por Silo Cultural

 

A escritora Ruth Guimarães, falecida em 2014, ocupou a cadeira número 22 da Academia Paulista de Letras. Produziu romances celebrados pela crítica, pesquisas folclóricas e traduções do francês e do latim. Foi aluna de Mário de Andrade e amiga de grandes escritores como Guimarães Rosa, Jorge Amado, Antonio Candido e muitos outros.A iniciativa da homenagem é do Instituto Silo Cultural, cuja sede receberá, durante a Flip – Festa Literária Internacional de Paraty, a denominação de “Casa Ruth Guimarães”.

Os idealizadores do evento são Luís Perequê, compositor, cantor e produtor cultural nascido em Paraty, e a esposa, a coreógrafa Vanda Mota. O casal criou o Instituto Silo Cultural em 2001, e lá realiza atividades de resgate e de incentivo à preservação da cultura caiçara. Ambos tiveram acesso a um texto de Ruth Guimarães e a paixão foi instantânea.

A “Casa Ruth Guimarães” será aberta no dia 27 de julho, com entrada livre. Na programação, além de exposição da coleção completa dos 45 livros publicados pela autora, serão exibidos vídeos e áudios, fotos e trechos de alguns de seus trabalhos. Uma roda de conversa, com a presença do ator Lázaro Ramos, está programada para o dia 28 de julho. Para compor a mesa, foram convidados o sociólogo José de Souza Martins e o educador Severino Antonio. A mediação ficará a cargo de Joaquim Maria Botelho, jornalista, escritor e filho da homenageada.

 

Lázaro Ramos, com seu novo livro

 

Comum de dois

A homenagem faz parte do projeto do Instituto Silo Cultural “Assim na Serra como no Mar”, que reúne uma intelectual de alma caipira e elementos da cultura caiçara.

O caipira e o caiçara são portadores de traços culturais similares, que Ruth Guimarães, entre outros pesquisadores e folcloristas, observou e registrou em vários dos seus escritos.

Por isso a casa que leva o nome da escritora exibirá manifestações tradicionais dessas duas culturas do Sudeste brasileiro. Representarão os caiçaras, na Casa Ruth Guimarães, artistas e escritores de Ubatuba.

A programação oficial está em fase de confirmação e será definida nos próximos dias, mas já estão previstas apresentações de teatro, música e dança.

 

Família unida

Os quatro filhos da escritora foram convidados pelo Instituto Silo Cultural para atuarem na organização do evento. A curadoria é de Joaquim Maria Botelho. A coordenação da exposição é de Júnia Botelho, tradutora e escritora. Marcos Botelho, que não mergulhou na área da literatura mas é experiente produtor cultural, integra a equipe de apoio. E Olavo Botelho expõe fotos que fez sobre temas abordados nas obras de Ruth Guimarães. As demais fotos são do fotógrafo Botelho Netto, marido de Ruth.

No espaço “Casa Ruth Guimarães” há também uma livraria e café. Um ambiente ensolarado para falar de literatura. Paraty é uma festa.

 

Programação

Em breve aguarde e acompanhe aqui e na página do Facebook do Silo Cultural, a programação completa da Casa Ruth Guimarães, que irá contar com exibição de documentários, roda de conversa com escritores de Ubatuba e apresentações culturais.

 

 


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Literatura

Congresso de escritores destaca produção literária da periferia de São Paulo

Intervenção - Poetas Ambulantes

A segunda edição do evento promove reflexões sobre temas que estão em evidência na literatura periférica, como Empreendedorismo Cultural, Coletivos Feministas, Políticas Públicas e a relação do Rap com os Saraus

 

De Douglas Belchior

O II Congresso de Escritores da Periferia de São Paulo, iniciativa criada em 2014 pelo coletivo de comunicação Desenrola E Não Me Enrola, chega a sua segunda edição com o objetivo de destacar temas que estão em evidência na literatura periférica, reunindo escritores e articuladores culturais para discutir a produção literária na periferia de São Paulo. O evento acontece no dia 7 de novembro na Fábrica de Cultura do Jardim São Luis, bairro localizado na zona sul da cidade.

O Congresso apresenta quatro temáticas para as mesas de debate, que estão ligadas diretamente a forma de atuação dos escritores e coletivos literários da periferia, são elas: Escritores e o  Empreendedorismo Cultural; Rap e Literatura; Políticas Públicas para a Literatura; e Identidade Cultural e Literatura Feminista. Em paralelo ao evento, acontecerá uma feira de livros que dará ênfase as obras publicadas por autores e editoras independentes.

“Nós temos o objetivo de criar perspectivas de organização, projeção cultural e formação de público, para os coletivos literários e escritores independentes ampliarem o impacto das suas iniciativas culturais desenvolvidas na periferia”, afirma Ronaldo Matos, diretor de conteúdo do Desenrola E Não Me Enrola, coletivo de comunicação que produz reportagens sobre a cena cultural da periferia e desenvolve oficinas de educomunicação para jovens provenientes de diferentes regiões da cidade, por meio do projeto Você Repórter da Periferia, outra iniciativa criada pelo coletivo.

Matos argumenta que a literatura periférica é um movimento cultural que impacta diretamente na educação e na personalidade dos jovens e por isso merece toda a atenção da sociedade. “O movimento dos saraus agrega valores sociais e culturais que impactam diretamente na formação dos jovens e moradores da periferia, por isso é de extrema importância reunir poetas, artistas e articuladores culturais para debater e sugerir formas de fortalecer ainda mais esta cultura”, explica.

O coletivo conta com o apoio do Programa de Valorização de Iniciativas Culturais (VAI) da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, uma lei de fomento a projetos culturais da periferia que tem empoderado a atuação do coletivo e ajudado na realização do Congresso, que esse ano tem previsão de atrair mais de 500 participantes para interagir com as mesas de debates, apresentação de pocket shows, intervenções artísticas e uma exposição de quadros e artes plásticas.

Agenda

2° Congresso de Escritores da Periferia de São Paulo

Local: Fábricas de Cultura do Jardim São Luiz

Data: 07 de Novembro

Endereço:  R. Antônio Ramos Rosa, 651 – Jardim São Luís, São Paulo – SP, 05822-010

Horário: 13h00 as 20h00

Informações: [email protected] / 9 87764540

Página no Facebook: https://www.facebook.com/Congresso-Escritores-da-Periferia-SP-982432228464739/ 

Entrada Gratuita

 

Flyer de temáticas do Congresso