Categorias
Arte Cultura Matriz Africana

Rodar a vida é uma escola: Melvin Santhana conta sobre a carreira e trajetória de vida

Foto: Vinicius Souza

Por Marina Souza

Cantor, compositor, multi-instrumentalista, ator e produtor musical. A arte dentro da alma ou vice-versa. Melvin Santhana tem 35 anos e nasceu em Guarulhos rodeado por uma família que desde cedo o influenciou musicalmente por meio do trabalho do pai com discos, da MPB, das cantigas de Umbanda e Candomblé, festas familiares e muitas outras experiências. Com cerca de 20 anos de carreira, ele vem conquistando diferentes espaços, atualmente integra a banda de apoio do show Boogie Naipe, do rapper Mano Brown, e no ano passado lançou seu primeiro disco solo: o Abre Alas.

Com apenas oito anos de idade o artista aprendeu a tocar cavaquinho, aos doze entrou num conservatório para estudar violão erudito e durante a adolescência matriculou-se em instituições e cursos de Música. Stevie Wonder, Michael Jackson, Nina Simone, Milton Nascimento, Almige Neto, Lauryn Hill e outros emblemáticos da música negra serviram de inspiração para o desejo de Melvin em trabalhar na área.

Os Originais do Samba foi a primeira banda em que fez parte, foi quando começou a aprimorar seus talentos de cantar, dançar e compor. Aos poucos, foi participando de outros projetos de intuito e mecanismo diversos no cenário artístico. Carregando os significados, as consequências e circunstâncias de ser negro no Brasil, ele diz que resistiu (e ainda resiste) todos os dias de sua vida, independentemente da profissão que está exercendo.

Foi com sua personalidade corajosa e persistente que Melvin conseguiu entrar para o Boogie Naipe. Ele conta rindo que convidou a si próprio quando seu primo, que é amigo da assessora dos Racionas MC’s, lhe falou que a Eliane Dias estava querendo formar um grupo para um novo projeto musical. Coincidentemente, Santhana estava trabalhando no espetáculo “Farinha com Açúcar ou Sobre a Sustança de Meninos e Homens”, que retrata o legado deixado pelos Racionais, e em uma das apresentações conversou com a filha de Mano Brown, que estava na platéia. Através dela, marcou uma reunião com Eliane, que o propôs uma audição com outros músicos indicados por ele próprio. Eles fizeram, passaram e hoje compõem a banda.

Talvez só precise de um incentivo, um espaço para mostrar esse trabalho, uma comunidade que abrace isso e entender que é capaz de produzir.”, diz ele.

Foto: Noelia Najera

Para Santhana é essencial que o povo negro brasileiro faça uma reflexão sobre suas maneiras de consumo, produção e correlação entre si, pois isso interfere diretamente nas perspectivas culturais, históricas e políticas dos cidadãos. A visão eurocêntrica, segundo o músico, ainda é uma das principais responsáveis pelo racismo no país. É por esta razão, que ele sempre optou pluralizar os gêneros musicais usados nas suas obras e afirma: “a diversidade é minha matriz e é onde faço acontecer”.

Quando questionei sobre as dificuldades de ser um artista negro o cantor enfatizou que no Brasil, infelizmente, o mercado da área musical ainda está o pouco aberto para a cultura negra. Ele justifica falando que, apesar da Iza, Gloria Groove, Linn da Quebrada e outras/os artistas negras/os que têm ganhado destaque ultimamente, há falta de uma estrutura e um circuito cultural que fomentem isso.

Recentemente, lançou a música “VIVA!” e diz que em 2019 pretende trabalhar com novos singles, além de videoclipes e – talvez – um EP. Melvin também está atuando como ator tanto em Tetaro, quanto em Cinema, e revela que está inserido no projeto “Sem Asas”, de Renata Martins.

Categorias
Matriz Africana

Eugênio Lima realiza estudos gratuitos sobre futuros possíveis e diáspora africana

O projeto AFROTOPIA- Estudos sobre outros futuros possíveis é uma série de três encontros informais, sendo que os próximos irão acontecer nos dias 23 e 30 de agosto. Uma roda de conversa sobre a ideia de futuro, fora da perspectiva colonial. Um espaço para reflexão do tempo que virá seus desdobramentos sociais históricos e seus reflexos na construção da imagem da diáspora africana, no âmbito das linguagens artísticas.

Com organização do Pequeno Ato, o evento terá a mediação feita por Eugenio Lima, que é ator, DJ, pesquisador da cultura diaspórica, membro fundador do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos e da Frente 3 de Fevereiro. Para participar do estudo, os interessados precisam comparecer à sede do Pequeno Ato, que fica na Rua Teodoro Baima, 78, São Paulo, nos dias 23 e 30 de agosto, das 20h às 23h.

Confira, abaixo, a programação completa:

Encontro 2 – 23/08 
Afropolitanismo

Afrorisma III
“O afropolitanismo não é o mesmo que o pan-africanismo ou a Negritude. O afropolitanismo é uma estilística, uma estética e uma certa poética do mundo. É uma maneira de ser no mundo que recusa, por princípio, toda forma de identidade vitimizadora, o que não significa que ela não tenha consciência das injustiças e da violência que a lei do mundo infringiu a esse continente e a seus habitantes. É igualmente uma tomada de posição política e cultural em relação à nação, à raça e à questão da diferença em geral. Na medida em que nossos Estados são invenções (além do mais, recentes), eles não têm, estritamente falado, nada em sua essência que nos obrigaria a lhes render um culto – o que não significa que nós sejamos indiferentes ao seu destino.”Achile Mbembe, Afropolitanismo Tradução de Cleber Daniel Lambert da Silva.

Encontro 3 – 30/08
Afrotopia

Afrorisma IV
AFROTOPIA é uma ideia força cujo principal objetivo é servir e proteger os corpos Negrxs, criando um refúgio, um lugar seguro para explorar futuros. AFROTOPIA é uma TAZ, uma zona autônoma temporária, um local de engajamento ativo para a criação de futuros negros.

Afrorisma V
AFROTOPIA, é a transmissão de uma contribuição africana para um mundo no qual é necessário inventar os recursos para criar o futuro. No seu já clássico “Os Condenados da Terra”, Frantz Fanon, escreve que –“Se quisermos que a humanidade avance um passo adiante (…) então devemos inventar, devemos fazer descobertas.” Acreditamos que o desafio de pensar fora da estrutura hegemônica ajudará a mudar a consciência necessária para manifestar futuros descolonizados.

Categorias
Matriz Africana Religião

Marcha a Favor da Liberdade Religiosa e Contra o Re494601 será nesta quarta (8) na Avenida Paulista

 

Os manifestantes foram convidados a comparecerem ao ato utilizando roupas brancas.

Na próxima quarta-feira, 8/8, às 18h, acontecerá a Marcha a favor da liberdade religiosa e contra o Re494601 no Vão Livre do MASP, em São Paulo. O ato reunirá manifestante que buscam a anulação do recurso extraordinário, de número 494601, que tenta criminalizar as práticas litúrgicas de alimentação, nas religiões de afro-brasileira.

Segundo os organizadores, o RE494601 infringi o direito de Liberdade ao Culto garantido na Constituição de 1988. Com isso, os praticantes reivindicam pela oportunidade de exercer suas religiões, costumes e tradições.

Julgamento do STF 

O julgamento do próximo dia 9 de agosto, no Supremo Tribunal Federal – STF, sobre abate religioso de animais, nasceu de uma vitória das religiões afro-brasileiras obtida em 2004 no Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul.

Inconformado com esta vitória, o Ministério Público gaúcho ingressou com recurso no STF, que será julgado no próximo mês. Juntamente com as Casas Tombadas da Bahia, CEN-Coletivo de Entidades Negras, CENARAB e lideranças religiosas de SP, RJ e RS, os advogados promoveram diversas audiências com ministros do STF, inclusive com a Presidente Ministra Cármen Lúcia.

Desde 2004 o Dr. Hédio Silva Jr. vem atuando neste processo e, mais recentemente, também passaram atuar os advogados Dr. Antônio Basílio Filho e Dr. Jáder Freire de Macedo Júnior.

Nas audiências no STF foram apresentados os argumentos jurídicos que embasaram as vitórias das religiões afro-brasileiras no Tribunal gaúcho e também no Judiciário paulista, que recentemente julgou inconstitucional uma lei do município de Cotia que punia o abate religioso de animais.

Também foi um apresentado um parecer jurídico subscrito pelos advogados, contendo legislação brasileira, legislação europeia, jurisprudência da Suprema Corte norte-americana e de tribunais europeus, todos sobre abate religioso de animais. Este parecer está sendo atualizado pelos advogados e será enviado para todos os ministros do STF, após o que será amplamente divulgado nas redes sociais, juntamente com um vídeo explicativo gravado pelos advogados.

Categorias
Cultura Matriz Africana

Exposição ‘aFÉto’ chega a São Paulo para temporada na Aparelha Luzia

aFÉto, exposição de imagens do sagrado negro a partir de terreiros de candomblé, chega à São Paulo para temporada no quilombo urbano da Aparelha Luzia, espaço de arte, cultura e resistência política afro-indígena e feminina. Lançamento será neste sábado, 21 de Outubro, a partir das 20h.

Por Olhar de um Cipó

 

Sucesso no Festival Internacional de Fotografia do Rio de Janeiro 2017, AFÉTO, a primeira exposição individual de Roger Cipó, com curadoria de Marco Antonio Teobaldo, é resultado de anos de observação do cotidiano de terreiros de candomblé em São Paulo e Rio de Janeiro, numa tentativa de recriar a imagem do sagrado negro a partir da perspectiva de evidenciar a humanidade dos adeptos do candomblé, povo que historicamente tem sido vitimado pelo racismo religioso.

 

Nessa perspectiva, o trabalho propõe um diálogo imagético como contra-narrativa às imagens criadas em olhares desconhecidos que de forma superficial olhou para as práticas pretas de fé com “lentes fetichizadas”, atribuindo lugares pejorativos e quase nunca olhado para as dimensões sagradas e valorosas desses povos e seus territórios. AFÉTO vai de encontro à uma nova construção daquilo que se pode entender por ver o candomblé e sua digna totalidade.

 

Uma atmosfera que reivindica o sagrado afrobrasileiro como caminho de auto-cura coletiva de um povo forjado na luta, não só por liberdade, mas pelas possibilidade de viver.

 

Em AFÉTO, Cipó, um jovem que descobriu a fotografia como forma de comunicar sobre sua relação com sua fé, compartilha imagens pouco conhecidas no imaginário da sociedade quando o assunto é candomblé.

 

Seus retratos contam histórias de amor que nascem a partir da experiência de fé nos orixás. De acordo com o artista, mais que um registro documental sobre um aspecto específico do Candomblé, o trabalho reitera a importância das relações interpessoais como forma de resistência do legado africano.

 

Exposição aFÉto

Quando: A partir de 21 de Outubro – às 20h00

Local: Aparelha Luzia

Enredeço: Rua. Apa, 78 – Centro SP – Próximo metrô Marechal Deodoro


Propaganda Social 

Colabore com as mulheres empreendedoras da Uneafro-Brasil

 

                  

Vista-se em luta!

A UNEafro-Brasil, reinaugura sua loja de camisetas e artigos de reverência à luta do povo negro brasileiro!

Além de se vestir com as imagens e cores de nossa resistência, você estará contribuindo para manter financeiramente um movimento de luta, autônomo e independente!

Todos os produtos são confeccionados pelas mulheres que fazem parte do Núcleo de Economia Solidária Das Pretas da UNEafro.

Colabore! Escolha o seu manto afro e junte-se a nós!

FAÇA SEU PEDIDO AQUI

Categorias
Escrita da história Filosofia Formação Internacional Matriz Africana Mídias Negras e Alternativas

Mbira – o instrumento-símbolo de um povo

Por Luiza Gannibal

Entre junho e agosto de 2016, estivemos no ventre do mundo: Zimbábue – África profunda.

DZIMBA DZEMABWE. Casa de Pedras. Fortaleza espiritual.

Nosso propósito era investigar as especificidades deste solo semi-árido donde brotou a riquíssima cultura do povo shona que, agora, podemos definir numa só palavra: Mbira.

Na bagagem, trouxemos um material vasto, projetos mil, e a vontade de partilhar essa história.

Mas… o que é Mbira?

Mbira é o nome em língua shona para o instrumento tradicional do POVO SHONA (comunidade pertencente à família etnolinguística BANTU, difusa por grande parte da África subsaariana), que vive, em sua maioria, na região do ZIMBÁBUE, país que faz fronteira com a Zâmbia, África do Sul, Moçambique e Botswana.

A mbira pertence à família dos lamelofones. Lamelofones são populares por toda África, e, via de regra, eles variam em número de teclas, disposição das notas, e se possuem (ou não) um ressonador (uma cabaça ou caixa de madeira que repercute o som). Kalimba, sanza, likembe, kisanji e gongoma são alguns dos nomes dados a lamelofones africanos de acordo com suas características particulares e região/povo a que pertencem.

Além de ser o mais sofisticado dos lamelofones africanos, a MBIRA foi o primeiro lamelofone a surgir na África – mais especificamente no Vale do Rio Zambeze ao norte do Zimbábue –, sendo uma espécie de protótipo para todos os outros.  

Não é possível se referir à mbira, portanto, apenas como um instrumento. Pelo menos não da maneira que se faz no Ocidente. A mbira designa, obrigatoriamente, a cultura shona e, nesse viés, a espiritualidade desse povo da África Bantu.

A mbira faz parte do povo, e o povo, igualmente, faz parte da mbira.

Como relata o professor Perminus Matiure, servindo de meio de comunicação entre os vivos e os mortos, “a mbira age como um repositório da espiritualidade shona”.  Em rituais chamados de “bira”, ela é tocada para os ancestrais, que, por falarem a língua da “música de mbira” – cuja gramática é composta por temas tradicionais -, são atraídos para a dimensão dos vivos, onde o tempo sagrado é assim instaurado.  Daí o nome “mbira dzaVadzimu”, que significa mbira dos (dza) ancestrais (Vadzimu).

Em “The Soul of Mbira”, Paul Berliner explica: “Um mandamento tradicional da religião shona postula que, após a morte, os espíritos das pessoas continuam afetando a vida de seus descendentes. Em outras palavras, o mundo dos vivos está em função dos acontecimentos do mundo dos espíritos. ” Daí a importância do diálogo permanente com essa arena mítica.

Outro nome dado à Mbira dzaVadzimu é “Nhare” que, em shona, significa telefone. E aqui a dimensão sagrada fica ainda mais evidente: ou seja, trata-se de um instrumento que, ao ser executado (ao tocar) conecta dois universos.

“A mbira é o instrumento musical tradicional primário do povo falante da língua shona. Ele tem sido tocado desde tempos imemoriais. A mbira é a voz dos espíritos (mbira i zwi re midzimu). Quando tocamos a mbira, nós estamos chamando os espíritos, e essa voz é forte o bastante para ser ouvida na morada dos ancestrais (nyikadzimu).” – diz, direto de Chinamassa, aldeia shona de Nyazura, no Zimbábue, nosso querido mestre Barnabas Ngalande.

Berliner complementa: “No contexto da Bira, as pessoas acreditam que a mbira tem o poder de projetar seu som pelos ares e alcançar os céus, estabelecendo uma ponte entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos, e atraindo, assim, a atenção dos ancestrais.”

A despeito de haver inúmeras “Áfricas”, há, segundo o tradicionalista Hampâté Bâ, algumas constantes em todas as tradições africanas: a presença do sagrado em todas as coisas, as relações entre os mundos visível e invisível e entre os vivos e os mortos. Não é à toa que nossa passagem pelo Zimbábue esteve sempre cercada de reiterada espiritualidade.

A Mbira Nyunga Nyunga

Outra mbira bastante popular no Zimbábue é a Nyunga Nyunga. Ela foi trazida para o Zimbábue pelos VaNyungwe, povo da província de Tete, em Moçambique.

Por ser de mais simples entendimento, ela é largamente utilizada nas escolas e como primeiro aprendizado daqueles que se interessam pelo instrumento. Tivemos (e temos) alguns mestres no Zimbábue que tocam e fabricam a Nyunga Nyunga, como o Barnabas, já mencionado, e Ticha Muzavazi, que faz um belíssimo trabalho com crianças especiais.

Fabricar e tocar, aliás, são atividades que caminham juntas em toda África, revelando o caráter orgânico (e não industrial, como o é no Ocidente) da relação das pessoas com os elementos que compõem sua existência essencial.

Ambas as mbiras, cabe frisar, são instrumentos-símbolo de resistência de uma cultura que teima em seguir adiante, aferrada a suas raízes, apesar dos pesares e dos “desgovernos” que acometem o povo shona – íntegro o bastante para perceber que a tradição é imprescindível como forma de blindagem contra as influências perniciosas: sejam elas mundanas ou espirituais.

Cultura é identidade. E a música, o modo mais natural de expressá-la. Ao dedilhar sua mbira, portanto, o homem shona expressa o que é – e, dessa maneira, pode “ser” no mundo.

Mbiracles

Por mais de 300 anos, africanos de origem bantu chegaram aos portos brasileiros, constituindo-se no maior contingente de negros a entrar no país. Apesar da invisibilidade que desejou se dar a essa influência grandiosa, as marcas do legado bantu estão em nossa música, língua, instrumentos, estratégias de resistência (quilombos), danças, técnicas de trabalho, e, claro, no fenótipo de nossa gente.

Sendo um elemento autêntico e paradigmático de uma cultura riquíssima, portanto, a mbira, segundo o músico e fabricante de instrumentos africanos Fabio Simões, é “um cordão umbilical do tempo”. Uma maneira pela qual podemos reaver de forma íntegra esse legado ancestral que nos foi, outrora, drasticamente subtraído, e que nos conecta à “mãe” – palavra que pode também ser entendida como “terra”. Afinal de contas, o menino africano se torna homem quando parte do regaço da mãe biológica para os braços da mãe-natureza. E a música, rebento desse ambiente natural, é sua maior forma de expressão.  

A proposta do projeto Mbiracles, assim, é a vivência da música tradicional africana sob o prisma dessa mãe-natureza, dessa terra ancestral. É a reflexão prática de “quem somos nós” a partir de artefatos que enredam uma cultura milenar, telúrica, e que, como as pirâmides do Egito, ou, mais apropriadamente, as ruínas do Grande Zimbábue (a maior estrutura pré-colonial da África Subsaariana), nos indicam os caminhos que traçaram os homens que nos antecederam, as músicas que cantaram, as melodias que dedilharam. Sendeiros sonoros que perfazem, com efeito, a linguagem-raiz desse homem. Uma linguagem que nos falta – e que, por isso, nos cabe.

Como sugere o símbolo da Sankofa, o retorno às origens é necessário para que possamos seguir adiante. São nossas raízes, nossos pés, fundamentos, pilares. “Para destruir um povo, basta destruir sua cultura”, afirmou Franz Fanon. Daí que, para sermos um povo, e tudo que isso comporta, precisamos reconstruir nossos laços com a África. Ativamente.

Mbiracles é um projeto que pretende trazer à tona, através de uma série de atividades cujo núcleo é a mbira (oficinas, palestras, exposições, instalações), a África mãe. Essa África que diz tanto a respeito de quem somos e de onde viemos.  

Eis a música: meio capaz de traduzir com maior expressividade e ludicidade a cosmovisão de um povo. Eis a mbira: instrumento que está no cerne da tradição shona.

Venha conosco conhecer e praticar a mbira.

Estamos na rede:
www.mbiracles.com
https://www.facebook.com/mbiracles/

Categorias
Matriz Africana

Religiões africanas promovem Ato contra intolerância e racismo em SP

Iroko

O Dia Nacional de Combate à Intolerência Religiosa será marcado por Marcha. Concentração de religiosos e simpatizantes será neste sábado, 21/01, a partir das 15h, no Vão Livre do Masp, na Avenida Paulista – SP

Por Olhar de um Cipó

 

No próximo dia 21, o povo de terreiro, movimentos sociais, coletivos artísticos e culturais, marcharão contra a violência que historicamente agride adeptos do candomblé, umbanda, e de outros cultos de raízes negras.

Sob o manto do estado democrático e de direito, a intolerância demonstrada das mais diversas formas não poupa ninguém. Aquele que pratica a injúria não tem um objetivo maior, senão o de dizer onde aquele que foi injuriado deve estar: no campo da invisibilidade. Combater a intolerância religiosa significa rejeitar o racismo como sistema de opressão e dar corpo e voz a uma parcela da população que vem sendo sistematicamente agredida em sua dignidade pelo cerceamento de direito de liberdade de culto.

A questão da liberdade de religião e de culto amplamente requerida pela população negra e pelos religiosos de matriz africana deve ser vista sob a ótica da afirmação e reiteração da identidade negra e de toda a sua ancestralidade. Negar esse direito, compactuar com esta lógica é o mesmo que permitir que os tambores continuem abafados e os adeptos das religiões de matriz africana permaneçam naquilo que o “outro” considera a sua senzala – não há democracia racial, como não há respeito à diversidade religiosa.

Em 2007, o dia 21 de janeiro foi instituído como a data de Combate à Intolerância Religiosa, em reflexão e memória da Ialorixá Gildásia dos Santos – vítima de um dos casos mais drásticos de intolerância que a história brasileira conheceu.

O crime começou em outubro de 1999, quando O jornal Folha Universal estampou em sua capa uma foto de Mãe Gilda – trajada com roupas de sacerdotisa para ilustrar uma matéria com título: “Macumbeiros charlatões lesam o bolso e a vida dos clientes”. Sua casa foi invadida, seu marido foi agredido verbal e fisicamente, e seu Terreiro foi depredado por evangélicos. A Ialorixá não suportou os ataques e, após enfartar, faleceu em 21 de janeiro de 2000.

Vista-se de branco e junte-se à luta contra o racismo religioso, pela liberdade de culto e por nenhum direito a menos!

Traga seus instrumentos, flores, dança, arte, cartazes, protestos, resistência.

Diga não aos retrocessos!

Leia Também:

ENSAIO “AFÉTO” REVELA AMOR DO POVO DE SANTO ÀS DIVINDADES AFRICANAS

ORIXÁS DO CANDOMBLÉ: RETRATOS DA FORÇA ANCESTRAL DA FÉ NEGRA

CANDOMBLÉ É TRADIÇÃO, ANCESTRALIDADE E RESISTÊNCIA

 

matriz_africana

 

 

Categorias
Matriz Africana Mulheres Negras

Dourada: Inspirado em Ndandalunda, ensaio celebra a beleza da mulher negra

IMG_7183

Texto e fotos de Roger Cipó; Modelagem de Raíssa Teixeira.

 
No último dia 25 de julho, celebramos o Dia Internacional da Mulher Afro-Latina-Americana, Caribenha e Indígena.
 
Como bem definido em um belo texto publicado pelo site Blogueiras Negras, “Comemorar o  25 de julho é

celebrar e reverenciar a elaboração

de novas perspectivas feministas, em especial da introdução da diferença na teoria feminista tradicional. Afinal não podemos esquecer que o feminismo que ressurgiu na década de 1970, afirmava uma identidade feminina homogênea, logo não se conseguia identificar e visibilizar demandas específicas de mulheres que sofriam com a intersecção de diversas condições como, gênero, raça, classe, etnia, orientação sexual e religiosidade”.

 
Em celebração e reflexão ao 25 de julho, a Olhar de um Cipó compatilha Dourada, uma homenagem à Nkise Ndandalunda, divindade bantu das águas doces, da fertilidade feminina, do acolhimento e da doçura. A estrela da modelagem é a jovem Raíssa Teixeira – N’tangu Maza.
 
Dourada também é um olhar para a singularidade da beleza negra que acolhe, empodera e motiva para luta, com a mesma capacidade que movimenta as águas para bem cuidar de seus filhos e filhas.
 
Kiuá Ndandalunda!
IMG_7187
13709937_1217083395000484_3210857890918368697_n
IMG_7102
IMG_7172
IMG_7156
IMG_7159
IMG_7206
IMG_7220
13754268_1217724238269733_2486795068655807192_n
13754169_1218383771537113_5933006337140870308_n
Link para ensaio completo: https://goo.gl/0phZ59
Categorias
Matriz Africana Religião

Orixás do Candomblé: Retratos da força ancestral da fé negra

Por Douglas Belchior, do Blog Olhar de um Cipó

Com imensa satisfação, registro neste blog o trabalho de Roger Cipó, um jovem fotógrafo-pesquisador de 24 anos, educador social, candomblecista e militante contra os crimes de intolerância religiosa e do racismo. Suas produções e pesquisas fotográficas focadas em terreiros de candomblé, tem como objetivo estudar as diversas estruturas que baseiam as sociedades afro religiosas de São Paulo. Além de divulgar as belezas e riquezas existentes no cotidiano social, cultural e ritualístico das comunidades, ele usa a fotografia como ferramenta de promoção e luta contra os crimes de intolerância e racismo.

Oyá
Oyá

Por Roger Cipó

Sobre os Orixás, para além de todas as definições teóricas e técnicas de grandes pesquisadores, vou me ater a uma das definições mais sinceras e lindas que encontrei, nas palavras de Janaína Teodoro: “Orixá não é espirito daqueles que vem de fora e toma o corpo. Não somos ‘espíritas’ – não haveria problemas se fossemos. Orixá é a força que vem de dentro. Nosso corpo é o templo do sagrado!”

Orixá, ou Nkise, ou Vodun, é força mais pura que cada um trás em seu ser. É o pouco de África ancestral que renasce em quem se conecta. É a nossa capacidade de se perceber parte importante do mundo. É a folha em nós, é a água, o vento, o fogo, a poeira, o ar que dá vida, a placenta, o coração que pulsa, a vontade de vencer na vida, a certeza de que a morte é o lugar de vida também.
Assim, compartilho uma parte da série “Orixás do Candomblé – Retratos da Força Ancestral da Fé Negra”, imagens que me foram permitidas ao longo da pesquisa “Olhar de um Cipó”, numa tentativa de registrar a presença das forças de Orixá, Nkises e Voduns, quando convidados pelos toque dos atabaques e dos cantos sagrados, alinhados à fé de seus filhos e filhas que se manifestam e revivem suas histórias, lutas e relações de amor com seus descendentes.
Oxum
Oxum

 

Yewa
Yewa

 

Nanã
Nanã

 

Ogum
Ogum

 

Oxóssi
Oxóssi

 

Omolu
Omolu