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Espetáculo mostra narrativas das presidiárias brasileiras

Foto: Thiago Sabino

Por Marina Souza

De acordo o Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias sobre Mulheres, o Infopen Mulheres, divulgado em maio pelo Ministério da Justiça, o Brasil é o quarto país do mundo com maior número de mulheres presidiárias. As eficácias, consequências e os funcionamentos do atual sistema prisional brasileiro estão diretamente atrelados à questão de classe, de gênero e ao racismo estrutural. Foi tomando como base este universo doloroso e negligenciado, que Edson Beserra dirigiu o espetáculo “Liberdade Assistida“, que entra em cartaz nos próximos dias 14, 15 e 16 de dezembro, no Teatro de Contêiner Mungunzá, em São Paulo.

Com o processo produtivo de estudar livros, poesias, pesquisas acadêmicas, textos, depoimentos, cartas e entrevistas de detentas e ex-detentas, de diferentes lugares do país, a peça tem como intenção retratar a dura realidade dos presídios femininos e a vulnerabilidade da periferia do país.

A atriz e produtora cultural Marta Carvalho, de 47 anos, nos contou que há 10 anos começou a pesquisar sobre o assunto através de um trabalho de formação nas Casas Abrigos do Distrito Federal. Em 2017 ela interessou-se pelas inscrições no Prêmio Nacional de Expressões Culturais Afro Brasileiras, convidou a professora, doutora em História, Ana Flávia Magalhães para escrever a dramaturgia e o dançarino Edson Beserra para dirigir, pela primeira vez na carreira, um espetáculo teatral. Após ser premiado, o grupo estreou o espetáculo pelo Brasil.

Marta intercala expressões verbais e corporais em um monólogo. Ela ressalta que “estar sozinha é também não estar”, lembrando das importantes presenças que há por trás dos palcos.

Foto: Roberth Michael

“A arte tem que se portar como um transformador social. Esse espetáculo vem falar das histórias dessas mulheres que estão dentro da gente. A mulher preta vive um cárcere social. É sobre nossos corpos contando como as nossas irmãs vivem em situação de cárcere constantemente.”, revela a atriz.

Serviço:

  • Espetáculo “Liberdade Assistida” em São Paulo
  • Dias 14, 15 e 16/12
  • Sexta e sábado às 20h | Domingo às 19h
  • Teatro de Contêiner Mungunzá (Rua dos Gusmões 43 | Santa Ifigénia – Centro)
  • Entrada: R$ 20 (inteira)  e R$ 10 (meia)
  • Classificação Indicativa: 16 anos
  • Duração: 55 minutos
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Mídias Negras e Alternativas

A arte feita por negros na frente e atrás das câmeras

Para artistas pretos, representatividade não é só aparecer. É criar o roteiro e ser protagonista da cena.

Por Lais Rocio, de Vitória/ES
Publicado originalmente no portal da empresa social Atitude Inicial

 

“Uso minha voz para dizer o que se cala”, assim como canta Elza Soares, quebrar o silêncio é o que move os artistas que protagonizam este terceiro episódio da série de reportagens Afropotências. Para a rapper Afari, a artista plástica Castiel Vitorino, o cineasta Izah Cândido e o ator Vander Neri, a arte é um grito que vem da alma, elevando a voz de tantas vidas silenciadas.

“Faço o meu rap para dizer o que sinto
na minha comunidade,
com tantos jovens morrendo.
Canto para falar de toda a dificuldade,
e ainda assim extrair beleza e superação”
,
diz Afari Mc.

Assim eles trazem protagonismo negro para o universo da arte, onde os pretos ainda são pouco representados, como mostra Castiel: “Representatividade não é fazer um filme com uma pessoa negra. Se o Brasil tem 54% da população preta, tem que ter uma novela com essa mesma proporção. Temos que apostar muito mais na equidade”.

Para eles, a presença da negritude nos diversos espaços artísticos e culturais significa muito mais do que aparecer e ser visto. Deve também gerar poder, oportunidades e autonomia para que possam criar o próprio enredo. Para que protagonizem não só nas cenas, mas também nos seus bastidores, produções e direções. Por isso, as afropotências dessa reportagem ocupam telas, cenários, palcos e galerias com toda a diversidade afro. E com isso revelam para o mundo seus infinitos traços, nuances e tons.

 

Foto: Alexandre Barrenha | Programa Manos e Minas

 Afari, a rapper que lota os palcos com mulheres pretas

“A arte não me convidou, ela me arrastou pelo cabelo e disse: se enxerga”, com essa frase Afari descreve o momento em que o sonho de ser artista surgiu em sua vida. Veio para contrariar os destinos impostos a uma mulher preta e de periferia como ela, que relembra: “Saí do meu estado de conforto, de aceitar que eu ia ser pobre a vida toda”.

Em sua comunidade periférica, ela sempre viu a juventude negra sendo explorada e exterminada. Para mudar isso, a solução encontrada não foi sair da favela, nem fugir ou se esconder da sua realidade. Ao contrário disso, Afari passou a olhar ainda mais para o seu mundo, combatendo a opressão e violência com diálogo, conhecimento e troca de ideias. Foi assim que ela descobriu o universo do hip hop, e todo o movimento negro e feminista que vinha de dentro da periferia, como conta:

“O rap me deu a sensação do lugar de fala. Me senti escutada.
As batalhas de rima me fizeram falar
sobre tudo o que eu estava vivendo,
e como aquela situação podia melhorar.”

Desde então, ela traz para o rap não só a denúncia das dores e violências dessa realidade, mas também a valorização de suas riquezas e potencialidades. “Ainda assim temos beleza e alegria nos sorriso das crianças, no colorido da comunidade. É lindo entrar ali e ver pessoas de todas as cores, vivendo com pouco e ainda sorrindo”, reconhece, relembrando o tema de uma de suas músicas, Cenários. Com mais de 11 mil visualizações no Youtube, a faixa é uma das principais do grupo de rap feminino que ela faz parte, o Melanina Mc’s.

Afari descobriu que os palcos também eram feitos para mulheres como ela, ao ver um show do Melanina Mc’s, quando nem imaginava que se tornaria uma de suas vocalistas. Até então, suas únicas referências femininas no rap eram apenas quatro cantoras de sucesso nacional, entre elas Negra Li e Dina Di. Mesmo assim, aquilo ainda parecia distante de sua realidade, e ela desenvolvia suas rimas no funk, lidando com o machismo nesse universo. “Era muito homem em cima do palco. Eu ficava até tímida para mandar meu som, tinha que me sexualizar para atrair atenção do público. Eu queria contribuir muito mais com as minhas ideias”, afirma a rapper.

No Melanina Mc’s, ela se inspirou com a arte que sempre quis fazer. Após algum tempo como fã assídua do grupo, foi convidada para ser integrante. Pela primeira vez, subia em um palco lotado de mulheres, ao lado das parceiras Geeh, Lola e Mary Jane. E desde então, com empoderamento feminino negro, o quarteto enfrenta os desafios vividos por milhares como elas.

 “Quando uma mulher preta e periférica
se vê protagonista da sua realidade,
ela empodera várias outras mulheres.
Acreditar em nós mesmas é o que nos motiva”,
conta Afari.

Foto: Produção Melanina Mc’s

 

Em seis anos de estrada, elas escancaram as portas de entrada para o protagonismo das pretas da favela. Com destaque nacional, realizam shows dentro e fora do Espírito Santo. No últimos meses, lançaram o videoclipe “Casa da Madeira” pela produtora de rap’s do país inteiro Rapbox; e foram convidadas especiais do Programa Manos e Minas, da TV Cultura, que já recebeu artistas como Mano Brow e Criolo. Em seu primeiro disco, Sistema Feminino, elas reúnem histórias, dores e sonhos de mulheres negras. E com a mistura de ritmos e vozes de várias musicistas convidadas para o projeto, combatem mais um desafio do machismo no hip hop: o de poder ser o que quiser, sem ter que se masculinizar ou estar com homens para protagonizar a cena.

Acreditando transformar o mundo com suas ideias, uma caneta e um microfone, Afari também criou o coletivo Batalha da Ponte, junto com o rapper capixaba MD Silva. Desde 2014, o projeto ocupa uma praça todos os domingos com batalhas de mc’s, mobilizando jovens de pelo menos cinco comunidades periféricas. “Disseminamos a arte e cultura urbana na cidade, e também incentivamos os jovens a criarem batalhas de rap nos seus bairros. O projeto criou o protagonismo e atuação de novos mc’s e poetas, aumentando seus trampos individuais como artistas”,
reconhece a rapper.

Castiel, a artista que ocupa museus com mandingas da cultura negra

Foto: Castiel | Arquivo

A arte esbarrou no meio do caminho de Castiel Vitorino em busca de si mesma, como narra ela: “uso a arte como arma de guerra, contra a colonização dos meus pensamentos e desejos”. Criada na periferia, a performer, artista plástica e estudante de Psicologia teve a infância acolhida por valores poéticos e fundamentais do orgulho e cultura afro transmitidos por sua família. No entanto, seu jeito afeminado desafiava o ideal do homem negro masculino, forte e destemido que esperavam que fosse, a exemplo de seu pai, um capoeirista de destaque no morro.

Após passar pela infância e adolescência com medos e angústias por conta da sexualidade, Castiel entendeu que sempre foi bicha preta: um gênero e movimento de pessoas negras e femininas, com órgão sexual lido como masculino, discriminadas e violentadas por serem quem são. Como explica ela, as bichas pretas se diferenciam de gays, trans e travestis. E se reivindicam ao criar novos significados para o xingamento que escutaram a vida inteira:

“As bichas pretas são uma desobediência
contra tudo que a sociedade entende como homem negro.
Elas debocham e trazem alegria a partir de muito sofrimento.” 

A primeira de sua família a ingressar na universidade, Castiel foi aprovada em primeiro lugar no vestibular para Psicologia. Ao entrar na graduação, deparou-se com teorias acadêmicas de origem europeia e estadunidense, feitas por pessoas não negras e voltadas para elas mesmas. Boa parte das oportunidades que apareciam para exercer a profissão de psicóloga estavam bem distantes da periferia e da cultura afro.

Para contrariar isso, Castiel resolveu extrapolar os limites daquele espaço: “Apostei em levar a psicologia para os territórios da população negra”. No lugar dos centros terapêuticos elitizados e acessíveis somente para quem paga caro por eles, ela viu as terapias oferecidas por e para pessoas pretas, com educação, cultura e saúde pública na periferia. Indo mais além, descobriu a psicologia presente na cura das tradições afro. E assim, encontrou a arte:

“Uso a arte para produzir saúde para o povo preto.
Para desnaturalizar as mazelas do racismo
e intensificar o que fazemos de bom,
nossos saberes tradicionais como a capoeira, as bandas de congo, o candomblé, a umbanda, o hip hop e funk.”

Castiel durante uma de suas perfomances, “Benzimento”, sobre adoecimento e saúde para corpos negros | Foto: Rodrigo Jesus

Com o artesanato, a costura, as performances e intervenções artísticas, Castiel expressa as diversas lutas e criações que fazem parte da sua história, como explica: “Tento traduzir e atualizar ensinamentos ancestrais oferecidos por africanos, entidades afro-brasileiras, negros que vivem diásporas diferentes da minha”.

Em um de seus projetos atuais, ela irá levar para dentro de uma galeria de arte da cidade as plantas sagradas, usadas no banho de 7 ervas dos terreiros de religiões afro-brasileiras. Na obra, elas ficam armazenados em uma colete salva- vidas costurado por Castiel, com um significado: “Quando sofremos, parece que estamos afundando no mar. A cura das ervas naturais nos dá a sensação de subir à superfície e aprender a mergulhar”. Tudo isso será dedicado ao “Projeto Malungas”, exposição contemplada por um edital da Prefeitura de Vitória, que irá ocupar o Museu Capixaba do Negro (Mucane) no próximo mês.

O resgate da medicina natural também foi tema de sua performance “Plantas que curam”, criada por ela e a benzedeira Yasmin Ferreira. Em uma barraca de medicamentos e mandingas nas ruas de periferias da cidade, elas convidam pessoas para uma conversa sobre suas dores e cansaços, transmitindo ensinamentos e tratamentos com suas receitas de ervas cultuadas pelas tradições ancestrais africanas.

Assim Castiel resgata e recria a história da negritude nesses e em outros projetos que realiza, dentre imersões e residências artísticas, direções de arte, perfomances e diversas produções culturais, algumas apoiadas por editais de arte e cultura. Para cada ação, ela se inspira e se guia pelos versos da ativista Beatriz Nascimento: “É preciso mostrar no gesto que não somos mais cativos.”

 

Izah, o cineasta que conta histórias de vidas negras nas telas

Foto: Atitude Inicial

 

No cinema, Izah Cândido refaz o roteiro de sua própria vida como um observador curioso, que carrega muitas histórias dentro de si. Sua arte é nutrida pelas inspirações de tantas pretas e pretos, principalmente trans, bichas, travestis e sapatões que fortalecem a diversidade e cultura negra. Em meio a espaços que excluem e violentam essas vidas, ele reconstrói sua identidade como homem negro e trans.

 “Nem sempre estamos pisando em solo confortável.
É assim que a diáspora africana se fez e faz.
Em uma migração forçada, corpos negros foram
levados a todos os cantos do mundo.
E assim, resistentes, constroem suas identidades”,
narra Izah, em uma de suas produções audiovisuais.

Ao longo de sua história, a descoberta dos desafios do racismo veio junto com as lutas que o acolheram desde a infância, inicialmente com a participação ativa de sua mãe no movimento negro. Quando vivenciou sua transição de gênero, Izah esbarrou com novas formas de preconceito: “Como mulher negra, me olhavam como hipersexualizada, poderia ser vítima de estupro. Hoje, como homem, me olham como predador e suspeito”. Vindo do interior de Minas Gerais, ao ingressar no curso de cinema na Universidade Federal do Espírito Santo, ele dedicou-se a lutar e produzir da melhor forma possível em defesa da negritude.

Assim se identificou com o cinema negro, marcado pelo manifesto Dogma Feijoada (2001), do cineasta Jefferson De. Esse movimento levanta a urgência de diversas ações, tais como realizar filmes com diretores e protagonistas negros, retratando temáticas da cultura afro, entre outras demandas. Exemplo nítido que justifica essa luta por representatividade, as produções cinematográficas do país não tiveram nenhuma diretora ou roteirista preta, e 2% de homens pretos nas direções e roteiros, entre 2002 e 2012. As atrizes e atores afrodescendentes foram, respectivamente, 4 e 14% nos elencos principais. Todos esses dados foram levantados pela pesquisa “A Cara do Cinema Nacional”, do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA), do IESP-UERJ.

Trecho do webdoc Corpo Flor, com roteiro, direção e produção executiva de Izah Cândido e Wanderson Viana | Foto: Corpo Flor

Para fortalecer a potência afro nas telas, Izah criou o vlog e websérie Corpo Flor, em parceria com seu amigo e também cineasta Wanderson Viana. O projeto revela como pessoas negras se descobrem, reconstroem sua identidade e potencializam as riquezas afro-brasileiras, que haviam sido silenciadas e perdidas pelo racismo em diversos espaços. A cada episódio, são retratados temas como espiritualidade, estética, sexualidade, ente outros.
O Corpo Flor foi contemplado neste ano pelo edital Juventude Vlogueira, do Ministério da Cultura, que premiou iniciativas do país inteiro como apoio financeiro para se realizarem. O webdoc também contou com a parceria da Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro (APAN). Entre essa e outras produções, Izah traduz na prática o que acredita:

“Buscamos fazer com que as histórias sejam escritas e interpretadas por negros,
na frente e atrás das câmeras.
Para que a população preta tenha
mais autonomia no fazer artístico”,
relata Izah.

 

Vander, o ator que ergue o protagonismo negro no teatro

 

Foto: Atitude Inicial

 

Para o ator Vander Neri, ser bicha preta, artista e umbandista são potências que representam muito de sua essência e história. E tudo isso não deve limitar suas conquistas, talentos e potencialidades. Quando criança, de origem pobre, ele não costumava desejar o que queria ser na vida. Ao conhecer o teatro na adolescência, descobriu que podia ser o que quisesse:

“O teatro chegou na minha vida dando um tapa.
Era um lugar que cabia todo mundo.
Me mostrou que eu também podia fazer.
E veio essa vontade de ganhar o mundo”,
relembra Vander.

A consciência de sua negritude surgiu de um jeito inusitado, quando saiu na capa de um jornal. Ao verem aquilo, seus familiares e professores disseram “preserva isso”, referindo-se ao fato dele ser o único negro na foto, que estampava a matéria sobre a turma de adolescentes que faziam teatro. Ali, Vander percebeu que era diferente dos outros.

Desde então, vieram inúmeros desejos e talentos, ao mesmo tempo em que apareciam inúmeras dificuldades, enfrentadas com a própria arte. Com a necessidade de se sustentar e a falta de recursos para isso, enquanto distribuía currículos por todos os lugares possíveis, Vander se vestia de palhaço para vender balas no sinal. Trabalhou em supermercados e teve vários bicos, chegou a mudar de cidade algumas vezes em busca de novas oportunidades, e percorreu boa parte desses momentos sendo um artista de rua.

Quando foi contratado para atuar em espetáculos de empresas e companhias, a discriminação racial criou novos impasses. Em alguns lugares que trabalhou, percebia diversos casos em que atores não negros eram os primeiros escolhidos para atuar em papéis principais, personagens e peças teatrais mais valorizadas. Com isso, costumava ser a última opção, selecionado em último caso quando esses outros atores não estavam disponíveis.

Vander encenando uma de suas principais intervenções teatrais sobre conscientização social | Foto: Atitude Inicial

A mudança dessa realidade veio quando foi chamado para compor o time da empresa social Atitude Inicial, há cerca de três anos. O simples fato de ter sido convidado por sua atuação e potencialidades profissionais, bem antes de pensarem em sua cor de pele, fez toda a diferença para ele. Desde então, é protagonista nos espetáculos e oficinas teatrais da empresa, que usa o teatro como uma das tecnologias sociais para causar conscientização, reflexão e revoluções diárias na vida das pessoas. Ali, Vander também percebe o diferencial de um espaço artístico e profissional que acolhe suas ideias e propostas, inclusive por terem outras pessoas negras entre seus idealizadores, funcionários e diversos colaboradores.

“Não é só porque é meu rosto está ali,
é porque eles não acham que isso vai espantar as pessoas.
Isso deve ser valorizado não só porque sou bicha preta,
mas também porque os lugares
tem portas e caminhos para todos,
e porque temos capacidade”,
reconhece Vander.

As peças e performances encenadas por ele não necessariamente abordam questões raciais. Isso porque, para quem luta pelo protagonismo preto na arte, também importa envolver, incluir e valorizar pessoas pretas de forma orgânica e essencial nas produções. Para que isso vá além da obrigação, do oportunismo e do ‘braço social das empresas’, como acredita Jota Júnior, também negro, empresário e idealizador da Atitude Inicial: “Os talentos não têm cor. Eu não consigo pensar se uma pessoa é mais ou menos talentosa pela cor de pele. Precisamos olhar para suas habilidades e seus dons, reconhecer o que fazem e abrir espaço para o que quiserem ser.”

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Meios de Comunicação e Racismo

Faculdade Cásper Líbero demite docente envolvido em caso de racismo

(Foto: Divulgação)

Por Redação

Em um espaço que deveria ser de aprendizado e acolhimento, a estudante Bárbara Sereno, que está no segundo ano do curso de Publicidade e Propaganda na Faculdade Cásper Líbero, sofreu um caso de racismo dentro do ambiente acadêmico. De acordo com o relato da estudante negra e dos colegas de classe, o (a) docente disse que “não existia racismo no Brasil” e ainda tentou tocar no cabelo de Bárbara. A atitude resultou em uma demissão.

Segundo nota divulgada pelo coletivo negro da instituição, o AfriCásper, a situação começou quando o (a) professor (a) falou a seguinte frase aos alunos: “Quando fui para a Croácia fazer uma especialização, as pessoas de lá acharam que eu era mulato(a) por ser brasileiro(a), mas quando cheguei, eles ficaram desapontados porque eu era ‘normal’”, disse.

Ainda na aula, uma aluna estava com o álbum de figurinhas da Copa do Mundo aberto na seleção da Nigéria, e o (a) docente falou aos alunos que estava surpreso (a) com o fato de o time ter um jogador branco, o zagueiro Leon Balogun. Em seguida, questionou como um dos jogadores negros penteava o cabelo: “Como que ele penteia esse cabelo? Isso aí deve ser um ninho!”, caçoou.

No final da aula, Bárbara e um grupo de alunos foram conversar com o (a) professor (a) para expressar o incômodo que sentiram com as falas ofensivas. Como resposta, ele (a) apontou que os alunos não tinham interpretado corretamente seus comentários e que “no Brasil não existe racismo”.

Após a estudante deixar a sala, o (a) docente foi até a porta e questionou se Bárbara estava chateada com ele (a). A aluna respondeu “não”, mas disse que “estava decepcionada, já que ele (a) era um (a) professor (a) e comunicador (a) e deveria dar o exemplo e tomar cuidado com o que fala”. Com a justificativa de que não era uma pessoa racista, o (a) docente ainda tentou tocar no cabelo da estudante, alegando que sempre quis “tocar no cabelo de um negro”.

Em nota, a Faculdade Cásper Líbero declarou que repudia atitudes discriminatórias e preconceituosa, independente do local que ela ocorra.

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Mbira – o instrumento-símbolo de um povo

Por Luiza Gannibal

Entre junho e agosto de 2016, estivemos no ventre do mundo: Zimbábue – África profunda.

DZIMBA DZEMABWE. Casa de Pedras. Fortaleza espiritual.

Nosso propósito era investigar as especificidades deste solo semi-árido donde brotou a riquíssima cultura do povo shona que, agora, podemos definir numa só palavra: Mbira.

Na bagagem, trouxemos um material vasto, projetos mil, e a vontade de partilhar essa história.

Mas… o que é Mbira?

Mbira é o nome em língua shona para o instrumento tradicional do POVO SHONA (comunidade pertencente à família etnolinguística BANTU, difusa por grande parte da África subsaariana), que vive, em sua maioria, na região do ZIMBÁBUE, país que faz fronteira com a Zâmbia, África do Sul, Moçambique e Botswana.

A mbira pertence à família dos lamelofones. Lamelofones são populares por toda África, e, via de regra, eles variam em número de teclas, disposição das notas, e se possuem (ou não) um ressonador (uma cabaça ou caixa de madeira que repercute o som). Kalimba, sanza, likembe, kisanji e gongoma são alguns dos nomes dados a lamelofones africanos de acordo com suas características particulares e região/povo a que pertencem.

Além de ser o mais sofisticado dos lamelofones africanos, a MBIRA foi o primeiro lamelofone a surgir na África – mais especificamente no Vale do Rio Zambeze ao norte do Zimbábue –, sendo uma espécie de protótipo para todos os outros.  

Não é possível se referir à mbira, portanto, apenas como um instrumento. Pelo menos não da maneira que se faz no Ocidente. A mbira designa, obrigatoriamente, a cultura shona e, nesse viés, a espiritualidade desse povo da África Bantu.

A mbira faz parte do povo, e o povo, igualmente, faz parte da mbira.

Como relata o professor Perminus Matiure, servindo de meio de comunicação entre os vivos e os mortos, “a mbira age como um repositório da espiritualidade shona”.  Em rituais chamados de “bira”, ela é tocada para os ancestrais, que, por falarem a língua da “música de mbira” – cuja gramática é composta por temas tradicionais -, são atraídos para a dimensão dos vivos, onde o tempo sagrado é assim instaurado.  Daí o nome “mbira dzaVadzimu”, que significa mbira dos (dza) ancestrais (Vadzimu).

Em “The Soul of Mbira”, Paul Berliner explica: “Um mandamento tradicional da religião shona postula que, após a morte, os espíritos das pessoas continuam afetando a vida de seus descendentes. Em outras palavras, o mundo dos vivos está em função dos acontecimentos do mundo dos espíritos. ” Daí a importância do diálogo permanente com essa arena mítica.

Outro nome dado à Mbira dzaVadzimu é “Nhare” que, em shona, significa telefone. E aqui a dimensão sagrada fica ainda mais evidente: ou seja, trata-se de um instrumento que, ao ser executado (ao tocar) conecta dois universos.

“A mbira é o instrumento musical tradicional primário do povo falante da língua shona. Ele tem sido tocado desde tempos imemoriais. A mbira é a voz dos espíritos (mbira i zwi re midzimu). Quando tocamos a mbira, nós estamos chamando os espíritos, e essa voz é forte o bastante para ser ouvida na morada dos ancestrais (nyikadzimu).” – diz, direto de Chinamassa, aldeia shona de Nyazura, no Zimbábue, nosso querido mestre Barnabas Ngalande.

Berliner complementa: “No contexto da Bira, as pessoas acreditam que a mbira tem o poder de projetar seu som pelos ares e alcançar os céus, estabelecendo uma ponte entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos, e atraindo, assim, a atenção dos ancestrais.”

A despeito de haver inúmeras “Áfricas”, há, segundo o tradicionalista Hampâté Bâ, algumas constantes em todas as tradições africanas: a presença do sagrado em todas as coisas, as relações entre os mundos visível e invisível e entre os vivos e os mortos. Não é à toa que nossa passagem pelo Zimbábue esteve sempre cercada de reiterada espiritualidade.

A Mbira Nyunga Nyunga

Outra mbira bastante popular no Zimbábue é a Nyunga Nyunga. Ela foi trazida para o Zimbábue pelos VaNyungwe, povo da província de Tete, em Moçambique.

Por ser de mais simples entendimento, ela é largamente utilizada nas escolas e como primeiro aprendizado daqueles que se interessam pelo instrumento. Tivemos (e temos) alguns mestres no Zimbábue que tocam e fabricam a Nyunga Nyunga, como o Barnabas, já mencionado, e Ticha Muzavazi, que faz um belíssimo trabalho com crianças especiais.

Fabricar e tocar, aliás, são atividades que caminham juntas em toda África, revelando o caráter orgânico (e não industrial, como o é no Ocidente) da relação das pessoas com os elementos que compõem sua existência essencial.

Ambas as mbiras, cabe frisar, são instrumentos-símbolo de resistência de uma cultura que teima em seguir adiante, aferrada a suas raízes, apesar dos pesares e dos “desgovernos” que acometem o povo shona – íntegro o bastante para perceber que a tradição é imprescindível como forma de blindagem contra as influências perniciosas: sejam elas mundanas ou espirituais.

Cultura é identidade. E a música, o modo mais natural de expressá-la. Ao dedilhar sua mbira, portanto, o homem shona expressa o que é – e, dessa maneira, pode “ser” no mundo.

Mbiracles

Por mais de 300 anos, africanos de origem bantu chegaram aos portos brasileiros, constituindo-se no maior contingente de negros a entrar no país. Apesar da invisibilidade que desejou se dar a essa influência grandiosa, as marcas do legado bantu estão em nossa música, língua, instrumentos, estratégias de resistência (quilombos), danças, técnicas de trabalho, e, claro, no fenótipo de nossa gente.

Sendo um elemento autêntico e paradigmático de uma cultura riquíssima, portanto, a mbira, segundo o músico e fabricante de instrumentos africanos Fabio Simões, é “um cordão umbilical do tempo”. Uma maneira pela qual podemos reaver de forma íntegra esse legado ancestral que nos foi, outrora, drasticamente subtraído, e que nos conecta à “mãe” – palavra que pode também ser entendida como “terra”. Afinal de contas, o menino africano se torna homem quando parte do regaço da mãe biológica para os braços da mãe-natureza. E a música, rebento desse ambiente natural, é sua maior forma de expressão.  

A proposta do projeto Mbiracles, assim, é a vivência da música tradicional africana sob o prisma dessa mãe-natureza, dessa terra ancestral. É a reflexão prática de “quem somos nós” a partir de artefatos que enredam uma cultura milenar, telúrica, e que, como as pirâmides do Egito, ou, mais apropriadamente, as ruínas do Grande Zimbábue (a maior estrutura pré-colonial da África Subsaariana), nos indicam os caminhos que traçaram os homens que nos antecederam, as músicas que cantaram, as melodias que dedilharam. Sendeiros sonoros que perfazem, com efeito, a linguagem-raiz desse homem. Uma linguagem que nos falta – e que, por isso, nos cabe.

Como sugere o símbolo da Sankofa, o retorno às origens é necessário para que possamos seguir adiante. São nossas raízes, nossos pés, fundamentos, pilares. “Para destruir um povo, basta destruir sua cultura”, afirmou Franz Fanon. Daí que, para sermos um povo, e tudo que isso comporta, precisamos reconstruir nossos laços com a África. Ativamente.

Mbiracles é um projeto que pretende trazer à tona, através de uma série de atividades cujo núcleo é a mbira (oficinas, palestras, exposições, instalações), a África mãe. Essa África que diz tanto a respeito de quem somos e de onde viemos.  

Eis a música: meio capaz de traduzir com maior expressividade e ludicidade a cosmovisão de um povo. Eis a mbira: instrumento que está no cerne da tradição shona.

Venha conosco conhecer e praticar a mbira.

Estamos na rede:
www.mbiracles.com
https://www.facebook.com/mbiracles/

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Mídias Negras e Alternativas

SMPIR-SP lança Prêmio Almerinda Farias Gama, para comunicadores negros e negras

O lançamento oficial do edital ocorrerá na próxima quinta-feira e abordará o tema Mídias Negras e a Democratização dos Meios de Comunicação

 

Comunicação
Foto: Blog www.doladodeca.com.br

Do Portal Geledes 

Dez projetos de comunicação em prol da igualdade racial receberão R$20 mil; as inscrições podem ser realizadas até 30/06

 

A Secretaria Municipal de Promoção da Igualdade Racial (SMPIR) está com inscrições abertas para o edital do “Prêmio Almerinda Faria Gamas”, que irá contemplar dez iniciativas ou atividades de comunicação que se destaquem na defesa dos direitos da população negra. O prazo final para envio das inscrições é dia 30 de junho, e as informações completas podem ser acessadas no site da SMPIR.

O lançamento oficial do edital ocorrerá na próxima quinta-feira, no auditório da Secretária, e abordará a democratização dos meios de comunicação, com foco nas mídias negras.

O edital tem o objetivo de reconhecer ações que, por meio de seu alcance midiático e social, colaborem para a promoção da igualdade racial no município de São Paulo. Além disso, busca garantir maior representatividade nos meios de comunicação, mobilizando e celebrando iniciativas independentes e autônomas realizadas por comunicadores negros e negras. Poderão ser premiados projetos de diferentes plataformas – físicas, digitais ou eletrônicas, como blogs, portais, colunas, vlogs, programas de rádio, jornais, revistas, entre outros.

“Com essa premiação, pretendemos ampliar as vozes da população negra na cidade de São Paulo e destacar seus relatos. Afinal, a construção de uma sociedade mais igualitária passa também pela democratização dos meios de comunicação”, afirma Maurício Pestana, Secretário Municipal de Promoção da Igualdade Racial.

Os projetos serão avaliados por uma comissão julgadora formada por representantes da Prefeitura de São Paulo, membros da sociedade civil com notório envolvimento na luta antirracista, e profissionais da área de comunicação. A análise será realizada de acordo com quatro critérios: impacto da iniciativa para a promoção da igualdade racial; adequação ao conceito de controle social da mídia; promoção da cidadania; e apresentação do conteúdo.
Entre os trabalhos premiados, no mínimo 50% deverão ser iniciativas de mulheres negras, ou que tenham sua equipe de produção formada por pelo menos metade de funcionárias ou colaboradoras negras. Cada uma das dez iniciativas vencedoras receberá R$ 20 mil, além do “Troféu Almerinda Farias Gama”.

Sobre Almerinda Farias Gama

Foi uma advogada, feminista e líder sindical nascida em Maceió (AL). Teve papel importante na construção da cidadania feminina, e foi precursora da participação da mulher negra na política nacional. Atuou como datilógrafa e publicou crônicas no jornal “A Província”, de Belém. Almerinda foi uma das primeiras mulheres negras na política brasileira, e única mulher a votar como delegada na eleição para Assembléia Nacional Constituinte de 1933. Ao se candidatar para a Câmara dos Deputados e o Senado Federal, em 1934, seu panfleto dizia “advogada consciente dos direitos das classes trabalhadoras, jornalista combativa e feminista de ação. Lutando pela independência econômica da mulher, pela garantia legal do trabalhador e pelo ensino obrigatório e gratuito de todos os brasileiros em todos os graus”.

Lançamento do Prêmio Almerinda Farias Gama

09/06/2016 (Quinta-feira) – 18h

Rua Líbero Badaró, 425, 6º andar – Centro – SP (auditório)

Tel.: (55 11) 4571-0930

Mais informações: premioalmerindafariasgama@prefeitura.sp.gov.br

Edital: www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/igualdade_racial/

 

 

 

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Mídias Negras e Alternativas O quê que tá pegando?

Presidenta Dilma confirma presença no Encontro Nacional de Blogueiros, em BH

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Do Barão de Itararé

 

Começa nesta sexta-feira (20), em Belo Horizonte, a quinta edição do Encontro Nacional de Blogueiros e Ativistas Digitais. Com o tema #MenosÓdioMaisDemocracia, o #5BlogProg reunirá jornalistas, blogueiros e ativistas de todo o país para discutir a defesa da democracia e a luta contra o golpismo midiático. O evento ocorre no Othon Palace Hotel (Av. Afonso Pena, 1050) e vai até domingo (22), com transmissão ao vivo pela TVT e pelo site do Barão de Itararé.

Está também confirmada a participação da presidenta eleita Dilma Rousseff na abertura do evento, quando se promoverá um Ato político em defesa da democracia e contra o golpismo midiático. O encontro é bienal e, por diversas vezes, já contou com a presença de personalidades da cultura e da política nacional, como o ator José de Abreu e o ex-presidente Lula, dentre outros. A presidenta Dilma Rousseff foi convidada para participar do evento em 2015 e já havia sinalizado a possibilidade de comparecer há um ano. As inscrições para o evento estão encerradas e o local tem capacidade limitada.

Com o tema ‪#‎MenosÓdioMaisDemocracia‬, a quinta edição do Encontro Nacional de Blogueiros e Ativistas Digitais vai até o dia 22/05 e deve reunir mais de 400 pessoas entre jornalistas, blogueiros e ativistas de todo o país para discutir a defesa da democracia e a luta contra o golpismo midiático.

O evento, organizado pela Comissão Nacional de Blogueiros e ativistas digitais e será realizado em Belo Horizonte com o apoio de entidades, sindicatos e movimentos sociais que ajudaram na mobilização e no apoio financeiro.

Presenças confirmadas: Paulo Moreira Leite, Eduardo Guimarães (Blog da Cidadania), Rodrigo Vianna (O Escrevinhador), Laura Capriglione (Jornalistas Livres), Conceição Oliveira (Maria Fro), Cynara Menezes (Socialista Morena), Fernando Brito (Tijolaço), Marco Weissheimer (RSurgente), Lola Aranovich (Escreva Lola Escreva), Diógenes Brandão (As Falas da Pólis), Tarso Cabral Violin (Blog do Tarso), Najla Passos (Carta Maior), Douglas Belchior (Negro Belchior), Tereza Cruvinel, Elaine Tavares (Palavras Insurgentes), Hildegard Angel, Paulo Henrique Amorim (Conversa Afiada), Renato Rovai (Revista Fórum), Miguel do Rosário (O Cafezinho), Daniel Bezerra (Portal Mídia Livre) e Rosane Bertotti (CUT).

Confira a programação:

SEXTA-FEIRA (20)
18h – Abertura e apresentação da dinâmica do evento
19h – Ato político em defesa da democracia e contra o golpismo midiático

SÁBADO
9h – Debate: As forças políticas e a democratização da comunicação
14h – Rodas de conversa e troca de experiências sobre a blogosfera e o ativismo digital
17h – Debate: O crime de Mariana e o papel da mídia
19h – Reunião dos estados
21h – Atividade cultural

DOMINGO
9h – Aprovação da Carta de Belo Horizonte e eleição da Comissão Nacional de Blogueiros e Ativistas Digitais
13h – Encerramento do #5BlogProg

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Meios de Comunicação e Racismo

Funcionários da Empresa Brasil de Comunicação fazem paralisação de 24h

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Por Comissão de Empregados EBC

Funcionários da EBC pressionam a direção da empresa pela revisão do Plano de Carreiras e garantia da autonomia editorial 

Nesta terça-feira (9), os empregados da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) realizam uma paralisação de 24 horas em Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e São Luís. A mobilização tem como objetivo pressionar a direção da EBC e alertar o governo federal e a sociedade sobre a importância da revisão do Plano de Carreiras da empresa contemplar um conjunto de medidas entendidas como fundamentais para o fortalecimento da comunicação pública. Entre elas está a inclusão de mecanismos como a garantia da autonomia editorial, pisos e tabelas salariais que tirem a EBC da lanterna do serviço público (como apontou pesquisa encomendada pela própria empresa com 32 órgão públicos) e estímulos concretos à formação e qualificação dos empregados.

A EBC é gestora da Agência Brasil, TV Brasil, TV Brasil Internacional, Radioagência Nacional e do sistema público de Rádio (com oito emissoras, como a Rádio Nacional e Rádio MEC), além de gerir o canal de televisão NBr e o programa de rádio “A Voz do Brasil”. A empresa é vinculada à Secretaria de Comunicação Social (Secom) da Presidência da República.

A paralisação tem o apoio da Comissão de Empregados da EBC e dos sindicatos dos jornalistas do Distrito Federal e Rio de Janeiro, e dos radialistas de São Paulo e do Rio de Janeiro. A ação foi aprovada por cerca de 300 funcionários reunidos em assembleia na última quarta-feira (4).

Em resposta à decisão dos empregados, a Direção Executiva da EBC enviou comunicado interno na última sexta-feira (5) ao corpo funcional em que ameaça os trabalhadores ao dizer que “entende que o referido movimento paredista é abusivo, razão pela qual adotará as medidas cabíveis”. Em resposta, as entidades representativas dos funcionários divulgaram informe em que afirmam não compreender “os motivos que levam a EBC a já considerar a mobilização abusiva. Essas informações, lamentavelmente, não constam na nota, que resume a ameaça a uma frase sem argumentos e sem solidez jurídica”. Por fim, os sindicatos e a Comissão ressaltam esperar “que o direito à organização e mobilização sejam compreendidos e respeitados pela EBC”.

Em novembro de 2013, os empregados realizaram uma greve nacional de 15 dias durante as negociações do Acordo Coletivo de Trabalho. A mobilização envolveu cerca de 700 dos pouco mais de 2 mil funcionários da empresa.

ENTENDA O CASO

A revisão do plano de carreiras da EBC vem ocorrendo desde 2012. Em agosto de 2013, após pressão dos funcionários que ameaçaram paralisar as atividades, a empresa criou o chamado Grupo de Convergência para tratar do assunto. Ele foi instituído para sistematizar contribuições dos trabalhadores ao novo plano e elaborar um relatório com recomendações à Diretoria Executiva. O grupo foi formado por representantes da empresa e das entidades representativas dos trabalhadores e encerrou os trabalhos na semana passada.

Contudo, a EBC não acatou demandas fundamentais dos empregados, reafirmadas em sucessivas assembleias desde início da criação do grupo. Entre elas destacam-se:
– Melhoria da tabela salarial com redução de níveis para progredir na carreira e aumento do piso (em assembleia foi aprovada proposta de tabela com piso de R$ 4.400 para nível superior e R$ 3.080 para nível médio);
– Descrição de cargos que respeite a legislação e não abra brechas para acúmulos e desvio de função;
– Equilíbrio entre promoção por mérito e antiguidade e
– Instituição de uma gratificação por qualificação;

Entre as divergências do Grupo, vale destacar a criação de sete pisos diferenciados entre categorias (atualmente há um para nível médio e outro para superior) e a proposta da empresa de conceder progressão automática anual a quem ocupa cargos de gestão (ou seja, chefias), sem que seja dado esse mesmo direito aos demais profissionais da casa.

O resultado do Grupo de Convergência segue agora para deliberação da Diretoria Executiva da EBC, que deve submeter a proposta a aprovação do Ministério do Planejamento.

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Meios de Comunicação e Racismo

Movimentos convocam protesto antirracista na porta da TV Globo

 

 

 

 

Por Douglas Belchior

E a Rede Globo mantém seu papel histórico: fortalecer estigmas negativos relacionados à população negra e à classe trabalhadora, em especial às mulheres negras, no imaginário coletivo.

Até aí, nenhuma novidade.

Mas há sim um elemento novo: O Movimento Negro está nas ruas, forte como nunca.

[email protected] ao “Protesto e as Pretas“, em frente à Rede Globo, nesta terça feira, 16/09, às 19h, com concentração na Praça General Gentil Falcão – SP.

 

 

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“Sexo e as Nega” será alvo de protesto em frente à emissora nesta terça feira.

 

Nota de Repúdio

“Sexo e as nega” não nos representa. Queremos mulheres pretas no poder!

 

Nesta terça feira, 16/09, estreia na Rede Globo a minissérie “Sexo e as Nega”, de Miguel Falabella. Nós, pretas e pretos independentes e atuantes de diversos coletivos, organizações e entidades manifestamos nosso absoluto repúdio a mais um golpe racista protagonizado pela emissora, que permanece desde a sua fundação como uma das ferramentas de manutenção do racismo e do machismo brasileiro.

Para nós, é evidente que a maneira como o seriado retrata as mulheres negras contribui de forma latente com os péssimos estigmas atribuídos historicamente às mulheres negras em nosso país, como o de mercadoria sexual, cujo único valor é o sexo.  “Sexo e as Nega” é só mais um capítulo do desserviço permanente prestado pela emissora ao povo negro.

A tentativa desonesta do autor de transformar esse seriado racista em uma maneira de propagandear a farsa da democracia racial, precisa ser denunciada. O racismo brasileiro se explicita a cada dia, e na mesma proporção o Movimento Negro vem ganhando força. Logo, mesmo que a emissora permaneça se furtando de um debate honesto sobre o racismo, ou até mesmo fazendo uma cobertura justa do que estão sendo as lutas antirracistas no Brasil, as diversas organizações do movimento negro permanecerão nas ruas, em protesto, enquanto for necessário, assim como será nesta terça-feira.

Convocamos todo povo negro de São Paulo ao protesto pela retirada imediata deste programa racista do ar e denunciamos:

  • A contribuição histórica da emissora com o racismo brasileiro;

  • A maneira racista e machista que a emissora retrata a mulher negra em sua programação;

  • O silêncio da emissora em relação às últimas mobilizações do movimento negro, em especial a Marcha Contra o Genocídio do Povo Negro, que movimentou mais de 60 mil pessoas em todo país no último dia 22 de Agosto;

  • A maneira como emissora se recusou a dialogar com as diferentes vozes que levantaram quanto ao programa;

  • A permanente tentativa da emissora de propagandear a farsa da democracia racial.

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Assinam:

Uneafro-Brasil

Círculo Palmarino

Levante Popular da Juventude

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Meios de Comunicação e Racismo

Sobre a participação no programa “Na Moral”, da Rede Globo

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Por Douglas Belchior

 

[email protected] do Blog NegroBelchior, Facebook, de vida e de luta, boa tarde!

Quero agradecer as inúmeras manifestações de carinho e respeito que recebo desde ontem e, também, gostaria de dar as minhas explicações sobre a não participação no programa “Na Moral”, da Rede Globo de televisão, na noite de ontem, 10 de Julho:

A avaliação do meu coletivo de militância foi de que seria importante aceitar o convite para a gravação do programa “Na Moral”. Em que pese todas as contradições – em se tratando da rede Globo – aceitamos por avaliar que se trata de um veículo que efetivamente leva informação para milhões de brasileiros, e que poderíamos utilizar para levar nossa mensagem de combate ao racismo e de reivindicação de reparação histórica, de denúncia do genocídio negro e de defesa das políticas de ação afirmativa. Não houve inocência na ação. Foi algo avaliado e decidimos por fazer, mesmo sabendo dos riscos da edição.

O compromisso da produção do programa foi manter os principais argumentos de todos os participantes. As profissionais, produtoras do programa, me pareceram (e acredito mesmo que sejam) sérias em seu trabalho e sensíveis ao tema.

O programa foi gravado na tarde de sábado, 28 de junho. A proposta é de que seriam dois blocos: o primeiro abordaria racismo em telenovelas, com a participação de artistas; o segundo seria um debate sobre cotas raciais tendo por um lado a desembargadora Luislinda Valois – primeira mulher negra a se tornar juíza no Brasil e eu, Douglas Belchior, em defesa das cotas. Do outro lado, Roberta Fragoso, advogada do DEM na Ação Direta de Inconstitucionalidade das Cotas que fora julgado no STF em 2012. Além dela, também contra as cotas, um rapaz negro chamado Éder Souza, formado em História na USP.

O debate rolou e foi muito quente, gravado, editado, com chamadas na net (http://zip.net/bxn1XC) e na TV – como muitos perceberam.

Na noite de quarta feira (09) recebi a informação de que o bloco inteiro seria cortado por conta da legislação eleitoral, já que Luislinda Valois e eu estamos registrados como candidatos em nossos Estados.

Particularmente, desconhecia essa legislação e tampouco fui lembrado a esse cuidado. Curioso é que não faltam veiculações de personalidades que são candidatos/as o tempo todo em comerciais, programas e telejornais, sem que isso seja proibido, mesmo em período eleitoral. Enfim, foi essa a justificativa.

Sobre a edição que foi ao ar, pouco tenho a dizer. As pessoas que assistiram, em especial aquelas a que o tema tem importância, com certeza tem qualificadas conclusões. Faço apenas referência ao companheiro Joel Zito, militante incansável nas artes e no combate ao racismo que, apesar da edição, conseguiu deixar um forte recado sobre a vocação racista da TV e do Estado brasileiro.

Agradeço o cuidado de [email protected] Não estou frustrado, tampouco, surpreso. A Globo é a Globo, jamais deixará de ser. Não será por ela nem pelos demais veículos de comunicação tradicionais que faremos mudanças no país. No entanto, devemos sim – e essa é nossa opinião – aproveitar os possíveis espaços para levar nossas mensagens e nossas lutas. Por isso nos dedicamos à luta pela democratização dos meios de comunicação, construindo e fortalecendo as mídias alternativas, vejam: http://zip.net/bhn1d9.

Manteremos a luta política de combate ao racismo de maneira sistemática, cotidiana e comunitária, ações para as quais convido todos/as a participar e fortalecer, confira: (http://zip.net/bvn1qz) e (http://zip.net/bfn0YR).

Asè na vida! Paz na Caminhada! E cuidado com a polícia! 😉

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Meios de Comunicação e Racismo

Blog NegroBelchior no programa Manos e Minas

Por Douglas Belchior

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A luta política proporciona encontros memoráveis e que duram para sempre!

Um deles foi com Max B.O, rapper e apresentador do programa Manos e Minas, na TV Cultura.

Além de valorizar a cultura hip-hop, periférica e afrobrasileira, Max B.O em seu programa fortalece o combate ao racismo, ao genocídio da juventude negra e às lutas por igualdade e justiça.

Foi bem loko!

Assiste aí e me diz o que achou, beleza?

Asè!

 

 

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