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Mulheres Negras

Mulheres negras: o principal alvo da violência

Por Marina Souza

“É essencial falar disso. É preciso saber quem sofre mais e pensar em políticas públicas específicas”, falou a cientista social e jornalista Bianca Santana quando questionada sobre a importância de discutir as desigualdades existentes na população feminina. Entre as vinte e duas milhões de brasileiras que sofreram assédio no ano passado, 36,7% são pardas e 40,5% são pretas, é o que aponta uma pesquisa divulgada em fevereiro pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e o Datafolha. Mas não é a primeira vez que um dado oficial expõe tais disparidades, o Atlas da Violência 2018, por exemplo, mostrou que entre 2006 e 2016 a taxa de homicídio de mulheres negras aumentou 15,4%, enquanto que a de não negras diminuiu 8%.

Em diferentes períodos do século passado, pensadoras como Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro, Angela Davis, Audre Lorde, Conceição Evaristo e tantas outras já denunciavam em seus escritos a situação de vulnerabilidade da mulher negra. Para Santana o movimento feminista brasileiro é marcado principalmente pela luta de pessoas como elas, que sentem na pele as consequências de uma sociedade racista e misógina.

A voz negra no feminismo

A jornalista afirmou ainda que embora a questão de raça já esteja muito bem incorporada nos discursos políticos do feminismo, o cotidiano ainda apresenta imensos desafios para as negras. “Quando estamos em espaços feministas percebemos muitas situações de discriminação racial. Muitas vezes, as mulheres brancas reproduzem aquilo que acusam os homens, é tão naturalizado que elas nem percebem”, explicou ao lembrar da época em que fazia parte de um coletivo que costumava dividir as tarefas de limpeza entre as participantes, mas sempre deixava o lixo sob a responsabilidade das negras. “Ah, vocês deveriam ter avisado antes” foi a justificativa de uma das ativistas brancas que compunham o grupo.

Ao traçar as divergências históricas entre as populações femininas, Maria Menezes, bióloga e uma das fundadoras do Núcleo de Consciência Negra da Universidade de São Paulo, afirmou que o feminismo surgiu como movimento voltado exclusivamente à emancipação das mulheres brancas, uma vez que elas lutavam pelo direito ao trabalho e negligenciavam a escravidão das negras e dos negros.

Foto: Thinkstock/Reprodução

“Isto é reflexo da sociedade brasileira, erguida através do trabalho de negras e negros, que foram escravizados. Nesta sociedade as vidas das mulheres, especialmente as negras, não vale absolutamente nada, são descartáveis”, disse Menezes.

Os famosos esteriótipos da mulher negra gostosa e a empregada doméstica que inicia a vida sexual dos filhos dos patrões é algo que está no imaginário brasileiro desde o período colonial, segundo Santana. Ela acredita que a falta de reparações sociais com os ex-escravos deixou feridas que influenciam até os dias atuais e usou como por exemplo a hiperssexualização, que intensifica-se durante o carnaval. Para a professora, esse tipo de hábito social faz com que o corpo feminino negro seja visto como disponível a qualquer coisa, incluindo violência e serviços sexuais.

Mas se nos governos progressistas tais disparidades já eram alarmantes, Menezes e Santana acreditam que os índices têm grandes chances de piorar a partir de agora. A segunda, contudo, enfatizou que “além de olhar para a violência é muito importante ver a nossa força, que é de resistência e de construção de um mundo em que nós caibamos”, como voto de esperança para o futuro.

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Mulheres Negras

No Brasil, mulheres negras são a maioria dos casos de sífilis

Por Marina Souza

As mulheres negras jovens, entre 20 e 29 anos, são a maior parte da população com sífilis no Brasil e representam 14,4% das gestantes que são diagnosticadas com a infecção. O último Boletim Epidemiológico de Sífilis, divulgado pelo Ministério da Saúde, mostrou um aumento do número de pessoas infectadas, que passou de 44,1 casos a cada 100 mil habitantes, em 2016, para 58,1 em 2017.

A sífilis é uma Infecção Sexualmente Transmissível (IST),  causada pela bactéria Treponema pallidum, que atinge mais de 12 milhões de pessoas ao redor do mundo e possui diferentes estágios (primário, secundário, terciário, latente e congênito). Feridas, dores, danos cerebrais e muitos outros sintomas podem representar a sífilis, que se não for devidamente tratada, ocasiona a morte.

Seu tratamento depende do grau da infecção, variando entre penicilina, antibióticos e internação hospitalar. É o uso da camisinha, feminina ou masculina, que previne essa e outras ISTs, e em razão disso, Maria Menezes, mestra em Patologia Humana, acredita que programas socioeducativos em escolas e espaços de formação são necessários. “A única forma de lidar com um tabu é através da informação. A sociedade precisa se dar conta de que as políticas públicas são direitos e que a ausência delas têm consequências devastadoras para todos”, diz ela.

Quanto maior a vulnerabilidade social, maior é o risco de contrair ISTs. É por isso que as mulheres negras constituem grande parte desta população e representam algumas consequências do contexto social no quadro epidemiólogo do país. A realização de políticas específicas para dialogar com esse público é algo que Menezes considera necessário para alterar a situação e por isso, preocupa-se com o despreparo do novo governo que chega ao poder.

Lançamento da Campanha de Prevenção HIV/Aids do Carnaval 2018. Salvador (BA) / Foto: Rodrigo Nunes/MS
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Cultura Mulheres Negras

A Ocupação das Minas: evento promoverá uma série de atividades artísticas

Por Marina Souza

No dia 16 de fevereiro, acontecerá uma série de eventos promovidos pela Ocupação das Minas na Casa de Cultura Hip-Hop Diadema que visa instigar a luta contra o machismo, racismo, LGBTIfobia e qualquer outro tipo de opressão. Diante do forte machismo e lesbofobia existentes no cenário do Hip-Hop, a grafiteira Nenesurreal, que recentemente foi vítima de ambas violências, criou uma rede de arrecadamento financeiro virtual para custear o grande evento, que contará com a presença de muitas atividades. É a voz da periferia, das mulheres e das negras chamando a atenção daqueles que apreciam as mais variadas expressões artísticas e de entretenimento.

Programação (em construção coletiva e autônoma)

Mestras de Cerimônia
– Bianca
– Gabi Nyarai
– Mari Maciel

Shows
– Palomaris
– Scheyla Oliver
– Yabba Tutti (Soundsystem)
– Meire D’Origem
– Ericah Azeviche
– Mana Black
– Drika Backspin

Performances
– Sol Bento – Lilá.
– Levante Mulher – Miriam

Alimentação Vegana
– La Fancha

Rodas de conversa 
– Roda Terapêutica das Pretas (Adelinas – Coletivo Autônomo de Mulheres Pretas)
– Saúde Sexual para Mulheres (Ana Clara)

Sarau
– Sarau Alcova
– Sarau Papo de Mina.

Lançamento do Livro AfroLatina
– Poeta Formiga.

Oficinas
– Lambe-Lambe – Lambe Minas.
– AngelStore
– AsMinas
– Teatro Feminista – Talita do Núcleo Zona Autônoma.

Exibição de documentários
– Auto de Resistência (Mães de Maio)
– Mulheres Negras: Projetos de mundo (Day rodrigues)
– Mulheres Periféricas apoiadas por mais de quinhentas mil manas – Coletiva Fala Guerreira.
– Mulheres de Palavra – Web Série com 3 episódios – Ketty Valencio, Fernanda e Renata Allucci.

Feira e Exposições
– Livraria Africanidades
– Eparrei
– Anjo Negro Store
– Bete Nagô
– Clandestinas.

Grafite das Manas com protagonismo das manas negras, indígenas e lésbicas

Espaço Erê: local para as mamães deixarem suas crianças
Coletivo Espelho, Espelho Meu
– Os Quebradinhas
– Pamela Neres
– Bebel

Acompanhe as futuras informações do evento no facebook e valorize a cena das manas periféricas, pretas e lésbicas.

 

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Mulheres Negras

Bitonga Travel: a mulher negra ganhando espaço no meio turístico

Por Lau Francisco

No filme “Estrelas além do Tempo”, quatro mulheres negras desafiam o apartheid ao provar sua competência profissional na realização que levou o homem à lua, lutando contra o preconceito arraigado na hierarquia da NASA. Sem medo de errar, podemos fazer um paralelo desta conquista com a luta das mulheres do Bitonga Travel. Elas reconstroem estereótipos na junção de suas experiências pessoais viajando sozinhas pelo mundo, com objetivo de compartilhar vivências pessoais, impactar e proporcionar mudanças no setor do turismo. O lançamento do projeto acontece dia 09 de janeiro, às 20h, no Aparelha Luzia, em São Paulo.

Foto: Renato Cândido e Luiza Alves – Divulgação

Idealizado pela viajante Rebecca Aletheia, o projeto tem o objetivo de incentivar mulheres negras a conhecer não só o vasto mundo como também suas próprias cidades, empoderando-as, desta forma, a engrandecer sua visibilidade e autoestima. Em dezembro de 2018, na praia da Guaiuba, Guarujá, litoral sul de São Paulo, ocorreu o primeiro encontro das mulheres deste projeto. Quatorze viajantes de diferentes lugares transformaram a viagem à praia no seu grande escritório, pautando questões de negritude feminina no espaço turístico. Bitonga é uma língua bantu, de tronco nígero-congolês, falada mais especificamente na região do Inhambane, no Moçambique. Acentuada e belíssima traz consigo traços fonológicos semelhantes aos sons do português brasileiro.

Uma questão comum entre todas as participantes foi o fato de que as mulheres negras não se sentem representadas pelo turismo, sendo muitas delas por vezes excluídas e desconsideradas no meio turístico hoteleiras.

“Reunir mulheres negras viajantes da América Latina e do Caribe têm muito significado para outras mulheres. Muitas vezes elas se vêem sozinhas no espaço de viagem. Isso acontece porque é difícil encontrar mulheres negras viajando por conta da própria economia. Uma mulher negra recebe menos que uma mulher ou homem branco, elas estão nas periferias, não têm acesso ao centro da cidade, cuidam das casas, dos filhos, da família, da mãe, pagam aluguel, ou seja, são vários os fatores que impedem”, explica Rebecca Aletheia, que já viajou por diversos países, como Argentina, Peru, Bolívia, Venezuela, Moçambique, Àfrica do Sul, Uzbequistão, Turquia, Portugal, França, Espanha, entre outros.

A condição da mulher negra citada por Rebecca justifica-se em números. Em março de 2018, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que se para as mulheres brancas a queda na ocupação de postos de gerência foi de 1,2 ponto percentual entre 2012 e 2016 — passando de 39,7% para 38,5% dos cargos —, para as negras foi de 4,7 pontos no mesmo período — caindo de 39,2% para 34,5%. As mulheres negras também têm salários menores, tanto em relação a pessoas brancas quanto a homens negros. Segundo estudos, as mulheres que conseguem delegar mais as tarefas domésticas são as de classes sociais mais altas, em sua maioria brancas. Portanto, uma mulher negra viajar pelo globo terrestre, sozinha, é uma forma de estreitamento das fronteiras e também de ascensão social.

Entretanto o projeto lembra que viajar não é somente se deslocar para o exterior, fazer um plano de viagem, hospedar-se num hotel de prestígio. Viajar vai muito além disso. Viajar é sair da própria região e ir para o centro da cidade, viajar é visitar nossa tia na cidade vizinha, ou quando visita-se o bairro em que cresceu. Segundo Rebecca, outros encontros acontecerão e as experiências e vivências dessas mulheres poderão ser conferidas pelas redes sociais. O projeto vai unificar essas vivências e reforçar o conceito de mulher negra circulante que quer ocupar os lugares que lhe foram negligenciados.

Serviço

Lançamento Projeto Bitonga Travel – Dia 09 de janeiro, às 20h, no Aparelha Luzia

(Rua Apa, 78, Santa Cecília – São Paulo)

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Cultura Mulheres Negras

Primeira mostra de audiovisual traz convidados que estiveram atrás das câmeras

Foto: Marina Souza

Por Marina Souza

“Por ser a primeira mostra de audiovisual da Feira Preta, pensamos no evento com caráter cultural, e não competitivo, temos os objetivos de incentivar a produção audiovisual do nosso público jovem, preto e periférico. Queremos divulgar o cinema de guerrilha independente, além de contribuir com o calendário cultural da cidade e se estabelecer como uma opção de entretenimento, informação e cultura.”

Essa foi a frase dita por Maria Magalhães, uma das curadoras da 1ª Mostra Feira Preta de Audiovisual, sobre os eventos que aconteceram nos dias 18 e 19 de novembro, no espaço  Matilha Cultural,  localizado na região central da capital paulista. Rodas de conversas, recheadas de debates com os diretores, produtores e atores de alguns dos curtas, médias e longa-metragens ali exibidos, aconteceram em vários momentos da mostra, permitindo que os espectadores compartilhassem perspectivas e análises do atual mercado cinematográfico nacional. Os eventos tiveram a organização do coletivo Visionários da Quebrada e da produtora Terra Preta.

Maria Magalhães, 26 anos, é produtora cultural e faz parte do coletivo Visionários da Quebrada

Contrariando o forte racismo ainda presente no meio artístico, os processos de produção dos filmes e da articulação dos eventos foram protagonizados por negros,  o que contribuiu em diversas questões como representatividade, empoderamento, valorização e respeito aos 54% da população brasileira.

“É importante que isso [evento] aconteça para que a gente possa ganhar poder e entender as ferramentas de combate que temos, e a Feira é uma delas. É arte, cultura, empoderamento, conhecimento, força, poder e necessário. Muito necessário. Todo esse afeto que ela emana resulta em entender que você não está sozinho.”, diz Rodrigo Portela, um dos curadores, quando questionado sobre a importância do evento. 

Foto: Marina Souza

“Tem galera que faz filme com quatro milhões de reais diz que é cinema independente. O cinema independente brasileiro tem uma divisão. Tem gente que gasta quinhentos mil, quatro milhões, enquanto há aqueles que não têm recurso nenhum, tirando do zero, levando marmita de casa e pedindo câmera emprestada. Eu respeito muito os dois, mas não gosto de colocar tudo mesmo ‘bolo’. Tem a galera de quebrada”, completa.

Maria Magalhães relembra ainda que as culturas das periferias sempre existiram, sobretudo na poesia e no teatro, e  ressalta que estão apenas revelando essas histórias. Um exemplo disto é o estilista e criador do PIM (Periferia Inventando Moda), Alex Santos, que que forma profissionais para atuar no mercado.

“Hoje, a gente sabe o que está sendo feito e quem está fazendo. Me interessa muito saber quem está produzindo lá no Grajaú, na Zona Norte, na Zona Leste. Existe uma produção cultural intensa de uma rapaziada jovem, politizada, consciente, que promove saraus, debates e produz bastante. O poder público deveria ajudar mais. Há algumas iniciativas, como editais mais democráticos que não elitizam tanto os meios de produção. Isso é essencial. Mas a gente não pode depender disso também, tem que fazer cinema com as próprias mãos.”, enfatiza Magalhães.

Veja a seguir alguns dos filmes que foram exibidos na Feira:

PRETAS G

Direção – Rodrigo Portela
Produção – Thaty Vieira
Produtora – Terra Preta Produções

Nós, mulheres pretas e gordas, não temos visibilidade. Eu assisti a uma entrevista com uma modelo plus size que é comparada à Gisele Bündchen, loira e padrão dentro de uma ‘branquitude’. Comecei então a procurar sobre mulheres negras que fossem gordas, achei alguns blogs independentes, mas nada muito forte. Não achava nada sobre elas, mas encontrei muita coisa sobre  brancas. Foi aí que eu conversei com o Rodrigo [Portela], entramos num consenso sobre fazer um documentário e um ensaio fotográfico. Produzimos na guerrilha, sem dinheiro.

A produção e o processo como um todo foram lindos e ajudaram a gente a se curar. Por mais que tenhamos  segurança em sermos mulheres pretas e gordas que amam a si próprias, nós também temos as nossas inseguranças. Foi emocionante, um ato de amor comigo mesma e com as outras pessoas.”, diz a produtora Thatyane Vieira.

Sinopse: PretasG é um documentário de curta metragem que abre espaço de fala para mulheres pretas gordas, para que elas possam compartilhar suas vivências e experiências estando de fato mais próximas da base da pirâmide social brasileira.

“Selecionamos sete mulheres muito diversas, de profissões, estilos de vida e vivências muito diferentes. Fizemos uma reunião com elas e apontamos todas as ideias, dizendo que não usaríamos o termo ‘plus size’ ou ‘gordinha’, falaríamos ‘preta’ e ‘gorda’”, diz o diretor Rodrigo Portela. 

A História de Mona

Sinopse: Escutamos a história de Mona, a primeira mulher negra com deficiência a atuar no Teatro Municipal de São Paulo, considerado um ícone da herança brasileira. É somente em 2017 – em um país predominantemente negro – que Mona tem a chance de subir ao palco.

Foto: Marina Souza

Mona , 40 anos, é formada em Nutrição e Enfermagem, mas atualmente trabalha como bailarina sob uma cadeira de rodas, rompendo barreiras e preconceitos. “A gente pode colocar esse documentário em qualquer momento, seja para falar de preconceito, segurança pública, deficiência ou mulher negra.  Hoje eu vivo feliz em saber que a minha história pode reverberar de alguma forma e transformar a vida dos nossos”, diz ela com um sorriso no rosto.

Tela Preta

“A Tela Preta é isso, ela veio desse lugar de inquietação. A gente quer falar de entretenimento, é claro que é político, a nossa presença por si só é política, mas também queremos falar de ouras coisas.”, diz Mariana Oliveira

Nem todos os integrantes do grupo moram no mesmo lugar, alguns deles estão no Rio de Janeiro, e os outros em São Paulo. Mesmo com a distância eles procuram se comunicar de maneira articulada para que não haja ruídos e o trabalho seja fortalecido.

Integrantes do canal Tela Preta na 1ª Mostra Feira Preta de Audiovisual/ Foto: Marina Souza

Visionários da Quebrada

Direção: Ana Carolina Martins
Produção: Maria Clara Magalhães

Sinopse:​ Personagens de várias quebradas de São Paulo nos guiam ao encontro de outros olhares sobre pessoas, filosofias, práticas e relações produzidas nas periferias da cidade. As histórias contadas por seus próprios protagonistas criam novos imaginários e narrativas sobre os saberes das periferias relacionados a moda, educação, gastronomia, dança, comunicação, entre outros temas. E revelam a potência de pessoas extraordinárias que, na construção cotidiana, fortalecem valores que promovem mudanças em suas comunidades.

Foto: Marina Souza

“É uma pesquisa que resultou num documentário que chamamos de filme-processo. Foi um registro da nossa vivência, na busca da nossa identidade nas nossas histórias. O processo foi feito de uma forma bem investigativa, pautada numa biografia, quase autobiografia.”, diz Ana Martins.

“Sou grata a equipe do Visionários. Tô rodeada de pessoas incríveis. Visionários é um laboratório.
A paixão em conjunto da equipe em querer realizar e se experimentar de alguma maneira através do seu ofício.”, completa Maria Magalhães.

Amor Maldito

Direção: Adélia Sampaio

Sinopse: Fernanda e Sueli vivem um tórrido romance. A relação passa por crises e Sueli acaba caindo nos braços de um mulherengo. Grávida e sem apoio, ela se suicida, mas as suspeitas da morte recaem sobre Fernanda.
“Esse filme foi retirado de um caso real. Outro dia meu filho me disse que quando lançou ele era muito pequeno e que, se olharmos pro agora, perceberemos que nada mudou. Pois é, não mudou nada, mas eu tentei passar a mensagem”, diz Adélia ao ser questionada sobre o fato de ter abordado o preconceito sofrido pelos LGBTs na época.
Adélia Santos foi a primeira mulher negra a dirigir um longa-metragem no Brasil / Foto: Marina Souza
“Eu me locomovo com dificuldade, operei a coluna, mas mesmo de maca eu teria vindo, porque me interessa muito toda essa energia e movimentação”, diz ela com um sorriso estampado no rosto.
TRAVESSIA

Direção – Safira Moreira
Poema “Vozes Mulheres”, de Conceição Evaristo, na voz de Inaê Moreira

Sinopse: Travessia é um curta realizado a partir da memória estilhaçada, fruto do apagamento histórico da população negra no Brasil. “Por eu ser agora uma mulher negra com uma câmera na mão e muitos sonhos no peito, que o curta se fez”, diz a diretora. Foi no gesto de garimpar fotografias de mulheres negras nas feiras de antiguidade do Rio de Janeiro que ela encontrou a fotografia que abre o filme, todas as fotos nesse espaço provinham de álbuns de famílias brancas, logo, elas refletiam esse apagamento.

Motriz

Direção e Roteiro: Tais Amordivino
Realização: Ori Imagem e Som

Sinopse: No interior de Minas Gerais, onde o tempo passa devagar e a saudade teima a andar depressa, Bete, uma mulher de olhos caudalosos e sorriso largo, convive com a distância das filhas. Apesar disso, mãe e filha encontram no amor, a força motriz que as aproximam.

Rainha

Direção: Sabrina Fidalgo

Sinopse: Rita finalmente realiza o sonho de se tornar a rainha da bateira da escola de samba de sua comunidade, todavia ela terá que lutar contra forças obscuras internas e externas…

Eu pareço Suspeito?

Direção: Thiago Fernandes

Sinopse: Entre enquadros, prisões, invisibilidade, racismo e mortes muito próximas, o diretor inverte a lente e busca entender os motivos do seu estereótipo ser considerado suspeito.

Nos 4 Cantos do Jongo

Direção: Nancy Teixeira

Nos 4 Cantos do Jongo é um Projeto incentivado pela 14ª edição Programa Vai. É um trabalho de pesquisa em Jongo, junto a Mestres de 4 Comunidades Tradicionais: Guaratinguetá, Piquete, Lagoinha e Campinas. O Projeto também reuniu 4 Grupos de Jongo para Jongar e compartilhar suas trajetórias.

Baronesa

Direção: Juliana Antunes

Sinopse: Andreia quer se mudar. Leid espera pelo marido preso. Vizinhas em um bairro na periferia de Belo Horizonte, elas tentam se desviar dos perigos de uma guerra do tráfico e evitar as tragédias trazidas junto com a chuva.

Preto no Branco

Direção: Valter Rege

Sinopse: Roberto Carlos, 20 anos, jovem negro, encerrou o expediente e corre, em frente ao shopping onde trabalha para não perder o ônibus. Essa é sua versão. Sem que se dê conta é abordado violentamente por dois policiais que o algema e o joga dentro da viatura. Na delegacia é informado de que foi acusado de ter roubado a bolsa de uma jovem, Isabella. Mais do que isso, ele será reconhecido pela mesma. A acusação de Isabella é tão firme e a alegação de inocência de Roberto Carlos é tão tocante, que a delegada Patrícia não arrisca nenhum parecer. Instala-se o embate: Roberto alega inocência e Isabella, a culpa dele. Quem fala a verdade?

Quem te penteia?

Direção: Naná Prudencio Zalika e Nina Vieira Zalika Produções

Sinopse: “Quem te penteia?” é um filme idealizado e realizado em casas e vielas de bairros da periferia de São Paulo com a intenção de traduzir qual é a relação que trançadeiras a domicílio, salões de beleza, barbearias e moradores das quebradas estabelecem com o cabelo, o território e as estéticas que nascem das bordas da cidade. Do corte chavoso às tranças, o documentário discute assuntos como ancestralidade, autoestima e economia solidária. O fio condutor é a busca constante de ser e viver a identidade preta e periférica da forma mais livre possível.

Deus

Direção: Vinícius Silva

O projeto “DEUS”, um trabalho prático de conclusão do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal de Pelotas, consiste na realização de um filme curta-metragem, que está em processo de produção, o qual abordará a força de uma mãe negra da periferia de São Paulo e sua influência divina sobre o filho.

Cabelo Bom

Direção: Claudia Alves e Swahili Vidal

Como as mulheres negras são pressionadas esteticamente para que se enquadrem em padrões pré-estabelecidos? O documentário de curta metragem “Cabelo bom“ propõe fazer um recorte desse universo. O filme dá voz a três personagens que expõe a relação delas e seu cabelo crespo. Elas conseguem contar suas trajetórias de vida, histórias de preconceito e nos mostrar como a autoaceitação de suas raízes, capilares, inclusive, foi e é fundamental para se afirmarem como mulheres negras num país como o Brasil.

Eu, Oxum

Direção: Héloa e Martha Sales

Sinopse: O documentário “Eu, Oxum” , dirigido e roteirizado pela atriz e cantora Héloa e a cientista social e Yalaxé, Martha Sales, conta a sua história e sua relação com o orixá Oxum, e com outras cinco mulheres “filhas” do mesmo orixá, incluindo a Yalorixá Maria José de Santana, responsável pelo “Ilê Axé Omin Mafé, mais conhecida como “Mãe Bequinha”, que, também conta sua história, como a mais antiga “filha de Oxum” do município de Riachuelo, localizado na região do Vale do Cotinguiba-SE. São 25 minutos de uma narrativa de imagens e memórias do processo individual e diferenciado de cada uma dessas mulheres, em idade, tempo de inserção na religião, relações de parentesco e as funções que ocupam dentro desse espaço sagrado, onde Héloa imergiu e se encontrou em sua busca de espiritualidade, força ancestral, e reafirmação da mulher negra, sergipana em uma caminhada religiosa e ancestral. O filme possui a trilha sonora assinada por Vinícius Bigjohn e Klaus Sena, com canções dedicadas ao Orixá Oxum por artistas contemporâneos a Héloa, trazendo o retrato do sagrado feminino personificado na figura do orixá Oxum e a natureza dos rios e mares, baseada na imagética, arquétipo, características e elementos da natureza, da simplicidade estonteante do lugar representado no filme.

Não Demora

Direção: Direção e Roteiro DOUGLAS OLIVEIRA
Coletivo SALVA

Sinopse: Um garoto, uma mãe e um café da manhã. Hoje parece ser o dia em que ele finalmente resolveu contar pra mãe que é gay, mas parece que os segredos entre eles atrapalham a intimidade que um dia já foi tão natural.

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Vítimas do racismo, negros relembram momentos marcantes em suas vidas

Por Marina Souza

Todo 20 de novembro é a mesma coisa: “somos todos humanos”, gritam eles. Inspiro. Expiro. Mas a compreensão é ainda difícil. Do mesmo lado destes há também aqueles que reproduzem discursos com palavras de ordem mascarados de apoio, mas recheados de demagogia. De repente o Brasil não é um país racista. Por isso, a pergunta lhe faço: se não você, quem?

Quem nos humilhou na infância? Quem apontou o dedo do julgamento? Quem nos nega oportunidades? Quem nos menospreza diariamente? Quem reclama da vaga reservada pra cotista? Quem coloca um sorriso no rosto para me dizer que eu sou uma “negra linda”? Quem compartilha os memes do “negão do whatsapp”? Quem dá risada do Danilo Gentili? Quem gosta de nos hipersexualizar? Quem coloca a mão no nosso cabelo sem o menor consentimento? Quem pergunta se usamos shampoo? Quem considera “mimimi”? Quem desvia de nós nas ruas? Quem diz ter vários amigos negros para se justificar? Quem é negligente com o nosso sangue escorrendo no asfalto?

Caro leitor branco, sinto muito em lhe dizer que você não é tão exclusivo quanto gostaria de ser, acredite, você não é exceção. Isentar-se desta culpa nada mais é do que uma maneira de usufruir de privilégios que lhe são concedidos constantemente na sociedade estruturalmente racista em que vivemos.

O último país do mundo ocidental a abolir a escravidão ainda carrega graves cicatrizes e consequências deste período. Analisando alguns dados estatísticos é possível compreender melhor a dimensão do problema. O  Atlas da Violência 2018, realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, mostra que em 2016 a taxa de homicídios de negros no Brasil foi 2,5 vezes maior do que a de não negros. É possível também dizer que um jovem negro tem 2,71 mais chances de ser assassinado do que um branco.

Durante o período de 2006 a 2016 o país teve uma queda de 8% no número de homicídios de mulheres brancas, enquanto o das negras aumentou em 15,4%. Apesar de sermos 54% da população brasileira, a última pesquisa divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, realizada em 2015, mostra que apenas 30% das pessoas com nível superior completo são pretas ou pardas, número que apesar de baixo, apresentou melhoras devido as políticas afirmativas de cotas raciais.

Confira abaixo alguns relatos sobre o racismo sofrido pelo povo preto brasileiro

Vinicius Lourenço, 25 anos, músico:

Lembro de quando tinha 13 anos e estava na escola, voltando do recreio, quando vi várias folhas com uma foto minha. Estavam coladas pelos corredores das salas com a legenda “chuta que é macumba.”

F. M., 19 anos, estudante de Rádio, Tv e Internet:

Eu era muito amiga dessa menina, ela é da minha faculdade, saíamos sempre. Tínhamos dado um “rolê” e depois fui dormir na casa dela. Quando acordei no outro dia ouvi ela conversando com a namorada sobre um dinheiro que havia sumido. Ela achava que eu havia roubado.

Genival Souza, 54 anos, professor universitário:

Teve uma vez que eu estava vestido todo de preto, saí da faculdade e entrei no estacionamento. Assim que eu cheguei perto do meu carro um outro professor me olhou e disse que eu havia demorado muito e ele estava me esperando para manobrar seu carro. Olhei para ele e disse que eu também dava aula ali.

Outra história parecida foi a vez em que eu fui fazer uma palestra e ao chegar no estacionamento do local o guarda disse que a entrada para o público era do outro lado. Eu disse que era palestrante, mas ele ficou duvidando e dizendo “você é mesmo palestrante?”

Flávia Campos, 18 anos, estudante de Relações Públicas:

Aos 6 ou 7 anos eu tinha algumas amigas que me diminuíam muito, elas falavam que eu era feia e meu cabelo era esquisito, por sorte tinham outras crianças negras para brincar comigo. Teve uma vez que eu estava com elas num parquinho e quando fomos brincar de Rebeldes uma delas me disse “você não pode participar porque é preta.” Cheguei em casa e chorei, isso me marcou muito.

Com uns 13 anos também rolou algo marcante. Teve um boato na minha escola de que um menino tinha ficado com uma garota negra e ficavam zoando ele por isso. Uma vez eu estava no shopping e mandaram uma foto minha para ele, dizendo “olha aqui mais uma negra pra você pegar.” Eu me senti muito mal, pensei que deveria ser um lixo para ninguém querer ficar comigo.

Artur Santos, 21 anos, estudante de Rádio, Tv e Internet:

Quando eu era criança e meus tios e primos iam comigo a alguma piscina ou rio eles ficavam falando molha o cabelo, Artur! Parece que nem entra água nele de tão ruim.” E assim, eu fui crescendo sofrendo isso dentro da família. Por conta deles, eu sempre evito ir até a cidade da minha avó.

Teve também uma vez que eu estava num shopping com meus pais voltando do cursinho. Entramos numa loja e eu fui ver algumas coisas, me distanciei deles alguns metros e foi aí que percebi que estava sendo seguido pelo segurança da loja. Eu fiquei andando por uns 5 minutos e durante todo esse tempo ele me seguiu pelos corredores. Fiquei muito puto com isso porque percebi que ele só tava me seguindo pelo fato de eu ser um preto que estava mal vestido” pra um shopping, com uma blusa de moletom cinza, calça jeans e minha bolsa cheia de material do cursinho. Reencontrei meus pais e adivinha quem saiu da minha sombra? O segurança. Coincidência, não?!

Ah, outro momento marcante foi quando jogava bola com um amigo no condomínio em que moramos e um cara de fora gritou “levanta, macaco imundo!”

A. M., 37 anos, pedagoga: 

Pode parecer impressão, mas o que percebo é que para os pais [dos alunos] eu tenho que me impor desde o início, mostrar serviço o mais rápido possível e provar minha competência. Coisas que minhas colegas brancas não precisam. Sou negra, 1,72 de altura, cabelo black, tenho um jeito bem sério – ou como dizem de uma negra metida” -, hoje tenho um cargo no Estado e estou entrando na Prefeitura de São Paulo. Como auxiliar de creche acredito que passei pelo mais claro e também o mais velado dos preconceitos. Logo quando entrei havia uma mãe, loirinha de olhos verdes, que nunca entregava o filho para mim.  Pensei inicialmente que era por eu ser nova no local, mas um mês se passou e nada, ás vezes ela ficava sentada durante 30 minutos esperando a outra auxiliar chegar. Comecei a cativar a criança na sala, brincava com ela, fazia questão de alimentar e me dediquei bastante. Um dia ela pediu meu colo na entrada,  mas a mãe não deixou e disse ao filho tem certeza que você quer ir com esta negra?
Aí eu entendi tudo.

C. G., 39 anos, designer gráfico:

Fui selecionado para uma entrevista de emprego, cheguei adiantado ao local e entreguei meu currículo para a recepção. Apareceu uma senhora toda “chique”, cumprimentou a gente, falou com a recepcionista e voltou para a sua sala. Depois de algum tempo fui chamado para entrar ali e, quando entrei, vi que a mulher  segurava meu currículo nas mãos e não acreditava que eu era o entrevistado. Ela ficava olhando para mim e perguntando se eu realmente era aquela pessoa.

Laís Ramires, 21 anos, estudante de Relações Públicas:

Eu ainda tinha a idealização de que as pessoas dali [universidade] fossem mais conscientes sobre diversas questões envolvendo identidade. A minha professora de Comunicação e Expressão falou na frente da sala inteira, durante o primeiro dia de aula do terceiro semestre, que quando as pessoas me olhavam tinham uma impressão negativa.

Eliane Helfstein, 37 anos, assistente administrativa:

Isso foi mais ou menos aos 13 anos de idade, eu havia juntado dinheiro trabalhando e fui até uma loja de roupa com uma das minhas quatro irmãs para comprar um cardigã. A vendedora, que se reportava somente à minha irmã, que tem pele clara, perguntou o que ela desejava, então eu disse que era eu quem queria comprar a blusa da vitrine. Foi aí que a moça falou que eu não gostaria dessa roupa porque era muito cara e que havia outra na promoção.

Outro episódio que me marcou foi no final do meu curso. A coordenadora da instituição me indicou a uma vaga em uma clínica de uma amiga dela, dando a contratação como certa, uma vez que ela indicou isso seria o diferencial. Entusiasmada com a primeira oportunidade na área que tinha escolhido para seguir carreira, fui levar o currículo na clínica, que ficava em uma região nobre de São Paulo. Ao chegar na recepção todos me olhavam como um ser de outro mundo, me reportei à recepcionista dizendo que havia sido indicada e estava lá para entregar meu currículo. Após anunciada esperei por volta de 30 minutos até que a responsável viesse até mim, então, após me olhar dos pés a cabeça, quase que com desprezo, ela disse Ah, Eliane é você…” Pegou meu currículo, não me dirigiu mais nenhuma palavra e virou as costas, sem nenhum retorno. Foi a pior sensação que tive na minha vida, cheguei em casa e contei às lágrimas a situação ao meu marido.

Dayana Natale, 19 anos, estudante de Jornalismo:

Eu era bem pequena, devia ter uns 7 anos e estudava num colégio particular em que a maioria dos alunos eram brancos. Algumas meninas faziam muito bullying comigo, me chamavam de velha preta da macumba” e falavam que meu cabelo era ruim. Eu tinha um black e me zoavam muito, diziam que ele parecia um microfone e não molhava 

A. M., 35 anos, auxiliar administrativa:

Minha irmã é negra e tem 43 anos. Uma vez ela foi passear com seu filho, Théo, de 2 anos, que pediu para ir ao banheiro no decorrer do passeio. Ela o levou para lá e uma mulher perguntou o porquê dela não usar uniforme. Minha irmã, sem entender nada, pediu uma explicação. Então a mulher falou você é a babá dessa criança e não usa uniforme.” Uma observação importante a ser feita é que o Théo é branco. Minha irmã falou que ele era seu filho e a moça ainda perguntou se era adotado.

Sophia de Mattos, 22 anos, estudante de Jornalismo:

Eu nunca conheci uma pessoa preta que não tenha passado por racismo, é sempre uma luta constante. Quando eu estava na 1ªsérie só havia eu e mais um garoto de negros na sala. No carnaval, a minha mãe comprou uma fantasia de fada para eu usar na comemoração que a escola faria. Todos assistimos à aula fantasiados e no intervalo um grupo de meninas brancas me rodeou perguntando o porquê eu estava vestida de fada já que não existem fadas negras. Elas falaram que fadas não tinham meu tipo de cabelo, nem usavam tênis.

Teve também uma vez em que eu estava comendo, sujei a minha blusa de macarrão e uma menina falou que não havia problema porque minha pele já era suja.

Barbara Martins, 21 anos, estudante de Direito: 

Nesse ano alguns meninos da minha sala fizeram uma aposta para ver qual menina iria desistir primeiro do curso. Três nomes da minha sala foram citados, um deles era o meu. Sabemos que a aposta foi misógina, mas no meu caso também houve racismo, porque as minhas notas são altas e a frequência é boa, não tinha nada que indicasse que eu desistiria do curso em algum momento.

Mateus Ribeiro, 18 anos, estudante de Cinema:

Quando eu era menor estudava numa escola particular com poucos alunos negros e tinha uma realidade muito diferente da dos meus colegas que ganhavam mesada e presente toda semana. Ficavam me zoando muito, não me deixavam jogar ping pong, falavam que o meu cabelo era “bombril”, zoavam meu pai por não ter um carrão e diziam que ele havia cagado na mão e passado em mim quando nasci.

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Mulheres Negras racismo

Você não é racista? Então pratique seu antirracismo!

“Numa sociedade racista, não basta não ser racista. É necessário ser antirracista.”

Angela Davis

 

Por Douglas Belchior

 

A afirmação  da filósofa socialista e militante do Partido dos Pantegras Negras, Angela Davis, sintetiza a necessidade de ação por parte de todas e todos aquelas e aqueles que desejam uma sociedade justa e livre da principal marca característica do Brasil: o racismo.

Viveremos um governo de extrema direita que promete retirar direitos sociais, aumentar repressão e violência do estado, perseguir movimentos sociais, lideranças políticas, mulheres, gays e negras e negros. Mas, mais que temer ou lamentar o que está por vir , é necessário agir! Mais que palavras e desabafos em redes sociais, são necessárias práticas que alimentem a reação dos de baixo contra a opressão.

O fascismo que brota nas esquinas e transborda nas urnas é velho conhecido do povo negro e periférico. Em tempos de derrotas eleitorais, muito se diz: “Precisamos voltar às bases!”. Mas, será que esta é a melhor forma de atuar? Não seria mais eficaz e honesto criar condições para que deste lugar que chamam “base”, se organize a resistência, com autonomia e liberdade?

A Uneafro Brasil é um movimento de educação popular, comunitária e antirracista que há 10 anos se organiza a partir das periferias de São Paulo e outros 5 estados, atuando na luta por educação e pelo direito à vida.

Este trabalho precisa de reforço, apoio e solidariedade prática. Neste exato momento, mulheres negras da Uneafro transformam choro em sorriso, a dor em força, a fraqueza em fé e os sonhos em realidade! Através do projeto Circuladô de Oyá, uma rede de fortalecimento de mulheres negras, busca-se condições para manter o grupo em atividade, dando continuidade aos estudos, se auto- protegendo, se acolhendo e se formando para uma atuação política e social em suas próprias comunidades. Assista o vídeo.

 

 

Cada um de nós pode colaborar financeiramente através da plataforma neste link abaixo. Cada um de nós pode também se somar ao movimento de educação popular organizado pela Uneafro nas periferias de SP e do Brasil para desempenhar diversos papeis.

Conheça a proposta e junte-se a nós. A luta prática é o melhor remédio para a doença do fascismo!

ACESSE AQUI e colabore com o projeto Mulheres Negras Uneafro.

Conheça a Uneafro e fortaleça nossa luta! ACESSE AQUI.

 

Uma questão de humanidade. Ou você não é?

A casa, o bairro onde mora.

A escola boa de ensino fundamental ou médio ou a Universidade onde seu filho estuda. Ou onde você estudou.

Sua empresa, seu departamento, a academia que frequenta, o bom restaurante em que leva a família, a balada que frequenta com seus amigos.

Faça o teste do pescoço, proposto pela amiga Luh Souza, e perceba:

Se não há negros usufruindo dos serviços e dos prazeres, se eles estão apenas servindo, trabalhando ou pior, se sequer estão, qual a sua reação? Qual o seu sentimento? Qual seu questionamento? Indignar-se é pouco. O que faz para mudar essa realidade, objetivamente?

Já se foi o tempo da percepção.

Vivemos hoje o tempo das ações.

Ou age para mudanças ou não será apenas beneficiário indireto e cúmplice, mas promotor co-responsável pelos resultados das desigualdades e das violências geradas pelo racismo.

Violências e desigualdades que batem à sua porta.

 

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Mulheres Negras

Coletivos convocam ato de apoio à advogada Valéria Santos neste domingo em SP

 

No próximo domingo, 23/9, os coletivos As Pretas e Four P. Engagement promovem o “Ato por Valéria Santos” na Avenida Paulista. O ponto de encontro da manifestação será em frente ao prédio do MASP, próximo à estação de metrô Trianon, a partir das 13h.

Durante uma audiência no 3º Juizado Especial Cível, em Duque de Caxias, Rio de Janeiro, a advogada Valéria Santos solicitou um recurso de defesa à sua cliente, que é garantido por lei, mas foi desatendida pela juíza Ethel Vasconcelos. Arbitrariamente, a advogada foi algemada a e retirada da sala à força por policiais.

A situação, não por coincidência vivida por uma mulher negra, gerou revolta na população que também pede uma reparação judicial rápida e assertiva à Valéria. Segundo Janaína Sampaio, integrante do coletivo As Pretas, fazer um ato, a favor ou contra algo, é mostrar sua opinião de forma pública e reivindicar respostas e mudanças. “O nosso Ato é por Valéria Santos, advogada negra que foi algemada exercendo sua função. É por Babiy Querino, dançarina presa por ter um fenótipo parecido com a envolvida no crime. É por Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro que foi assassinada em março de 2018”, comenta.

Assim como Valéria, infelizmente, a população negra padece da violência do racismo institucional e estrutural diariamente. “É sobre gritar aos quatro ventos e fazer valer a nossa voz. Pedir repostas sobre os casos citados e tantos outros encobertos. O nosso ato é para, acima de tudo, dizer que o povo preto está presente e não será calado”, complementa Janaína.

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Elisa Lucinda fala em aula pública sobre a participação social da mulher negra

Na véspera do Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha e Dia de Tereza de Benguela, o auditório do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP) foi palco para a aula especial do Curso Jovens Promotores de Direito Antidiscriminatório com a atriz, jornalista e poetisa Elisa Lucinda. Com mais de 300 pessoas na plateia, o evento, realizado pela Uneafro Brasil, em parceria com o Ministério Público do Trabalho (MPT-SP) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT), levou para o público a temática: “Palavra é poder”, abordando questões sobre a mulher negra, além de ação e participação social.

Leia também: Porque este blogueiro,  Douglas Belchior, homem preto, professor e ativista do movimento negro é candidato a deputado federal

A negação da palavra foi um dos principais direitos retirados historicamente da população negra. Com isso, a base da formação cultural, intelectual, do desenvolvimento e da cidadania desse grupo foi extremamente prejudicado durante a escravidão e seus desdobramentos são vistos até hoje. Por isso, a aula pública buscou mais um espaço de transformação social por meio de narrativas negras femininas.

“A mulher negra sempre foi silenciada e fadada à solidão em razão de toda estrutura do racismo que persiste na sociedade. Precisamos cada vez mais falar mais sobre isso. Nesta terça, a Uneafro, em parceria com o MPT e OIT, promoveu mais um momento de reflexão com alunos dos cursinhos e convidados. Elisa Lucinda nos fez refletir sobre o lugar de fala da mulher negra e o poder que a palavra tem. Foi memorável”, comenta Vanessa Nascimento, membro do Conselho Geral da Uneafro.

O encerramento ficou por conta do grupo Samba das Pretas

De uma maneira leve e com relatos de sua trajetória pessoal e profissional, Elisa comentou com o público sobre a formação que recebeu em casa, justificando a confiança com que enfrenta a estrutura silenciadora da sociedade racista. ” Se tem palavras que cortam, ferem e matam, tem palavras também que beijam e que nos reconstroem”, disse a atriz.

“A ação foi de fundamental importância para a sociedade. Do ponto de vista de trabalho, as mulheres formam a categoria em condição de trabalho mais precário, com menor rendimento, já que recebem aproximadamente 60% do salário dos homens brancos. Elas ainda estão nas maiores taxas de subemprego e desemprego. Com isso, todas essas questões podem ser discutidas e debatidas quando temos um espaço como esse para diálogo na sociedade”. Elisiane dos Santos, Procuradora do Trabalho e Vice Coordenadora da Coordenadoria de Combate à Discriminação no MPT-SP.

Promover reconhecimento de direitos e divulgar informações para defende-los foram os principais objetivos desse módulo do curso. Segundo Elisiane, o público pôde sair da iniciativa com um sentimento de valorização da cultura étnica e racial das origens africanas, além do fortalecimento na construção da identidade.

 

 

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Mulheres Negras O quê que tá pegando?

Aula pública: Palavra é poder com Elisa Lucinda

Nesta terça-feira, a UneAfro, em parceria com o Ministério Público do Trabalho, promoverá uma aula especial do Curso Jovens Promotores de Direito Antidiscriminatório com a atriz, jornalista e poetisa! A iniciativa “Palavra é poder” será voltada à questão da mulher negra, ação e participação social. O evento acontece no auditório do MASP, dia 24/7, às 19h. Os interessados devem realizar a inscrição neste link.

SOBRE O PROJETO JOVENS PROMOTORES DE DIREITO ANTIDISCRIMINATÓRIO

De iniciativa da Uneafro Brasil, em parceria com o Ministério Público do Trabalho (MPT-SP) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT), propõe a formação de jovens oriundos de cursinhos comunitários da Uneafro e pessoas interessadas em geral, com encontros mensais na temática de Diversidade, Direitos Humanos, Direito Antidiscriminatório e na área edição de vídeos, para ação estratégica em suas comunidades, com apoio do SESC Ipiranga e Associação Franciscana de Defesa de Direitos e Formação Popular.
O curso visa fortalecer o protagonismo juvenil, a conscientização para a questão étnico-racial, de gênero, diversidade, combate ao trabalho infantil e denúncia de discriminação e assédio no trabalho. Conta com professores do campo jurídico e de movimentos sociais que atuam diretamente com tais temáticas, numa perspectiva crítica e transformadora.

SOBRE O MÓDULO DO CURSO
Mulher negra, ação e participação social – COM ELISA LUCINDA

A palavra historicamente negada à população negra como direito humano de livre expressão, formação cultural, intelectual, desenvolvimento e cidadania. O poder de transformação social através de narrativas negras femininas, ainda silenciadas na sociedade brasileira, que refletem realidades marcadas pela opressão, machismo, desigualdades, violências, força, luta, resistência. Desafios no combate ao racismo a partir da ocupação dos espaços sociais e do lugar de fala da mulher negra.