Categorias
Cultura Mulheres

Mulamba e o cenário da música feminista

Foto: Luciana Petrelli

Por Marina Souza

Mulamba é uma banda curitibana que pulsa força e poesia, unindo influências que vão do rock à música erudita. Mulheres com vozes dissonantes, que saem das entranhas e têm muito a dizer, elas representam um grito, um suspiro de encantamento, um furacão. Mulamba representa um grito de vozes silenciadas. Mulamba é: Amanda Pacífico (Voz), Cacau de Sá (Voz), Caro Pisco (Bateria), Fer Koppe (Cello), Naíra Debértolis (Guitarra/Baixo/Violão) e Erica Silva (Guitarra/Baixo/Violão).

Em ascensão no cenário musical atual, o grupo faz show de lançamento do homônimo álbum de estreia no Sesc Pompéia dia 18/01 (sexta-feira), a parir das 21h. A obra figura como “Melhores do Ano” em diversas listas de 2018. Inclusiva está entre os 25 melhores lançamentos do segundo semestre pela respeitada APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).

No dia 10 de dezembro, a banda Mulamba completou três anos de luta diária, composição, evento e inspiração artística. Tudo começou quando Amanda Pacífico e a Naíra Debértolis tocavam juntas em um projeto e decidiram homenagear Cássia Eller. Elas pensaram em criar um time musical só com “manas” e fazer shows cover de cantoras brasileiras que gostavam.  É neste momento que aparecem Fer Koppe, Cacau de Sá e Caro Pisco. Com uma agenda já preenchida por muitos shows, as garotas começaram a sentir necessidade de fazer algo próprio, uma nova caminhada, começaram então um projeto autoral.

Erica Silva, que entrou no grupo há um ano, diz que no início surpreendeu-se com a pluralidade de arranjos ali utilizados e que com o tempo passou a não somente entender seu funcionamento, mas também a pensar como cada um daqueles estilos musicais agregavam em sua vida artística e pessoal. “Acho que tudo isso são as referencias musicais que cada uma carrega desde do primeiro dia que ouviu música. Mas apesar de tantas influências no som, sinto que tudo se conecta no Rock n’ roll, pela atitude que temos.”, diz ela.

A banda, que ressalta raízes latinas em suas obras, possui muitas letras voltadas ao feminismo e seu impacto na sociedade. Cacau acredita que isso é devido ao fato da música ser uma arte com grande potencial a ser explorado. “Ela invade o ouvido, muitas vezes você não escolhe o que ouvir, apenas escuta. A música fala com o seu subconsciente de uma forma muito impactante. É lindo. É maravilhoso. Ela chega em lugares que a fala não chega. E estamos na era da vagina. A era do feminismo”, diz ela. Desde que a banda começou, as musicistas recebem relatos de outras mulheres contando que voltaram aos seus instrumentos ou decidiram começar um projeto inteiramente feminino.

A decisão do presidente Jair Bolsonaro (PSL) de extinguir o Ministério da Cultura preocupa as integrantes da banda, que classificam a medida como um retrocesso e um ataque à liberdade de expressão. “Isso é uma bomba relógio que vai explodir pra todos os lados. Estamos revoltadas com a forma que as coisas estão andando”, revela Cacau. É por isso que ela pretendem continuar lutando dentro e fora da arte.

“A gente tá aqui nesse lugar porque não dá mais para esconder todos os “brasis” que existem dentro do Brasil. É consequência do nosso trabalho, é merecido. A gente merece e tava demorando para um projeto só de mulheres ser reconhecido. Tem vários por aí, só não tem visibilidade”, conta a cantora.

 

 

Categorias
Agenda Mulheres O quê que tá pegando?

Projeto social Plano de Menina realizará formatura para garotas que participaram da iniciativa neste ano 

Neste sábado, 20, das 14h30 às 19h45, o projeto Plano de Menina realizará a formatura das alunas que participaram da iniciativa durante este ano. A celebração irá acontecer na EBAC – Escola Britânica de Artes Criativas e terá influenciadoras digitais e artistas embaixadores do projeto como Eliane Dias – empresária do Racionais MC, Rayza Nicácio – Youtuber, Isabella Trad – Digital Influencer, entre outras meninas e mulheres poderosas.

Além disso, a organização do projeto apresentará ao público o mini documentário “#MeDáLicença”, que conta a história de meninas que por meio da autoestima resgatada se reconhecem como potência e se encorajam a realizar seus planos e ocupar espaços, e do Instituto Plano de Menina.

Com entrada gratuita, a formatura terá palestras, apresentações musicais, comidinhas, workshops e painéis.

 

Conheça o projeto Plano de Menina

Com o objetivo de lutar pelo direito das meninas e da equidade de gênero no Brasil, o projeto social vem atuando desde 2016 na construção de oportunidades para meninas, especialmente das comunidades de São Paulo. O Plano de Menina foi criado pela comunicóloga e jornalista Viviane Duarte, mulher brasileira, que cresceu nas periferias de São Paulo e depois de conquistar seus espaços na sociedade e realizar seus planos, entendeu que era hora de voltar sua atenção às meninas que ela fora um dia. “Nascer em periferias da cidade e sem privilégios para ocupar espaços importantes na sociedade é bastante cruel, especialmente para meninas. Eu nasci num lar de mulheres fortes e a educação e sorte me fizeram “hackear o sistema” que insiste em criar muros ao invés de pontes. O Plano de Menina nasceu com o objetivo de proporcionar às meninas oportunidades de serem protagonistas de suas histórias, independentemente de onde elas tenham nascido”, afirma a idealizadora do projeto.

O projeto também conecta meninas a oportunidades de emprego e cursos profissionalizantes, além de bolsas de estudo em universidades. “Vejo muitos projetos e instituições importantes com foco em advocacy, que também é um de nossos pilares de extrema importância, porém, é preciso se conectar e estar com as meninas no corpo a corpo, além de fazer lobby em Brasília para mudar leis, temos de mostrar às meninas que elas não estão sozinhas e é exatamente isso que fazemos com o Plano de Menina”, conclui Viviane Duarte.

https://youtu.be/k2xB5UpmISk

Categorias
Mulheres

A louca e a puta

** POR LUARA COLPA*

Ontem na festinha um cara ficou me olhando muito, desagradável.
Fui dançar mais pra frente, ele seguiu.. comentou com os amigos e ficou fazendo aquela cara ridícula de sedução que os héteros fazem.
Desprezei.

Não passou 5 minutos apareceu a sua companheira. Como prevíamos.
Ela o abraçou por trás e olhou pra mim. Como prevíamos.
Fui pra mais longe ainda.
Quando saí do banheiro ele estava lá com um canudo idiota na boca em câmera lenta me olhando.
Olhei pra cima e a moça viu a cena.
Peguei minhas coisas e fui embora.

O resto da história: a moça vai ficar chateada com razão, vai brigar.
O camarada vai dizer que não fez nada e que ela está louca. Vai argumentar que ‘não aguenta ciumera’ e que se for isso ele ‘sai fora’.
Vai falar com soberba e desprezo com uma narrativa que a ponha em dúvida.

Ela vai duvidar de si e me ver como inimiga.
Talvez chore. Talvez só fique um pouco quieta.
Vão se abraçar e transar/dormir.

Se eu aparecer novamente numa outra festa, a moça vai ficar insegura.. e o ciclo de repete.

Pra sociedade eu sou a puta
Ela é a louca, ciumenta, fraca.
Ele é só um homem.

E assim segue o ciclo. Eu a entendo. Também sou a louca, ciumenta, fraca… ou puta.
Se eu tivesse falado alto com ele, se eu tivesse falado com ela. Se ela tivesse apelado com ele, ou até terminado o raio do namoro..
Ainda assim seríamos: a louca e a puta.
O homem é sempre o homem.

______________________________________________________________________________________________________
Luara Colpa tem 29 anos, é brasileira e colunista no BHAZ. É mulher em um país patriarcal e oligárquico. Feminista e militante por conseguinte. Estuda Direito do Trabalhador e o que sente, escreve.


 

Propaganda Social 

Colabore com as mulheres empreendedoras da Uneafro-Brasil

 

                  

Vista-se em luta!

A UNEafro-Brasil, reinaugura sua loja de camisetas e artigos de reverência à luta do povo negro brasileiro!

Além de se vestir com as imagens e cores de nossa resistência, você estará contribuindo para manter financeiramente um movimento de luta, autônomo e independente!

Todos os produtos são confeccionados pelas mulheres que fazem parte do Núcleo de Economia Solidária Das Pretas da UNEafro.

Colabore! Escolha o seu manto afro e junte-se a nós!

FAÇA SEU PEDIDO AQUI

Categorias
Mulheres Política de Assistência Social

O Proletário e o Parlamento – ou A falácia do trabalho voluntário para mulheres (e homens)

** POR LUARA COLPA –
“Um dos evento mais importantes na história da humanidade, é a Revolução Industrial. Período complexo e longo, para alguns historiadores, até subdividido em fases.

O Parlamento inglês era, até então, ocupado apenas por Lordes. Eram os industriais, a burguesia, que ocupavam os assentos. E, obviamente, eram dos industriais as contrapartidas. Tudo o que envolvia política para a população média era sob o “voluntarismo” , na prática da “boa vontade” do Lorde governante.

Toda essa lógica começa a se transformar quando o proletariado toma pra si a reivindicação de seus direitos, inclusive o direito de assentar-se ao Parlamento.

Para que o proletário pudesse assentar-se a instâncias de decisão fora imprescindível que o mesmo recebesse SALÁRIO. Salário e segurança trabalhista eram as únicas vias possíveis de um proletário assegurar-se em qualquer profissão, por vender a sua força de trabalho. E isso em todo o mundo, em cada respectiva época.

O proletário representante de suas bases no poder poderia ser, então, um dos mecanismos de mudança social. A história nos aponta essa via como a única forma de ocupar cadeiras dos Lordes e trazer para si as pautas dos seus.

Para as mulheres, isso ainda demorou muito a acontecer. A mulher era vista como arrimo familiar e a ela cabia apenas os cuidados do lar. Regra geral.

Somente após muitas lutas, as mulheres organizadas alcançaram o direito ao voto, ao trabalho digno, aos assentos nos parlamentos (também regra geral, pois muitos países ainda cerceiam vários desses direitos)

Ocupar o parlamento só nos fora possível porque o parlamento deixou de ser visto como trabalho voluntário de Lordes, e transformou-se em espaço de todos os assalariados.

Fazer esse recorte é imprescindível para entendermos, de forma analógica, o papel de outros agentes, como por exemplo a “Primeira Dama”, este cargo que, apesar de não estar vinculado ao voto popular, ainda carrega o resquício da sociedade burguesa que necessita de uma figura maternal para reger determinadas pautas.

No nosso cenário latino-cristão, carregamos a imaculada figura que “cuida” das crianças. O que não percebemos é que este “cuidar” despreza o trabalho sério de figuras que estudam, dedicam, trabalham com o tema: Pedagogos, Assistentes Sociais, Professores, Psicólogos e tantos outros que se debruçam a tratar o tema com a seriedade que deve ser tratado.

Não é qualquer pessoa “carinhosa” que está apta a lidar com crianças. Muito menos de forma voluntária. Para esta função já existe uma política pública de Assistência Social em curso, e que deveríamos fortalecê-la e não tratar com voluntarismos.

Todas as vezes que tratamos como voluntários postos que devem ser ocupados por nós de forma justa e assalariada estamos trazendo à tona o Parlamento de Lordes, e fortalecendo não a nós, mas aos coronéis de outrora.

Parlamento e suas franjas não são voluntarismo. São, levitra buy uk mg assim como todo espaço de trabalho, imprescindíveis de Remuneração.

Já que tudo produzimos, que a nós tudo pertença!”

______________________________________________________________________________________________________
Luara Colpa tem 29 anos, é brasileira e colunista no BHAZ. É mulher em um país patriarcal e oligárquico. Feminista e militante por conseguinte. Estuda Direito do Trabalhador e o que sente, escreve. 

Categorias
Mulheres

“A revolução não é o porre. A revolução está na ressaca do dia seguinte.” – Ou carta à Dilma Roussef.

Por LUARA COLPA  –

“É certo camarada Dilma, que somos companheiras de várias trincheiras. É certo que você, bem mais militante que eu.

É certo que sou jovem e à minha jovialidade cabe muito o ato de criticar. As dimensões de mundo que tenho, são outras, ainda estou “subindo a serra” como dizem.

Eu sou a jovem militante que aponto os problemas do governismo, do fisiologismo, das muitas entradas erradas do seu partido. Ao mesmo tempo, Dilma, eu sei bem que Impeachment não é saída para crise. Sei bem que muito necessário se fez as muitas ações sociais que diferem seu governo do governo FHC por exemplo. Com muitas críticas, mas ainda assim vejo as propostas sociais como trampolim para um Brasil minimamente mais justo.

E é certo sobretudo, que só de pensar nisso, os grandiosos enlouquecem.

Fonte: Jornal GGN - http://jornalggn.com.br/noticia/as-omissoes-na-transcricao-da-conversa-de-juca-e-machado-por-marcelo-zelic
Fonte: Jornal GGN – http://jornalggn.com.br/noticia/as-omissoes-na-transcricao-da-conversa-de-juca-e-machado-por-marcelo-zelic

Fonte: Jornal GGN - http://jornalggn.com.br/noticia/as-omissoes-na-transcricao-da-conversa-de-juca-e-machado-por-marcelo-zelic
Fonte: Jornal GGN – http://jornalggn.com.br/noticia/as-omissoes-na-transcricao-da-conversa-de-juca-e-machado-por-marcelo-zelic

Pra que nunca se esqueça: GOLPE. Não existe outra palavra que sugira, nem de longe, o que acontece no ano de 2016 nessa jovem democracia Tupiniquim. Eu viví para ver o Estado Democrático de Direito sucumbir aos pés de uma grandiosa mulher. Altiva e forte. A mesma fortaleza e energia que a rodeava lá atrás em seu julgamento na Ditadura.

Que exemplo de Resistência temos no Brasil. Quem aguentaria tudo isso?

Sabe Dilma, Uma vez minha mãe leu uma história pra mim e lá estava escrito que as Sacerdotizas eram tão poderosas, que em momentos de decisão, elas podiam crescer até 15 centímetros e se posicionarem magníficas, matriarcas, donas de toda a energia do ambiente. Olhe bem pra você, olhe bem pra tudo o que nós, mulheres, podemos ser após o seu mandato. Todas as relações se alteram porque uma Senhora ousou ser Presidenta. E isso incomoda, é perturbador vê-la no poder.

Dilma, eu quero te contar que sou ainda muito pouco, mas só sou porquê tu és.

E se minha filha tiver sonhos, sonhos serão grandes porque teus passos foram grandiosos e ousados.

dilma2

Você é grande e nem aqui cabe. Nessa terra de coronéis, de compadres, de objetificação da mulher. Nós somos pequenos demais para o seu tamanho. Nós, que ainda precisamos nos impor ao mundo forjando uma família perfeita que contenha: Um Senhor inescrupuloso, uma esposa silenciada e infantilizada e uma criança exposta ao sair da escola – para forjar-nos a família ideal. Olhe bem para nós. Veja se te cabe aqui?

Não.

Certamente te devemos desculpas, por estarmos ainda tão aquém do seu tamanho, querida Dilma.

Ontem tomamos uma porrada, a acusação usou argumentos que mais pareciam a Santa Inquisição. Inquisição que queimava mulheres livres. O Brasil não estava preparado para uma mulher livre. E todas as vezes que nos colocamos livres, somos loucas, histéricas, desequilibradas, estamos nervosas. Eu sei bem.

Hoje é o dia seguinte, Dilma. É certo que a revolução não veio. Não estamos nem perto de sermos o país socialista que brandavam os opositores. Somos pequenos demais para isso. Sequer conseguimos segurar a democracia. Hoje ela foge entre os dedos infantis.

O Brasil acorda órfão. Da janela olho e ouço: Choveu em BH toda a noite. O céu lava as ruas e o dia amanhece. Alguns caminham cabisbaixos, outros sequer compreenderam o que se passa.

Mas você segue abrindo caminhos. Você segue, e nós ficaremos. Nós e nossos muitos coronéis, com nossos direitos comprometidos, com nossos corações rasgados, com nossa ressaca dolorida. Ao menos você segue! Siga e seja.

Por nós! “Pelo justo, pelo bom, pelo melhor do mundo”

Obrigada, Dilma Roussef.

______________________________________________________________________________________________________
Luara Colpa é brasileira, tem 29 anos. É mulher em um país patriarcal e oligárquico. Feminista e militante por conseguinte. Estuda Direito do Trabalhador e o que sente, escreve. 

Categorias
Mulheres

FEMINISMO E AS CORTINAS A SEREM DESPIDAS

POR LUARA COLPA* –

“Quando eu não fazia ideia do que era o feminismo, eu o repudiava. Muitas coisas repudiamos por desconhecimento. A maioria dos ‘desconhecimentos’ vêm num mesmo balaio junto ao preconceito. Isso porque todas as vezes que o sistema quer que repudiemos algo, imputa-se o medo, ou a repulsa de algo que é apenas desconhecido.

Feminismo é uma dessas palavrinhas: Quem não sabe dizer o que de fato é, repudia.

A verdade é que simplificadamente, o feminismo é um movimento que sempre buscou igualar direitos. Ora, direto ao voto, direito à jornada justa de trabalho, direito à não exploração de trabalho infantil, direito à greve, livre manifestação, salário igual, divisão de tarefas domésticas, direito à não violação dos corpos das mulheres, fim do assédio sexual, moral, a objetificação das mulheres e por aí vai.

É importante abrir um parênteses pra dizer que dentro do feminismo existem vários recortes, por exemplo o feminismo negro. É imprescindível contextualizar que as negras no Brasil ainda estavam dentro de senzalas quando as Novaiorquinas se organizaram em sindicatos. Há formas de organização múltiplas: Mulheres palestinas, indianas, muçulmanas, de todos os países da África, no Oriente Médio, sudeste asiático, México, Caribe se organizam de diferentes formas. No mundo inteiro, cada feminismo tem sua peculiaridade de acordo com a cultura, a política, o momento histórico de cada lugar.

Há ainda diversas vertentes de feminismo: O feminismo liberal, o feminismo marxista, o Feminismo “intersec” (que abarca as mulheres trans, a pauta das deficientes e etc), as “RadFem” (feministas radicais que acreditam num determinismo biológico). Dentro da vertente Radfem, há as “TERF” (Trans-Exclusionary Radical Feminists) que são feministas radicais que excluem as mulheres trans da pauta feminista.

Não pretendo aqui debruçar em todas as complexas vertentes e formatos, mas de antemão, já dá pra desvendar a primeira cortina: de que “feminista é um bando de mulher branca de peito de fora”.

O Gulabi Gang – Movimento indiano. Foto de Torstein Grude, Piraya Film

Alguma vertente pode sim ter atos políticos e performances que explorem a nudez como combatividade e denúncia, mas não apenas isso. Nenhuma das vertentes se resume à apenas isso.

A segunda cortina é: “O feminismo é o contrário do machismo”. Essa é clássica, é erroneamente clássica! O machismo é algo estrutural, o machismo arregimenta forças para manter o Patriarcado funcionando. Para que além da opressão de classes, ainda haja opressão de gênero, e por assim dizer, manter-se uma ordem no mundo.

O machismo violenta física e psicologicamente. O machismo mata.

O feminismo é um movimento e não “uma opressão às avessas”. Feminismo não quer estar no papel do machismo, feminismo não disputa esse espaço de poder e nem se pretende à isso. “Feminismo é a ideia “radical” de que mulheres são gente”, e movimenta-se para equiparar direitos. Feminismo não mata ninguém, mas salva muitas vidas.

A terceira cortina a ser retirada é a cortina do “feminista é mal comida e/ou lésbica”. O feminismo é um movimento grandioso, de libertação, de equidade de direitos. Resumir um movimento à esta frase é perpetuar a opressão, o total desprezo e desconhecimento sobre o significado de Feminismo. No mais, lutamos sim, pelo direito das mulheres serem o que são: Héteros, bissexuais, lésbicas, trans – e não morrerem por isso. Aliás, para quem não sabe, mulheres morrem pelo simples fato de serem mulheres. E isso se chama Misoginia.

A quarta cortina, é a cortina do casamento: “Mulher feminista vai ficar pra titia”. Bem, esse é um tema interessante de se discutir: O feminismo é empoderador. A partir do momento que você se sente forte o bastante para denunciar agressões, para se firmar nos relacionamentos, você começa a não se sujeitar a muitas coisas. É o amor próprio. E aí, ficar ou não numa relação que não é saudável, é uma decisão muito mais fácil para a mulher do século XXI que as nossas avós, bisavós escravas de um casamento violento – por exemplo.

Violência contra a mulher. Fonte: http://estaticog1.globo.com/2014/12/violenciacontramulher

A nossa “proposta” não é pelo fim do amor, ou do casamento. Pelo contrário, a “proposta” é: Melhorem! Parem de nos violentar, nos oprimam menos. Nos enxerguem como gente e não como objeto. Assim, quem sabe, relacionamentos saudáveis engatem e durem.

A quinta cortina é a rivalidade. “Mulher feminista odeia uma mulher bela, recatada e do lar!” – NÃO. Definitivamente! Este é o maior equívoco. O feminismo abarca mulheres. O patriarcado só se sustenta com nossa rivalidade. O mercado acha que só vende produtos por nossa rivalidade. Adoecemos por essa rivalidade. E fim das contas, no dia que olharmos pro lado e enxergarmos companheiras de verdade, o sistema todo começará a ruir. Nós não somos rivais, desprender-se disso é das coisas mais saudáveis que uma mulher pode fazer pra si!

Você pode ser, “”bela””, recatada e do lar e sim, ser feminista! Feminismo fala sobre liberdade de escolher, de ser feliz, mas de ser sobretudo, empoderada, coerente, lúcida e dona de seu corpo e seu pensamento.

Seja do lar, seja professora, seja engenheira, seja Presidenta, seja astronauta. Mas seja dona de si.

A sexta cortina é a cortina mais “besta” que o Patriarcado nos coloca: “Feminista não depila, não é bonita e blablabla”. É importante compreender que há uma força que nos esmaga e essa força vem ditar um modelo, um padrão de beleza (regra geral eurocêntrico) e que impõe: A magreza dos corpos, a espessura dos fios de cabelo, a forma como devemos nos portar, a busca por uma beleza inalcançável. Esse modelo de competitividade nos mata: Seja nas mesas de cirurgia todos os dias, seja por doenças como bulimia, anorexia, depressão e etc.

Motivos para se fazer Lipoaspiração – Fonte: http://docplayer.com.br/12532133-Uma-reflexao-sobre-a-influencia-da-estetica-na-auto-estima-auto-motivacao-e-bem-estar-do-ser-humano.html

Essa farsa, despreza a diversidade do que é belo, da grande mistura de povos, das características peculiares de cada nação, além do mais, este modelo é silenciador, despreza a espontaneidade da mulher e seu meio. E fim das contas nos leva ao consumo infindável de produtos. Depilar,não depilar? Ter um corpo fitness ou estar gordinha e feliz, O que isso lhes diz respeito? É a mulher que escolhe, e isso não faz dela mais ou menos feminista.

A sétima cortina é a cortina do aborto. Uma cortina hipócrita e prejudicial. As pessoas nos imaginam andando pra lá e pra cá com chás abortivos enfiando guela abaixo nas “grávidas de bem”. E mais uma vez o que vemos é o sistema “confundindo” mentes. Feministas – regra geral- denunciam a violência sofrida por mulheres que abortam de forma clandestina. As muitas mortes e pouca segurança.

Por Andrea Dip, da Agência Pública – Dados: OMS

Enquanto a sociedade tapa os olhos para os homens que abandonam seus filhos, o peso sob a mulher é sempre enorme. Além do mais, é preciso enxergar o Estado como laico, e retirar as cortinas moralistas e religiosas que acompanham o tema. Sendo assim, eu, por exemplo, não faria um aborto, pois tenho uma crença religiosa, uma família que me apoiaria, e uma vontade pessoal. No entanto não caberia a mim decidir sobre o corpo alheio, acho inclusive que com a legalização do aborto seguro, muitas mulheres teriam condição de conversar com médicos, psicólogos, amigos e encontrariam chance de inclusive desistirem do aborto, encontrariam abrigo e força, que não encontram na clandestinidade. É um processo muito mais de saúde pública que de qualquer outra coisa.

A oitava cortina é a da histeria, “mulheres são loucas e histéricas”. Bom, esse comportamento é fundamental para o machismo perpetuar, isso se chama Gaslighting,  e é uma das formas de silenciar uma mulher. Todas as vezes que não se concorda com o que ela diz, chamam-na de louca. O fato de questionar a própria sanidade é dos sentimentos mais violentos que uma mulher passa em vida. Além de cruel, essa ação gera insegurança, rivalidade e muitos questionamentos. Quem pratica Gaslighting é violentador, e o feminismo tem por obrigação denunciar essa prática.

Na imagem resta claro, para o Treinador Dunga: “O DOM da fúria”, para a Presidenta da República, a histeria, as “explosões nervosas”.

A nona cortina é a do “acho um absurdo homens não poderem ser feministas”. Acreditamos que seja ok os homens em desconstrução nos apoiarem, mas é importante que entendam a importância maior da auto-organização. Afinal, um branco não faz parte de um coletivo de negros, justamente por ser um processo de um grupo de pessoas específico, com opressões específicas sofridas, com intimidade pra debater certas coisas. Organizar-se, debruçar-se sob uma pauta, diz respeito aos impactos sofridos por aquele nicho de pessoas. É assim com os sem terra e suas pautas específicas, é assim  com LGBTTs, é assim com a luta contra a gordofobia, e é assim com o feminismo. Nos apoiem, mas não queiram tomar protagonismo do que não vivenciam!

A décima cortina é a do “o mundo está ficando muito chato com feministas”. Aí sim. Se lutar por respeito, direitos e saúde mental, é ser “chatas”, é isso o que somos!

malala
Malala, a Paquistanesa vencedora do Nobel da Paz pelos Direitos Humanos e educação das mulheres. No cartaz a frase “Eu sou mais forte que o medo”.

O feminismo tem mil cortinas a serem desvendadas por quem tem no mínimo curiosidade e respeito. O feminismo é libertação, mas ao mesmo tempo não nos impõe nada.

Você pode ser loira, negra, gorda, magra, rica, pobre, do lar e feminista em todos os casos. Você pode se vestir como quiser, inclusive com o corpo todo tampado. Você pode ter a profissão que quiser, inclusive nenhuma! Você pode ter o comportamento social que achar melhor, e ninguém vai te forçar a ser o que não desejar. ‘Vadias’, recatadas, trabalhadoras, de minissaia ou burca. O feminismo não transforma a sua “carcaça”, mas transforma a mente para que compreendamos o quão forte somos – e em coletivo esses saltos de consciência são ainda mais gratificantes!

Somos Muitas, somos diversas e não nos cabe mais um século de opressões.

Por uma Nova Maioria! Por representatividade! Pela vida das mulheres: Que venha o feminismo!!!

https://www.youtube.com/watch?v=5gYDRCKXjTo

MEXEU COM UMA, MEXEU COM TODAS”

________________________________________________________________________________________

Luara Colpa é colunista no BHAZ, brasileira, 29 anos. É mulher em um país patriarcal e oligárquico. Feminista e militante por conseguinte. Estuda Direito do Trabalhador e o que sente, escreve. 

Categorias
Mulheres

A tragédia do machismo no Brasil: 472 mulheres assassinadas por mês, revela Ipea

Um estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) revelou a tragédia do machismo no Brasil. Nem a Lei Maria da Penha, implantada em 2007, conseguir evitar o morte violenta de mulheres provocada principalmente por marido, namorado ou familiares.

Do Carta Campinas

O estudo estima que, entre 2009 e 2011, o Brasil registrou 16,9 mil assassinatos de mulheres (feminicídios), ou seja, “mortes de mulheres por conflito de gênero”, especialmente em casos de agressão perpetrada por parceiros íntimos. Esse número indica uma taxa de 5,8 casos para cada grupo de 100 mil mulheres. A média é de 472 assassinatos de mulheres por mês.

A pesquisa Violência contra a mulher: feminicídios no Brasil, coordenada pela técnica de Planejamento e Pesquisa do Instituto Leila Posenato Garcia, foi apresentada nesta quarta-feira, 25, na Comissão de Seguridade Social da Câmara dos Deputados.

De acordo com os dados do documento, o Espirito Santo é o estado brasileiro com a maior taxa de feminicídios, 11,24 a cada 100 mil, seguido por Bahia (9,08) e Alagoas (8,84). A região com as piores taxas é o Nordeste, que apresentou 6,9 casos a cada 100 mil mulheres, no período analisado.

Fonte-Camara

Veja abaixo alguns dados da pesquisa:

A taxa corrigida de feminicídios foi 5,82 óbitos por 100.000 mulheres, no período 2009-2011, no Brasil.

Estima-se que ocorreram, em média, 5.664 mortes de mulheres por causas violentas a cada ano, 472 a cada mês, 15,52 a cada dia, ou uma a cada hora e meia.

As regiões Nordeste, Centro-Oeste e Norte apresentaram as taxas de feminicídios mais elevadas, espectivamente, 6,90, 6,86 e 6,42 óbitos por 100.000 mulheres.

As UF com maiores taxas foram: Espírito Santo (11,24), Bahia (9,08), Alagoas (8,84), Roraima(8,51) e Pernambuco (7,81). Por sua vez, taxas mais baixas foram observadas nos estados do Piauí (2,71), Santa Catarina (3,28) e São Paulo (3,74).

Mulheres jovens foram as principais vítimas: 31% estavam na faixa etária de 20 a 29 anos e 23% de 30 a 39 anos. Mais da metade dos óbitos (54%) foram de mulheres de 20 a 39 anos.

No Brasil, 61% dos óbitos foram de mulheres negras (61%), que foram as principais vítimas em todas as regiões, à exceção da Sul. Merece desta que a elevada proporção de óbitos de mulheres negras nas regiões Nordeste (87%), Norte (83%) e Centro-Oeste (68%).

A maior parte das vítimas tinham baixa escolaridade, 48% daquelas com 15 ou mais anos de idade tinham até 8 anos de estudo.

No Brasil, 50% dos feminicídios envolveram o uso de armas de fogo e 34%, de instrumento perfurante, cortante ou contundente. Enforcamento ou sufocação foi registrado em 6% dos óbitos. Maus tratos – incluindo agressão por meio de força corporal, força física, violência sexual, negligência, abandono e outras síndromes de
maus tratos (abuso sexual, crueldade mental e tortura) – foram registrados em 3% dos óbitos.

29% dos feminicídios ocorreram no domicílio, 31% em via pública e 25% em hospital ou outro estabelecimento de saúde.

36% ocorreram aos finais de semana. Os domingos concentraram 19% das mortes.

Trecho do documento:

A violência contra a mulher compreende uma ampla gama de atos, desde a agressão verbal e outras formas de abuso emocional, até a violência física ou sexual. No extremo do espectro está o feminicídio, a morte intencional de uma mulher. Pode-se comparar estes óbitos à “ponta do iceberg”. Por sua vez, o “lado submerso do iceberg” esconde um mundo de violências não-declaradas, especialmente a violência rotineira contra mulheres no espaço do lar. A obtenção de informações acuradas sobre feminicídios é um desafio, pois, na maioria dos países, os sistemas de informação sobre mortalidade não documentam a relação entre vítima e perpetrador, ou os motivos do homicídio.

 

Categorias
Destaque Mulheres

Monitoramento de agressores de mulheres em SP depende de aprovação de Alckmin

Violência-contra-mulher

De Viomundo, por Carolina Keppler – via Geledes

Apresentado na Assembleia Legislativa de SP (Alesp) em maio deste ano, o Projeto de Lei (PL) de autoria do deputado Raul Marcelo foi aprovado no ultimo dia 17/12.Com objetivo de fiscalizar e coibir reincidências, a Lei obriga o agressor, que esteja cumprindo alguma das medidas protetivas concedidas com base na Lei Maria da Penha, a utilizar equipamento eletrônico de monitoramento. As despesas decorrentes da execução da Lei serão cobertas por valores arrecadados das multas aplicadas contra os agressores.

A medida foi inspirada em exemplos bem sucedidos como a reconhecida iniciativa capixaba do “botão do pânico” (premiada pelo prestigioso Innovare, concedido às práticas inovadoras que modernizam a justiça brasileira, e noticiada em jornais da França, África e Rússia) e no também inovador modelo da “tornozeleira do pânico”.

 

É importante que a população cobre o governador para esta aprovação. As pessoas podem escrever para ele, lembrando a importância do projeto e pedindo que ele aprove”

Dep. Raul Marcelo (Psol-SP), autor do projeto

A Lei aprovada está entre outros Projetos de Lei apresentados pelo deputado, como o que altera o nome de “Delegacia de Defesa da Mulher” para “Delegacia de Atendimento à Mulher”, exige que estas sejam dirigidas por delegadas do sexo feminino e funcionem de forma ininterrupta, durante as vinte e quatro horas do dia, sete dias por semana, inclusive feriados.

Segundo um levantamento nacional elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), mais de dois milhões de mulheres são espancadas por ano. Dados nacionais da Secretaria Nacional de Políticas de Mulheres revelam que uma em cada cinco mulheres brasileiras já sofreu alguma forma de violência doméstica, 80% dos casos de agressão contra mulheres foram cometidos por parceiros ou ex-parceiros e 56% dos homens admitem já ter cometido alguma atitude violenta contra mulheres e, na maioria dos casos, mais de uma vez.

 

480734_464646046915189_1320129831_n1

Em Sorocaba (primeira comarca do interior paulista a receber uma Vara especializada em violência doméstica) foram registrados 103 processos, 849 inquéritos e 489 pedidos de medidas protetivas, após um ano de funcionamento. Ações de combate à violência doméstica estão sendo enfrentadas de maneira mais eficaz em Sorocaba, em comparação com outras comarcas sem Varas especializadas.

Depois de aprovado na Assembleia, para tornar-se Lei, o PL precisa ser sancionado pelo governador do Estado, Geraldo Alckmin. O deputado Raul Marcelo chama a participação popular, sugerindo que as pessoas mandem e-mail para o governador: “é importante que a população cobre o governador para esta aprovação. As pessoas podem escrever para ele, lembrando a importância do projeto e pedindo que ele aprove”.

Para enviar sua manifestação para o governador, use o Facebook (facebook.com/geraldoalckmin), o Twitter (@geraldoalckmin_) ou o “fale conosco” do governo do Estado, no link: http://www.saopaulo.sp.gov.br/sis/fale.php.

 

##

 


 

 

 

Publicidade colaborativa

Presenteie camisetas da Uneafro-Brasil

A Uneafro-Brasil está com novos modelos de camisetas engajadas e temáticas de valorização da cultura negra brasileira. Conheça e faça seu pedido. Com isso, além de adquirir um produto de qualidade, beleza e com uma mensagem de consciência negra, de quebra contribui para o auto-financiamento do trabalho sócio-educacional promovido pela Uneafro nas periferias de São Paulo e do Brasil.

Valor único para todas as peças, R$ 30,00 + frete.
Tamanhos (P, M, G ou GG), medidas e quantidades devem ser informadas no campo de descrição do produto.

Conheça esses e outros modelos e faça seu pedido AQUI

 

1185010_161445260720070_1710572108_n943354_161445417386721_1327929719_n 541394_161445327386730_92739506_n  150696_161445367386726_1458581424_n1230010_161445250720071_94091394_n8312_161445217386741_536225636_n1229958_161445210720075_2009434214_n      994828_161445347386728_151713548_n

 

Categorias
Destaque Mulheres

Exposição coloca mulheres da periferia para o centro do debate

12295361_448232602043591_4235207992333208510_n
Abertura da exposição

Texto coletivo*, do Nós, Mulheres da Periferia / Imagem: Divulgação

Confirme aqui sua presença no evento no Facebook

A mulher da periferia aparece na televisão, no jornal, quando acontece alguma fatalidade referente a ela. Só nas páginas policiais”

Assista o vídeo com Dona Carolina

A frase acima não vem de uma pesquisa de opinião, tampouco de um estudo acadêmico. Ela faz parte do olhar sensível de Rosana Alves de Castro , mulher negra e moradora do Jardim Romano, zona leste de São Paulo, e uma das mais de 100 mulheres envolvidas no projeto “Desconstruindo Estereótipos: eu, mulher da periferia na mídia”, desenvolvido pelo coletivo Nós, mulheres da periferia, de junho a outubro de 2015.

Como resultado desses meses de trabalho, no último sábado (21/11) aconteceu a abertura da exposição QUEM SOMOS [POR NÓS], no Centro Cultural da Juventude, na Vila Nova Cachoeirinha, que fica em cartaz até dia 17 de dezembro.

 

renata2
Renata Ribeiro, 17 anos, moradora do bairro de Perus (região noroeste de São Paulo), uma das entrevistadas e produtoras da Exposição “quem somos [por nós]”.

Assista o vídeo com Renata Ribeiro

A exposição é um convite para adentrar ao mundo das mulheres dos bairros periféricos a partir de suas próprias perspectivas. Com fotografias, autorretratos e registro audiovisual daquelas que fizeram parte do processo. O objetivo é fortalecer a representatividade e o protagonismo feminino, contemplando a intersecção entre classe, raça e gênero, já que as mulheres negras foram maioria nas oficinas.

De Perus (zona norte) ao Campo Limpo (zona sul); do Capão Redondo (zona sul) ao Jardim Romano (zona leste); de Guaianazes (zona leste) à Jova Rural (zona norte), foram muitas as narrativas, mostrando como a diversidade da mulher que mora nas bordas da cidade extrapola as paredes cristalizadas pela chamada “grande mídia”.

A mulher da periferia na mídia

Ouça o som “Mulheres negras”, de Yzalú

Quando falamos de periferia na mídia, é importante compreender que este termo traz, em si, relações de conflito entre os grupos sociais. Historicamente, São Paulo se constituiu destinando aos mais pobres os espaços mais distantes do centro da cidade. Essa distância, no entanto, não é apenas geográfica, ela é também simbólica, o que reforça a relação entre dominantes e dominados no espaço social e, assim, no midiático.

 

manoelacasadascrioulas
Manoela Gonçalves, idealizadora da Casa das Crioulas (Perus), uma das entrevistadas e produtoras da Exposição “quem somos [por nós]”

Assista o Vídeo com Manoela Gonçalves

Se a mulher, geralmente, é tratada pela mídia de forma limitada, seja nas novelas, comerciais ou imprensa, este problema se multiplica quando se trata da mulher que vive nas bordas da cidade. Uma pesquisa realizada pela Énois | Inteligência Jovem, em parceria com os institutos Vladimir Herzog e Patrícia Galvão, com mais de 2.300 mulheres de 14 a 24 anos, das classes C, D e E, divulgada em junho deste ano, mostra que 86% das mulheres entrevistadas afirmaram não se sentirem representadas na mídia.

“Quando acontece alguma coisa com algumas mulheres importantes fica aquela mídia toda. Se é uma pobre coitada, ali mesmo acabou, ficou por ali mesmo. Devia ser vista com igualdade.  A rica, a pobre, a preta, a branca, é tudo mulher”, aponta Rosana Alves Castro, participante das oficinas na zona leste.

A mídia, sendo criada, estruturada e administrada pelos grupos dominantes, colabora, intencionalmente ou não, para a construção de imagens e estereótipos relacionados à periferia. Na tentativa de comunicar para as “massas” uma mensagem padronizada, a mídia cria representações, tipos, perfis do que é considerado como comum e recorrente no que se refere aos bairros periféricos.

 

12274484_447449585455226_5500071235582545264_n

Exemplo disso é o que narra uma das participantes das oficinas, Adriana Cristina de Araujo Fernandes Costa, da zona sul, quando uma TV procurou a ONG que faz parte para uma entrevista. “Uma emissora esteve aqui, mas queriam sensacionalismo. Eles não queriam mostrar o trabalho que a gente faz paro o bem. Eles não mostraram nossa oficina, não mostraram fazendo nossas coisinhas, nossas aulas, não mostrou nosso trabalho. Só mostrou a violência doméstica. Acho que teria que mostrar os dois lados”.

Além da mídia estar nas mãos dos grupos dominantes, ela também é produzida majoritariamente por homens e poucas são as fontes femininas que são ouvidas. Os comerciais de TV (principal e mais disponível veículo entre o público feminino residente na periferia) trazem um padrão de beleza que não condiz com a realidade brasileira, formada a partir da multiplicidade de origens e uma forte descendência africana e indígena.

 

Roda de conversa sobre mulher da periferia e mídia na abertura da exposição QUEM SOMOS [POR NOS]

Em relação à mulher negra, especificamente, a mídia, com base nas condições que são ainda resquícios do período escravocrata no Brasil, reproduz situações, tipos, personagens que a colocam em uma das últimas posições do estrato social, como descreve Manoela Gonçalves, fundadora da Casa das Crioulas, em Perus, um dos espaços onde as oficinas aconteceram.

 “Ser mulher da periferia, uma mulher negra, é sempre estar armada, com uma voz extremamente firme, se impondo para ser respeitada. Eu quero ter uma voz mais doce calma, mas o homem não escuta. A sociedade não nos escuta com uma voz calma. A sociedade escuta nosso grito e depois  nos chama de louca, barraqueira. Então, ser mulher negra pra mim é isso, a gente tem que estar sempre lá no afrontamento”.

Novelas: a vida que não é nossa

A maioria das novelas trazem como núcleo central a vida da classe média e classe média alta, divulgando um modelo de vida que em nada tem a ver com aquele vivenciado nas periferias do país, e, de forma específica, nas da cidade de São Paulo.

12227708_447191752147676_9004773896369275674_n

Para Manoela, essas narrativas romantizam as relações das mulheres da periferia. “O choro, o drama, as relações. Na novela não se ensina como ser natural. É muito romance para pouca vida real”, aponta.

E mesmo quando a dramaturgia televisiva traz a favela ou as bordas da cidade para o centro do debate, isso aparece sempre de forma caricatural. A figura do traficante, do sequestrador e da prostituta vendem um retrato infiel e exclusivo da periferia e, principalmente, da gama de mulheres que a compõe.

Para Renata Ribeiro, também de Perus, muito do que ela assiste nas novelas “são mentiras”. “Se eu fosse construir uma mulher da periferia para a novela, seria minha mãe, ela veio para cá, comprou a própria casa. Virou professora, passou na faculdade. Vai comprar suas coisas, seu carro, viaja quando quer. Uma mulher batalhadora. Isso, para mim, seria uma mulher da periferia”, exemplifica.

12247167_447483198785198_8408463936444779134_n

No noticiário, a periferia aparece, na maioria das vezes, como o espaço da violência e medo. Os casos de abuso sexual e violência doméstica, porém, aparecem com maior frequência, mas apenas nos programas sensacionalistas.

Nos de entretenimento, principalmente aqueles veiculados no período da tarde, o espaço destinado à mulher é sempre supérfluo ou, mais uma vez, sensacionalista. A mãe que procura o filho perdido; a moça que quer emagrecer, a culinária ou as fofocas sobre a novela.

Na mídia impressa, o corpo magro e o cabelo liso tomam as capas das revistas. A moda serve apenas a um padrão de mulher. As receitas de emagrecimento ou de vida saudável dão o tom às narrativas desses periódicos. As mais populares, trazem informações sobre o signo e simpatias ao amor.

Nós queremos aumentar as nossas vozes

Os direitos de nossas mulheres são todos os dias violados, suas dores não são respeitadas, seja quando são parte do ciclo da violência doméstica, seja quando morrem seus filhos, os maridos. Esses programas abusam da fragilidade social e econômica de nossas mulheres para escancarar sua dor como se escancara uma mercadoria.

Assim, a exposição QUEM SOMOS [POR NÓS] vem em um caminho contrário. Nas fotos e quadros, criados por elas próprias por meio dos debates realizados durante as oficinas, é possível notar uma variedade de elementos, que vão desde a rua onde vivem até as plantas de seu quintal. Nas fotos, uma fotografou a outra, evidenciando aquilo que gostariam que houvesse nas revistas, desconstruindo a sexualização sempre presente de seus corpos. São detalhes, são as mãos que simbolizam o trabalho diário, os cabelos que as deixam vaidosas, o batom que não esquecem de passar, os olhos como signo de coragem, o sorriso que, mesmo em meio a tantas dificuldades, ainda floreia em seus rostos.

É dizer que não queremos mais as lentes sempre embaçadas do outro, que, lá de cima, imagina tudo que vê, mas tem medo de molhar os pés no chão da periferia. A grande mídia não sabe um terço sobre nós. E a exposição vai a fundo nas vivências dessas mulheres, humanizando o discurso e mostrando como somos diversas.

Serviço

Exposição QUEM SOMOS [POR NÓS]
Visitação:
 de 21/11 a 17/12, de terça a sábado, das 10h às 20h; domingos e feriados, das 10h às 18h.
Local: CCJ – Centro Cultural da Juventude
Endereço: Avenida Deputado Emílio Carlos, 3641 – Vila Nova Cachoeirinha, São Paulo – SP, 02720-20
Informações: [email protected]

Sobre o coletivo

O coletivo Nós, mulheres da periferia é formado por oito jornalistas e uma designer, todas moradoras de bairros da periferia do município de São Paulo e por meio de um site e redes sociais produz e divulga conteúdo sobre e para as mulheres da periferia de São Paulo. O coletivo propõe reduzir o espaço vazio existente na imprensa e a falta de representatividade, buscando mais protagonismo e visibilidade. A proposta do coletivo é construir um espaço com informações que extrapolem a questão de gênero a atinja o campo social e étnico.

Saiba mais em http://nosmulheresdaperiferia.com.br
Facebook: https://www.facebook.com/nosmulheresdaperiferia

 

*TEXTO COLETIVO: Jéssica Moreira, 24, é de Perus, zona noroeste; Semayat Oliveira, 27, é da Cidade Ademar, zona sul; Cíntia Gomes, 32, é do Jardim Ângela, zona sul; Bianca Pedrina, 31 é de Carapicuíba (Grande SP); Mayara Penina, 24, é de Paraisópolis, zona sul; Priscila Gomes, 32, é da Vila Zilda, zona norte; Regiany Silva, 26, Cidade Tiradentes, zona leste; Lívia Lima, 28, é de Artur Alvim, zona leste; Aline Kátia Melo, 32 é da Jova Rural, zona norte.

 


 

 

Publicidade colaborativa

Presenteie camisetas da Uneafro-Brasil

A Uneafro-Brasil está com novos modelos de camisetas engajadas e temáticas de valorização da cultura negra brasileira. Conheça e faça seu pedido. Com isso, além de adquirir um produto de qualidade, beleza e com uma mensagem de consciência negra, de quebra contribui para o auto-financiamento do trabalho sócio-educacional promovido pela Uneafro nas periferias de São Paulo e do Brasil.

Valor único para todas as peças, R$ 30,00 + frete.
Tamanhos (P, M, G ou GG), medidas e quantidades devem ser informadas no campo de descrição do produto.

Conheça esses e outros modelos e faça seu pedido AQUI

 

1185010_161445260720070_1710572108_n943354_161445417386721_1327929719_n 541394_161445327386730_92739506_n  150696_161445367386726_1458581424_n1230010_161445250720071_94091394_n8312_161445217386741_536225636_n1229958_161445210720075_2009434214_n      994828_161445347386728_151713548_n

 

Categorias
Mulheres

“Mulher nasce baranga francesa que não toma banho, não usa sutiã e não se depila”, diz Promotor de Justiça

jorgemarum_site

Do site da Smetal

Em Sorocaba-SP, Promotor de Justiça Jorge Marum posta insultos contra mulheres em rede social

Citação de Simone de Beauvoir no Enem provoca a ira de promotor de justiça do Ministério Público Jorge Marum, que desqualifica a luta pelos direitos da mulher

Uma das questões da prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), realizada no último domingo, 25, fez referência à pensadora francesa Simone Beauvoir, que tem várias publicações tanto no campo da filosofia como na literatura.

A frase citada, da obra “O Segundo Sexo”, de 1949, dizia:

“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino”.

A questão repercutiu nas redes sociais principalmente com ataques conservadores, de pessoas comuns e públicas como dos deputados Jair Bolsonaro (PP) e Marco Feliciano (PSC), que acusaram o Enem de estar fazendo doutrinação dos estudantes.

Em Sorocaba, o promotor de justiça Jorge Marum postou em sua página no Facebook, no mesmo dia da prova, 25, às 17h19, a seguinte declaração:

“Exame Nacional-Socialista da Doutrinação Sub-Marxista. Aprendam jovens: mulher não nasce mulher, nasce uma baranga francesa que não toma banho, não usa sutiã e não se depila. Só depois é pervertida pelo capitalismo opressor e se torna mulher que toma banho, usa sutiã e se depila”.

Para Laryssa Sampaio, da coordenação nacional do Levante Popular da Juventude, “o Enem é um dos mecanismos mais avançados da educação e neste ano, trouxe pensadores progressistas que questionam o atual modelo econômico e social. Para nós, do movimento popular isso representa um avanço significativo porque gera bons questionamentos. O ruim é um promotor de justiça que opera a lei, que precisa legislar independente de raça e de gênero se posicionar desse jeito, colocando a mulher como um sujeito inferior na sociedade. Essa declaração mostra que precisamos mudar a forma de fazer política e também o pensamento do judiciário. Por essa conduta, a interpretação que ele tem da lei é a de inferiorizar a mulher”.

A par da declaração do promotor a secretária das Mulheres da CUT Nacional, Juneia Batista, afirma que é preciso se pensar em uma estratégia para denunciar esse tipo de atentado aos direitos humanos e que comportamentos como esse são frutos de uma onda conservadora de opressão.

Representante da Marcha Mundial das Mulheres (MMM) Thais Lapa, ressalta a importância da diversidade de referências de pensamentos na formação do estudante. “Conhecer obras de pensadores e pensadoras que envolvam questões de economia, política ou história mundial é fundamental para qualquer formação. Por isso, vejo que o depoimento do promotor vai em sentido oposto à perspectiva de educação. É fruto de ignorância ao desqualificar uma pensadora como Simone Beauvoir”.

Ela destaca ainda a preocupação da função pública exercida pelo promotor que tem um papel importante a cumprir na sociedade, mas propaga valores que reforçam opressões.

A 24ª subseção da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB Sorocaba) também se manifestou contra a declaração do promotor Marum, que também é professor de Direito da Faculdade de Direito (FADI). Por meio da Comissão da Mulher Advogada a OAB manifesta “repúdio ao posicionamento público jocoso emanado do DD Promotor de Justiça e Professor Dr. Jorge Alberto de Oliveira Marum em postagem na rede social, desrespeitando a dignidade das mulheres a pretexto de criticar questão veiculada no ENEM”. “Posicionamento este que fere, silencia e deslegitima uma luta, que por séculos vem reivindicando e conquistando os direitos humanos das mulheres e meninas, ponto acordado não só na Constituição Federal, mas por tratados internacionais”.

Em conversa com o jornalista Deda Benette, da Rádio Ipanema, o promotor se defendeu justificando que seu depoimento foi uma ironia.